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A Arte de Curar a Nós Mesmos1

Ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh
Retiro em Upperr Hamlet
13 de julho, 1996

Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu
Revisado por Brendan Sillifant
Traduzido ao Português por Claudio Miklos


Bom dia Queridos Amigos,

Hoje é o 13 de julho, 1996 e nós estamos no Upper Hamlet. Hoje também é dia da lua cheia. Hoje à noite eu espero que a lua cheia surja para todos nós. Se o céu ficar claro, ficarei feliz em convidar a todos para sentarem-se comigo na varanda de minha cabana sob a lua.

Nós temos falado às crianças sobre o século XXI. Queremos nos preparar para estarmos prontos para o século XXI. Nós temos falado sobre como fazer nossa casa confortável para o século XXI. Falamos sobre um quarto no qual podemos praticar a paz, a reconciliação com nós mesmos, onde podemos nos restabelecer, onde podemos tomar refúgio. Falamos sobre como cuidar de um parque local pertencente a um bairro de vinte ou trinta casas. Nós discutimos como transformar aquele parque em um centro de paz e alegria para crianças e adultos.

Eu gostaria de continuar, porque é nosso dever praticar o esforço profundo de fazer a vida mais agradável para nós mesmos e para aqueles que amamos. Eu quero falar sobre um dia de consciência - um dia para cada família e, de vez em quando, para muitas famílias ao mesmo tempo.

Em Plum Village temos feito coisas que são muito excitantes. Estamos preparando o livro de cânticos durante o século XXI. Nós o estamos quase terminando. Vamos imprimi-lo apenas dois anos antes do século XXI. Também preparamos um livro de prática para os jovens noviços do século XXI. Nós temos muito a preparar e o fazemos com muita alegria. Assim este assunto de dar atenção ao século XXI deve ser o trabalho de todos porque só temos quatro anos antes dos começo do novo século. E nós decidimos escalar a montanha do século XXI juntos e em paz, com muita felicidade.

[Sino]

Uma das coisas que falamos relativamente à preparação para o novo século é como lidar com nosso lixo. Porque durante este vigésimo século produzimos muito lixo, muito sofrimento. Nós criamos muitas guerras, muito sofrimento foi criado, muita discriminação, muitas mortes. Se nós não sabemos cuidar deste lixo, o século XXI não será agradável. E temos apenas quatro anos para cuidar de nosso lixo. Como juntá-lo, como transformá-lo em adubo, de forma que as flores do século XXI tenham uma chance de florescer? Este é um trabalho grande e temos que fazer isto juntos. Nós temos de nos juntar e praticar a observação profunda do como dispor do lixo que produzimos. Uma pessoa só não pode fazer muito.

[Sino]

Pessoalmente, eu quero que o século XXI seja chamado o século do amor. Porque precisamos de amor desesperadamente. O tipo de amor que não produz sofrimento.

Há um Buddha que é deve nascer de nós. O nome dele é Maitreya. Maitri quer dizer amor. Assim, Maitreya quer dizer "Sr. Amor". Para preparar a vinda deste Buddha, precisamos de tempo. Nós precisamos coordenar nossos esforços. Vários vezes eu disse que o novo Buddha pode não surgir na forma de uma pessoa. O novo Buddha pode tomar a forma de um Sangha. O Sangha quer dizer comunidade, comunidade de prática. Naturalmente eu e todos os meus amigos estão trabalhando duro para que o Buddha surja na forma de uma comunidade, Buddha como um Sangha.

O primeiro elemento do amor é maitri, a vontade de levar a felicidade para a pessoa que amamos, as pessoas que amamos, e então para nós mesmos. Porque sabemos que se a outra pessoa está contente então nós também estaremos contentes. O Buddha disse quando você desperta de manhã faça a si esta pergunta, "O que posso fazer hoje para tornar meu Sangha feliz?" Isto é uma boa prática. O que posso fazer hoje para fazê-lo feliz? O que posso fazer hoje para fazê-la feliz? O que posso fazer hoje para fazê-los todos felizes? Fazer meu Sangha feliz? Esta é a primeira pergunta que temos de fazer de manhã.

Eu gostaria de dizer algo sobre esta questão. Porque eu penso que fazer algo pode trazer felicidade, mas não fazer algo é também igualmente importante. Se você pode se abster de fazer algo, pode fazer muitas pessoas felizes. Assim a pergunta poderia ser posta assim, "O que posso evitar fazer hoje para tornar meu Sangha mais feliz?" Porque em nossa vida diária podemos fazer coisas que trazem sofrimento aos nossos amados. Então não fazer isto é suficiente para fazê-los felizes. O que posso fazer hoje para tornar o Sangha feliz? Do que posso me abster de fazer hoje para tornar meu Sangha feliz? Estas são boas questões. Você tem a vontade de amar e fazer as pessoas felizes. Você sabe que estará contente se as outras pessoas estão contentes. Ninguém realmente questiona sua boa vontade - você quer amar, você quer fazer as pessoas felizes. Assim, você quer não só fazer disto um desejo mas uma realidade. Portanto tente fazer algo, ou tente não fazer algo, para que felicidade seja possível.

O dia de consciência que nós organizamos toda semana em nossa família pode ser uma boa oportunidade para aprendermos a fazer isto. Um dia de consciência é como uma sala de respiração em nossa casa. É algo que uma família civilizada deveria praticar. Antigamente, certas pessoas não trabalhavam no Domingo - eu espero que elas ainda pratiquem isso. Domingo não é um dia para você trabalhar. Em Plum Village nós chamamos Domingo "Dia do Ócio". Ficar em ócio não é fácil. Você tem que aprender a fazer isto. Em dias ociosos eu faço para as pessoas esta pergunta: "Querido amigo, você está ocioso o suficiente?" praticar um dia de ócio não é fácil, então nós temos que apoiar um ao outro fazendo daquela dia um dia realmente ocioso. Porque temos a tendência de trabalhar duro, estarmos ocupados. Um dia de consciência, ou talvez meio dia de consciência, é o que nós temos que fazer para aumentar a felicidade em nossa família, em nossa sociedade.

A questão é como organizar aquele meio-dia ou dia de consciência de forma que todo o mundo possa desfrutar disto. Não deveria ser nenhuma prática árdua. Porque eu realmente não gosto da palavra prática "dura" ou prática "intensiva" - eu não sei o que significa "prática intensiva de meditação". Quando eu bebo um copo de água com consciência, pratico a consciência de beber, e consigo muita alegria e paz durante o tempo de beber aquele copo de água. Mas eu posso beber meu copo de água intensivamente? Não. Isto não significa nada para mim. Para beber água você apenas a bebe com consciência. Quanto mais você está atento, mais o ato de beber se torna um prazer. O problema é se bebemos em consciência ou não. O problema não é se bebemos "intensivamente" ou "não intensivamente". A mesma coisa é verdade com a meditação andante. Se você caminha com consciência, seus passos trarão muita alegria e paz para você. Se você não faz assim, então não há nenhuma alegria e paz. Não é uma questão de ser intensivo ou não intensivo.

Assim precisamos da inteligência de todos na família para fazer do dia de consciência um dia muito agradável. E um dia de consciência, de acordo comigo, é um dia quando praticamos o que podemos fazer para a felicidade de nossos entes queridos. É muito crucial que todo o mundo na família, todo o mundo na comunidade, pratiquem juntos; caso contrário será muito difícil. Imagine uma família de cinco pessoas. Só uma pessoa deseja praticar a consciência. É possível, mas é extremamente difícil. Assim, se você está em uma família onde todo o mundo concorda na prática de um dia de consciência, você é uma pessoa muito afortunada. E você tem que usar toda sua inteligência. Você tem que falar para seu pai, sua mãe, seus irmãos e suas irmãs, como gostaria de organizar um dia de consciência. Eu repito, um dia de consciência por semana é algo muito civilizado. Porque nós sabemos que sem paz, sem calma, a felicidade não será possível.

Um dia de consciência é um tempo quando praticamos e desfrutamos a paz. Desfrutamos a calma. Desfrutamos a comunicação. Não é porque você pode falar muito que pode se comunicar. É porque está calmo, tranqüilo - tem a capacidade para escutar profundamente a outra pessoa - que você pode se comunicar. Então, no dia de consciência você não fala muito. Você pratica o escutar profundamente com sua calma, com sua paz e todos são iguais. Isso não significa que a alegria será menor. Em um dia de consciência, até mesmo quando as pessoas não falam muito uma com a outra, elas se comunicam mais entre si por muitos modos. Pode ser um dia muito alegre e feliz. Eu penso que vocês todos vão concordar comigo que o dia de ócio por semana aqui é um dia muito agradável. Embora nós pratiquemos silêncio, este silêncio é muito útil. Ajuda a comunicação. Não é opressivo.O que posso fazer para tornar as pessoas que amo felizes? Essa é nossa prática do dia de consciência. Para mim, para fazer outra pessoa feliz vocês tem que praticar "estar ali". Praticar o estar ali - essa é a essência da meditação budista. Mas talvez durante a semana vocês não estejam lá com as pessoas que amam. Vocês sempre estão ausentes, até mesmo se estão comendo com elas ou estão assistindo televisão com elas. Vocês realmente não estão ali com elas. Vocês não fazem suas presenças verdadeiras e disponíveis às pessoas que amam. Para mim amar significa estar ali para a pessoa que amamos. É muito simples, mas é uma prática muito profunda. Na meditação budista aprendemos a respirar, como caminhar, como sorrir de forma que estejamos completamente ali, com nossa verdadeira presença, porque esta é a coisa mais preciosa que podemos dar às pessoas que amamos. Quando você vai para sua mãe e se senta quietamente perto dela, a olha e diz, "Mamãe, eu estou realmente aqui para você," você está praticando meditação, porque verdadeiramente estará lá com a pessoa que você ama.

[Sino]

O dia de consciência deve ser então um dia onde os membros de uma mesma família têm que realmente estar ali um para o outro. Esse é o princípio. Como fazer isto? Eu confio em vocês para me dizer. Assim, precisamos nos sentar juntos e descobrir. As companhias de televisão que fazem publicidade de seus produtos dizem, "Nós unimos as pessoas". Elas querem dizer que coisas como fitas de vídeo e programas de televisão reúnem as pessoas. Eu não acredito muito nisto porque, da forma como eu vejo, as pessoas que passam o dia afastadas uma da outra e chegam em casa muito cansadas não têm tempo para estar juntas. Elas ligam a televisão e simplesmente se perdem nela. Assim, a televisão não une as pessoas.

O que pode reunir as pessoas então? Eu penso que um dia de consciência. Elas praticam estar ali umas para as outras. Isto é muito importante. É um tipo de resposta para o sofrimento de nosso tempo - praticar o estar presente para nós mesmos e para as pessoas que nós amamos; é muito importante. Em um centro de meditação como Plum Village deveríamos aprender métodos de produzir nossa verdadeira presença para nós mesmos e para as pessoas que amamos. Praticar a respiração atenta. Praticar o sentar-se quieto, sorrindo. Praticar a meditação andante. Praticar beber um copo de água em consciência. Praticar comer o almoço em consciência. Todas estas coisas são para produzir sua verdadeira presença. É muito importante. Porque isso é a essência do amor, estar lá, disponível, para as pessoas que você ama.

O que posso fazer para os fazer felizes? Nós estamos falando sobre o que podemos fazer. Mas não falamos sobre como podemos ser. Fazer é talvez menos importante do que ser. Estar ali, refrescado, tranqüilo e amoroso. Eu penso que essa é a fundação do amor. O que vocês podem fazer é até mesmo de importância secundária. Então, estar ali - tranqüilo, amoroso, refrescado, é uma prática muito importante. Se a meditação não lhe pode ajudar a estar ali, estar tranqüilo, estar refrescado para quem você ama, não pratiquem meditação. Não vai adiantar. Assim, pratiquem meditação de tal forma que vocês possam estar lá realmente, com um pouco de calma, um pouco de paz, um pouco de frescura, e vocês saberão que sua prática de meditação é boa meditação, boa prática. Esse é o inteiro processo de aprendizagem. Se vocês tiveram sucesso até certo ponto, falem para seus irmãos e irmãs como fizeram meditação - que ficaram mais tranqüilos, mais aliviados de seus sofrimentos, mais presentes para seus entes queridos. Penso que meu discurso deve ser enfocado nestes métodos práticos.

Eu confio que vocês sabem como compartilhar o café da manhã juntos em consciência, em alegria. Sei que há pessoas que, de manhã antes de começar a trabalhar, comem o café da manhã como todo o mundo. Mas, elas não praticam o estar ali para as pessoas que também estarão fora durante o dia. A quem elas não verão durante muitas horas, talvez oito ou dez horas. Em vez de beber o seu chá ou café conscientemente e sorrir àquela pessoa que se senta na mesa, elas seguram um jornal e se escondem atrás do pedaço de papel. Não é muito sábio. Não é muito agradável. Assim, em um dia de consciência não faremos tais coisas. Nós não ligaremos a televisão. Nós desligaremos tudo, exceto uma coisa: a nossa presença.

Nós "ligaremos" nossa presença, e logo de manhã, quando despertamos, pensaremos: "O que posso fazer para tornar outros felizes? O que deveria evitar fazer para tornar outros felizes?" Por favor respondam a estas perguntas com cuidado, então vocês saberão organizar um belo dia de consciência. Tomar café da manhã juntos, isso é uma arte. Como preparar seu café da manhã e como se sentar e desfrutar juntos o café da manhã, eu preciso de muitas sessões de debates sobre o Dharma para descobrir como fazer isto. Nós ganharíamos muito com suas práticas coletivas em olhar profundamente, seu conhecimento, sua experiência sobre como organizar um café da manhã onde a alegria, paz e amor possam ser possíveis. Nos ofereçam uma palestra de Dharma, nos ofereçam um relatório, nos ofereçam um debate de Dharma que nos ajudem a aprender a fazer isto. Alguns de nós preparam nosso café da manhã enquanto praticam o inspirar e expirar, sorrindo para o pão, o leite, o muesli, e assim por diante, e que estão cheios de amor no coração. "Eu estou fazendo este café da manhã para meu Sangha. Eu estou nutrindo meu Sangha porque meu Sangha é meu corpo, o corpo de Sangha". Até mesmo se outros irmãos e irmãs não contribuem no preparar o café da manhã, eu não fico irritado porque estou preparando o café da manhã com carinho. Assim não há nenhum ciúme, não há nenhum rancor em meu coração. Durante o tempo em que eu preparo meu café da manhã, sou nutrido com carinho. Meu Sangha sou eu, meu Sangha é meu corpo, então preparo meu café da manhã com alegria.

Vocês podem gostar de se preparar antes. Amanhã será o dia de consciência. Hoje vocês poderiam gostar de fazer algumas preparações de forma que amanhã seja maravilhoso. Talvez algumas flores para amanhã, talvez uma toalha de mesa especial, talvez um pão especial para amanhã. Vocês ficam motivados pela idéia, pelo desejo, ficam contentes e fazem seus entes queridos felizes. Comer o café da manhã de tal forma que a felicidade e o amor possam estar presentes. Então vocês serão capazes de desfrutar da meditação andante em um parque ou no pátio da frente. Todos na família deveriam saber caminhar para gerar a paz, a alegria e a união caminhando [assim]. Vocês não precisam caminhar excessivamente, vocês caminham o tempo que desejarem. E cada passo assim pode trazer a todos muita alegria, paz e felicidade.

Se vocês desejam convidar uma criança de outra família ou um amigo para se unirem ao seu dia de consciência, por favor façam. Pois vocês estão motivados pelo desejo de fazer esta pessoa feliz em seu dia de consciência. Muitos, muitos anos penso atrás - penso que aproximadamente há vinte e cinco ou trinta anos atrás - eu escrevi um pequeno livro onde propus um dia de consciência todas as semanas. Um dia quando nós realmente temos a oportunidade de praticar a atenção, consciência, amor, e cuidar de nós mesmos e das pessoas que amamos. Eu penso que no século XXI, manter um dia de consciência toda semana é uma coisa muito civilizada de se fazer. Não só para os budistas, mas para todos. Pode-se não chamar isto de "um dia de consciência", mas deve ser da mesma essência: cultivar a paz, cultivar a união, cultivar o momento presente. É muito importante para nossa felicidade.

Antes que as crianças saiam e vão brincar, eu gostaria de lhes lembrar da prática de visitar o Buddha, que eu propus às crianças na Holanda - elas amaram! E se os adultos desejarem praticar, também será bom. Visitando o Buddha. O Buddha está dentro de vocês, o real Buddha. O Buddha que vocês vêem no jardim é um Buddha, mas feito com gesso, não é um Buddha real. Quando vocês se curvam àquele Buddha, se curvarem-se corretamente, vocês tocarão o Buddha interno. Um Buddha real não é feito de cobre ou ouro ou gesso - um Buddha real é feito com consciência. Consciência leva ao entendimento, à paz, e ao amor. Assim, curvem-se ao Buddha de tal modo que vocês toquem o Buddha interno, e saibam que o Buddha não é algo abstrato, é a sua consciência.

Vocês experimentaram o estar atento às vezes. Vocês são capazes de beber um copo de leite atentamente. Um dia eu estava bebendo meu leite, muito lentamente e com atenção. Eu percebi a vaca como minha mãe adotiva. Me sinto muito feliz por ter a chance de não comer a minha mãe. Eu sou vegetariano, e eu me sinto muito afortunado por não ser forçado a comer a carne de minha mãe adotiva. Toda vez que me dirijo do Upper Hamlet para o Lower Hamlet e olho a grama, eu vejo o leite dentro dela, porque uma mãe vaca eventualmente a comerá e esta grama se tornará leite. Assim quando eu olho o leite vejo a grama e quando eu olho a grama eu vejo leite, vejo a água, vejo o céu, vejo o raio de sol, e pratico desta forma todo dia. Eu posso ver a natureza do ser integrado em tudo, em todo o mundo.

Isto é extremamente bom porque me revela um mundo maravilhoso de interconexão. Tentar olhar as coisas deste modo reduzirá todo meu medo, preconceito e raiva. É muito importante, porque no Budismo nós falamos sobre a liberação do sofrimento através do entendimento. As crianças experimentam a capacidade de ser compassivas, ser amorosas, estarem tranqüilas às vezes - portanto o Buddha é real, no íntimo. Não há nenhuma dúvida. Quando eu faço uma flor de lótus e me curvo para uma criança, digo: " Um lótus para você, minha querida, você que será um Buddha um dia." Se você quer ser um Buddha, pode ser um Buddha. Um Buddha é alguém feito de consciência. Vocês sabem beber um copo de leite atentamente. Vocês sabem como caminhar atentamente ou respirar atentamente. Durante o tempo em que vocês fazem isso, tocam o Buddha em vocês, a natureza de Buddha em vocês.

Assim é muito agradável visitar o Buddha interno de vez em quando. Vocês podem gostar de se sentar quietamente, inspirar e expirar durante alguns minutos se acalmar, e então perguntar, "Pequeno Buddha, meu pequeno Buddha, está aí?" Perguntem profundamente, façam a pergunta profunda e quietamente, "Meu pequeno Buddha, você está aí?" No princípio vocês podem não ouvir a resposta. Sempre há uma resposta, mas por não estarem calmos o bastante, vocês não ouvem a resposta. "Há alguém aí? Pequeno Buddha, você está aí?" Então em um segundo momento vocês começam a ouvir a voz de seu pequeno Buddha lhes respondendo, "Sim, meu querido, claro que eu sempre estou presente para você". Quando vocês ouvirem isso, sorrirão, "Eu sei. Pequeno Buddha, você é minha calma. Sei que sempre está aí e eu preciso de você, para ficar tranqüilo de vez em quando. Às vezes eu não estou bastante calmo. Eu grito, eu ajo como se não tivesse o Buddha em mim. Mas como sei que você está aí, sei que tenho a capacidade de ser tranqüilo. Lhe agradeço pequeno Buddha, você é minha paz. Eu preciso que você esteja presente." E o pequeno Buddha diz, "Claro que eu estarei presente para você todo o tempo. Apenas venha e me visite a qualquer hora que precisar." Essa é a prática de tocar o Buddha interno. É uma prática muito importante. Não só para crianças, mas para todos nós.

Eu amo me sentar perto de crianças por causa de seu frescor. Toda vez que seguro a mão de uma criança e pratico a meditação andante, usufruo de seu frescor. Eu deveria lhes oferecer minha estabilidade, mas eu sempre usufruo de seu frescor. Segurando a mão de uma criança em consciência, lhes oferecendo um pouco de estabilidade, e recebendo muito frescor - isto é o que amo fazer. Você diz, "Querido pequeno Buddha, você é meu frescor. Obrigado por estar aí." Vocês tem confiança porque puderam se manter frescos, muitas vezes. Se você toca o Buddha, a frescura em você continua crescendo. Os adultos, eles também praticam assim. "Querido pequeno Buddha, você é minha ternura." Ternura é tudo que nós precisamos e as crianças provam ser ternas, muitas vezes.

"Querido pequeno Buddha, você é minha consciência," isto é uma verdade. Porque um Buddha é alguém feito de uma energia chamada consciência. Estar atento significa estar consciente do que está acontecendo, e isto só é possível quando vocês realmente estão presentes. Se vocês realmente estão presentes cem por cento, estarão atentos ao que está acontecendo. Esta é uma prática muito essencial.

"Querido Buddha, você é minha compreensão." É verdade, Buddha é o poder da compreensão. Porque se vocês estão presentes, estão muito alertas. Você compreende tudo o que está acontecendo, eis porque entende as coisas e pessoas muito facilmente. Assim, "Pequeno Buddha, você é minha compreensão. Eu preciso muito de você porque sei que a compreensão é a base do amor." Se vocês não entendem alguém, não podem amá-lo. Eis porque o entender é tão crucial.

"Querido pequeno Buddha, você é meu amor. Você é a capacidade de amar." Crianças, é claro, têm a capacidade de amar. Se elas tocam aquela capacidade diariamente, o seu amor crescerá, sua capacidade de amar crescerá, e estarão na senda da plena realização do Buddha interior.

Assim vocês praticam o sentar-se lá e tocam estas qualidades do Buddha interior. Vocês tocam o Buddha real, não o Buddha de gesso, cobre ou mesmo de esmeralda. Para o praticante, Buddha não é um deus. Buddha não é alguém no céu, em uma montanha. Buddha está vivo, é um Buddha vivo este que está em nós. Me falem de uma pessoa que não possui a natureza de Buddha dentro dele ou dela. Não [é possível]. No Budismo Mahayana, a mensagem mais importante de todos os sutras é que todos os seres tem a capacidade de ser um Buddha. A capacidade de amor, compreensão, e ser iluminado. Isso é a mensagem mais importante de todos os sutras.

Portanto, esta é uma prática muito profunda. Vocês podem usar apenas uns três ou quatro minutos nesta prática. Vocês podem gostar de colocar seus dedos nos seus corações e praticar a visita do Buddha interior. O Buddha está em seu coração, e também em todos lugares de seu corpo, não apenas no coração. Em seu estômago, também. Às vezes vocês sentem que o medo está em seus estômagos, mas deveriam saber que o Buddha está ao mesmo tempo em seus estômagos. A escolha é de vocês.

Depois de alguns minutos de prática assim, pratiquem a sós, ou junto com alguns amigos. Vocês dizem, "Querido Buddha, é muito confortável saber que você está aí". O Buddha sempre dirá, "Claro que eu sempre estou aqui para você. Mas por favor visite-me mais freqüentemente!". Porque toda vez que vocês visitam o Buddha, o Buddha em vocês lucra. O Buddha em vocês terá mais espaço e mais ar para respirar. Porque durante o dia vocês podem ter sofrido muito, e mergulham na raiva, ódio, frustração, sofrimentos. Desta forma privam o Buddha de ar fresco para respirar. Assim seu pequeno Buddha interno pode estar sufocando um pouco. Mas toda vez quem praticam o tocar o Buddha, vocês abrem muito espaço, e ar. O Buddha dentro de vocês então tem uma chance de crescer. É muito importante. Se meditação sentada, serve para quê? Meditação andante, serve para quê? Para dar ao Buddha interno uma chance de crescer.

"Querido pequeno Buddha, preciso muito de você, " e o pequeno Buddha em vocês dirá, "Querido, eu também preciso muito de você. Por favor venha e visite-me mais freqüentemente". Esta prática é chamada memória do Buddha e é ensinada em toda escola de Budismo. Você toca o Buddha, toca todas as qualidades do Buddha, e sabe que o Buddha é absolutamente real - não como uma idéia, não como uma noção, mas como uma realidade. Nossa tarefa, nossa vida, nossa prática, é nutrir o Buddha e dar a nós mesmos e às pessoas que amamos uma chance.

Por favor escrevam sobre a prática um resumo com frases completas para fazê-la disponível para outras crianças que não se sentaram hoje neste salão de Dharma, de forma que elas também possam praticar com vocês. As crianças devem se levantar e fazer reverência.

[Sino - As crianças deixam o salão de Dharma].

No décimo sexto dia deste mês abri nosso retiro de verão com uma palestra de Dharma onde disse que é muito importante permitir que nosso corpo e nossas mentes descansem. Nosso corpo pode carregar muitas dores internas, e nossa consciência também pode possuir muitas feridas internas. Eles precisam de cura. A condição básica para toda a cura é poder descansar, mas nós não temos a capacidade de descansar. Temos o hábito de correr, de fazer coisas. Eis por que meditar é em primeiro lugar aprender a descansar, dar para a seu corpo e sua mente uma chance de descansar e se curar. Parece ser uma coisa muito simples, mas nós precisamos treinar para poder fazer isso.

Eu disse que quando um animal que vive na floresta está ferido, sempre tenta procurar um lugar quieto para ficar durante muitos dias e permitir à ferida se curar. Durante estes dias o animal não pensa em comer ou qualquer outra coisa. Esta é a prática de todos os animais na floresta quando são feridos por outro animal ou por outros tipos de coisas, inclusive doença. Esta sabedoria nós temos que aprender. Há feridas dentro de nosso corpo. Nós podemos ter doenças, podemos ter câncer ou outras dificuldades que pensamos ser até mesmo incuráveis. Nós podemos ter muito sofrimento em nossa consciência. Nós podemos ter desespero, mêdo, e confusão, mas sabemos que nosso corpo tem a capacidade de cura se permitimos uma chance de descansar. Isto não só é verdade para nosso corpo mas também para nossa alma.

Nossa consciência sabe e tem a capacidade de curar a si mesma - mas apenas se dermos uma chance a ela, isso é, permitimos que ela descanse, autorizamos o seu descanso. Quando cortamos nosso dedo não temos nenhum medo, sabemos que nosso corpo pode se curar. Assim apenas limpamos a ferida, a protegemos de sujeiras, e a batalha acontece dentro de nós; em apenas vinte e quatro horas podemos curar o ferimento. Nosso corpo sabe criar anticorpos para se proteger. Temos que acreditar em nosso corpo. Temos que dar uma chance ao nosso corpo para descansar. Muitas doenças difíceis só podem ser curadas por nossa capacidade de descansar. Temos que aprender isto. Na prática do Budismo há muitas coisas como esta para aprender. O sutra da respiração atenta, por exemplo, é mais que suficiente para vocês se curarem. Se vocês sabem praticar os exercícios preconizados pelo Buddha, sabem como fazê-los, gostam de fazê-los, darão a seus corpos e também à sua consciência uma chance de cura.

Vocês tiveram uma experiência de extremo sofrimento - algo aconteceu e vocês não acreditaram que pudessem sobreviver a isso. Como poderiam sobreviver a tais notícias ruins, e à dor? E ainda assim, vocês sobreviveram. Passaram por aquele período e demonstraram poder sobreviver àquele tipo de sofrimento. Isto significa que sua consciência sabe o modo de sobreviver. Você diz, "O Tempo cura". Mas tempo não pode curar seu sofrimento sozinho. Não é porque vocês ficam familiarizados com o sofrimento que estão curados. Não. É devido ao fato de que sua consciência sabe o modo de se curar. Vocês tem que confiar nisto porque em sua consciência existe o Buddha, há um centro de amor, de compreensão. Se vocês lhes permitem se manifestar, então sua consciência poderá se curar.

Falando a um terapeuta, falando a um mestre, falando aos irmãos e irmãs de Dharma, permitam que estas energias saudáveis sejam tocadas, lhes dêem uma chance de ficar mais aparentes. Elas se encarregarão da cura. Às vezes nós falamos sobre uma "cura pela conversa", mas as conversas não podem curar. O ato de falar - o máximo que pode fazer - é permitir que vocês tenham confiança em sua própria habilidade de se curar. Assim é muito importante que durante aquele tempo que gastamos com um Sangha, um professor de Dharma, temos que aprender as técnicas que permitem descansar nosso corpo e nossa alma. O coração da prática budista é parar - deixar de correr, deixar de impedir que nosso corpo e nossa alma descansem.

Muitas pessoas acreditam que precisam de férias. Elas lutam, elas fazem tudo para ter estas férias. Mas durante estes feriados descansam realmente? Elas ficam muito mais cansadas depois dos feriados. Assim todo o mundo tem que aprender a arte de descansar, de se restabelecer. Seus professores de Dharma, seus irmãos e irmãs de Dharma, sabem como praticar o descanso e a cura. Quando vocês praticam o jejum por exemplo, permitem a seu estômago, intestinos, fígado, rins, descansarem. Vocês não tem medo de jejum, porque sabem que há um reservatório, uma reserva, de nutrição em seus corpos. Vocês pode ficar em jejum por duas ou três semanas sem comer e serão capazes de não perder sua força. Aqueles entre nós que tentaram a prática de limpeza de nosso sistema digestivo, sabemos disso. Nós apenas bebemos água. Nós apenas descansamos.

Nós continuamos desfrutando de nossa meditação sentada, meditação andante. Nós não sentimos que perdemos nenhuma energia de todo. Nossos intestinos, dando-se tempo para ele descansar durante dez dias ou duas semanas, pode se curar. Nós temos que acreditar em tais coisas porque praticamos assim e outras pessoas praticaram assim - isto prova ser uma verdade. A Cura apenas será possível nos dias de descanso. Agora o que dizer de nossa consciência, nossa mente? Que tipo de prática vocês deveriam fazer, ou que tipo de não-prática deveriam fazer para que sua alma e sua consciência possam descansar? Nós não deveríamos perder nosso tempo adquirindo idéias, mesmo idéias muito maravilhosas, sobre esclarecimento, Nirvana, natureza Búddhica, ou coisas como estas. Nós deveríamos atingir a coisa real, a essência da prática. Como começar? Com Samatha. Samatha é apenas parar. Vocês estão na frente de uma árvore nova. Vocês olham a árvore jovem. Vocês estão na frente da árvore de forma que possam parar. Vocês inspiram e expiram de forma que possam deixar de correr completamente em sua mente e em seu corpo.

Ano passado quando nós visitamos a China, vimos em um cruzamento o sinal "pare". E o ideograma chinês "pare" é exatamente o que os chineses usam para traduzir a palavra "Samatha". Um dia estive em frente a um sinal assim e pratiquei o respirar e sorrir para ele. E eu parei completamente. Era como ficar à frente do Buddha que fez o sinal para lhe dizer que pare. Você está respirando, você está parado lá, mas parou completamente. É uma coisa maravilhosa poder parar. Parando assim, a calma se torna possível. A Paz se torna possível e, é claro, curativa. Enquanto você correr - correndo a procurar por algo ou correndo para escapar de algo - isto continuará correndo. Você não pára, não tem nenhuma paz. Aprender a parar assim é extremamente importante. Porque parar, ficar tranqüilo, ficar calmo, é a pré-condição para a contemplação profunda, que é o Vipasyana. Vipasyana é prática do insight (discernimento), da contemplação, do olhar profundamente. Meditação é feita de parar, acalmar-se e olhar profundamente. Parar ajuda você a descansar, se acalmar, ter paz, prover a condição básica para a cura. Portanto olhar é algo que você pode fazer facilmente uma vez que pára. Olhando a natureza de sua enfermidade, olhando a natureza de sua dor, você começa a ter o discernimento, começa a entender. Aquela compreensão o alivia completamente da dor. Isso é chamado salvação pelo conhecimento. Nós não falamos sobre salvação por graça [milagre] no Budismo. Nós falamos sobre salvação pelo conhecimento, entendimento, prajña. Prajñaparamita quer dizer o tipo de compreensão que o leva para a outra margem, a outra margem do não-sofrimento.

[Sino]

Um dos insights mais profundos que vocês podem tentar obter é o insight no não-eu. Mas não-eu não é uma teoria, uma doutrina, uma filosofia. Não-eu é só o insight que tem de ser tocado diretamente com sua prática. Como praticantes nós não deveríamos falar sobre o não-eu de um modo que não tenha nada a ver com nossa vida diária. Eu recomendei que todos os amigos que vêm aqui a Plum Village durante este verão aprendam e pratiquem a técnica do Tocar a Terra. Tocando a Terra é uma das muitas práticas que fazemos em Plum Village para tocar a natureza de nosso não-eu. É muito curativa. Cura corpo e mente. Nós deveríamos praticá-la diariamente.

Vocês seguram suas mãos assim [palmas junto na frente do tórax] e ficam à frente de algo como uma árvore, ou o céu azul, ou um dente-de-leão, ou uma estátua do Buddha, se curvar - porque tudo tem o Buddha em seu interior, tem a última dimensão interna - para qualquer coisa é bom, para a lua, para a estrela matutina. Vocês produzem sua verdadeira presença, e estão lá com cem por cento de vocês. Então curvam-se e tocam a terra. Toquem a terra com seus pés, com seus braços, com suas frontes. Toquem profundamente, não façam isto pela metade. Porque este é um ato de rendição. Render-se o quê e render-se à quê? Este é o ato de fazer-se render o ego, a idéia de ego. Pois vocês pensam que são uma entidade separada, e esta é a causa básica de seus sofrimentos. Quando tocam a terra profundamente - a terra pode ser sua mãe, seu pai, seu chão do Ser, vocês mesmos - vocês se rendem da idéia de que são uma coisa separada. Vocês sorriem e abrem suas palmas. O ato de abria as palmas assim e olhar dentro de si, significa que eu não sou nada. Não há nada. Minha inteligência - nós somos muito orgulhosos de nossa inteligência. Nossos talentos. Nossos diplomas. Nossa posição na sociedade. Nós podemos ser orgulhosos de muitas coisas que temos ou que somos, mas quando estamos naquela posição sorrimos e sabemos, nós sabemos que todas estas coisas foram abandonadas por nossos antepassados.

Se você tem uma voz bonita, não pense que criou esta voz bonita por si mesmo. Foi transmitida por seus antepassados, seus pais. Se você tem o talento de um pintor, não pense que inventou aquele talento. Foi transmitido a você como uma semente. Assim tudo o que você pense que é veio do cosmo, de seus antepassados. Portanto durante o primeiro tocar a terra vocês se unem com o cosmo. A água em vocês, o calor em vocês, o ar em vocês, a terra em vocês, pertençam à água exterior, a terra exterior. Sem a floresta como vocês poderiam existir? Sem seus pais e mães como poderiam estar aí, neste momento? Então vocês dizem, em sabedoria, que não são nada. Tudo o que vocês pensam, imaginam que sejam, receberam do cosmo, de seus pais - inclusive seu corpo. De repente o não-eu surge como um insight. Vocês pertencem ao fluxo da vida. Se vocês nutrem algum ódio por seus pais, pensam que sua vida foi arruinada por seu pai e que não querem ter qualquer coisa a ver com ele. É muita ignorância pensar assim. Porque se você toca a realidade do não-eu, vê muito claramente que você é o seu pai. Você é exatamente uma continuação de seu pai, e seu pai é uma continuação de seu avô.

Nós somos unos no fluxo da vida. Pensar que você é uma entidade separada, que é um ego que pode ser independente de seu pai, é uma coisa muito engraçada. Porque o seu pai está dentro de vocês, vocês nunca podem se libertar dele. Não há nenhuma alternativa exceto se reconciliarem com seu pai. Reconciliarem-se com ele significa reconciliarem-se com si mesmos. Vocês tem uma chance para realizar isso agora na prática. A outra pessoa pode não ser seu pai, pode ser seu irmão ou seu cônjuge ou qualquer um. Vocês pensam que ele ou ela lhe fizeram sofrer tanto, tornaram miserável suas vidas. Há um anseio em vocês de nunca mais o ver novamente, ter notícias dele ou dela novamente. Este tipo de vontade, este tipo de sentimento nasce de sua ignorância da realidade do não-eu. Porque nós estamos todos unidos. Não só estamos unidos, nós estamos dentro um do outro, nós nos integramos. Assim durante o primeiro ato de Tocar a Terra vocês se rendem à idéia do ego, e de repente liberam muito sofrimento, muita raiva. Vocês dão uma chance para a compaixão e o entendimento nascerem em seus corações.

Quando vocês fazem uma reverência assim não estão invocando um deus para vir e salvá-los. Salvar seus egos. Mas realmente é uma prática de sabedoria. Vocês tocam a terra para libertarem-se, abandonar sua noção de ego e adquirir o "insight" de que pertencem ao mesmo fluxo de vida, realidade. De repente vocês vêem que é possível fazer a paz com aquela pessoa. Fazer a paz com ela significa fazer paz com vocês mesmos. Estranho, porque minha paz depende muito da paz dele ou dela. Se dedico tempo, energia, a lhe ajudar, lhe ajudar a sofrer menos, de repente eu tenho mais paz e mais felicidade. Eu não tenho a intenção de ajudar a mim mesmo, mas sou eu quem obtém todos os resultados.

Quando você vê um inseto pequeno em perigo, gasta meio minuto para salvar o inseto. Você pensa que está fazendo isto para benefício dele, a despeito de sua compaixão. Mas enquanto faz isto cultiva a compaixão dentro de si e a felicidade se torna sua. O que significa para ser compassivo? Para mim, ser compassivo significa poder se relacionar com outros seres vivos. Quando você puder se relacionar com outros seres vivos sua solidão, seu sentimento de separação, desaparecerá. Assim, a compaixão é para quem - para estes seres vivos ou para você? A resposta é, para ambos. Qualquer palavra, qualquer pensamento, qualquer ato, nascido daquele "insight" do não-eu, traz cura e reconciliação [para] dentro de você e ao seu redor. Há amigos que praticaram as Cinco Reverências e as Três Reverências e que informaram ser a prática muito efetiva, que esses que praticam apenas por uma hora adquirem um grande alívio, e continuam chorando e chorando durante a primeira hora de prática. Vocês já sabem quando praticam deste modo não estão invocando, chamando um deus para os ajudar, mas sim tocando a realidade. Vocês tocam a compreensão. Vocês tocam o prajña que pode libertá-los. Assim o [ato de] parar, descansar, é para a cura. Olhando profundamente, tocando o "insight" do não-eu também é para cura, para liberação. Esta é a essência da meditação budista.

Você está interessado em perceber a natureza de Buddha em si, seu sofrimento, sua iluminação? Mas, aquela natureza de Buddha, aquele sofrimento, aquela iluminação, elas têm qualquer coisa a ver com seu sofrimento, sua enfermidade? Eu não me interessaria pela natureza de Buddha, sua iluminação, seu despertar, se estes nada tivessem a ver com meu sofrimento, minha liberação. Eu só faço as práticas que podem me ajudar a descansar, para curar e liberar a mim mesmo.

Nossa prática deveria ser concreta, efetiva. Nós não deveríamos permitir uma prática seguir por muito tempo sem trazer qualquer alívio para nós, qualquer transformação. Isso não seria um modo inteligente de praticar. Quando o fazendeiro, depois de ter usado um certo tipo de sementes ou fertilizante, ou métodos de agricultura, não adquire os resultados que quer, ele deveria ser inteligente o bastante para saber mudar. Meditadores têm que fazer o mesmo. Tendo tentado um certo método durante algum tempo que eles não sentem qualquer mudança, qualquer transformação, deveriam inquirir novamente. Eles deveriam aprender novamente dos seus professores, seus irmãos no Dharma, as irmãs no Dharma para adquirir os métodos certos. De acordo com o Buddha, o Dharma é diretamente efetivo - se você obtêm o Dharma certo, como a respiração atenta. O momento quando vocês começam a inspirar atentamente adquirem o resultado de uma prática. Vocês obtêm a concentração. Vocês obtêm uma pausa. Qual a utilidade de se inspirar [assim] se não podem parar e descansar? Se vocês não se sentem mais concentrados, por que se incomodar? Sofrer por causa da prática de inspirar e expirar é tolice. Assim se estão inspirando e expirando, e se sentem concentrados, tranqüilos, relaxados e produzindo sua verdadeira presença, saberão que a prática está correta e vocês desfrutam os méritos da prática.

Meditação andante: Por que nós temos que caminhar lentamente assim? Por que vocês devem se conter reduzindo a velocidade desta forma? Não parece natural. No princípio, pessoas ao redor do centro de prática sempre dizem, " Eles não parecem morar no mundo real. Eles gostam de viver em um sonho, eles caminham tão lentamente." Essa é uma primeira impressão porque no mundo as pessoas sempre correm. Elas não sabem a arte de parar. Elas não sabem a arte de viver cada momento de suas vidas profundamente. Assim quando elas vêem uma monja ou monge, ou um pessoa leiga caminhando, contemplando, sorrindo assim, não sentem isto como normal. Elas sentem como [algo] anormal. Há uma aldeã em New Hamlet, e ela disse que ficou muito, muito surpresa e chocada quando viu uma monja que caminhava lentamente e que parou para olhar o lixo. Qual a utilidade se olhar o lixo daquela forma por tanto tempo? O que é normal e o que é anormal? Há pessoas que demonstraram que depois de algumas horas ou alguns dias em Plum Village, começaram a gostar da prática. Porque pela primeira vez elas souberam parar. Poder parar é uma coisa maravilhosa, porque estas pessoas podem ter estado correndo durante os últimos 3,000 anos...

[Sino]

Por favor, quando inspirar, não faça esforço para isso. Vocês apenas se permitem inspirar. Até mesmo se você não inspira, inspirará por si. Assim não diga, " Minha respiração, venha, de forma que eu possa lhe dizer como inspirar." Não tente forçar qualquer coisa, não tente intervir, apenas permita a respiração acontecer. O que vocês têm que fazer é estarem atentos ao fato de que a respiração está acontecendo. E terão mais chance de desfrutar sua inspiração. Não lutem com sua respiração, é o que eu recomendo. Percebam que sua inspiração é uma maravilha. Quando alguém está morto, não importa o que façamos, a pessoa não inspirará novamente. Assim nós estamos inspirando, e isso é uma coisa maravilhosa. Inspirando eu sei que estou vivo, é um milagre. Nós temos que desfrutar nossa inspiração. Há muitos modos para desfrutar sua inspiração. Nós queremos que vocês nos falem como desfrutam sua inspiração, se em posição sentada ou em posição andante. Mas se vocês não tem prazer em inspirar e expirar, não farão isto direito.

Esta é a primeira recomendação sobre respiração que o Buddha fez. Quando inspirando, eu sei que este é inspiração. Quando expirando, eu sei que este é expiração. Quando a inspiração é longa, sei que é longa. Quando é pequena, sei que é pequena. Apenas reconhecimento, mero reconhecimento, reconhecimento simples da presença da inspiração e expiração. Quando você faz assim, de repente fica completamente presente. Isso é um milagre, porque meditar significa estar presente. Estar ali com vocês, estar ali com seu respirar-para-dentro. Assim vocês entendem as duas orações "Inspirando, eu sei que estou inspirando. Expirando, eu sei que estou expirando." E alguns minutos depois, "Inspirando, sei que minha inspiração ficou profunda. Expirando, sei que minha expiração ficou lenta." Não há esforço para fazer a inspiração mais profundo ou a expiração mais lenta. É apenas um reconhecimento do fato. Estas instruções serão usadas para nossa meditação andante depois da palestra de Dharma. Depois de ter seguido sua inspiração e expiração durante alguns minutos vocês notarão que sua inspiração e expiração têm agora uma qualidade muito melhor, porque a imagem da consciência, quando toca qualquer coisa, aumenta a qualidade daquela coisa. O Buddha quando toca algo, revela e aumenta a qualidade de ser daquela coisa. Consciência é o Buddha, portanto ele assume este papel.

Quando você olha a lua cheia, e se está atento, "Inspirando vejo a lua cheia e expirando sorrio à lua cheia," de repente a lua cheia se revela talvez cem vezes mais claramente a você. Está mais bonita, está mais clara, é mais agradável. Por que? Porque a lua foi tocada através da consciência. Assim quando vocês tocam sua inspiração e expiração com sua consciência, sua inspiração fica mais harmoniosa, mais gentil, mais funda, mais lenta, e assim faz também sua expiração. Agora vocês desfrutam o respirar-para-dentro e o respirar-para-fora. Naturalmente sua respiração fica mais agradável, a qualidade de sua respiração aumenta. Assim "Dentro/Fora" é o começo. [Thay escreve em um quadro-negro] Então "Profundo/Lento" é o próximo passo: "Inspirando, eu sei que minha inspiração ficou profunda e desfruto isto. Expirando, eu vejo que minha expiração ficou lenta e desfruto isto."

Durante aquele tempo você parou, permitiu ao seu corpo e à sua mente descansar. Até mesmo se está caminhando, está descansando. Se está se sentando, está descansando. Você não está lutando mais, em sua almofada, ou caminhando. Então mais tarde você tentará isto. Estas palavras são apenas para lhe ajudar a reconhecer o que está acontecendo. "Calma/Descanso: Inspirando sinto a calma em mim". Esta não é uma auto-sugestão, porque se você desfrutou o Dentro/Fora e Profundo/Lento, calma é algo já estabelecido. Descanso. Se você toca sua calma, sua calma aumenta. É igual quando tocou a lua. "Expirando, eu sinto o descanso em mim". Eu não sofro mais. Eu não tornarei isto difícil mais. Não seja muito duro com você mesmo. Se permita ficar à vontade consigo mesmo. Não lute. Tudo isto pode ser feito mesmo se muito sofrimento ainda esteja em seu corpo e em sua alma. Fazendo isto, nós estamos cuidando deles. Nós não estamos tentando escapar da dor em nós. Nós estamos dando ao nosso corpo e à nossa consciência um descanso.

"Sorrir/Relaxar: Inspirando eu sorrio." Em Plum Village nós falamos sobre o "Yoga da boca," você simplesmente tenta sorrir e então percebe o relaxamento das muitas centenas de músculos em sua face. De acordo com a lei de causa e efeito quando você tem alegria, você sorri. Ou quando você sorri libera toda a tensão de sua face. O primeiro caso é causa e efeito. O segundo caso também é causa e efeito. Assim por que você tem de esperar pela alegria para tomar a iniciativa? Por que não permite à sua boca tomar esta iniciativa? Você pratica algum tipo de preconceito contra seu corpo? Você sabe que o momento quando se senta e descansa sente-se muito melhor em sua alma. Assim o corpo sempre pode tomar a iniciativa se você permite isto acontecer. E ao praticar meditação, você não a pratica só com sua mente, mas também com seu corpo. O Buddha disse que é possível tocar o nirvana com seu corpo.

"Inspirando, eu sorrio," porque há calma, alívio, e a alegria de estar descansado. E "expirando, eu me solto." Eu me solto porque há em mim uma tendência a continuar correndo, lutar. Até mesmo em meu sonho continuo a lutar - aquela é uma energia de hábito de mais de três, quatro mil anos. Eu reconheço isto. Foi transmitido a mim por muitas gerações de antepassados. Então agora estou praticando para eles. Se eu posso parar e posso me soltar, então são liberados todos os meus antepassados em mim. Você está fazendo isto para todo o mundo, porque não é um ego. E vocês estão fazendo isto por amor.

O último é, "Momento Presente/Maravilhoso Momento". Estar caminhando na terra e perceber que está vivo, habitando no momento presente. Você vê, estar vivo e estar caminhando na terra já é um milagre. Porque tem corrido para procurar sua felicidade, você pode não saber que a felicidade está disponível no aqui, e no agora. Condições para sua felicidade podem ser mais que suficiente no aqui e agora. Isso é o resultado da prática de parar - parar para perceber que você é maravilhoso como é. Você pode ficar agora mesmo feliz.

"Momento presente," porque este é o único momento para se viver. Se vocês perdem o momento presente, perdem seu compromisso com a vida. O Buddha disse que vida só está disponível no momento presente. "Momento maravilhoso", esta é a vida que vocês tocam. De repente a felicidade torna-se possível. Estar vivo, caminhar com o Sangha, tocar o céu azul, a terra, inspirando e expirando livremente, nos permitindo descansar o corpo e a consciência, já é uma coisa maravilhosa. Nós precisamos de uma prática mais profunda? Uma prática mais difícil? Um tipo mais complicado de prática? Eu não penso assim. Porque para aqueles entre nós que já praticam quarenta, cinqüenta anos, continuamos praticando assim ou algo semelhante a isto, e sempre adquirimos mais paz e alegria e felicidade. Nossa percepção sempre continua crescendo. Você não tem que procurar um "curso intensivo" de meditação, ou um "nível alto" de meditação, ou uma prática "intensiva" ou "alta". Lin-Chi, o fundador da escola Rinzai de meditação, disse, "O milagre não é caminhar no fogo ou no ar tênue, o milagre é caminhar na terra". Se a consciência está lá, você está executando o milagre de estar vivo a cada momento.

Então por favor, meus amigos, agora é tempo de gozar o caminhar juntos. Quando vocês ouvirem o sino, desfrutem de sua inspiração e expiração. Nós daremos tempo para também ir ao banheiro. Depois disso nós nos reuniremos ao redor da árvore. Começaremos caminhando juntos. Meditação andante, eu considero que é um ato de vida - celebração. Caminhar juntos como um Sangha, desfrutando todo passo que fazemos e sentindo-nos vivos, realmente é a celebração da vida. Não considerem esta prática como dura ou difícil.

(Sino)

[Fim da Palestra de Dharma]


Nota 1:
Para livre distribuição, como exercício de Dharma. Aqueles que desejarem oferecer uma doação ao Templo orientado por Thich Nhat Hanh, podem envia-la para o seguinte endereço:
Transcription Project
Plum Village - Lower Hamlet
Meyrac, Loubes-Bernac, 47120 FRANCE
Site do Templo: http://plumvillage.org/