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Meditações Para os Doentes e os Moribundos1

Ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh
Retiro em Lower Hamlet
11 de agosto de 1996

Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu
Revisado por Brendan Sillifant
Traduzido ao Português por Claudio Miklos


[Falando para crianças e adultos]

Hoje é o décimo primeiro dia de agosto, 1996, nós estamos no Lower Hamlet, e nossa palestra de Dharma será em inglês. Hoje vamos aprender a prática dos quatros mantras, porque este é o tipo de prática que eu gostaria de todo o mundo levasse para casa e fizesse diariamente. É muito agradável e fácil. Um mantra é uma fórmula mágica. Toda vez que você pronuncia um mantra, pode transformar a situação imediatamente; você não tem que esperar. É uma fórmula mágica que você deve aprender a recitar quando o tempo é apropriado. E a condição que faz isto efetivo é sua consciência, sua concentração. Significa que estes mantras só podem ser recitados quando você está perfeitamente atento e concentrado. Caso contrário, não funciona. Mas vocês não precisam estar atentos ou concentrados cem por cento; até mesmo oitenta por cento pode produzir um milagre. E todos nós somos capazes de ficar atentos e concentrados.

O primeiro mantra é "Querido(a), eu estou aqui para você". Eu gostaria que as crianças da Itália praticassem em italiano, as crianças francesas em francês, vietnamitas em vietnamita, e assim por diante. Nós não temos que praticar isto em Sânscrito ou Tibetano. E por que temos que praticar este mantra, "Querido(a), eu estou aqui para você"? Porque quando você ama alguém, tem que lhe oferecer o melhor de você. E o melhor que você pode oferecer a seu amado é sua verdadeira presença. Sua verdadeira presença é muito importante para ele ou para ela.

Eu conheço um jovem de onze ou doze anos. Um dia que o pai dele lhe perguntou, "Amanhã será seu aniversário. O que você quer? Eu comprarei para você". O jovem não estava muito entusiasmado. Ele sabia que o pai era muito rico - o diretor de uma grande corporação - e poderia comprar qualquer coisa que o jovem quisesse. Ele era extremamente rico, assim não seria nenhum problema comprar um presente de aniversário para seu filho. Mas o jovem não quis nada. Ele não estava muito contente, e não porque não tivesse muitas coisas para brincar. Ele não estava contente porque o seu pai não estava com ele - sempre estava ausente. Ele nunca passava muito tempo em casa. Viajava como uma seta. E o que mais o jovem precisava era da presença do pai. Ele tinha um pai, mas não parecia muito que o tinha, porque o pai era tão ocupado. Vocês sabem, quando alguém é rico, tenta trabalhar muito duro para continuar sendo rico; esse é o problema. Uma vez que você é rico, não pode admitir ser pobre. Eis porque você tem que usar todo seu tempo e energia para trabalhar, trabalhar, trabalhar, dia e noite para continuar sendo rico. E eu vi muitas pessoas assim. Assim, o pai não tinha tempo para suas crianças. Embora as crianças em princípio tenham um pai, elas realmente não têm um. O que elas mais precisam é da presença de seus pais ao seu lado. Assim o jovem não soube o que dizer. Mas finalmente ele foi iluminado. Ele disse, "Papai, eu sei o que eu quero". "O quê?" E o pai estava esperando por um trem elétrico, ou algo assim. O jovem disse, "Eu quero você!" E é verdade, que as crianças - se elas não têm seu pai ou a mãe ao lado - não ficam muito felizes. Assim o que elas mais querem é a presença da pessoa que amam.

Quando você ama alguém, o presente mais precioso que pode dar a ele ou ela é sua verdadeira presença. Eis porque você tem que praticar de modo que esteja lá. Você está lá cem por cento e a(o) olha, e diz, "Querido(a), eu estou realmente aqui para você". Este é o maior presente que podemos dar a quem mais amamos. Mas esta não é só uma declaração. Vocês sabem que um mantra não é uma declaração. Um mantra é algo que você dá realidade - o que significa que você tem que estar lá cem por cento para que o que diz possa se tornar um verdadeiro mantra. Assim para realmente estar lá vocês precisam de um minuto ou dois de prática - vocês inspiram: "Inspirando, eu estou tranqüilo e expirando, eu sorrio. Inspirando, eu estou realmente aqui, expirando, eu estou realmente aqui." Você faz isso algumas vezes, e de repente você realmente está lá. É maravilhoso. Você não fica preso a seus problemas, não fica apegado a seus projetos, não fica preso pelo futuro, ou pelo passado. Você realmente está lá, disponível, para a pessoa que você ama. Então quando você está seguro que verdadeiramente está lá - corpo e mente juntos - você vai na direção da pessoa que ama, e olhando para a consciência dele ou dela, sabendo que aquela pessoa realmente está lá e você está lá, sorri e diz, "Querido(a), eu estou aqui para você, eu estou realmente aqui para você."

Para muitos de nós este é o maior presente que podemos dar a quem amamos. Se o pai entendesse isso, ele praticaria a respiração atenta ou o caminhar durante alguns minutos, ele pararia todos seus projetos, cancelaria suas reuniões e apenas se sentaria, realmente perto do seu menino, poria seu braço ao redor do pequeno rapaz, olharia nos seus olhos e diria, "Querido, neste momento eu realmente estou aqui para você". Este é um momento maravilhoso pois é um momento quando a vida torna-se verdadeira e profundamente real: o pai está lá e o filho está lá. O Amor está lá porque eles estão lá um para o outro, eles estão disponíveis a um ao outro. Quando você ama alguém, você tem que se fazer disponível para a pessoa que você ama. E esta é a prática de se fazer disponível cem por cento, como um presente para a pessoa que você ama.

Assim eu gostaria que as crianças escrevessem esta fórmula em uma folha de papel no seu próprio idioma, formosamente, e decorasse com flores, frutas e pássaros. Quando vocês forem para casa, colem o mantra em sua parede e pratiquem diariamente com a pessoa que vocês amam. "Querido(a), eu estou aqui para você", esse é o primeiro mantra. Meus amigos na América pintaram este mantra em uma camiseta. Se vocês quiserem, podem fazer uma camiseta e pintar esta fórmula de magia em italiano ou francês ou alemão ou holandês. Quando vocês usarem a camiseta, "Querido(a), eu estou aqui para você", poderiam apenas olhar para a pessoa, apontar para o mantra em sua camiseta e sorrir.

O segundo mantra é, "Querido(a), eu sei que você está aí, e estou muito contente". Este também é um mantra muito fácil de praticar. Porque amar significa reconhecer a presença da pessoa que você ama. Para reconhecer que ele está ali ou ela está ali, vocês tem que ter tempo. Se vocês estão muito ocupados, como podem reconhecer a presença dele ou dela? E a condição mais importante para fazer este mantra é que vocês estejam lá cem por cento. Se você não está lá cem por cento, não pode reconhecer a presença dele ou dela. Quando você é amado por alguém, precisa que a pessoa reconheça que você está lá - se você é muito jovem ou tem setenta ou oitenta anos, ainda se comporta do mesmo modo. Nós sempre precisamos da outra pessoa para reconhecer que nós estamos aqui. Nós queremos ser abraçados pela consciência dele ou dela. Não só as crianças tem necessidade disso mas os adultos também. Nós precisamos ser abraçados pela energia de consciência da outra pessoa. Assim se você está lá cem por cento e aproxima-se da outra pessoa, você a olha, sorri e diz, "Querido(a), eu sei que você está aí e estou muito contente." Isso é reconhecer a presença da pessoa que você ama e dizer que você está muito contente que ela ainda esteja viva, disponível para nós. Você sabe que tal prática pode fazer a outra pessoa feliz imediatamente. Esse é o Buddhadharma - efetivo imediatamente. Se você é tímido, deve aprender. Você deve fechar a porta, apagar a luz, e tentar praticar o mantra, "Querido(a), eu sei que você está aí, e estou muito contente". E quando você estiver seguro que pode fazer isto, pode abrir a porta e ir para ele ou ela e praticar.

Você sabe, eu não só pratico isso com pessoas, mas pratico com a lua, a Estrela Matutina, as flores de magnólia. Ano passado quando eu fui para a Coréia, fiquei alojado em um seminário protestante e minha pequena casa era cercada de magnólias, pois era estação da primavera. As flores de magnólia estavam muito bonitas. Elas tem uma cor branca - igual à neve. Eu pratiquei meditação andante entre as flores de magnólia. Eu me sentia tão feliz, era tão maravilhoso. Então eu parei e olhei de perto cada flor de magnólia. Eu sorri, inspirei e expirei, e disse, "Querida, eu sei que você está aí, e estou muito contente," e me curvei à flor. Eu estava muito contente, e achei que a flor de magnólia também estava contente, porque quando as pessoas reconhecem sua presença e apreciam sua presença, você sente que vale alguma coisa. É claro, as flores de magnólia eram muito, muito preciosas para mim.

Às vezes eu olho a lua cheia com consciência, pratico o inspirar e expirar, e recito para a lua cheia o mantra: "Lua cheia, bela lua cheia, eu sei que você está aí, e estou muito contente. " E eu estava realmente contente naquele momento. Eu era uma pessoa livre - eu não estava sendo assaltado por preocupações ou medos ou qualquer projeto. E porque era livre, era eu mesmo. Eu tive tempo e oportunidade para tocar as maravilhas da vida ao redor de mim, e eis porque eu podia tocar a lua cheia e praticar o mantra com a ela. Esta tarde vocês podem gostar de praticar o mantra com alguém, ou simplesmente praticar o mantra com uma árvore ou uma borboleta, porque eles são todo maravilhosos.

Nós estamos no salão de meditação e todos podemos ouvir o som da chuva. Para mim o som da chuva é algo maravilhoso. No Upper Hamlet nós temos uma varanda batizada de "varanda de escutar-a-chuva". Se você é uma pessoa livre precisa se sentar lá e escutar à chuva, e poderá ficar deveras muito contente, porque a chuva é algo maravilhoso. Eu penso muito freqüentemente na chuva como o bodhisattva Avalokiteshvara. Depois de várias semanas sem chuva, a vegetação começa a sofrer e quando a chuva vem você pode ver que todas as árvores e arbustos estão muito contentes. Eu penso que eles desfrutam o som da chuva, como eu faço, muito. Se sentando no salão de meditação ou se sentando na "varanda de escutar-a-chuva", você pode apreciar o som da chuva e pode estar muito contente apenas por fazer isso. Assim a felicidade é possível com consciência, porque consciência nos ajuda a perceber o que está ali - tão precioso. Aqueles entre nós que ainda têm uma mãe, nós deveríamos estar contentes. Aqueles entre nós que ainda têm um pai, nós deveríamos estar contentes. Aqueles entre nós que ainda têm olhos em boas condições para poder olhar a lua, nós deveríamos estar contentes. Há muitas coisas que podem nos fazer feliz agora. E isso é consciência - em um nome, é a prática de meditação budista. Então, por favor escrevam o segundo mantra em outra folha de papel com sua melhor letra, e decorem com cores - com flores, frutas, folhas, pássaros, e assim por diante, e pendurem-na em seu quarto. Eu estou certo que se vocês praticarem o primeiro e o segundo mantras, farão ao seu redor muitas pessoas extremamente felizes. E não me digam que esta prática é difícil - ela não é.

[Sino]

O terceiro mantra também é fácil de praticar. Vocês praticam este mantra quando vêem que a pessoa que vocês amam está sofrendo. Ela está chorando, ou ele está chorando. Ou se eles não estão chorando, eles parecem muito infelizes. Se você afirma ser um amante, então você tem que saber o que está acontecendo à pessoa que ama, e a consciência lhe ajuda a notar se algo está errado no íntimo daquela pessoa. Claro que, se você está lá cem por cento para ele ou para ela, logo notará que a pessoa que ama sofre. Se você não percebe que a pessoa que ama sofre, você não está atento; você não é um amante real, porque não há nenhuma consciência em você. Aqueles entre nós que reivindicam ser verdadeiros amantes deveriam praticar a consciência, temos que praticar a meditação, porque como vocês pode amar se não estão lá? Vocês só podem amar quando estão ali, e para estar presente vocês têm de praticar o estar ali, seja através do andar atentamente ou da respiração atenta, ou de qualquer tipo de prática que possam lhe ajudar a realmente estar lá, como uma pessoa livre, para a pessoa que ama. Assim porque você está lá, você está atento - eis por que você pode notar que a pessoa que ama está sofrendo. Exatamente naquele momento vocês tem que praticar profundamente, estar lá cem por cento. Você vai para ele ou para ela, e pronuncia o terceiro mantra, "Querido(a), que eu sei que você sofre, eis porque estou aqui para você."

Quando você sofre, quer a pessoa que ama atenta ao seu sofrimento - isto é muito humano, é muito natural. Você sofre, e se a pessoa que ama não sabe que você sofre, se ela ignora seu sofrimento, você sofre muito mais. Assim seria um grande alívio se a pessoa que amamos soubesse, estivesse consciente, de que estamos sofrendo. Então sua tarefa, sua prática como um amante é ir até ele ou ela e oferecer sua verdadeira presença, recitando o terceiro mantra, "Querido(a), eu sei que você sofre, eis porque estou aqui para você." Antes que você possa fazer qualquer coisa para ajudar, ela já sofrerá um pouco menos, porque sabe que você está atento ao seu sofrimento. Assim o efeito da prática é mais instantâneo - mais rápido do que se você fizer café instantâneo -, muito rápido. Quanto mais você se concentra, mais você está consciente, maior será o efeito de sua prática. E as crianças podem praticar da mesma forma. Toda vez que elas virem seu irmão ou a irmã sofrendo, toda vez que virem Mamãe chorando, deveriam aprender a praticar. Elas têm que praticar inspirando e expirando profundamente, e indo para aquela pessoa, segurando sua mão e dizendo, "Querido(a), eu sei que você sofre e estou aqui para você, realmente, eu estou aqui para você." Este será um grande alívio.

O quarto mantra é só para adultos porque é um pouco complicado. Este terceiro mantra, também, eu gostaria que vocês escrevessem em inglês, italiano, ou alemão em seu melhor estilo de escrita - caligrafia - e decorassem com muito amor e cuidado. Façam uma obra-prima. E não esperem até que estejam em casa para fazer isto - eu estou lhes pedindo para escrever os três mantras aqui e agora, e os decorar muito formosamente. Quando vocês forem para casa, ponha-os na parede de seus quartos ou talvez na sala - isto é com vocês. Mas minha expectativa é que vocês possam praticá-los. E esta não é uma prática só de crianças, esta é uma prática de todo mundo. Até mesmo se tem-se setenta ou oitenta, ainda se pode praticar; até mesmo se temos oitenta ainda podemos praticar e isto pode trazer muita felicidade à casa. Vocês tentam alguns semanas, e irão ver - a harmonia na casa se transformará muito drasticamente. A comunicação será restabelecida. Nós nos preocupamos com a felicidade e o sofrimento de todo membro da família. E claro que esta prática é fácil, simples, e todo o mundo pode fazer isto.

Agora, quando ouvirem o pequeno sino, por favor se levantem e se curvem ao Sangha antes de sair.

[Sino - as crianças deixam o salão]

No tempo do Buddha havia um leigo cujo nome era Anathapindika. O seu nome real era Sudatta. Anathapindika era um nome dado a ele pelas pessoas da cidade porque elas o amavam. Ele tinha um bom coração. Era um rico negociante, empresário, mas gastou muito do seu tempo e dinheiro cuidando de pessoas pobres, pessoas que eram abandonadas, crianças, órfãos, e assim por diante. Eis porque o título "Anathapindika " foi dado a ele pelas pessoas da cidade - ele significa "a pessoa que cuida dos isolados, dos infelizes", e assim por diante. Foi ele que convidou o Buddha a vir e ensinar em sua região. O Buddha antes disso vivia na região de Magadha.

Anathapindika, durante um das suas viagens para Magadha, ouviu sobre a presença do Buddha. Ele ficou muito inspirado pelos ensinamentos do Buddha, e eis porque convidou o Buddha para ir ao seu país, Kosala. E foi ele que comprou o parque mais bonito perto da cidade de Shravasti e o ofereceu ao Buddha como um monastério - o primeiro monastério naquele país. Mais tarde, foi chamado de Parque de Jeta, porque o dono do parque tinha sido o príncipe cujo nome era Jeta. Anathapindika teve grande prazer em servir o Buddha e o Sangha, e a sua família era uma família feliz porque sua esposa e todos os três filhos seguiram os ensinos do Buddha. Mas ele não praticava todos os ensinamentos do Buddha, porque naquela época as pessoas pensavam que os leigos eram muito ocupados e deveriam receber apenas o tipo de ensino que eles poderiam se dispor a fazer. Assim, os aspectos mais profundos do ensino só era dado aos monges e monjas. Foi Anathapindika que esclareceu aos monges e monjas que haviam leigos que eram muito capazes de praticar os ensinos mais profundos do Buddha, e ele disse, "Por favor, Veneráveis, voltem e falem para o Senhor que há muitas pessoas leigas que estão muito ocupadas e que não podem se dispor a aprender e praticar os ensinamentos mais profundos do Buddha, mas há entre os leigos esses que são muito capazes de aprenderem a prática e tais ensinos."

Anathapindika estava muito doente, estava a ponto de morrer - isto após ter servido ao Buddha por aproximadamente trinta anos. O Buddha foi até ele e o visitou, e depois disso encarregou o Venerável Shariputra - um de seus melhores discípulos - para cuidar de Anathapindika. E um dia Shariputra percebeu que Anathapindika estava extremamente doente - ele poderia falecer a qualquer momento - assim ele foi ao quarto de seu irmão de Dharma mais jovem, o Venerável Ananda, e lhe pediu que o acompanhasse para uma visita. Assim ambos foram para a casa de Anathapindika.

Quando Anathapindika os viu chegando, ele se alegrou muito. Ele tentou se sentar mas estava muito fraco; ele não pôde. Shariputra disse, "Meu amigo, permaneça onde está. Você não tem que tentar árduamente se sentar, nós traremos alguns assentos e nos sentaremos próximos a você." E depois de ter dito isto, Shariputra perguntou, "Querido amigo, Anathapindika, como sente seu corpo? A dor em seu corpo está aumentando ou está diminuindo?" E Anathapindika disse, "Veneráveis, a dor em mim está aumentando todo o tempo; Eu sofro muito, não diminui." E quando Shariputra ouviu isso disse, "Por que nós não praticamos a meditação nas Três Jóias? Nos deixe praticar inspirando e expirando, enfocando nossa atenção no maravilhoso Buddha, no maravilhoso Dharma, e no maravilhoso Sangha". E ele também ofereceu-se para conduzir a meditação com Anathapindika e os dois monges se sentaram e praticaram juntos com o leigo que estava morrendo. Assim, dois monges apoiaram um leigo praticando neste momento muito crucial.

Shariputra era uma pessoa extremamente inteligente. Ele era igual à mão direita do Buddha, cuidando da comunidade de monges, ensinando muitos deles como um irmão mais velho, e ele sabia exatamente do que o agonizante Anathapindika precisava. Assim ele ofereceu em primeiro lugar a meditação nas Três Jóias, porque sabia muito bem que a maior alegria de Anathapindika era servir ao Buddha e ao Sangha. Ele fez tudo para fazer o Buddha confortável e o Sangha confortável. Meditando então no Buddha, no Sangha, traria alegria e felicidade que contrabalançariam a dor no corpo. Tudo nós temos que aprender isto, porque em nós há sementes de sofrimento, há sementes de alegria. Se vocês sabem tocar as sementes de alegria, elas serão molhadas e a energia de felicidade e alegria será forte o bastante para contrabalançar - para fazer a pessoa sofrer menos.

O Buddha é alguém que tem a capacidade de estar presente, de estar atento, de ser compreensivo, ser capaz de amar e aceitar, de ser jovial. Há dez títulos do Buddha que as pessoas deveriam repetir para tocar essas qualidades - a alegria e a paz do Buddha.

Depois de meditar no Buddha, eles meditaram no Dharma. O Dharma é um caminho que pode trazer alívio, alegria e paz para nós agora mesmo - não precisamos esperar. O Dharma não é uma promessa de felicidade no futuro. A prática do Dharma não é uma questão de tempo - tão logo vocês abraçam o Dharma e o praticam, vocês começam a adquirir alívio e transformação imediatamente.

E o Sangha é composto de membros que praticam concentração, consciência, sabedoria, alegria, e paz. Deixem sua mente tocar esta maravilhosa jóia - aquela pode regar a semente de felicidade em vocês. Depois de aproximadamente dez minutos de praticar assim, Anathapindika já se sentia muito melhor.

Da próxima vez, quando estiverem perto de uma pessoa agonizante, vocês poderiam gostar de praticar deste mesmo modo. Você está lá, apresente cem por cento, com estabilidade, solidez, e paz. Isto é muito importante. Você é o apoio daquela pessoa agonizante, e ele ou ela precisam muito de sua estabilidade, sua paz. Para acompanhar uma pessoa agonizante, vocês precisam fazer o máximo - [mas] não esperem até este momento para praticar. Vocês praticam em sua vida diária para cultivar sua paz, sua solidez. Então vocês olham a pessoa e reconhecem as sementes da felicidade que está enterrada profundamente nele ou nela, e vocês molham estas sementes. Todo o mundo possui sementes de felicidade. Nós deveríamos saber disto de antemão. E naquele momento vocês falam com ele ou ela, vocês usam a meditação como guia para ajudar a ele ou ela tocarem as sementes de felicidade dentro de si mesmos.

Vários anos atrás eu estava a caminho para conduzir um retiro na parte norte do estado de Nova Iorque, e eu descobri que nosso amigo Alfred Hassler estava morrendo em um hospital Católico nas proximidades. Assim nós conseguimos parar e passar algum tempo com ele. Alfred foi muito ativo durante a guerra de Vietnã. Ele era o diretor da Irmandade de Reconciliação em Nova Iorque, e ele nos apoiou completamente trazendo a mensagem de paz do povo Vietnamita, e trabalhou muito duro para conseguir um cessar-fogo e uma negociação entre as partes em conflito. Ele estava morrendo, e eu e a Monja Chân Không junto a aproximadamente seis ou sete de nós estávamos em um carro, e nos organizamos de forma que pudéssemos parar. Apenas a Monja Chân Không e eu pudemos entrar; o resto ficou esperando no carro. Quando nós chegamos, Alfred estava em coma e Laura, a filha dele, estava tentando chamá-lo de volta, "Alfred, Alfred, o Thây está aqui, a Monja Chân Không está aqui!" Mas ele não voltou.

Eu pedi para a Monja Chân Không que cantasse um canção - a canção foi escrita por mim e as palavras foram tiradas diretamente do Samyutta Nikaya: "Estes olhos não são eu, eu não estou apegado a estes olhos. Eu sou vida sem limites, eu nunca nasci, eu nunca morrerei. Me olhem, sorriam para mim, segurem minhas mãos. Nós dizemos adeus agora, mas nos veremos um ao outro daqui a muito pouco. E nós nos encontraremos em cada passo da vida."

Monja Chân Không começou a cantar aquela canção suavemente. Vocês poderiam pensar que se Alfred estava em coma, ele não podia ouvir. Mas vocês não devem estar certos disso, porque depois de cantar duas ou três vezes suavemente assim, Alfred voltou a si - ele despertou. Assim você pode falar a uma pessoa que está em coma. Não fiquem desencorajados, falem com ele ou ela como se estivessem acordados. Há uma maneira de se comunicar.

Nós ficamos muito contentes que ele recuperou a consciência e Laura disse, "Alfred, você sabe que Thây está aqui com você, a Monja Chân Không está aqui com você?" Alfred não pôde falar. Ele foi alimentado com glicose e outras coisas. Ele não pôde dizer nenhuma palavra, mas os olhos dele provaram que estava consciente de que nós estávamos lá. Eu massageei seus pés e eu perguntei se ele estava atento ao toque de minha massagem. Quando Laura perguntou, os olhos dele responderam que ele estava percebendo que eu estava massageando seus pés. Quando você está morrendo, pode ter um sentimento muito vago de seu corpo; você não sabe se seu corpo está exatamente lá. Assim se alguém esfrega ou massageia seus braços ou pés, isso ajudará a restabelecer um tipo de contato e consciência de que o corpo ainda está lá.

Monja Chân Không começou a praticar precisamente como Shariputra; ela começou a molhar as sementes de felicidade em Alfred. Embora Alfred não tenha passado o seu tempo servindo o Buddha, o Sangha, ele tinha passado muito tempo trabalhando para a paz. Assim Monja Chân Không estava molhando as sementes do trabalho pela paz nele. "Alfred você se lembra do tempo que estava em Saigon e estava esperando para ver o monge superior Tri Quang? Por causa do bombardeio americano, Tri Quang para não estava desejando ver nenhum ocidental. E você tinha uma carta de Thây e queria entregá-la a Tri Quang? Não lhe permitiram entrar, assim você se sentou fora da porta do monge e deslizou debaixo dela uma mensagem que você iria observar um jejum até a porta ser aberta, e não teve que esperar muito tempo porque dez minutos depois disso Tri Quang abriu a porta dele e o convidou a entrar? Você se lembra disso, Alfred?" E ela tentou refrescar-lhe a memória com as recordações destes eventos felizes.

"Alfred, você se lembra daquele evento em Roma onde trezentos monges católicos estavam protestando pela paz no Vietnã? Cada um deles usou o nome de um monge budista na prisão no Vietnã - porque estes monges budistas recusaram-se a entrar no exército e obedecer as leis do exército. Aqui nós tentamos ao máximo fazer o seu sofrimento conhecido. Assim, em Roma, trezentos padres católicos que usam os nomes de trezentos monges budistas na prisão no Vietnã fizeram uma passeata, você se lembra disso?" Todos estes tipos de recordações voltaram para ele.

A Monja Chân Không continuou praticando, precisamente como Shariputra. Em um certo ponto, Alfred abriu a boca e riu. Ele disse, "Maravilhoso, maravilhoso," duas vezes, e isso é tudo. Um ou dois minutos depois ele afundou-se novamente no coma e nunca mais retornou. Seis pessoas estavam esperando no carro e aquela noite nós tivemos que dar uma palestra de orientação a quatrocentos ou quinhentos participantes de um retiro, assim eu recomendei à Laura e à Dorothy, sua esposa, que se ele voltasse elas deveriam continuar o mesmo tipo de prática: massageando [seus pés] e molhando as suas sementes de felicidade. E nós partimos.

[Sino]

Na manhã do dia seguinte, bem cedo, nós recebemos uma chamada de telefone dizendo que Alfred morreu muito pacificamente, apenas uma hora ou hora e meia depois que tínhamos partido. É como se ele estivesse esperando por nós, e após aquele encontro ele ficou completamente satisfeito e morreu em paz. Quando a irmã mais velha da Monja Chân Không estava morrendo na Califórnia, ela sofria muito fisicamente. No hospital ela estava em coma, mas sofreu muito no corpo; ela chorava e ela gritava, e todos seus filhos não sabiam o que fazer, porque eles não tinham aprendido nada sobre o Dharma ainda. Quando a Monja Chân Không entrou e viu aquilo, ela começou a cantar. Mas seu cantar era muito fraco comparado com os gemindos e o choro daquela que estava morrendo. Assim, a Monja Chân Không usou um gravador cassete e uma fita com o tipo de cânticos que vocês ouviram esta manhã, "Namo Avalokiteshvaraya, bodhisattva Avalokiteshvara". Ela usou um fone de ouvido e colocou o volume bastante alto. Em alguns poucos minutos, toda a agitação, todo o sofrimento, todos o choro parou, e daquele momento até sua morte, ela permaneceu muito quieta.

Era como um milagre, todos os seus filhos não entenderam por que, mas nós entendemos. Porque ela também tinha a semente do Buddha-dharma em si, ela tinha ouvido o cântico, ela tinha tido contato com a prática - o cantar, a atmosfera de prática. Mas por ter vivido muitos anos em um ambiente onde a atmosfera de calma, de paz, não estava disponível, muitas camadas de sofrimento tinham coberto estas realizações, e agora o cântico a ajudava, embora estivesse em coma. O som quebrou a barreira e a ajudou a tocar o que estava profundamente enterrado. Por causa daquele milagre de união com a semente de paz e calma dentro dela, ela pôde sossegar toda sua agitação e chôro, e ficou muito tranqüila até morrer.

Assim cada um de nós tem este tipo de semente em si -- sementes de felicidade, sementes de paz e calma. Se nós sabemos as tocar, nós podemos ajudar uma pessoa agonizante a morrer pacificamente. Nós temos que fazer nosso melhor durante esse tempo -- nós temos que estar tranqüilos, sólidos, calmos, e presentes para ajudar uma pessoa morrendo. A prática budista de tocar o Supremo deveria ser praticada em nossa vida diário -- nós não deveríamos esperar até que estamos a ponto de morrer para praticar. Porque se sabemos praticar tocando o mundo fenomenal profundamente em nossa vida diária, nós podemos tocar o mundo do Absoluto, a última dimensão de realidade em nossa vida diária. Quando você bebe sua xícara de chá, quando você olha a lua cheia, quando você segura a mão de um bebê, ou caminha com uma criança, se faz isto muito profundamente, atentamente, com concentração, poderá tocar a última dimensão de realidade, e esta é a essência do ensino budista -tocar o Supremo.

O outro dia nós falamos sobre a onda, vivemos a vida de uma onda, mas ao mesmo tempo ela também pode viver a vida da água dentro dela. Ela não tem que morrer para se tornar água, porque a onda é água já no momento presente. Cada um de nós tem nossa última dimensão - você pode chamar isto "o reino de Deus," ou Nirvana, ou qualquer coisa. Mas essa é nossa última dimensão - a última dimensão de nossa realidade. Se em nossa vida diária vivemos superficialmente, não poderemos tocar isto. Mas se nós aprendemos a viver nossa vida diária profundamente, nós poderemos tocar o Nirvana - o mundo de nenhum nascimento e nenhuma morte - direto no aqui e o agora. Esse é o segredo da prática que pode nos ajudar a transcender o medo do nascimento e da morte.

Depois de ter guiado Anathapindika para praticar o regar as sementes de felicidade em seu interior, o Venerável Shariputra continuou com a prática de olhar profundamente: "Querido amigo Anathapindika, agora é tempo de praticar a meditação nas seis bases de sensação. Inspire e pratique comigo, expire e pratique comigo. Estes olhos não são eu, eu não estou apegado a estes olhos. Este corpo não é eu, eu não estou apegado a este corpo. Eu sou vida sem limites. A decadência deste corpo não significa o meu fim. Eu não estou limitado a este corpo ".

Assim eles continuaram praticando para abandonar a idéia de que somos este corpo, somos estes olhos, somos este nariz, somos esta língua, somos esta mente. Eles também meditaram nos objetos das seis sensações: "As Formas não são eu, os sons não são eu, os cheiros não são eu, os gostos não são eu, os contatos com o corpo não são eu; Eu não estou apegado nestes contatos com o corpo. Estes pensamentos não são eu, estas noções não são eu, eu não estou apegado nestes pensamentos e nestas noções ". E eles meditaram nos seis níveis de consciência: visão, audição, consciência baseada no nariz, consciência baseada na língua, consciência baseada no corpo, consciência baseada na mente: "Eu não estou apegado à consciência corporal. Eu não estou apegado à consciência mental".

23 de junho de 1997: Tive que fazer alguma reorganização aqui para separar as seis bases de sensação, os objetos, e a consciência.

Depois de ter guiado Anathapindika para praticar o molhar as sementes de felicidade em si, o Venerável Shariputra continuou com a prática de olhar profundamente: "Querido amigo Anathapindika, agora é tempo para praticar a meditação nas seis bases de sensação. Inspire e pratique comigo, expire e pratique comigo. Estes olhos não são eu, eu não estou apegado a estes olhos. Este corpo não é eu, eu não estou apegado a este corpo. Eu sou vida sem limites. A decadência deste corpo não significa meu fim. Eu não sou limitado a este corpo. Estes pensamentos não são eu, estas noções não são eu, eu não estou apegado a estes pensamentos e a estas noções ". Assim eles continuaram praticando, para abandonar a idéia que nós somos este corpo, somos estes olhos, somos este nariz, somos esta língua, somos esta mente, e também os objetos destas seis bases de sensação - visão, audição, consciência baseada no nariz, consciência baseada na língua, consciência baseada no corpo, consciência baseada na mente. "As Formas não são eu, os sons não são eu, os cheiros não são eu, os gostos não são eu, os contatos com o corpo não são eu; eu não estou apegado a estes contatos com o corpo

". Então eles meditaram nos seis elementos: " O elemento da terra em mim não é eu, eu não estou apegado ao elemento de terra. O elemento da água em mim não é eu, eu não estou apegado ao elemento de água ". Então eles praticaram com os elementos do ar, espaço, fogo, e consciência.

Finalmente eles atingiram a meditação de ser e não-ser, vir e ir. "Querido amigo Anathapindika, tudo o que é surge por causa de causas e condições. Tudo o que é tem a natureza de não nascer e não morrer, não chegar e não partir ".

Quando nós olhamos esta folha de papel, poderíamos pensar que há um momento quando a folha de papel começou a ser e haverá um momento quando esta folha de papel deixará de ser.

Eles estavam meditando em ser e não-ser. Nós pensamos que antes de nascermos nós não existimos, e pensamos que depois de morrermos nós vamos nos tornar nada. Porque em nossa mente nós temos a idéia de que nascer significa "do nada nós de repente nos tornamos algo." De ninguém de repente você se torna alguém -esta é a nossa noção de nascimento. Mas como é possível que de nada algo pudesse se tornar algo, de ninguém eles poderiam se tornar alguém? Isso é extremamente absurdo.

Olhe esta folha de papel - nós podemos pensar que o momento de seu nascimento é quando a pasta foi trasnformada nesta folha de papel. Mas esta folha de papel não nasceu do nada! Se nós olhamos profundamente neste pedaço de papel, já vemos que tinha estado lá antes de seu "nascimento" na forma de uma árvore, na forma de água, na forma de raio de sol, porque com a prática de olhar profundamente nós podemos ver a floresta, a terra, o raio de sol, o chuva - tudo ali. Assim o chamado "aniversário" da folha de papel é só um "dia de continuação". A folha de papel tinha estado lá por muito tempo em várias formas. O "nascimento" da folha de papel é só uma continuação. Nós não deveríamos ser enganados pelo seu aparecimento. Nós sabemos que a folha de papel nunca nasceu, realmente. Esteve lá, porque a folha de papel não veio do nada. Do nada, você se torna algo de repente? De ninguém, você se torna alguém de repente? Isso é muito absurdo. Nada pode ser assim.

Assim o dia de nosso nascimento é só um dia de continuação e praticar meditação é olhar profundamente em nós mesmos ver nossa verdadeira natureza. Isso significa que nossa verdadeira natureza é a natureza do nenhum nascimento e nenhuma morte. Nenhum nascimento é nossa verdadeira natureza. Nós pensávamos que nascer significava que do nada nos tornamos algo. Esta idéia, esta noção está errada, porque você não pode demonstrar este fato. Não só esta folha de papel, mas aquela flor, este livro, esta garrafa térmica, eles eram qualquer outra coisa antes que "nascessem". Assim o nada não nasce do nada. O cientista francês Lavoisier disse, "Rien ne se crée," nada é produzido. Não há nenhum nascimento. O cientista não foi um professor de Budismo, mas ele fez uma oração exatamente com o mesmo tipo de palavras que são achadas no Sutra do Coração. "Rien ne se crée, rien ne se perd," nada é produzido, nada morre a partir disto: e a mesma verdade é falada da boca de um cientista.

Vamos tentar queimar esta folha de papel para ver se podemos reduzi-la a nada. Talvez vocês tenham um fósforo ou algo assim? Estejam atentos e observem... Nós sabemos que é impossível reduzir qualquer coisa a nada. Vocês notaram a fumaça que surgiu. Onde está agora? Parte da folha de papel se tornou fumaça, uniu-se a uma nuvem. Nós podemos vê-la novamente amanhã na forma de um pingo de chuva. Isso é a verdadeira natureza da folha de papel. É muito duro para nós captar as idas e vindas de uma folha de papel. Nós reconhecemos que aquela parte do papel ainda está lá, em algum lugar no céu na forma de um pouco de nuvem. Assim nós podemos dizer, "Até longo, adeus, a verei novamente amanhã."

Está quente enquanto queimo isto - eu sinto muito calor em meus dedos. O calor que foi produzido pela queima penetrou em meu corpo e nos seus também. Entrou no cosmo, e se vocês tivessem um instrumento muito sofisticado, poderiam medir o efeito daquele calor em tudo, até mesmo a vários quilômetros daqui. De forma que esta é outra direção para onde a folha de papel se foi. Ainda está lá, em nós e ao redor de nós. Nós não precisamos de muito tempo para vê-la novamente. Já pode estar em nosso sangue. E esta cinza, o monge jovem pode devolver isto à terra e talvez ano que vem quando comermos um pedaço de alface, será a continuação desta cinza.

Assim está claro que não se pode reduzir nada ao nada, e nós ainda continuamos pensando que morrer significa que nos tornamos nada, de alguém você se torna um ninguém. É possível? Assim a declaração, "Rien ne se crée, rien ne se perd, " nada nasce, nada pode morrer, vai perfeitamente com o ensino do Buddha sobre a natureza de nenhum nascimento, e nenhuma morte. Nosso medo nasce da noção - as noções de ser e não-ser, as noções de nascimento e morte. Antes de nascermos somos ensinados que isso é o "não-ser," depois que nascemos acreditamos que isto é "ser," e depois que nós morremos pensamos que isto será o "não-ser" novamente. Portanto não só as noções de nascimento e morte nos encarceram em nosso medo mas as noções de ser e não-ser têm que ser transcendidas. Esta é a essência do ensinamento Budista -- silenciar todas as noções e idéias, inclusive noções de nascimento e morte, do ser e não-ser.

O que é o Nirvana? Nirvana é o apagar de todas as noções, as noções que servem como fundação para o medo e sofrimento. Outro dia nós estávamos lidando com a noção de felicidade. Até mesmo a noção de felicidade pode nos fazer miserável, pode criar muita miséria em nós. Esta é um das noções que deveriam ser transcendidas. Há noções básicas que são a fundação de nosso medo e sofrimento: as noções de ser e não-ser, nascimento e morte, ir e vir. Donde você veio e para onde nós iremos? A idéia de vir e ir também é uma noção que nós temos de transcender.

[Sino]

Esta é a meditação dada a Anathapindika conduzida por Shariputra: Tudo o que é tem a natureza de não nascer e não morrer. Nenhum nascimento e nenhuma morte. Não chegar e não partir. Nenhuma vinda, nenhuma ida. Quando o corpo surge, surge; não vem em qualquer lugar. Quando o corpo cessa, cessa; não vai para qualquer lugar. O corpo não é inexistente antes de surja. O corpo não é existente depois que surja. Não é por causa da manifestação do corpo que você pode perceber o corpo e pensar que o corpo existe. Não é porque você não pode perceber o corpo que pode qualificar isto como condições do não-ser. Quando as condições são suficientes há uma manifestação, e se você percebe aquela manifestação, qualifica isto como ser. Se as condições não são mais suficientes, não pode perceber isto, e o qualifica como não-ser. Você fica preso a estas duas noções.

É como se você entrasse em Plum Village em abril, olhasse e não visse nenhum girassol. Dando uma olhada ao redor vocês dizem que não há nenhum girassol ao redor daqui. Isso não é verdade. As sementes de girassol foram semeadas. Tudo está pronto em seu tempo. Só os fazendeiros e seus amigos0, quando dão uma olhada às colinas ao redor de Plum Village, já podem ver os girassóis. Mas vocês não estão acostumados com isto -vocês tem que esperar até o mês de julho para reconhecer, perceber os girassóis. Assim se devido a sua percepção vocês qualificam isto como "ser" ou "não-ser" - bem, vocês perdem a realidade. Não ser percebido por vocês não faz algo não-ser, [tornar-se] inexistente. Só porque podem perceber isto, não significa que podem qualifica-lo como existente e ser. É uma questão de causas e condições. Se as condições são suficientes, então é aparente, e você pode perceber isto; e por causa disso, diz você que aquilo "é".

Eis por que, em meditação funda, temos que transcender todas estas idéias, todas estas noções, e podemos ver que outras pessoas não podem ver. Olhando a flor vocês podem ver o lixo, podem ver a nuvem, podem ver a terra, podem ver o raio de sol. Sem muito esforço, podem ver que uma flor "inter-existe" com tudo o mais, inclusive o raio de sol e a nuvem. Nós sabemos que se tiramos o raio de sol ou a nuvem, a flor será impossível. A flor está lá porque condições são suficientes para isto acontecer; nós percebemos isto e dizemos, "a flor existe". E quando estas condições não ocorrem juntas, e você não percebe isto, e então diz, "não está lá". Assim nós somos presos por nossas noções de ser e não-ser. A última dimensão de nossa realidade não pode ser expressa em termos de ser e não-ser, nascimento e morte, vindas e idas.

É igual à água que é a substância das ondas. Falando sobre a onda, você pode falar do "nascimento" de uma onda, a "morte" de uma onda. A onda pode ser "alta" ou "baixa", "esta" ou "outra," "mais " ou "menos" bonita: mas todas estas noções e condições não podem ser aplicadas para a água, porque a água é uma outra dimensão das ondas. Assim a última dimensão de nossa realidade está em nós, e se nós podemos tocar nisto, transcenderemos o medo de ser e não-ser, nascimento e morte, ir e vir. Para os praticantes Budistas, "ser ou não ser," isso NÃO é a questão! Porque eles são capazes de tocar a realidade do nenhum nascimento e nenhuma morte; nenhum ser, nenhum não-ser. Vocês tem que transcender os conceitos - ser e não-ser - porque estes conceitos constituem a fundação de seu medo.

Seria uma pena se nós só praticarmos para adquirir um tipo relativo de alívio. O maior alívio só é possível quando você toca o nirvana. Nirvana significa a última dimensão de nosso ser na qual não há nenhum nascimento nenhuma morte, nenhum ser, nenhum não-ser. Todas estas noções são completamente removidas. Eis porque nirvana significa "extinção" - a extinção de todas as noções e conceitos, e também a extinção de todo o sofrimento que nasce destes conceitos, como medo, como preocupações. Quando nós começamos a tocar o mundo fenomenal, vemos há nascimento, há morte, há impermanência, há não-ego. Mas quando começamos a tocar o mundo dos fenômenos profundamente, descobrimos que a base de tudo é o nirvana. Não só são as coisas impermanentes, mas elas são também permanentes. Você transcende a idéia de permanência, e você também transcende a idéia de impermanência. Impermanência é determinada como um antídoto de forma que você possa superar sua noção de permanência. E desde que você está preso pela idéia de ego, não-ego é um dispositivo para lhe ajudar a obter liberação da noção de ego. Tocando o Absoluto, não só pode você abandonar a noção de ego, mas também pode superar a noção de não-ego. Se você tem alguma noção do nirvana, por favor faça seu melhor para abandonar isto assim que possível - porque nirvana é a superação de todas as noções, inclusive a noção de nirvana!

Anathapindika era um médico muito capaz. Quando ele praticou até este ponto, ele fico tão tocado que adquiriu imediatamente o insight. Ele pôde tocar a dimensão do nenhum-nascimento e da nenhuma-morte. Ele foi liberado da idéia de que é este corpo. Ele lançou as noções de nascimento e morte, as noções de ser e não-ser, e de repente ele adquiriu o não-medo. O Venerável Ananda viu-o chorar de felicidade, por causa daquele tipo de liberação. Mas Ananda não entendeu o que realmente estava acontecendo com o leigo Anathapindika, assim ele disse, "Por que, querido amigo, por que você está chorando? Você lamenta algo, ou falhou em sua prática da meditação?" Ele estava muito preocupado. Mas Anathapindika disse, "Senhor Ananda, eu não lamento nada. Eu pratiquei com muito sucesso." Então Ananda perguntou, " Por que você está chorando, então ?" Anathapindika disse, "Venerável Ananda, eu choro porque fui tocado assim. Eu servi ao Buddha, ao Dharma, e ao Sangha por mais de trinta anos, e ainda não tinha recebido qualquer ensinamento tão profundo como o de hoje. Eu estou tão contente por ter recebido e praticado tal ensinamento... " E Ananda disse, "Querido amigo, este tipo de ensino nós monges e monjas recebemos diariamente."

Vocês sabem que Ananda era muito mais jovem que Shariputra. Logo depois Anathapindika disse, "Venerável Ananda, por favor vá para casa e fale ao Senhor que há leigos que estão tão ocupados que eles não podem receber este tipo de ensino profundo, mas há esses entre nós que, embora leigos, tem o tempo, a inteligência, e a capacidade de compreensão deste tipo de ensino e prática." E essas foram as últimas palavras articuladas pelo leigo Anathapindika. O Venerável Ananda prometeu voltar ao bosque de Jeta e informar ao Buddha, e é dito no sutra que pouco depois da partida dos dois monges, o leigo Anathapindika morreu pacificamente e feliz.

Este é um sutra, um discurso chamado "Os Ensinamento a Serem Dados aos Doentes." Você podem encontrá-lo no Chanting Book de Plum Village, em inglês. Nós estamos trabalhando em uma versão nova do Chanting Book de Plum Village, mas na edição atual vocês já encontram este texto. Este texto está disponível em Pali e em Chinês, e nós temos vários outros textos que oferecem o mesmo tipo de ensino. Assim eu recomendaria que nós estudemos este texto e façamos um debate de Dharma para aprofundar nossa compreensão do ensinamento, e como pôr em prática este ensino do Buddha do melhor modo possível.

Se você é um psicoterapeuta, se você é um trabalhador social, se você é alguém que tem de ajudar uma pessoa agonizante, é muito importante que você estude este tipo de ensino e o ponha em prática na sua vida diária. E se você simplesmente é um meditador que gostaria de aprofundar sua prática, que deseja adquirir libertação de seus medos, sua falta de estabilidade, sua raiva, então o estudo e prática deste sutra lhes ajudarão a adquirir mais estabilidade, adquirir mais paz, e especialmente o fundamento do não-medo, de forma que quando o momento chegar, você poderá confrontá-lo em um modo calmo e fácil - porque é certo que todos nós iremos morrer algum dia. Até mesmo se teoricamente no ensinamento nenhum nascimento e nenhuma morte houverem, se nós podemos viver nossa vida diária de tal modo que possamos tocar a última dimensão, então aquele momento não será um problema para nós absolutamente.

Em minha vida diária eu pratico sempre dando uma olhada nas coisas ao redor de mim, nas pessoas ao redor de mim, em mim mesmo; e eu já posso ver minha continuação nesta flor, ou naquele arbusto, ou naquele jovem monge, ou naquela jovem monja ou naquele jovem leigo. Eu vejo que nós pertencemos à mesma realidade, nós estamos fazendo nosso melhor como um Sangha, nós trazemos um pouco das sementes do Dharma para todos os lugares, nós fazemos as pessoas ao redor de nós felizes: assim eu não vejo razão por que tenha que morrer, porque eu posso me ver em vocês, em outras pessoas, em muitas gerações. Eis porque eu prometi às crianças que eu estarei escalando a colina do vigésimo-primeiro século com elas.

Do topo da colina no ano 2050, estarei olhando para baixo e desfrutarei do que está lá junto com as pessoas jovens agora. O jovem monge Phap Canh tem agora vinte e um, e no topo da colina ele terá setenta e cinco! E claro que eu estarei com ele, de mãos dadas, e nós olharemos para baixo para ver a paisagem do vigésimo-primeiro século juntos. Assim como um Sangha, nós escalaremos a colina do vigésimo-primeiro século juntos. Nós faremos nosso melhor de forma que o escalar será agradável e calmo, e teremos todas as crianças conosco porque sabemos que nós nunca morremos. Nós estaremos lá por eles para sempre.

(Sino)

[Fim da Palestra de Dharma]


Nota 1:
Para livre distribuição, como exercício de Dharma. Aqueles que desejarem oferecer uma doação ao Templo orientado por Thich Nhat Hanh, podem envia-la para o seguinte endereço:
Transcription Project
Plum Village - Lower Hamlet
Meyrac, Loubes-Bernac, 47120 FRANCE
Site do Templo: http://plumvillage.org/