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O BUDHA NÃO ERA BUDISTA

por Karma Tenpa Dharguye

Quando Shakiamuni o Budha deu ensinamentos ele não pretendia criar uma religião, mas movido por sua compaixão aspirava libertar os seres do sofrimento. Budha na realidade não ensinava budhismo, mas apenas dava ensinamentos e práticas em diversos níveis, de acordo com a capacidade de cada um, para que os seres pudessem se libertar do samsara, a existência cíclica. O budhismo não é apenas mais uma filosofia, uma psicologia, uma terapia ou uma religião ou mesmo uma ciência (embora se utilize delas para seu objetivo).

Como diz Namkhaï Norbu Rinpoche:

Vivemos em nossa dimensão humana limitada. Colocamos tudo em uma caixa limitada, inclusive nosso mestre, nosso maravilhoso mestre que nos está proporcionando ensinamento para solucionar este tipo de problema e limitação, muito facilmente o colocamos em uma caixa limitada. Até o ensinamento do Budha se desenvolve de um modo limitado. Não obstante, desde o começo o Budha nunca ensinou algum tipo de limitação. Nem sequer disse: "Meu ensinamento se chama budismo e é diferente dos outros". Ele disse que havia descoberto um conhecimento além das limitações e que queria comunicar esse conhecimento a todos os seres humanos. Ainda que Budha dissesse isso e tratasse de comunicá-lo repetidamente, as pessoas não podiam entendê-lo. Vemos que tão logo Budha manifestou o Parinirvana, sua manifestação da morte, imediatamente seus discípulos se dividiram em dezoito escolas diferentes, e cada uma delas dizia: "Nosso ponto de vista é exatamente o que disse Budha". Todos tinham um pedacinho da verdade, porém não toda a verdade semelhante ao exemplo que o Budha deu sobre os cegos que queriam saber como era o elefante.

Através de um ponto de vista como este nunca descobriremos o significado real que existe além dele.

Segundo o Tantra Dode Kalpa Zangpo, o Buddha disse:

"Manifestei-me de um modo onírico para seres oníricos e dei um dharma onírico, mas na realidade nunca ensinei e nunca apareci".

O Budha manifestou-se de uma forma relativa, para seres relativos. E deu ensinamentos relativos, mas de um modo absoluto nunca apareceu, pois sua essência é o Dharmakaya a vacuidade, como também jamais poderia colocar a Verdade Absoluta em palavras, pois toda linguagem é relativa.

No Vajracchedika Sutra lemos:

Os Grandes, Que São Perfeitos Além dos Ensinamentos, Não Enunciam nenhuma Palavra de Ensino.

"Subhuti, o que pensais? O Tathagata atingiu a Realização do Incomparável Esclarecimento? Tem o Tathagata um ensinamento para enunciar?"

Subhuti respondeu: "Como entendo as palavras do Buddha, não há nenhuma formulação de Verdade chamada Realização do Incomparável Esclarecimento. Além disso, o Tathagata não tem nenhum ensinamento elaborado para enunciar".

Por quê? Porque o Tathagata disse que a Verdade está além da compreensão e é inexprimível. Ela nem é nem não é". "Assim é, portanto, que este Princípio Não-Formulado vem a ser a fundação dos diferentes sistemas de todos as sábios".

E ainda segundo o mesmo Sutra:

Palavras não podem expressar a Verdade.

Aquilo que as Palavras expressam não é a Verdade.

"Subhuti, não afirmeis que o Tathagata concebe a idéia: ‘Eu indiquei um Ensinamento’. Pois se qualquer um disser que o Tathagata indicou um Ensinamento esta pessoa realmente calunia o Buddha, e é incapaz de explicar o que ensino. Para qualquer sistema que pretenda declarar a Verdade, a Verdade de fato não é declarada; apenas damos a estes sistemas o nome de ‘uma declaração da Verdade".

Até os próprios Ensinamentos são relativos, pois as palavras não podem descrever e conceituar o Absoluto, são como sinais de trânsito apontando o caminho para a Verdade, mas não são a própria Verdade. Na realidade o caminho também não existe porque a Verdade não vai nem vem, sempre esteve aqui e agora conosco, o tempo todo desde sempre, não havendo necessidade de dar um só passo para encontrá-la.

Lemos no Maha Prajna Paramita Sutra:

"Na realidade não há olhos, nem ouvidos, nem nariz, nem língua, nem sensibilidade do contato, nem mente. Não há visão, audição, olfato, gustação, tato, nem processo mental, nem objetos desse processo mental, nem conhecimento, (consciência) nem ignorância. Não há destruição de objetos ou cessação de conhecimento, nem cessação de ignorância.

Na Realidade não existem as Quatro Nobres Verdades: não há Dor, nem causa da Dor, nem cessação da Dor, nem Nobre Caminho que leva à cessação da Dor. Não há decadência ou morte, nem destruição da noção de decadência e morte. Não há o conhecimento do Nirvana, não há obtenção do Nirvana, nem não-obtenção do Nirvana".

Como observa D.T. Suzuki:

"No caso do Budha, uma convicção real e pessoal sobreveio primeiro; depois, veio a construção lógica, para dar apoio à convicção. Na verdade não importava muito que essa construção fosse satisfatoriamente completada, pois a convicção, isto é, a própria experiência, era um fato consumado".

"Em nossa vida diária, estamos sempre discutindo coisas a partir da premissa de uma experiência tão arraigada na consciência que não conseguimos nos livrar dela. E estamos, por isso, escravizados a ela. Quando despertamos para a realidade desta escravidão, ingressamos na vida religiosa e é nessa vida religiosa que a experiência é tudo em tudo, não havendo necessidade alguma da lógica. Para algumas mentalidades, o Budismo parece racionalista por causa da referência que faz às Quatro Nobres Verdades, à Roda da Vida, ao Caminho Óctuplo etc... Mas devemos nos lembrar de que todas estas construções sistemáticas se seguiram à experiência por que passou o Buda sob a árvore Bodhi ".

Segundo esses ensinamentos aprendemos que todos os seres têm a natureza búdica perfeita, não há nada a ser adquirido ou modificado, apenas devemos descobri-la.

Somos todos Budhas, mas esquecemos disso! E para nos lembrarmos recorremos aos ensinamentos dos mestres.

O Budha disse ainda:

"Apesar de eu não ter aparecido em lugar algum, apareço em todos os lugares para aqueles que gostam da aparência".

Para aqueles que não gostam da aparência, sou sempre a vacuidade.

Apesar de eu nunca ter falado, falo para aqueles que gostam do som. Para aqueles que não gostam do som, permaneço silente.

Apesar de minha mente nunca ter pensado qualquer coisa, para aqueles que pensam que minha mente é onisciente, ela é onisciente. Para aqueles que pensam que minha mente não existe, minha mente não existe.

Quem quer que queira me ver gradualmente pode me ver gradualmente. Quem quer que queira me ver instantaneamente pode me ver instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade do meu corpo.

Quem quer que queira me ouvir gradualmente pode me ouvir gradualmente. Quem quer que queira me ouvir instantaneamente pode me ouvir instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade da minha fala.

Quem quer que queira conhecer minha mente gradualmente pode conhecer minha mente gradualmente.

Quem quer que queira conhecer minha mente instantaneamente pode conhecer minha mente instantaneamente. Tudo o que for desejado será atingido. Esta é a qualidade da minha mente".

Todas as escolhas, todos os caminhos são relativos como pontos no espaço, mas estes são também espaço. O relativo é o absoluto e não podem ser separados.

Segundo Muntik Trengwa:

A essência primordialmente pura é despida de toda base de expressão:

A natureza espontaneamente realizada é perfeita não importa em qual aparência".

O mestre Padmasambhava disse:

A consciência fresca no presente

Tem uma essência vazia, o Corpo Absoluto;

Uma natureza luminosa, o Corpo de Felicidade,

E um modo de emergência variado, o Corpo de Aparição.

Não podemos procurar o Budha alhures.

Mesmo meditando, permaneçamos no frescor de quem não medita;

Mesmo olhando, permaneçamos no frescor de quem não olha;

Mesmo nos apegando, permaneçamos no frescor de quem não se apega;

Mesmo nos projetando, permaneçamos no frescor de quem não se projeta;

Mesmo reabsorvendo, permaneçamos no frescor de quem não reabsorve;

Mesmo distraídos, permaneçamos no frescor não distraído;

O que quer que surja, esse frescor que está em nós.

É um estado claro como o oceano límpido;

Onde felicidade, claridade e ausência de discursividade estão espontaneamente presentes.

Sob a árvore bodhi, antes do amanhecer, Sidharta Gautama percebeu diretamente a estrela da manhã, e despertou além de todo despertar, exclamando:

"Eu, a vasta terra e todos os seres somos iluminados manifestamos sem esforço o grande caminho. Sou o universo vivo. Sou os seis reinos da transmigração. Tudo isso, funcionando harmoniosamente, já é a iluminação".