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O fogo da atenção
Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro"Sempre Zen"

Por volta da década de 20, quando eu devia estar com mais ou menos oito ou dez anos e vivia em Nova Jersey, onde os invernos são pesados, tínhamos um fogareiro em casa que funcionava a carvão. Era um grande acontecimento no quarteirão, quando o caminhão de entrega parava e tudo aquilo se despejava pela porta basculante para dentro do reservatório apropriado, no porão. Aprendi que havia dois tipos de carvão que apareciam no reservatório: o antracito, carvão duro, e a lignita, hulha gorda. Meu pai me ensinou a diferença na combustão dos dois tipos. O primeiro queima de forma limpa, deixando pouca cinza. O segundo deixa muita cinza. Quando queimávamos lignita, o porão ficava coberto de fuligem e parte dessa poeira subia a escada e entrava pela sala de visitas. Minha mãe costumava falar alguma coisa sobre isso, eu me lembro. À noite meu pai abafava o fogo e eu também aprendi a fazê-lo. Abafar o fogo quer dizer cobri-lo com uma fina camada de carvão e depois fechar a passagem de oxigênio para o fogareiro, de modo que o fogo permanece em estado de lenta combustão. Durante a noite, a casa fica fria e, de manhã, o fogo precisa ser atiçado e a passagem de oxigênio aberta; aí, o fogareiro consegue aquecer a casa.

O que tudo isso tem em comum com nossa prática? Esta refere-se à ruptura de nossa identificação exclusiva com nós mesmos. Este processo é, às vezes, chamado de purificação da mente. "Purificar a mente" não implica que você se torne santo ou uma outra pessoa que você não é. Significa, sim, eliminar aquilo que impede uma pessoa — ou um fogareiro — de funcionar no melhor de sua capacidade. O fogareiro funciona melhor com o antracito. Mas, infelizmente, estamos repletos de hulha gorda. Na Bíblia, ha um ditado: "Ele é como o fogo de uma refinaria". Esta é uma analogia comum, encontrada também em outras religiões. Sentar-se do começo ao fim de um sesshin é estar no meio de um fogo de refinaria. Eido Roshi certa vez revelou: "Este zendo não é um céu de beatitude e, sim, uma fornalha para a combustão de nossas desilusões egoístas". O zendo não é um lugar para estados de graça e relaxamento; é uma sala de queima e combustão de nossas desilusões egoístas. Que instrumentos precisamos utilizar? Só um - todos já ouviram falar dele, mas empregam-no muito pouco. Chama-se atenção.

A atenção é a espada afiada e escaldante, e nossa pratica refere-se a usá-la tanto quanto pudermos. Ninguém está muito disposto a empregá-la, mas, quando o fazemos mesmo Que seja por poucos minutos — acontecem um certo cortar e um certo queimar. Toda prática tem por meta aumentar nossa capacidade de prestar atenção, não só no zazem como em todos os instantes de nossa vida. Ao praticar o sentar, percebemos que nosso processo de pensamentos conceituais é unia fantasia, e, quanto mais o absorvemos, mais aumentará nossa capacidade de prestar atenção à realidade. Um dos grandes mestres chineses, Huang Po, comentou: "Se você conseguir libertar-se apenas do pensamento conceitual, terá conseguido tudo. Porem, se vocês, aprendizes do Caminho, não se libertarem do pensamento conceitual num instante, mesmo que se esforcem anos a fio, jamais se realizarão". "Libertamo-nos do pensamento conceitual" quando, mediante uma observação persistente, reconhecemos a irrealidade de nossos pensamentos autocentrados. Então, podemos permanecer indiferentes e fundamentalmente frios em relação a eles. O que não quer dizer sermos pessoas frias; pelo contrário, significa que não somos tragados nem presos pelas malhas das circunstâncias.

A maioria não é bem assim. Desta maneira, logo que iniciamos nosso dia de trabalho, descobrimos que não estamos absolutamente calmos. Temos muitas opiniões e julgamentos emocionais a respeito das coisas, e nossos sentimentos são magoados com facilidade. Não somos de modo algum "indiferentes e fundamentalmente frios" diante do que acontece. Por isso, é muito importante lembrar que o principal propósito da prática do sesshin e essa combustão para eliminar os pensamentos, mediante o emprego do fogo da atenção, de tal sorte que nossa vida possa ficar indiferente e fundamentalmente fria perante as circunstâncias externas. Não creio que exista alguém aqui a quem isso seja inteiramente verdadeiro. No entanto, nossa prática é fazer isso. Se de fato conseguíssemos queimar nossos apegos até o fim, não haveria necessidade de praticar o sentar. Porém, não creio que exista alguém capaz disso. Precisamos de um período diário adequado para o zazen, no qual ficamos prestando atenção naquilo que se passa em nosso corpo e em nossa mente. Se não praticamos o sentar com regularidade, então não conseguimos compreender como a maneira pela qual lavamos nosso carro, ou lidamos com nosso supervisor é, absolutamente, nossa prática.

O mestre Rinzai disse: "Não podemos resolver o carma passado exceto em nossa relação com as circunstâncias. Quando for hora de nos vestir, coloquemos as roupas. Quando for para darmos uma volta a pé, caminhemos. Não tenha um único pensamento em sua cabeça a respeito de buscar o estado do Buda". Certa vez alguém me perguntou: "Joko, você acha que algum dia encontrará o grande e último estágio da iluminação?". Respondi: "Espero que um pensamento como esse nunca me ocorra". Não há tempo ou lugar especiais para a grande iluminação. Como o mestre Huang Po costumava dizer: "De forma alguma faça distinção entre o Absoluto e o mundo do sensível". Não é nada além de estacionar o carro, vestir-se, dar uma volta a pé. Mas, se o que estamos queimando é hulha gorda, não compreenderemos isso. Hulha gorda significa apenas que a combustão em nossa vida não está limpa. Somos incapazes de queimar até o fim cada circunstância, tal como a encontramos. A razão para isso é sempre nosso apego emocional à circunstância. Por exemplo, talvez seu patrão lhe peça para fazer algo que não é razoável. Nesse momento, qual é a diferença entre a combustão de um antracito e a de uma hulha gorda? Ou, imaginemos que estamos procurando um emprego, porém o único trabalho que conseguimos encontrar é algo de que não gostamos. Ou nosso filho está com dificuldade na escola... Para lidar com tudo isso, qual é a diferença entre a hulha gorda e o antracito? Se não há um pouco de compreensão dessa diferença, teremos perdido as horas que passamos no sesshin. A maior parte desta platéia está em busca do estado de Buda. Contudo, este estado é o modo como você resolve a situação com seu chefe ou seu filho, com o amante ou parceiro, ou seja lá quem for. Nossa vida é sempre absoluta: isto é tudo que existe. A verdade não é uma outra coisa qualquer. Porém, temos mentes que ficam tentando queimar o passado ou o futuro. O presente vivo — o estado de Buda — raramente é encontrado.

Quando o fogo do fogareiro é trabalhado, e você quer obter chamas brilhantes e vivas, o que faz? Aumenta a entrada de ar. Somos também como o fogo, e, quando a mente se aquieta, podemos respirar mais fundo: a entrada de oxigênio aumenta. Nossa combustão produzirá uma chama mais clara e limpa, e nossas ações transpiram essa qualidade. Em vez de tentarmos resolver na mente que espécie de ação executar, precisamos apenas purificar nossos alicerces, e a ação fluirá daí. A mente aquieta-se, porque a observamos em vez de ficarmos perdidos dentro dela. A respiração, então, se aprofunda e, quando de fato o fogo pegar, não haverá nada para ser consumido. Quando esquentar o suficiente, não haverá eu, porque, então, o fogo estará consumindo tudo; e não há separação entre eu e o outro. Não gostamos de pensar a nosso respeito como seres apenas físicos. No entanto, toda a transformação ensejada pelo sentar é de ordem física. Não é algo milagroso que ocorre em nossa cabeça. Quando queimamos hulha gorda estamos usando de maneira equivocada nossas mentes; então, ficam bloqueadas por fantasias, opiniões, desejos, especulações e análises, e tentamos encontrar o modo correto de agir a partir desse nevoeiro. Quando alguma coisa dá errada em nossa vida, o que tentamos fazer? Sentamo-nos, tentamos entender o que aconteceu, remoemos a coisa toda, fazemos hipóteses a respeito. Não adianta nada. O que de fato resolve é prestar atenção a nossas aberrações mentais, que não são o verdadeiro pensar. Observamos nossos pensamentos emocionais: "É, na realidade, não consigo suportar aquela mulher! Ela é terrível!". A única coisa que fazemos é prestar atenção. Depois, conforme mente e corpo se aquietam e o fogo queima com mais resplandecência e clareza, destas chamas provirão o verdadeiro pensamento e a capacidade de tomar decisões adequadas. A centelha criativa de todo trabalho de arte origina-se, do mesmo modo, dessa espécie de chama.

Queremos pensar. Queremos especular. Queremos fantasiar. Queremos entender tudo. Queremos conhecer os segredos do universo. E quando fazemos tudo isso, o fogo está abafado, não está recebendo nenhum oxigênio. Então, imaginamos por que adoecemos física e mentalmente. A combustão está tão obstruída que nada além de fuligem grossa pode resultar. Essa fuligem não nos suja apenas; suja tudo o que estiver em volta. Por isso, é importante sentar todo dia; senão, o entendimento do processo de combustão fica tão obscurecido e indistinto que o fogo se mantém abafado. Temos de praticar todo dia. Mesmo dez minutos de zazen é melhor do que não fazer nada. Os sesshins também são essenciais para os praticantes sérios. A prática diária do sentar pode manter em combustão constante um fogo de baixa intensidade, mas, em geral, não chega a fazê-lo incandescer ao máximo.

Portanto, prossigamos só com o sesshin. Não há nada que você não confrontará antes de aceitá-lo do começo ao fim: ira, ciúme, estado de graça, tédio. Observe-se quando estiver preso a um sentimento de autopiedade, ou aos problemas de sua vida, ou àquele estado "terrível" em que sua existência se encontra. Esse é seu enredo. A verdade é que apreciamos muitíssimo nosso próprio enredo. As pessoas dizem que desejam se livrar de seus problemas. Quando ficamos remoendo nossas desgraças prediletas, conseguimos nos manter como o centro artificial do universo. Adoramos nossas dores. Gostamos de nos queixar, de nos torturar e de nos lamentar. "Mas não é mesmo horrível! Estou tão só! Ninguém me ama!" Temos muito carinho por nossa hulha gorda. Entretanto, a indiscriminação de uma combustão incompleta pode ser trágica para mim e para vocês. Façamos nossa prática corretamente.