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Arte, Ciência e Espiritualidade


Havia um grande mestre, um meditante, chamado Mahamati. Certa vez, quando o Buda esteve no Sri Lanka, este mestre lhe fez 108 perguntas. A primeira pergunta foi, "como a mente se engana?". Esta é uma pergunta muito importante, ela é crucial dentro do budismo. As diferentes tradições em geral também colocam a origem de todos os males no engano.

Os ensinamentos budistas sobre a mente buscam localizar uma região de estabilidade e certeza além das mudanças e da ilusão aparente das coisas. Assim a pergunta de Mahamati é uma pergunta fundamental. Se eventualmente seguimos o caminho espiritual sem esse tipo de consciência sobre o engano, é provável que este caminho espiritual se desfaça inesperadamente, como um castelo de areia. O que parecia seguro e estável, repentinamente desmorona. Então é preciso entender que a questão do engano é fundamental para entender a estabilidade além do engano.

O caminho espiritual essencialmente é a busca da estabilidade, daquilo que é perfeito, imutável. Nossa experiência cíclica está baseada no nosso vínculo aos processos transitórios. E, é claro, não nos vinculamos aos processos transitórios porque pensamos que são auspiciosos, fazemos isto sem dar-nos conta de que a transitoriedade nos trará problemas depois. Se tivéssemos clareza nisso, certamente que nossa atitude seria diferente. A base da experiência confusa, cíclica, está justamente em um engano. Este é seu ponto focal. Como o Buda diz, "temos tomado o ladrão como nosso filho predileto, temos tomado o engano como nossa segurança".

As diferentes tradições espirituais descrevem diferentes fontes de segurança, e nos explicam meios de superar isso. Mas essencialmente lidam com a questão do engano e como superá-lo. No que diz respeito à ciência, a situação é parecida. O cientista olha a impermanência de suas teorias como um problema. Todo cientista busca uma visão definitiva sobre as coisas, é como se também trilhasse um caminho espiritual. Ele tem uma fé, é quase uma posição
espiritual. Ele acredita que pode entender como o universo funciona, e baseado nessa fé surpreende-se com a impermanência de suas próprias visões e teorias. Em geral ele não está consciente deste processo. Embora a questão do engano seja também fundamental para a ciência, ela não passa pela investigação da mente. A ciência utiliza a mente de forma intuitiva. Nenhum cientista pára para pensar como sua mente funciona. Eu mesmo cruzei da ciência para a espiritualidade exatamente nesse ponto. É uma ingenuidade da ciência não dar atenção aos aspectos internos de como isso se configura nesse nível. Apesar disso, todo cientista realmente busca superar o engano e gerar uma teoria realmente sólida.

Quando os meditantes encontram uma lucidez sobre o processo de operação da mente, eles se defrontam com uma operação mental oculta que se dá na atribuição de significado e na percepção mesmo das coisas, essa operação mental é tão automática que de riscos sobre uma folha de papel surge um cubo. Essa operação mental que faz inflar uma terceira dimensão nos riscos bidimencionais permanence oculta, ela é completamente automática.

A arte tem um papel fundamental nesse aspecto, muitos artistas encontraram essa dimensão e alcançaram lucidez sobre esse processo. A própria manifestação artística joga lucidez sobre o processo da mente, as gravuras do Escher são uma denúncia de nosso automatismo. Ele cria um absurdo, mas é um absurdo lógico. Operamos naquele âmbito com a mente, não há problema algum. Mas aquilo é impossível, o que vemos não pode ocorrer. Através da arte de Escher podemos localizar um incômodo, localizamos uma região onde os significados brotam. Quanto os
significados não são contraditórios, não percebemos essa operação da mente. Escher faz-nos afirmar, "isso não é possível", e a mente confronta-se com a própria mente, uma percebe a outra operando. Isso é uma ponta que nos leva a perceber uma operação mental sutil que nos mantém presos a universos específicos.

A arte de Salvador Dali, o surrealismo, também nos incomoda. Ele não faz nada de acordo com o que esperamos. Os bichos tem patas fininhas, e os relógios são tortos. Mas esse incômodo é um incômodo sutil: vemos um relógio, mas essa é a construção mental de um relógio, não um relógio de fato. Operamos automaticamente com essa função semelhante a que gera o cubo. Essa dimensão nos aprisiona, Dali nos revela isso, ele apenas colocou tinta sobre pano, mas aquilo nos incomoda. É uma denúncia disso. Se fosse Rembrant, não haveria nenhum incômodo. Dali prefere apontar uma natureza secreta. Essa natureza secreta que a arte freqüentemente aponta é a mesma operação que engana o cientista, e a mesma que engana os seres e que os fazem ansiarem a espiritualidade. É a mesma região que faz uma pessoa que quer ser pacífica, ter raiva no momento seguinte, ou que não quer comer açúcar, mas no instante seguinte come açúcar, que não quer ter inveja, mas que no instante seguinte tem inveja...

Essa região é experimentada por todos os seres, então é uma região que conecta a arte, ciência e espiritualidade. Mas se limitamos isso ao surrealismo, seria injusto, incorreto. De fato está em Rembrant também, no cinema, na poesia, na música. Na experiência da beleza ou da feiúra, se percebemos o pano e a tinta, percebemos o processo que nos provoca emoções, sentimentos, aversão, beleza. Podemos pensar na beleza feminina que o Rembrant pintou: como ela continua bela até os dias de hoje? A experiência de beleza é além do espaço e do tempo. Continuamos achando bonitas aquelas pessoas que já viraram pó há centenas de anos. É apenas tinta e pano, como surge a beleza ali? É um surgimento dessa região sutil, a arte existe completamente baseada nessa região sutil. É a mesma região que atormenta o cientista, e a mesma que causa todos os problemas da espiritualidade, como no caso dos praticantes que tomam votos, mas percebem que os problemas continuam surgindo.

Transcrição e revisão por Padma Dorje [Eduardo Pinheiro]