Ensinamento Maha Ati de Chogyam Trungpa

Rigdzin Shikpo fala de como recebeu o ensinamento Maha Ati de Chogyam Trungpa [Abertura Completa, Perfeição Natural e Espontaneidade Absoluta]

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A árvore da vida

Do site The Chronicles of Chögyam Trungpa Rinpoche
Via Bill Scheffel / Bursa

Rigdzin Shikpo fala sobre Chögyam Trungpa (clique aqui para ouvir o depoimento — em inglês — no site The Chronicles of Chögyam Trungpa Rinpoche, e aqui para visitar o site da Longchen Foundation, de Rigdzin Shikpo):

Eu e um amigo encontramos Trungpa Rinpoche pela primeira vez em 1965, em Londres. Ambos havíamos ficado impressionados com seu ensinamento, e perguntamos se poderíamos encontrá-lo para conversar mais e receber algum ensinamento em seu apartamento em Oxford, que ele chamava de Anitya, que significa “impermanência”. Fomos até lá e lá passamos um longo fim de semana, chegando na sexta-feira, recebendo alguns ensinamentos à noite, passando lá o sábado e o domingo, e recebendo algumas instruções finais na manhã de segunda-feira. O mais surpreendente para nós nesse período foi o entusiasmo dele em ensinar-nos algo do Dzogchen ou Maha Ati, como ele chamava. Talvez não tenhamos percebido na época quão profundo aquele ensinamento era, mas no entanto foi algo que nos impressionou e causou uma forte impressão em nós, e na verdade algo que permanece conosco até o hoje.

O primeiro aspecto do ensinamento que ele queria nos dar era um aspecto muito prático, e é o ensinamento que ele chamava de abertura completa. Ele dizia que era dessa maneira que tínhamos de agir diante de todos e de todas as situações que encontrássemos, tínhamos de ser completamente abertos, com uma mente sem nenhum preconceito, e tínhamos de treinar-nos dessa maneira particular. E que esse era o principal aspecto da essência da própria meditação sem forma, e não importa que tipo de coisa surja na meditação, não importa quão emocional seja, não importa quão confusa a qualidade de abertura, abrir-nos a nós mesmos para o que está lá era algo que sempre tinha de estar presente. Não se tratava de ser indulgente com a experiência, mas de permitir a nós mesmos senti-la de uma maneira completa, e então sermos capazes de abrir mão dela quando tivéssemos feito isso. Assim, a essência da meditação sem forma era realmente esse ensinamento de abertura completa. E a abertura completa não era apenas uma instrução de meditação, mas ele dizia simplesmente que tudo era completamente aberto por natureza. Não importa o quê, a natureza de tudo que encontrássemos, todas as situações e todas as pessoas, não importa como seja a experiência, abertura completa era o principal.

Outra coisa que ele mencionou na época: ele dizia que não se trata apenas de as coisas serem abertas, o que alguém talvez pudesse interpretar como algum tipo de vacuidade absoluta, mas também de que as coisas formam algum tipo de padrão coerente de maneira igualmente natural. e ele chamava isso de perfeição natural. Na medida em que as coisas se manifestam a nós naturalmente em nossa vida e em nossa experiência, elas formam padrões que possuem sentido e significado, de uma maneira que algumas vezes ele descrevia como o princípio do mandala. Não há nada que não seja significativo ou que não tenha valor. E não há nada que possamos dizer sobre nossa experiência que não a faça perfeita. Mesmo que estejamos experimentando algo negativo, então, a perfeição envolvida nisso é, é claro, o fato de termo-nos fechado ou termos interferido de alguma maneira no fluxo natural ou na expressão natural desse padrão, e ao fazer isso, o padrão mudou e transformou-se em um tipo diferente de padrão natural, que poderia parecer para nossa mente um tanto confuso ou um tanto negativo, mas é simplesmente o resultado natural de nossa participação nesse padrão, junto com a participação de todos os outros seres e de tudo que resultou naquela situação natural.

O importante na vida e em como nos comportamos era ver esse tipo de padrão natural acontecendo e acompanhá-lo, não no sentido, mais uma vez, de ser indulgente com ele, mas no de ser capaz de experimentá-lo e de abrir-nos a ele e então o terceiro aspecto, que ele descrevia como muito importante, que era o de permitir que surgisse a qualidade da espontaneidade absoluta. Espontaneidade absoluta não é realmente algo sobre o que possamos dizer: “Vou ser espontâneo”; isso, é claro, não faz nenhum sentido, e não poderíamos de nenhum modo fazer surgir a espontaneidade, é claro, mas é possível criar algum tipo de base para que surja a espontaneidade, e nesse sentido o que é importante é não ter ideias preconcebidas e sólidas sobre noções de causalidade, por que pensamos que as volições que temos deveriam surgir de uma maneira particular, por exemplo: “Bem, penso que é dessa maneira porque é assim que eu sou”, ou “Penso que é dessa maneira porque a força de minhas noções fazem-me pensar assim”; mas na verdade, se nos permitimos nos abrir para algo daquela base da qual surgem as ações, compreendemos que as ações que chamamos de “nossas” não surgem absolutamente do ego, elas não são centradas no ego, e surgem simplesmente de uma base que, na verdade, está além do pensamento, além de conceitos. Poderíamos dizer que é como uma fonte de bondade, que todas as ações são fundamentalmente boas por natureza. Quando parece que não funcionam e que há alguma negatividade envolvida, é possível ver que são as modificações ou como nos fechamos ante a experiência que produz negatividade, e nos faz pensar que talvez tenhamos feito aquela ação particular, e o egocentrismo envolvido nisso faz com que não seja um ato espontâneo. Teríamos de reunir os três, a perfeição natural de tudo, a abertura completa e a espontaneidade, tudo junto, e era possível na experiência geral da vida e na prática budista criar uma unidade completa dessas três coisas, e então, ao fazer isso, temos a experiência do que é chamado de árvore da vida. Que tudo o que surge tem algum significado ou valor, que nada na vida deve ser considerado um evento acidental, que tudo tem a ver com dharma, que tudo é o dharma vivo, como ele às vezes dizia, que neste dia o dharma quer que eu faça essa coisa particular, ou o dharma quer que eu faça aquilo — isso é algo que obviamente temos de descobrir por nós mesmos — mas sua ideia era que o dharma está vivo com essas três qualidades particulares, e essa era a base, para ele, de todo o dharma e, em particular, daquela meditação sem forma.

E como eu disse, isso era algo que ele disse que deveríamos ter no coração, e fizemos o melhor, e é claro que mesmo naqueles finais de semana com instruções era algo que vinha direto de sua boca, e quando voltamos para nosso hotel e começamos a meditar dizíamos a nós mesmos: “Bem, não podemos forçar a meditação para que seja de uma maneira em particular ou moldá-la de uma certa maneira”, mas é claro que não conseguíamos não guiar a meditação um pouco, impelindo-a em uma direção particular. Foi preciso anos para aprender a abandonar-nos a essa qualidade de espontaneidade e confiar na perfeição natural, e compreender que a abertura completa é o único caminho.

Colaboração de Eduardo Carvalho

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