Gyôji – Prática Incessante


Gyôji – Prática Incessante

de Eihei Dogen Zenji
Capítulo 66 do Shôbôgenzô
Adaptado da tradução do monge Ryokyu Marcos Beltrão.

Por certo que no Grande Caminho dos buddhas e ancestrais existe a prática suprema e incessante, infindavelmente. Não existe separação entre o primeiro despertar da mente, a prática, a compreensão e o nirvana; a prática incessante continuamente se desenrola. Chegarmos a esta prática não depende de poderosas forças individuais, muito menos do espírito de terceiros. Isto é a prática incessante. A virtude desta prática incessante é o que nos mantêm, bem como aos demais ao redor de nós. Isto preenche o céu e a terra e a tudo influencia com sua virtude. Apesar de podermos por enquanto estarmos inconscientes da prática incessante, mesmo assim é desta forma que ela acontece.

Assim, é da prática incessante de todos os buddhas e ancestrais que emerge nossa própria prática incessante, e com isto podemos chegar a alcançar o Grande Caminho. Por outro lado é de nossa própria prática incessante que emerge também a prática incessante de todos os buddhas, e com isto é que todos os buddhas alcançam o Grande Caminho. De nossa própria prática incessante emana uma virtude infindável. Segue-se que todos os buddhas e ancestrais vivem eternamente como buddhas, transcendem Buddha, possuem a mente de Buddha, e chegam com isto a ser o que são: buddhas. Com esta prática incessante, é que o sol, a lua e as estrelas se deslocam pelo firmamento afora, e a grande terra, o espaço sideral, o corpo e mente corretos e os quatro elementos e os cinco agregados têm sua existência e razão de ser. A prática incessante não pode ser encontrada em lugares que pessoas mundanas exerçam seus poderes e influência, e contudo todos no mundo a ela regressam. É através da prática incessante de todos os buddhas do passado, presente e futuro, que todos os buddhas do passado, presente e futuro emergem. A virtude da prática incessante não pode ser oculta por nada deste mundo; é desta forma que a mente tem seu primeiro despertar e a prática é começada. Esta virtude, contudo, não se revela de pronto, e ainda neste estágio não pode ser vista ou compreendida. Apesar de ainda não estar revelada neste ponto, não creiam nem por um momento que seja algo de oculto.

Já que a prática incessante não pode ser delimitada por categorias de oculto ou revelado, manifesto ou não-manifesto, que não procuremos pois em absoluto a causa da prática incessante: eis que este conhecimento afinal, não é nada de especial. Porque a causalidade é a prática incessante; por outro lado estudemos que a prática incessante não vem a ser a causalidade — eis o que devemos cuidadosamente examinar e plenamente assimilar. Esta prática incessante é a nossa presente prática incessante.

A prática incessante do presente não é a prática incessante do eu mesmo original, não vem nem vai, não existe nem deixa de existir. “No presente” não quer dizer existindo anteriormente ao começo da prática incessante. Isto se refere aquele preciso momento no qual começa a prática incessante. Logo esta prática incessante que dura um dia é de onde surgem todos os buddhas. Com esta prática incessante, todos os buddhas aparecem e suas práticas incessantes acontecem. Quando desprezamos os buddhas, não mais existe então a prática incessante, nem quando os desrespeitamos, nem quando detestamos a prática incessante, muito menos então ao não equacionarmos e identificarmos a vida e a morte com o Buddha, tampouco ela existe ao não estudarmos ou praticarmos. Este mundo em que vivemos de “flores que desabrocham e folhas que caem” é ele mesmo a realização da prática incessante. Polir e depois fazer o espelho em pedaços não é de forma alguma diferente da prática incessante. Logo, aquele que tenta escapulir da prática incessante devido ao seu coração cheio de malícia não o consegue fazer; porque mesmo esta malícia não está fora da órbita da prática incessante. Tentar fingir que a prática incessante não existe é como o filho do homem rico que perdeu seu patrimônio e que vagou por outros países como um mendigo. Eventualmente ele conseguiu recuperar todo seu patrimônio e escapar ao duro karma a que se submetera inconscientemente. Não devemos olvidar por um instante que seja da prática incessante.

Nosso pai compassivo, o grande Mestre, Buddha Shakyamuni, encetou sua prática e vida de Buddha com a idade de dezenove anos; realizava sua prática incessante fundo nas montanhas e com a idade de trinta anos ganhou esta prática incessante e alcançou o Caminho simultaneamente com todas as demais criaturas dos céus e da terra. Até os oitenta anos, Buddha realizou sua prática incessante nas montanhas, florestas e monastérios e jamais regressou ao palácio de seu pai nem prestou qualquer atenção aos assuntos de estado do reino no qual seu pai era rei. Usava sempre o mesmo manto remendado de monge e jamais abandonou sua tigela de mendigar a vida toda, tampouco teve outra. Nunca teve sequer uma hora somente para si mesmo, estando sempre junto com as demais criaturas. Nunca deixava de reverenciar aquilo que merecia e era deveras paciente com as críticas de pessoas no mundo. Sua vida inteira nada mais era que a prática incessante. A dignidade do Buddha, com seu manto puro e sua tigela de mendigar, nada mais é que a prática incessante.

Durante toda sua vida, o ancestral Mahakashyapa, o herdeiro do Dharma de Shakyamuni, realizou doze tipos de prática incessante. Foram elas as seguintes:

  1. Jamais aceitava qualquer convite que lhe fizessem para comer juntos; mendigava sua comida todo dia e jamais em qualquer hipótese aceitava dinheiro extra para ter mais que seu quinhão.

  2. Sempre morava nas montanhas, jamais em cidades, povoados ou casas particulares.

  3. Nunca buscou ter um manto novo e sequer aceitava de quem lhe quisesse oferecer um de presente. 

  4. Dormia sempre nos campos debaixo de uma árvore qualquer.

  5. Comia somente uma vez ao dia.

  6. Jamais se recostava para descansar. Dormia fazendo zazen ou andava para ficar desperto.

  7. Mantinha apenas três mantos. Nunca sentava para o zazen em uma almofada.

  8. Vivia em depósitos de lixo, jamais em qualquer templo, ou junto com as demais criaturas. Fazia zazen defronte dos cemitérios.

  9. Vivia para sempre só. Jamais queria estar perto de quem quer que fosse ou dormir junto a ninguém.

  10. Comia sempre em primeiro lugar frutas e legumes silvestres, e somente depois disto se permitia comer arroz.

  11. Dormia sempre ao relento. Jamais dormiu debaixo de qualquer teto que fosse.

  12. Nunca comeu carne, manteiga de ghee, tempero de qualquer espécie ou óleo.

Estas foram as doze ações que este ancestral realizou por sua vida afora. Mesmo depois de ter ganho o Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro , continuou a viver deste modo e disto nunca arredou pé.

Uma vez Shakyamuni lhe fez a seguinte observação: “Eis que estás envelhecendo. Come a comida costumeira dos monges da sangha!” O venerável Mahakashyapa retrucou, com seu costumeiro destemor: “Se eu não tivesse me encontrado contigo, o Tathagata deste mundo, teria sido para sempre apenas mais um asceta auto-centrado, gastando inutilmente toda minha vida perambulando por aí. Felizmente eu me encontrei contigo, o Tathagata e com isto ganhei o Dharma. Não estou à altura de receber comida comum dos monges.” Shakyamuni elogiou altamente esta sua resposta e sua determinada resolução.

Já que Mahakashyapa insistia em manter tais práticas de vida duríssimas, acabou ficando muito magro, esquelético. Com isto os demais monges começaram a despreza-lo. Observando isto o Tathagata chamou Mahakashyapa e o fez sentar-se ao seu lado na plataforma de palestras. Saibamos pois que era Mahakashyapa o autêntico praticante dentro da sangha de Shakyamuni. As palavras nos faltam se tentarmos sequer começar a descrever o que era a prática incessante de toda sua vida

Durante três longos anos o décimo ancestral Harishiba nem dormiu nem se encostou em lugar nenhum para descansar. Esta façanha ele a realizou com a idade de oitenta anos, e com isto foi designado como herdeiro do Grande Dharma. Como não desperdiçava um instante que fosse durante estes três anos, ganhou a mais elevada compreensão do Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro. Dizem que Harishiba passou sessenta anos no ventre materno, e que já nasceu de cabelo branco. Fez uma promessa que não se recostaria para repousar, e foi desta forma que ganhou a alcunha de “praticante que jamais descansa.” De noite uma luz se irradiava de suas mãos, possibilitando-lhe estudar os sutras. Era isto uma parte de seus inatos poderes milagrosos. Este “praticante que nunca descansa” abandonou sua casa e roupas comuns com a idade de oitenta anos. Um moleque de cidade lhe fez a seguinte observação ferina: “Seu velho idiota. Porque você é tão ignorante? Todos os monges fazem zazen e cantam sutras. Você por outro lado, já era, está velho e acabado demais para praticar assim. Acho que a única razão que te juntaste a sangha, foi para nela ficar encostado, comendo comida de graça”. Depois de ouvir esta crítica tão veemente, Harishiba a aceitou plenamente e se enchendo de coragem tomou a seguinte decisão: “Prometo não mais me recostar até ter chegado a um domínio total do Tripitaka, ter cortado e ido além de todo desejo pelos três mundos, ganho os seis poderes espirituais, e alcançado todos os oito tipos de liberação”. Depois de assim decidir, durante três anos, de dia e de noite fazia o zazen sentado ou em pé, estudava os sutras, e treinava incessantemente. Dominou o Tripitaka, cortou e foi além de todo desejo pelos três mundos, alcançou a verdadeira sabedoria, e se tornou respeitado por todos. Foi desta época em diante que ficou sendo conhecido como o “praticante que nunca descansa”. 

O praticante que nunca descansa estava no ventre materno durante sessenta anos antes do nascimento. Será que ele já estava praticando dentro do útero? Muito depois deste nascimento, já com oitenta anos de idade, renunciou ao mundo e começou sua prática do Caminho. Isto pois aconteceu exatamente cento e quarenta anos depois de ter sido concebido. Isto é fora de série, ninguém poderia ser tão velho; ele já era um velho dentro do útero materno e mais velho ainda era após seu nascimento. Às críticas dos tolos de sua época ele respondia com sua prática. Dentro do curto prazo de três anos, ele ganhou a prática incessante do Caminho. Tomemos o máximo cuidado então: Escrevamos para não nos esquecermos que “Devemos observar os sábios e agir de acordo”. Não devemos perturbar os mais idosos. Este tipo de nascimento é deveras difícil de se compreender. Será que foi nascimento mesmo ou não? Ele era um velho ou não era? Existem pontos de vista conflitantes quanto a isto. O mais importante é a decisão de se praticar o Caminho com todo o esforço. Devemos compreender que o elemento essencial é que dentro da prática podemos ver o que são a vida e a morte, e não que dentro de nossa vida podemos praticar um certo tempo.

As pessoas de hoje em dia crêem que ao chegar aos trinta, sessenta, ou oitenta anos de idade devam deixar suas práticas de lado. Pura bobagem. Contar meses e anos desde que nascemos é apenas a tola convenção de pessoas comuns. Nada tem a ver com o Caminho buddhista. Não devemos nos preocupar em sermos moços ou velhos; somente devemos estar anelantes pelo Caminho. Devemos agir como o praticante que nunca descansava. Nossas vidas nada mais são que um punhado de pó proveniente de um cemitério; que não lhe cheguemos a dar muito valor, ou que não fiquemos apegados a ela. Se não tivermos esta resolução correta, quem se nos apiedará? Ao vermos um cadáver atirado numa sarjeta, devemos detalhadamente observar seu processo de decomposição e com isto chegar a um ponto de vista correto. 

O sexto ancestral era somente um lenhador de Shinshu, província da China. Não teve qualquer educação formal, e o seu pai faleceu quando era ainda moço, tendo sido criado por sua mãe. Quando ela ficou idosa, a sustentava vendendo lenha. Um dia ouviu um verso de um Sutra recitado por um monge itinerante, quando ia para o centro da cidade. Com isto resolveu renunciar ao mundo, se despedindo de sua mãe e começando sua peregrinação para encontrar o grande Dharma. Ele era uma grande figura, um praticante como é difícil achar em qualquer época quem se lhe compare. Com toda certeza, foi mais fácil para o segundo ancestral cortar fora seu próprio braço, que En’o deixar sua mãe desamparada. Romper os laços familiares é da maior gravidade.

Ele treinava como qualquer leigo na comunidade de Obai; dia e noite durante oito meses pilou o arroz que a comunidade consumia. A transmissão correta de ambos a tigela e o manto ocorreu à meia noite. Depois de atingir a compreensão do que vem a ser o Dharma, não se separou do pilão com o qual ajudava a comunidade e durante mais oito meses continuou a descascar o arroz. Mesmo quando já estava instalado como ancestral, ensinando em templos e em monastérios, nunca deixava de lado seu pilão de pedra. Vemos que esta é de fato uma prática incessante muito fora do comum.

Baso de Kosei praticou zazen durante mais de vinte anos, tendo depois disto recebido o selo de transmissão de Nangaku. Ele instruía seus sucessores a jamais em hipótese alguma negligenciarem o zazen. Aqueles que seguiram estas instruções, certamente que herdaram esta tradição de Nangaku. Sempre que havia trabalho a ser feito no monastério, era Baso sempre o primeiro a inicia-lo. Mesmo quando estava já velho ele não se permitiria um relaxamento desta regra estrita. O espírito de Baso pode ser constatado na escola Rinzai como a conhecemos nos dias de hoje.

Ungan e Togo estudaram ambos sob a tutela de Yakusan. Fizeram uma promessa solene de não mais se deitar e a mantiveram durante quarenta anos. Eram de uma força de propósito única. Ungan transmitiu a Lei ao Grande Mestre Gohen de Tozan. Tozan disse, “Para cortar paixões, tenho praticado zazen durante mais de vinte anos”. Podemos agora constatar a influência da lei de Ungan por toda parte.

O Grande Mestre Kogaku do Monte Ungo [Dogo] ficou durante certo tempo numa choupana no Monte Sampo. Ele ali recebia sua comida diretamente dos deuses. Certa vez, ao visitar Tozan , foi finalmente capaz de ganhar o Grande Caminho. Ao retornar a sua choupana, os deuses voltaram a lhe trazer comida, mas Ungo não apareceu durante três dias, porque não mais precisava da ajuda dos deuses já que estava presentemente no Grande Caminho do buddhismo. Devemos pesar com todo cuidado tal forte determinação.

O Mestre Zen Daichi do Monte Hyakujo, desde os dias em que era assistente de Baso quando entrou no parinirvana, trabalhava todos os dias sem exceção para sua comunidade. Foi ele quem nos deixou aquele maravilhoso dito, “Um dia sem trabalho, é um dia sem comer.” Ao pronunciar tal frase, ele era já um homem idoso; trabalhava sempre tão duramente quanto qualquer monge jovem. Todos ficavam com pena dele, e se lastimavam, mas ele simplesmente se recusava a parar nem que fosse por um só minuto de trabalhar. Chegavam até a esconder suas ferramentas de trabalho, para que ele descansasse, e neste momento Hyakujo se recusaria comer qualquer coisa, porque sentia que não estava então participando do trabalho da comunidade. Foi aí que se originou este dito: “Um dia sem trabalho, é um dia sem comer”. Diga-se de passagem que na China da dinastia Sung, o estilo de Hyakujo de ensinamento Rinzai, baseado na prática incessante, é popular pelo país afora.

Quando Kyoshin era o responsável por um certo monastério, o deus deste monastério jamais chegou a ver seu rosto, de tão intensa que era sua prática.

O Mestre Zen Gichu do Monte Sanpei recebeu comida diretamente dos deuses. Contudo, depois de se encontrar com o Mestre Daiten, os deuses não mais podiam ver a Gichu.

O Monge Godaii afirmou o seguinte: “Todo este tempo eu tenho estado aqui em Isan, durante cerca de vinte anos. Tudo que aqui tenho feito é comer e fazer cocô. Nunca estudei buddhismo aqui; durante todo este tempo tudo o que fiz foi cuidar de um búfalo.”

Saibamos que este “búfalo” podem ser traduzidos como seus vinte anos de prática incessante como domador de rebanhos de búfalos. Houve certa época em que Godaii praticava na comunidade de Hyakujo. Não devemos jamais esquecer o legado destes seus vinte anos de prática. Talvez que outros tenham praticado em Isan, mas pouquíssimos podem possuir a prática incessante de Isan.

O monge Jushin, ou seja, o Grande Mestre Shinsai de Kannon-in em Joshu, começou sua prática e busca do Caminho já com a avançada idade de sessenta anos. Levando um cantil de água e um cajado, ele peregrinou por toda parte. Tomou então a seguinte resolução: “Se eu me encontrar com uma criança de sete anos, que tiver mais compreensão que eu, lhe indagarei sobre o Caminho; se contudo topar com alguém de cem anos de idade que souber menos que eu, neste caso então lhe ensinarei.”

Desta forma ele praticou o Caminho sob a tutela de Nansen durante mais de vinte anos. Ao atingir a idade de oitenta anos, se tornou monge de Kannon-in em Joshu, e ali instruiu a homens e a deuses por mais de quarenta anos. Durante todo este tempo, ele jamais mandou cartas aos membros do monastério pedindo doações. Seu monastério era diminuto, não tinha sequer sala de entrada. De certa feita um dos apoios da plataforma de meditação se partiu, e ele a emendou com um pedaço de ripa. Durante anos ele continuou a usar aquela plataforma. Os encarregados do templo a queriam consertar, mas ele simplesmente recusou. Devemos estudar a maneira e os costumes deste velho Buddha.

Jushin viveu em Joshu quando tinha já mais de oitenta anos de idade. Ele herdou o Dharma de seu Mestre, tendo-o transmitido então corretamente às demais pessoas. Todos concordavam que ele era um velho Buddha. Aqueles que não receberam a transmissão correta do Dharma verdadeiro lhe são muito inferiores. Aqueles que tem menos de oitenta anos são muito mais fortes fisicamente que ele. Contudo são ainda imaturos e de forma alguma podem ser comparados a um tal sábio experiente. Que neste caso concentremos nossos esforços na prática incessante. Durante mais de quarenta anos ele jamais ligou para riquezas mundanas, mesmo quando não tinha nada para comer. Quando nada tinha para comer, colhia nozes, amoras e frutas silvestres, ou então comeria dia sim, dia não. Assim age um monge autêntico. Devemos seguir firmes em suas pegadas.

Uma vez ele declarou o seguinte aos monges: “Se nunca deixardes o monastério por todas suas vidas, e jamais disserdes uma só palavra durante cinco ou dez anos, ninguém vos chamará de surdos ou mudos. Que mais poderiam neste caso os buddhas fazerem por vós?” São estas as palavras mais douradas e preciosas oriundas da prática incessante. Saibamos pois que mesmo que nada falemos durante cinco ou dez anos e que pareçamos tolos e incapazes, com a prática contínua sem batermos em retirada do monastério ninguém será capaz de nos chamar de surdos e de mudos.

Assim é o Caminho buddhista. Se nunca ouvimos falar do Caminho buddhista, então estas palavras nada significam: “não falar não quer dizer que a pessoa seja surdo e mudo”. A essência contudo da prática incessante é jamais deixar o monastério; jamais deixar o monastério é estar liberto de palavras. 

Os idiotas deste mundo, e os há tantos, não podem ter a menor idéia que seja do que possa significar ser surdo-mudo. Mesmo que os deixemos livremente se expressar, tais pessoas mundanas não conseguem nos mostrar o que é ser surdo-mudo.

Que lastimável que ninguém nos ensine jamais que deixar de falar não quer dizer que sejamos surdos-mudos. Calmamente devemos levar a cabo nossa prática incessante sem jamais deixarmos o monastério. Não devemos ser soprados daqui para ali, como coisas que são sem peso. Se passarmos cinco ou dez anos dentro do monastério, encontraremos aquele Caminho que está além da voz e da forma. Depois disto poderemos chegar a compreender e utilizar o sentido de tais expressões. Devemos perceber que a prática incessante pode estar contida no mais breve dos instantes. Não creias jamais que “não falar seja uma coisa inútil.” Quer seja dentro do monastério ou fora dele, num monastério que não deixe pistas, ou no monastério do mundo, devemos apenas praticar desta forma, e mais nenhuma.

O monte Daibai se encontra em Keigenfu. Naquela montanha existe um monastério chamado Goshogi que foi fundado pelo Mestre Zen Hojo. Este Mestre Zen era natural do distrito de Jogo e praticava na comunidade de Baso. De certa feita ele indagou a Baso: “O que vem a ser Buddha?” Ao que Baso replicou, “Isto que você acabou de perguntar, isto é, nossa mente é o Buddha!” Ao se inteirar de tal, imediatamente Baso chegou à compreensão. Vivia no pico da montanha de Daibai e jamais falava com ninguém. Vivia sozinho numa choupana de palha, comendo pinhas e frutas silvestres, e se vestindo com as folhas de lótus tiradas de um pequeno lago existente nas redondezas. Durante mais de trinta anos ele ali praticou o Caminho do zazen, sendo que a única indicação do ano que tinha eram as mudanças das estações nas montanhas. Haviam certas pessoas que criam ser sua vida de uma miséria mais do que extraordinária. Ao fazer zazen, ele equilibrava uma pilastra de ferro de trinta centímetros em sua cabeça, e como não a podia deixar cair, isto lhe impedia de cair no sono. Esta pilastra foi preservada até hoje, como uma relíquia. Foi desta forma que ele praticou incessantemente até morrer. De certa feita um monge da sangha de Enkan [Saian] entrou fundo nas montanhas procurando madeira para confeccionar um cajado; tendo se perdido naquela região ignota, acidentalmente foi dar onde morava o Mestre.

Ali chegando, lhe perguntou, “Exatamente há quanto tempo vives aqui neste lugar inóspito nas montanhas?” Hojo lhe respondeu: “O único que conheço são as mudanças de cores das árvores, com as estações”. “E diga-me, como se faz para sair daqui, e voltar à civilização?” O Mestre lhe respondeu: “Basta seguir o fluxo do riacho”. O monge, perdido com este diálogo incompreensível, voltou e contou tudo a Enkan. Enkan comentou, “Quando vivia em Kosei, conheci uma vez um monge. Nunca mais ouvi falar dele, com certeza é esta figura que encontraste fundo nas montanhas!” Enkan enviou o monge de volta à montanha para rogar a Hojo que descesse, mas ele firmemente declinou a proposta. Em resposta, compôs o seguinte poema:

Na velha floresta, as árvores centenárias nunca foram cortadas.
Tendo me deparado com muitas primaveras, meu coração permanece imutável.
Nem mesmo o lenhador liga para este local esquecido pelo mundo:
Então o quereria um carpinteiro com isto?

Tendo enviado esta réplica a Enkan, Hojo tratou de entrar num local mais inacessível ainda nas montanhas e compôs então um outro poema:

Os lótus do lago me fornecem tudo que necessito em matéria de roupas,
Tem pinhas para serem comidas à vontade!
Mesmo assim, pessoas mundanas acabaram descobrindo onde eu vivia.
Logo, devo me enfronhar em um lugar que seja por completo inacessível à humanidade.

Numa outra ocasião, Baso enviou um mensageiro até a morada de Hojo, para uma vez mais testar a realização espiritual de Hojo: “Monge, estudaste com Baso anteriormente. Porque estás vivendo isolado do mundo aqui nas montanhas?” Hojo retrucou: “Baso me disse de certa feita: ‘Nossa mente é o Buddha’. Foi por isto que me mudei para cá!” O monge-mensageiro disse, “Agora a Lei de Buddha mudou”. Hojo perguntou: “Mudou como?” O monge disse, “Ultimamente Baso tem dito, ‘Não mente-Não Buddha”’ .” Hojo disse, “Este crápula está tentando me enganar! Mesmo que ele diga, ‘Não mente-Não Buddha’, eu bem sei que ‘nossa mente é o Buddha’.” O monge teve que se contentar com esta resposta, e a levou de volta a Baso, que comentou “A ameixeira amadureceu [O nome de monge de Hojo significava ameixeira]!”.

Esta história se tornou bem conhecida por toda parte. Tenryu foi o discípulo mais destacado de Hojo, sendo que Gutei foi um outro grande discípulo seu. Kyachi, original da Coréia também transmitiu o Dharma de Hojo, tornando-se assim o primeiro ancestral da Coréia.

Todos os Mestres e ancestrais da Coréia são descendentes de Kyachi. Antes dele morrer, um tigre e um elefante o serviam em perfeita harmonia. Depois que ele entrou no nirvana, o tigre e o elefante juntaram pedras e lama e ergueram uma stupa para ele. Esta stupa existe ainda no templo de Goshoji. A prática incessante deste Mestre foi sempre muito comentada em todos os tempos por outros Mestres buddhistas. Aqueles que não conhecem o bastante não vêem porque elogia-lo. Todo aquele que acha que o Dharma buddhista possa subsistir no mundo de busca de status e lucro é, para dizer o mínimo, um idiota de vistas curtas.

O Mestre Zen Hoen do Monte Goso comentou, “Quando meu Mestre [Hoe] se tornou o diretor do Monte Yogi, este templo se encontrava em um estado muito precário; a chuva vazava pelo teto e o vento entrava pelos buracos nas paredes. Durante o inverno o monastério quase entrou em colapso; nos quartos dos monges, a neve e o granizo cobriam o chão. Praticamente não havia condições de sobrevivência ali. O cabelo branco dos monges ficava mais branco ainda com a neve; suas sobrancelhas compridas demostravam a dureza de suas vidas. Todos mal podiam sentar em zazen. Um monge pediu ao Mestre que mandasse consertar o monastério, contudo o Mestre Zen Yogi se recusou a faze-lo, dizendo, “O Buddha nos disse que tudo está num fluxo constante, tudo é impermanente. As montanhas que as vemos tão orgulhosamente altas, bem como os vales mais profundos estão constantemente mudando. Como podemos querer obter coisas adicionais àquelas que ora temos? Estou satisfeito com o que agora tenho. Todos os Mestres do passado sempre praticaram debaixo das árvores e na terra úmida de orvalho. Esta é uma tradição excelente do passado e isto é a essência do vazio.

“Vocês estão dizendo que renunciaram ao mundo e estão ora praticando o Caminho, mas o que mostram com seus comportamentos ainda é muito superficial. Não temos mais que quarenta ou cinqüenta anos de prática; quem teria tempo de ficar levantando prédios esplêndidos?” Esta foi a resposta do Mestre.

No dia seguinte, subindo ao lugar onde se dá palestras, disse o seguinte à assembléia reunida de monges, “Ao me tornar responsável pelo monastério do Monte Yogi, o telhado e as paredes ali estavam em pandarecos; a neve entrava e se acumulava pelo chão. O frio insuportável fazia com que todos ficassem tremendo dentro de casa e procurando se aquecer, tiritando e suspirando. Todos me pediram que fizesse com que o monastério fosse reparado, mas lembrando da tradição e severidade daqueles que antes de nós praticaram, que viviam por sua vez ao relento, e nem uma casa quebrada como esta chegaram a possuir, eu simplesmente declinei o pedido!” Apesar disto milhares de monges de todas as partes pediam para serem admitidos em sua comunidade. É deveras surpreendente que tantos procurassem desta forma o verdadeiro Caminho. Devemos sempre nos lembrar das palavras deste Mestre. 

O Monge Hoen disse de certa feita: “A prática não pode ir além da mente; a mente por sua vez não pode ir além da prática.” Esta expressão merece estudo detido. Devemos pensar sobre o seu significado durante o dia e durante a noite. Não devemos ser soprados pelo vento daqui para ali. Além disto, aqui no Japão mesmo o palácio do imperador e as residências dos ministros não são tão esplêndidos assim, apenas casas de pinho branco. Como então poderiam aqueles que ao mundo renunciaram e presentemente estudam o Caminho viverem em magníficas e esplêndidas construções? Se os prédios forem ricos e magníficos, com certeza todos os monges irão se perder com isto, e será impossível talvez achar um com uma vida pura. Se contudo a construção já estiver instalada lá, é possível usa-la, mas não devemos jamais buscar uma nova. Todos os Mestres viviam em choupanas de palha ou construções humildes de madeira e não somente isto, também amavam tais lugares. Todos aqueles que praticarem em épocas posteriores devem pois seguir seus exemplos excelentes e deles não se desviarem.

Os ministros de estado Ko, Gyo e Shun , que viveram na China nada mais eram que leigos, e contudo vivam em choupanas de palha; eles estabeleceram com isto um precedente inédito para todos nós.

Shinshi, que era primeiro Ministro durante a Dinastia Shin, disse: “Se quiseres ver qual era o tipo de prática de Gyo e de Shun observem suas residências. O teto do palácio do imperador Ko era feito de sapé. A casa de Shun também tinha um teto de sapé”.

Devemos estar conscientes que as casas destes santos tinham telhados de sapé. Se nos compararmos com Ko, Gyo e Shun, constataremos que hierarquicamente eles se encontram acima de nós, muito mais que o céu da terra. Os tetos de suas moradas eram feitos de sapé; se leigos viviam em choupanas de sapé, como podem monges justificarem viver em prédios esplêndidos? Esta é uma idéia deveras vergonhosa. Os velhos Mestres viviam debaixo de árvores e passavam todos seus tempos nas florestas. Tanto leigos quanto monges adoravam viver em tais lugares. O imperador Ko era discípulo de Kosei, Mestre do monte Kodo. Kosei habitava em uma das cavernas desta montanha. Todos os reis e ministros da China Grande Sung praticavam este ensinamento original dos buddhas e ancestrais.

Por esta razão, estas pessoas que viviam no mundo de contaminação eram capazes de viver nobremente, enquanto que monges lhes são inferiores. Monges são até mais mundanos que leigos. Dentre os buddhas e ancestrais muitos deles são venerados pelos Deuses. Depois que eles ganham o Caminho, nem deuses nem demônios se lhes podem comparar. Compreendamos claramente isto. Se deuses e demônios praticarem como os buddhas e ancestrais, ficam perto dos buddhas e ancestrais. Se buddhas e ancestrais se tornarem eles mesmos, transcendem deuses e demônios; existe então um abismo descomunal entre eles.

Nansen disse, “Minha prática era fraca, e deuses bem como demônios notaram isto”. Se és notado pelos deuses e demônios, que não praticam, isto quer dizer que tua prática é débil ainda. 

Na comunidade do Mestre Zen Wanchi Shogaku do Monte Tendo, o deus protetor do templo disse, “Ouvi dizer que vivia nesta montanha um Mestre Zen durante dez anos, mas a maior parte do tempo ele permanecia em seu quarto. Nem cheguei a vê-lo, nem sequer ouvi dizer como ele era. Aí estava de fato, um homem que praticava o Caminho.”

No começo haviam poucas construções no Monte Tendo. Wanshi renovou os templos Taoístas, as residências das monjas, as salas de conferências e os transformou no monastério de Keitokuji. Depois de seu falecimento, Ohakusho, um funcionário público de alto escalão, escreveu sua biografia. Alguém lhe sugeriu que ali incluísse o fato que Wanshi havia renovado os velhos templos Taoístas, casas de monjas, e salas de conferências, criando o Monte Tendo. Ao que Ohakusho replicou, “Isto não é necessário. Nada tem a ver com o trabalho que ele realizou como monge”. Todos unanimemente elogiaram a Ohakusho por isto. 

Saibamos que coisas como erigir templos e monastérios são mundanas e nada tem a ver com a virtude que um monge possa ter. Quando entramos no Caminho buddhista, transcendemos os três mundos, de homens e deuses. Estudemos isto cuidadosamente. 

Os méritos das práticas incessantes dos buddhas e ancestrais possuem em si aquela habilidade que salva homens e deuses; contudo, homens e deuses não estão percebendo que podem estar sendo ajudados pela prática incessante dos buddhas e ancestrais. Quando tivermos esta prática incessante do Grande Caminho dos buddhas e ancestrais, não devemos ficar discutindo tais coisas como virtude maior ou menor das pessoas, suas faltas de inteligência ou não, suas espertezas ou faltas de espertezas. Que sempre fiquemos livres de querer status e riquezas, e não fiquemos apegados a coisas mundanas. Não devemos desperdiçar o tempo; apenas nos concentrarmos na prática. 

Não devemos ficar esperando algo como a grande iluminação; grande iluminação são aquelas ações que as fazemos diariamente, tais como beber chá ou comer arroz. Não devemos ficar esperando nem pela iluminação nem pela ilusão; esta é a coisa mais preciosa e importante. De tudo devemos nos separar — nossa cidade natal, laços da gratidão, fama, fortuna, propriedade e família; devemos abandonar o desejo por estas coisas. Nem devemos querer possui-las nem deixar de possui-las: de ambos devemos estar livres. Prática incessante quer dizer a nada ficar apegado. Abandonemos pois o desejo por status e riquezas em geral. Devemos nos dedicar a uma só coisa incessantemente e com isto a prática incessante de nossa vida buddhista irá num crescendo. Assim é pela prática incessante que a prática incessante aumenta com mais prática incessante ainda. Devemos venerar e respeitar aquele que possui uma tal prática incessante em seu corpo e mente.

O Mestre Zen Daizu Kanchu disse, “Ao invés de explicar um metro, devemos praticar um decímetro. Ao invés de explicar um decímetro, que pratiquemos um milímetro.” Apesar disto parecer ser uma advertência contra aqueles que se esquecem da prática incessante e não trilham o Caminho buddhista, isto nada diz contra explicar um metro. O que ele quis dizer é que praticar um milímetro é melhor que explicar um metro. Isto se encontra além de medidas. Apesar de certamente existir diferença de tamanho entre um grãozinho de poeira, e a imensa montanha dos Himalayas, cada qual possui seu meio de ser medido. Cada um em si é completo. O mesmo ocorre com a prática incessante. Esta não é uma expressão exclusiva de Kanchu, mas sim uma verdade universalmente válida. 

O Grande Mestre Tozan Gohon disse, “Deves explicar aquilo que não estás à altura de realizar, e realizar aquilo que não estás à altura de poder explicar”. Esta expressão não quer dizer que não haja prática ou explicação; o momento da explicação é jamais deixar o monastério durante toda sua vida. A prática é enxaguar a cabeça e se quedar diante de Seppo. “Deves explicar aquilo que não estás à altura de realizar, e realizar aquilo que não estás à altura de explicar”. Estudem pois isto cuidadosamente. 

E o que se dizer daquele ditado conhecido, que é aplicado desde os tempos dos velhos buddhas e ancestrais: “Se vivermos até a idade de cem anos, mas a compreensão de um Buddha não tivermos, seremos então inferiores àquele que alcançou a iluminação mas viveu um só dia.” 

Isto não foi afirmado apenas por um ou dois buddhas, mas por todos os buddhas. É o espírito da verdadeira prática, da prática do Buddha. Dentro de cem mil anos de continuação infindável da vida e morte, um só dia de prática incessante é a coisa mais preciosa, o espelho original. É um dia para se rejubilar. É o poder mesmo da prática incessante que se rejubila. Quando este poder da prática incessante é ainda insuficiente, os ossos e medula dos buddhas e ancestrais não são passados e transmitidos, o corpo e mente dos buddhas e ancestrais não podem ser venerados, o rosto original dos buddhas e ancestrais não pode ainda ser vislumbrado. O rosto original, ossos e medula dos buddhas e ancestrais não vem nem vão, não parecem vir, nem parecem não vir. Devemos chegar a esta prática incessante de um só dia. 

Assim, podemos ver como cada dia é precioso. Se vivermos em vão durante cem anos, acabamos nos aborrecendo com os meses e anos. Isto se trata de um triste desperdício do corpo humano com o qual fomos agraciados. Mesmo que vivamos durante cem anos na escravidão dos sentidos, isto tudo é rapidamente redimido por um só dia gasto na prática incessante. Uma vida corporal de um só dia de duração é a possessão mais valiosa de todas. Assim sendo, e isto é certo, se vivermos um só dia possuindo a função de todos os buddhas, aquele dia será mais interessante e útil que se renascemos durante incontáveis períodos de tempo.

Por isto, se este problema da vida e da morte não foi ainda decisivamente resolvido não devemos desperdiçar um só dia que seja. Um só dia é um grande tesouro que deve ser altamente cotado — um só dia é melhor, muitíssimo melhor que ouro ou as jóias de um dragão.

Sábios do passado avaliavam cada dia como mais precioso que seus próprios corpos e mentes. Devemos meditar sobre isto calmamente. E descobriremos aqui algo de mais precioso que a pedra filosofal, ou quilos de jade sem preço. Até mesmo um dia numa vida de cem anos não pode ser recuperado. Que poderemos fazer para tomarmos de volta um só dia que seja? Nunca ninguém conseguiu faze-lo. Se não desperdiçarmos tempo tolamente, os dias e os meses se nos enrolarão pelo corpo como pele. Santos e sábios do passado davam mais valor a cada dia e a cada mês que suas próprias vistas ou países natais. Se tempo for desperdiçado, seremos por fim capturados pela fama e pela fortuna do mundo evanescente. Se contudo conseguirmos evitar isto, viveremos dentro do Caminho. Se tivermos a determinação correta, não passaremos um só dia que seja inutilmente. Devemos praticar e proclamar o Caminho. 

Lembrem-se pois que os buddhas e ancestrais não desperdiçavam sequer um dia em coisas inúteis. Durante os dias tranqüilos da primavera, devemos sentar perto da vista gloriosa de uma janela e calmamente refletir sobre tal. Nas noites de outono quando cai a chuva suave, devemos ficar numa choupana simples na floresta e nos concentrarmos na prática. Damos pela falta de tais tesouros porque não temos prática.

Como poderia possivelmente a virtude da prática que se encontra no tempo ser de nós roubada? Nem um só dia nosso é roubado, mas a virtude de um período muito longo de tempo de nós pode ser roubada. Qual a causa deste conflito entre o tempo e nós mesmos? Isto se dá por causa do ressentimento devido a nossa prática ser insuficiente. Não nos devemos permitir ser condescendentes demais conosco mesmos: isto causa auto-ressentimento. Também buddhas e ancestrais possuem ligações de gratidão e amor; contudo, eles os abandonam a todos. Apesar de terem muitos tipos de ligações como todas as demais pessoas, eles as abandonaram. Mesmo que lamentemos, este tipo de relacionamento que estorva com os outros não deve ser permitida se tornar um obstáculo. Se não cortarmos os liames da gratidão e do amor, estes nos cortarão fora. Se sentirmos obstáculos com a gratidão e com o amor devemos alija-los. Tais obstáculos devem ser superados.

O Mestre Zen Nangaku Ejo, que praticou sob Sokei durante mais de quinze anos, acabou recebendo a transmissão; isto foi como a água vertida de uma tigela para outra. A prática de nossos predecessores deve ser seguida estritamente por todos nós. Naquela prática de quinze anos Nangaku enfrentou muitas dificuldades, mas ele manteve sua prática pura.

Isto é como um espelho no qual seus descendentes podem se mirar. Não havia carvão na lareira, e dormia ele sozinho dentro da sala gelada e vazia. Durante as noites frias não havia sequer uma luzinha de vela, e desta forma ele sentava em zazen próximo à janela enluarada. Apesar de não ter uma compreensão intelectual, sua prática superava todo outro estudo. Esta é a verdadeira prática incessante. Em geral, abandonando o desejo por status e lucro, a pessoa pode então se concentrar em aumentar diariamente a virtude da prática incessante. Isto é o que não deve ser olvidado jamais. Tentar explicar aquilo que é essencial através de palavras, é deveras difícil; esta foi a experiência de Nangaku após oito anos de prática incessante. Achar uma tal prática é muito raro no passado bem como no presente; todos, sábios bem como tolos, devem procurar sempre pela prática incessante. 

Senshu foi imperador durante a dinastia Tang. Era ele o segundo filho do imperador Kenshu. Mesmo quando criança era muito brilhante intelectualmente, e costumava sentar na posição de lótus completo, em meditação. Fazia o zazen dentro do palácio o tempo todo. 

Bokushu era o irmão mais velho de Senshu e numa ocasião quando Bokushu era imperador, Senshu por diversão pretendeu ser imperador e cumprimentou os ministros de manhã, na cerimônia matinal. Os ministros ao verem isto, pensaram que ele estava louco e relataram isto a Bokushu. Bokushu, contudo, divertido, elogiou a Senshu dizendo, “Meu irmão é a pessoa mais inteligente da família”. Nesta época Senshu tinha apenas treze anos de idade.

Em 824 Bokushu faleceu, deixando três filhos, Keishu, Bunshu e Bushu. Keishu sucedeu seu pai, mas morreu três anos depois. Bunshu se seguiu, mas foi deposto após um ano de governo, coube então a Bushu, o mais moço dos três, ascender ao trono. 

Bushu reinou de 841 a 846, e sempre fez questão de perseguir o buddhismo durante seu reino. Neste tempo, Senshu se encontrava ainda no país. Busho achava que seu tio era louco e um dia decidiu puni-lo por ter uma vez pretendido de brincadeira ser imperador quando o pai de Bushu se encontrava no poder. Ele espancou Senchu, e achou que o tinha morto; levou o corpo então para o jardim, onde urinou nele.

Mas com isto Senchu reviveu, e deixou sua terra natal, se tornando discípulo do Mestre Zen Kyogen Chikan. Raspou sua cabeça, e começou sua prática como noviço. Contudo Senchu não tomou os preceitos de monge e apenas mendigava junto com Kyogen.

Chegaram eles ao Monte To e o Mestre Zen Chikan escreveu um breve poema sobre uma cachoeira que despencava de uma montanha:

A água cai pelo penhasco da montanha, 
Desgastando as pedras ao seu redor, 
Mas ela não hesita.
De uma certa distância podemos constatar 
Que a queda d’água está localizada muito, muito alta.

Este poema Chikan o mostrou a Senshu para testar sua compreensão. Então, ao lê-lo, Senshu acrescentou-lhe o seguinte final: 

Seremos acaso nós que iremos deter este fluxo de água?
Finalmente tudo isto vai parar no oceano, 
Onde por certo vai virar uma grande onda!

Ao se deparar com estas duas linhas, Chikan viu que ali ante a ele não se encontrava uma pessoa comum qualquer.

Mais tarde, Senshu participou da comunidade do Mestre Nacional, Enkan Saian, onde teve o cargo de Shoki [uma posição dentro do monastério que equivale aquela de secretário chefe].

Naquela época o Mestre Zen Obaku era o monge chefe sob Enkan, e assim Obaku e Senshu trabalhavam juntos no monastério.

De certa feita, Obaku foi à Sala de Cerimônias e ali fez suas reverências diante de Buddha, ocasião em que Senshu lhe indagou o seguinte: 

“O Dharma buddhista é originalmente inatingível [fukatoku], logo ninguém deveria procurar nem o Buddha, nem o Dharma, muito menos a sangha. Porque fazes pois tais reverências diante da imagem do Buddha?”

Obaku imediatamente deu uns tabefes na face de Senshu, dizendo o seguinte à guisa de explicação: “Porque eu não procuro nem o Buddha nem o Dharma e nem a sangha é que eu faço minhas reverências.”

Dizendo isto novamente esbofeteou Senshu. Ao que Senshu disse, “Creio que não deverias ser tão rude”.

Obaku disse: “Eu não fico apegado aos Três Tesouros, então porque dizes que eu sou rude ou bondoso?”

Tendo dito isto, estapeou Senshu uma terceira vez. Desta terceira e última vez Senshu atingiu uma compreensão, e com isto seus diálogos terminaram.

Eventualmente Senshu retornou a seu país e sagrou-se imperador após o falecimento de Bushu. Bushu costumava atacar o ensinamento buddhista, mas Senshu o apoiava e ajudou a divulga-lo. Mesmo quando assumiu o trono continuou praticando zazen e mantendo aquela prática pura que havia iniciado no Vale de Rozan.

Mesmo depois do falecimento de Senshu, sua intenção de manter a prática incessante se revelou brilhante. Sua resolução tinha a força e a transparência do diamante e sem dúvida é sem paralelos na história: realmente se tratava da prática incessante.

Ao monge Seppo Gison foi conferido o título de Grande Mestre Shingaku pelo imperador. Depois de ter obtido a mente que busca o Caminho, ele praticou e morou em vários monastérios, sempre como Tenzo [cozinheiro] destes lugares. Sempre brandindo sua concha de cozinheiro, cuidava da saúde dos monges praticantes. Apesar de seu cargo ser muito de muita responsabilidade, nunca deixou sequer por um dia de praticar zazen dia e noite sem parar. E isto manteve até que abriu seu próprio lugar de prática no Monte Seppo. Sua vida e sua morte foram em zazen.

Enquanto era um monge que peregrinava em busca da verdade, ele visitou Tozan Ryokai nove vezes e Tosu Gisei três vezes. De fato, podemos constatar que ele era um raríssimo buscador da verdade. Ao querer demonstrar o que vem a ser uma prática estrita e incessante, muitos Mestres citam este elevado treinamento de Seppo. Quando encetou sua prática, era Seppo parecido com os demais, mas sua força de vontade aliada a sabedoria aguda e indômita, somaram-se a sua prática incessante, e com isto ele pode sobrepujar todos os demais.

Quem praticava naquele tempo, era encorajado a emular a prática de Seppo: se observarmos e recordarmos o estudo de Seppo em lugares múltiplos, e seu esforço e coragem ímpares, constataremos que sua prática autêntica, pura como a neve, veio por certo de vidas passadas.

Ao praticar com Mestres que possuem o selo da iluminação, praticantes tem muitas perguntas legítimas, mas o difícil é dar muitas legítimas respostas. Aquele praticante que busca a verdade orientado por um Mestre Zen, deve praticar dia e noite. Se o Mestre explica a verdade, mas os praticantes não captam o significado, um abismo profundo pode se abrir entre eles, e neste caso deve o Mestre deter seu ensinamento.

Se existirem entre os praticantes muitos que sejam veteranos e crerem com isto que têm uma virtude incomensurável, agindo levianamente e chegando até a parar de praticar, seus comportamentos desencorajarão novos praticantes de chegarem para a prática. Dentre os praticantes, alguns haverão que profundamente realizarão aquilo que o Mestre expôs, e ganharão o Caminho buddhista, enquanto que outros não o farão.

O tempo voa mais rápido que uma flecha, e nossos corpos vão embora mais rápido que uma gota de orvalho. Que lamentável que mesmo quando exista um Mestre Zen, alguns não serão capazes de se dedicar à prática. Às vezes também um praticante pode querer ganhar a verdade mas não ser capaz de se encontrar com um verdadeiro Mestre. É fato que tais tristes situações existem. Eu as vi com meus próprios olhos. 

Geralmente um grande Mestre possuirá a habilidade de observar e conhecer bem seus praticantes, mas já aconteceu que alguns destes praticantes sérios tiveram dificuldades de se encontrarem com tais grandes Mestres. Há muito tempo atrás, Seppo visitou Tozan nove vezes e visitou Tosu três vezes. Vemos através desta ilustração como é difícil de se encontrar com o Mestre correto. Que estejamos profundamente agradecidos pela oportunidade de estarmos serenos na prática incessante do Dharma e nos lamentemos profundamente se tivermos tal oportunidade tão rara e não praticarmos.


Foi Bodhidharma o primeiro ancestral a ter ido à China. Ele o fez sob instruções diretas de seu Mestre, Prajnatara. Para tal teve que fazer uma viagem de barco que durou três anos. Foi uma viagem muito difícil, devido às péssimas condições de navegação, tais como o nevoeiro, vento, nevascas e geadas. O vento e o nevoeiro obstruíam a visibilidade. Pessoas comuns, do mundo, tão apegadas que estão com suas vidinhas, não podem sequer chegar a imaginar a coragem que foi precisa para ir, desta forma, a um país desconhecido, onde nem mesmo a língua local ele conhecia.

E tudo isto ele realizou porque tinha aquele grande desejo compassivo de transmitir o Dharma e salvar todos de suas ilusões. Isto era parte fundamental de sua prática incessante, e só foi possível por viver ele constantemente no Caminho de Buddha. Bodhidharma dominava o mundo eterno da transmissão e vivia no mundo inteiro em todas suas variedades, na forma única da verdade. Todo mundo em suas variedades quer dizer nós mesmos, e nós mesmos quer dizer o mundo inteiro em todas suas variedades.

Todo karma que temos no presente está visceralmente ligado ao palácio de Bodhidharma porque sua compreensão lhe possibilitava constatar que até mesmo um palácio podia ser visto como um dojo [lugar onde se pratica o Caminho]. Assim ele embarcou, sem medo ou dúvida, da Índia para a China, a fim de salvar aqueles que viviam na ilusão.

Quando Bodhidharma deixou sua terra natal, ele gastou algum tempo em preparativos. Atravessou os mares do sul numa grande embarcação e eventualmente chegou ao porto de Koshi, na China. Dentre as pessoas que se encontravam a bordo deviam haver muitos monges, apesar dos historiadores nada terem mencionado a respeito. Ao chegar no dia 21 de setembro de 520 na China, ele ali não conhecia absolutamente vivalma. O Governador Shoku, de Koshu, enviou um mensageiro a bordo para lhes dar as boas vindas. E isto aconteceu no dia primeiro de Novembro. Assim Bodhidharma, o primeiro ancestral na China, se dirigiu a Kinko para uma entrevista pessoal com o imperador Butei de Ryo. 

Butei lhe perguntou: “Desde que me sagrei imperador, erigi muitos templos, mandei copiar sutras, e contribui no sustento de inúmeros monges. A ajuda que dei ao buddhismo é incalculável e não posso sequer enumerar tudo aquilo que fiz. Sendo este o caso gostaria agora que me dissesses qual será mais ou menos meu mérito, a julgar por este volume enorme de boas ações?”

Bodhidharma disse convictamente: “Nenhum!”

O imperador disse: “Nenhum por quê?”

Bodhidharma replicou: “O que fizeste tem ligeiro ou, melhor dizendo, nenhum mérito. Tudo aquilo que fizestes eventualmente em nada mais resultará senão num montão de ilusão e sofrimento, e isto pela razão de tudo ter sido feito para ganhar algo. Isto na verdade está mais ligado ao mundo das sombras que ao mundo das formas. Se creria que poderia haver algum mérito, mas o que ocorre de fato, é que não existe o mais mínimo mérito que seja.”

O imperador novamente perguntou: “Bem, neste caso quais os verdadeiros méritos dos atos bondosos e religiosos, em suma, qual é o sentido de se praticar a religião?”

Bodhidharma disse: “Devemos nos encontrar no seguinte estado: sabedoria sem contaminações, liberdade total de liames ilusórios e do sofrimento, e liberdade absoluta de quaisquer apegos que sejam.” 

O imperador indagou mais uma vez: “Qual é o item crucial a ser compreendido nesta prática?”

Bodhidharma replicou: “Um vasto vazio, com nada que se possa chamar de sagrado ou de religioso ali dentro.”

Então o imperador indagou: “Quem é então, que se encontra diante de mim?”

Bodhidharma disse: “Não sei!”

O imperador não entendeu esta resposta, e Bodhidharma vendo que suas compreensões não se harmonizavam em qualquer ponto e que mais não adiantava conversar, secretamente partiu no dia 19 de Novembro, se dirigindo para o norte, e cruzando o rio Yangtze.

No dia 23 de Novembro, chegou a Lo-yang, onde ficou morando no Templo de Shorinji, no Monte Su. Ali, calmamente fitando a parede, praticava dia e noite o zazen.

O imperador do Norte, Gutei, desconhecia de maneira abismal o verdadeiro valor de Bodhidharma, nem tinha suficiente conhecimento para se sentir envergonhado por não ter a capacidade sequer longínqua de suspeitar quem era Bodhidharma.

Bodhidharma, que era originário da Índia do Sul, era de casta real, sendo o terceiro príncipe de Koshi. A China era um país antigo, bem estabelecido e desenvolvido. Por vezes aqueles que provêm de países menores e mais pobres ficam encabulados e tímidos diante da estatura de tais grandes países, mas o primeiro ancestral Bodhidharma, não tinha estes sentimentos: ele não discriminava ou abandonava quaisquer países nem povos com os quais se deparasse pela frente.

Por vezes Bodiruchi [um monte do norte da Índia que chegou na China no ano de 508 e que era um tradutor de escrituras sagradas] e Koto Risshi [um Mestre dos preceitos] atacavam Bodhidharma, que não era de forma nenhuma um erudito comum. Mesmo assim, os chineses criam que ele era simplesmente um professor comum dos sutras e do Abhidharma. Pensando assim eles foram superficiais, e além disto achavam que seu ensinamento era o mesmo que os ensinamentos do Abhidharma. Nisto estavam redondamente enganados.

Bodhidharma, o primeiro ancestral na China, era o vigésimo oitavo ancestral na linha de Shakyamuni. Tendo deixado sua pátria natal foi salvar o povo na China. Quem mais se lhe pode chegar aos pés? Se ele não tivesse vindo do oeste [Índia], como poderiam os povos do leste terem se familiarizado com o Dharma Verdadeiro? Todos estes povos poderiam ter desenvolvido pontos de vista enganosos, distantes da verdadeira compreensão e do buddhismo.

Bodhidharma transmitiu o Dharma verdadeiro por todo o lado, e assim hoje o Dharma verdadeiro pode ser encontrada até mesmo em pequenos lugarejos do interior. Hoje em dia até mesmo camponeses, velhos ou moços, podem se inteirar do Dharma verdadeiro. E tudo isto se deve unicamente a prática incessante de Bodhidharma e porque ele tomou esta resolução de atravessar o mar da Índia para a China.

A Índia e a China são completamente diferentes em suas tradições, maneiras, costumes e morais. Para se tornar um grande Mestre nestas circunstâncias adversas, a pessoa necessita de uma alta dose de paciência, compaixão e santidade. Somente uma tal pessoa pode então ser um Mestre autêntico.

Bodhidharma não tinha lugar algum que pudesse chamar de casa, e nem sequer tinha um templo próprio, e tampouco conhecia alguém na China. Ele continuou a morar no Templo de Shorinji no Monte Su durante nove anos, e fazendo sempre zazen. Por esta razão ele ganhou a alcunha de “O Brâmane que fitava a parede.”

Todos os historiadores criam piamente que Bodhidharma era da linhagem Shuzen, mas o fato era que nada tinha a ver com isto. O Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro que foi transmitido de Buddha para ancestral, foi passado apenas através de ancestrais da estatura de Bodhidharma.

O Rinkan Roku [escrito por Eko Kakuhan] diz que Bodhidharma foi a Ryo e em seguida a Gi onde ficou residente no Templo de Shorinji no Monte Su. Ele apenas continuava a fazer zazen, fitando a parede. Este era um tipo diferente de zazen, o zazen da compreensão dentro da prática. A maioria das pessoas não podia compreender porque ele simplesmente se concentrava no zazen, e achavam que seu zazen era apenas uma pequena parte da prática buddhista. Então ficavam se indagando porque esta pessoa apenas fazia zazen? Foi assim que alguns historiadores criam que Bodhidharma praticava Shuzen, e por isto achavam que seu Zen era o mesmo que nada, quando na realidade era o Dharma buddhista vivo. 

Contudo, aqueles ancestrais que transmitem o Dharma buddhista correto não prestam qualquer atenção ao que historiadores têm a dizer. Eles se concentram na meditação pura, nunca se desviando nem que seja por um minuto do zazen. Isto é como o yin e o yang do I-ching.

Quando o imperador Butei de Ryo viu Bodhidharma pela primeira vez, indagou, curioso: “Qual é o ponto mais importante da compreensão?”

Bodhidharma disse: “O vasto vazio, sem nada que seja de sagrado, ou de religioso dentro dele.”

O imperador perguntou então: “Então quem és, que estás de pé diante de mim?”

E a réplica inigualável de Bodhidharma: “Não tenho a menor idéia!”

Percebendo que não havia interesse em uma compreensão mútua, Bodhidharma ficou imaginando a razão disto ter acontecido. Por causa disto, ele foi embora de Ryo e se dirigindo ao Templo de Shorinji, se concentrou em fitar a parede. Isto contudo não era Shuzen. Consigo ele não havia trazido sequer um Sutra que fosse para a China. Trouxe contudo a transmissão correta do Dharma buddhista, apesar de alguns historiadores tolamente acharem que era ele da linha Shuzen. Quando Bodhidharma se quedava no Monte Su haviam algumas pessoas que não compreendiam a verdade: eram como cães que latem sem parar. De fato, quem haveria de compreender Bodhidharma? Quem poderia perceber sua compaixão e constatar seu verdadeiro lugar na hierarquia do mundo?

Se chegarmos a possuir uma mente sincera e verdadeira, poderemos então lembrar da compaixão de Bodhidharma e vivermos todas nossas vidas de acordo com on. O fato é que não se pode sequer comparar a compaixão dos ancestrais com aquele tipo de amor que os pais tem para com seus filhos.

Se constatarmos como nosso país é miserável e paupérrimo em relação à Índia e à China, chega a ser irritante. Aqui é praticamente impossível se ver santos ou sábios: absolutamente ninguém tem a menor estatura espiritual que seja. O povo por assim dizer, é acéfalo nesta questão sobre alguém que o pudesse guiar neste mundo profano, e ninguém sabe realmente do que está falando nesta questão espiritual. Nunca houve nenhuma época de apogeu, ou de paz relativa, e o povo desconhece a diferença entre algo de puro e de impuro, e muito menos ainda possui a menor idéia do que possa vir a ser grandeza de alma ou de postura de vida. 

Além disto desconhecem o movimento dos cinco planetas e como isto pode afetar e influenciar o país.

A razão para este quadro de desastre se deve principalmente a falta de compreensão do que realmente os sutras dos buddhas e ancestrais querem dizer, e também porque nunca houve qualquer Mestre que lhes dissesse o que queriam, de fato, dizer estes sutras mencionados.

Nunca tivemos Mestre algum porque todos se concentravam numa compreensão meramente superficial das palavras dos sutras.

Se agora olharmos para trás aos velhos sutras e Escrituras, poderemos sentir verdadeira veneração pelo ensinamento de nossos antecessores. Se nosso desejo de compreender os velhos ensinamentos for forte, seremos capazes de compreender seus significados além das palavras.

Koso da Dinastia Han e Taiso da Dinastia Gi eram imperadores capazes de esclarecer versos de astrologia e geografia física. Se conseguirmos esclarecer o que vêm a ser os sutras, descobriremos o significado do que um grande homem possa vir a ser. Se as pessoas não tiverem a influência e a experiência de um sábio imperador, não saberão como se comportar diante de um imperador ou de seus pais. Que triste seria para um imperador, seus ministros, pais e filhos se um tal imperador não pudesse ser achado. Mesmo que estivéssemos cobertos de jóias preciosas, as gastaríamos frivolamente e o tempo se escoaria, pois não seríamos capazes de sermos donos de nosso tempo. Quem nascesse em uma tal família não poderia obter uma posição importante na sociedade, e nem mesmo uma que fosse insignificante. Somente quando o país está confuso, as pessoas que nascem em famílias humildes e pobres galgam até as posições mais elevadas e influentes; quando o país está pacificado e tranqüilo isto nunca ocorre.

Porque será que as pessoas hesitam em aprender o ensinamento buddhista correto apesar de virem de uma descendência pobre ou de famílias miseráveis? Porque não podem ter uma visão ampla suficientemente para compreender, que não importa de onde tenham vindo ou de que classe social procedam, que podem, mesmo assim, se inteirar de e dominar estes ensinamentos? Se não possuírem tal ampla visão, como suas vidas serão úteis?

Mesmo que sejamos sábios e que tenhamos uma alta posição devemos ter uma tal perspectiva suficientemente abrangente para podermos absorver os ensinamentos buddhistas. Isto vale mais ainda para as pessoas pobres. Se formos pobres e renunciarmos a nossa vida pelo Caminho de Buddha, nossa vida será mais valiosa que uma vida dos deuses, mais exaltada que qualquer rei no mundo e além disto mais valiosa que qualquer Deus nos céus e qualquer criatura nos três mundos.

Bodhidharma era o terceiro filho do rei de Koshi que fica localizado no Sul da Índia. Suas origens de família remontam até a família Imperial da Índia. O Japão é um país no Extremo Leste, longe da Índia. As pessoas que aqui vivem, sequer sabem de que forma poderiam tratar tais figuras importantes como Bodhidharma. Aqui não existem perfumes excelentes, nem flores maravilhosas, nem um zaniku [almofada colorida e decorada] nem palácios maravilhosos. O Japão está na quina do extremo Leste. Como poderíamos saber receber um tão grande príncipe que veio de um tão maravilhoso país? Mesmo que aprendêssemos o comportamento correto, poderíamos, ainda assim, nos confundirmos ao tratar um tal príncipe. A forma de se tratar um imperador é deveras diferente da forma com que se trata um senhor feudal qualquer. Para cada tipo de pessoa existe um tipo de etiqueta diferente a qual se deve recorrer como polidez, e estas diferenças, nós aqui no Japão desconhecemos devido a nossa falta de nobreza e pouca virtude o que nos impossibilita de ter quaisquer padrões de comportamento requintados. Se não podemos chegar a manter estes padrões de comportamento, devemos em primeiro lugar esclarecer esta nossa falta de nobreza e nossa parca virtude.

Bodhidharma, o primeiro ancestral na China era o vigésimo oitavo ancestral desde o Buddha Shakyamuni. Seu comportamento refinado, que resultou de sua ascendência como um nobre príncipe, se tornou ainda mais refinado através de sua prática. Um tão grande e honrado sábio vir até a China sem qualquer preocupação com sua própria vida e bem estar é realmente inacreditável e único, e tudo isto somente por causa deste desejo de transmitir o Dharma e salvar todas as pessoas.

Na China, antes que o primeiro ancestral viesse, não havia ninguém que transmitisse o Dharma correto e não havia um ancestral que pudesse demonstrar isto para os demais. Depois do primeiro ancestral, Bodhidharma, ninguém mais veio à China, a não ser seus próprios discípulos. Isto é por certo como a flor de udumbara. Uma outra tal flor só poderia vir a desabrochar daqui a mais três mil anos. Mas o fato é que nunca mais haverá um outro ancestral como o primeiro ancestral que veio da Índia.

Dentre os que se autodenominavam discípulos do primeiro ancestral, haviam alguns eruditos dos sutras e do Abhidharma, que se encontravam no mesmo nível de Bodhidharma, mas ainda não haviam dominado o Dharma. Eram como aqueles na Dinastia Sung que tomavam de seixos, crendo ser jóias. Isto acontecia devido às suas compreensões insuficientes e fracasso em ouvir corretamente os ensinamentos.

Se não tivermos a mente original da compreensão, não poderemos sair por aí afirmando que somos os discípulos da linhagem de Bodhidharma. Neste caso estaremos ainda subjugados à ilusão ligada apenas ao nome e forma das coisas, sem atingirmos a essência. Que lastimável isto de fato não seria!

Depois que Bodhidharma veio à China em 530 e transmitiu o Dharma correto, havia a partir de então um verdadeiro Mestre; por esta razão não mais era necessário ir mais à Índia. Alguns contudo, continuaram a ir à Índia para buscar o Dharma. Porque o fizeram? Foi pura tolice. Sem dúvida foram seus maus karmas anteriores que os levaram à Índia, onde meramente ficavam perambulando daqui para ali, caluniando o Dharma, agindo maliciosamente, e aos poucos foram se esquecendo de suas terras natais. 

Do que adiantaria a estas pessoas irem à Índia, onde inutilmente ficariam gastando tempo sem qualquer utilidade? Se não compreendermos a razão do primeiro ancestral vir da Índia para a China, não poderemos jamais esclarecer o significado da transmissão do Dharma de Buddha para o Leste. Estes que assim se foram por certo não compreenderam: ficaram somente passeando pela Índia tagarelando e espalhando que foram buscar o Dharma buddhista. Já que nada possuíam de uma mente que busca o Caminho verdadeira, foram por completo incapazes de se encontrar com um Mestre correto. Meramente se entrevistaram com eruditos e estudantes dos sutras. Porque isto aconteceu assim? Havia já um verdadeiro Mestre na Índia, mas eles não o podiam achar por falta de uma mente correta que os levassem a um encontro. Nunca mais ouvimos falar de ninguém que tendo ido à Índia, lá se tivesse encontrado com um verdadeiro Mestre. Houveram tais pessoas? Nada existe que esteja gravado sobre tais acontecimentos.

Depois que Bodhidharma veio do oeste para a China, haviam muitos monges que meramente se concentravam nos sutras e no Abhidharma e não buscavam o Dharma correto. Estes apenas ficavam fitando as letras dos sutras e do Abhidharma, se olvidando por completo de sua essência, ou o que os levou a serem escritos. Isto se devia tanto a seus karmas presentes, quanto a suas sinas predestinadas. Que triste não terem jamais podido ouvir a essência do buddhismo, nem tampouco verem o Dharma correto. Se não pudermos encontrar a transmissão correta do Buddha, usar uma mente buddhista, ou ouvir os ensinamentos dos buddhas, teremos uma vida deveras tristonha e enfadonha. Haviam muitos que se enquadravam dentro deste tipo durante as Dinastias Sui, Tang e Sung.

Aqueles que possuem esta mente de sabedoria original e que por sorte também se tornam discípulos, acabam por transcender suas acumulações passadas de karma, por terem chegado a possuir a capacidade correta de compreender os ensinamentos do Buddha.

Tolos foram aqueles que ficaram em seus cantinhos estudando sutras e o Abhidharma, enquanto os que não evitavam ou não tinham receio da prática severa e dura, respeitando a natureza original de Bodhidharma, nunca hesitavam e nem se poupavam para ganhar a compreensão. 

Por nada desta razão dizia o Mestre Zen Kyogen: “Por incrível que pareça, a maioria das pessoas acha que os esforços, planos e desafios daqueles que ora praticam o Caminho, são para eles mesmos, mas não percebe que tudo isto nada quer dizer, sendo afinal inútil, justo como inútil é a poeira de um cemitério. Por favor parem de dizer ‘Devemos respeitar estas pessoas por causa de seus cabelos brancos e esforços’ ou ‘Aí está uma pessoa que nos trouxe uma mensagem diretamente dos céus’. “

Por esta razão mesma é que qualquer tipo de desafio, esforço, ou ambição terá mais ou menos o mesmo valor que um punhado de poeira dentro de um cemitério.

Se somos somente cidadãos comuns em um país diminuto, podemos vir a nos deparar com muito sofrimento, ou podemos, por causa do dever, ter que vir a nos matar. Que lamentável e triste isto não seria, porque todas estas pessoas também teriam capacidade de buscar o Dharma correto. Mesmo que tenhamos que empenhar nossas vidas mil vezes, mesmo assim, deveríamos continuar a procurar o Dharma correto. Não devemos ficar preocupados em perder nossas vidas, mas nos concentrar em buscar o Dharma buddhista correto. Ninguém precisa se preocupar em como gastar sua vida, ou se a pessoa é de muita sabedoria ou muito avoado e distraído.

Mesmo que possuíssemos o desejo de viver de acordo com o Dharma correto, isto não nos seria possível, se agora este mesmo Dharma correto não estivesse presente e encarnado em nossa sociedade e em nosso meio. Devemos rezar e esperar que o Dharma correto possa aparecer neste mesmo momento. Se procurarmos o Dharma correto e contudo no processo perdermos nossas vidas, não nos arrependeremos nem um pouco. Devemos ficar envergonhados de não termos uma tal perspectiva. Se gastarmos toda nossa vida agradecendo imensamente aos ancestrais, isto por si só, já seria a prática incessante em nossa vida cotidiana. Não devemos apenas considerar nossa pequena vidinha pessoal. Não devemos nos apegar aos laços da afeição humana, isto nada mais é que mera loucura, nem muito menos devemos nos apegar a noções de família, que são somente como o pó; lembrem-se que não poderemos para sempre permanecer com aqueles a quem amamos. Mesmo que estivermos a eles apegados, não podem viver para sempre. Todos os buddhas e ancestrais do passado eram sábios e abandonaram jóias, jade e até mesmo palácios, porque criam que todos estes não mais valor possuíam que excrementos. Todos eles foram capazes de conhecer o que era a verdadeira e sagrada afeição devido à compaixão dos buddhas e ancestrais.

Considere como o buddhismo é elevado e perceberão todos que laços de afeição mundana a jóias e palácios nada são. Até mesmo uma pequenina tartaruga ou um pardal podem ter uma mente buddhista correta, como nos foi mostrado por aquele pardal que deu uma fortuna àquela pessoa que lhe socorreu. Que lastimável que apesar de termos a forma de seres humanos comuns, somos ainda mais estúpidos que o pardal ou a tartaruguinha. E isto se deve ao fato de não termos gratidão ou compreensão do amor verdadeiro, sagrado.

Nossa presença contínua no Buddha e nosso ouvir o Dharma buddhista deveriam ser o resultado de nossa prática incessante e da compaixão dos buddhas e ancestrais. Se os buddhas e ancestrais não tivessem qualquer transmissão de um para o outro, nunca teríamos visto o Dharma buddhista. Por isto mesmo é que deveríamos ser gratos por cada palavra buddhista e cada Dharma. E além disto, deveríamos mais ainda sermos gratos pelo Tesouro do Olho do Dharma Verdadeiro.

Devemos abandonar nossa vida pelos ensinamentos, pois que esta é uma excelente ação que nos conduzirá por fim à nossa realização. A reverência é uma coisa intrínseca a este Caminho; isto chega a constituir parte integrante de nossa vida cotidiana. Se desta forma agirmos, reverentemente, os deuses e guardiões dos céus nos protegerão e nada nos faltará.

Na Índia dizem que alguma pessoas vendiam os crânios daqueles que tinham ouvido os legítimos ensinamentos buddhistas, pois criam que tais crânios davam boa sorte. Se não abandonarmos nossa vida e corpo pelo Caminho, não receberemos os méritos e virtudes que advêm de meramente ficarmos a escutar a Lei. Mas se escutarmos o Dharma com uma mente sem preconceitos e nos esquecermos de nossos corpos e vidas, então ao ouvirmos desta forma, isto nos ajudará a obter o crescimento no Caminho.

Estes crânios daqueles que estudavam o Caminho buddhista são muito importantes. Se nossos crânios fossem apenas espalhados pelas ruas afora, ou deixados ao léu, quem quereria venerá-los, ou quem quereria compra-los? Ao invés disto, deveríamos lamentar por cada espírito inferior que não quis ouvir o ensinamento do Buddha, e que com isto se tornou um demônio ressentido com suas vidas prévias. Se dermos ouvidos ao ensinamento do Buddha, podemos nos tornar um ser celeste, agradecendo e reverenciando às nossas encarnações prévias. Muito em breve nossos corpos se tornarão cinzas e morreremos, entrando no outro mundo. Devemos levar isto em consideração e não nos apegarmos demasiado a nossos corpos. Devemos ter esta prática incessante baseada nos ensinamentos corretos do buddhismo, de outra forma, pessoas do futuro que virem nossas cinzas, nada sentirão exceto vergonha e remorso. Neste caso então, não precisamos temer a prática, nem mesmo durante os meses frios, e devemos levar adiante incessantemente nossa prática. O sofrimento com o frio, não será nunca capaz de quebrar o espírito da pessoa, nem causará nenhum tipo de dano à prática. Exatamente o mesmo vale para o calor. Tampouco o calor quebrará a pessoa ou o caminho da prática, contudo o fato é que não praticar acabará quebrando a pessoa e o Caminho.

Ingerir comidas puras como trigo ou frutas silvestres é uma coisa positiva, então não devemos ficar imitando animais tais como demônios famintos que vivem de sugar sangue e leite das pessoas. Um só dia baseado na prática incessante é idêntico a um dia de Buddha.

Taiso Eka, o segundo ancestral na China, tinha o título de Grande Mestre Shoshu Fukaku. Era respeitado e venerado até pelos deuses. Monges e leigos o respeitavam como sendo de alta virtude e desligado e desapegado de coisas mundanas. Antes de ter sido ordenado, morava num lugar em Isui e Raksui, onde se concentrava em ler muitos tipos de livros. Rarissimamente saía para ver pessoas, e todas as pessoas, de suas partes, raramente viam uma figura como aquela. Tinha um grande e refinado conhecimento do buddhismo e era muito virtuoso.

Um dia, um ser celeste lhe apareceu na frente e disse: “Se desejas ter qualquer resultado de tanto estudo, porque ficar vegetando aqui? O Grande Caminho não está muito longe daqui. Deves ir para o Sul.”

No dia seguinte a este sonho, teve uma dor de cabeça muito forte, como se algo estivesse tentando perfurar sua cabeça. Seu Mestre, Kozan Hojo, procurava aplicar-lhe remédios, e neste momento preciso, uma voz proveniente dos céus foi ouvida, que dizia o seguinte: “Esta não é uma doença comum. Isto é como um dragão trocando de ossos.”

Ao comentar com seu Mestre sobre esta voz que tinha acabado de ouvir, este último percebeu que seu crânio parecia ter se transformado em cinco montanhas e lhe confidenciou o seguinte: “Isto é um sinal que boa sorte está a caminho. Esta voz estava lhe dizendo que deves te dirigir para o Sul; talvez o grande Mestre Bodhidharma, que reside Shorinji, seja teu Mestre.”

Depois de ouvir o que seu Mestre estava tentando lhe explicar, Eka dirigiu-se ao Templo de Shorinji. O ser celeste lhe havia dito que tinha ouvido a voz por causa de sua prática incessante.

Estava muito frio na noite de 9 de dezembro, tão frio que os nós dos bambus rachavam e a pessoa mal podia suportar a noite de inverno tão fundo nas montanhas, de tanto que nevava naquela noite. Apesar de recém ter tombado uma enorme nevasca, que por completo havia coberto a terra e as montanhas, o segundo ancestral continuou a forjar seu caminho. Foi muito difícil, mas finalmente chegou ao lugar onde se quedava Bodhidharma, mas não somente não foi convidado a entrar, como também Bodhidharma não lhe prestou a menor atenção. 

Eka ficou na neve, sem dormir, descansar ou sentar até de madrugada. Nevou a noite toda; para ele não havia descanso possível e a neve acabou atingindo até sua cintura. Suas lágrimas continuavam a escorrer rosto abaixo e antes de cair no chão já congelavam. Vendo suas roupas, percebeu que estava na verdade revestido de gelo. Constatando isto, com lágrimas escorrendo pela face, achou forças para suportar tudo nos seguintes pensamentos: “Nos tempos de outrora, haviam muitos exemplos de pessoas que buscavam o Caminho. Alguns cavavam a medula de seus ossos, outros rasgavam suas carnes e davam seus sangues para aqueles que passavam fome, alguns estendiam seus cabelos na lama para que o Buddha não sujasse seus pés ao passar por ali, e outros doavam seus corpos para os tigres no vale para mitigar-lhes a fome. Assim eram as pessoas de antigamente. Porque razão não poderia eu aguentar esta noite fria?”

Em tais pensamentos encontrou consolo. Os praticantes do Caminho não devem esquecer sequer por um só minuto, estes pensamentos do segundo ancestral. Se pela duração de um só minuto que seja, os esquecermos, iremos fatalmente ter um colapso.

O segundo ancestral tentava fortalecer sua mente se lembrando de tais exemplos na história, não ligando para o frio e a situação ao redor de si. Creio que podemos chegar às raias da loucura, se tentarmos sequer imaginar o que seja ficar na neve, numa noite tão fria, até que o dia raiasse. É deveras assustador, é terrificante, apavorante. Contudo, justo antes que a alvorada chegasse, o primeiro ancestral se dirigiu a Eka e lhe indagou: “Tu, que estás aí em pé na neve, o que queres?”

Eka, balbuciando as palavras em meio às suas lágrimas de gratidão, que continuamente fluíam por seu rosto, disse: “Ó Mestre, por favor tenhas compaixão e me permita descerrar os portões do buddhismo, pois desejo partilhar a verdade com todas as criaturas.”

O primeiro ancestral comentou: “O Caminho de todos os buddhas e ancestrais está baseado principalmente na paciência. O que existe de mais difícil é a prática incessante. Se alguém possui apenas uma pequena e insignificante virtude e sabedoria e fica, ainda assim, tentando buscar o verdadeiro ensinamento, chegará apenas a experimentar o sofrimento por suas dores e o resultado final será nulo, por completo inútil. 

Ouvindo isto o segundo ancestral, que nada mais podia deter, encheu-se de determinação e tomando de uma faca afiada, enquanto a luz rebrilhava na lâmina, de um só golpe decepou seu braço esquerdo. O primeiro ancestral ficou então convencido que Eka era aquele veículo capaz de transmitir a Lei a outros e disse: “Quando todos os buddhas e ancestrais começaram a procurar o Caminho abandonaram suas próprias formas em favor da verdade. Cortaste fora teu próprio braço diante de mim. Isto quer dizer que procuras o Dharma Verdadeiro.”

O segundo ancestral praticou com o primeiro ancestral durante oito longos anos. Durante este período, experimentou vários tipos de sofrimento e finalmente aprendeu o significado da diligência, indispensável para se atingir a meta a qual a pessoa se propõe. Assim foi que finalmente compreendeu onde se origina nossa mente, se tornando desta forma um grande líder religioso. Uma tal diligência nunca tinha sido vista em qualquer lugar do mundo, desde aquela história de Mahakashyapa, ao qual foi transmitido o Dharma de Shakyamuni através de um sorriso. 

Foi assim que o segundo ancestral recebeu a medula de Bodhidharma. Calmamente devemos refletir que mesmo que Bodhidharma tivesse vindo da Índia mil vezes, o Dharma buddhista não teria sido transmitido até o dia presente, se o segundo ancestral não tivesse recebido a prática incessante de Bodhidharma. Se encontrarmos o Dharma correto, não podemos senão ficarmos agradecidos de todo coração pela compaixão do segundo ancestral. De nenhuma outra forma podemos expressar nossa gratidão por este feito, pois que corpo e vida em si mesmos não bastam para expressar tal. Possuir um castelo na província não basta, porque eis que o castelo pode ser conquistado ou herdado por uma outra geração e nosso corpo e vida são igualmente impermanentes e podem acabar pertencendo a algum senhor feudal que possa aparecer por aí.

Não devemos gastar nossa vida inutilmente, mas a devemos basear na prática incessante, não a desgastando e desperdiçando em questões pessoais. Nossa vida atual é o resultado de nossos bondosos antecessores e provêm da grande compaixão da prática incessante. Uma vez que tenhamos despertado nossa mente de Buddha e que cheguemos à prática incessante dos buddhas e ancestrais, devemos nos sentir envergonhados de nos reverter a um tipo de mentalidade sem determinação em questões tais como ficar servindo nossas esposas e filhos. Se acabarmos finalmente nos tornando maliciosos e caindo de volta naquela procura de status e de lucro, estas coisas se voltarão contra nós, a menos que tenhamos grande compaixão. 

Ter grande compaixão com este desejo insistente de status e lucro significa que devemos discernir que temos dentro de nosso corpo e vida, esta inata capacidade de nos tornarmos buddhas e ancestrais e não jogarmos fora idiotamente nossa vida com esta busca inútil de status e lucro. Devemos perceber que o status e lucro são como sonhos e como ilusão: são exatamente como uma flor do vazio. Devemos compreender que o status e lucro mundanos são como ilusões e não devemos sair por aí, cometendo crimes por estas coisas. Aqueles que se aplicam ao Caminho buddhista devem ser capazes de ganhar este poder de observação correta em todos os aspectos das coisas. Até mesmo leigos tem esta compaixão e ficam muito agradecidos por quaisquer riquezas que recebam tais como ouro, prata, jóias, ou favores. Se tivermos compaixão sempre devemos tentar ser gratos aos outros por favores que foram recebidos, e pelos quais ficamos devendo àquele que nos prestou. 

Como poderíamos deixar de sinceramente ficarmos gratos de ver ou aprender o Dharma correto do Tathagata? Como poderíamos deixar de sermos gratos? Disto não nos esquecermos, é o mesmo que uma grande e preciosa jóia; realizar esta prática incessante sem retrogredir é a grande virtude que temos que adquirir. Se soubermos o verdadeiro valor da gratidão, veremos então que a virtude pode se acumular como uma montanha e não cair como uma gota de orvalho numa folha. Exatamente isto é o que vem a ser a prática incessante. Através deste mérito nos encontraremos conosco mesmos e prosseguiremos com nossa linhagem dos buddhas e ancestrais.

Diga-se como um adendo que nem o primeiro e nem o Segundo ancestrais jamais construíram quaisquer templos e nem sequer cultivaram a terra. O mesmo aconteceu com o Terceiro e Quarto ancestrais. Nem o Quinto nem o Sexto ancestrais construíram templos, nem o fizeram Seigen ou Nangaku.

Um dos discípulos de Seigen era Sekito. Este grande Mestre construiu para si uma pequena choupana, em cima de uma rocha enorme, onde se concentrava em zazen dia e noite sem cessar. Sem dormir, ele constantemente fazia zazen. Carregava água, rachava lenha e fazia zazen. Devido a esta prática incessante de Sekito, a linha de discípulos de Seigen fortificou-se e trouxe o bem estar ao povo de sua terra. As Seitas Unmon e Hogen que vieram desta linhagem do grande Mestre Sekito, todas esclareceram o que vinha a ser o Caminho buddhista.

O trigésimo-primeiro ancestral [o quarto na China], era o Mestre Zen Daii Doshin, que praticou com o terceiro ancestral desde a idade de catorze anos. Depois de ter recebido o Dharma correto do terceiro ancestral, ele se concentrou em zazen durante sessenta anos, nem dormindo nem descansando. A influência de seu ensinamento se espalhou por toda parte e sua virtude foi transmitida a todas as criaturas terrestres e celestes. Uma tal pessoa era este quarto ancestral na China e no ano de 643 D.C. o imperador Taishu da dinastia T’ang ouviu falar dele, tendo ficado deveras impressionado com o que ouviu e quis então conhece-lo pessoalmente. Ele o convidou para vir ao castelo, mas Daii Doshin se desculpou por três vezes dizendo que se achava meio doente.

Mas na quarta vez, Taishu mandou um enviado com a seguinte mensagem: “Se ele se recusar a vir de novo, decepem-lhe a cabeça e tragam-na para mim.”

O enviado se dirigiu à montanha onde morava o quarto ancestral e lhe disse ipse literis o que o imperador havia decretado. Sem uma mudança de expressão facial que fosse, o ancestral, com perfeita compostura inclinou um pouco o pescoço, entregando-o ao carrasco. O mensageiro apavorado, retornou ao imperador e relatou os fatos. Ao ouvir isto, o imperador ficou ainda mais impressionado e respeitou Daii Doshin, lhe mandando belíssimas sedas para mostrar sua admiração. 

Com a força de sua prática incessante, o quarto ancestral não se preocupava com sua própria vida e para nada necessitava ficar visitando o imperador. Uma prática incessante como esta é, de fato, extremamente rara de ser constatada e como tal não veremos igual nem que se passem mil anos. Aprendam com este exemplo de prática incessante e tratem de fazer disto uma regra, isto é, deve-se religiosamente evitar reis e imperadores. Apesar de podermos achar o máximo travar conhecimento com tais figuras populares e bem conhecidas, não devemos fazê-lo.

Até mesmo o imperador Taishu, a pessoa mais importante no mundo profano, respeitava e desejava conhecer este Mestre Zen que estava tão preparado para oferecer seu próprio pescoço em sacrifício, e isto por um mero princípio.

Havia contudo uma razão muito especial pela qual o quarto ancestral havia rejeitado o convite do imperador Taishu: ele tinha pena de perder o tempo que poderia ser gasto em sua prática incessante, em meras quimeras. Que uma pessoa chegue a recusar se encontrar com um imperador é fato raro, mais ainda se for considerado que isto ocorreu por três vezes. Hoje em dia o que vemos é que tantas pessoas querem se entrevistar com o imperador, crendo que isto seja uma tão grande honra. 

No dia 4 de setembro de 651, o quarto ancestral ensinou o seguinte a seus seguidores: “Tenham a certeza que tudo se encontra na forma do nirvana. Todos vocês devem se inteirar de suas próprias realidades, de suas essências e devem transmitir isto à sociedade.”

Após ter falado desta forma a seus discípulos, sentado em zazen faleceu. Tinha então setenta e dois anos de idade. Uma stupa lhe foi erigida no pico do Monte Hatto. Mas no dia 8 de abril do ano seguinte a porta desta stupa se abriu por si mesma, e o quarto ancestral foi visto lá dentro, sentado em zazen, exatamente como antes. Era como se ele ainda estivesse vivo. Seus discípulos não tentaram fechar a porta. Discípulos devem ter consciência que tudo está na forma do nirvana e que não devemos ficar apegados nem mesmo a isto. A essência de tudo está na forma do nirvana.

O quarto ancestral realizou esta sua prática incessante tanto antes como depois de seu falecimento. Achar que o ser humano não morra é um conclusão estúpida e precipitada, e achar também que a morte não possua nenhum tipo de consciência é uma tola concepção do que realmente ocorre. Estes dois pontos de vista, que não exista morte para os vivos e que os mortos não tenham consciência, são incorretos e devem ser descartados. Praticantes buddhistas não devem sequer desperdiçar tempo pensando sobre estas coisas. 

O Grande Mestre Gensha Soichi chamava-se Shibi antes de ter sido ordenado. Havia ele nascido na província Min em Fukushu e seu nome de leigo era Sha. Quando jovem, apreciava pescarias e já adulto virou um pescador no rio Nandai. Durante o ano de 860, na Dinastia Tang, quando tinha cerca de trinta anos de idade, de repente desejou deixar o mundo e a sociedade; largou seu barco e começou sua prática de Zen sob o Mestre Reikun do Monte Fuyo. Raspou sua cabeça e recebeu os preceitos do Mestre de preceitos Dogen do Templo de Kaigenji em Kosei. Usando sempre um manto muito remendado e sandálias comuns, comia somente o suficiente para ficar vivo. Durante todo dia praticava somente zazen. Todos os demais monges constataram que aquele era o tipo de praticante que raramente aparece no monastério. Ele se dava muito bem com Seppo Giso; era um relacionamento de Mestre e discípulo. Seppo admirava a prática sincera e concentrada de Shibi.

Um belo dia Seppo indagou de Gensha: “Todos estão comentando que tua prática é autêntica. Que querem dizer com isto?”

Ele respondeu: “Querem dizer que nunca engano ninguém.”

Num outro dia, Seppo chamou Gensha e perguntou: “Monge de manto remendado, porque não praticas sob um Mestre que te transmita o Dharma?”

Gensha respondeu: “Bodhidharma não foi à China e o segundo ancestral tampouco se dirigiu até a Índia para praticar.”

Seppo concordou com esta resposta de Gensha. Mais tarde, Seppo foi morar no Monte Seppo e juntamente com Gensha, ali erigiu um belo monastério. Muitos monges se ajuntaram, como nuvens no céu, e Gensha sempre ia até o quarto de Seppo com suas muitas perguntas. Todos os monges, que de lugares tão diversos provinham, sempre indagavam a Gensha sobre o Caminho, pois Seppo costumava dizer: “Se tiverem qualquer pergunta, façam-na a Gensha.” 

Gensha cumpria sempre sua responsabilidade para com seu Mestre. Isto não pode ser feito a menos que a pessoa possua aquele mundo de prática incessante de zazen. A prática incessante, aquela que não pára nunca, nem que seja por um só dia, é extremamente difícil de se encontrar. Tantas pessoas estão preocupadas apenas com assuntos mundanos; é muito difícil se encontrar alguém que se concentre apenas no zazen durante todo o dia. Como praticantes do Caminho, devemos estar conscientes que temos apenas um pouco mais de tempo de vida, anos e meses, e neste caso devemos nos concentrar no zazen durante todo o dia.

O monge Erin de Chokei se tornou um Mestre destacado como Seppo depois de ter sido seu discípulo. Com Seppo e Gensha ele praticou durante vinte e nove anos. Durante este período de tempo, gastou vinte almofadas de zazen. Aqueles que amam o zazen, apreciarão este seu exemplo como uma prática incessante do Caminho. Muitas pessoas competiram com ele mas não houve ninguém que lhe houvesse superado. Mas sua longa prática não foi em vão e finalmente ao levantar um cortina de palha certo dia, obteve a grande compreensão. 

Ele não retornou a seu país natal durante trinta anos e durante todo este tempo não teve nenhum contato com seus parentes e não conversava sequer com seus companheiros monges dentro da sala de zazen. Somente continuava sua prática de zazen. Durante trinta longos anos manteve esta prática incessante e manteve silentes todas suas dúvidas e perguntas. Devemos ver nesta pessoa um ser humano de extraordinárias capacidades, fora do comum. Lendo sua história compreendemos que ali se encontrava uma mente cheia de determinação. Se quisermos viver uma tal vida como a de Erin, devemos nos envergonhar de nossas más ações passadas e nos concentrar em verificar seus trinta anos de prática e compreensão. Contudo, se não possuirmos esta mente que busca o Caminho, e não tivermos um tipo de prática pura, preocupados demais em buscar sem parar status e lucro mundanos, meramente continuaremos a ser confusos. 

Depois que o Mestre Zen Daien do Monte Dai recebeu seu inka de Hyakujo, se mudou para o Monte Isan que era uma formidável montanha rochosa, muito alta e escarpada. Para ali esta figura se mudou e construiu uma pequena choupana; ficou amigo dos animais e passarinhos e vivia uma vida muito simples, concentrado e absorto por completo em sua prática. Não ligava para os fortes ventos, nem para a neve, nunca sendo preguiçoso demais para largar sua prática de zazen. Como comida, apanhava pinhões nas redondezas. Ali ele não tinha nenhum salão de cerimônias, muito menos qualquer prédio bem construído e durante quarenta anos a única forma que ali podia ser observada era sua prática incessante. Aos poucos ficou famoso por todo o país e monges chegavam as dezenas, de todas as partes, para receber suas instruções. Finalmente ele se tornou fundador de uma seita, Igyo e produziu mais de quarenta Mestres Zen, incluídos aí tais como Gyozan, Kyozen e Biun.

Se um dia tivermos vontade de erigir um templo, que nos lembremos que o objetivo principal não é a forma, fama, status, ou lucro, mas sim a prática incessante do Dharma de Buddha. Praticar sem qualquer templo era o Caminho do buddhismo primitivo, da mesma forma que sentar em zazen no chão mesmo ou debaixo de uma árvore qualquer também era costumeiro. O ponto a ser notado aqui é a prática de zazen, pois esta é sem dúvida a base mesma da prática incessante. Somente após obtermos esta prática incessante é que podemos então considerar se vamos ou não abrir um centro de prática. Quando tivermos a verdadeira prática incessante o lugar de prática do Buddha nos será transmitido até o dia presente. Imbecis hoje em dia se apegam às formas externas de uma construção ou um templo, mas os buddhas e ancestrais nunca ficaram apegados a qualquer prédio ou construção. Não podemos de forma nenhuma esclarecer observações e conclusões sobre nós mesmos pensando apenas sobre templos ou construções. 

Para os buddhas e ancestrais, prédios não trazem qualquer forma de bem estar. Prédios e construções são somente intermediários para a fama, status e lucro. Calmamente devemos observar e estudar a prática dos grandes Mestres e logo veremos qual é a forma autêntica e correta de se viver.

Chuva vespertina forte o bastante para quebrar rochas cobertas de musgo, 
Noites cheias da neve do inverno.
Não há sequer animais que possam ser vistos nas redondezas, 
De tão selvagem que são os elementos.
Nem existe qualquer fumaça saindo de chaminé de casa 
Alguma nos arredores.
Longe demais de qualquer coisa mundana.

Se não tivermos a prática incessante nem dermos valor ao Dharma mais que a nossas vidas pessoais, nunca chegaremos a conhecer um tipo de vida como esta acima de Isan. Não devemos estar apressados em aplainar o terreno e preparar os fundamentos para construir um templo, mas somente prosseguirmos em nossa prática incessante.

Ao compreendermos o que vem a ser uma compaixão serena e devotada, poderemos então ver que todos os ancestrais que possuíam esta transmissão correta sofreram o diabo tão profundo nas montanhas. Contudo, no que diz respeito a Isan, havia apenas um pequeno lago, água, gelo e nevoeiro. A maioria das pessoas “normais” jamais poderia agüentar estar tão profundamente dentro das montanhas. Contudo, permanece o fato de que o Caminho buddhista e a verdade profunda emergem somente de tal habitat como este em que vivia Mestre Daii, através de sua prática incessante. Ao ouvirmos falar de tal prática incessante não a devemos levar na mofa. Se formos praticantes sinceros, ficaremos muito encorajados pela prática de Isan. 

Devido a prática incessante de Isan, o mal se deteve antes que tivesse forças para começar a se manifestar, o mundo não se fez em pedaços, o palácio dos celestes ficou sereno e nosso país permaneceu em paz.

Nós não somos descendentes de Isan. Era ele um ancestral do Caminho buddhista. Mais tarde, Gyosan praticou sob Isan. Ele era uma pessoa de alta capacidade intelectual, que já havia praticado com o Mestre Zen Hyakujo; se o Mestre lhe indagasse uma só coisa, era capaz de responder de cem maneiras diferentes. Gyosan praticou durante três anos mais com Isan. Uma tal prática não tinha precedentes. Nada mais se precisa dizer sobre Gyosan, porque estes três anos extras sob Isan já dizem tudo que necessitamos saber sobre sua prática incessante.

O Mestre Zen Fuyo Dokai do Monte Fuyo realizou a prática incessante de onde ela se origina mesmo. O imperador lhe deu o título de Mestre Zen Josho e lhe presenteou com um manto púrpura, mas ele não o poderia aceitar e escreveu ao imperador lamentando sua inabilidade de aceitar, seja o manto, seja o título. 

Ele costumava dar toda sua porção de arroz para os outros. Tendo erigido uma choupana no Monte Fuyo, monges e leigos começaram a se reunir ao redor dele às centenas. Contudo, porque havia somente uma refeição por dia, muitos se foram. Ele não sairia para mendigar comida para o almoço.

Um dia ele deu seu ensinamento para os monges em assembléia sobre o que era deixar o mundo: O caminho de um monge é este: concentrar-se na prática, abandonar as ilusões e transcender a dicotomia da vida e morte. Por que deveria um monge se preocupar com o status mundano e com o lucro? Ele deveria cortar todos os relacionamentos e a cada momento ter uma mente tranqüila. Este é o significado profundo de se deixar para trás a sociedade. Se gastarmos um minuto que seja em coisas inúteis, perderemos nossa vida. Imediatamente devemos abandonar todo confronto, oposição e compromisso. Se insistirmos em nossa oposição, seria como plantar uma flor numa pedra. Se formos puxados para o status e lucro, seria como poeira dentro do olho. Se não soubéssemos o que verdadeiramente se esconde por detrás de tal, seria desculpável, mas desde os tempos antigos isto nos tem sido inculcado e transmitido. Entretanto, mesmo estando cientes de tudo, ainda persistimos em estarmos confusos. 

Porque sermos cobiçosos? Se não desistirmos disto agora, como poderemos nos desapegar? Todos os ancestrais nos ensinam que devemos fazer o melhor possível a cada momento. Senão fizermos o melhor possível a cada momento no presente, como o faremos mais tarde? Devemos nos esforçar ao máximo agora mesmo.

Se alcançarmos aquele estágio onde não buscamos nos apoderar de mais nada, até mesmo os buddhas e ancestrais serão de uma total inutilidade para nós. Uma mente lúcida pode ser alcançada e seremos capazes de ver a realidade se abandonarmos todos os conflitos mundanos. Pela primeira vez seremos dignos porque veremos a verdade.

Lembram-se das seguintes estórias? 

O discípulo de Baso, Injan, não tinha o menor desejo de ver ou conhecer ninguém que fosse durante sua vida toda e Joshu não falou sua vida toda. Hentan pegava frutos do pinheiro para comer. Daibai se vestia com folhas de lótus, e Shie utilizava-se apenas de papel para se proteger do frio. Gentai usava simplesmente pano. Sekiso se concentrava no zazen junto com seus discípulos, vivendo de maneira tão extremamente simples que as pessoas lhe chamavam de “velho monastério.” Pela sua estrita prática incessante afora, dizia constantemente: “O que vem a ser sua mente?”

Tosu Gisei fazia seus praticantes prepararem arroz e sempre trabalhava e comia junto com eles, porque queria que seus monges possuíssem a observação correta através da prática. 

Seríamos acaso capazes de nos esquecer dos esforços destes ancestrais e suas transmissões do Dharma? Devemos tentar nos concentrar nestes exemplos de prática incessante transmitidos pelos ancestrais. Devemos discutir isto com cada praticante e monge que sejam amigos nossos e com quem sejamos íntimos. Não devemos ir onde pessoas nos convidem, nem sequer pedir doações. Que vivamos apenas com o que podemos colher daquilo que plantamos dentro do monastério. Dividamos tudo em 360 partes iguais e utilizemos uma parte a cada dia que passa, não importa que quantidade de pessoas possam estar ali. Se pudermos, devemos preparar arroz. Se não houver o bastante devemos então fazer sopa. Se não for o bastante para sopa também, façamos um caldo ralo. Se mais e mais monges vierem, que bebamos apenas chá. Não é necessário que levemos o chá para cada monge: cada qual pode ir até um certo lugar para tomá-lo por si mesmo.

Devemos nos concentrar somente em coisas vitais e cortar todas as que forem inúteis e excessivas. Com este tipo de mentalidade, nossa prática se tornará mais frutífera e não parecerá ser tão difícil, nem tão penosa. Talvez ela se torne como uma flor que se abre, passarinhos cantando alegremente, um cavalo de madeira relinchando a plenos pulmões e uma vaca correndo a toda velocidade. As montanhas azuis do lado de fora não distrairão nossas mentes, nem o barulho das fontes termais as perturbarão. Ao olharmos as montanhas, poderemos ouvir os macaquinhos gritando e ver as gotas de orvalho cobrindo a lua minguante. O sabiá cantará na floresta e o vento soprará pelos pinheiros na madrugada. Os ventos da primavera trarão novos brotos para as velhas árvores e as folhas de outono murcharão e cairão por fim na floresta que vai ficando cada vez mais fria. Os degraus do Monte Fuyo estão cobertos de musgo; os rostos das pessoas cobertos de nevoeiro. Não há som nenhum, não há poeira e não há ninguém. Toda a montanha permanece completamente silenciosa e todas as coisas são transcendidas. É esta a atmosfera que queremos no Monte Fuyo.

Hoje, eu falei a esta assembléia reunida da importância e o valor de se praticar o Caminho buddhista para se ganhar a felicidade neste mundo. Esta é somente minha opinião pessoal, então não preciso falar desde um púlpito, dar sermões, usar símbolos de autoridade, dar gritos Zen, bater em alguém com uma vara, ou levantar ou abaixar as sobrancelhas. Será que temos necessidade de fazermos estas coisas? Às vezes tais coisas podem ter valor, mas em outras ocasiões são completamente contrárias aos ensinamentos dos buddhas e ancestrais.

Estão lembrados que Bodhidharma veio da Índia e sentou durante nove anos em zazen de frente para uma parede? E que o segundo ancestral experimentou grandes dificuldades enquanto buscava a compreensão e que finalmente decepou seu próprio braço? Isto é o que nós sabemos deles: que Bodhidharma nada ensinou e que o segundo ancestral nada perguntou. Mesmo assim, não podemos afirmar que Bodhidharma não tenha conduzido pessoas à compreensão. É que ambos praticavam um samadhi sem palavras. Podemos afirmar que o segundo ancestral não saiu por aí, à cata de um Mestre? Ao considerarmos o que fizeram estes ancestrais e suas práticas incessantes, severas e sérias, fico envergonhado de minha própria prática, que ainda é tão imatura e sem direção. Devemos ter vergonha de nossa intenção débil para a prática. 

Alguns que dizem ser praticantes insistem em manter seus desejos mundanos e apenas após obterem comida, abrigos, roupas e remédios começam a considerar a prática. Percebam que o ponto é a prática, não comida, roupas, abrigos e remédios. Se esperarmos até obtermos o suficiente destes, podemos nos encontrar para sempre distanciados de nossa prática buddhista.

O tempo voa como uma flecha: não reclamem das práticas a que ora estão se submetendo. Não queremos nos obrigar a nada. Quando o tempo chegar, saberão do que estou falando.

Será que já ouviram falar deste poema escrito por um velho praticante?

Arroz integral direto das plantações nas montanhas junto com vegetais amarelados. 
… Comer esta comida paupérrima é sua própria decisão. 
Mas se isto não puder comer, vá se embora daqui, soprado daqui para ali, do leste para o oeste.

Aí está a essência daquilo que foi transmitido de ancestral para ancestral. Existem muitas histórias sobre Fuyo Dokai e esta acima diz respeito à prática incessante. Devemos estar anelantes por uma prática que seja parecida com esta descrita acima e devemos seguir os padrões estabelecidos no Monte Fuyo. Isto nada mais é que o prosseguimento do ensinamento correto de Shakyamuni.

Na sangha do Mestre Zen Daijaku do monastério de Kaigenji, em Kosei Koshu, havia um monge chamado Baso Doitsu que era da região de Jippoken em Koshu. Tinha ele já praticado sob o Mestre Zen Nangaku Ejo durante mais de dez anos. Um dia resolveu voltar à sua terra natal. A caminho, repentinamente mudou de idéia e voltou a Nangaku; ali ele queimou incenso e fez uma reverência ante o Mestre Zen.

Nangaku disse então a Baso: “Eu te aconselho a não retornar a sua cidade natal. Se o fizeres, serás por completo incapaz de praticar o Caminho porque todos ali te chamarão pelo teu nome anterior de leigo.”

Ao ouvir tal, Baso acatou respeitosamente o conselho de Nangaku e assim lhe prometeu: “Não voltarei a minha cidade natal durante três encarnações.”

Ele então ficou com Nangaku. Vieram muitos monges de toda parte do país, como as nuvens. Dentre estes monges todos, houveram muitos praticantes destacados e houveram alguns, tais como Hyakujo que se tornaram também Mestres Zen. Pelo menos vinte e sete se tornaram grandes Mestres. Baso dizia que nossa vida é Buddha e nada mais. A vida de Baso nada mais era que Buddha; era ele um transmissor correto de Nangaku e um grande Mestre.

Devemos esclarecer o significado de ‘Não deves absolutamente retornar a tua cidade natal” e “eu não retornarei a minha cidade natal.” No ir e vir daquele que tem a compreensão completa, não existe lugar algum para se ir e nem para se retornar. Não existe diferença entre ir e voltar. Ir e voltar são transcendidos de tal forma que ir é a vida verdadeira da pessoa, a realização da prática incessante. Foi por esta razão que não foi necessário a Baso voltar a sua cidade natal em Kanshu. Devemos estar desapegados até mesmo da iluminação, transcendendo-a. As pessoas podem dizer qual é o nome de suas cidades natais, mas se elas estiverem vivendo realmente, o nome desta cidade nada mais é que verdade. Como Ejo e Baso costumavam ensinar? Quando encaramos o norte ou o leste, é o mundo todo que encara o norte e o leste. Aquilo que nós sentimos, tudo no universo, até mesmo as estrelas, sol, oceano também sentem. Assim vemos que não devemos meramente seguir nossas idéias preconceituosas.

O Mestre Zen Daiman Konin, o trigésimo segundo ancestral [o quinto ancestral na China] era o transmissor correto do Dharma de Buddha. Ele era de Obai. Tendo nascido sem pai, ele tomou o nome de sua mãe, Shu. Foi o mesmo que ocorreu com Lao-tsu, que ficou com o nome de sua mãe. Desde a época em que tinha sete anos de idade até a idade de setenta e quatro anos transmitiu os ensinamentos buddhistas autênticos e finalmente os passou ao sexto ancestral, En’o. 

En’o gastou nove meses apenas descascando arroz numa pila de pedra. No fim deste período, tendo sido a prática de En’o tão destacada, Daiman Konin lhe conferiu o inka, ao invés de a seu discípulo Jinshu. E foi desta forma que o sangue vital correto foi transmitido até o presente e como o Dharma Verdadeiro tem sido incessantemente trazido até os dias presentes.

O Mestre Zen Tendo Nyojo, meu falecido Mestre, era de Etsu. Ele se concentrou em seus estudos buddhistas no monastério de Kegonji da seita Tendai. Contudo achou que apenas aprender ensinamentos não era o suficiente para dominar o verdadeiro Caminho buddhista. Com a idade de dezenove anos ele abandonou seus estudos dos ensinamentos e Escrituras e se concentrou na prática do zazen, não se detendo até os setenta anos de idade.

O imperador Nei da Dinastia Sung do Sul, respeitava sua prática e lhe conferiu o título de Mestre Zen, lhe presenteando com um manto púrpura. Tendo Nyojo não podia aceitar estes presentes e mandou ao imperador uma carta de desculpas dizendo isto. Monges e leigos vinham de todas as partes do país para vê-lo: todos o respeitavam em uníssono. O imperador, em honra de sua profunda e serena prática, realizou uma cerimônia de chá especialmente para ele. Esta era uma honra incomum e nunca dantes vista, conferida a Nyojo.

Tendo Nyojo cria que a pior de todas as coisas era desejar status mundano e lucro. Ele acreditava que isto era pior ainda que quebrar quaisquer preceitos ou mandamentos. Segundo ele este último era somente um erro temporário que poderia ser concertado com a compreensão do que havia sido feito. Enquanto que os primeiros eram um praga da qual a pessoa não chegaria mais a se desvencilhar durante toda sua vida. Se a pessoa deseja ver como se pratica o Zen, não deve abandonar este espírito básico daquele que busca o Caminho. Igualmente não deve ser orgulhoso. Nada ter a ver com o status é a prática incessante e abandonar qualquer fortuna que a pessoa tenha chegado a acumular, também é a prática incessante.

Do primeiro ancestral, Bodhidharma até o sexto ancestral, todos foram agraciados com o título de Mestre Zen pelo imperador depois de terem falecido. Enquanto vivos não davam a menor pelota para o status ou glória, cortando fora a busca de status e riquezas. Devemos implorar pela prática dos buddhas e ancestrais. Ignoremos por completo o status e o lucro, e não queiramos qualquer coisa que diga respeito a nosso pequeno egoísmo.

Abandonar a busca de status e lucro é difícil para qualquer criatura e até mesmo para os buddhas e ancestrais. Eu já vi alguns que afirmavam que buscavam status e ganho porque queriam ajudar aos demais. Não pode existir frase mais perversa e maliciosa. Apesar deles pensarem que estão praticando o Caminho buddhista, dele estão perfeitamente removidos. O fato é que estão caluniando o Buddha. Se o que estivessem dizendo tivesse qualquer percentagem de verdade, então os buddhas e ancestrais que não cobiçam o status e lucro, a ninguém poderiam salvar.

Devemos amar aos outros, sem ambição. Existem muitas formas de ajudar as pessoas e existem formas de salvar as pessoas sem ser cobiçoso por status e dinheiro. Começar a divulgar por aí que estamos salvando as pessoas e fazendo exatamente o contrário, é uma coisa malévola. Se formos “salvos” por um destes animais, iremos direto para o inferno e ficaremos arrependidos de termos gasto toda uma vida na ignorância. Uma tal sórdida mentira deve ser reconhecida pelo que ela é, apenas isto.

Foi assim que meu falecido Mestre, Nyojo, quando presenteado com o título de Mestre Zen e um manto púrpura, simplesmente os enviou de volta, junto com uma carta se desculpando por sua inabilidade em aceita-los. Uma estória tão fora do comum como esta deve ser sempre relembrada para que os praticantes possam aprender com ela, e de sua experiência; O significado de “Eu me encontrei com meu Mestre” é “Eu me encontrei realmente com meu verdadeiro Mestre.”

Meu falecido Mestre deixou sua cidade natal com a idade de dezenove anos e viajou a muitos lugares procurando por um Mestre até a idade de sessenta e cinco anos. Ele era muito enérgico em sua busca pela compreensão. Para tanto evitava completamente imperadores, ministros bem como todos os funcionários de alto escalão do Estado. Tendo firmemente rejeitado o título de Mestre Zen e o manto púrpura, ele jamais, em toda sua vida, usou qualquer tipo de manto caro, colorido, ou que chamasse atenção. Sempre usava um manto preto e um kesa também preto ao dar suas palestras e instruir seus discípulos em seu quarto.

Certo dia, ele ensinou o seguinte a seus discípulos: “Ao aprender como fazer zazen, o principal é ter doshin. Ter doshin é a verdadeira chave para o Caminho. Durante os dois últimos séculos, o Caminho buddhista não tem florescido muito. Isto é um fato deveras entristecedor e inquietante. Como resultado disto, muito poucas pessoas realmente sabem o que quer dizer tudo isto que se busca no buddhismo. Quando eu morava em Kinzan, me encontrei com uma pessoa chamada Tokko Busho, que era o encarregado do depósito de comida. Em certa ocasião ele falou o seguinte: “Não é necessário estudar o que Mestres dizem, e tanto mais isto é válido quanto mais se fala do Caminho buddhista. Muito melhor é de fato estudarmos nosso próprio Caminho.” Ele não fazia jamais o zazen. Outros monges lhe copiavam o estilo e tampouco faziam zazen, e assim a sala de meditação se encontrava sempre vazia. Tokko estava por demais ocupado em cuidar de seus convidados e de pessoas influentes, concentrado que estava em obter status e fortuna. Se o Dharma de Buddha fosse, mesmo que de leve, como Tokko disse, ninguém iria praticar nada. Durante a Dinasta Sung, haviam muitas pessoas idosas e famosas, mas a maioria delas de doshin nada sabia. Haviam sido influenciadas por Tokko Busho e assim tristemente não era mais possível se encontrar qualquer ensinamento buddhista entre todas estas pessoas preguiçosas.”

Meu falecido Mestre Nyojo, me contou pessoalmente esta história. Quando os descendentes de Tokko Busho ouviram o que Nyojo falou de seus Mestres, não ficaram nem um pouco zangados com ele e isto por causa da personalidade de Nyojo.

Ele também disse: “Aprender zazen é jogar fora corpo e mente. Não é necessário queimar incenso, fazer prostrações, recitar o nome de Buddha, fazer arrependimentos, ou mesmo cantar sutras. Basta se concentrar no zazen e com isto nosso propósito original será alcançado.”

A verdade é que muitos houveram que fingiam fazer zazen, se apelidando todo o tempo de descendentes dos ancestrais. Podemos enumerar nos dedos aqueles monges que mantiveram o zazen como seus objetivos últimos. Eu diria até que na China toda, somente meu Mestre Tendo Nyojo o fazia. Pessoas de todas as partes elogiavam a Nyojo, apesar dele mesmo não os elogiar de volta. Alguns monges que viviam em templos famosos, contudo sequer conheciam Nyojo. Apesar deles terem nascido no centro do mundo, isto é, na China, eram como idiotas, porque não se aplicavam ao estudo e gastavam seus tempos inutilmente. Infelizmente este tipo de pessoas, não compreendendo aquilo que Nyojo dizia, erigiam seus próprios estilos de buddhismo. A verdade é que estavam muito longe da essência.

Meu falecido Mestre costumava ensinar o seguinte a seus discípulos: “Eu procurei um verdadeiro Mestre pelo país todo, desde que tinha a idade de dezenove anos, e contudo não fui capaz de encontrar nenhum que pudesse ser chamado daquele Mestre que o fosse para todo e qualquer tipo de pessoas. Desde os dezenove anos de idade eu tenho me concentrado no zazen, não perdendo sequer um só dia ou noite que seja.

“Até mesmo antes de me ordenar como monge, nunca falava com as pessoas de minha cidade natal, porque não queria desperdiçar tempo que poderia ser utilmente despendido na prática. A maior parte do tempo permaneci no monastério; nem mesmo aqueles que eram residentes no dormitório eu visitava para propósitos sociais. Além disto, tampouco gastava tempo passeando pelas montanhas vendo as vistas, ou gozando de belas paisagens. Somente me concentrava na prática e não desperdiçava meu tempo por aí inutilmente. Quando morava no monastério, não apenas praticava zazen durante os períodos regulamentares, mas também me dedicava ao zazen sempre que podia encontrar uma boa ocasião, tal como um lugar alto nas montanhas no verão ou um local ensolarado durante o inverno. Em certas ocasiões, quando tinha tempo, carregava meu zafu, e colocando-o num rochedo, ou no fundo de uma ravina profunda, fazia zazen. Às vezes apreciava me sentar na postura do lótus completo, como Shakyamuni mas por fazer tanto zazen, finalmente acabei desenvolvendo hemorróidas.

“Neste ano tenho já sessenta e cinco anos de idade. Por causa da idade, minha mente já está ficando um pouco mais fraca e menos intensamente focalizada. Contudo, como vejo praticantes vindo de tantos lugares diferentes, continuo a ficar nesta montanha para os poder instruir e praticar junto deles. Especialmente sinto que os velhos monges de hoje em dia não conhecem o significado do Dharma buddhista.”

Nyojo falava assim a seus discípulos porque tinha uma profunda devoção ao Dharma e não porque quisesse receber quaisquer vantagens ou benefícios.

Sobre Nyojo, a seguinte estória é bem conhecida: Havia uma pessoa que se chamava Choteiko, um parente do imperador Neishu da Dinastia Sung que era o encarregado das tropas e das colheitas nas províncias. Ele convidou meu falecido Mestre Nyojo para dar uma palestra e depois lhe deu dez mil moedas de prata por seus ensinamentos. Meu falecido Mestre disse então a Choteiko: “Apenas porque me convidaste, desci de minha montanha e dei uma palestra sobre o Dharma correto que tem sido transmitido pelos buddhas e ancestrais. Mencionei en passant o significado profundo do nirvana e rezei também pelo bem estar de teu recém falecido pai. Contudo, de forma nenhuma posso aceitar este pagamento porque tal coisa não é necessária para um monge. Eu te agradeço muito por ter pensado em mim, mas não posso aceitar este dinheiro.”

Choteiko, o diretor, disse: “Mestre, eu sou a pessoa mais respeitada dentre todos os parentes do imperador, e onde quer que eu vá, sou conhecido. Não me faltam oportunidades para ganhar muito dinheiro e tesouros. Hoje rezaste por meu falecido pai e eu gostaria muito mesmo que aceitasses essas moedas como um oferenda para o meu pai. Então porque não as aceitas? Por compaixão, por um favor, aceite-as como um pequeno testemunho de minha gratidão e então eu me sentirei muito feliz.”

Meu falecido Mestre disse então: “Compreendo perfeitamente teus sentimentos e respeito tuas boníssimas intenções. Contudo, tenho eu cá minhas razões, então agora por favor me escutes cuidadosamente.”

O diretor disse, “Sou todo ouvidos.”

Meu falecido Mestre disse: “Fico extremamente feliz porque compreendeste tudo que eu acabei de te explicar sobre a essência do ensinamento buddhista.”

O diretor disse então: “É bem verdade, foi cheio do mais profundo significado e eu fiquei deveras entusiasmado de ter podido ouvi-la.”

Meu falecido Mestre saiu-se então com esta frase: “És tão inteligente que quase hesito em falar diante de ti. Mas gostaria de te perguntar uma só coisinha a mais. Creio que tens uma compreensão muito boa, então por favor repita para mim o ensinamento que acabei de te dar. Se puderes me repetir ipse literis o que acabei de te falar, receberei neste caso as dez mil moedas. Se não puderes, deves ficar com teu dinheiro.”

O diretor, sem uma pausa que fosse, replicou: “Me parece que estás bem e estou feliz por ti.”

Meu Mestre disse: “Isto é apenas uma parte de tudo aquilo que eu te disse a um pouco atrás. Foi tudo que ouviste de mim?”

O diretor neste momento hesitou um pouco e meu Mestre arrematou a conversa da seguinte maneira: “Nós rezaremos por teu falecido pai. Só pegaremos as moedas para fazer a oferenda durante a cerimônia e em seguida as devolveremos a ti.”

Com isto meu falecido Mestre fez menção de partir e se despediu. O diretor lhe disse enquanto se despedia: “Não sinto pena de não ter podido compreender totalmente teu ensinamento; o que sinto mais, é a felicidade de ter podido te conhecer.”

Monges e leigos de todas as partes e meios de vida elogiavam a uma só voz o Mestre. Esta estória pode ser encontrada no diário de Hei que era o monge assistente de Nyojo. Hei comentando esta estória, disse o seguinte: “Nunca dantes havíamos visto um velho Mestre que não aceitasse dez mil moedas.”

E meu Mestre disse: “Contemplar e aceitar ouro, prata e jade é ser o mesmo que a lama. Mesmo que te desse moedas de ouro e prata, apesar de parecerem ouro e prata, não as devemos aceitar. É este o verdadeiro caminho de um monge autêntico.”

Esta ação a podemos encontrar em nosso Mestre apenas e em mais nenhum. Meu Mestre costumava dizer o seguinte: “Durante os cem anos passados, ninguém gastou toda sua vida somente em zazen. Espero que todos aceitem minha prática incessante como suas mesmas e se concentrem no zazen.”

Um homem chamado Dosho, que era anteriormente um taoísta, de Menshu em Shihoku, visitou Nyojo, junto com cinco outras pessoas e lhe disse o seguinte daquela feita: “Gostaríamos de praticar contigo, muito honrado Mestre Zen. Prometo-te com minha vida toda que se nos ordenares, jamais retornaremos novamente a nossa cidade natal.”

Meu falecido Mestre ficou especialmente feliz de ouvir isto e lhes permitiu que se juntassem ao monastério. Nyojo os colocou para fazer zazen e samu, exatamente como todos os demais monges, tendo em seguida os colocado próximos às monjas em hierarquia. Aí está realmente um tratamento excepcional.

Um monge chamado Zennyo de Fukushu também fez uma promessa a Nyojo: “Não voltarei pelo resto de minha vida para minha cidade natal, somente me concentrarei no Grande Caminho dos buddhas e ancestrais.”

Haviam muitos tais praticantes ao redor de meu falecido Mestre na China. Nenhum outro Mestre Zen, apenas meu falecido Mestre manteve a prática incessante num monastério Zen durante a Dinastia Sung. Contudo, aqui no meu país, o Japão, as pessoas não possuem uma tal tendência. Que coisa mais lastimável. Apesar de praticar o Caminho buddhista, sinto que os demais devem se sentir envergonhados de não o fazerem. Devemos calmamente refletir sobre a brevidade da vida, tomar conhecimento de algumas palavras dos buddhas e ancestrais e basear nossa prática da vida inteira nestas palavras verdadeiras. Este é o aprendizado básico da verdade buddhista e isto é a prática e a compreensão dentro do Caminho buddhista.

Os buddhas e ancestrais possuem apenas um corpo e mente de tal forma que até mesmo uma só palavra faz parte deste corpo e mente únicos. Ao estudarmos o corpo e mente dos buddhas e ancestrais, isto nos ajudará a colocar este Caminho em nosso próprio corpo e mente. Ao obtermos o Caminho em nosso corpo e mente, então finalmente nossa vida se tornará a verdadeira vida. Desta forma obtemos o Caminho bem no âmago de nossos corpos e assim nos tornamos buddhas e ancestrais e até mesmo os podemos superar. É isto o que mesmo uma só ou até duas palavras sobre prática incessante querem dizer. Assim aqueles que praticam não devem se apegar ao status, lucro ou fortuna, nem devem ficar indo de um lado para o outro. Assim fazendo serão capazes de obter a prática incessante dos buddhas e ancestrais e a transmitir para outros.

Aqueles que se desfizeram do status e lucro devem prosseguir na prática incessante dos buddhas e ancestrais como suas próprias práticas incessantes, sem qualquer tipo de apego.

Extraído do site www.dharmanet.com.br/


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