O castelo e o fosso



O castelo e o fosso

Texto de Charlotte Joko Beck,
extraído do livro”Nada Especial

Desde que comecei como instrutora encontrei muito poucas pessoas que não estavam de alguma maneira mergulhadas naquilo que consideravam como um problema. É como se suas vidas estivessem enterradas numa densa e enorme nuvem, ou como se estivessem num quarto escuro as voltas com nossa nêmese. Quando estamos nas malhas desse conflito, fechamos o mundo do lado de fora. Francamente, não temos tempo para ele porque estamos muito ocupados com nossas preocupações. Nosso único interesse é solucionar nosso problema. Não vemos mais além do que essa ilusão, em que o problema com que nos preocupamos não é o problema real. Ouço um sem-número de variações sobre esse tema: “Estou tão sozinha”; “A vida é vazia e sem sentido”; “Tenho de tudo, e no entanto…”. Não enxergamos que nosso problema superficial é apenas a pontinha do iceberg. Na realidade, o que consideramos como nosso problema é, na verdade, um pseudo problema.

Para nós com certeza não parece que sejam só pseudo problemas. Se, por exemplo, sou casada e meu marido vai embora sem dúvida não acho que esse seja um pseudo problema. Vai passar muito tempo antes que eu consiga ver que aquilo que estou chamando de o meu problema não é a dificuldade real. Apesar disso, o problema real não é a parte que podemos enxergar, como algo pendurado no ar; o verdadeiro problema é o iceberg que está embaixo da água. Para uma pessoa, o iceberg pode ser uma crença generalizada e entranhada do tipo “Tenho tudo sob controle”; para outra, pode ser “Preciso fazer as coisas com perfeição”. Mas, na verdade, não consigo controlar o mundo sendo prestativa, não consigo controlá-lo sendo desprotegida, não consigo controlá-lo com meus encantos, ou meu sucesso, ou minha agressividade, não consigo controlá-lo pela suavidade ou pela doçura, ou pelo melodrama da vítima. Logo abaixo do problema emergente está um padrão mais fundamental que de-
vemos reconhecer e com o qual nos familiarizar. Trata-se de uma atitude crônica e abrangente perante a vida, uma decisão muito antiga decorrente de nossos temores infantis. Se não conseguirmos enxergá-la e, em vez disso, nos perdermos tentando lidar com o pseudo problema que se apresenta, continuaremos cegos aos acontecimentos e às pessoas.

Só quando nossa abordagem de cegos diante da vida começar a apresentar defeitos é que passaremos a sentir vagos lampejos de que nosso pseudo problema é um castelo assombrado no qual estamos como prisioneiros. O primeiro passo de qualquer prática é saber que somos prisioneiros. A maioria das pessoas não tem a menor suspeita disso: “Oh, comigo vai tudo bem!”

Porém, quando começamos a reconhecer que estamos como prisioneiros, podemos começar a encontrar uma porta que nos leve para fora da prisão. Estaremos então despertos o suficiente para saber que estamos aprisionados.

E como se meu problema fosse um castelo sombrio e tenebroso, cercado de água por todos os lados. Encontro-me num pequeno bote e começo a remar para ganhar distância. Conforme remo, olho para o castelo que vai ficando para trás, e quanto mais me afasto, menor fica. O fosso é imenso, mas finalmente o atravesso e chego na outra margem. Agora, quando olho de novo para o castelo, ele parece muito pequeno. Por ter recuado, não tem mais o mesmo interesse que um dia despertou em mim. Assim, começo a dar mais atenção para o lugar onde agora me encontro. Olho para a água, as árvores, os pássaros. Talvez existam pessoas passeando de bote pela água, apreciando o ar livre. Algum dia desses, enquanto estiver desfrutando o cenário, vou olhar para onde estava o castelo e verei que ele terá sumido.

A prática é como o processo de remar pelo fosso. Primeiro estamos nas malhas de nosso pseudo problema. Em algum ponto, contudo, damo-nos conta de que aquilo que parecia ser o problema não é, afinal de contas. Nosso problema é algo muito mais profundo. Uma luz começa a brilhar. Somos capazes de encontrar uma porta de saída e ganhar uma certa distância ou perspectiva em nossos esforços. O problema poderá ainda continuar nos atormentando, como um imenso castelo mal-assombrado, mas pelo menos estaremos do lado de fora, olhando para ele. Quando começamos a remar e nos distanciar, a água pode estar encapelada e dificultar o avanço. Até mesmo uma tempestade pode nos arremessar de volta à beira do lago, de modo que não conseguimos ir embora ainda por mais algum tempo. No entanto, continuamos tentando e, em algum momento, conseguimos colocar alguma distância entre nós e o castelo tenebroso. Começamos a desfrutar um pouco a vida do lado de fora do castelo. Depois de algum tempo, podemos estar gostando tanto dela que o castelo em si agora parece apenas um outro resto de alguma coisa flutuando na água, tão sem importância.

Qual é o seu castelo? Qual é o seu pseudo problema? E qual é o iceberg lá embaixo, o problema mais profundo que dirige a sua vida? O castelo e o iceberg são uma e a mesma coisa, O que são para você? A resposta, para cada pessoa, é diferente. Se começamos a ver que o problema atual que nos contraria não é a verdadeira questão de nossas vidas, mas simplesmente um sintoma de um padrão mais profundo, então estamos começando a conhecer nosso castelo. Quando o conhecermos bastante bem, estaremos começando a encontrar a direção da saída.

Poderíamos perguntar por que continuamos presos no castelo. Permanecemos presos porque não reconhecemos o castelo, nem como conquistar a nossa liberdade. O primeiro passo na prática é sempre ver e reconhecer nosso castelo ou prisão. As pessoas são feitas prisioneiras de muitas e variadas maneiras. Por exemplo, um castelo pode ser a busca constante de uma vida excitante e movimentada, repleta de novidades e divertimentos. As pessoas que vivem assim são estimulantes, mas difíceis de conviver. Viver num castelo, portanto, não significa necessariamente uma vida de preocupações, ansiedade e depressão.

As prisões mais sutis não parecem em nada com isso. Quanto maior o nosso sucesso no mundo externo, mais difícil pode ser identificar o castelo onde estamos como prisioneiros. O sucesso em si é ótimo; contudo, se não nos conhecemos, pode ser uma prisão. Conheci pessoas famosas em seus campos de atividade e que apesar disso eram prisioneiras de seus castelos. Tais pessoas só partem para a prática quando alguma coisa começa a não dar mais certo em sua vida – embora o sucesso externo em geral torne mais difícil reconhecer e admitir a desintegração. Quando as primeiras rachaduras concretas aparecerem na parede do castelo, talvez comecemos a investigar nossas vidas. Os primeiros anos de prática consistem em chegar a conhecer o castelo do qual somos prisioneiros e começar a encontrar onde está o bote a remo. A viagem através do fosso pode ser tortuosa, especialmente no princípio. Talvez nos aconteçam tempestades e águas agitadas quando nos separamos de nosso sonho de como somos e de como pensamos que a nossa vida deveria ser.

Um só elemento realiza por nós essa travessia: a percepção consciente do que está acontecendo. A capacidade de manter a percepção consciente quando pseudo problemas aparecem é algo que aos poucos se desenvolve pela prática, embora não por esforços deliberados nesse sentido. Quando se dão acontecimentos dos quais não gostamos, criamos pseudo problemas e ficamos seus prisioneiros: ”Você me insultou! Claro que estou com raiva!”; “Estou tão sozinha. Ninguém realmente se importa comigo”; “Minha vida foi muito dura. Abusaram de mim”.
Nossa viagem não termina (e talvez numa única vida humana nunca chegue ao fim) enquanto não virmos que não existe castelo e que não existe problema. A quantidade de água que atravessamos em nosso bote é sempre aquilo que ela é. Como poderia existir algum problema? Meu “problema” é que não gosto disso. Não gosto disso, não gosto desse jeito, a vida não me serve. Assim, partindo de minhas opiniões, reações e julgamentos construo um castelo no qual me faço prisioneiro.

A prática ajuda-me a compreender esse processo. Em vez de me perder em meio a contrariedades, observo meus pensamentos e a contração do meu corpo. Começo a ver que o incidente que me transtornou não é o problema real; em vez disso, minha contrariedade deriva de minha particular maneira de olhar a vida. Escolho esta parte e começo a demolir o meu sonho. Pouco a pouco, vou construindo uma certa distância em perspectiva. Meu bote a remo afasta-se do castelo que ergui e não sou mais prisioneiro ali dentro.

Quanto mais tempo praticamos, mais rapidamente avançamos por esse processo, a cada vez que ele emerge. O trabalho é lento e desencorajador no começo, mas, conforme vão aumentando nosso entendimento e nossas habilidades, ele acelera cada vez mais e chegamos depois a ver que não existem problemas. Podemos desenvolver doenças e perder o pouco dinheiro que tínhamos; apesar desses transtornos, não há problema.

Porém, nós não enxergamos a vida dessa maneira. No minuto em que se impõe a nós algo de que não gostamos, temos, do nosso ponto de vista, um problema. Assim, a prática zen não trata de nos ajustarmos ao problema, mas de vermos que não existe problema nenhum. É uma estrada muito diferente daquela a que estão acostumadas quase todas as pessoas. A maioria apenas tenta consertar o castelo, em vez de ver mais além dele e encontrar o fosso que nos separa dele – e isso é o que a prática nos leva a reconhecer.

Na verdade, a maioria não quer sair do castelo. Podemos não percebê-lo, mas adoramos os nossos problemas. Queremos continuar como prisioneiros de nossas construções, girando e revolvendo no mesmo ponto como vítimas, sentindo muita pena de nós. Depois de algum tempo, pode ser que cheguemos a ver que essa vida na realidade não funciona muito bem. É quando talvez comecemos a procurar pelo fosso. Mas mesmo então, continuamos a nos iludir, buscando soluções que mantêm o castelo intacto e a nós como prisioneiros. Por exemplo, se um relacionamento parece ser o problema, talvez nos atiremos em outro em vez de descobrir a questão que está na base, e que é a nossa fundamental decisão sobre a vida, o castelo que erguemos.

“Minha perna quebrou.” “Estou aborrecido com a minha namorada.” “Meus pais não me compreendem.” “Meu filho usa drogas.” E assim por diante. O que, neste exato minuto, é o fator que nos separa da vida e nos impede de enxergar as coisas como elas são? Só quando a vida for apreciada em todos os seus momentos é que poderemos dizer que sabemos algo de uma vida religiosa.

Compreender é a chave. Ainda assim, são precisos anos e anos de prática para começarmos a entender o que estou descrevendo e é preciso coragem para nos aventurarmos na travessia do fosso, distanciando-nos do castelo. Enquanto ficamos dentro dele, conseguimos sentir que somos importantes. É preciso um interminável treinamento para cruzar aquele fosso com rapidez e eficiência. Não somos muito propensos a sair do castelo. Se estamos terrivelmente deprimidos, a depressão é, apesar de tudo, aquilo que conhecemos; que Deus não permita que nós devamos abandonar nossa depressão. E assustador entrar no nosso pequeno bote e deixar para trás todas as coisas que até então chamávamos de a nossa vida. Aprisionados no castelo, ficamos constringidos a um espaço reduzido, apertado. Nossa vida é sombria e assustadiça, quer o percebamos, quer não. Felizmente, a liberdade (o nosso ser verdadeiro) nunca cessa de nos chamar.



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