Os Meios São o Fim

Ensinamentos do Mestre Thich Nhat Hanh
Retiro em Plum Village
Dezembro de 1999

Transcrito e editado por Carol Fegan, Chan An Cu
Revisado por Brendan Sillifant
Traduzido ao Português por Claudio Miklos

Palestra de Dharma dada por Thich Nhat Hanh em 5 de Dezembro de 1999 em Plum Village, França.

Hoje é 5 de Dezembro, 1999 e estamos no Upper Hamlet durante nosso Retiro de Inverno. Tempos atrás nós discutimos sobre meios e fins e aprendemos que na prática do Budismo não há nenhuma distinção entre meios e fins, e [que os] meios deveriam ser considerados como os fins por si mesmos. Esta é uma prática muito intensa e nós deveríamos nos apoiar no Sangha para fazer isto.

Quando você vai para o Salão de Buddha ou para o Salão de Dharma sabe que tem algo a fazer lá: meditação sentada, ouvir uma palestra de Dharma ou limpar o salão, mas ir para lá também é uma prática. Lhes é solicitado que limpem o salão de meditação com consciência, é esperado que vocês se sentem belamente quando escutam a uma palestra de Dharma, é esperado que vocês se concentrem, estejam atentos durante sua meditação sentada, assim a prática acontece no salão de meditação, mas nós deveríamos saber que a prática também acontece durante sua caminhada por ali.

Eis por que deveríamos tentar estar praticando durante o tempo em que caminhamos para o salão de meditação, e se você for bem sucedido em todo passo que você der, a meditação sentada, a palestra de Dharma ou a limpeza do salão de meditação serão [também] um sucesso.

Porque temos o hábito de fazer as coisas sem eficiência é que nós tendemos a negligenciar, menosprezar o valor dos meios.Nesta época no Outono, eu normalmente limpo as folhas do eremitério. Eu faço isto a cada três dias mais ou menos e uso um ancinho. Eu sei que limpando as folhas é ter um caminho limpo para caminhar, fazer meditação andante e assim por diante; eu corro diariamente pelo menos duas vezes – eu pratico a meditação correndo e limpo as folhas deste modo (conscientemente). Limpar as folhas não significa apenas ter um caminho limpo para correr ou caminhar, mas limpar as folhas significa simplesmente gostar de limpar as folhas. Assim, eu seguro o ancinho de tal modo que possa estar contente e sólido durante o tempo de usar o ancinho. E todo movimento que faço, quero fazê-lo como um ato de iluminação, um ato de alegria, um ato de paz, assim eu não tenho pressa, porque vejo que o ato de limpar é tão maravilhoso quanto ter um caminho limpo. Eu não estaria satisfeito com menos do que isso. Todo golpe que eu dou deve trazer alegria, solidez e liberdade para mim. Devo ser completamente eu mesmo durante o ato de limpar as folhas, e limpar as folhas [deste modo] não será mais um meio para se chegar a um fim chamado “ter um caminho limpo”. E você não precisa esperar por muito tempo; se puder dar um golpe assim, um movimento assim, investindo completamente você mesmo no ato de limpar as folhas, então imediatamente será recompensado. Essa é uma obra de arte perfeita que você faz porque cada movimento é uma obra de arte.

O mesmo é verdade quando você pratica a caminhada. Cada passo que dá deveria ser uma obra de arte perfeita, cada passo pode lhe trazer solidez, soberania pois você não caminha como um escravo, caminha como uma pessoa livre. Caminha como um Buddha porque quis ser um discípulo, uma filha ou um filho do Iluminado, você quer ser a sua continuação, eis por que é capaz de dar um passo com soberania, estando completamente em controle de você mesmo. Você está completamente presente no aqui e o agora, e desfruta daquele passo. Assim, a meditação andando é não chegar ao salão de meditação. Chegar ao salão de meditação é o que você quer, mas você quer mais do que isso, porque você alcança o salão de meditação várias vezes ao dia e às vezes dez ou vinte chegadas como esta não fazem nenhuma diferença. Assim, um passo é o bastante para você chegar. Eu cheguei! Com um passo. Essa é a nossa prática, mas há uma energia de hábito que lhe impede de fazer assim. Você está acostumado a correr por acreditar que a felicidade não é possível aqui e agora, a felicidade só é possível no futuro. Este tipo de convicção, este tipo de energia de hábito tem estado presente por muito tempo, transmitido por muitas gerações de antepassados e vir à Plum Village é ter uma chance de perceber isto; que você é governado por sua energia de hábito, pela tendência de correr todo o tempo. Você não é capaz de estar no aqui e o agora para tocar as maravilhas da vida que estão disponíveis. Nós temos muitas chances para praticar. Sabemos que lavamos roupas, lavamos pratos, varremos o solo, cuidamos do jardim, há muitas coisas que vocês podem fazer, mas não façam isto do modo como eles fazem isto no mundo. Façam em uma prática, uma boa prática, e vocês serão recompensados imediatamente, saberão que estão lidando com sua energia de hábito. A energia de hábito nos diz: “rápido, rápido, vá, rápido, rápido, termine logo! O prazo final está próximo!”, mas a prática está lhe dizendo o oposto: “não corra, desfrute, o aqui e o agora é a única coisa que você possui, a felicidade não pode ser possível fora do aqui e o agora”, assim você tem duas coisas que contradizem uma à outra, e eis por que a palavra “treinamento” significa que você supera a energia de hábito lentamente e se dá outra energia de hábito, que é boa. A energia de hábito que você quer cultivar é a capacidade de estar no aqui e agora, e viver todos os momentos de sua vida diária profundamente. Limpe as folhas, desfrute! Faça o café da manhã! Desfrute completamente deste ato de arte culinária. Lave os pratos! Desfrute completamente o ato de lavá-los. Diariamente no Mosteiro eu lavo os pratos, diariamente eu fervo o arroz e cuido das flores, das plantas, e minha prática é de desfrutar todos os minutos enquanto estou fazendo estas coisas. Sim, escrever um poema é maravilhoso, escrever um artigo é maravilhoso, dar uma palestra de Dharma é maravilhoso, mas é igualmente maravilhoso cuidar do arbusto, cuidar das plantas, lavar os pratos e assim por diante. Por ser muito enriquecedor, muito recompensador, isto pode trazer muita paz, alegria e solidez para você. Nós sabemos que a felicidade não seria possível se não tivéssemos nenhuma estabilidade e solidez, e isso ocorre por que temos que cultivar nossa estabilidade, nossa solidez e oferecer isto para nós mesmos, porque sem o solo da estabilidade e solidez nenhuma paz real, nenhuma felicidade real poderia ser possível. Eis porque aprender a limpar as folhas, aprender a varrer o solo, aprender a lavar os pratos é muito importante. Não diga que a meditação sentada é mais importante [do que isto] ou que a meditação andante é mais importante, ou ouvir uma palestra de Dharma é mais importante. Você escuta a palestra de Dharma para poder limpar as folhas. Você escuta a palestra de Dharma para poder lavar os pratos, corretamente e sabendo desfrutar isto.

E em Plum Village nós temos a vantagem de ter muitos irmãos e irmãs que fazem o mesmo e quando vemos um deles fazendo a prática nós nos sentimos apoiados. Eles não fazem nada demais. Eles apenas fazem a prática, não dizem nada a nós; eles simplesmente fazem. E quando nós os vemos agir, temos uma chance para nos voltar para nós mesmos e fazer isto também. E a comunidade de prática é um grande presente, como o raio de sol. Todo o mundo na França, talvez muitas pessoas francesas têm o sol hoje mas talvez porque muitos de não tem a capacidade de ir para casa no aqui e agora, o raio de sol não significa muito para eles. Mas se você sabe como inspirar e ficar consciente do raio de sol, você terá um tipo diferente de sol, o sol é para você e não para esses que estão tão ocupados, e que perdem tanto tempo nas suas preocupações, no passado, no futuro. É suposto que a lua seja para todos mas há alguns de nós que jamais vêem a lua, nunca obtêm algo da lua, nunca desfrutam a lua.

E nós vivemos juntos em Plum Village durante uma semana, durante um mês ou três meses, durante um ano, e praticamos juntos. Existem alguns de nós que estão bastantes contentes, contudo existem alguns de nós que não estão tão contentes; o mesmo ambiente, o mesmo Sangha, a mesma prática e ainda assim nós recebemos diferentemente o volume de felicidade, paz, estabilidade e alegria. E o que faz esta diferença? A diferença é nossa capacidade de pôr em prática o ensinamento que é dado. E o Buddha foi bastante claro nisto, vida só está disponível no aqui e agora, com todas suas maravilhas; se você continuar correndo, estas maravilhas da vida não serão suas. Assim, pare! Sorria ao sol, sorria à lua, sorria para seus irmãos ou irmãs e especialmente, sorria para você.

Reconheça que você está presente. Você precisa ser nutrido pela paz, pela alegria. Você tem se privado destes elementos. É você mesmo que se privou da paz, alegria, nutrição e cura. Agora o Dharma é lhe ajudar a parar este curso de vida. Olhe-se, sorria para você, seja amável com você, trate-se com a prática. Aprenda a caminhar, aprenda como respirar e sorrir, aprenda a limpar as folhas no jardim do pátio. É muito importante. O Reino de Deus, a Terra de Buddha está aqui mesmo para você tocar. [Sino]Se você observou os monges e as monjas, se os observou em Plum Village, notará que enquanto eles caminham não falam, quando falam eles param para falar e escutar, e depois de falar e escutar, eles retornam ao seu andar. Por que eles fazem assim? Porque quando eles falam e escutam, querem investir 100% de si no ato de falar e escutar. Eis porque eles não falam enquanto estão caminhando; eles querem investir 100% de si no ato de andar. Eles querem dar passos reais, passos que podem trazer estabilidade para eles, solidez, liberdade porque eles sabem que a estabilidade, a solidez é o solo da felicidade, assim eles caminham para ao mesmo tempo cultivar e desfrutar disto.

Eis porque, se você vier a Plum Village e seguir este tipo de exemplo, se unirá à prática. Não falar durante o caminhar não é uma regra porque nós não queremos ser vítimas de regras, não queremos absolutamente nenhuma regra, simplesmente queremos praticar. Se você não fala, é porque nós queremos praticar. Não é que falar seja um crime. Mas se você falar durante a prática, estará destruindo-a.

Nos ensinamentos do Buddha, estar preso a regras é algo que vocês não são encorajados a fazer. Nós deveríamos olhar para isto como uma prática e não como regras, como os dez preceitos do noviciado que nós temos aqui e que vocês ouviram ontem. Eles não são regras para o noviço. Eles não existem para restringir a liberdade e a felicidade do noviço. Eles existem para ajudar o noviço a levar uma vida feliz de noviço. Porque estes preceitos devem ser considerados como sendo a prática da consciência plena e se vocês praticarem adequadamente preservarão sua liberdade, sua beleza, sua felicidade. E se vocês pensam que estas dez coisas são regras às quais tem que se submeter, tem que se render, vocês não entenderam, vocês não perceberam o sentido real; eis porque o Buddha disse: não seja escravo de regras e rituais. Rituais e regras, nós não precisamos deles; precisamos apenas da prática.

Quando nós entramos no salão de Dharma todo o mundo se levanta e une as palmas. Isso não é uma regra, é a prática. E quando o professor entra no salão, não é afetado pelo respeito que é mostrado a ele. Ele também pratica caminhando, conscientemente, a prática do andar atento é a sua prática. Andar conscientemente é a prática dele, e o levantar-se, respirar e mostrar respeito são as práticas de vocês. Estas duas coisas são igualmente importantes. E se vocês olharem isto como um ritual, estarão errados. Se olharem isto como uma regra, estarão errados, vocês devem ver isto como sua prática, e a boa prática sempre pode ser reconhecida. Quando o professor caminha, ele deveria ser uma pessoa livre, não é afetado pelo orgulho, complexo de arrogância, esta é sua prática. Sua prática é ser respeitoso ao professor, gostar de se levantar desta forma, inspirar, expirar, sorrir e tocar as muitas gerações de professores na história. Quando você está em contato com seu professor, você está em contato com o professor de seu professor, o professor de sua professora, e você está em contato com muitas gerações de professores, está em contato com o Buddha, portanto esta é sua prática.Eis porque você não reclama que deve se levantar muito cedo e que o professor está caminhando muito lentamente. O professor vive a prática dele e você a sua, todo o mundo está usufruindo disto, e você saberá se sua prática está correta ou não. Você sabe por si se a prática o está fazendo feliz, calmo, sólido. Você sabe que o professor cuida da prática dele e você da sua, e nós não deveríamos olhar isto como uma regra ou um ritual, caso contrário, estaremos presos a formas de rituais e regras, e o Buddha é contra rituais, meros rituais e regras.

Quando você segura um copo de água e a bebe conscientemente, o ato é tão bonito e se parece com um ritual, certo? Mas aquele que está segurando o copo e está bebendo não tem qualquer intenção de fazer disto um ritual, uma performance. Ele simplesmente gosta de segurar o copo e beber. Mas porque a plena consciência está lá, muito profunda, muito forte, assim o ato se parece um ritual, mas não é ritual, é a prática. Quando você se curva assim e sente que sua mente e seu corpo estão unidos em concentração, em plena consciência, e sente que está totalmente presente orientado para algo bom, verdadeiro e bonito, a natureza da iluminação, a natureza do despertar em si, você recebe algo, usufrui disto e não pensa nisto como um ritual. Mas se você faz isto como uma máquina e quando vê pessoas simplesmente as imita sem entender, isso é um ritual, é uma coisa ridícula de fazer, completamente vazia. Este tipo de ritual está completamente vazio e nós não deveríamos fazer assim.

Assim em grandes retiros na América Norte temos sempre pessoas novas, às vezes 50 ou 60% das pessoas que se juntam ao retiro são pessoas novas e elas ficam envergonhadas, elas pensam nisto como um ritual, elas não estão confortáveis. Eis porque eu sempre começo dizendo, se curvar ou não se curvar, esta não é a questão! Curvar-se é um ritual, assim não fique preso pelo ritual. Prática. Se você pensar que fazer isto lhe trará concentração, insight e reverência, isso [então] irá lhe fazer bem, isso o fará feliz e então você fará isto e estará livre de rituais, livre de regras.

Assim os dez preceitos do noviciado são práticas que se direcionam para ajudar o noviço a ser livre, estar contente, ser sólido e se você considerar os preceitos como algo que limita sua liberdade, está errado, estará preso a rituais, será preso a regras e isso é contra o espírito budista. Nas cinqüenta e uma categorias de formações mentais existe uma certa formação mental. É descrita como uma formação mental saudável porque há formações mentais insalubres como raiva, ódio, medo. Estes não são estados mentais positivos mas esta formação mental é um estado mental bom. Pode ser traduzido como vergonha, mas é muito difícil traduzir exatamente. Significa: você fica envergonhado de si mesmo quando percebe que não pratica como deve.

Vocês não precisam de alguém para lhes dizer que não estão praticando, vocês tem todas as condições para ter sucesso na prática e ainda assim não fazem isto, e quando não fazem, toda vez que pensam nisto ficam envergonhados. Por favor, me ajudem a achar a palavra em Inglês. O mesmo acontece quando vocês confrontam outra pessoa. Vocês vêem outra pessoa praticando, tão bem, tão feliz, assim sentem-se envergonhados na presença dele ou dela.

Se você é um professor de Dharma, ou aprendiz de professor de Dharma, ou um futuro professor de Dharma, sabe que não seria certo se não praticasse porque você está compartilhando o Dharma. Vocês estão falando em nome do Buddha, dos Bodhisattvas, sobre a prática. Vocês dizem às pessoas que tentem ficar atentas e se estabelecer no aqui e agora, tocando as maravilhas da vida no aqui e agora, se nutrindo, para que se transformem e no entanto não fazem isto; quando pensam nisto, tem uma sensação de vergonha. Esta é uma boa formação mental, uma formação mental saudável porque esta formação mental mudará você. Você evolui, se torna um melhor praticante de Dharma. Eis porque a vergonha é a primeira de muitas formações saudáveis.

Pessoas que não têm senso de vergonha não têm nenhum futuro. Você deveria ficar envergonhado do fato de que não pratica quando condições favoráveis para a prática estão todas presentes, em seu interior e ao seu redor. Você possui os ensinamentos, você tem as instruções, tem um lugar, tem uma casa para viver, comida para comer, tem os irmãos e irmãs que o ajudam, tem um professor, tem todas as condições favoráveis para sua prática e ainda assim não pratica. E toda vez que regressa, vê aquela situação e fica envergonhado, este é um bom tipo de energia, que pode lhe transformar e pode fazer de você um praticante melhor. Todos nós deveríamos estar “equipados” pela vergonha, que é como um tipo de cosmético, um tipo de adorno, que toda pessoa precisa. Adorne-se com vergonha e então será um bom professor, será um bom estudante e você será [por fim] um bom professor de Dharma.

Vocês têm uma chance de limpar as folhas e não as limpam como devem. Vocês têm uma chance para lavar os pratos e ainda assim não os lavam como devem. Vocês não desfrutam a prática de lavar os pratos. Vocês têm uma chance para caminhar de seu quarto para o salão de meditação e não fazem isto. Vocês caminham e ainda assim se permitem ficar presos em sua raiva, em seu desespero, no passado, no futuro, e a vergonha é algo que pode salvá-los do estado de ser teimoso em sua prática. Eis porque o Buddha disse, equipe-se com [o senso de] vergonha e então se tornará um bom praticante, um Bodhisattva, e este é o motivo porque a vergonha é a número um dentre as formações mentais saudáveis. E você precisa de outra pessoa para lhe contar a verdade, estar na sua frente de modo que tenha vergonha, pois você é capaz de sentir aquela formação mental. Toda vez que vemos outra pessoa na nossa frente e nos sentimos envergonhados porque não podemos fazer como ele ou como a sua expectativa, então também [por isso] nos sentimos envergonhados. Vamos falar sobre a relação do estudante e do professor. Vergonha tem [aqui] um papel muito importante. O professor deveria estar envergonhado quando ele ou ela olha para seus discípulos. Ele tem que se fazer a pergunta sobre se é merecedor de seu discípulo, sua vida, sua prática, se é merecedor de seu discípulo. Eu sou uma pessoa merecedora na relação com meu discípulo? E se o professor não tem vergonha em si, não é um bom professor. Ele ensina coisas que não pratica e, se o estudante também [não pratica], quando está em frente a seu professor ele deveria [igualmente] ter vergonha. O professor deu o melhor de si para oferecer-lhe o ensinamento, apóiá-lo, amá-lo, e ainda assim ele não fez uso disto para se tornar um bom praticante. Ele fica envergonhado toda vez que está na presença de seu professor. Assim, a vergonha está ajudando a ambos. Eu sou merecedor de meu professor? Eu sou merecedor de meu discípulo? Esta é a função da vergonha.

Agora, deixe-nos falar sobre a relação entre o irmão de Dharma mais velho e o irmão mais jovem, ou a irmã [de Dharma] mais velha e a irmã mais jovem. Porque todos nós esperamos que o nosso irmão ou irmã pratiquem, se eles são “sêniors” ou “júniors”. Como uma irmã mais velha nós deveríamos poder sentir vergonha quando vemos uma irmã jovem praticando solidamente, tão bem, e quando olham sua irmã daquele modo, com uma sensação de vergonha, vocês evoluem, vocês se tornam uma irmã melhor. E quando vocês são uma jovem irmã e olham sua irmã mais velha, sabem que sua irmã mais velha está esperando que pratiquem bem os treinamentos de plena consciência, os modos atentos. Ela fez tudo o que pôde para ajudar, apoiar sua prática e ainda assim vocês se revoltam contra ela, não sabem aprofundar sua prática, e de certo modo vocês a traem, são indelicados com sua irmã mais velha.

O mesmo é verdade com os irmãos. Um irmão mais velho é alguém que sabe que uma vez estando no Dharma mais tempo que seu irmão mais jovem, sua prática deveria ser boa o bastante para servir como modelo ou como apoio para este irmão mais jovem, e se ele não se comporta bem, não pratica corretamente, toda vez que vê seu irmão mais jovem, a sensação de vergonha lhe ajudará a melhorar. E toda vez que vê seu irmão mais jovem, ele tem uma oportunidade para voltar à prática e fazê-la muito melhor. E o irmão mais jovem também deveria saber que para ser um bom irmão mais jovem, ele deveria aprofundar sua prática, e praticando [assim] ele está fazendo seu irmão mais velho feliz e até mesmo pode ajudá-lo. Seu irmão mais velho pode ter mais dificuldades dentro de si, e culpá-lo não será útil. Pratique melhor e então você será capaz de ajudar seu irmão mais velho.

Quando os monges e as monjas vêem uma pessoa leiga, porque no Vietnã e em muitos outros países as pessoas leigas apóiam os monges com abrigo e comida. Diariamente os monges têm de ir e pedir comida, e as pessoas leigas esperam que os monges pratiquem. Assim, quando nós seguramos a tigela de comida e fazemos as cinco contemplações, visualizamos de onde a comida veio e vemos a terra, o céu, o trabalho duro da pessoa leiga, o amor, o apoio daquela pessoa, ficamos envergonhados por não praticarmos bem e devido a esta sensação de vergonha sabemos comer conscientemente, e comer conscientemente já é uma boa resposta à pessoa leiga. Quando uma pessoa leiga vem ao templo é uma boa oportunidade para os monges e as monjas refletirem e nutrir sua vergonha para que possam se tornar bons praticantes.

Portanto diariamente temos muitas oportunidades para ver-nos uns aos outros e podemos criar um impacto no outro com nossa prática. No mundo, nossos professores ensinam, mas eles não têm necessariamente de fazer isto, o que eles precisam é passar o ensino e serem pagos por isto. Eles ensinam o que possuem em termos de conhecimento, conhecimento conceitual, mas o ensino do Dharma é diferente. Em um monastério ou em um instituto budista você não dá simplesmente este ensino conceitual. Você tem que ensinar com sua prática, com sua experiência. Eis porque um instituto budista deveria ser organizado de tal forma que a prática deveria desenvolver-se junto à sala de aula. Até mesmo se você for uma jovem irmã muito iniciante na prática, ou se você for um jovem irmão ainda novo na prática, se praticar bem, se souber caminhar conscientemente, como limpar as folhas conscientemente, já será um professor mesmo se não proferir uma palavra de fato, porque você encarna o ensino vivo e o professor está no estudante e o estudante está no professor: interconexão. Temos que reconhecer a ambos em nós. Temos um professor dentro de nós e também temos um estudante dentro de nós ao mesmo tempo, e isso nos ajuda a crescer na prática.

De fato, é maravilhoso ter um lugar para viver, um lugar onde as condições para a prática de transformação e cura são favoráveis. A terra, o céu, e muitos seres vivos tornaram o lugar disponível para nós todos. Este lugar possui professores, possui irmãos e irmãs, possui amigos e apoiadores. Nós na verdade temos todas as condições favoráveis para nossa prática e se permitirmos que o tempo passe assim, sem nos aprofundarmos na real vivência, estaremos sendo indelicados com a terra, o céu, os professores, irmãos, irmãs e com os numerosos seres vivos; e deveríamos ficar envergonhados com esta forma de descortesia em nós. Eis porque deveríamos despertar uns nos outros aquela sensação de vergonha para que todos nós sejamos melhores praticantes e possamos apoiar uns aos outros na prática.

Quando somos ordenados como leigos, upasika, upasaka, quando somos ordenados como monges ou monjas noviços, sabemos que ainda somos novos na prática e deveríamos confiar em nossos irmãos e irmãs de Dharma mais experientes para que nossa prática crie raízes. Às vezes nossos irmãos e nossas irmãs de Dharma mais experientes ainda são muito jovens, muito mais jovens que nós mesmos, e temos a tendência de dizer, bem, eles são apenas crianças, eles não sabem muito sobre a vida e realmente não podem representar o papel de irmãos e irmãs mais velhos para nós. Se você tem esse tipo de pensamento, está errado.

Muitos de nós percebemos que se somos ordenados um dia mais cedo, ganhamos aquele dia. Quanto mais cedo você for ordenado melhor, porque o dia em que vocês se ordenam lhes dará a oportunidade para terminar, perceber e reconhecer as energias de hábito. Vocês querem fechar a porta atrás de si e só desejam prosseguir, e o processo de transformação e cura pode começar imediatamente, até mesmo se vocês não percebem isto. Estar no Sangha como um membro, como um membro pleno, e permitir que o Sangha o abrace, o proteja, o transforme, é muito importante seja você leigo ou monástico. Você toma refúgio no Sangha e até mesmo se pensa que [por um lado] ainda não foi feito ou realizado muitas coisas em você, muito está sendo feito por outro lado.

Nós temos uma irmã que pertence à geração das árvores de Maçã. Ela veio do Canadá, e depois que voltou para casa pensava que a sua prática era ainda muito fraca. Ela não percebeu a transformação que tinha acontecido dentro de sua vida e quando chegou à sua casa no Canadá, as pessoas a olhavam com olhos diferentes. Elas a viram calma, sólida, sorrindo, refrescada e ela provocava muito respeito. As pessoas que costumavam lidar com ela como uma criança, começaram agora a vê-la com muito respeito. Ela ficou tão surpreendida por ver o quanto as pessoas sofrem! Quantas pessoas sofrem em sua família, em sua grande família, em seu antigo ambiente no Canadá. Dois anos atrás era o mesmo ambiente, mas ela não percebia isto, não enxergava isto, e agora, após vinte e dois meses de prática como monja ela retornou e reconheceu todos os seus sofrimentos, e ao mesmo tempo eles a olharam e viram como ela se transformou após vinte e dois meses sendo uma monja. Durante aquele tempo ela não pensou que tinha feito um grande progresso. Ela apenas se permitiu estar no Sangha, abraçada pelo Sangha, transportada pelo Sangha, e a transformação aos poucos tomou lugar lentamente, simples assim. Ela se transformou mas não percebeu isto. Ela conheceu uma senhora que sofria muito por causa de sua situação e de seu marido, e aquela senhora a olhava um pouco como uma menina. Mas agora aquela senhora a viu e ficou profundamente inspirada querendo deixar tudo para se tornar uma monja. Quando o marido dela ouviu sobre isto ficou furioso. Ele considerou a jovem como um inimigo que estava a ponto de levar embora sua esposa. Dois anos atrás ele a olhava como uma criança, como apenas uma menina, mas como pôde uma simples menina provocar tal impacto em sua esposa? Como uma criança poderia ter tal um impacto em uma pessoa como sua esposa? Ele tinha tentado o melhor de si e não tinha conseguido criar tal impacto na esposa. Naquele estado de raiva ele veio vê-la, e ela estava sorrindo e estava convidando a ambos para vir a Plum Village.

Não é a quantia de experiência em sociedade que conta, não é a quantia de conhecimento que adquirimos na escola que conta, é a quantia de treinamento que precisamos considerar. Assim, uma irmã muito jovem, um irmão muito jovem que tenham entrado na vida monástica antes de você, devem realmente ser vistos como seus irmãos maiores, olhá-los como seus irmãos mais velhos e ter a noção de amadurecimento no Dharma é muito importante. Assim, até mesmo se você tem sessenta anos mas recebeu os preceitos há pouco, tem que olhar o noviço de dezesseis anos como seu irmão mais velho ou irmã mais velha. Este é um bom treinamento. Eis porque todos os domingos nós nos sentamos de forma a recordar às pessoas que esta é uma prática de amadurecimento, uma longa tradição prática budista. Nós aprendemos o espírito de democracia, tentamos encorajar todo o mundo a expressar por si mesmos acerca de como fazer a vida da comunidade mais feliz, melhor organizada. Nós encorajamos aqueles que são tímidos em se expressar, tentamos treiná-los para que eles estejam prontos a contribuir com sua perspicácia. Nós aprendemos a escutar a todos no Sangha de forma que todos possam ter uma chance de se expressar, essa é nossa aprendizagem sobre o espírito da democracia. Outra prática é o escutar profundamente, a paciência, e também a fala encorajadora, mas nós também praticamos o espírito de amadurecimento porque até mesmo se esses monges e monjas são jovens, eles estiveram mais tempo na prática e nós deveríamos tentar nos lembrar que eles são nossos irmãos mais velhos no Dharma, elas são nossas irmãs mais velhas no Dharma e isto é muito útil. Não para eles, mas para nós. Nós devemos consultar os irmãos mais jovens, as irmãs mais jovens no Dharma, pois neles está a presença da longa sabedoria atemporal transmitida por muitas gerações de professores. E você ficará surpreso em ver que mesmo se aquele noviço for jovem, ainda poderá aprender muito com ele ou ela. E até mesmo se você compara sua prática com a deles verá que seus passos podem não ser tão sólidos quanto os deles, sua respiração pode não ser tão atenta quanto a deles, e graças a isso você terá autêntico respeito porque este respeito não será para ela, como uma jovem noviça, mas para o Buddha porque o noviço é a continuação do Buddha. E você pode ver seu professor no jovem noviço porque a presença do professor está em cada célula de seu corpo. No Mosteiro algo aconteceu nas últimas duas semanas. Me fez pensar muito profundamente. Eu tenho vários vasos de crisântemos em minha varanda e entre eles há um vaso, de puros crisântemos brancos, aproximadamente vinte crisântemos grandes. Eu tenho muito cuidado com aquele vaso de crisântemos, eu pus em minha varanda aproximadamente oito vasos de crisântemos. A varanda é feita de vidro e o sol nasce desta direção e se põe nesta direção. O vaso de crisântemos brancos eu pus aqui e próximo a ele está um vaso de cíclames [prímulas], qual é a palavra em inglês para cyclamen? De flores violeta. E aqui, outro vaso de crisântemos, violetas, aproximadamente duas ou três flores grandes assim, tão grandes quanto este vaso e este segundo vaso de prímulas também é violeta. E este é puro branco. E eu não tenho que molhar meus crisântemos de cima, porque debaixo de cada vaso eu tenho um recipiente. Eu simplesmente verto naturalmente a água ali e as raizes absorvem-na. Eu faço isso a cada dois dias e elas sabem o quanto de água podem absorver diariamente.Minha porta está aqui, eu entro por aqui do Mosteiro e posso entrar por aqui pelo jardim dianteiro, e tenho uma rede pendurada aqui. Você sabem de tudo agora (risos). Normalmente eu me sento na rede, olho e desfruto todas as flores nesta direção, mas um dia eu me sentei e ao olhar vi que os crisântemos brancos estavam ficando violeta. O fato é que as cores violeta refletiram no vidro e o sol poente estava enviando estes raios nesta direção, e os vasos estavam recebendo aqueles raios de sol. Se você vem ao Mosteiro agora verá que dez ou doze crisântemos grandes neste lado se tornaram meio violetas e os dez naquele lado são de puro branco.

Os dezesseis jovens noviços podem vir e olhar. É maravilhoso! Está muito bonito! Vocês não tem que fazer qualquer coisa, simplesmente se permitam estar no Sangha. Se vocês tem confiança, permitam que o Sangha os abracem, os transportem em espírito e energia e você serão transformados. Assim, a confiança é muito importante, e vocês tem que acreditar, tem que ter confiança. Todos nós sabemos que os membros de nosso Sangha não são perfeitos, nada é perfeito neste mundo, mas o Sangha é importante. Eu lhes falei um tempo atrás que no outono passado fui para o Omega Institute e durante a meditação andante eu vi um bonito ramo de folhas de outono, tão bonito, tão harmonioso. Eu cheguei perto e vi que as folhas não eram perfeitas. Todas as folhas estavam perfuradas um pouco por causa dos insetos ou por causa dos fungos, mas se você olhar os ramos verá que eles são tão bonitos por causa de sua harmonia. Assim, o Sangha é igual. Membros do Sangha podem não ser perfeitos mas se nós aprendemos como viver no Sangha com harmonia e confiança, cada um em sua posição, este Sangha pode executar um milagre, todo o mundo que vier e tocar o Sangha poderá ser transformado. O ambiente pode ter um impacto muito forte na genética, a cultura de espiritualidade está transformando as células em nosso corpo, os genes em nosso corpo. É verdade! Quando você olha os crisântemos brancos que ficam violeta vê as maravilhas da vida, vê o impacto de cultura e espiritualidade na herança genética do gênero humano. Assim o Buddha nos transmitiu muitos genes, muitos elementos da espiritualidade cultural que continuará tendo um profundo impacto em nossas vidas. Nós temos que permitir que estes elementos penetrem em nós para nossa transformação e nossa cura, e o Sangha é o agente. O Sangha representa o Buddha, a prática do Sangha conduz ao Buddha e ao Dharma, ter confiança assim no Sangha é muito importante porque o Sangha é o Buddha. E eu disse várias vezes que o próximo Buddha pode tomar a forma de um Sangha, e cada um de nós pode ser uma célula deste corpo de Buddhakaya, corpo de Buddha. Nós deveríamos abandonar o que consideramos ser nosso conhecimento, nossa experiência, porque este conhecimento não ajudou muito. Esta experiência não ajudou muito, nós ainda sofremos demais. Eis porque deveríamos estar prontos para desistir de modo a ficarmos livres para que a penetração do Dharma, do Sangha e do Buddha seja possível, tomando refúgio no Sangha, confiando no Sangha, permitindo ao Sangha nos transportar, nos levar. É um sentimento agradável, uma prática confortável. E tomar refúgio no Sangha não é uma declaração de fé: é nossa prática diária. (três sinos) .


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