Shobogenzo Zuimonki-Capítulo 2


Shobogenzo Zuimonki
Capítulo 2

de Eihei Dogen Zenji
Adaptado da tradução do monge Ryokyu Marcos Beltrão

[1] “Se praticantes Zen tiverem, em primeiro lugar, a prudência de controlarem suas mentes, tanto mais fácil ser-lhes-á deixar a si mesmos, e ao mundo renunciar. Mas isto não é nada fácil. Monges há, que por exemplo, cientes da reputação pública não farão coisas ruins, dizendo: “Como isto está errado, é possível que outros nos julguem mal.” Procuram então fazer o bem ao serem observados, crendo piamente que todos os demais lhes admirarão muito com isto. Contudo, estas são meramente opiniões comuns e mundanas. Existe, contudo, o outro lado da moeda, como aqueles que se comportam como bem entendem, e estes são vilões de verdade! O fato é que monges devem praticar o buddhismo pelo buddhismo, esquecidos de seus corpos de apego e impermanentes. Devem lidar com as situações de acordo com o momento. Principiantes no Caminho devem abster-se de fazer o mal e fazer o bem, quer seja por vontade própria ou por moralidade. A isto se chama deixar cair corpo e mente.”

[2] Meu mestre disse:

“Eisai, meu mestre já falecido, enquanto morava no monastério de Kennin-ji, uma vez se deparou com uma situação inusitada, quando lá apareceu uma pessoa passando fome, e lhe pediu dinheiro: “Estou passando necessidades, e eu e minha família nada comemos nestes dias recentes. Todos vamos morrer de inanição. Podes fazer algo por nós?”

“Naquele momento nada havia no monastério que pudesse ser dado ao pobre, fosse comida ou dinheiro. Mestre Eisai pensou numa solução debalde. Finalmente lhe ocorreu que haviam algumas folhas de cobre batido que seriam utilizadas para fazer uma estátua buddhista. Ele as tomou, dobrou numa pilha, e as deu ao esfomeado, dizendo: “Venda isto e trate de comer.” O pobre, muito agradecido, as pegou e foi embora.

“Então os discípulos do Mestre Eisai ficaram aborrecidos com ele: “Como pudeste entregar este material caríssimo, que era para fazer a auréola de um santo buddhista1, para um mendigo desta forma? Não terás cometido com isto o pecado de usar de forma particular a propriedade de um monastério buddhista? Que achas a respeito?”

O mestre respondeu: “Todos tendes razão! Mas falando da vontade de Buddha, ele foi sempre bondoso bastante para doar tudo que era seu para todas as criaturas, e quando nada mais tinha, cortava de sua própria carne, mãos e pés. Mesmo que eu tivesse entregue o corpo todo do Buddha para alguém passando fome na minha frente, isto estaria de acordo com a vontade de Buddha. Mesmo que eu caísse no inferno com esta ação, teria com isto salvo todos os seres da fome.1 Que praticantes Zen tratem de avaliar esta maravilhosa perspectiva deste veterano Mestre iluminado, e que não a esqueçam jamais!”

[3] Noutro dia, os discípulos do Mestre Eisai comentaram com ele: “Cremos estar a localização deste monastério perto demais do Rio Kano, se houver uma inundação isto atingirá nosso monastério também.”

Sobre isto, o Mestre teve algo a comentar: “Porque se preocupar com futuras calamidades? Por exemplo, do monastério de Jetavana2 na Índia sobram tão somente os alicerces. Contudo, nem por tal razão qualquer mérito de sua construção foi perdido. Que enorme não será o mérito de aqui praticarmos, seja ao menos um, ou meio ano!”

Desta conversa é possível chegar à conclusão que, sendo seguramente levantar um monastério o empreendimento mais importante de nossa vida, devemos nos preocupar com calamidades futuras. Porém, mesmo sabendo disto, o Mestre estava ciente do verdadeiro sentido de se erigir um monastério. Avaliemos então as palavras de Mestre Eisai.”

[4] Numa conversa certa noite, meu Mestre frisou: “Durante o reino do Imperador Tai-t’sung3 da Dinastia T’ang, Wei-cheng4 se dirigiu ao Imperador da seguinte forma: ‘Ouço comentários negativos a vosso respeito.’

“O Imperador retrucou: ‘Se mal falado a despeito de minhas boas ações, nada tenho com que me preocupar. Se contudo, em me faltando bondade, for mesmo assim bem considerado, é o caso, então sim, de me inquietar deveras.’

“Tal deve também se passar com praticantes Zen e leigos. Se possuímos compaixão, ou uma sincera intenção pelo Caminho, não precisamos nos inquietar com fofocas. Contudo, se não tivermos tais virtudes, devemos estar sinceramente envergonhados de sermos considerados grandes e virtuosos praticantes do Caminho.”

[5] Meu Mestre ensinou assim:

“O Imperador Wen5 da Dinastia Sui disse: ‘Quem é Imperador deve secretamente cultivar suas virtudes, até que sua força moral interna esteja plenamente estabelecida e estruturada.’ Isto significa que o Imperador deve se apiedar de seu povo apenas após estar bem estabelecido em suas virtudes internas. Tenhamos nós cuidado, para não esquecermos disto. Praticando o Caminho escondidos, este mérito aparecerá naturalmente. Assim, devemos praticar o Caminho dos buddhas e ancestrais sem esperar que outros disto se inteirem: desta forma os demais praticarão com naturalidade o buddhismo. Mas, é claro, queremos sempre sermos apreciados, e recebermos vultuosas doações por nossas práticas: este pensamento apenas significa estarmos com um demônio no corpo. Nos três países6, nunca ouvi falar que o respeito de imbecis tivesse tornado alguém um praticante legítimo do Caminho, nem que tivessem adquirido muitos bens materiais.

“Naqueles países, são considerados verdadeiros praticantes de meditação, aqueles que levam vidas duras e simples, preocupados em cultivar suas mentes do Caminho, e compassivos com os demais.

“Os efeitos da prática não querem jamais dizer que nos envaidecemos de receber doações, ou que achemos que riquezas sejam medida de virtudes. Existem três tipos de virtudes:

  1. “Ficam sabendo que a pessoa está presentemente praticando o Caminho
  2. “Outros vêem querendo praticar aquele Caminho também;
  3. “Outros estudam e praticam junto com aquela pessoa.”

[6] Numa palestra à noite, disse meu mestre:

“Quem pratica Zen deve estar livre de sentimentos mundanos. Isto significa que devemos praticar os ensinamentos buddhistas tais quais são. Quem é leigo fica tentando distinguir o bem do mal, devido a seus preconceitos egoístas, e discriminando o certo do errado, querendo isto e deixando de lado aquele outro. Quando primeiro nos familiarizamos com o Caminho, devemos logo tentar deixar para trás sentimentos mundanos e auto-centradas idéias de moralidade longamente acalentadas, bem como nossa própria conveniência e forma de ver o mundo. Devemos tentar aplicar as palavras do Buddha, quer as creiamos certas ou erradas.

“Aquilo que nós e leigos acreditamos ser bom não o é necessariamente. Logo, sigamos os ensinamentos de Buddha sem ligarmos para a opinião do vulgo e renunciemos à nossa própria forma de ver o mundo. Mesmo que por vezes nos sintamos desanimados e inquietos, devemos mesmo assim procurar assimilar as ações excelentes dos buddhas e ancestrais, e de nossos praticantes mais veteranos, e isto porque devemos viver com corpo e mente deitados fora. Nenhuma ação ou empreendimento deve ser levado a cabo, com exceção daquelas dos buddhas e ancestrais. Por mais que queiramos realizar aquelas ações e empreendimentos, e por mais que elas pareçam harmonizar-se com o Caminho. Assim devemos enfocar o significado da prática no buddhismo. Deixando de lado idéias longamente acalentadas que possamos ter sobre o que é o buddhismo, devemos aos poucos dirigir nossa mente às recomendações e ações daquele ancestral com o qual estivermos ora seguindo o Caminho. Desta forma começaremos a penetrar na sabedoria e a iluminar nossas mentes.

“Mesmo aos sutras buddhistas que tenhamos estudado até o presente não devemos ficar apegados, e se boa razão houver para tal, desistamos deles e sigamos o Caminho como demonstrado por nosso Mestre. A razão pela qual estudamos o buddhismo, é claro, é para nos livramos da ilusão e chegarmos a uma compreensão correta dos fatos. Se ficarmos pensando que este conhecimento que até o momento obtivemos foi ganho a duras custas no decurso de vários anos, e disto não podemos desistir assim à toa, isto significa que estamos apegados ao ciclo da vida e da morte. Isto vale nossa assídua consideração.”

[7] Numa conversa certa noite, meu Mestre disse:

“A um monge-leigo, Minamoto-Akikane7, Segundo Conselheiro do Estado, foi requisitado que escrevesse a biografia do Mestre Eisai, do templo de Kennin-ji, recém falecido. Ele decididamente declinou este pedido, não sem antes explicar suas razões: ‘Melhor pedir que um escritor profissional Confucionista o faça, pois como estuda literatura desde a tenra infância, por certo não cometerá tantos erros ao escrever. Para mim a única coisa que tem importância é me dedicar aos meus afazeres de estado, e não ficar escrevendo biografias. Eu cometeria muitos erros, se o tentasse fazer.’ Disto podemos seguramente deduzir que em tempos antigos as pessoas se dedicavam até a livros que não tivessem nada a ver com o buddhismo.”

[8] Novamente, disse meu Mestre:

“Mestre Koin8, já falecido, disse: “A mente que busca o Caminho significa que nos lembramos, na vida cotidiana, da doutrina Tendai9. Uma só recordação cobre três mil mundos e possibilidades, e assim por diante. Aqueles que andam mecanicamente pelo mundo vestidos de monges, com seus chapéus de bambu na cabeça são pessoas ditas possuídas por demônios.”

[9] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“Mestre Eisai, recentemente falecido, costumava afirmar: ‘Monges, vocês devem compreender que eu não dei a vocês uma só destas peças de roupa que vocês estão a usar, nem a comida que vocês consomem, mas tudo isto lhes foi providenciado pelas entidades protetoras celestes, sendo eu apenas seus intermediários. Cada um de vocês já chegou nesta vida com a quantidade de comida e roupa necessárias à sobrevivência. Não procurem pois, quantidades excessivas destes artigos, nem imaginem que eu seja caridoso e tenha dado isto a vocês.’ Eu acho esta palestra maravilhosa.”

[10] “No monastério T’ien-t’ung na China Grande Sung, cujo mestre era Hung-chih10, haviam provisões suficientes para mil monges, sendo setecentos destes, dentro do Shodo (salão de meditação), e trezentos fora dele. A fama da excelência de Hung-chih como mestre logo se espalhou por todo país, e começaram a chegar uma número tremendo de monges e praticantes, mil no Shodo e seiscentos fora dele.

Os monges-chiji11 choramingaram, reclamando a Hung-chih: “Mestre, temos o necessário apenas para mil monges, mas nem para mais um só que seja. Nós te rogamos, Mestre, que tome providências para dispensar o resto.”

Assim respondeu o Mestre:

“Todos os monges já são naturalmente agraciados com comida. Não se meta onde não foi chamado. E não me traga mais lamentações deste calibre.”

“Disto deduzimos que já nos encontramos agraciados com comida e roupa, não sendo tais que as possamos obter querendo, nem deixar de obter não querendo. Até mesmo os leigos não dão a mais mínima consideração para de onde vem suas comidas, deixando isto ao destino, e procuram apenas manter a lealdade e a obediência filial. Muito menos ainda devem monges praticar o que for, exceto o buddhismo. Foram agraciados com vinte anos de favores deixados pelo Buddha Shakyamuni, em forma de comida e roupa ofertadas pelas entidades protetoras celestes. E possuem igualmente aqueles materiais necessários às suas vidas, mesmo que não se esforcem para obtê-los. Mesmo que procurem ganhar dinheiro, que fariam com isto se viessem a falecer subitamente? Logo, praticantes Zen devem se concentrar apenas no buddhismo.”

[11] Noutra ocasião, alguém arriscou um palpite: “Estamos atravessando a época do buddhismo decadente. Vivemos no Japão, longe da Índia onde vivia o Buddha Shakyamuni. Neste caso, creio que a melhor maneira de praticar o buddhismo é assegurar um lugar, que pela sua calma e segurança, nos livre da preocupação onipresente de comer e vestir.”

Quanto a isto, meu Mestre se manifestou assim:

“Na minha opinião, isto não é válido. Um verdadeiro praticante não pode ser encontrado entre monges apegados a pontos de vista dualistas e egoístas. Um ajuntamento de pessoas, sequiosas de status e dinheiro, é algo de bem pior que nenhum ajuntamento de cobiçosos. Estas pessoas não possuem capacidade de estudar o buddhismo, pois seus graves erros, que causaram suas quedas nos três mundos maus, os impedem de tal. Enquanto estudarmos o buddhismo levando uma vida dura e pobre, mendigando ou nos alimentando de frutas e nozes silvestres, algum candidato haverá, que a nós venha procurando o buddhismo. Seremos então verdadeiros praticantes e com isto o buddhismo crescerá. Vamos supor que ninguém pratique o Caminho devido à agruras e pobreza extremas, e suponhamos por outro lado que haja uma enorme quantidade de comida e roupa, mas também nenhuma prática do Caminho. Neste caso, ambos são perfeitamente equivalentes em suas completas inutilidades.”

[12] Assim disse meu Mestre, em certa ocasião:

“Hoje em dia é opinião corrente que erigir imagens de Buddha ou construir templos é um seguro indício do crescimento do buddhismo. Ledo engano! Nenhuma casa soberba, com uma bela fachada, e além do mais decorada de jóias ou folheada a ouro, pode nos ser de qualquer utilidade para obter a iluminação. Aqui existe apenas o sentimento de felicidade que leigos derivam de colocar suas riquezas dentro do mundo de Buddha. Tais ações, quer sejam grandes ou pequenas, são decerto de grande efeito para leigos; para monges nada valem. Não ajudam absolutamente no crescimento do buddhismo. Meditando nas palavras do Buddha, ou fazendo zazen, mesmo que por um breve período de tempo, numa choupana de palha humilde, ou debaixo de uma árvore, isto pode causar o crescimento do buddhismo. Com o objetivo de levantar um monastério, estou agora angariando contribuições entre amigos e praticantes, com o melhor de minha habilidade. Mas não creio que isto vá necessariamente auxiliar o crescimento do buddhismo. Não tendo muitos praticantes e estando muito ocupado agora com estas coisas, acho que estou ora desperdiçando tempo. Gostaria de fazer algo de mais significativo, para que efetivamente este monastério pudesse ajudar a pessoas iludidas a travarem contato com o buddhismo, e para que praticantes pudessem fazer zazen. Mesmo que minha intenção não se concretize, não ficarei triste com isto. Se puder levantar nem que seja um pilar apenas, terei lembrado a meus descendentes de minha esperança não realizada. Mas, na verdade, não estou muito preocupado com isto.”

[13] Um certo monge pediu que meu Mestre fosse à Província de Kanto, para lá auxiliar na divulgação do buddhismo. Meu Mestre disse:

“De forma nenhuma! Quem procura sinceramente o buddhismo virá a mim por sobre montanhas e até atravessará os mares, enquanto àquele a quem esta determinação falta, não me ouvirá por mais que lhe tente transmitir algo. Irei eu até este lugar para perturbar e intrigar os outros, ou para ganhar dinheiro? Só vou me cansar com isto. Não creio que seja uma boa idéia me deslocar até lá.”

[14] Noutro dia meu Mestre disse:

“Praticantes Zen não devem estudar livros, quer sejam eles buddhistas ou não. Podem, se indispensável, analisar as biografias dos mestres. Por ora, contudo, devem deixar de lado outros tipos de livros. Hoje em dia , a maioria dos monges Zen têm pendores literários, e tentam compor poesia ou dissertar sobre teorias buddhistas. Isto é um crasso equívoco. Em vez de se preocuparem com a qualidade literária, devem procurar expressar seus pensamentos ou esmiuçar doutrinas Zen. Àqueles a quem falta o despertar para o Caminho a tal ponto que não compreendam isto, irão, é claro, se distrair com palavras e serão impotentes de chegar até a verdade, por melhores que sejam suas expressões literárias. Quanto a mim, sempre apreciei literatura, desde a mais tenra idade, e mesmo agora fico fascinado pelas belas expressões de obras clássicas, e leio o Monzen, etc. Mas creio ser tudo isto inútil. Então estou formando uma forte decisão para deixar tudo isto de lado.”

[15] Um dia meu Mestre disse:

Durante minha permanência na China Sung, estava de certa feita em meu quarto lendo as vidas dos velhos Mestres Zen, quando um monge colega meu, um verdadeiro praticante, de Shi-Chuan12, perguntou-me: “Porque razão estudas as biografias?”

“Eu respondi: ‘Para me inteirar das ações dos velhos mestres Zen!'”

“Para que?”

“Para ajudar meu povo, quando voltar para o Japão!”

“Sim, mas com que finalidade?”

“Para a melhoria de todos os seres.”

“E daí, para que tudo isto, no final das contas?”

“Calmamente raciocinando sobre este diálogo mais tarde, cheguei à conclusão que seria de uma inutilidade total me aplicar a estas coisas para liderar outros, através de um conhecimento intelectual das ações dos velhos Mestres Zen, com seus kôan13. Se, pelo contrário, eu me dedicasse ao zazen, e esclarecesse com isto o foro de meu próprio ser, mais tarde não teria a menor dificuldade de transmitir isto, mesmo não tendo conhecimento de um só ideograma chinês. Por isto este meu amigo me indagava: “Porque, porque, afinal das contas? “Convencido desta verdade, desisti de ler as vidas dos Mestres Zen e me dediquei exclusivamente à prática de zazen, até conseguir obter o âmago da questão.”

[16] Numa conversa, certa noite, meu Mestre disse:

“Sem uma autêntica virtude interna, as outras pessoas não nos respeitariam. No nosso país freqüentemente as pessoas respeitam outros, não devido as suas virtudes internas, mas por causas de suas aparências; em conseqüência do que, monges que são dotados de um sincero desejo pelo Caminho, logo se perdem, tornando-se seguidores de demônios. Ser respeitado apenas pela sua aparência é muito fácil. Divulgamos aos quatro ventos termos renunciado ao mundo e abandonado nossa vida costumeira. Mas este é um caminho de extrema superficialidade e fragilidade. Aquele que verdadeiramente aspira à sabedoria é aquele que por fora parece uma pessoa comum, mas que por dentro tenta controlar sua mente iludida sem que outros se apercebam de tal.

“Por isto dizia um velho Mestre: ‘Por dentro vazios, por fora obedientes aos outros.’ Isto significa que por dentro não somos egoístas, e que por fora não criamos problemas com outros. Completamente livres do apego a nosso corpo e mente, praticamos o buddhismo de acordo com os regulamentos de Buddha, e tal coisa nos será benéfica no presente bem como no futuro.

“Se trata de um redondo equívoco que deixemos de realizar aquilo que deveríamos, só porque existe uma doutrina no buddhismo que nos diz para abandonarmos, e renunciarmos ao mundo. Aqui no Japão alguns se auto-declaram monges ou praticantes Zen, e com isto encontram um pretexto para se comportarem desleixadamente, trombeteando contudo aos quatro ventos: ‘Renunciamos ao nosso corpo para o buddhismo.’ E ficam por aí, para cima e para baixo, andando molhados debaixo da chuva, explicando que isto se deve ao fato que estão acima de sentimentos mundanos. Tal comportamento é de uma idiotice completa, tanto nas ações quanto na mentalidade, mas leigos apressadamente julgam este tipo de monges maravilhosos, crendo suas ações provarem estar eles livres de sentimentos mundanos, como uma mostra de autenticidade, enquanto que friamente desprezam aqueles que observam os preceitos de Buddha, conhecem os mandamentos, e ainda em suas ações estejam de acordo com as regras de Buddha, sem egoísmo em suas práticas. Crêem que estes últimos estão procurando status e ganho mundano. Mas eles mesmos estão identificados com o buddhismo e possuem virtudes em seus corpos e mentes.”

[17] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“De nada poderia servir a praticantes Zen ser eruditos e cultivados intelectualmente. Devemos passar o que soubermos dos ensinamentos, nem que seja a um só monge, contanto que ele seja um autêntico aspirante ao Caminho dos buddhas e ancestrais, com o qual estamos familiarizados. Até mesmo a alguém que uma vez tenha tentado nos matar, devemos dizer a verdade sinceramente desejando lhe ajudar, caso ele honestamente chegue a nos pedir tal. Afora isto, não devemos nunca querer acumular conhecimentos sobre ensinamentos e doutrinas esotéricas ou exotéricas, livros buddhistas ou não-buddhistas. Se alguém nos indagar sobre eles, seguramente poderemos declarar nossa plena e integral ignorância sobre o assunto. Mas, se ao contrário, estudarmos extensivamente, ou quisermos obter informação suplementar, não somente sobre assuntos mundanos, mas também sobre assuntos buddhistas ou fora do buddhismo, receosos de nos considerarem desinformados ou ignorantes, e querendo obter conhecimento extra, nada poderia ser mais equivocado. Isto é de uma inutilidade total para aqueles que quiserem terem qualquer coisa que seja de ligação com o Caminho. Contudo, inútil também é pretendermos ignorar algo apesar de estarmos inteirados do assunto, pois um ar tão negligente assim torna os outros infelizes. A ignorância desde o começo é o que há de melhor. Quando eu era moço, gostava de ler livros mundanos. Mais tarde, antes de minha viagem à China e retorno ao Japão, para transmitir o Caminho, eu me familiarizei com muitas obras, buddhistas e fora do buddhismo, e com certos dialetos chineses. Para mim isto tem sido hoje em dia de suma importância, especialmente na condução de assuntos que requerem especialização dentro do mundo. Realmente, tem sido uma questão tão necessária, que algumas pessoas a consideram fora do comum. Mas agora, ao considerá-lo friamente, constato que se constitui em um obstáculo à prática do Caminho. Lendo um Sutra sagrado, se tentamos apreendê-lo pouco a pouco, esmiuçando-o, seremos capazes de compreender a verdade exposta ali. Mas examinando uma frase, primeiro ficamos interessados na rima e na métrica, depois observamos a correção da expressão; e somente em último lugar tentamos lhe compreender o significado: neste caso, melhor seria tentarmos compreender o significado desde o início, em vez de nos preocuparmos com a forma. Ao escrevermos ensinamentos buddhistas, se ficamos preocupados em primeiro lugar com questões gramaticais, nos atrapalhamos com a rima e com a métrica. Tudo isto é supérfluo e uma ignorância.

“Devemos procurar expressar o que achamos correto com franqueza, não ligando para o estilo e a forma. Mesmo que aqueles de gerações vindouras não aprovem isto, basta para o Caminho que nos tenhamos feito compreender. Com outros talentos e estudos o mesmo deve ocorrer.

“Dizem que Ku-Amidabutsu14 do Monte Koya, já falecido, era no começo um monge preparadíssimo, muito culto, que dominava os ensinamentos esotéricos e exotéricos. Ao entrar para a escola Nembustu15, abandonou estes ensinamentos. Mais tarde um monge da escola Shingon veio até ele, e lhe perguntou sobre alguns ensinamentos esotéricos, e ele replicou: ‘Eu os esqueci a todos. Nada consigo recordar destes assuntos, seja lá o que for.’ Aí está sem tirar nem por a própria mente que busca o Caminho. Uma tal ignorância mostrada por uma pessoa de tão alta capacidade! Como poderia isto ser verdade? Ele porém nada falou, crendo ser inútil. Eu acho que ele assim o fez no dia mesmo que começou a cantar o nome de Amida de todo coração. Esta perspectiva mental é absolutamente indispensável a praticantes Zen. Devem desistir de seus conhecimentos, qual seja, das escolas. Menos ainda devem pretender ter qualquer conhecimento adicional dos ensinamentos. Um verdadeiro praticante não lê sequer as biografias das vidas dos Mestres Zen. O mesmo vale para toda outra literatura.”

[18] Numa conversa certa noite, meu Mestre disse:

“Os monges de hoje em dia no Japão são muito atilados e são capazes de escolher o certo e o errado em suas ações e palavras, estando cientes de suas reputações mundanas, sabendo que ganham crédito público com tal ação e descrédito com aquela outra. Tudo isto é um crasso erro. O que o mundo acha certo nem sempre o está. Sem ligarmos para o que o mundo possa vir a achar de nós, como nos considerar por exemplo loucos, devemos ir levando nossas vidas, fazendo aquilo que é coincidente com o Caminho, e deixando de fazer o que não é. Então quaisquer opiniões dos outros nada serão para nós.

“Deixar o mundo é ser livre da opinião do mundo. Estudando apenas as ações dos buddhas e ancestrais, ou a compaixão dos bodhisattvas, e tendo consciência que nossas ações más são percebidas pelas entidades celestes, devemos praticar de acordo com os regulamentos de Buddha. Então nenhuma crítica do mundo nos causará empecilhos. Mas também está errado não ligarmos para a crítica alheia, sendo de uma total auto-indulgência, cometendo ações erradas, sem a menor vergonha. Devemos treinar de acordo com o buddhismo, sem ligar para a reputação pública. No buddhismo, tal auto-indulgência e ações vergonhosas são estritamente proibidas.

[19] Meu Mestre frisou de certa feita:

“Mesmo a educação comum do mundo nos adverte quando por exemplo trocamos de roupa em quartos escuros, ou lugares secretos, sentados ou deitados, devemos mesmo então ter o cuidado de ocultar nossas partes íntimas. Se não o fizermos, seremos criticados com justiça por falta de educação. É um comportamento impolido, que não tem vergonha da crítica das entidades celestes e de demônios. Devemos tratar de cobrir aquelas partes de nossos corpos que devem permanecer cobertas, e ter vergonha de coisas descorteses, como se todos nos estivessem observando. O mesmo vale para os preceitos de Buddha. Logo, praticantes buddhistas não devem fazer o mal, mesmo longe da vista de outros; e devem se lembrar dos regulamentos de Buddha, tanto dentro de casa como fora dela, quando estiverem no escuro e no claro.”

[20] Um dia, um praticante disse a meu Mestre: “Eu tenho me dedicado ao árduo treinamento buddhista por muitos anos, mas o fato é que ainda não pude alcançar meu objetivo, a iluminação. A maioria dos velhos mestres afirmam: ‘Para ganhar o Caminho, não necessitamos de faculdades de perspicácia mental, sabedoria excessiva, senso comum ou mesmo inteligência.’ Então creio eu não existir a menor necessidade de me sentir constrangido por minha estupidez ou falta de habilidade. Se é que existe algum ensinamento tradicional sobre este assunto, gostaria de me inteirar dele.”

Meu Mestre disse: “Estás coberto de razão. De fato, para se obter a iluminação não se necessita de perspicácia, muita sabedoria, senso comum, ou uma inteligência muito desenvolvida. Esta é a verdadeira prática do Caminho. Mas alguns possuem uma idéia equivocada a respeito disto e acham que praticar o Caminho é ser como os cegos, surdos ou idiotas. Claro que nada se distancia mais da realidade, que um tal absurdo. A prática do Caminho não requer um conhecimento diversificado ou talentos excepcionais, então não devemos menosprezar outros por causa de suas visões limitadas, ou falta de argúcia mental. À verdadeira prática do Caminho não é difícil de se submeter.

“Mesmo nos monastérios Zen da Grande Sung, dentre centenas de milhares de monges treinando com um mestre Zen, somente um ou dois realmente sabem o que estão fazendo ali. Logo, é natural que algumas regras ou mandamentos tradicionais tenham sido estabelecidos, para controlar tal multidão. Agora que pensei no caso, creio que depende de nosso sincero desejo pelo Caminho, o podermos nos iluminar ou não. Eu nunca ouvi falar de alguém que deixasse de se iluminar, quando realmente estivesse possuindo este sincero desejo pelo Caminho. Para tal fim, devemos ser de uma dedicação exclusiva, e progredir diariamente na nossa própria prática do Caminho. Resumindo, eis o que devemos praticar:

“Primeiramente, necessário é que sejamos sinceros e por completo absortos em nosso desejo pelo Caminho. Por exemplo, alguém que tenha a firme intenção de surripiar um tesouro valiosíssimo, ou de derrotar um inimigo forte, ou seduzir uma mulher extremamente bela, fica totalmente voltado para seu objetivo, aguardando um momento certo para consegui-lo em todas suas ações diárias. Suas intenções certamente se concretizarão se ele tiver concentração. Se tivermos este tipo de desejo em nosso desejo pelo Caminho, simplesmente quando fizermos zazen, ou ao lermos os kôan dos velhos mestres Zen, ou ao nos entrevistarmos com um mestre, ou ao praticarmos o Caminho seriamente, com certeza alcançaremos nosso objetivo, por mais profundo que possa se encontrar. Sem este sincero desejo, como chegaremos a nos desapegar do ciclo da vida e morte e conseguir a iluminação? Com tal potente desejo nunca deixaremos de nos iluminar, sejamos limitados de entendimento, ou em habilidade, estúpidos ou maus.

“Em segundo lugar, devemos entender perfeitamente que tudo é impermanente. Esta idéia é o que nos impulsiona para entendermos a mente que busca o Caminho. A impermanência de todas as coisas não deve ser compreendida intelectualmente ou filosoficamente16, nem através de uma concepção visionária. Este é de verdade um fato cru ante a nós. Para compreendermos isto, não precisamos depender de ensinamentos ou de filosofias, de passagens de sutras sagrados, ou de intermediários para nossa iluminação. Alguns nascem de manhã e morrem à noite: alguém que vimos ontem, hoje se foi. Tantas vezes vemos e ouvimos falar que outros têm que se curvar ante a lei da impermanência. Refletindo sobre minha própria sorte, vejo que, muito embora possa viver até os setenta ou oitenta anos, estou condenado à morte. Baseando-nos nesta reflexão podemos controlar o prazer e a dor, o ódio e a hostilidade, todos quando corretamente enfocados, podem ser dominados. Então devemos ter confiança no Caminho e procurar atingir o estado de compreensão dos fenômenos. Mais ainda, um homem que já tenha passado da metade da vida, deve ser maximamente esforçado em sua prática do Caminho, seus dias estando contados. Mas mesmo esta maneira de considerar as coisas é por demais indulgente. Devemos considerar agora mesmo o Caminho e assuntos mundanos da seguinte forma: hoje ou amanhã podemos ficar doentes ou morrermos de repente, odiados por demônios, ou mortos por ladrões ou inimigos jurados. Nossa vida realmente está por um fio, e quanto mais de vida temos, uma total incógnita. Que estúpido seria nesta vida incerta e impermanente, desperdiçar tempo, esperando em vão viver muito, e nos preocupando com nossa forma de ganhar a vida, a além do mais querendo mal a outros.

“É um fato cru ante nossos olhos a incerteza da vida. O Buddha sempre mencionou isto em seus ensinamentos , bem como os ancestrais em seus sermões e ensinamentos. Hoje em dia, ao fazer uma preleção, ou quando indagado algo por algum praticante, o mestre diz o seguinte: ‘Hoje aqui, amanhã desaparecido. A questão da vida e da morte é vital para nós!’ Devemos procurar absorver isto e nos dedicarmos de forma total à prática do Caminho. Não devemos jamais desperdiçar nosso tempo, cientes deste dia e momento apenas. Então acharemos a prática do Caminho bastante fácil. Não é pois uma questão de sermos privilegiados ou não com dons naturais, ou capacidade intelectual.”

[21] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“A maioria das pessoas hesita quando chega a hora de renunciar ao mundo. Aparentemente valorizam muito suas vidas, mas na realidade vivem se humilhando. Falta-lhes o pensamento profundo, e nunca se encontraram cara a cara com um mestre Zen excelente. Quanto à recompensas e doações, devemos procurar pelas recompensas da vida eterna e de doações dos dragões protetores e outros seres celestes; quanto à fama, ao ganharmos o nome de buddhas e ancestrais, ou Mestres virtuosos, sábios em gerações vindouras não deixarão de nos reverenciar.”

[22] Numa conversa à noite, meu Mestre disse:

“Um velho Mestre disse: ‘Ouvindo a verdade de manhã, podemos calmamente morrer à noite.’ Praticantes Zen devem procurar emular este ponto de vista. Depois de termos em vão repetido nascimentos e mortes durante períodos longuíssimos de existência, nascemos desta feita num corpo humano, com uma excelente oportunidade de nos enfronharmos no buddhismo. Em que outra existência poderíamos ganhar a iluminação, exceto nesta mesma? Mesmo que preservemos caramente nossas vidas e as desejemos manter, mesmo então não podemos determinar quanto tempo viveríamos. Praticar o buddhismo nesta vida impermanente, não importa quão brevemente, um dia nos leva à felicidade mais elevada. Que lamentável seria jogarmos fora nosso tempo, apegados ao amanhã e ao futuro tão profundamente, que não possamos deixar o mundo como deveríamos, nem praticar o Caminho como temos capacidade de fazê-lo. Ousemos morrer de fome e frio, se não tivermos mais com que sobreviver! Este é o primeiro ponto, devemos ter tal intenção resoluta, que alegremente possamos morrer, cumprindo a vontade de Buddha, se pudéssemos hoje realizar o Caminho. Dotados de tal determinação, certamente poderemos alcançar nosso objetivo.

“Sem esta vontade forte, mesmo alguém que pareça ter renunciado ao mundo e seguir o Caminho, pode vacilar. Mesmo se vivermos muito tempo, não seremos capazes de nos iluminar, se praticarmos o buddhismo nos preocupando com o que usar durante o verão e inverno, ou como ganhar nosso sustento de amanhã ou do ano que vem. Pode até existir alguém que se ilumine assim, mas tanto quanto eu saiba, nenhum Buddha ou ancestral disse jamais que isto estivesse certo.”

[23] Numa conversa à noite, meu Mestre disse: “Quem pratica Zen deve aceitar que morreremos inevitavelmente. A morte é uma coisa absolutamente certa. Além desta idéia da morte, devemos procurar não desperdiçar tempo, mas levar uma vida significante. Devemos compreender que nada é mais importante, que as ações dos buddhas e ancestrais: tudo o mais é inútil para nós.”

[24] Um dia eu indaguei a meu Mestre: “Se monges Zen ficarem remendando suas roupas, em vez de jogá-las fora, parecem sovinas. Se por outro lado ficarem comprando roupas novas em vez de usarem as velhas, parecem estar querendo andar muito na moda. Em ambos os casos estariam equivocados. Afinal, o que devem fazer?” Meu Mestre disse: “Devem abandonar seus desejos por coisas17, e não estarão equivocados não importa como ajam. Devem remendar seus mantos gastos e usá-los o quanto possível, sem desejarem roupas novas.”

[25] Numa conversa á noite, eu perguntei: “Monges têm que observar a obediência devida aos pais?” Meu Mestre respondeu: “A obediência filial é a coisa mais importante. Mas a obediência filial dos monges difere daquela dos leigos. Dizem que leigos devem servir seus pais durante suas vidas e depois de suas mortes, de acordo com o Livro da Piedade Filial18. Nós monges, por outro lado, seguimos o Caminho, deixando de lado as obrigações para com nossos pais. Desta forma, o objeto de nossa gratidão não é apenas nossos pais, mas todas as criaturas. Considerando todas as criaturas tão benevolentes quanto nossos pais, devemos ser compassivos para com elas. Se formos agradecidos apenas a nossos pais nesta vida, estaremos indo contra o Caminho. A verdadeira piedade filial consiste em praticar o caminho apenas, a cada dia, e a cada momento. Leigos habitualmente celebram uma cerimônia em memória de seus pais a cada semana, durante 49 dias após o falecimento dos mesmos. Do ponto de vista buddhista, devemos compreender que a beneficência de nossos pais é profunda. O mesmo vale também para todas as outras dívidas de gratidão. É contra a vontade de Buddha que celebremos cerimônias em memória de membros falecidos de nossa família. Cerimônias para pais falecidos são encomendadas principalmente por leigos. Nos monastérios Zen da Grande Sung, os monges celebram uma cerimônia em memória de seus mestres falecidos, mas parecem não o fazer para seus pais.”

[26] Um dia meu Mestre disse: “É antes de despertarmos para o Caminho que somos ditos ser espertos ou não. Quando se cai de um cavalo, antes de atingirmos o chão muitas idéias passam pela nossa cabeça. Quando algo de sério como um acidente, ou morte, acontecem conosco, todos nós, sejamos espertos ou tolos, pensaremos sobre o caso. Assim, preparados para o pior a cada momento, devemos nos concentrar na prática do Caminho como se nos fossemos deparar com uma coisa inesperada; no que fazendo, não deixaremos nunca de nos iluminar. Aqueles que são estúpidos mas sinceros pelo Caminho, podem se iluminar mais rapidamente que aqueles dotados de grande capacidade mental, e muita esperteza. Na época do Tathagata, Chupadanthaka mal era capaz de lembrar uma só linha de ensinamento; mas, devido ao seu notável esforço pelo Caminho, se iluminou nos noventa dias19 que constituem a prática de verão. Apenas neste momento nossa vida existe. Desejosos de nos iluminarmos antes de chegarmos a morrer, devemos praticar o buddhismo — e cada um de nós alcançará seu objetivo”.

[27] Numa palestra à noite, meu Mestre disse:

“Nos monastérios Zen da Grande Sung, os monges separavam o arroz bom do ruim para a refeição. Sobre isto um mestre Zen comentou: ‘Jamais deveis separar o arroz de boa qualidade do de qualidade inferior, mesmo que venhais a morrer!’ Compôs um verso sobre este ensinamento e com isto advertiu aqueles que consigo praticavam sobre o equívoco de uma tal ação.

“Isto quer dizer que monges não devem ficar separando a comida boa da ruim, mas aceitar agradecidos toda comida, seja ela de boa qualidade, ou não. Tendo apenas doações de pessoas bondosas, ou comida preparada no monastério, temos apenas que não passar fome e nos dedicar à prática do Caminho. Nós monges não devemos separar a comida de boa e de má qualidade, apenas devido ao seu sabor. Que todos aqui prestem atenção a isto também”.

[28] Um dia eu perguntei: “Se nós praticantes Zen, crendo firmemente nas palavras — Nós mesmos somos o buddhismo, e assim não precisamos procurá-lo fora de nós — com isto desistirmos da prática e passarmos a vida fazendo o que bem entendermos, o bem e o mal, o que acharias a respeito?”

Meu Mestre respondeu:

“Isto demonstra uma grande diferença entre as palavras e o que as palavras significam. Se, com o pretexto que não precisamos procurar o buddhismo fora de nós mesmo, não nos submetemos à disciplina física e mental do buddhismo, procuramos algo, negligenciando-o. Mas com isto não quero dizer que não devemos buscar o Caminho. Compreendendo que a prática é originalmente o buddhismo mesmo, devemos nos refrear de fazer o mal, sem buscar recompensas por isto, ou de participar de assuntos mundanos mesmo que queiramos. E nunca nos aborrecendo com nossa prática, devemos praticar o Caminho de todo coração. Podemos às vezes obter os frutos da mesma, mas devemos manter a prática livre da idéia de obter algo em troca. Este é o verdadeiro significado do dito acima, isto é, que ‘não necessitamos procurar o buddhismo fora de nós mesmos’.

“Nan-yueh20 esfregou um tijolo na presença de seu discípulo Ma-tsu 21 e disse: ‘Vou esfregá-lo até que se torne um espelho’. Com esta observação ele queria advertir Ma-tsu contra seu desejo de se tornar Buddha através da prática de zazen, não de dissuadi-lo de praticar zazen.

“Praticar zazen é fazer a ação de Buddha — a ação absoluta, a aparição de nossa verdadeira identidade. Onde mais podemos procurar o Caminho exceto neste zazen?”

[29] Um dia, numa palestra que lhe foi solicitada, meu Mestre falou assim:

“Hoje em dia a maioria dos monges insiste em seguir costumes mundanos. Na minha opinião isto é um equívoco. Mesmo os sábios entre os leigos odeiam os costumes deste mundo, constatando sua contaminação inerente. Por exemplo, Chu-yuan22 deixou de seguir as regras do mundo, afirmando: ‘O mundo inteiro se dedica a idéias erradas, e eu apenas estou correto’ e pensando assim, finalmente decidiu se afogar num rio.

“Mais ainda pode ser observados uma grande diferença entre os costumes dos monges e aqueles dos leigos. Leigos deixam seus cabelos crescerem, enquanto que monges raspam a cabeça; os primeiros comem um sem número de vezes por dia, enquanto que monges consomem apenas uma refeição por dia. Tão grande é a diferença entre os dois. Mas estes costumes diferentes dos monges os levarão um dia à mais elevada felicidade. Desta forma, monges e leigos são completamente diferentes.”

[30] Um dia meu Mestre disse:

“Quando todos, do imperador até o último camponês, fazem o melhor possível em seus postos respectivos, o país inteiro estará em paz. Quando o incompetente ocupa um cargo, dizemos que ele ‘é um obstáculo à vontade dos céus’. Quando o governo é uno com a vontade dos céus, o mundo fica calmo e o povo está em paz. Assim, o imperador tem que se levantar cedo, à uma hora da manhã, para começar a governar. Não é nada fácil. O buddhismo difere disto apenas na ocupação e no tipo de trabalho. Quando o imperador pensa no bem-estar de seu povo, segue os regulamentos estabelecidos, procura as pessoas merecedoras entre o povo, seu governo é uno com a vontade do Céu. Este é o tipo de governo que conduz o país à paz. De outra forma seu governo estará indo contra a vontade do céu e conduzirá o país inteiro e seu povo a uma enorme confusão e sofrimento.

“O imperador, senhores feudais, funcionários públicos, guerreiros ou pessoas comuns — todos têm suas próprias funções. Se forem cuidadosos e aplicados em seus cargos, serão chamados pessoas competentes. Se não, incorrem no furor do Céu, por irem contra a vontade das entidades celestes.

“Logo, praticantes Zen não devem sequer sonhar com uma disciplina mais branda somente porque deixaram o mundo ou suas famílias. No começo, ações indolentes parecem benéficas, mas um pouco mais adiante serão vistos os malefícios de tal. Nós, monges devemos nos dedicar totalmente a nosso Caminho, seguindo o tipo de vida de monges.

“De fato, um governo no mundo é confuso, porque não existem regras claras deixadas por sábios de gerações passadas. Mas os discípulos de Buddha possuem regulamentos bem transmitidos, e também os exemplos de mestres Zen, que os herdaram por sua vez de mestres passados. Se, como eu vejo as coisas, mantivermos os regulamentos dos velhos mestres em cada uma de nossas ações, andando, parando, sentando e deitando e além disto praticarmos o Caminho de acordo com os praticantes mais veteranos, nunca deixaremos de nos iluminar. Leigos querem estar afinados com a vontade dos céus, enquanto que monges com a vontade de Buddha. Buscando o Caminho, monges e leigos são iguais, mas os monges são muito melhores em obter os frutos da prática. Assim, se obtivermos o fruto de Buddha, nunca o perderemos. Para gozarem de grande contentamento, praticantes Zen devem treinar assiduamente, e seguir a vontade de Buddha. Depende apenas de sua vontade se podem atingir este objetivo ou não.

“Mas o buddhismo nunca aconselha ninguém a mortificar cegamente seu corpo, ou a fazer o impossível. Se seguirmos os preceitos de Buddha, ficaremos confortáveis; nossa maneira calma fará também com que aqueles ao redor de nós fiquem calmos. Lembrando disto, devemos alijar uma visão do prazer egoísta e fútil, e seguir os preceito de Buddha de todo coração”.

[31] Noutro dia meu Mestre disse:

“Quando treinava no monastério Zen, da montanha de T’ien-t’ung na, China da dinastia Sung, meu mestre Jü-tsung costumava praticar até as onze horas da noite, e iniciava sua prática matinal às duas e quarenta ou três da manhã. Eu praticava junto dele, sem faltar uma só noite. Muitos dos monges não agüentavam e dormiam em seus zafus (almofadas de meditação). Ele então descia de seu assento de meditação, para verificar a prática dos demais, e batia nos monges dorminhocos com seu punho, ou com o kyosaku (bastão de advertência) para animá-los e despertá-los. Quando ainda permaneciam sonolentos, ele ia ao shodo23, batia o sino, pedia que seu assistente acendesse uma vela, e dava uma palestra de improviso:

“‘Do que adianta tanta indolência e dormir desta forma sentados nesta sala de meditação? Porque saíram de suas casas e entraram no monastério? Que imperadores ou trabalhadores no mundo levam vidas tão frouxas assim? O imperador administra os assuntos de estado, os súditos são leais a seus superiores hierárquicos, e as pessoas comuns cultivam suas terras com suas enxadas. Qual deles deixa de trabalhar? Agora vocês deixaram este trabalho duro, e se encontram aqui neste monastério Zen. De que adianta desperdiçar suas vidas tão inutilmente assim? A questão da vida e morte tem que ser resolvida por vocês, e não se esqueçam do ditado: ‘O que hoje está aqui, amanhã pode estar desaparecido’. Este é um ditado comum usado por filósofos buddhistas ou monges Zen. Vocês podem morrer hoje ou amanhã. Podem ficar doentes. Como é estúpido nesta vida, que se esvai, desperdiçar o tempo dormindo, negligenciando o zazen! O declínio do buddhismo a isto se deve, seguramente. Nos dias em que o buddhismo estava em seu apogeu em todo o país, os monges nos monastérios Zen se dedicavam à meditação, enquanto que nos dias correntes, sem mestres que advoguem a prática de zazen em parte alguma, vemos apenas o declínio do buddhismo.

“Desta forma ele aconselhava seus praticantes a fazerem zazen. Eu fui testemunha ocular disto. Praticantes de hoje em dia devem aspirar a esta sua disciplina.

“Um dia, um monge assistente disse: ‘Alguns monges na sala de meditação acabam ficando cansados, e adormecem com isto. Alguns certamente tombam doentes ou perdem seus desejos de ganhar o Caminho. Temo que isto esteja ocorrendo porque o período de zazen seja longo demais. Sugiro a redução da duração do tempo de meditação’

“Ouvindo tal, o mestre ficou deveras preocupado, e comentou: ‘Creio que nunca ouvi algo de tão equivocado, quanto o que acabaste de dizer. Quando os monges não têm desejo pelo Caminho, dormirão onde puderem, enquanto que os praticantes sinceros praticarão tanto mais, quanto maior for a duração do zazen. Quando eu era jovem e visitava mestres Zen pelo país inteiro, um deles me aconselhou a ser severo com os praticantes, dizendo: ‘Quando eu era jovem, batia nos praticantes dorminhocos com tanta potência, que quase destroncava meu pulso; mas agora estou velho e fraco, e não posso mais fazer isto, logo não surgem mais monges excelentes. Além disto, outros mestres Zen pelo país afora são lenientes com seus praticantes, não os encorajando para a prática do zazen. Eis aí a razão por que o buddhismo está tão decadente hoje em dia’. Então tenha certeza que eu vou ser cada vez mais exigente e quando eu bater agora vai ser com cada vez mais força.”

[32] Um dia meu mestre disse:

“Nos iluminamos através do que, corpo ou mente? Eruditos e intelectuais buddhistas afirmam com freqüência: ‘Não há separação entre corpo e mente’, ou: ‘Captamos o Caminho através de nosso corpo, por que corpo e mente são o mesmo’. Porém nunca dizem especificamente: ‘Ganhamos o Caminho através de nosso corpo’. Entretanto no buddhismo Zen, nos iluminamos pelo nosso corpo e mente. Enquanto insistirmos em obter o Caminho apenas pela nossa mente, seremos incapazes de tal, mesmo em incontáveis renascimentos. Quando renunciamos a esta mente conceptual, e desistimos de apreender o Caminho através do conhecimento e via intelectual, podemos então ganhar o Caminho. Foi através de seu corpo que Ling-yun24 se iluminou observando as flores de ameixa; e Hsang-yen também, ouvindo o som de uma pedra batendo no bambu.

“Ganhamos pois o caminho através da concentração na prática do zazen. Por isto é que eu insisto que praticantes se dediquem integralmente ao zazen.”

Notas

1. Buddha: Bhaisajyaguru Buddha — Dito ter feito doze promessas para livrar todas as criaturas de suas doenças e ilusões.
2. Jetavana, monastério de — erigido por Sudatta, homem rico do Estado de Sravasti, para o Buddha Shakyamuni e seus discípulos.
3. Tai-tsung (598-649), chamado Li-shih-min — Segundo príncipe herdeiro e filho do Imperador Kao-tsu , conhecido como um imperador de virtude.
4. Wei-cheng (580-643) — Súdito sábio do Imperador Tai-tsung, compilou um livro de história.
5. Wen-ti (541-604) — O primeiro Imperador da Dinastia Sui, governou seu país por 24 anos.
6. Os três países: Índia, China e Japão.
7. Minamoto-Akikane (? -1215) — monge leigo; monge leigo quer dizer alguém que usa o manto de monge mas que vive em sua própria casa.
8. Bispo Koin (? -1216) — monge chefe do templo de Onjoji, na cidade de Otsu. Mais tarde ele entrou na escola Nembutsu, fundada pelo Reverendo Honen, e morreu com a idade de 72 anos.
9. Doutrina Tendai — a doutrina da escola Tendai, cujo fundador foi Chih-chi (538-597), e cujo Sutra principal é o Saddharmapundarika-Sutra.
10. Hung-chi (1091-1157) — monge cuja fama está ligada àquela de Tai-hui (1088-1163), da escola Rinzai, na China. A biografia de Hung-chi é uma coleção de seus ditos.
11. Monges-chiji — seis monges veteranos encarregados da administração do monastério.
12. Shi-chuan — localizado na parte sudoeste da China.
13. Kôan. Os 1.700 ditos dos Mestres Zen.
14. Ku Amidabutsu (1142-1224). Anteriormente um monge da escola Shingon, mais tarde se dedicou ao Nembutsu (Cantar o nome do Buddha Amitabha), escola do reverentdo Honen.
15. A escola Nembutsu. eEcola que se dedica a cantar o nome de Amitabha.
16. As maneiras simples e temporária de observar a verdade de todas as coisas: Praticar meditação e perceber que nossa mente é impermanente, nossa sensação é sofrimento, todas as coisas são vaidade e nosso corpo é impuro.
17. Remendar ou usar um manto gasto ou comprar um novo.
18. O Livro da Piedade Filial (Hsiao-ching), 1 volume. Dito ser os comentários sobre a piedade filial que Confúcio mostrou a seu discípulo Tseng-san.
19. 90 dias de prática de verão. No período que vai de 16 de abril a 15 de Julho, monges praticam o Caminho num monastério Zen, sem poder dali se removerem, isolados do mundo.
20. Nan-yueh Huai-jang (677-744). Um herdeiro buddhista de Hui-neng (638-714). Sua fama está ligada com aquela de Ch’ing-yuan (?-740). A história que Nan-yueh poliu um tijolo na presença de Ma-tsu é a seguinte:
Nan-yuen, percebendo que Ma-tsu era excelente em sua compreensão do buddhismo, veio até ele e disse, “Para que praticas zazen?” Ma-tsu disse, “Para me tornar um Buddha”. Então Nan-yueh pegou um tijolo e começou a poli-lo em uma pedra na frente do monastério. Ma-tsu disse, “Que fazes?” Nan-yueh disse, “Vou poli-lo até que se torne um espelho”‘. Ma-tsu disse, “Como podes fazer com que se torne um espelho?” Nan-yueh arrematou, “Como podes se tornar um Buddha através do zazen?”
21. Ma-tsu Tai-i (707-785) — Herdeiro buddhista de Nan-yueh.
22. Chu-yuan (AC 343-385) — homem nobre do Estado de Chiu. Ele tentou em vão reconquistar sua prosperidade na terra natal. Finalmente se afogou no Rio Mi. Dito ser o poeta mais antigo da China.
23. Shodo — um salão atrás do salão de meditação. Tem uma abertura em cima que deixa entrar luz, de onde vem o nome shodo — salão brilhante. Aqui um dos monges principais pode dar um sermão em lugar de seu mestre.
24. Ling-yun, Hsiang-yen — discípulos de Kuei-shan (711-853).

Extraído do site www.dharmanet.com.br


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