Vento celestial

Texto de Shundo Aoyama,
extraído do livro
Para uma pessoa bonita

De repente, o canto sutil e penetrante de um passarinho realça o silêncio. Meus braços param de arar a terra e olho para cima, em direção às árvores. O vento da tarde que desce a encosta dos Alpes Japoneses remove agradavelmente o suor da minha testa. Surge em meu corpo inteiro a alegria de estar viva, de poder trabalhar.

Uma velhinha, que saíra para um passeio, comenta ao passar:
“Hoje o vento está frio, não está?” e volta apressadamente para sua casa aquecida.

Qual casa não é visitada pelo brilho da lua e em
Qual morada não sopra a brisa pura? (Hekigan Roku)1

A lua projeta sua luz sobre todas as casas e uma doce brisa envolve cada morada. Depende de nós se a recebemos como brisa ou como vento gelado. O problema, no entanto, não é o vento em si, mas aquele que este encontra em seu caminho. Alguém me disse que o vento frio é chamado de vento celestial.

Séculos atrás, durante a dinastia Tang2, quando o monge Joshu3 perguntou ao Mestre Zen4 Nansen se deveria continuar perguntando pelo Caminho, Nansen respondeu: “Se intencionalmente o procura, estará separado dele”.

O que chamamos de felicidade, céu, Buda ou iluminação não pode ser buscado fora de nós mesmos. Já o somos, já está naturalmente em nós, mas precisamos percebê-lo.


1Hekigan Roku – literalmente: Anais do penhasco azul famoso texto zen budista baseado em cem koans com poemas do monge chinês Setcho Juken (980-1052), considerado um dos textos fundamentais da Escola Rinzai e que tamhém foi estudado cuidadosamente pelo Mestre Dôgen (Eihei Dôgen, 1200-1253), fundador da escola Soto, que o teria copiado na noite anterior de sua partida da China para o retorno ao Japão, depois que recebeu a Transmissão do Darma do Mestre Tendo Nyojô.
2Dinastia Tang (China) 618-907
3Joshu Jushin (778-897) – famoso Mestre Zen na China, discípulo do Mestre Nansen Fugan (748-834), aluno de Baso Doitsu. Mestre Nansen viveu trinta anos como eremita e um de seus episódios famosos foi o de cortar um gato em dois, uma vez que seus discípulos não conseguiram dizer uma palavra que verdadeiramente o pudesse salvar. Joshu ficou conhecido por suas respostas curtas como a do famoso koan “Mu”.
4Zen – termo japonês que traduz o chinês ch’an, por sua vez derivado do sânscrito dhyana, “meditação”. É o nome de uma corrente do Budismo japonês inspirado no Chan, a escola “histórica” do Budismo chinês que remonta à transmissão silenciosa de Buda Shakyamuni no Pico do Abutre, além da vinda para a China do monge indiano Bodhidharma, por volta de 520 d.C., colocando ênfase na simultaneidade da iluminação (satori) e da prática, valorizando todos os aspectos da vida cotidiana, mesmo os mais humildes, como meios para o despertar. O núcleo deste caminho é a meditação sentada, ou zazen, que nos leva a experimentar um estado de despertar como o realizado por Buda Shakyamuni. No Japão, onde o Chan se difundiu com o nome Zen, as duas escolas mais importantes atualmente são a Rinzai e a Soto. E há uma terceira tradição chamada Ohaku, mas com poucos adeptos.
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Uma ideia sobre “Vento celestial

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