{"id":6405,"date":"2020-06-29T12:44:37","date_gmt":"2020-06-29T14:44:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?page_id=6405"},"modified":"2020-06-29T12:46:19","modified_gmt":"2020-06-29T14:46:19","slug":"mestres-zen","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/mestres-zen\/","title":{"rendered":"Mestres zen"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/mestres-zen.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/mestres-zen.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"176\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6408\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/mestres-zen.jpg 400w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/mestres-zen-300x132.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><br \/>\n<font face=\"Verdana\" size=\"2\"><\/p>\n<h4><font color=\"#0000FF\"><b>Nenhum Professor do Zen<\/b><\/font><\/h4>\n<div style=\"text-align:right\">Zoketsu Norman Fischer<br \/>Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Yakusan Silva<br \/>Revis\u00e3o: Monja Coen Roshi<\/div>\n<p><\/font><font face=\"Verdana\" size=\"2\" color=\"#000000\"><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">\nDesde o come\u00e7o, Norman Fischer nunca fez muito uso de professores do Zen \u2013 e ainda n\u00e3o faz. Mas ap\u00f3s anos sendo ele pr\u00f3prio um professor, ele tem um maior reconhecimento do papel que um mestre exerce.<\/p>\n<p>Uma das minhas hist\u00f3rias favoritas do Zen \u00e9 sobre professores. O grande mestre Zen Huangbo entra no corredor e diz para os mon\u00e1sticos reunidos: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o todos idiotas! Se voc\u00eas continuarem assim, quando voc\u00eas ver\u00e3o \u2018aqui e agora\u2019? Voc\u00eas n\u00e3o sabem que em toda a China, n\u00e3o h\u00e1 professores Zen?\u201d.<\/p>\n<p>Um mon\u00e1stico se aproxima e diz a ele: \u201cEnt\u00e3o, que tal todas essas pessoas como voc\u00ea que estabeleceram lugares Zen que os alunos buscam como p\u00e1ssaros?\u201d Huangbo responde: \u201cEu n\u00e3o digo que n\u00e3o h\u00e1 Zen, apenas que n\u00e3o h\u00e1 professores.\u201d<\/p>\n<p>Como uma pessoa independente de esp\u00edrito (alguns diriam teimoso), acho esta hist\u00f3ria encantadora. Nunca fui atra\u00eddo por mestres Zen ou gurus, guias espirituais poderosos e carism\u00e1ticos. Sendo ou n\u00e3o pessoas realmente t\u00e3o especiais, em todo caso eu nunca estive interessado neles. Eu suponho que eu sei o que eu preciso saber para viver minha vida, e que quando eu precisar saber mais, descobrirei por mim mesmo. Nenhuma sabedoria ou experi\u00eancia que n\u00e3o seja minha pr\u00f3pria vale a pena.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu me perguntei: o que dizer de professores espirituais? Que benef\u00edcio poderia possivelmente ser obtido ao passar o tempo com algum suposto s\u00e1bio se a ilumina\u00e7\u00e3o de outra pessoa nunca vai tocar em mim?<\/p>\n<p>Quando comecei meu estudo do Zen, eu queria aprender a fazer zazen para que eu pudesse descobrir em primeira m\u00e3o o que era Zen. Fiquei feliz em ouvir conversas e instru\u00e7\u00f5es que poderiam ajudar a me orientar para a pr\u00e1tica. Mas a ideia de que seguir um mestre Zen e apegar-se a cada palavra e a\u00e7\u00e3o (naquele tempo, os professores Zen eram homens) me ajudaria de alguma forma a tornar-me iluminado parecia n\u00e3o s\u00f3 desagrad\u00e1vel, mas tamb\u00e9m errada.<\/p>\n<p>Que benef\u00edcio poderia possivelmente ser obtido ao passar o tempo com algum suposto s\u00e1bio se a ilumina\u00e7\u00e3o de outra pessoa nunca vai tocar em mim?<\/p>\n<p>Meus pensamentos ressoaram com os de Huangbo: existe o Zen, mas n\u00e3o existem professores do Zen. \u00c9 claro que as pessoas com credenciais criam e d\u00e3o boas-vindas aos alunos. Todos n\u00f3s precisamos de alguma estrutura e um lugar para praticar. Mas o professor n\u00e3o pode te ensinar. Tua pr\u00e1tica depende de ti. Bom e velho individualismo americano. Eu acreditava tanto nisso que eu n\u00e3o tinha nenhum interesse em encontrar professores, embora na \u00e9poca houvesse v\u00e1rios professores budistas asi\u00e1ticos contabilizados nos Estados Unidos. Embora eu tenha chegado pela primeira vez ao San Francisco Zen Center no ver\u00e3o de 1970, cerca de um ano e meio antes do falecimento do grande fundador do centro, Shunryu Suzuki Roshi, n\u00e3o fiz nenhum esfor\u00e7o para ouvi-lo falar, nunca o vi e n\u00e3o estava interessado em assistir ao seu funeral nem a instala\u00e7\u00e3o de seu sucessor, o primeiro mestre zen americano, que o precedeu. Olhando para tr\u00e1s agora, eu vejo isso como uma oportunidade perdida. Mas era assim que eu estava na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Tudo isso pode insinuar que eu era um estudante Zen rebelde. Mas eu n\u00e3o era. Eu n\u00e3o tive nenhum problema em respeitar meus professores, ouvir suas palestras, ir ao dokusan (entrevistas programadas) regularmente. Rebelar-se, desafiar ou negar reflexivamente um professor \u00e9 criar um professor em sua mente que preencha os requisitos ideais que o professor diante de voc\u00ea est\u00e1 deixando de cumprir. Se voc\u00ea se sente obrigado a se rebelar, provavelmente \u00e9 porque realmente acredita em um mestre zen todo-poderoso idealizado. Eu n\u00e3o tinha tal cren\u00e7a nem compuls\u00e3o. Eu estava no Zen Center para estudar Zen. Eu tinha minhas raz\u00f5es para querer fazer isso. Uma vez que os professores estavam no comando, eu cooperaria com eles. Mas qualquer benef\u00edcio ou compreens\u00e3o ou esclarecimento que eu tive foi meu pr\u00f3prio caso. Ningu\u00e9m mais poderia me dar ou at\u00e9 mesmo me levar a isso.<\/p>\n<p>Eu recordo tudo isso n\u00e3o porque eu concordo inteiramente com ele agora, mas para dar uma sensa\u00e7\u00e3o de como eu estava pensando sobre professores e pr\u00e1tica de Zen em meus primeiros anos. Eu certamente n\u00e3o pensei que eu mesmo me tornaria um professor Zen. Meu pensamento era simplesmente obter o que eu precisava da pr\u00e1tica e seguir em frente com minha vaga vida de poeta, sobrevivendo de alguma forma. Minha esposa Kathie e eu fomos ordenados monges zen em 1980 porque nosso professor nos exigiu que fiz\u00e9ssemos isso e continu\u00e1ssemos a praticar no centro em tempo integral ou nos mud\u00e1ssemos e tiv\u00e9ssemos uma vida \u201claica\u201d (j\u00e1 t\u00ednhamos dois filhos). N\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos prontos para ir, ent\u00e3o concordamos com a ordena\u00e7\u00e3o, um passo que Kathie estava mais preparada do que eu, mas consegui.<\/p>\n<p>Em 1988, quando meu professor me ofereceu shiho (transmiss\u00e3o do dharma), o que me daria ordena\u00e7\u00e3o completa como sacerdote Soto Zen, eu fiquei surpreso. Naquele tempo no Zen americano, o shiho era raro (embora n\u00e3o fosse raro no Jap\u00e3o). As pessoas presumiam que s\u00f3 as pessoas profundamente iluminadas poderiam receb\u00ea-lo, raz\u00e3o pela qual fiquei surpreso. No entanto, fui adiante com o processo e me tornei um professor Zen, um papel que eu achei no in\u00edcio perturbador, sendo t\u00e3o mal preparado e mal adaptado para ele. Mas, finalmente, pensando em Huangbo, cheguei a aceitar a designa\u00e7\u00e3o social de \u201csacerdote zen\u201d ou \u201cprofessor zen\u201d, e desde ent\u00e3o fiz o meu melhor para tentar ajudar as pessoas a praticar.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais em \u201cnenhum professor do zen\u201d do que o olho encontra. Eu ainda acredito que os alunos s\u00e3o respons\u00e1veis \u200b\u200bpor sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica e seu pr\u00f3prio despertar. Ningu\u00e9m pode comunicar uma verdade digna de ser conhecida; a \u00fanica verdade que vale a pena \u00e9 aquela que voc\u00ea encontra exclusivamente, para sua pr\u00f3pria vida. Por outro lado, o Zen n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica do Cavaleiro Solit\u00e1rio. Professores Zen s\u00e3o importantes para a pr\u00e1tica, como a tradi\u00e7\u00e3o de fato indica e a experi\u00eancia prova. Sim, n\u00e3o h\u00e1 professores zen, porque o Zen n\u00e3o \u00e9 uma mat\u00e9ria ou habilidade pass\u00edvel de ser ensinada. H\u00e1 coisas a serem aprendidas, como a liturgia zen, como comportar-se em um zendo, e como bater um sino apropriado em um tempo apropriado, mas \u00e9 claro que o pr\u00f3prio Zen, embora n\u00e3o exatamente algo diferente dessas coisas, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que elas. O Zen \u00e9 muito mais escorregadio do que isso. O Sutra do Cora\u00e7\u00e3o diz: \u201cTodos os dharmas est\u00e3o vazios. \u201cO Zen \u00e9 vazio \u2013 vazio de conte\u00fado, vazio de doutrina, estilo ou f\u00e9 que pode ser codificado e definido. Ent\u00e3o o que h\u00e1 para ensinar?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode comunicar uma verdade digna de ser conhecida; A \u00fanica verdade que vale a pena \u00e9 aquela que voc\u00ea encontra exclusivamente, para sua pr\u00f3pria vida. Por outro lado, o Zen n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica do Cavaleiro Solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas sim, h\u00e1 professores zen porque a pr\u00e1tica zen n\u00e3o \u00e9 nada: a transforma\u00e7\u00e3o real ocorre. Os professores zen n\u00e3o podem mostrar como efetuar essa transforma\u00e7\u00e3o, eles n\u00e3o podem fazer com que isso aconte\u00e7a em voc\u00ea, e eles n\u00e3o s\u00e3o \u201cmestres\u201d disso (ningu\u00e9m poderia ser um mestre de um sentimento indefin\u00edvel e vazio de viver). Mas desempenham um papel essencial.<\/p>\n<p>No modelo educacional comum, h\u00e1 professores que ensinam, alunos que aprendem, mat\u00e9ria, padr\u00f5es de conhecimento e uma institui\u00e7\u00e3o educacional que cont\u00e9m e certifica o processo educacional. Embora, de certa forma, o Zen possa parecer assim, de fato o Zen n\u00e3o \u00e9 um processo educacional, mas sim uma transforma\u00e7\u00e3o na qual tanto o professor quanto o aluno se envolvem plenamente, desempenhando cada um o seu pr\u00f3prio papel. O pr\u00f3prio processo efetua a transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pense nisso como uma m\u00e1quina com muitas partes m\u00f3veis que interagem em um sistema complexo, cada parte afetando todas as outras partes. Nenhuma parte \u201censina\u201d enquanto a outra \u201caprende\u201d. No entanto, faz funcionar a m\u00e1quina por um tempo e algo acontece: um produto \u00e9 produzido, neste caso um praticante Zen experiente que encarna, \u00e0 sua maneira \u00fanica, os valores, os compromissos e, principalmente, o sentimento ea vis\u00e3o de uma vida de pr\u00e1tica. Ent\u00e3o, \u00e9 exatamente como Huangbo diz: h\u00e1 zen, mas, estritamente falando, n\u00e3o h\u00e1 professores, embora sim, a m\u00e1quina n\u00e3o vai ligar a menos que todas as partes funcionem plenamente em seus devidos lugares. O professor, sem ensinar nada, deve ocupar seu lugar no processo. Outra analogia pode ser uma mandala: cada elemento tem seu lugar crucial na concep\u00e7\u00e3o global, mas nenhum elemento \u00e9 soberano. Apenas o design geral importa. Ent\u00e3o sim, apenas neste caso, professores s\u00e3o importantes.<\/p>\n<p>A fim de efetivamente tomar seu lugar no padr\u00e3o, o professor, idealmente, tem certas capacidades. F\u00e9 na pr\u00e1tica, especialmente. E n\u00e3o apenas f\u00e9 entusi\u00e1stica, mas f\u00e9 fundada na experi\u00eancia ao longo do tempo \u2013 f\u00e9 que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 falada, mas tamb\u00e9m demonstrada em a\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia na realidade vivida da pr\u00e1tica \u00e9 a fonte deste tipo de f\u00e9, aquele certo conhecimento, at\u00e9 os ossos, de que a pr\u00e1tica \u00e9 a maneira mais verdadeira de viver. \u201cPr\u00e1tica\u201d n\u00e3o significa apenas pr\u00e1tica formal que acontece em templos e salas de medita\u00e7\u00e3o. Significa compreender e viver uma vida humana entre outras. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante nova na cultura ocidental e, naturalmente, temos exagerado demais, romantizando as experi\u00eancias m\u00edsticas que a medita\u00e7\u00e3o intensiva pode produzir. Tais experi\u00eancias s\u00e3o apenas uma quest\u00e3o de curso. Eles est\u00e3o entre as coisas menos importantes para um professor ter experimentado, mas qualquer professor Zen ter\u00e1 experimentado muitas dessas coisas. Sente-se l\u00e1 o tempo suficiente e tudo est\u00e1 prestes a ocorrer. Mas n\u00e3o s\u00e3o as experi\u00eancias que importam tanto como a dobra delas em uma vida inteira e em uma vista inteira.<\/p>\n<p>Mas mesmo essa profundidade de f\u00e9, embora essencial e b\u00e1sica, n\u00e3o \u00e9 suficiente. Idealmente, um professor Zen tamb\u00e9m est\u00e1 disposto e capaz de compartilhar a vida completamente com os outros. Isso requer uma ampla e profunda aceita\u00e7\u00e3o e interesse pelas muitas manifesta\u00e7\u00f5es astutas e selvagens do cora\u00e7\u00e3o humano que surgem no curso da pr\u00e1tica ao longo do tempo. Pratique com as pessoas por um tempo e voc\u00ea vai testemunhar nascimentos, mortes, casamentos, div\u00f3rcios, casos amorosos, experi\u00eancias de ilumina\u00e7\u00e3o, l\u00e1grimas sem fim, doen\u00e7as tr\u00e1gicas, feudos irritados, brechas, colapsos e surpresas de todos os tipos. Um professor Zen acabar\u00e1 por viver com os outros quase tudo o que os seres humanos perpetram, ent\u00e3o ele ou ela precisa de longa paci\u00eancia, profunda toler\u00e2ncia e perd\u00e3o, e um saud\u00e1vel senso da imensa trag\u00e9dia e beleza da vida humana. Quanto mais o professor tiver uma id\u00e9ia de \u201cZen\u201d com a qual os alunos devem se conformar, mais todos (professores inclu\u00eddos) sofrer\u00e3o, se n\u00e3o no in\u00edcio, ent\u00e3o mais tarde, como as pessoas que foram inicialmente inspiradas por essa id\u00e9ia venham a se sentir oprimidas ou mesmo tra\u00eddas por ela. Sem d\u00favida, existem muitas habilidades importantes que as pessoas gostariam que seus professores de Zen tivessem, mas profunda f\u00e9 e uma vontade de compartilhar sua vida honestamente s\u00e3o o cerne de o que eu tenha vindo a sentir \u00e9 mais importante depois de estar neste neg\u00f3cio h\u00e1 muito tempo. Mas tamb\u00e9m tenho visto que professores zen que parecem seriamente carecer dessas capacidades ainda s\u00e3o de benef\u00edcio para os outros. Parece n\u00e3o haver prescri\u00e7\u00f5es universais no Zen ou na vida.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica zen \u00e9 dial\u00f3gica, interativa. Comparativamente a outras formas de budismo, \u00e9, classicamente, \u201cpr\u00e1tica conjunta\u201d. Em uma refei\u00e7\u00e3o Zen formal, por exemplo, todos come\u00e7am e terminam juntos. Na medita\u00e7\u00e3o Zen caminhando, todos andam juntos em fila \u00fanica, uniformemente espa\u00e7ados. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 feita lado a lado, em um sal\u00e3o, com cada per\u00edodo de medita\u00e7\u00e3o come\u00e7ando e terminando com todos juntos. A forma da literatura caracter\u00edstica \u00e9 tamb\u00e9m dial\u00f3gica, com breves encontros verbais ou n\u00e3o-verbais entre professores e disc\u00edpulos, ou disc\u00edpulos e disc\u00edpulos, apresentando conversas sinuosas de ida e volta em que os ensinamentos s\u00e3o explorados n\u00e3o tanto discursivamente mas dinamicamente, usando o m\u00ednimo de palavras poss\u00edvel. E uma das pr\u00e1ticas Zen caracter\u00edsticas e essenciais \u00e9 o encontro individual com o professor, que \u00e9 visto n\u00e3o como um relat\u00f3rio ou pedir conselho mas sim como \u201cencontro do Darma\u201d \u2013 uma chance de encontrar a si mesmo ao encontrar outro.<\/p>\n<p>Dado este estilo \u201cjunto\u201d radical, \u00e9 claro que um professor do zen tem que estar pronto, toda a hora, para deixar sua vida e entrar na vida do outro. Essa mutualidade profunda \u00e9 a ess\u00eancia do processo zen. Tem sido um treino maravilhoso para uma pessoa teimosa como eu suavizar-me consideravelmente ao longo dos anos e expandir meus horizontes. Mas demorei um pouco para estar pronto para isso ou mesmo para saber que era necess\u00e1rio. Logo ap\u00f3s a minha cerim\u00f4nia shiho em 1988, eu li uma linha em um dos livros de Thich Nhat Hanh para o efeito que \u201cse voc\u00ea n\u00e3o pode encontrar um verdadeiro professor, \u00e9 melhor n\u00e3o estudar.\u201d Isso me emaranhou por um tempo na rede dos meus preconceitos n\u00e3o reconhecidos sobre os professores zen. Eu achei isso muito perturbador porque parecia implicar algum estado exaltado de ser um \u201cverdadeiro professor\u201d, um estado desconhecido para mim.<\/p>\n<p>No entanto, aqui estava eu, uma das poucas pessoas zen americanas naqueles dias com plena transmiss\u00e3o do Darma, e o que eu achei que eu estava fazendo? Levei alguns anos desconfort\u00e1veis \u200b\u200bpara finalmente alcan\u00e7ar Thich Nhat Hanh para perguntar a ele sobre isso, e ele me disse algo como: \u201cN\u00e3o se preocupe, todos n\u00f3s ajudamos uns aos outros. A pessoa de um dia ajuda o que acaba de entrar na porta. A pessoa de cinco anos ajuda a pessoa de um ano. Cada um ajuda de acordo com sua experi\u00eancia. Isso me fez sentir muito melhor.<\/p>\n<p>Ainda assim, levei anos para me sentir confort\u00e1vel no assento do professor. (E ser um professor Zen assim chamado \u00e9, de muitas maneiras, literalmente isso, sentindo-se confort\u00e1vel no assento em que voc\u00ea est\u00e1 sentado, de frente para o altar, na frente do zendo.) Por um tempo eu fui inconscientemente apanhado pela id\u00e9ia que eu deveria ser algu\u00e9m que outros esperavam que eu fosse, e eu n\u00e3o pude deixar de me esfor\u00e7ar um pouco para ser essa pessoa. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o havia ningu\u00e9m em particular que eu precisava ser.<\/p>\n<p>Uma conversa formal do Zen (Teisho) n\u00e3o \u00e9 concebida como uma palestra sobre o Zen; \u00c9 chamado de \u201capresentar o grito\u201d \u2013 isto \u00e9, expressar o ensinamento apenas por falar em sua pr\u00f3pria voz. Eu sempre apreciei o fato de que quando voc\u00ea d\u00e1 um Teisho, voc\u00ea faz tr\u00eas prostra\u00e7\u00f5es ao Buda antes e depois da conversa. Estas rever\u00eancias pretendem indicar que n\u00e3o \u00e9 exatamente voc\u00ea que d\u00e1 a conversa. O Buda est\u00e1 dando a palestra usando seu corpo e sua voz. Reverenciar \u00e9 orar a Buda para ajud\u00e1-lo a fazer um trabalho t\u00e3o bom em canaliz\u00e1-lo que voc\u00ea possivelmente pode, com a f\u00e9 em que n\u00e3o importa o que voc\u00ea diga, certo ou errado, ser\u00e1 de alguma utilidade se voc\u00ea for sincero e tentar o seu melhor. Depois de alguns anos eu vi que isso se aplicava a qualquer coisa que eu fiz como um professor de Zen: se eu fosse honesto, tentasse o meu melhor, seguisse preceitos e n\u00e3o fingisse ser ningu\u00e9m, tudo estaria bem.<\/p>\n<p>E o que significa \u201ctudo ficaria bem\u201d realmente significa? Certamente n\u00e3o significa que as coisas nunca ir\u00e3o dar errado. Na verdade, as coisas certamente v\u00e3o dar errado. Talvez outra capacidade que um professor zen deva desenvolver \u00e9 a resili\u00eancia e amplitude de vis\u00e3o que lhe permitir\u00e1 viver com o fato de que ela vai falhar. Pelo menos, esta foi a minha experi\u00eancia. Ocupando a engrenagem do professor na m\u00e1quina girat\u00f3ria Zen exige que voc\u00ea receba tudo com um cora\u00e7\u00e3o aberto e ter a disposi\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia para assumir a plena responsabilidade por cada relacionamento em que voc\u00ea entre, o que significa cuidar e tentar o seu melhor para ajudar.<\/p>\n<p>No final, eu sei que nunca vou acertar. \u00c0s vezes errar \u00e9 a melhor coisa de qualquer maneira.<\/p>\n<p>As pessoas v\u00eam \u00e0 pr\u00e1tica zen, como a qualquer pr\u00e1tica espiritual, com muitas necessidades humanas. Eles v\u00eam com confian\u00e7a, desconfian\u00e7a e expectativas escondidas. Naturalmente, o professor Zen, um ser humano imperfeito, vai decepcionar um bom n\u00famero deles. Alguns ficar\u00e3o decepcionados no primeiro dia, outros s\u00f3 depois de muitas d\u00e9cadas. Voc\u00ea, o professor, ir\u00e1 entend\u00ea-los mal e eles o entender\u00e3o mal. Voc\u00ea vai dizer e fazer coisas que s\u00e3o prejudiciais, mesmo se voc\u00ea nunca pretendeu. Pretendendo endireitar algu\u00e9m (sempre uma proposi\u00e7\u00e3o duvidosa), voc\u00ea vai estragar completamente o trabalho, refor\u00e7ando o comportamento ou ver que voc\u00ea estava tentando amolecer. Estudantes que praticaram fielmente com voc\u00ea por anos perceber\u00e3o que tudo est\u00e1 errado e sair\u00e3o, criando confus\u00e3o e desuni\u00e3o. Suas palavras e a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, ao serem entendidas e mal compreendidas diversas vezes, criar\u00e3o confus\u00e3o entre os membros da sangha que ir\u00e3o atuar em sua confus\u00e3o de modos \u00e0s vezes dolorosos. Voc\u00ea ter\u00e1 todos os tipos de sentimentos complicados e contradit\u00f3rios sobre as pessoas que v\u00eam praticar com voc\u00ea \u2013 am\u00e1-los, preocupar-se com eles, tem\u00ea-los, v\u00ea-los fazer erros terr\u00edveis que voc\u00ea n\u00e3o pode evitar, observando como eles manipul\u00e1-lo e prepar\u00e1-lo para todos os tipos de quedas. No final, voc\u00ea vai perceber que voc\u00ea n\u00e3o pode ajud\u00e1-los em tudo e ter\u00e1 que v\u00ea-los sofrer, ou v\u00ea-los faz\u00ea-lo sofrer, e manter a sua compostura mesmo assim.<\/p>\n<p>Falei com muitos professores Zen que est\u00e3o se esfor\u00e7ando para melhorar o que fazem \u2013 ver onde cometem erros e corrigir esses erros, talvez at\u00e9 obter algum treinamento psicol\u00f3gico ou outro para que eles possam entender as v\u00e1rias maneiras retorcidas que os alunos \u00e0s vezes se apresentam. Eu aprendi com o lamento com outros professores (algo que eu acho que \u00e9 essencial) e com meus muitos erros. Em \u00faltima an\u00e1lise, acho que os professores Zen n\u00e3o podem mais aprender do que ensinar. Cada situa\u00e7\u00e3o, cada pessoa, \u00e9 \u00fanica, e a pr\u00f3pria resposta, naquela \u00e9poca, a essa pessoa, deve e inevitavelmente ser\u00e1 \u00fanica. Eu sempre confio em minha resposta e estou, naturalmente, disposto a mudar ou ser corrigido quando comprovado errado. Mas no final, eu sei que nunca vou aceitar. \u00c0s vezes, errar \u00e9 a melhor coisa de qualquer maneira.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que tudo acaba sempre bem. Quando voc\u00ea realmente confia no processo da pr\u00e1tica mais do que voc\u00ea confia em seu self limitado, na sangha limitada, ou no que acontece no curto prazo, voc\u00ea percebe que a magia da pr\u00e1tica \u00e9 muito mais forte do que voc\u00ea pensava. N\u00e3o se limita ao que voc\u00ea ou algu\u00e9m diz ou faz; N\u00e3o se limita \u00e0 medita\u00e7\u00e3o ou ao que acontece nas salas de medita\u00e7\u00e3o ou nos jardins do templo.<\/p>\n<p>Eu vi como depois de deixar um lugar de pr\u00e1tica irritado ou n\u00e3o, as vidas dos estudantes milagrosamente d\u00e3o meia volta, \u00e0s vezes cinco, dez ou vinte anos mais tarde, por causa de circunst\u00e2ncias inesperadas que Buda de alguma forma colocou no meio de suas vidas muito depois que eles sa\u00edram. \u00c0s vezes, o sacerdote perfeito que voc\u00ea pensava que estava ordenando precisa desmoronar, sair e passar por muitos altos e baixos por d\u00e9cadas antes de finalmente emergir como o Buda que voc\u00ea sempre soube que era. Ou o naufr\u00e1gio de um ser humano que foi t\u00e3o perturbador e irritante e sem esperan\u00e7a volta para visit\u00e1-lo d\u00e9cadas mais tarde brilhando com amor. E a louca e confusa jovem que parecia indo para um destino determinado retorna com seus tr\u00eas ador\u00e1veis \u200b\u200bfilhos, grata pela pr\u00e1tica que ela parecia ter resistido poderosamente na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Vendo coisas como esta acontecer repetidas vezes, voc\u00ea volta finalmente a confiar na pr\u00e1tica \u2013 e na vida. Isso ajuda voc\u00ea a confiar em si mesmo e na bondade b\u00e1sica de todos com quem voc\u00ea pratica. O ingrediente secreto no ensino do Zen, afinal, \u00e9 a centelha brilhante da bondade humana em cada pessoa. A pr\u00e1tica desperta isso e finalmente faz o resto por conta pr\u00f3pria. Voc\u00ea, o professor, apenas tem que estar disposto a estar l\u00e1, e ser surpreendido.<br \/>\n<font size=\"1\"><b>FONTE:<\/b> https:\/\/www.zendobrasil.org.br\/sermon\/nenhum-professor-do-zen\/<\/p>\n<hr \/>\n<p><\/font><\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nenhum Professor do Zen Zoketsu Norman FischerTradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Yakusan SilvaRevis\u00e3o: Monja Coen Roshi Desde o come\u00e7o, Norman Fischer nunca fez muito uso de professores do Zen \u2013 e ainda n\u00e3o faz. 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