{"id":1042,"date":"2014-09-25T10:57:21","date_gmt":"2014-09-25T12:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=1042"},"modified":"2018-02-09T11:17:28","modified_gmt":"2018-02-09T13:17:28","slug":"wu-wei-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wu-wei-3\/","title":{"rendered":"Wu-Wei"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=1335\" rel=\"attachment wp-att-1335\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Wu-Wei.jpg\" alt=\"\" width=\"310\" height=\"163\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1335\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Wu-Wei.jpg 310w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Wu-Wei-300x158.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os verdadeiros homens de outrora nada sabiam do amor \u00e0 vida ou do \u00f3dio \u00e0 morte. Entrar na vida n\u00e3o lhes proporcionava alegria; a sa\u00edda da mesma n\u00e3o despertava resist\u00eancia. Calmamente, iam e vinham. N\u00e3o esqueciam qual havia sido o come\u00e7o e n\u00e3o indagavam qual seria o fim. Aceitavam [a vida] e regozijavam-se com ela; esqueciam [todo o temor \u00e0 morte] e retornavam [ao seu estado antes da vida]. Assim, havia neles a necessidade de qualquer mente em resistir ao Tao, e todas as tentativas, por meio da condi\u00e7\u00e3o Humana, de resistir ao Divino.13 [68a] <\/p>\n<p>Longe de usar qualquer artif\u00edcio ou m\u00e9todo para obter poderes espirituais, controlar ou elevar-se acima das transforma\u00e7\u00f5es de vida e morte, Chuang-tzu parecia exultar apenas seguindo o processo.<br \/>\nVoc\u00ea teve a coragem de nascer humano, e est\u00e1 encantado. Mas este corpo passa por mir\u00edades de mudan\u00e7as que jamais chegam ao fim, e assim n\u00e3o propicia alegrias incalcul\u00e1veis? Por conseguinte, o s\u00e1bio desfruta daquilo de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar-se e pelo qual tudo \u00e9 preservado. Considera a morte prematura ou a velhice, seu come\u00e7o e fim igualmente bons, e nisto outros homens o imitam. Quanto mais far\u00e3o em respeito a este [Tao] do qual todas as coisas dependem e do qual origina-se toda transforma\u00e7\u00e3o! 14 [68b]<\/p>\n<p>Em outras palavras, aquilo que em geral \u00e9 sentido como o mundo inst\u00e1vel, imprevis\u00edvel, perigoso e at\u00e9 mesmo hostil &#8211; incluindo os sentimentos vol\u00faveis e sentimentos \u00edntimos &#8211; na verdade \u00e9 o pr\u00f3prio ser e mo\u00acdo de fazer. O pr\u00f3prio sentido de n\u00e3o ser assim \u00e9, por sua vez, parte do ser assim. Ou seja, do ponto de vista do Tao\u00edsmo Contemplativo primitivo (termo usado por Creel), qualquer exerc\u00edcio deliberado para cultivar o wu-wei pareceria auto-contradit\u00f3rio. Na pr\u00f3pria met\u00e1fora de Chuang-tzu, seria como \u201cbater um tambor em busca de um fugitivo\u201d ou, como posteriormente afirmaram os budistas Ch\u201dan, \u201ccolocar pernas numa serpente\u201d. De acordo com Lao-tzu (cap. 38), poder-se-ia afirmar, \u201cO wu-wei superior n\u00e3o objetiva o wu-wei, por isso \u00e9 o verdadeiro wu-wei\u201d. <\/p>\n<p>Tal compreens\u00e3o se d\u00e1 por uma percep\u00e7\u00e3o intuitiva e n\u00e3o como resultado de alguma disciplina. Da mesma maneira, n\u00e3o \u00e9 preciso aprendizado para compreender o artif\u00edcio de representar a terceira dimens\u00e3o atrav\u00e9s de linhas tra\u00e7adas em perspectiva; basta que isso seja mostrado e a expe\u00acri\u00eancia de profundidade do quadro deixa de ser apenas compreens\u00e3o verbal e toma-se a vis\u00e3o real. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que devemos fazer da vener\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o dos exerc\u00edcios de medita\u00e7\u00e3o no Hindu\u00edsmo, no Budismo, no Tao\u00edsmo Hsien e no Sufismo Isl\u00e2mico, os quais tomam a consci\u00eancia c\u00f3smica e os poderes paranormais como seu objetivo ostensivo? Se prosseguirmos at\u00e9 os primeiros escritos Ch\u2019an da Dinastia T\u2019ang (+618 a +906), recordando que o Ch\u2019an constitu\u00eda \u00e0 \u00e9poca uma fus\u00e3o do Tao\u00edsmo e do Budismo, acho que n\u00e3o haver\u00e1 d\u00favidas de que estes primeiros mestres Ch\u2019an, tais como Seng- Ts\u2019an, Hui-neng, Shen-hui, Ma-tsu e at\u00e9 mesmo Lin-chi, n\u00e3o apenas deixavam de enfatizar a import\u00e2ncia dos exerc\u00edcios de medita\u00e7\u00e3o, mas com freq\u00fc\u00eancia descartavam-nos como irrelevantes. Eles enfatizavam inteiramente o insight intuitivo imediato, resultante do professor \u201capontar diretamente\u201d (chih-chih) em entrevistas de pergunta e resposta denominadas wen-ta, de tal forma que, aquele que j\u00e1  havia visto a verdade das coisas simplesmente a apontava para aquele que n\u00e3o a havia visto &#8211; com freq\u00fc\u00eancia por meios n\u00e3o-verbais, por demonstra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o explica\u00e7\u00e3o.15 <\/p>\n<p>Por este motivo, Hui-neng, Sexto patriarca do Ch&#8217;an Budismo (+ 713), chamava seu m\u00e9todo de \u201cescola s\u00fabita\u201d, hoje ridicularizada por budistas protestantes secretos como \u201cZen instant\u00e2neo\u201d (como caf\u00e9 instant\u00e2neo) &#8211; como se o valor de uma inspira\u00e7\u00e3o ou intui\u00e7\u00e3o deva ser julgado simplesmente pelo padr\u00e3o quantitativo de tempo e energia gastos na prepara\u00e7\u00e3o para o mesmo. Quanto tempo uma crian\u00e7a demora para saber que o fogo \u00e9 quente?<\/p>\n<p>\t15. Ao apresentar esta id\u00e9ia, percebo que, vis-\u00e0-vis os disciplinadores Ch&#8217;an modernos (Zen) do ramo do Budismo das &#8220;pernas doloridas&#8221;, n\u00e3o passo de um herege deplor\u00e1vel, pois para eles o za-zen (medita\u00e7\u00e3o Zen sentado) e o sesshin (longos per\u00edodos de medita\u00e7\u00e3o zen sentada) s\u00e3o o sine qua non para o despertar (ou ilumina\u00e7\u00e3o), segundo sua escola. Fui duramente repreendido por esta opini\u00e3o em Kapleau (1), pp. 21-22, 83-84, embora o \u00fanico texto por ele citado da literatura zen inicial seja o de Huang-po Tuan-chi Ch&#8217;an-shih Wang-Iing Lu (antes de + 850): &#8220;Para praticar o controle da mente (ts&#8217;o-ch&#8217;an), sente-se na posi\u00e7\u00e3o adequada, permane\u00e7a perfeitamente e n\u00e3o permita que o menor movimento de sua mente o perturbe&#8221; (tr. Blofeld (1), p. 131). <\/p>\n<p>Considerando-se a grande \u00eanfase dada ao za-zen posteriormente, \u00e9 estranho Huang-po ter apenas isso a dizer a respeito. O leitor interessado nas ra\u00edzes desta quest\u00e3o precisar\u00e1 apenas consultar o Tan-ching de Hui-neng {sutra da Plataforma} (tr.Chan Wing-tsit (1), ou Yampolsky (1), esp. o cap. 19), ou o Shen-hui Ho-ehang I-ehi (tr. Gernet (1), esp. a se\u00e7\u00e3o 1.111), ou Ma-tsu em Ku\u00actsun-hs\u00fc Y\u00fc-lu (tr. Watts (1), p. 110). Para outras discuss\u00f5es1 ver Fung Yu-Ian (1), voI. 2, pp. 393-406, e Hu Shih. Todas estas evidencias corroboram a vis\u00e3o de que os mestres T&#8217;ang do Ch&#8217;an deploravam o uso de exerc\u00edcios de medita\u00e7\u00e3o como forma de obter o verdadeiro insight (wu, ou o japon\u00eas satori). Obtive confirma\u00e7\u00e3o posterior desta vis\u00e3o em discuss\u00f5es particulares com D. T. Suzuki e R. H. Blyth, os quais consideravam o za-zen compulsivo das \u201cpernas doloridas\u201d um fetiche supersticioso da moderna pr\u00e1tica zen. <\/p>\n<p>Por outro lado, os que compreendem o Tao deliciam-se, como gatos, limitando-se a ficar sentados e observando, sem qualquer prop\u00f3sito ou resultado em mente. Mas quando um gato se cansa de ficar sentado, ele se levanta e vai caminhar ou ca\u00e7ar ratos. O gato n\u00e3o inflige castigos a si mesmo nem compete com outros gatos em testes de resist\u00eancia &#8211; quanto tempo pode permanecer im\u00f3vel &#8211; a n\u00e3o ser que exista algum motivo verdadeiro para permanecer im\u00f3vel, tal como pegar um p\u00e1ssaro. Os tao\u00edstas contemplativos ter\u00e3o todo o prazer em sentar-se com yogis e Zen por um tempo razo\u00e1vel e c\u00f4modo; mas quando a natureza nos diz que estamos \u201cempurrando o rio\u201d, levantamos e fazemos outras coisas, ou mesmo vamos dormir. Mais do que isso, sem d\u00favida n\u00e3o passa de orgulho espiritual. Os tao\u00edstas n\u00e3o consideram a medita\u00e7\u00e3o uma \u201cpr\u00e1tica\u201d, exceto no sentido de como um m\u00e9dico \u2018pratica\u2019 a medicina. N\u00e3o pretendem subjugar ou alterar o universo por meio da coer\u00e7\u00e3o ou for\u00e7a de vontade, pois sua arte deve seguir inteiramente o fluir das coisas, de maneira inteligente. A medita\u00e7\u00e3o ou contempla\u00e7\u00e3o (kuan) desenvolve esta intelig\u00eancia como conseq\u00fc\u00eancia, e n\u00e3o como objetivo direto. O prop\u00f3sito ou benef\u00edcio da contempla\u00e7\u00e3o consiste apenas em ouvir, durante uma longa noite, o som da \u00e1gua. Isso diz o que penso.<br \/>\nSua mente est\u00e1 livre de todos os pensamentos. Sua conduta \u00e9 tranq\u00fcila e silenciosa. A fronte refulge com simplicidade. Ele \u00e9 frio como o outono e quente como a primavera, pois a alegria e a raiva acontecem com a naturalidade das quatro esta\u00e7\u00f5es.16 [69b] <\/p>\n<p>Contudo, deve-se deixar claro que o wu-wei n\u00e3o \u00e9 um capricho intencional, como quando as pessoas saem de seu caminho para fazer aquilo que \u00e9 bizarro ou anti-convencional, seguindo as conven\u00e7\u00f5es com a servid\u00e3o de qualquer antiquado &#8211; como um guia para fazer exatamente o contr\u00e1rio. Este foi um equ\u00edvoco comum na interpreta\u00e7\u00e3o do Tao\u00edsmo e do Zen, quando se tomaram populares entre os jovens ocidentais. As\u00acsim, na verdade os taoistas contemplativos sentam-se em medita\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o com o prop\u00f3sito ego\u00edsta de se aperfei\u00e7oarem. O que acontece \u00e9 que, percebendo intuitivamente a inexist\u00eancia de algum caminho a seguir, exceto o caminho do Tao, \u201cdivagam para dentro da\u00acquilo do qual n\u00e3o se pode escapar\u201d (Chuang-tzu 6) e meditam pelo prazer da medita\u00e7\u00e3o &#8211; o fluxo da respira\u00e7\u00e3o; o som dos galos \u00e0 dist\u00e2ncia, a luz no ch\u00e3o, o sussurrar do vento, a tranq\u00fcilidade e, infelizmente, to\u00acdas aquelas coisas que os militantes ativistas do Ocidente e do Oriente, com sua determina\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, aprenderam a desdenhar. Este \u00e9 o aspecto yin da vida taoista, e assim n\u00e3o exclui &#8211; quando se toma oportuno &#8211; o aspecto yang de deliciar-se com o vigor, por isso a &#8211; disciplina do t&#8217; ai chi chuan de movimento corporal, fluindo e oscilando, \u00e9 t\u00e3o apreciada quanto sentar-se para meditar 17. <\/p>\n<p>16- Chuang-tzu 6, Fung Yu-Ian (3), p. 113, modo auct.<br \/>\n17- \u00c9 dif\u00edcil imaginar um equivalente ocidental para o t&#8217;ai chi chuan. Parte dan\u00e7a, parte exerc\u00edcio f\u00edsico e parte combate lento, ainda assim ele n\u00e3o \u00e9 nada disso, mas, ao contr\u00e1rio, \u201cO T&#8217;ai chi exemplifica o princ\u00edpio mais sutil do Taoismo, conhecido como wu-wei&#8230; agir sem esfor\u00e7o &#8211; movimentar-se em harmonia com o fluxo da natureza&#8230; e \u00e9 mais bem compreendido observando-se a din\u00e2mica da \u00e1gua&#8221; (Huang [I], p. 2).<\/p>\n<p>O cr\u00edtico de Chuang-tzu, Ko Hung (-300), um tao\u00edsta Hsien, ressaltou a import\u00e2ncia dada por Chuang-tzu \u00e0 compreens\u00e3o intuitiva do Tao, sem recorrer a \u2018exerc\u00edcios espirituais\u2019 artificiais. Ko Hung denominou o caminho de Chuang-tzu como nada al\u00e9m de \u2018pura conversa\u00e7\u00e3o\u2019 (ch&#8217;ing t&#8217;an), ou como poderiam chamar seus correlatos modernos, \u2018mera intelectualiza\u00e7\u00e3o\u2019 ou nada al\u00e9m de uma \u2018viagem mental\u2019. Chuang-tzu, escreveu ele, \u201cafirma que vida e morte s\u00e3o exatamente a mesma coisa, classifica o esfor\u00e7o em preservar a vida como servid\u00e3o laboriosa e exalta a morte como um descanso; tal doutrina est\u00e1 a milh\u00f5es de quil\u00f4metros daquela do shen hsien [imortais sagrados]\u201d 18.<br \/>\n18 \u2013 Creel (1. p.22)<\/p>\n<p>O mais pr\u00f3ximo que Chuang-tzu chegou de um esbo\u00e7o de m\u00e9todo para atingir o Tao \u00e9 colocado na boca de um s\u00e1bio chamado N\u00fc Ch\u00fc, presumivelmente uma mulher: <\/p>\n<p>Havia Pu Liang I, que possu\u00eda o g\u00eanio de um s\u00e1bio, mas n\u00e3o o Tao. Eu tenho o Tao, mas n\u00e3o o g\u00eanio. Quis ensinar-lhe, a fim de que se tomasse um verdadeiro s\u00e1bio. Ensinar o Tao de um s\u00e1bio a um homem de g\u00eanio parece algo f\u00e1cil. Mas n\u00e3o \u00e9, e continuei instruindo-o; depois de tr\u00eas dias, ele conseguiu desprezar todas as quest\u00f5es mundanas [isto \u00e9, ansiedades quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o social ou sobre ganhos e perdas]. Depois de desprezar todas as quest\u00f5es mundanas, continuei instruindo-o; sete dias mais tarde, ele conseguiu desprezar todas as coisas externas [como sendo entidades separadas]. Depois de desprezar todas as coisas externas, continuei instruindo-o; nove dias mais tarde, ele conseguiu desprezar a pr\u00f3pria exist\u00eancia [como um ego]. Depois de desprezar a pr\u00f3pria exist\u00eancia, ele foi iluminado. Tornando-se iluminado, conseguiu perceber a vis\u00e3o do Um. Depois de ter esta vis\u00e3o do Um, ent\u00e3o ele foi capaz de transcender a distin\u00e7\u00e3o entre passado e presente. Transcendida a distin\u00e7\u00e3o entre passado e presente, ent\u00e3o ele conseguiu ingressar no reino onde vida e morte n\u00e3o existem. Enfim, para ele, a destrui\u00e7\u00e3o da vida n\u00e3o significa\u00acva morte, nem o prolongamento da vida um acr\u00e9scimo \u00e0 dura\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia. Ele teria seguido qualquer coisa; teria recebido qualquer coisa. Para ele, tudo estava em destrui\u00e7\u00e3o, tudo estava em constru\u00e7\u00e3o. A isto chama-se tranq\u00fcilidade na desordem. Tranq\u00fcilidade na desordem significa perfei\u00e7\u00e3o 19. [70-69aJ .<\/p>\n<p>Existe uma passagem semelhante em Lieh-tzu onde, contudo, os dias passam e chegam a anos, e o mestre nada diz, contando-nos como Lieh-tzu apren\u00acdeu a cavalgar o vento, ou, como ele diria, a caminhar pelo ar.<br \/>\nAo cabo de sete anos, houve outra mudan\u00e7a. Permiti que minha mente refletisse sobre o que seria, mas ela n\u00e3o se ocupava mais com o certo e o errado. Permiti que meus l\u00e1bios pronunciassem o que quisessem, mas eles n\u00e3o falavam mais de perdas e ganhos&#8230; Ao cabo de nove anos, minha mente deu r\u00e9deas \u00e0s suas reflex\u00f5es, minha boca livre passagem a seu discurso. Sobre o certo e o errado, sobre perdas e ganhos, eu n\u00e3o tinha qualquer conhecimento, tocando a mim ou aos outros&#8230; Interno e externo fundiram-se na Unidade. Depois disso, n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o entre olho e orelha, entre orelha e nariz, entre nariz e boca; tudo era a mesma coisa. Minha mente estava congelada, meu corpo em dissolu\u00e7\u00e3o, pele e ossos fundidos. Eu estava inteiramente inconsciente de onde o meu corpo repousava, ou do que havia sob meus p\u00e9s. Eu era mantido de um jeito e de outro pelo vento, como palha ou folhas secas caindo de uma \u00e1rvore. Na verdade, n\u00e3o sabia se o vento estava me cavalgando ou eu ao vento 20.<br \/>\n19.\tChuang-tzu 6, tr. Fung Yu-lan (3), pp. 119-20.<br \/>\n20.\tLieh-tzu 2, tr. L. Giles (1), pp. 40-42.<\/p>\n<p>Aparentemente, Lieh-tzu oferece met\u00e1foras f\u00edsicas para estados psicol\u00f3gicos, e assim \u00e9 que, montando o vento, a mente congelada e o corpo dissolvido devem ser compreendidos literalmente.<br \/>\nEstas passagens sugerem que wu-wei constitui um estado da consci\u00eancia quase de sonho &#8211; flutuante &#8211; de forma que o mundo f\u00edsico perde a dura realidade normalmente presente no senso comum.<br \/>\nCerta vez eu, Chuang-chou, sonhei que era uma borboleta, uma borboleta voando, divertindo-se. Eu n\u00e3o sabia que ela era Chuang-chou. De s\u00fabito, despertei e era novamente Chuang-chou. Mas n\u00e3o sei se sonhei que era uma borboleta ou se sou uma borboleta sonhando que sou Chuang-chou.21 [72b]<\/p>\n<p>E novamente:<br \/>\nComo saber que amor \u00e0 vida n\u00e3o \u00e9 uma ilus\u00e3o? Como saber que aquele que teme a morte n\u00e3o se assemelha ao homem que foi embora de casa quando jovem e n\u00e3o pretende voltar? &#8230; Como saber que os mortos n\u00e3o se arrepender\u00e3o da antiga ansiedade pela vida? Aqueles que sonham com um banquete \u00e0 noite talvez na manh\u00e3 seguinte chorem e se lamentem. Aqueles que sonham com lamentos e choro talvez na manh\u00e3 seguinte saiam para ca\u00e7ar. Quando sonham, n\u00e3o sabem que est\u00e3o sonhando. No sonho, podem inclusive interpretar seus sonhos. Somente quando est\u00e3o despertos \u00e9 que come\u00e7am a perceber que sonharam. Logo vem o grande despertar, e ent\u00e3o descobriremos que a pr\u00f3pria vida \u00e9 um grande sonho. Durante todo este tempo, os tolos consideram-se despertos e pensam que sabem. Com belas discrimina\u00e7\u00f5es, fazem distin\u00e7\u00f5es entre pr\u00edncipes e cavalari\u00e7os. Como s\u00e3o tolos! Conf\u00facio e voc\u00ea, ambos est\u00e3o sonhando. Quando afirmo que voc\u00ea est\u00e1 sonhando, tamb\u00e9m eu estou sonhando.22 [71a]<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo \u00e9 um sonho, que tamb\u00e9m \u00e9 encontrada no Hindu\u00edsmo e no Budismo, prov\u00e9m sobretudo da observa\u00e7\u00e3o de sua transitoriedade e n\u00e3o de especula\u00e7\u00f5es a respeito do conhecimento e da verdade, da epistemologia e da ontologia, embora estes surjam posteriormente. Especialmente com o amadurecimento, torna-se cada vez mais evidente que as coisas n\u00e3o t\u00eam subst\u00e2ncia, pois o tempo aparentemente passa com mais rapidez, de tal forma que percebe-se a liquidez dos s\u00f3lidos; pessoas e coisas transformam-se em luz e ondula\u00e7\u00f5es sobre a superf\u00edcie da \u00e1gua. Podemos criar filmes acelerados sobre o crescimento de plantas e flores, nos quais estas parecem ir e vir como gestos da terra. Se pud\u00e9ssemos filmar civiliza\u00e7\u00f5es e cidades, montanhas e estrelas, da mesma maneira as ver\u00edamos como cristais congelados que se formam e se dissolvem, e como fa\u00edscas no fundo de uma lareira. Quanto mais r\u00e1pido o movimento, mais parece que estamos observando n\u00e3o tanto uma sucess\u00e3o de fatos, mas o movimento e as transforma\u00e7\u00f5es de determinada coisa &#8211; como vemos ondas no oceano ou os movimentos de um dan\u00e7arino. Da mesma maneira, o que num microsc\u00f3pio parece uma massa de protuber\u00e2ncias pl\u00e1sticas cercada de espinhos, a olho nu \u00e9 a pele fina de uma mo\u00e7a. Dito cruamente, o misticismo \u00e9 a apreens\u00e3o de que alguma coisa faz todo o resto. Os tao\u00edstas s\u00e3o mais sutis, de modo que o \u201cfazer\u201d n\u00e3o tem o sentido de uma coisa, o Tao, for\u00e7ando ou compelindo outras.<br \/>\n21.\tChuang-tzu 2 and fin., tr. Fung Yu-lan (3), p. 64, modo auct.<br \/>\n22.\tChuang-tzu 2, tr. Fung Yu-lan (3), pp. 61-62. <\/p>\n<p>De maneira geral, as filosofias do Ocidente moderno n\u00e3o aceitam bem esta vis\u00e3o sonhadora das coisas, talvez porque sintam que, se somos sonhos, n\u00e3o somos importantes, e se n\u00e3o somos importantes, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de respeitar-nos uns aos outros. Todos j\u00e1 ouvimos o chav\u00e3o de que na China a vida humana \u00e9 barata. Naturalmente, porque l\u00e1 ela \u00e9 abundante; e n\u00f3s mesmos estamos nos tornando endurecidos com a multiplica\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, e os meios de comunica\u00e7\u00e3o nos habituam a estat\u00edsticas de carnificinas enormes. Contudo, ainda n\u00e3o foi demonstrada a necess\u00e1ria rela\u00e7\u00e3o entre as vis\u00f5es metaf\u00edsicas ou convic\u00e7\u00f5es religiosas das pessoas e seu comportamento moral. Pessoas importantes podem tornar-se demasiado importantes, e assim devem livrar-se de aborrecimentos; e devemos lembrar que as torturas e mortes na fogueira \u00e0 \u00e9poca da Santa Inquisi\u00e7\u00e3o foram cometidas com pro\u00acfunda preocupa\u00e7\u00e3o com o destino da alma imortal dos hereges. <\/p>\n<p>Via de regra, parece que o sofrimento \u00e9 a nossa medida da realidade; n\u00e3o sei se nos sonhos existe dor f\u00edsica dissociada de algum motivo fisiol\u00f3gico real. Assim, \u00e9 conhecida a pilh\u00e9ria de que aqueles que acreditam na irrealidade da mat\u00e9ria t\u00eam dificuldade para convencer os demais acerca da irrealidade da dor.<br \/>\nHavia um curador pela f\u00e9, que disse, \u201cEmbora a dor n\u00e3o seja real, quando a ponta de um alfinete penetra.minha pele, n\u00e3o gosto do que imagino sentir\u201d.<br \/>\nContudo, o corpo humano cont\u00e9m tanto espa\u00e7o vazio que seus elementos ponder\u00e1veis poderiam ser condensados ao tamanho dessa mesma ponta de alfinete, pois sua aparente solidez \u00e9 uma ilus\u00e3o proveniente do movimento r\u00e1pido de seus componentes at\u00f4micos como quando uma h\u00e9lice girando parece tornar-se um disco impenetr\u00e1vel. Talvez a dor seja uma forma de \u201ccondicionamento\u201d, pois sabemos que o tipo de condicionamento denominado hipnose pode constituir um anest\u00e9sico extraordin\u00e1rio e seletivo. <\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, tentemos imaginar um universo, um campo de experi\u00eancia ou um campo de consci\u00eancia, sem extremos que poderiam ser denominados dor ou horrores. Embora uma pessoa de sorte possa passar dias, meses e at\u00e9 anos nas circunst\u00e2ncias mais confort\u00e1veis e satisfat\u00f3rias, sempre existe a apreens\u00e3o, a id\u00e9ia guardada no mais rec\u00f4ndito da mente, de que alguma forma de dor \u00e9, no m\u00ednimo, poss\u00edvel. Ela est\u00e1 emboscada nas proximidades, e ele sabe que \u00e9 uma pessoa de sorte, porque \u00e0 sua volta existem os que sofrem. Toda experi\u00eancia, toda consci\u00eancia parece possuir espectros variados de vibra\u00e7\u00f5es t\u00e3o ordenados que seus extremos, como o yin e o yang, de alguma manei\u00acra t\u00eam de caminhar juntos. Se cortarmos um magneto ao meio, de forma a retirar seu p\u00f3lo norte, descobriremos apenas que cada metade possui agora p\u00f3los norte e sul como antes. Assim, seria dif\u00edcil imaginar um universo sem polaridades de prazer e dor. Em in\u00fameras sociedades, percorremos um longo trajeto buscando livrar-nos de monstruosidades tais como a tortura legal e, atrav\u00e9s de meios m\u00e9dicos, livrar-nos dos sofrimentos da enfermidade e da cirurgia. Contudo, novas amea\u00e7as parecem tomar o seu posto, e sempre existe o espectro da morte em segundo plano.<br \/>\nPortanto, se nos aprofundarmos na verdadeira natureza do sentimento, come\u00e7aremos a perceber que n\u00e3o, queremos, e nem mesmo podemos querer, um universo sem esta polaridade. Em outras palavras, enquanto de\u00acsejamos a experi\u00eancia denominada prazer, implicamos e, desta forma, geramos o seu oposto. Por conseguinte, os budistas e taoistas falam do s\u00e1bio como aquele que n\u00e3o tem desejos, embora os taoistas tamb\u00e9m o caracterizem como aquele cuja \u201calegria e raiva ocorrem t\u00e3o naturalmente quanto as quatro esta\u00e7\u00f5es\u201d, e aqui pode estar a chave do problema. Pois \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o desejar? Tentar liberar-se do desejo sem d\u00favida \u00e9 desejar n\u00e3o desejar 23. <\/p>\n<p>23. Como naturalmente os budistas logo descobriram. <\/p>\n<p>Em geral, n\u00e3o se compreende que o Budismo n\u00e3o seja uma doutrina, mas um di\u00e1logo que prossegue com uma s\u00e9rie de experimentos. Buda n\u00e3o &#8220;ensinou&#8221; como alguma esp\u00e9cie de dogma, que a cura para o sofrimento reside na elimina\u00e7\u00e3o do desejo (trishna). Ele sugeriu simplesmente este experimento como inicial, o qual naturalmente levaria as pessoas (exatamente o que ele pretendia) a perceberem que elas estavam desejando n\u00e3o desejar, envolvidas assim num c\u00edrculo vicioso.<br \/>\nQualquer projeto de suprimir o desejo obviamente seria contr\u00e1rio ao esp\u00edrito de wu-wei, implicando que \u201cEu\u201d sou uma pot\u00eancia separada, a qual pode subjugar o desejo ou ser por ele subjuga\u00acdo. O wu-wei consiste em fluir com as experi\u00eancias e sentimentos \u00e0 medida que v\u00eam e v\u00e3o, como uma bola num riacho de montanha, embora na verdade n\u00e3o exis\u00acta bola separada dos revoluteios e coleios do pr\u00f3prio riacho. A isto se chama \u201cfluir com o momento\u201d, conquanto aconte\u00e7a apenas quando se torna clara a inexist\u00eancia de outra coisa a fazer, pois n\u00e3o existe experi\u00eancia que n\u00e3o seja o agora. Este riacho-agora (nunc fluens) \u00e9 o pr\u00f3prio Tao, e quando isso fica claro, in\u00fameros problemas desaparecem. Enquanto perdurar a no\u00e7\u00e3o de que somos algo diferente do Tao, todos os tipos de tens\u00e3o surgem como entre \u201ceu\u201d de um lado e as \u201cexperi\u00eancias\u201d do outro. Nenhuma a\u00e7\u00e3o, nenhuma for\u00ac\u00e7a (we i) conseguem liberar a tens\u00e3o proveniente da dualidade daquele que conhece e o conhecimento, as\u00acsim como n\u00e3o se pode afastar a noite com um sopro. A luz, ou a compreens\u00e3o intuitiva, dissipa sozinha a escurid\u00e3o. Assim como ocorre com a bola no riacho, n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia para cima quando se sobe, nem resist\u00eancia para baixo quando se desce. Resistir o dei\u00acxar\u00e1 mareado.<br \/>\nUm b\u00eabado cai de uma carro\u00e7a e, embora possa sofrer, n\u00e3o morre. Seus ossos s\u00e3o iguais aos das outras pessoas; mas ele enfrenta o acidente de maneira diferente. Sua mente encontra-se em estado de seguran\u00e7a. N\u00e3o est\u00e1 consciente da sua presen\u00e7a sobre a carro\u00e7a; nem tampouco da queda. Id\u00e9ias de vida, de morte e de medo n\u00e3o podem penetrar-lhe o peito; assim, ele n\u00e3o sofre pelo contato com as exist\u00eancias objetivas. E se tal seguran\u00e7a \u00e9 obtida por meio do vinho, quanto mais ser\u00e1 obtida por meio da Espontaneidade.24 [67b]<\/p>\n<p>Este \u00e9 um dos deliciosos exageros de Chuang-tzu, que ele explica melhor em outra passagem, como quando estabelece a distin\u00e7\u00e3o entre wu-wei e manter-se no meio, no caminho do meio.<br \/>\nMas o meio caminho entre o \u00fatil e o in\u00fatil, embora pudesse parecer um bom lugar, na verdade n\u00e3o o \u00e9 \u00ac\u2013 voc\u00ea jamais conseguir\u00e1 escapar do problema a\u00ed. Contudo, seria bem diferente se voc\u00ea subisse o Caminho e sua Virtude, e perambulasse e vagasse, nem cheio de louvores nem de impreca\u00e7\u00f5es, ora sendo um drag\u00e3o, ora sendo uma serpente, mudando com o tempo, jamais propenso a manter um caminho \u00fanico. Subindo ou descendo, conseguindo harmonia para a sua cad\u00eancia, perambulando e vagando com o ancestral das dez mil coi\u00acsas, tratando-as como coisas, mas n\u00e3o permitindo que elas o tratem como tal &#8211; ent\u00e3o como voc\u00ea poderia arranjar um problema?25 [60a]<\/p>\n<p>Mais al\u00e9m neste cap\u00edtulo, ele volta ao mesmo tema:<br \/>\nOu\u00e7am o que digo! No caso do corpo, o melhor a fazer \u00e9 deix\u00e1-Io seguir com as coisas. No caso das emo\u00e7\u00f5es, o melhor a fazer \u00e9 deix\u00e1-Ias seguir segundo sua vontade. Acompanhando as coisas, voc\u00ea evita tornar-se separado delas. Deixando as emo\u00e7\u00f5es livres, voc\u00ea evita a fadiga.26 [60b] <\/p>\n<p>Vale re-enfatizar o princ\u00edpio de que \u201cvoc\u00ea\u201d n\u00e3o pode prosseguir com as \u201ccoisas\u201d, exceto se houver a compreens\u00e3o de que, na verdade, n\u00e3o existe alternativa, j\u00e1 que voc\u00ea e as coisas s\u00e3o o mesmo processo &#8211; o Tao que flui agora. O sentimento de que existe uma diferen\u00e7a tamb\u00e9m \u00e9 este processo. Nada se pode fazer quanto a isto.<br \/>\n25.\tChuang-tzu 20, Ir. Watson (1), pp. 209-10.<br \/>\n26.\tIbid., p. 216.<\/p>\n<p>Existe apenas o riacho e suas convola\u00e7\u00f5es em mir\u00edades &#8211; ondas, bolhas, borrifos, redemoinhos e v\u00f3rtices &#8211; e voc\u00ea \u00e9 isto. <\/p>\n<p>Talvez fosse prefer\u00edvel deixar assim &#8211; s\u00f3 que es\u00acsa declara\u00e7\u00e3o evoca, em muitas mentes, uma confus\u00e3o de perguntas. Em vez de experimentar esse fluir-agora &#8211; o que tornaria tudo mais claro &#8211; elas querem todas as formas de garantias preliminares de que ser\u00e1 seguro e vantajoso experimentar, e se essa compreens\u00e3o \u201cfunciona\u201d como uma filosofia de vida. \u00c9 claro que sim, e de maneira bastante eficaz, mas se algu\u00e9m a segue por este motivo, n\u00e3o a estar\u00e1 seguindo. Entretanto, se exis\u00acte a compreens\u00e3o, o poder ou virtude do te surge espontaneamente ou, como dizem os crist\u00e3os, pela gra\u00e7a divina t\u00e3o distinta da for\u00e7a de vontade. Ao perceber que somos o Tao, automaticamente a sua magia se manifesta &#8211; mas a magia, assim como a gra\u00e7a, \u00e9 algo que ningu\u00e9m deve exigir. Como afirma Lao-tzu a respeito do Tao, \u201cQuando se realizam boas coisas, ele n\u00e3o as exige (nem lhes d\u00e1 nome)\u201d. <\/p>\n<p>Do livro: TAO \u2013 O curso do rio de Alan Watts<\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os verdadeiros homens de outrora nada sabiam do amor \u00e0 vida ou do \u00f3dio \u00e0 morte. Entrar na vida n\u00e3o lhes proporcionava alegria; a sa\u00edda da mesma n\u00e3o despertava resist\u00eancia. Calmamente, iam e vinham. 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