{"id":11,"date":"2012-11-08T20:32:25","date_gmt":"2012-11-08T22:32:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=11"},"modified":"2015-05-08T19:47:17","modified_gmt":"2015-05-08T21:47:17","slug":"reflexoes-sobre-a-linguagem-no-budismo-zen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/reflexoes-sobre-a-linguagem-no-budismo-zen\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre a linguagem no budismo ZEN"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/agoraqui.jpg\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-678\" alt=\"agoraqui\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/agoraqui-300x260.jpg\" width=\"300\" height=\"260\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/agoraqui-300x260.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/agoraqui-1024x890.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/agoraqui.jpg 1122w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Esse texto \u00e9 uma resposta de Ronaldo Pinheiro, pesquisador incans\u00e1vel da natureza com v\u00e1rios trabalhos publicados, praticante e um respeit\u00e1vel conhecedor do budismo, \u00e0 nossa querida monja Tenzin Namdrol.<\/strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/20121108.jpg\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-32\" title=\"20121108\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/20121108-287x300.jpg\" width=\"287\" height=\"300\" \/><\/a><br \/>\nCara monja Tenzin Namdrol, tua mensagem me conduziu a algumas reflex\u00f5es apoiadas em D.T.Suzuki e Fritjof Capra.N\u00e3o sei se servem para algo, mas a\u00ed v\u00e3o. Se n\u00e3o servirem simplesmente esque\u00e7a-as &#8230;<br \/>\n\u201c<em>A contradi\u00e7\u00e3o que se mostra t\u00e3o enigm\u00e1tica em face do pensamento usual prov\u00e9m do fato de termos de utilizar a linguagem para comunicar nossas experi\u00eancias mais \u00edntimas, as quais, em sua pr\u00f3pria natureza, transcendem a ling\u00fc\u00edstica<\/em>\u201d.<\/p>\n<div style=\"text-align: right;\">D.T.Suzuki<\/div>\n<p>Temos consci\u00eancia do fato de que todas as descri\u00e7\u00f5es verbais da realidade s\u00e3o imprecisas e incompletas. A experi\u00eancia direta da realidade transcende o reino do pensamento e da linguagem e, uma vez que o \u201cver\u201d espiritual se baseia nessa experi\u00eancia direta, tudo aquilo que se diz acerca dessa experi\u00eancia s\u00f3 \u00e9 verdadeiro em parte.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 a experi\u00eancia da realidade e n\u00e3o a descri\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia, mas quando se deseja comunicar a experi\u00eancia, depara-se com as limita\u00e7\u00f5es da linguagem. V\u00e1rios meios diferentes foram desenvolvidos para tratar desse problema.<\/p>\n<p>O misticismo indiano e tibetano revestem suas afirmativas sob a forma de mitos, atrav\u00e9s do uso de met\u00e1foras e s\u00edmbolos, de imagens po\u00e9ticas, de compara\u00e7\u00f5es e alegorias. A linguagem m\u00edtica acha-se muito menos acorrentada \u00e0 l\u00f3gica e ao senso comum; ao contr\u00e1rio, apresenta-se repleta de situa\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas e paradoxais, ricas em imagens sugestivas e jamais precisas, o que lhe permite expressar a maneira pela qual os mestres experimentam a realidade de forma muito melhor que a linguagem factual. O mito incorpora a abordagem mais pr\u00f3xima da verdade absoluta capaz de ser expressa em palavras.<\/p>\n<p>A rica imagina\u00e7\u00e3o indiana e tibetana criaram um vasto n\u00famero de deuses e deusas cujas encarna\u00e7\u00f5es e proezas constituem o tema de lendas fant\u00e1sticas, reunidas em \u00e9picos de grandes dimens\u00f5es. Os praticantes sabem, em sua profunda percep\u00e7\u00e3o, que todos esses deuses s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es da mente, imagens m\u00edticas que representam as in\u00fameras facetas da realidade. Por outro lado, sabem igualmente que todos esses deuses n\u00e3o foram simplesmente criados com o fito de tornar mais atraentes essas hist\u00f3rias, pois elas constituem, em verdade, ve\u00edculos essenciais para a transmiss\u00e3o das experi\u00eancias mesmas.<\/p>\n<p>Os chineses e japoneses encontraram uma forma diversa de lidar com o problema da linguagem. Em vez de tornarem mais agrad\u00e1veis e de mais f\u00e1cil entendimento a natureza paradoxal da realidade pelo uso de s\u00edmbolos e de imagens do mito, preferem, com muita freq\u00fc\u00eancia, acentu\u00e1-la, lan\u00e7ando m\u00e3o da linguagem factual. Assim, os taoistas fizeram uso constante dos paradoxos a fim de expor as inconsist\u00eancias que derivam da comunica\u00e7\u00e3o verbal, e de exibir os limites dessa comunica\u00e7\u00e3o. Essa t\u00e9cnica foi passada para os budistas chineses e japoneses que, por sua vez, desenvolveram-na ainda mais. Sua forma extrema pode ser encontrada no Zen com seus koans, enigmas absurdos utilizados pelos mestres Zen na transmiss\u00e3o de seus ensinamentos.<\/p>\n<p>Os mestres Zen possuem um talento especial para lidar com as inconsist\u00eancias geradas pela comunica\u00e7\u00e3o verbal; e, com o sistema koan, desenvolveram uma modalidade \u00fanica, inteiramente n\u00e3o-verbal, de transmiss\u00e3o de seus ensinamentos. Os koans s\u00e3o enigmas paradoxais, cuidadosamente preparados com o fito de fazer com que o praticante do Zen se aperceba, de modo mais dram\u00e1tico, das limita\u00e7\u00f5es da l\u00f3gica e do racioc\u00ednio l\u00f3gico, O palavreado irracional e o conte\u00fado paradoxal desses enigmas torna imposs\u00edvel sua resolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do pensamento l\u00f3gico. Os koans s\u00e3o elaborados precisamente para parar o processo do pensamento conceitual e, dessa forma, preparar o praticante para a experi\u00eancia n\u00e3o-verbal da realidade.<\/p>\n<p>\u201cApontar diretamente\u201d constitui o sabor especial do Zen. \u00c9 na verdade t\u00edpico da mente chinesa e japonesa, que prefere anunciar fatos como fatos, sem muitos coment\u00e1rios e que \u00e9 mais intuitiva do que intelectual. Os mestres Zen n\u00e3o eram dados \u00e0 verbosidade e desprezavam toda a teoriza\u00e7\u00e3o e especula\u00e7\u00e3o. Desenvolveram, assim, m\u00e9todos de apontar diretamente para a verdade, com a\u00e7\u00f5es ou palavras repentinas e espont\u00e2neas que exp\u00f5em os paradoxos do pensamento conceitual e, \u00e0 semelhan\u00e7a dos koans anteriormente referidos, t\u00eam por objetivo deter o processo de pensamento de modo a preparar o disc\u00edpulo para a experi\u00eancia m\u00edstica. Essa t\u00e9cnica acha-se bem ilustrada em exemplos, que representam di\u00e1logos entre mestre e disc\u00edpulo. Nestas conversa\u00e7\u00f5es, que constituem quase toda a literatura Zen, os mestres falam o menos poss\u00edvel e utilizam suas palavras com a finalidade de deslocar a aten\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos dos pensamentos abstratos para a realidade concreta.<\/p>\n<p>Esses di\u00e1logos trazem \u00e0 luz outro aspecto caracter\u00edstico do Zen. A ilumina\u00e7\u00e3o, no Zen, n\u00e3o significa retirar-se do mundo, mas sim tomar parte ativa nas quest\u00f5es cotidianas. Esse ponto de vista deve muito \u00e0 mentalidade chinesa, que conferia grande import\u00e2ncia a uma vida pr\u00e1tica e produtiva e \u00e0 id\u00e9ia de perpetua\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, n\u00e3o podendo dessa forma aceitar o car\u00e1ter mon\u00e1stico do Budismo indiano. Os mestres chineses sempre destacaram o fato de que o Ch&#8217;an, e depois o Zen, \u00e9 nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia cotidiana, a \u201cmente cotidiana\u201d de que falava Matsu. A \u00eanfase estava no despertar em meio \u00e0s quest\u00f5es de todos os dias. Dessa forma, os mestres Zen deixavam bem claro que, a seu ver, a vida di\u00e1ria n\u00e3o era apenas um caminho para a ilumina\u00e7\u00e3o, mas a pr\u00f3pria ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Zen, o satori equivale \u00e0 experi\u00eancia imediata da natureza de Buda de todas as coisas. Acima de tudo, entre essas coisas est\u00e3o os objetos, os fatos e os indiv\u00edduos envolvidos na vida cotidiana de modo que, embora enfatize o lado pr\u00e1tico da vida, o Zen \u00e9, contudo, profundamente m\u00edstico. Vivendo inteiramente no presente e concedendo aten\u00e7\u00e3o integral \u00e0s coisas do cotidiano, aquele que alcan\u00e7ou o satori experimenta a maravilha e o mist\u00e9rio da vida em todos os atos. A perfei\u00e7\u00e3o do Zen reside precisamente em viver-se a vida di\u00e1ria com naturalidade e espontaneidade. \u201cQuando tiver fome, coma; quando tiver sono, durma\u201d.<\/p>\n<p>De todas as formas uma das grandes preocupa\u00e7\u00f5es dos mestres Zen sempre foi a de que as palavras, os koans e todas as formas de comunica\u00e7\u00f5es das experi\u00eancias s\u00e3o meros dedos apontando. O praticante deve estar permanentemente alertado deste fato para que n\u00e3o se apegue ao dedo e possa viver sua pr\u00f3pria experi\u00eancia. Da mesma forma em todas as outras formas de comunica\u00e7\u00e3o, sejam deidades, mandalas, mantras, o praticante deve estar alerta de que s\u00e3o todas meras cria\u00e7\u00f5es mentais e que devem apenas servir como meios, sendo abandonadas sempre que seja poss\u00edvel vivenciar-se as experi\u00eancias diretamente.<\/p>\n<p>Carinhosamente,<br \/>\nRonaldo.<\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse texto \u00e9 uma resposta de Ronaldo Pinheiro, pesquisador incans\u00e1vel da natureza com v\u00e1rios trabalhos publicados, praticante e um respeit\u00e1vel conhecedor do budismo, \u00e0 nossa querida monja Tenzin Namdrol. 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