{"id":1107,"date":"2015-01-07T08:58:07","date_gmt":"2015-01-07T10:58:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?page_id=1107"},"modified":"2020-06-11T09:51:45","modified_gmt":"2020-06-11T11:51:45","slug":"o-ciclo-do-dia-e-da-noite","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-ciclo-do-dia-e-da-noite\/","title":{"rendered":"O ciclo do dia e da noite"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite-300x188.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5939\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite-300x188.jpeg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite-768x480.jpeg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite-480x300.jpeg 480w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/O-ciclo-do-dia-e-da-noite.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ch\u00f6gyal Namkha\u00ef Norbu Rinpoche<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Onde progredimos na Via do Yoga Primordial<\/strong><\/p>\n<p>Texto essencial sobre a pr\u00e1tica do Dzogchen ordenado, traduzido e apresentado por John Reynolds para a edi\u00e7\u00e3o americana.<br \/>\nTexto principal: LE CYCLE DU JOUR ET DE LA NUIT \u2013 Traduzido do tibetano por Patrick Carr\u00e9.<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios traduzidos do ingl\u00eas por Madaleine Carr\u00e9.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>ESTA TRADU\u00c7\u00c3O \u00c9 PARA SER UTILIZADA POR UM C\u00cdRCULO RESTRITO DE PESSOAS, PEDIMOS N\u00c3O DIVULGAR<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PREF\u00c1CIO<\/strong><\/p>\n<p>Esse texto, intitulado em tibetano gDod-ma\u2019i mal-\u2018byor-gyi Lamkhyer nyin-mtshan \u2018khor-lo-ma, foi escrito por Namkha\u00ef Norbu Rinpoche antes do retiro que ele dirigiu na Comunidade Dzogchen de Conway em Massachusetts, em outubro de 1993.<br \/>\nNa se\u00e7\u00e3o Longde dos ensinamentos dzogchen encontram-se as instru\u00e7\u00f5es de Garab Dorje sobre a pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o seguida dia e noite, e o texto que apresentamos aqui \u00e9 um resumo dessas pr\u00e1ticas.<br \/>\nA tradi\u00e7\u00e3o budista tibetana considera Garab Dorje como o primeiro mestre humano do sistema de pr\u00e1ticas contemplativas dzogchen. \u00c9 freq\u00fcente traduzir a express\u00e3o tibetana dzogchen por \u201cGrande Perfei\u00e7\u00e3o\u201d, a qual constitui no Tibete a quintess\u00eancia dos ensinamentos budistas. Garab Dorje nasceu no pa\u00eds de Uddiy\u00e2na, ao noroeste da \u00cdndia, e teria recebido diretamente de Vajrasattva o aspecto sambhogakaya da budeidade, a transmiss\u00e3o do dzogchen. Vajrasattva recebeu a transmiss\u00e3o direta, de mente a mente, do Budha primordial Samantabhadra. Garab Dorje transmitiu o dzogchen \u00e0 Manjushrimitra, que o transmitiu \u00e0 Budhajnana, depois \u00e0 Shri Simha. No VIII\u00ba s\u00e9culo de nossa era, guru Padmasambhava, Vimalamitra e o tradutor Bairotsana trouxeram a tradi\u00e7\u00e3o dzogchen ao Tibete.<br \/>\nAp\u00f3s a \u00e9poca desses grandes mestres, os ensinamentos do dzogchen foram perpetuados de mestre a disc\u00edpulo no fio de uma transmiss\u00e3o ininterrupta. O sistema da escola nyingmapa do Tibete considera o dzogchen, tamb\u00e9m chamado ati-yoga, como o nono ve\u00edculo, o mais elevado dos nove em que escalona os ensinamentos do Budha. Todavia, o dzogchen apareceu no Tibet bem antes do aparecimento das diferentes escolas do budismo tibetano.<br \/>\nNumerosos mestres eminentes pertencentes \u00e0s quatro grandes escolas do budismo tibetano, como o quinto Dalai Lama, o terceiro Karmapa, o Droukpa Pema Karpo e outras ilustres personalidades, praticaram abertamente esses ensinamentos. Outros ainda o praticaram em segredo. Por conseguinte, n\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida que o dzogchen n\u00e3o \u00e9 propriedade exclusiva de nenhuma escola e, na verdade, seus ensinamentos se situam bem al\u00e9m de qualquer limite de escola, de cultura e de nacionalidade.<br \/>\nO dzogchen consiste, para o indiv\u00edduo, em compreender seu estado primordial, a natureza incondicional de sua mente no imediatismo de sua experi\u00eancia. A ess\u00eancia da mente transcende seus conte\u00fados espec\u00edficos, os pensamentos que a\u00ed surgem refletem os condicionamentos psicol\u00f3gicos, sociais e culturais. Podemos estabelecer uma diferen\u00e7a an\u00e1loga entre o espelho, que tem naturalmente o poder de refletir as imagens, e os reflexos que aparecem. N\u00e3o se deve confundir o espelho com seus reflexos. Desprovida de qualquer limita\u00e7\u00e3o, a apresenta\u00e7\u00e3o do dzogchen que encontraremos nessa obra obedece \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o rim\u00e9, ou \u201cn\u00e3o-sect\u00e1ria\u201d, de grandes mestres quase contempor\u00e2neos do Tibete Oriental como Jamyang Khyents\u00e9 Nangpo, Jamg\u00f6n Kontrul, Tchokgyour Lingpa e Adzom Drougpa.<br \/>\nOs n\u00fameros que acompanham a tradu\u00e7\u00e3o remetem \u00e0s diferentes estrofes do texto tibetano. O coment\u00e1rio, em seguida \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o, respeita a mesma ordem. Essas s\u00e3o notas inspiradas pela explica\u00e7\u00e3o oral do texto que Namkha\u00ef Norbu deu na ocasi\u00e3o do retiro de Conway, em 8 e 9 de outubro de 1983. Nesta \u00e9poca, Namkha\u00ef Norbu se expressava em italiano e era traduzido para o ingl\u00eas por Kennard Lipman e John Shane.<br \/>\nO tradutor gostaria de agradecer a Mm. Kennard Lipman e John Shane por sua ajuda inestim\u00e1vel na elabora\u00e7\u00e3o do texto em ingl\u00eas. Ele deseja igualmente agradecer aos membros da comunidade dzogchen de Conway, que participaram de uma maneira ou de outra e, sobretudo a este projeto.<br \/>\nPossa esta tradu\u00e7\u00e3o ser de algum benef\u00edcio pr\u00e1tico a todos aqueles que a lerem.<\/p>\n<p>Sarvamangalam!<\/p>\n<p>John Myrdhin Reynolds<br \/>\nConway, Massachusetts,<br \/>\nNovembro 1983<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>O texto de Namkha\u00ef Norbu Rinpoche cuja tradu\u00e7\u00e3o aqui se encontra e que se intitula \u201cO Ciclo do Dia e da Noite\u201d, onde progredimos na Via do yoga primordial, n\u00e3o \u00e9 uma apresenta\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria do dzogchen, nem um estudo erudito sobre a literatura dzogchen que nos \u00e9 apresentada em tibetano. Trata-se, sobretudo de um upadesha , quer dizer, de um ensinamento sobre alguns pontos essenciais da pr\u00e1tica dzogchen. Encontraremos aqui uma explica\u00e7\u00e3o precisa e detalhada, embora concisa, da pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, durante o dia e a noite.<br \/>\nTradicionalmente, os upadesha s\u00e3o instru\u00e7\u00f5es orais secretas que o mestre d\u00e1 em particular a seus disc\u00edpulos j\u00e1 engajados na via da realiza\u00e7\u00e3o. Como estes upadesha emanam da experi\u00eancia pessoal de mestres realizados, tendo eles pr\u00f3prios atingido um grau de realiza\u00e7\u00e3o definitivo em sua pr\u00e1tica, levam sobre alguns pontos, ao mesmo tempo te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos, concernentes diretamente \u00e0 pr\u00e1tica a experi\u00eancia do yogui.<br \/>\nNamkha\u00ef Norbu Rinpoche \u00e9 um desses mestres realizados. Nascido em uma nobre fam\u00edlia do Dergue, no Tibete oriental, recebeu educa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica a mais refinada que se encontrava \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o \u2013 a da escola sakyapa do budismo tibetano. A isso se junta o fato de ter sido reconhecido muito cedo como a reencarna\u00e7\u00e3o de um lama, ou tulku, precisamente a reencarna\u00e7\u00e3o de Adzom Drugpa (1842-1924), um dos mestres e gurus do dzogchen dos mais c\u00e9lebres da virada do nosso s\u00e9culo. Em seguida, o sexto Gyalwa Karmapa e Tai Situ Rinpoche de Palpoung reconheceram nele a reencarna\u00e7\u00e3o do ilustre Droukpa Pema Karpo (1527-1592), grande erudito e chefe da escola Droukpa Kagiu do budismo tibetano . Mas a ess\u00eancia do dzogchen n\u00e3o se encontra na erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, e ela n\u00e3o tem necessidade do cr\u00e9dito da hierarquia eclesi\u00e1stica. O dzogchen se situa al\u00e9m dessas barreiras intelectuais e culturais. N\u00e3o foi sen\u00e3o no encontro com seu mestre-raiz que Namkha\u00ef Norbu Rinpoche veio a compreender o sentido do dzogchen atrav\u00e9s da experi\u00eancia pessoal direta e a realiza\u00e7\u00e3o. O mestre em quest\u00e3o foi Nyala Chang-Chub Dorje (1826-1978), lama nyingmapa e m\u00e9dico, mestre espiritual e guia de uma comunidade de praticantes laicos, em um vale recolhido a leste de Dergue. Desse mestre, Namkha\u00ef Norbu Rinpoche recebeu as transmiss\u00f5es mais importantes das tr\u00eas s\u00e9ries de ensinamentos dzogchen: o semde, o longde e o mengagde . Para mais detalhes sobre a vida de Namkha\u00ef Norbu Rinpoche, nos reportaremos a sua biografia sucinta no fim do volume.<br \/>\nEste texto lhe foi inspirado por suas experi\u00eancias pessoais e por sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do dzogchen. Mas acharemos tamb\u00e9m aqui uma fus\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o e da experi\u00eancia pessoal do mestre. Na s\u00e9rie do longde (Klong-sde) dos ensinamentos dzogchen, encontramos as instru\u00e7\u00f5es sobre a maneira de aplicar-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o de maneira cont\u00ednua, tanto ao dia como \u00e0 noite, e mais particularmente, no texto de Garab Dorje intitulado Byang-chub-sems bcos-thabs mdor-bsdus . Garab Dorje, na tradi\u00e7\u00e3o budista tibetana, \u00e9 o primeiro mestre humano de dzogchen, e o texto de Namkha\u00ef Norbu Rinpoche \u00e9 por assim dizer um resumo dos ensinamentos. Ora, o dzogchen n\u00e3o \u00e9 muito bem conhecido no ocidente no momento atual e, ainda que o tenhamos por um elemento do budismo tibetano, me parece necess\u00e1rio trazer alguns esclarecimentos sobre o lugar que o dzogchen tem efetivamente no budismo tibetano e sobre suas origens.<br \/>\nNo Tibete, vemos tradicionalmente no dzogchen o mais elevado e quintess\u00eancial dos ensinamentos de Budha; e \u00e9 corrente de lhe fazer o apan\u00e1gio da escola nyingmapa, a mais antiga do budismo tibetano, sabendo pertinentemente que o dzogchen transcende todos os sectarismos. E ainda, a chegada do dzogchen no Tibete foi precedida por longa data de eclos\u00e3o das diferentes escolas religiosas no meio do budismo tibetano. Essas escolas n\u00e3o se tornaram existentes sen\u00e3o a partir da nova vaga de tradu\u00e7\u00f5es do s\u00e2nscrito em tibetano, no s\u00e9culo XI de nossa era. O mais freq\u00fcente, \u00e9 ligarmos o dzogchen \u00e0 escola nyingmapa, que \u00e9 a deposit\u00e1ria das tradi\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias do per\u00edodo das primeiras tradu\u00e7\u00f5es (s\u00e9culos VII-IX), certamente, mas o dzogchen n\u00e3o \u00e9 uma seita nem uma escola filos\u00f3fica. \u00c9, sobretudo uma via que nos conduz \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de nosso estado primordial, o qual transcende a exist\u00eancia condicionada e, enquanto tal, n\u00e3o se limitaria a nenhum contexto cultural hist\u00f3rico ou particular.<br \/>\nA palavra tibetana dzogchen corresponde no s\u00e2nscrito a mahasandhi, que traduzimos habitualmente por \u201cGrande Perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Este ensinamento leva o nome de grande perfei\u00e7\u00e3o porque ele \u00e9 completo e perfeito em si mesmo e que nada lhe falta, e ele \u00e9 grande no sentido de que nada existe maior que ele ou que o ultrapasse. Fundamentalmente, o nome dzogchen n\u00e3o \u00e9 o nome de um ensinamento entre tantos outros, mas o nome do estado primordial do indiv\u00edduo, nossa pr\u00f3pria natureza de budha, a natureza de nossa mente. Nos tantras do dzogchen, especialmente os da s\u00e9rie semde, este estado primordial se chama bodhichitta, mas nesse contexto o termo toma um sentido diferente do que no sistema, melhor conhecido, dos sutras do budismo mahayana. Nos sutras do mahayana, bodhichitta, o \u201cpensamento desperto\u201d (a mente desperta), \u00e9 a firme resolu\u00e7\u00e3o que toma o bodhisattva de atingir a ilumina\u00e7\u00e3o suprema de um Bhuda com o objetivo de servir a todos os seres animados e de os liberar do samsara, o ciclo sem come\u00e7o de mortes e renascimentos. Nos tantras do dzogchen, bodhichitta tem um sentido mais particular.<br \/>\nO s\u00e2nscrito bodhichitta, traduzido em tibetano por byang-chubsems, se interpreta no dzogchen como byang \u201cpuro\u201d desde o come\u00e7o; chub \u201cperfeito\u201d, quer dizer, espontaneamente realizado em si; e sems, \u201cmente\u201d, para designar a energia da compaix\u00e3o que nada segura. A pureza primordial (Ka-dag) e a perfei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea (lhun-grub) s\u00e3o os dois aspectos do estado primordial de cada indiv\u00edduo; na natureza da mente, elas est\u00e3o inseparavelmente unidas (dbyer-med). O quadro abaixo mostra os diferentes aspectos do estado primordial e suas implica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">1. <strong>Ess\u00eancia<\/strong><br \/>\nngo-bo<br \/>\n<strong>Vacuidade<\/strong><br \/>\nstong-nyid<br \/>\n<strong>primordialmente pura<\/strong><br \/>\nka-dag<br \/>\n<strong>Dharmakaya<\/strong><br \/>\nchos sku<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">2. <strong>Natureza<\/strong><br \/>\nrang-bzhin<br \/>\n<strong> Claridade<\/strong><br \/>\ngsal-ba<br \/>\n<strong>espontaneamente perfeita<\/strong><br \/>\nlhun-grub<br \/>\n<strong>Sambhogakaya<\/strong><br \/>\nlong-sku<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">3. <strong>Energia<\/strong><br \/>\nthugs-rje<br \/>\n<strong>Indefectibilidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">ma-\u2018gag-pa<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Inseparavelmente unidos<\/strong><br \/>\ndbyer-med<br \/>\n<strong>Nirmanakaya<\/strong><br \/>\nsprul-sku<\/p>\n<p>O estado primordial \u00e9 n\u00e3o-dual, mas para falar tamb\u00e9m de suas manifesta\u00e7\u00f5es distinguimos tr\u00eas aspectos. <strong>A ess\u00eancia da mente<\/strong>, que \u00e9 primordialmente pura, \u00e9 <strong>vacuidade<\/strong>, esse \u00e9 o <strong>dharmakaya<\/strong>. Sua <strong>natureza<\/strong> \u00e9 <strong>claridade luminosa<\/strong>, que \u00e9 por si mesma espontaneamente perfeita, eis o <strong>sambhogakaya<\/strong>. Sua <strong>energia<\/strong> que nada obstrui \u00e9 <strong>onipenetrante<\/strong>, esse \u00e9 o <strong>nirmanakaya<\/strong>. O estado primordial \u00e9 a natureza da mente e se manifesta como sua ess\u00eancia, sua natureza e sua energia.<br \/>\nToda via espiritual pode se analisar em termos de Base, Via e Fruto. No caso do hetuyana, ou ve\u00edculo causal, o qual corresponde ao sistema dos sutras do mahayana, o fundamento ou base \u00e9 nossa natureza de Budha inata, a via \u00e9 a pr\u00e1tica das seis perfei\u00e7\u00f5es \u2013 generosidade, disciplina, paci\u00eancia, coragem, medita\u00e7\u00e3o e conhecimento \u2013 que o bodisatva cultivar\u00e1 durante tr\u00eas kalpas imensur\u00e1veis, e o fruto ser\u00e1 a obten\u00e7\u00e3o do trikaya, dito de outro modo, as tr\u00eas dimens\u00f5es de um Budha .<br \/>\nFalamos aqui de ve\u00edculo causal porque existe uma causa, nossa natureza inata de Budha. Entretanto, esta natureza de Budha s\u00f3 existe potencialmente, como a semente de uma \u00e1rvore na terra. \u00c9 preciso reunir um grande n\u00famero de condi\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias \u2013 esta\u00e7\u00e3o, chuva, etc. \u2013 para que a semente comece a germinar, amadure\u00e7a e chegue ao fruto. Igualmente, a acumula\u00e7\u00e3o de m\u00e9ritos e a acumula\u00e7\u00e3o de sabedoria s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias da realiza\u00e7\u00e3o de nossa natureza de Budha inata enquanto que manifesta\u00e7\u00e3o do trikaya. No dzogchen, entretanto, a via \u00e9 bem diferente. O trikaya j\u00e1 est\u00e1 desde sempre, totalmente manifesto como a natureza mesma da mente, embora esteja irreconhec\u00edvel, encontra-se sempre no alto do c\u00e9u, permanentemente, quando as nuvens se dissipam, ele se torna claramente vis\u00edvel. \u00c9 a mesma coisa para a budeidade: ela sempre esteve presente, e n\u00f3s n\u00e3o a reconhecemos. Mesmo n\u00e3o reconhecido, o trikaya j\u00e1 est\u00e1, desde o in\u00edcio, inteiramente manifesto como ess\u00eancia, natureza e energia da mente. Diremos em conseq\u00fc\u00eancia que, no dzogchen, o fundamento \u00e9 o trikaya, a via \u00e9 o trikaya, e o fruto \u00e9 o trikaya. O dzogchen \u00e9, pois o phalayana, ou ve\u00edculo resultante \u2013 \u00e9 o mesmo que dizer que o efeito j\u00e1 est\u00e1 presente na causa.<br \/>\nNo dzogchen, estabelecemos uma distin\u00e7\u00e3o clara, l\u00edmpida e essencial entre a natureza da mente e a mente, a saber, os processos de nossos pensamentos, o fluxo incessante dos conceitos discursivos nos ocupa constantemente. Se quisermos compreender bem o dzogchen, \u00e9 preciso apreender claramente a diferen\u00e7a. Para nos ajudar a compreender, a tradi\u00e7\u00e3o tem recorrido a uma met\u00e1fora. Se a natureza da mente \u00e9 compar\u00e1vel a um espelho polido com o mais alto acabamento, os pensamentos, as emo\u00e7\u00f5es, as compuls\u00f5es, as impress\u00f5es e as sensa\u00e7\u00f5es individuais n\u00e3o s\u00e3o mais que reflexos que aparecem no espelho. O que a palavra tibetana rig-pa \u2013 que pode se traduzir por \u201cconsci\u00eancia enquanto tal\u2019, ou ainda \u201cpresen\u00e7a pura\u201d \u2013 \u00e9 compar\u00e1vel ao poder inerente do espelho de refletir a imagem de tudo que \u00e9 colocado diante dele, as coisas belas ou feias indiferentemente. O contr\u00e1rio de rig-pa, \u201cconsci\u00eancia e presen\u00e7a\u201d, \u00e9 ma-rig-pa, \u201cignor\u00e2ncia\u201d, ou baixa de consci\u00eancia. Quando estamos presentes e conscientes, temos o mesmo poder, por assim dizer, que o espelho; quando na ignor\u00e2ncia, nos submetemos ao poder dos reflexos e pensamos que tudo o que aparece \u00e9 substancial e verdadeiro. Com a consci\u00eancia enquanto tal, existimos na condi\u00e7\u00e3o desperta; com ignor\u00e2ncia, nos encontramos presos na roda da transmigra\u00e7\u00e3o. O estado primordial n\u00e3o designa nada al\u00e9m da natureza da mente, tal como \u00e9, a qual transcende o tempo e a exist\u00eancia condicionada. A budeidade j\u00e1 est\u00e1 completamente realizada e manifesta desde o in\u00edcio, enquanto natureza da mente, embora at\u00e9 o momento presente n\u00e3o a tenhamos reconhecido.<br \/>\nO guru, o mestre, tem por fun\u00e7\u00e3o nos mostrar a natureza da mente, nos conduzindo a descobrir o que ela capta, em sua plena capacidade, desperta e de pura presen\u00e7a (rig-pa). A \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d (samadhi) designa a entrada neste estado de pura presen\u00e7a. \u00c9 preciso fazer a distin\u00e7\u00e3o entre a contempla\u00e7\u00e3o e a medita\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a enquanto tal transcende a exist\u00eancia condicionada e se encontra, pois fora dela e fora do tempo: ela transcende a mente, enquanto que a medita\u00e7\u00e3o implica o funcionamento da mente. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9, por isso, condicionada e se desenvolve no tempo. Para nos mostrar nossa natureza, o mestre come\u00e7a por nos indicar em nossa experi\u00eancia imediata o que \u00e9 \u201cmente\u201d e o que \u00e9 \u201cnatureza da mente\u201d. Existem numerosos m\u00e9todos para nos ajudar a reconhecer esta distin\u00e7\u00e3o de maneira concreta: \u00e9 isso que chamamos khorde roushen \u2013 fazer a diferen\u00e7a entre samsara e nirvana. Aqui, samsara significa \u201cmente\u201d e nirvana, \u201cnatureza da mente\u201d. Os roushen constituem de fato os ng\u00f6ndro, as pr\u00e1ticas preliminares do dzogchen. O que os disc\u00edpulos ocidentais entendem habitualmente por ng\u00f6ndro n\u00e3o \u00e9 da al\u00e7ada do dzogchen: trata-se de preliminares das pr\u00e1ticas t\u00e2ntricas, a via da transforma\u00e7\u00e3o . Entretanto, todas as pr\u00e1ticas dos sutras e dos tantras podem ser utilizadas vantajosamente pelo dzogchen. Mas a pr\u00e1tica que permanece absolutamente essencial \u00e9 o guru yoga, porque o dzogchen, como os outros ensinamentos espirituais, dependem da transmiss\u00e3o, e o guru yoga \u00e9 o melhor meio de preservar todas as transmiss\u00f5es que recebemos.<br \/>\nAs fontes mais antigas da tradi\u00e7\u00e3o dzogchen s\u00e3o os textos chamados \u201ctantras do dzogchen\u201d. Originalmente, esses textos foram estabelecidos e escritos na l\u00edngua do pa\u00eds de Uddiy\u00e2na, que se aproxima do s\u00e2nscrito. Em tempos antigos, Uddiy\u00e2na designava um reino do noroeste da \u00cdndia . Repartimos, geralmente, os ensinamentos de Budha em dois conjuntos de discursos: os sutras e os tantras. Esses ensinamentos todos s\u00e3o tidos pelos lamas tibetanos por buddhavacana, palavras aut\u00eanticas de Budha. O Budha ensina diferentes doutrina e pr\u00e1ticas n\u00e3o porque ele n\u00e3o conhe\u00e7a a verdade, mas porque as capacidades de compreens\u00e3o de seus ouvintes eram muito diferentes. Por isso sua grande compaix\u00e3o e sua habilidade com os m\u00e9todos encontraram uma express\u00e3o com uma t\u00e3o grande riqueza: ele instruiu cada um dos seus disc\u00edpulos, se adaptando a suas faculdades, para que eles compreendessem os ensinamentos e os pudessem praticar. Esses ensinamentos foram classificados em tr\u00eas ve\u00edculos que conduzem ao despertar, a saber, o hinayana, o mahayana e o vajrayana.<br \/>\nA escola nyingmapa do Tibete classificou os ensinamentos de Budha de maneira muito precisa em nove ve\u00edculos progressivos. O primeiro ve\u00edculo \u00e9 o dos shr\u00e2vakas, dos \u201cauditores\u201d, ou adeptos do hinayana. \u00c9 a via que o Budha revela essencialmente em seu primeiro discurso, no parque das gazelas em Sarnath, pr\u00f3ximo de Benares: o que chamamos a \u201cprimeira volta do Dharma\u201d (dos ensinamentos). Em seu primeiro discurso, o Budha exp\u00f5e As Quatro Nobre Verdades e o caminho \u00f3ctuplo. Esses ensinamentos s\u00e3o objetos de explica\u00e7\u00f5es minuciosas pr\u00f3prias aos sutras do hinayana. O segundo ve\u00edculo \u00e9 o dos pratyekabudha, ou \u201cbudhas para si\u201d, aqueles que atingem a realiza\u00e7\u00e3o na solid\u00e3o. Os shr\u00e2vacas s\u00e3o os \u201cauditores\u201d porque eles t\u00eam necessidade de entender as instru\u00e7\u00f5es orais de Budha para encontrar a via correta, ent\u00e3o os pratyekabudha encontram o caminho para si mesmos e vivem uma vida solit\u00e1ria de pr\u00e1ticas meditativas em um lugar selvagem, evitando qualquer comunica\u00e7\u00e3o e contato com outros homens. Eis porque s\u00e3o comparados aos rinocerontes, animais cujos h\u00e1bitos n\u00e3o sociais s\u00e3o bem conhecidos. Esses dois ve\u00edculos formam em conjunto o hinayana ou pequeno ve\u00edculo do despertar, assim chamado porque tem por objetivo uma salva\u00e7\u00e3o pessoal \u00fanica, desprezando a salva\u00e7\u00e3o de todos os outros. O m\u00e9todo principal aqui \u00e9 a via da ren\u00fancia. O pequeno ve\u00edculo tem como ponto de partida o desgosto pelo mundo, por caminho o tr\u00edplice exerc\u00edcio da disciplina, da concentra\u00e7\u00e3o e do conhecimento, e por objetivo a libera\u00e7\u00e3o pessoal do samsara, ao n\u00edvel do arhat (nesse caso dos shr\u00e2vaka) ou pratyekabudha.<br \/>\nO terceiro ve\u00edculo \u00e9 o do bodhisatva. O bodhisatva \u00e9 um ser a caminho de se tornar um budha totalmente desperto e o bodhisatva ultrapassa o objetivo menor do arhat. Tornamo-nos bodhisatvas gerando bodhichitta, a \u201cmente do despertar\u201d, a determina\u00e7\u00e3o de atingir o despertar do Budha supremamente perfeito, n\u00e3o para seu \u00fanico bem, mas por compaix\u00e3o a todos os seres que merecem ser salvos e liberados do samsara.<br \/>\nEste caminho leva o nome de mahayana, \u201cgrande ve\u00edculo\u201d, porque seu objetivo \u00e9 proporcionalmente maior do que o do \u201cpequeno ve\u00edculo\u201d \u2013 libera\u00e7\u00e3o universal, libera\u00e7\u00e3o do samsara para todos os seres e n\u00e3o para si. Encontramos esses ensinamentos nos sutras do mahayana, cujos discursos foram pronunciados por Budha no pico dos Abutres de Rajgir e em outros lugares. Esses discursos constituem seus segundo e terceiros giros da roda (ciclo de ensinamentos), no curso dos quais ele exp\u00f5e, de um lado, o conhecimento transcendente (Prajnaparamita) e, de outro lado, os ensinamentos sobre a \u2018mente \u00fanica\u2019 (cittamatra). Dessas duas s\u00e9ries de discursos posteriormente nasceram duas escolas filos\u00f3ficas: o madhyamaka, que ensina o caminho do meio livre de toda via extrema, e o yogachara, que professa essencialmente a doutrina da \u201cmente \u00fanica\u201d. Para o mahayana, o fundamento ou base \u00e9 nossa Natureza Budha inata, a Via \u00e9 a pr\u00e1tica das seis perfei\u00e7\u00f5es que permitem acumular m\u00e9ritos e sabedoria, e o Fruto \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da budeidade. O m\u00e9todo principal \u00e9 aqui a Via de purifica\u00e7\u00e3o (sbyong-lam). Convencionalmente, os ensinamentos do hinayana e do mahayana formam o \u201csistema dos sutras\u201d, os quais foram revelados pelo Budha hist\u00f3rico, Shakyamuni, o aspecto nirmanakaya da budeidade. Os tantras exteriores, ou inferiores designam os tr\u00eas ve\u00edculos seguindo a ordem do nosso esquema de classifica\u00e7\u00e3o. Os m\u00e9todos descritos nesses tantras se comp\u00f5em de rituais elaborados e de purifica\u00e7\u00e3o. O m\u00e9todo principal \u00e9 aqui, ainda, como nos sutras mahayanas, a via da purifica\u00e7\u00e3o, e no yogatantra igualmente, onde a Via de transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz mais que apontar. O quarto ve\u00edculo \u00e9 pois o kriyatantra, ou a pr\u00e1tica, principalmente exterior, exige um n\u00famero consider\u00e1vel de atividades rituais. Da\u00ed seu nome kriya, que significa \u201ca\u00e7\u00e3o ritual\u201d. O quinto ve\u00edculo \u00e9 o caryatantra, em parte interior, em parte exterior no que concerne \u00e0 pr\u00e1tica. Encontramos numerosas regras de conduta, da\u00ed o nome carya, que significa \u201cconduta\u201d. A descri\u00e7\u00e3o que d\u00e3o os tantras da kriya e de carya do m\u00e9todo que permite atingir a budeidade \u00e9 similar \u00e0s explica\u00e7\u00f5es dos sutras mahayanas. O sexto ve\u00edculo \u00e9 o yogatantra, ou a pr\u00e1tica, essencialmente interior, consiste mais em visualiza\u00e7\u00e3o que em rituais para conhecer a experi\u00eancia de uni\u00e3o (yoga) do praticante e da deidade de medita\u00e7\u00e3o. Dizemos que os ensinamentos que pertencem aos tantras s\u00e3o revelados por Vajrasatva, dimens\u00e3o trans-hist\u00f3rica, sambhogakaya, da budeidade. Os ensinamentos dos tantras, tanto exteriores como interiores, receberam o nome de vajrayana, ou \u201cve\u00edculo adamantino\u201d do despertar. Por contraste com o sistema de sutras, falamos assim do \u201csistema dos tantras\u201d .<br \/>\nOs tantras interiores, ou superiores, compreendem os tr\u00eas ve\u00edculos superiores do mahayoga, do anuyoga e do atiyoga. O s\u00e9timo ve\u00edculo, o mahayoga, que comporta uma se\u00e7\u00e3o \u201ctantra\u201d e uma se\u00e7\u00e3o \u201csadhana\u201d, recorre \u00e0 visualiza\u00e7\u00e3o detalhada das deidades e dos mandalas, e usa essencialmente o processo de desenvolvimento, ou \u201cfase de cria\u00e7\u00e3o\u201d. Como se trata de um processo de transforma\u00e7\u00e3o gradual, a visualiza\u00e7\u00e3o da deidade ou do mandala se cria ou gera por fases sucessivas. O m\u00e9todo dos tantras superiores \u00e9 a via da transforma\u00e7\u00e3o propriamente dita. Ali\u00e1s, eis uma compara\u00e7\u00e3o tradicional que ilustra nosso prop\u00f3sito. O praticante hinayana percebe o caminho como se ele tivesse que caminhar sobre a planta venenosa das paix\u00f5es; ele a evita porque conhece os efeitos do veneno da planta. O praticante do mahayana que tomou o mesmo caminho e est\u00e1 diante da mesma planta n\u00e3o tem medo de toc\u00e1-la pelo fato que ele conhece o ant\u00eddoto. Ele sabe como se purificar de seu veneno dissolvendo-o na vacuidade durante sua medita\u00e7\u00e3o para torn\u00e1-lo inofensivo. Enfim, no mesmo caminho, o praticante do vajrayana, diante da mesma planta venenosa, n\u00e3o tem o menor medo e n\u00e3o hesita mesmo em comer o fruto, porque ele sabe transformar o veneno em pura ambrosia. Aqui, pois, o m\u00e9todo \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o alqu\u00edmica do veneno das paix\u00f5es, no vaso do nosso corpo, em elixir de sabedoria da presen\u00e7a desperta. Esse sistema culmina no mahayoga quando se realiza a experi\u00eancia da inseparabilidade das apar\u00eancias e do vazio. As escolas mais recentes do budismo tibetano \u2013 sakya, kagyu e guelupa \u2013, se apoiando nas novas tradu\u00e7\u00f5es dos textos t\u00e2ntricos indianos, se referem antes aos tantras do anuttara, e podemos dizer que esses \u00faltimos correspondem mais ou menos aos tantras que classificamos no mahayoga.<br \/>\nO oitavo ve\u00edculo, ou anuyoga, coloca o acento pr\u00e1tico sobre o processo de perfei\u00e7\u00e3o, ou \u201cfase de completude\u201d. Esse sistema utiliza de maneira aprofundada o yoga dos canais sutis e das energias; ele leva o praticante at\u00e9 a experi\u00eancia da inseparabilidade da felicidade e do vazio. Mas aqui, o m\u00e9todo de transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mesmo que no mahayoga, porque a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 necessariamente progressiva. Nos tantras superiores, o fundamento, ou base, \u00e9 o corpo humano com seus canais ps\u00edquicos e seus chakras, a via \u00e9 a pr\u00e1tica das fases de cria\u00e7\u00e3o e de perfei\u00e7\u00e3o, e o fruto \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da budeidade em tr\u00eas corpos.<br \/>\nO nono ve\u00edculo, o mais elevado, \u00e9 o atiyoga, ou dzogchen, o que significa, como vimos, \u201cgrande perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Ora, no dzogchen, as fases de cria\u00e7\u00e3o e de perfei\u00e7\u00e3o, ou dito de outro modo, as visualiza\u00e7\u00f5es elaboradas das deidades e dos mandalas, como no yoga interior esot\u00e9rico dos canais e energias, n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rias. O m\u00e9todo \u00faltimo do dzogchen n\u00e3o \u00e9 a ren\u00fancia, nem a purifica\u00e7\u00e3o, nem a transforma\u00e7\u00e3o, como nos sutras e nos tantras, mas a via da libera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea (auto-libera\u00e7\u00e3o). O essencial aqui \u00e9 atingir diretamente um estado de contempla\u00e7\u00e3o sem ter preliminarmente praticado nenhum exerc\u00edcio de transforma\u00e7\u00e3o. A realiza\u00e7\u00e3o que se segue \u00e9 a experi\u00eancia mesma da inseparabilidade do vazio e da presen\u00e7a desperta. Os tantras do dzogchen, ou atiyoga, apresentam tr\u00eas s\u00e9ries de ensinamentos. Inicialmente, a \u201cs\u00e9rie da mente\u201d (sems-de), cuja aproxima\u00e7\u00e3o mais intelectual oferece uma explica\u00e7\u00e3o progressiva da entrada num estado contemplativo, lembrando o sistema mahamudra dos anuttaratantra que ele divide em \u2018quatro yogas\u2019 ou graus. A \u201cs\u00e9rie do espa\u00e7o\u201d (klongs-de) \u00e9 mais direta: os graus a\u00ed n\u00e3o se sucedem mais como na s\u00e9rie precedente, mas s\u00e3o antes simult\u00e2neos. Enfim, na \u201cs\u00e9rie das instru\u00e7\u00f5es secretas\u201d (man-ngag-gi-sde), j\u00e1 somos capazes de entrar na contempla\u00e7\u00e3o, recebemos alguns conselhos precisos, e estudamos os m\u00e9todos que permitem prolongar o estado contemplativo.<br \/>\nOs ensinamentos dos tantras da Grande Perfei\u00e7\u00e3o foram todos revelados pelo Budha Primordial Samantabhadra, o aspecto dharmakaya da budeidade, o qual transcende todos os conceitos poss\u00edveis do intelecto limitado. Os tantras do dzogchen n\u00e3o emanam diretamente do Budha hist\u00f3rico Shakyamuni, que viveu e ensinou no norte da \u00edndia, h\u00e1 mais ou menos dois mil e quinhentos anos. Todavia, a budeidade, ou dito de outro modo, o princ\u00edpio do despertar, n\u00e3o se limitaria a um ponto espec\u00edfico do tempo e da hist\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 como se algu\u00e9m tenha atingido a budeidade uma vez por todas, um certo dia, e que n\u00e3o nos restar\u00e1 sen\u00e3o preservar as tradi\u00e7\u00f5es que surgiram desse acontecimento. Nossa salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende apenas da f\u00e9 em um acontecimento hist\u00f3rico. A budeidade \u00e9 de fato \u201calguma coisa primordial\u201d. Mas ela est\u00e1 sempre, e igualmente, presente no cora\u00e7\u00e3o de cada um dos seres animados como seu potencial de despertar e de libera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe um \u00fanico ser animado que n\u00e3o seja Budha em potencial. Entretanto, malgrado sua onipresen\u00e7a, aqui e agora, no curso de vidas imemoriais, nosso potencial de despertar est\u00e1 encoberto por v\u00e9us emocionais e cognitivos. Portanto, esta budeidade est\u00e1 constantemente aqui, como o sol que n\u00e3o deixa nunca o c\u00e9u, mesmo quando as nuvens o obscurecem. Dissipadas as nuvens, o sol aparece em toda a sua claridade. Igualmente, quando se dissolvem os v\u00e9us, nossa budeidade essencial, que n\u00e3o t\u00ednhamos at\u00e9 ent\u00e3o reconhecido, se manifesta espontaneamente e se torna vis\u00edvel no esplendor e em sua gl\u00f3ria. De fato, a via espiritual, onde, na linguagem budista, a \u201cpr\u00e1tica do dharma\u201d, conduz \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o das trevas amontoadas para que enfim, nosso despertar inato penetre completamente com seu brilho iluminado nossa vida e o mundo inteiramente.<br \/>\nPois o princ\u00edpio do despertar ultrapassa o tempo do ser condicionado, a budeidade pode se manifestar n\u00e3o importa em que instante e n\u00e3o se restringir\u00e1 a uma revela\u00e7\u00e3o, referindo-se a uma encarna\u00e7\u00e3o que tenha existido em uma data precisa da hist\u00f3ria e do tempo. Conseq\u00fcentemente, muitas vezes os ensinamentos do dzogchen foram revelados, e ser\u00e3o ainda muitas vezes no curso da hist\u00f3ria da humanidade neste planeta. Os tantras do dzogchen falam de doze grandes mestres da Grande Perfei\u00e7\u00e3o que apareceram em tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos e que Shakyamuni foi o \u00faltimo. Mas o dzogchen n\u00e3o \u00e9 exclusividade da esp\u00e9cie humana, que domina o planeta terra. Os tantras do dzogchen, e particularmente o tantra da \u201credu\u00e7\u00e3o ao absurdo de toda linguagem\u201d, shabda-maha-prasanga-tantra , mencionam treze sistemas estelares onde se preservam e ensinam o dzogchen atualmente. Com efeito, segundo as mesmas fontes, n\u00e3o encontramos apenas em nosso mundo sen\u00e3o alguns 64.000 tantras. Numerosos tantras chegaram a esse planeta provindos de outros mundos e de outras dimens\u00f5es do ser, dos vidyadharas humanos e n\u00e3o humanos. Um vidyadhara, em tibetano rig-\u2018dzin, \u00e9 um ser que encontrou (\u2018dzin) o conhecimento do estado primordial (rig-pa).<br \/>\nQuando a budeidade, ou o princ\u00edpio do despertar, se manifesta fora do tempo e das condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, n\u00f3s o chamamos de Vajrasattva. Esta manifesta\u00e7\u00e3o apresenta cinco perfei\u00e7\u00f5es supremas: perfei\u00e7\u00e3o do mestre, o sambhogakaya, a esfera mais elevada da exist\u00eancia. Perfei\u00e7\u00e3o do entorno, seu audit\u00f3rio de grandes bodisattvas. Perfei\u00e7\u00e3o de sua doutrina, o conjunto dos ensinamentos do mahayana e do vajrayana. E perfei\u00e7\u00e3o do tempo da revela\u00e7\u00e3o, a atemporalidade, a qual escapa do processo temporal. Quando um bodisatva tem suficiente pureza em sua mente e em sua vis\u00e3o, a dimens\u00e3o sambhogakaya lhe aparece com evid\u00eancia, e ele pode receber os ensinamentos da boca do Budha Vajrasattva. Isso aconteceu em numerosas regi\u00f5es da \u00cdndia e em outros lugares, em Uddiy\u00e2na, ap\u00f3s a \u00e9poca de Shakyamuni: alguns grandes adeptos, ou mahasidhas, apareceram, tais como Saraha, Nagarjuna, Kambalapa, o rei Jah e outros, que receberam assim a revela\u00e7\u00e3o dos tantras.<br \/>\nNa tradi\u00e7\u00e3o dzogchen, reconhecemos tr\u00eas grandes tipos de transmiss\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>1. A transmiss\u00e3o direta, que tem lugar em um instante, diretamente de mente a mente, sem que qualquer palavra intervenha;<\/strong><br \/>\n<strong> 2. A transmiss\u00e3o simb\u00f3lica, que recorre aos signos e aos s\u00edmbolos visuais, em sil\u00eancio ou com poucas palavras;<\/strong><br \/>\n<strong> 3. A transmiss\u00e3o oral, que \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o verbal sussurrada pelo mestre no ouvido do disc\u00edpulo.<\/strong><\/p>\n<p>Na nossa tradi\u00e7\u00e3o, a fonte \u00faltima dos ensinamentos dzogchen \u00e9 o dharmakaya, o Budha primordial Samantabhadra que as tankas tibetanas representam, convencionalmente, com o aspecto de um yogui nu, azul como o c\u00e9u, sentado na postura meditativa bem no meio do espa\u00e7o. Embora, em si mesmo, o dharmakaya transcenda os conceitos de intelec\u00e7\u00e3o e seja, pois, inexprim\u00edvel em palavras, n\u00f3s o representamos simbolicamente nessa forma aquilo que \u00e9 realmente onipresente e n\u00e3o tem forma, a fim de nos dar, conforme nossas concep\u00e7\u00f5es limitadas, uma id\u00e9ia mais ou menos concreta de sua profundidade e de sua imensid\u00e3o. Samantabhadra est\u00e1 nu porque, em si mesma, a natureza da mente \u00e9 despida de qualquer pensamento discursivo e de todos os conceitos; e ele tem a cor do c\u00e9u porque a natureza da mente \u00e9 vazia, clara e aberta como o c\u00e9u. O chamamos Adibudha, \u201cBudha primordial\u201d, porque, jamais em nenhum instante, ele se deixou apanhar na armadilha do samsara. Duas purezas o ornamentam: ele \u00e9 puro por natureza e limpo de todas as sujeiras advent\u00edcias. A palavra s\u00e2nscrita dharmakaya designa dimens\u00e3o (kaya) do real (dharma). A passagem dos ensinamentos dzogchen do dharmakaya Samantahbadra ao sambhogakaya Vajrasatva \u00e9 uma transmiss\u00e3o direta. Os ensinamentos dos tantras da grande perfei\u00e7\u00e3o, como no Kulayaraja Tantra , por exemplo, se apresentam geralmente como um di\u00e1logo entre Samantabhadra e Vajrasattva, o primeiro representando o mestre e o segundo, seu audit\u00f3rio. Mas, como os tantras explicam, o mestre e seus ouvintes s\u00e3o de fato id\u00eanticos; eles aparecem como duas entidades separadas e independentes unicamente para que os ensinamentos atinjam o entendimento humano sob o aspecto de di\u00e1logos .<br \/>\nVajrasattva encarna o aspecto sambhogakaya da budeidade. Entretanto, sob seu aspecto coletivo, \u00e9 comum representar-se o sambhogakaya como os cinco tathagatas, mais conhecidos no ocidente sob o nome de dhyani-budhas . Os cinco budhas formam assim o audit\u00f3rio de Vajrasattva, e, nesse caso ainda, o mestre e seu audit\u00f3rio se equivalem em termos de ess\u00eancia. Descrevemos Vajrasattva como um ser branco (ou \u00e0s vezes azul), que tem em sua m\u00e3o direita um vajra, um cetro adamantino, e, na sua m\u00e3o esquerda, um sino que representa o conhecimento transcendente: assim ostenta ele as duas prendas do despertar, a compaix\u00e3o e a sabedoria. Ele porta todos os preciosos ornamentos de j\u00f3ias e tecidos, de sedas encantadoras com os quais outrora os pr\u00edncipes da \u00cdndia se paramentavam. Esses atributos simbolizam a riqueza e a superabund\u00e2ncia das manifesta\u00e7\u00f5es do sambhogakaya. Essa palavra s\u00e2nscrita significa literalmente \u201cdimens\u00e3o\u201d (kaya) de \u201calegramento\u201d (sambhoga), porque a vis\u00e3o beat\u00edfica e a presen\u00e7a divina do sambhogakaya s\u00e3o particularidades dos grandes bodhisatvas que ao menos atingiram a s\u00e9tima \u201cterra\u201d e se encaminham para a d\u00e9cima sobre o percurso espiritual dos bodisatvas . O sambhogakaya \u00e9 revestido das cinco percep\u00e7\u00f5es supremas que vimos precedentemente. E a transmiss\u00e3o simb\u00f3lica representa os ensinamentos da grande perfei\u00e7\u00e3o pelo sambhogakaya Vajrasattva, que permanece eternamente na esfera da exist\u00eancia a mais sublime, em um grande n\u00famero de nirmanakayas diferentes que se manifestam em todas as esferas da exist\u00eancia. Ainda que tenham existido, atrav\u00e9s das idades, numerosas transmiss\u00f5es destinadas aos vidyadharas pertencentes a esp\u00e9cies n\u00e3o humanas, como os devas, os nagas, os yakshas e os rakshasas, no mundo humano, a transmiss\u00e3o principal teve lugar entre o sambhogakaya Vajrasattva e o nirmanakaya Prahevajra, mais conhecido sob o nome de Garab Dorje . Desse fato, reconhecemos Garab Dorje como primeiro mestre humano do dzogchen, assim como uma emana\u00e7\u00e3o, ou reencarna\u00e7\u00e3o verdadeira, de Vajrasattva.<br \/>\nGarab Dorje, ou Prahevajra, nasceu no pa\u00eds de Uddiyana, em alguma parte ao noroeste da \u00cdndia. Segundo algumas fontes, o acontecimento teve lugar cento e sessenta anos ap\u00f3s o nirvana do Budha hist\u00f3rico, em 881 antes de nossa era . Nesse tempo, havia no pa\u00eds de Uddiyana um grande lago de nome Dhanakosha, \u201cReservat\u00f3rio de Riquezas\u201d, \u00e0s margens do qual se erguia o magn\u00edfico templo de Shankarak\u00fbta, que era cercado por mil seiscentos e oito capelas. O rei Uparaja e sua esposa, a rainha Prabhavati, reinavam ent\u00e3o em Uddiyana. O rei e a rainha tinham uma filha, a princesa Sudharma, que se tornou bem cedo uma virtuosa e bela jovem. Tendo escutado o dharma de numerosos mestres, ela decidiu renunciar ao mundo e tomou os votos de bhikshuni, ou religiosa mendicante. Em companhia de sua servente Sukha, ela se retirou para uma ilha de areias de ouro, no meio do lago Dhanakosha, e em sua humilde palho\u00e7a ela meditava praticando os tantras do yoga.<br \/>\nUm dia, a bhikshuni teve um sonho. Ela contemplava um ser branco, glorioso, imaculado, que, surgindo do c\u00e9u, aproximou-se dela; pousou sobre sua cabe\u00e7a um jarro de cristal marcado com as s\u00edlabas OM AH HUM SOHA e, consagrando-a, ele se transforma em raio de luz mergulhando no corpo de Sudharma, mostrando claramente a ela os tr\u00eas mundos at\u00e9 em seus detalhes mais \u00ednfimos. Na manh\u00e3 seguinte, a bhikshuni contou seu sonho \u00e0 sua servente e elas n\u00e3o tardaram em descobrir que a jovem religiosa estava gr\u00e1vida. Ora, Sudharma era virgem, ela n\u00e3o havia conhecido homem e estava aterrorizada; ela temia que seu pai, o rei, e de fato a popula\u00e7\u00e3o do reino inteiro viessem a saber de sua desonra. Mas os meses se passaram e ela teve um filho. Portanto, embora a crian\u00e7a fosse de fato a reencarna\u00e7\u00e3o de um deva vidyadhara que havia recebido os ensinamentos do dzogchen nos mundos dos deuses, sua m\u00e3e n\u00e3o pretendia reconhec\u00ea-lo.<br \/>\nEnvergonhada e assustada, a bhikshuni grita: \u201cEsta crian\u00e7a sem pai n\u00e3o pode ser outra coisa que um mau esp\u00edrito\u201d, jogando-o em um fosso cheio de cinzas pr\u00f3ximo \u00e0 sua palho\u00e7a. A servente reparou que a crian\u00e7a portava certos signos prop\u00edcios, mas a jovem mulher desatinada n\u00e3o queria por nada nesse mundo acreditar que seu rec\u00e9m-nascido podia ser a encarna\u00e7\u00e3o de um grande bodisatva. Neste preciso instante, todavia, elas ouviram muitos sons maravilhosos e viram por toda parte raios de luz irisados. Tr\u00eas dias mais tarde, ligeiramente acalmada e com uma consci\u00eancia repentina, a bhikshuni saiu de sua choupana e se debru\u00e7ou sobre o fosso de cinzas para olhar seu beb\u00ea. Milagre! A crian\u00e7a se portava encantadoramente. Ela reconheceu enfim, naquele momento, que ele era uma emana\u00e7\u00e3o e, conduzindo-o \u00e0 sua cabana, lhe deu um banho.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que ela ouviu uma voz que vinha do c\u00e9u: \u201cO protetor, mestre e senhor que esclarece a natureza das coisas protegendo os mundos, seja nosso possante protetor!\u201d. As dakinis cantaram louvores \u00e0 crian\u00e7a miraculosa, nascida de uma virgem, e elas lhe fizeram oferendas . A crian\u00e7a falou imediatamente para instruir as dakinis. Esse primeiro ensinamento da crian\u00e7a prod\u00edgio levou o nome de \u201cVajrasattva, c\u00e9u imenso \u201d. Quando a crian\u00e7a completou sete anos, pediu \u00e0 sua m\u00e3e a permiss\u00e3o para discutir o sentido profundo do Dharma com os pandits eruditos. Um belo dia, sua m\u00e3e n\u00e3o se op\u00f4s mais, o jovem rapaz foi, n\u00e3o sem temeridade, ao pal\u00e1cio real de Uparaja, o qual estava justamente preparando-se para homenagear convidados em cerca de quinhentos grandes eruditos. A precoce crian\u00e7a entrou com um passo decidido na assembl\u00e9ia, provocando os panditas a disputar com ele. Desde a abertura do debate ele colocou sua argumenta\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel do Fruto e infligiu uma pungente derrota aos quinhentos eruditos que, por sua parte, estavam ainda no pondo de vista do fundamento. Derrotando-os, ele decide instru\u00ed-los em Atiyoga, na verdade ele j\u00e1 era plenamente iluminado antes mesmo de nascer. Os mais velhos, os vener\u00e1veis panditas, estavam impressionados pelos vastos conhecimentos e o poder de penetra\u00e7\u00e3o desse garoto de apenas sete anos, e a assembl\u00e9ia toda se prosternou aos seus p\u00e9s. Foi ent\u00e3o que lhe deram o nome de Prajnabhava, \u201cEncarna\u00e7\u00e3o do Conhecimento\u201d.<br \/>\nAbsolutamente encantado por essa crian\u00e7a precoce e miraculosa, o rei experimentou, em sua presen\u00e7a, um \u00eaxtase extraordin\u00e1rio, embora lhe tenham dado o nome de Prahevajra, em tibetano Garab Dorje, \u201cVajra da J\u00f3ia Suprema\u201d, pelo fato de que sua m\u00e3e, a princesa e religiosa Sudharma, o houvesse jogado ao nascer no fosso de cinzas, foi reconhecido tamb\u00e9m pelos nomes de Vetalasukha, \u201cZumbi feliz\u201d, e Vetalabhishmarana, \u201cZumbi cor de cinza\u201d.<br \/>\nSem ter lido nada, o rapazinho conhecia de cor a totalidade dos sutras e dos tantras do Budha Shakyamuni, bem como inumer\u00e1veis estrofes dos ensinamentos dzogchen. Pouco tempo ap\u00f3s seu nascimento, Vajrasattva lhe apareceu para lhe transmitir a inicia\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a desperta em sua totalidade, e a crian\u00e7a chegou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da sabedoria primordial que n\u00e3o resulta de nenhum treinamento. Assim compreendeu num \u00fanico instante, e perfeitamente, o sentido verdadeiro de todos os tantras.<br \/>\nEm seguida, Prahevajra partiu para a solid\u00e3o das montanhas selvagens do norte assombradas pelos pretas e outros esp\u00edritos. L\u00e1 onde o sol se levanta, ele ficou trinta e dois anos. Foi durante esses anos que Vajrasattva lhe apareceu novamente em uma esfera brilhante de luzes de arco-\u00edris e lhe transmitiu as instru\u00e7\u00f5es especiais dos seis milh\u00f5es e quatrocentos mil tantras da grande perfei\u00e7\u00e3o. Vajrasattva permitiu \u00e0 Prahevajra escrever esses tantras orais. Ent\u00e3o, como ele era ainda jovem e vivia na solid\u00e3o dum cume dos montes Malaya, \u00e9 com a ajuda de tr\u00eas d\u00e2kinis que ele redige os tantras do dzogchen. Em uma gruta desta mesma montanha, ele esconde os tantras como \u201ctesouros ocultos\u201d e os confia \u00e0 guarda dos dakinis.<br \/>\nEnt\u00e3o, enquanto ele permanecia sobre os cumes desertos e escarpados, a terra tremeu por sete vezes de alto a baixo. Um br\u00e2mane que vivia em uma das cidades o acusou de ter provocado esses tremores de terra com suas magias para prejudicar a doutrina bram\u00e2nica. O rei local, que era tirthika , o acusou oficialmente desse crime, os pastores das redondezas tamb\u00e9m, e todos partiram \u00e0 sua procura. Quando os homens do rei se aproximaram da entrada de sua gruta de medita\u00e7\u00e3o, eles ouviram um som que escapava, profundo e possante, parecido com o rugido de um asura surgindo das entranhas da terra . Nesse momento, um jovem com aspecto de yogui nu aparece diante da multid\u00e3o dentro de uma esfera de luzes de arco-\u00edris, e ningu\u00e9m pode colocar a m\u00e3o sobre ele. Esta apari\u00e7\u00e3o teve como conseq\u00fc\u00eancia submeter inteiramente o rei e sua corte: eles se converteram todos ao Dharma. Prahevajra manifestou ainda muitas esp\u00e9cies de poderes (sidhis) sobrenaturais: caminhou sobre a \u00e1gua de uma torrente de correnteza r\u00e1pida, ele atravessou rochedos e paredes de pedra sem encontrar a menor resist\u00eancia. Ele apareceu a grandes multid\u00f5es, cercado por uma esfera de luzes irisadas, inspirando a todos uma f\u00e9 e uma devo\u00e7\u00e3o imensas. Em seguida, montando um \u201cgaruda,\u201d p\u00e1ssaro com grandes poderes miraculosos , ele voou para o sul por cima dos altos Himalaias, depois para leste sobre as vastas plan\u00edcies do Ganges, at\u00e9 a grande stupa do \u201cossu\u00e1rio\u201d de Shitavane, ou \u201cFrio Bosque\u201d, n\u00e3o longe de Vajrasana . Ele deu nesses lugares inicia\u00e7\u00f5es e ensinamentos a um grande n\u00famero de disc\u00edpulos, inclusive a dakini Suryaprabha, e a\u00ed, nesse horr\u00edvel \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o que a todos inspirava um terror sagrado, ele permaneceu muitos anos, cercado de dakinis aos milhares.<br \/>\nNa mesma \u00e9poca, viveu um grande erudito nascido em uma cidade da \u00cdndia ocidental e cujo pai era um bramane. Ele se chamava Manjushrimitra, \u201cAmigo de Manjushri\u201d, porque ele ensinava as cinco ci\u00eancias e ningu\u00e9m conhecia os textos sagrados melhor que ele. Um dia, ele teve uma vis\u00e3o onde o grande bodisatva da sabedoria, Majushri, lhe deu esse conselho prof\u00e9tico: \u201c\u00d3, filho de nobre fam\u00edlia, se tens verdadeiramente a inten\u00e7\u00e3o de atingir o fruto da budeidade em sua vida presente, deverias ir ao \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o do \u201cFresco Bosque\u201d. Seguindo esse conselho, o acharya, o mestre, partiu para o leste e encontrou Prahevajra em Shitavana. Prahevajra lhe disse: \u201cA natureza da mente \u00e9 Budha desde a origem. Essa mente n\u00e3o tem nascimento nem cessa\u00e7\u00e3o, porque se parece com o c\u00e9u. Quando realizamos o verdadeiro sentido da identidade \u00faltima de todos os fen\u00f4menos, e quando mantemos esta compreens\u00e3o sem nada mais buscar em torno, eis a medita\u00e7\u00e3o aut\u00eantica\u201d. Manjushrimitra apreendeu naquele momento o sentido verdadeiro deste ensinamento.<br \/>\nManjushrimitra ficou em Shitavana por cerca de 75 anos e recebe de seu guru a transmiss\u00e3o integral da grande perfei\u00e7\u00e3o, ou Atiyoga, que emanou originalmente de Vajrasattva em pessoa. Ao fim desse per\u00edodo, Prahevajra manifestou numerosos sinais extraordin\u00e1rios e seu corpo se transmutou em luz e esvaneceu no c\u00e9u. Esses fen\u00f4menos indicam que Prahevajra havia realizado o corpo luminoso de arco-\u00edris. Paralisado pela dor e pelo desespero, Manjushrimitra perdeu a consci\u00eancia e desmaiou. Quando recuperou a consci\u00eancia, ele lan\u00e7ou um grito de lamenta\u00e7\u00e3o: \u201c\u00d3, que infort\u00fanio! \u00d3, imensid\u00e3o! A l\u00e2mpada de nosso mestre extinguiu-se: quem doravante dispersar\u00e1 as trevas do mundo?\u201d<br \/>\nDe repente, seu mestre apareceu no c\u00e9u sobre ele, no centro de uma esfera de luzes irisadas. Com um barulho parecido com um trov\u00e3o, uma tela dourada, do tamanho da unha do dedo polegar, surgiu da luz, depois executou voando tr\u00eas circunvolu\u00e7\u00f5es em torno de Manjushrimitra, antes de pousar na palma de sua m\u00e3o direita completamente aberta. Depois, a vis\u00e3o de seu mestre se evaporou de novo no c\u00e9u. Manjushrimitra abriu o manuscrito que continha o \u00faltimo testamento do mestre Prahevajra inscrito com l\u00e1pis lazuli sobre um suporte feito de cinco materiais preciosos. Unicamente por ver esse testamento, Manjushrimitra atingiu uma ilumina\u00e7\u00e3o igual \u00e0 de Prahevajra. Esse \u00faltimo testamento, em que est\u00e1 condensada a totalidade dos ensinamentos do atiyoga, levou o t\u00edtulo de \u201cO essencial em tr\u00eas palavras\u201d . Ent\u00e3o, Manjushrimitra empreendeu o estabelecimento dos tantras que ele havia recebido de seu mestre e os classificou em tr\u00eas s\u00e9ries de ensinamentos. Os ensinamentos que colocam \u00eanfase no estado natural da mente, constitu\u00edram o semde, a \u201cs\u00e9rie da mente\u201d \u2013 bem entendido, aqui, \u201ca mente\u201d designa a natureza da mente, ou bodhichita. Os ensinamentos que insistem na aus\u00eancia de esfor\u00e7o est\u00e3o contidos no longde, a \u201cs\u00e9rie do espa\u00e7o\u201d. Enfim, os ensinamentos centrados sobre alguns pontos essenciais pertencem ao upadesha, \u00e0 \u201cs\u00e9rie das instru\u00e7\u00f5es secretas\u201d. Em seguida, Manjushrimitra dividiu os tr\u00eas extraordin\u00e1rios ensinamentos do upadesha, os nyingthig, ou \u201cess\u00eancias da mente\u201d, em duas classes: a transmiss\u00e3o oral e os tantras explicativos. Como na \u00e9poca n\u00e3o se encontrava ainda ningu\u00e9m que estivesse preparado para receber os ensinamentos da primeira se\u00e7\u00e3o, o acharya escondeu os textos sob um enorme rochedo \u00e0 leste de vajrasana. Depois se retirou para ocidente , para o \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o de Sosaling onde ficou cento e nove anos em medita\u00e7\u00e3o, praticando a conduta esot\u00e9rica com as dakinis e as instruindo.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que Shri Singha chegou \u00e0 cidade chinesa de Sokhyam, em companhia de Buddhajnana, tornando-se disc\u00edpulo de Manjushrimitra. Antes, quando de uma viagem no dorso de camelo para a cidade de Serling, na China, Shri Singha teve uma vis\u00e3o, no c\u00e9u, do bodisatva Avalokitsvara, e este lhe deu um conselho: \u201c\u00d3, filho de nobre fam\u00edlia, se queres atingir o fruto, v\u00e1 at\u00e9 a \u00cdndia, em um lugar de nome Sosaling\u201d. Em seguida, quando ele partiu novamente para os montes Wou-t\u2019ai-chan, na China do norte, e como havia ent\u00e3o adquirido numerosos siddhis (poderes), ele voou como o vento at\u00e9 a \u00cdndia onde, no \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o de Sosaling, ele encontrou o acharya Manjushrimitra e recebeu seus ensinamentos durante vinte e cinco anos. No fim de sua vida, Manjushrimitra desapareceu no ar sobre a stupa central do \u201cossu\u00e1rio\u201d. Depois, repentinamente, reapareceu no c\u00e9u e depositou um pequeno manuscrito coberto de j\u00f3ias na palma da m\u00e3o de Shri Singha. O precioso manuscrito continha o \u00faltimo testamento de seus mestres, as seis Experi\u00eancias Meditativas. \u00c0 leitura desse texto, Shri Singha realizou imediatamente a mesma realiza\u00e7\u00e3o profunda de seu mestre Manjushrimitra. Ele recuperou igualmente os textos que seu mestre havia escondido pr\u00f3ximo do Trono do Diamante. O acharya Shri Singha os dividiu em quatro categorias: exterior, interior, secreta e bastante secreta. Ele transmitiu esses ensinamentos a seus disc\u00edpulos Vimalamitra e Jnanasutra, em seguida, o acharya voltou \u00e0 China e, no fim de sua vida, ele tamb\u00e9m desapareceu em corpo de arco-\u00edris. \u00c9 assim que todos primeiros mestres da linhagem dzogchen realizaram o extraordin\u00e1rio corpo de luz .<br \/>\nVimalamitra e Jnanasutra, tanto um como outro, foram \u00e0 China para requererem de Shri Singha a linhagem de transmiss\u00e3o oral do dzogchen, que o mestre lhes conferiu durante doze anos no seu retiro no \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o de Sitakara. Algum tempo depois, o rei tibetano Thrisong Detsen convidou Vimalamitra, que tinha voltado \u00e0 \u00cdndia. Uma vez no Tibete, este se instalou no monast\u00e9rio de Samye, onde permaneceu treze anos. Desse modo foram transmitidas aos tibetanos a s\u00e9rie dos upadeshas, e, em parte, a s\u00e9rie semde. Quando ele deixou o Tibete, o acharya Vimalamitra foi \u00e0 China, para as montanhas sagradas de Wou-t\u2019ai-chan.<br \/>\nAntes da chegada de Vimalamitra ao Tibete, durante o reinado do mesmo rei, Bairotsana de Pagor foi ordenado monge em Samye pelo abade Shantarakshita; ele fazia parte dos sete primeiros tibetanos que entraram em ordens budhistas . Em seguida, o rei enviou-o \u00e0 \u00cdndia, para prosseguir seus estudos, e em Vajrasana recebeu a totalidade dos principais tantras das s\u00e9ries da mente e do espa\u00e7o. Assim, essas duas cole\u00e7\u00f5es de textos foram bastante transmitidas aos tibetanos por interm\u00e9dio de Bairotsana. No Tibete, ele foi igualmente disc\u00edpulo de Guru Padmasambhava. Todavia, esse \u00faltimo ensinava o dzogchen no quadro do anuyoga mais que como um sistema independente.<br \/>\nQuando de sua estada na \u00cdndia, Bairotsana passeava nas florestas de S\u00e2ndalo que margeavam o lago Dhanakosa, quando encontrou o acharya Shri Singha. Esse \u00faltimo vivia ent\u00e3o numa torre de nove andares, erigida miraculosamente. Mas, antes que a yoguini que servia ao mestre conduzisse o jovem tibetano \u00e0 presen\u00e7a de Shri Singha, Bairotsana fez uma demonstra\u00e7\u00e3o de seus poderes ps\u00edquicos. Uma vez pr\u00f3ximo ao acharya, Bairotsana pediu instru\u00e7\u00e3o sobre o ve\u00edculo que n\u00e3o precisa de nenhum esfor\u00e7o. Ele lhe disse ser necess\u00e1rio, todavia, estud\u00e1-lo em segredo, \u00e0 noite, porque o rei local havia proibido que se propagassem os ensinamentos dzogchen. O rei e seus ministros acreditavam que esta doutrina, que transcende as causas e os efeitos, minava sua autoridade, e a do estado, em geral, sobre o povo. Mesmo \u00e0 noite Bairotsana transcrevia as dezoito instru\u00e7\u00f5es da \u201cs\u00e9rie da mente\u201d com a ajuda de uma tinta de leite de cabra sobre uma tela branca, de maneira que nada chegasse aos olhos do rei e de seus auxiliares. Entre esses textos se encontrava o primeiro texto dzogchen que Bairotsana traduziu em tibetano, o c\u00e9lebre \u201cRig-pa\u2019i Khu-byug\u201d, \u201cO canto do Cuco da Presen\u00e7a Desperta\u201d, aqui est\u00e1 uma tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Mesmo que a natureza do m\u00faltiplo seja n\u00e3o-dual,<br \/>\nPara as coisas individuais, ela est\u00e1 livre de elabora\u00e7\u00f5es conceituais (produzidas pela mente).<br \/>\nMesmo se o pensamento do que chamamos \u201cTal como\u201d n\u00e3o exista,<br \/>\nEssas diversas apar\u00eancias criadas s\u00e3o boas de um modo \u00faltimo. (transcendendo o bem e o mal relativos)<br \/>\nPois tudo \u00e9 completo tal como \u00e9, abandonando a doen\u00e7a do esfor\u00e7o, permanecemos sem esfor\u00e7o na presen\u00e7a do estado contemplativo.<\/p>\n<p>Bairotsana n\u00e3o se contentou unicamente com as dezoito instru\u00e7\u00f5es do semde, Shri Singha transmitiu-lhe as inicia\u00e7\u00f5es e as instru\u00e7\u00f5es dos outros tantras do semde, ou da mente, depois as se\u00e7\u00f5es branca, negra e matizada dos ensinamentos da \u201cs\u00e9rie do espa\u00e7o\u201d. Em seguida, Bairotsana alcan\u00e7ou a mestria perfeita de cada um desses ensinamentos. No \u201cossu\u00e1rio\u201d de crema\u00e7\u00e3o de Dhumapitha, o \u201cAr Enfuma\u00e7ado\u201d, ele teve uma vis\u00e3o de Garab Dorje (Prahevajra) onde ele lhe transmitiu os seis milh\u00f5es e quatrocentos mil m\u00e9todos da grande perfei\u00e7\u00e3o. Depois o tradutor voltou miraculosamente ao Tibete gra\u00e7as \u00e0 ci\u00eancia do \u201cp\u00e9 r\u00e1pido\u201d e propagou aos seus disc\u00edpulos os ensinamentos dzogchen das s\u00e9ries da mente e do espa\u00e7o.<br \/>\nO texto traduzido aqui come\u00e7a pela homenagem do autor aos mestres de sua linhagem de transmiss\u00e3o. Isso tem valor porque todos os ensinamentos espirituais est\u00e3o ligados \u00e0 uma transmiss\u00e3o. Depois, o autor evoca brevemente as pr\u00e1ticas preliminares. No que concerne \u00e0s quatro medita\u00e7\u00f5es que provocam uma mudan\u00e7a na nossa maneira de abordar a vida, o essencial \u00e9 ter bastante consci\u00eancia do que elas querem dizer, melhor do que empreender uma an\u00e1lise intelectual complicada. O tibetano shes-rig designa tanto a presen\u00e7a da consci\u00eancia, dito de outro modo, quanto \u00e0 consci\u00eancia de um objeto conhec\u00edvel. Assim, por exemplo, dever\u00edamos constantemente estar conscientes da rara oportunidade que nos oferece esta exist\u00eancia humana e nunca esquecer o quanto a vida \u00e9 ef\u00eamera. Essa esp\u00e9cie de consci\u00eancia nos motivar\u00e1 de tal maneira que n\u00e3o desperdi\u00e7aremos mais a nossa vida na distra\u00e7\u00e3o. Mas, de todas essas pr\u00e1ticas preliminares, a mais importante \u00e9 o guru yoga (o yoga do mestre). O guru yoga \u00e9 o meio mais eficaz de preservar o conjunto das transmiss\u00f5es que recebemos.<br \/>\nA parte principal do texto descreve a pr\u00e1tica do dia e a pr\u00e1tica da noite. A pr\u00e1tica do dia \u00e9 apresentada em tr\u00eas pontos. \u00c9 preciso inicialmente compreender a pr\u00e1tica. No dzogchen, estimamos que a \u201cvis\u00e3o\u201d \u00e9 ainda mais importante que a medita\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o designa a maneira de ver, ou de encarar as coisas, e \u201ccompreender\u201d n\u00e3o se refere aqui unicamente \u00e0 compress\u00e3o intelectual, nem aos conhecimentos ensinados na escola ou nos livros, mas \u00e0 experi\u00eancia efetiva do acesso ao conhecimento da vis\u00e3o. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que o mestre proceda a uma \u201capresenta\u00e7\u00e3o\u201d que nos permita compreender exatamente o que entendemos por \u201cpura presen\u00e7a\u201d, ou \u201cconsci\u00eancia enquanto tal\u201d (rig-pa). Sem uma experi\u00eancia concreta desse tipo, dependemos das descri\u00e7\u00f5es dos outros e ent\u00e3o ser\u00e1 muito f\u00e1cil enganarmo-nos na pr\u00e1tica.<br \/>\nO segundo ponto (a pr\u00e1tica diurna) consiste em \u201cestabilizar\u201d a pr\u00e1tica. Uma vez bem compreendido o estado de contempla\u00e7\u00e3o, o verdadeiro sentido de rig-pa no centro da experi\u00eancia pessoal, \u00e9 preciso ainda exercitar-se em permanecer nesse estado de presen\u00e7a. Nesse ponto, veremos tr\u00eas instru\u00e7\u00f5es, cujas duas primeiras, \u201cintegrar\u201d e \u201cse relaxar na presen\u00e7a\u201d, p\u00f5em em relevo a estabiliza\u00e7\u00e3o, enquanto, o terceiro ponto \u00e9 o \u201cprogresso\u201d, do qual falamos mais acima.<br \/>\nCom respeito a integrar, a pr\u00e1tica aqui descrita \u00e9 uma \u201cintegra\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o do c\u00e9u\u201d. N\u00e3o tem nada a ver com a fixa\u00e7\u00e3o mental sobre um objeto de medita\u00e7\u00e3o, o que seria um trabalho da mente (objetiva), pois a contempla\u00e7\u00e3o trabalha al\u00e9m da mente (objetiva). Aqui, concentramos nossa aten\u00e7\u00e3o num ponto no espa\u00e7o, depois, relaxando-nos, deixamos nossa consci\u00eancia integrar-se ao c\u00e9u.<br \/>\nEm seguida vem diversas instru\u00e7\u00f5es de ordem geral, permitindo-nos relaxar ficando alertas e completamente presentes. O princ\u00edpio dzogchen \u00e9 o relaxamento, mas esse relaxamento n\u00e3o tem nada de pesado nem abrutalhado como o das vacas que ruminam nos prados. Esse estado da mente leva o nome de lung-ma-bstan: n\u00e3o tem nada a ver com rig-pa! \u201cRelaxar completamente na presen\u00e7a\u201d, quer dizer que, quando nossos sentidos entram em contato com um objeto, qualquer que seja, n\u00e3o fazemos mais que deixar o objeto tal como se encontra. N\u00e3o \u00e9, pois uma quest\u00e3o de fixar com acuidade nossa aten\u00e7\u00e3o sobre um objeto de medita\u00e7\u00e3o, nem tentar reprimir pensamentos indesej\u00e1veis. N\u00e3o tardaremos, de fato, a nos dar conta que essa esp\u00e9cie de repress\u00e3o nunca nos levar\u00e1 a bom termo, por assim dizer. Quanto mais nos opusermos aos pensamentos, mais eles armazenar\u00e3o energia e voltar\u00e3o como para se vingar. No dzogchen, n\u00e3o importa que exista, ou n\u00e3o, pensamentos discursivos, contanto que eles n\u00e3o nos distraiam, contanto que n\u00e3o os sigamos cegamente. O verdadeiro problema \u00e9 como conseguir deixar as coisas suficientemente tranq\u00fcilas, sem jamais tentar modificar ou corrigir os pensamentos que for\u00e7osamente se apresentam.<br \/>\nO que n\u00e3o impede que, quando procuramos a pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o, sejamos suscet\u00edveis de experimentar algumas dificuldades devidas \u00e0 sonol\u00eancia ou \u00e0 agita\u00e7\u00e3o. Mas existem m\u00e9todos para resolver esses problemas. \u00c0s vezes, \u00e9 poss\u00edvel que, durante a pr\u00e1tica, algumas experi\u00eancias se apresentem, particularmente experi\u00eancias de prazer, experi\u00eancias de claridade e de luminosidade, e experi\u00eancias de vacuidade ou de n\u00e3o-discursividade. N\u00e3o \u00e9 preciso confundir essas experi\u00eancias com a contempla\u00e7\u00e3o, ou rig-pa, nem lhes permitir que nos distraiam, n\u00e3o s\u00e3o mais que experi\u00eancias, nada mais. Quando relaxamos nosso corpo, nossa fala e nossa mente, nossas energias escapam ao dom\u00ednio que exercemos habitualmente sobre elas, e elas come\u00e7am a se manifestar com toda liberdade e espontaneidade. Podemos ter vis\u00f5es espl\u00eandidas, ouvir sons, sentirmo-nos esquisitos e muitas outras coisas. Mas \u00e9 preciso ter em mente que tudo isso s\u00e3o apenas manifesta\u00e7\u00f5es de nossa energia, e n\u00e3o nos deixar levar. Eis como progredimos na pr\u00e1tica.<br \/>\nVem ent\u00e3o a pr\u00e1tica da noite: de in\u00edcio a pr\u00e1tica da noite, bem antes de adormecermos, depois, a pr\u00e1tica da manh\u00e3, a qual come\u00e7a no instante mesmo do despertar. A pr\u00e1tica da noite \u00e9 ainda chamada \u201cpr\u00e1tica da clara luz natural\u201d. O processo de adormecimento \u00e9, em numerosos pontos, an\u00e1logo ao processo da morte. Entre o momento de adormecer e o surgimento dos sonhos, \u00e9 poss\u00edvel ter a experi\u00eancia da clara luz, dito de outro modo, da clara luminosidade do estado primordial do indiv\u00edduo. Se reconhecermos a clara luz, poderemos atingir a libera\u00e7\u00e3o no fim desta vida, nos integrando nela. A t\u00e9cnica aqui exposta \u00e9 um m\u00e9todo muito eficaz para permanecer presente no momento de adormecer. Ela tem como primeiro efeito produzir sonhos l\u00facidos, falando de outro modo, sonhos onde o sonhador sabe que sonha no instante mesmo do sonho. Conscientes de nossos sonhos, temos o poder de ampli\u00e1-los, de transform\u00e1-los e de utiliz\u00e1-os como base da pr\u00e1tica. Os tantras mencionam um grande n\u00famero de m\u00e9todos complicados em mat\u00e9ria de yoga dos sonhos, mas o presente m\u00e9todo da clara luz natural, embora muito simples e direto, conduz aos mesmos resultados.<br \/>\nA pr\u00e1tica da manh\u00e3 \u00e9 um aspecto do guru yoga. Como vimos, todas as pr\u00e1ticas do dzogchen est\u00e3o intimamente ligadas ao guru yoga. O presente m\u00e9todo nos permitir\u00e1 acordar de manh\u00e3 em um estado de presen\u00e7a e consci\u00eancia. Ele nos far\u00e1 compreender ent\u00e3o que este estado de rig-pa no qual acordamos n\u00e3o \u00e9 em nada diferente do estado rig-pa de nosso mestre. Na verdade, este estado n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o o nosso estado primordial cujo nome verdadeiro \u00e9 Samantabhadra.<br \/>\nPara concluir, o autor examina os benef\u00edcios das pr\u00e1ticas precedentes e as qualidades do praticante. E enfim, ele sela seu texto com a dedica\u00e7\u00e3o de m\u00e9ritos e por uma bendi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEmbora conciso, este upadesha, instru\u00e7\u00e3o essencialmente secreta, que emana de um mestre dzogchen vivo com a inten\u00e7\u00e3o de motivar os praticantes do dzogchen, exp\u00f5e muito claramente a arte de entrar neste estado e de nele progredir tanto de dia quanto \u00e0 noite, de maneira \u00e0 integrar a totalidade da exist\u00eancia \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. O tradutor faz os votos que esta tradu\u00e7\u00e3o se revele \u00fatil, na pr\u00e1tica, a todos aqueles que possam estar interessados!<\/p>\n<p>Sarvamangalam!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O CICLO DO DIA E DA NOITE<\/strong><br \/>\n<strong> Namkha\u00ef Norbu Rinpoche<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Ciclo do dia e da noite, onde progredimos no caminho do yoga primordial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Homenagem ao mestre!<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Presto homenagem com a maior devo\u00e7\u00e3o de meu corpo, fala e mente a todos os mestres da linhagem dzogchen, a come\u00e7ar por Changchub Dordje, que encarna todas as fam\u00edlias de Budha, assim como Orgien Tendzin e Dorje Paldr\u00f6n.<\/strong><\/p>\n<p><strong>2. O Budha primordial Samantabhadra e o glorioso Vajrasattva transmitiram a Garab Dordje, o mestre supremo, o m\u00e9todo que permite progredir na Via da ess\u00eancia do Atiyoga. Desejoso de esclarecer um pouco o n\u00e9ctar desses ensinamentos, eu rogo \u00e0s d\u00e2kinis que me d\u00eaem a sua permiss\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>3. Dever\u00edamos constantemente treinar nossas mentes na qu\u00e1drupla mudan\u00e7a de atitude, e n\u00e3o nos afastar jamais desse yoga que nos torna conscientes do fato de que nossa presen\u00e7a enquanto tal n\u00e3o \u00e9 diferente do nosso mestre verdadeiro. A raiz de tal pr\u00e1tica consiste em perseverar nesta presen\u00e7a da mente, atentos e livres de distra\u00e7\u00e3o, quer estejamos comendo, ou simplesmente sentados, ou ent\u00e3o caminhando, e mesmo dormindo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>4. Para o dia e para a noite, existe certamente uma pr\u00e1tica cotidiana principal que opera formando um ciclo perp\u00e9tuo. A pr\u00e1tica do dia concerne \u00e0s atividades dos tr\u00eas momentos (comer, sentar-se e caminhar), e comporta tr\u00eas temas: compreender, estabilizar e progredir.<\/strong><\/p>\n<p><strong>5. \u00c9 preciso em primeiro lugar compreender o que ainda n\u00e3o compreendemos: que todas as coisas que podemos ver ou ouvir, absolutamente todas s\u00e3o no entanto, imagens falsas a despeito de sua diversidade, e podemos concluir de maneira decisiva que esses fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o mais que a exibi\u00e7\u00e3o m\u00e1gica da mente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>6. A natureza da mente \u00e9 vazia desde sempre, e n\u00e3o \u00e9 submetida a um eu. Ela n\u00e3o tem nada de concreto, e sua apar\u00eancia \u00e9 pura claridade luminosa, \u00e9 indefect\u00edvel (e n\u00e3o se interrompe nunca), como a lua que pode se refletir em todas as superf\u00edcies de \u00e1gua (espelhadas). Eis a \u00faltima presen\u00e7a pura da sabedoria primordial no interior da qual o vazio e a claridade n\u00e3o criam nenhuma dualidade. Esta sabedoria primordial \u00e9 em si mesma perfeita, naturalmente espont\u00e2nea: isto \u00e9 o que precisamos compreender.<\/strong><\/p>\n<p><strong>7. Quando reconhecermos que as apar\u00eancias (exteriores) n\u00e3o s\u00e3o mais que ornamentos (ou embelezamentos) da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, as percep\u00e7\u00f5es dos seis agregados sensoriais, relaxados e alertas, se auto-liberam ao encontrar sua condi\u00e7\u00e3o original (da qual eles surgem).<\/strong><\/p>\n<p><strong>8. Quando reconhecermos que as apar\u00eancias e a pura presen\u00e7a s\u00e3o insepar\u00e1veis, os pensamentos que se apegam \u00e0 dualidade do sujeito e do objeto se auto-liberam, reencontrando sua condi\u00e7\u00e3o original (da qual surgiram). Al\u00e9m do mais, os m\u00e9todos de auto-libera\u00e7\u00e3o pela aten\u00e7\u00e3o nua, da auto-libera\u00e7\u00e3o das emerg\u00eancias e da auto-libera\u00e7\u00e3o em si, s\u00e3o os meios de progredir na pr\u00e1tica de acordo com os objetivos aos quais esse yoga se prop\u00f5e.<\/strong><\/p>\n<p><strong>9. A consci\u00eancia que surge no primeiro instante furtivo (do contato sensorial) \u00e9 certamente esta pura presen\u00e7a aparecendo sem corre\u00e7\u00e3o (nem modifica\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o-criada (por qualquer causa que seja). Esta condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia em si, que transcende os limites do sujeito e do objeto, \u00e9 a verdadeira sabedoria primordial espont\u00e2nea da pura presen\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong>10. Quanto a esta pura presen\u00e7a, os tr\u00eas aspectos de Samantabhadra nela figuram real e completamente: despida de toda e qualquer marca c\u00e1rmica, sua ess\u00eancia, o dharmakaya, \u00e9 a vacuidade; livre de pensamentos e de conceitos, sua natureza, o sambhogakaya, \u00e9 a claridade; despida de todos os desejos e apegos, sua energia, o nirmanakaya, \u00e9 indefect\u00edvel (e nunca se interrompe).<\/strong><\/p>\n<p><strong>11. No instante preciso em que uma tal consci\u00eancia chega \u00e0 exist\u00eancia, ficamos inteiramente livres dos pensamentos dualistas que funcionam com um sujeito e um objeto e do mesmo modo (as apar\u00eancias exteriores) surgem como manifesta\u00e7\u00e3o da claridade sem que os conceitos e os julgamentos fa\u00e7am parte. As apar\u00eancias se apresentam no estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>12. Pelo fato desta consci\u00eancia incondicionada, natural e instant\u00e2nea reencontrar a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia como reencontramos nossa m\u00e3e, a (n\u00f3s a chamamos) dharmakaya. Permanecer nesta condi\u00e7\u00e3o de pura presen\u00e7a espont\u00e2nea e perfeita em si mesma, \u00e9 o estado natural da grande perfei\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>13. No que concerne \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o (de nossa pr\u00e1tica, o d\u00e9cimo segundo tema): n\u00f3s progrediremos na Via gra\u00e7as a tr\u00eas instru\u00e7\u00f5es: sobre a integra\u00e7\u00e3o, sobre o repouso na presen\u00e7a e sobre o progresso da pr\u00e1tica. Para o primeiro m\u00e9todo, o da integra\u00e7\u00e3o, vejamos: sentados confortavelmente e completamente relaxados, integramos (nossa consci\u00eancia) ao c\u00e9u \u00e0 nossa frente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>14. Quando estamos assim estabelecidos num estado de repouso e alertas, sem distra\u00e7\u00e3o e sem medita\u00e7\u00e3o fabricada, esta consci\u00eancia inicial semelhante ao c\u00e9u (claro e vazio) \u00e9 tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o despida de todo apego, sem que os conceitos e os julgamentos intervenham. N\u00e3o h\u00e1 mais que uma claridade luminosa, ou ainda, uma pura presen\u00e7a, como um momento de espanto\/assombro profundo. Esta pura presen\u00e7a surge de maneira simples e nua, sem dualidade nem distin\u00e7\u00e3o entre o estado de calma e o estado de movimento dos pensamentos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>15. Perseverando na contempla\u00e7\u00e3o, sem cair nem na sonol\u00eancia nem na agita\u00e7\u00e3o, acabamos por nos encontrar em um estado de presen\u00e7a claro, vivo e profundo. Quanto a prolongar este estado de contempla\u00e7\u00e3o, ele pode nos conduzir ao encontro dos pensamentos, de afast\u00e1-los, de provocar a repeti\u00e7\u00e3o, ou ainda, de a\u00ed nos deter: eles ficar\u00e3o sempre em sua condi\u00e7\u00e3o original (desde que surjam), sem nos distrair e ent\u00e3o se liberar\u00e3o por si mesmos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>16. Quando atingimos este estado e sa\u00edmos do per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o propriamente dito, nossa estabilidade (na pr\u00e1tica) \u00e9 medida por nossa aptid\u00e3o em nos dar conta se estamos ou n\u00e3o submetidos ao poder dos pensamentos condicionantes. Durante a medita\u00e7\u00e3o, as experi\u00eancias (surgem espontaneamente) como o jorrar da luz do sol ou da lua. Essas experi\u00eancias, semelhantes \u00e0s vis\u00f5es ou modifica\u00e7\u00f5es da respira\u00e7\u00e3o, est\u00e3o livres do condicionamento dos conceitos (ou julgamentos) no momento mesmo em que aparecem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>17. Para as experi\u00eancias que podem se produzir ap\u00f3s o per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o, vejamos: \u00e9 poss\u00edvel que todas as apar\u00eancias nos pare\u00e7am ilus\u00f3rias, ou ent\u00e3o que n\u00f3s as consideremos todas como vazias. Seremos talvez capazes de permanecer em um estado de pura presen\u00e7a e ele nos parecer\u00e1 livre de pensamentos discursivos, ou ainda, teremos a impress\u00e3o de poder agir sem cometer o menor erro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>18. Falamos de nossa dimens\u00e3o total: reconhecendo que os objetos exteriores e as an\u00e1lises que fazemos, (de um lado), e os pensamentos exatos ou discursivos (de outro) s\u00e3o vazios, n\u00f3s reencontraremos o supremo dharmakaya, a natureza mesma da mente. Como esta (condi\u00e7\u00e3o) n\u00e3o \u00e9 de nenhuma maneira contaminada pelos pensamentos, as caracter\u00edsticas, nem as cogni\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma pura consci\u00eancia inicial, isenta do v\u00e9u dos pensamentos discursivos, que acabamos por atingir.<\/strong><\/p>\n<p><strong>19. Os v\u00e9us de nossos pensamentos e nossas marcas c\u00e1rmicas est\u00e3o agora completamente dissolvidos e nossas paix\u00f5es n\u00e3o escapam mais ao nosso controle. E assim sendo, mesmo se n\u00f3s, que somos (indiv\u00edduos comuns), formos transportados al\u00e9m de todos os mundos do samsara, dizemos que pertencemos \u00e0 fam\u00edlia dos seres sublimes (arhat).<\/strong><\/p>\n<p><strong>20. Agora as instru\u00e7\u00f5es sobre o repouso na presen\u00e7a: qualquer que seja o momento em que surjam as apar\u00eancias, e qualquer que seja seu modo de surgir, (dever\u00edamos) sem nenhuma corre\u00e7\u00e3o nem modifica\u00e7\u00e3o (consider\u00e1-los) como simples ornamentos, ou enfeites, do estado primordial em-si (a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia). Neste estado, nossa pura presen\u00e7a interior se encontra n\u00e3o corrigida, clara, viva e nua. Assim, enquanto alertas, repousamos (relaxamos) na presen\u00e7a (quando surgirem pensamentos), n\u00f3s os deixamos repousar (relaxar) em sua condi\u00e7\u00e3o original, justamente por aquilo que eles s\u00e3o. (vazios)<\/strong><\/p>\n<p><strong>21. Os objetos das seis faculdades sensoriais: quando se apresentam simplesmente como ornamentos (deste estado de presen\u00e7a), de maneira clara, sem nenhuma obstru\u00e7\u00e3o e sem an\u00e1lise intelectual, esses objetos s\u00e3o ent\u00e3o inteiramente perfeitos justamente como eles s\u00e3o: enquanto g\u00eanio inventivo da pura presen\u00e7a despida de qualquer pris\u00e3o (aos conceitos e julgamentos). Quando buscamos este estado sem dualidade, falamos de relaxar na presen\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p><strong>22. Prolongando o per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o e sem analisar os objetos dos cinco sentidos, (permitimos \u00e0s apar\u00eancias de) surgir claramente, sob a forma de luz, permanecendo relaxados e alertas, sem ceder \u00e0 distra\u00e7\u00e3o nem ao agarramento (aos conceitos e julgamentos). Em seguida, concluindo o per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o, uma consci\u00eancia primordial se manifestar\u00e1 na base de um ou de outro dos objetos sensoriais: todas as apar\u00eancias (materiais ou n\u00e3o) parecer\u00e3o ent\u00e3o desprovidas de realidade concreta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>23. Quando surgem os pensamentos discursivos surgidos dos cinco venenos, enfrentamo-los com vigil\u00e2ncia, permanecendo relaxados (repousados) e livres da apreens\u00e3o ou do apego (aos conceitos e julgamentos). (Por outro lado) dever\u00edamos tentar n\u00e3o bloque\u00e1-los com qualquer ant\u00eddoto que seja, nem transform\u00e1-los por meio de um m\u00e9todo. (N\u00e3o estando nem bloqueadas nem transformadas), as paix\u00f5es que surgem na Via se liberam por si mesmas na pura presen\u00e7a da sabedoria primordial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>24. As poss\u00edveis experi\u00eancias durante a pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o se apresentam como claridade e vacuidade. Nos encontraremos num estado de vis\u00e3o e vacuidade, ou ainda em um estado de movimento cont\u00ednuo de pensamento e vacuidade, ou ainda em um estado de sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel e vacuidade. Assim, diversas experi\u00eancias conscientes da presen\u00e7a de prazer, de claridade e de n\u00e3o-discursividade s\u00e3o poss\u00edveis.<\/strong><\/p>\n<p><strong>25. Do ponto de vista da dimens\u00e3o total de nossa exist\u00eancia: compreendendo que todos os fen\u00f4menos s\u00e3o o dharmakaya, esta consci\u00eancia n\u00e3o corrigida do estado de exist\u00eancia tal que em si mesma se mant\u00e9m aqui, presente como uma esfera perfeita, completa e livre de dualidade. Conseq\u00fcentemente (\u00e9 dito que) unimos a dimens\u00e3o da sabedoria primordial, e que \u00e9 uma sabedoria primordial de luminosidade que est\u00e1 ent\u00e3o presente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>26. Pois os objetos que percebemos s\u00e3o de fato manifesta\u00e7\u00f5es de nossa real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia, nossas paix\u00f5es e nossos v\u00e9us se acham purificados. Pelo fato mesmo da presen\u00e7a desta sabedoria primordial de pura presen\u00e7a, nos livramos de todo empreendimento negativo. E pelo fato de que estamos liberados de nossas paix\u00f5es, de nossas marcas c\u00e1rmicas e de nossos v\u00e9us, dizemos que pertencemos \u00e0 fam\u00edlia dos nobres (arya) bodhisatvas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>27. Chegamos aos progressos na pr\u00e1tica (o terceiro ponto a considerar): em um estado n\u00e3o corrigido, espontaneamente perfeito, esta consci\u00eancia inicial instant\u00e2nea permanece presente e n\u00e3o modificada. Trata-se de uma pura presen\u00e7a n\u00e3o discursiva, luminosa e viva. Assim a continuidade de nossa consci\u00eancia permanece est\u00e1vel e n\u00e3o distra\u00edda.<\/strong><\/p>\n<p><strong>28. Quando a sess\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o prossegue sem sonol\u00eancia, nem agita\u00e7\u00e3o, tudo aparece como vacuidade, a real condi\u00e7\u00e3o de nossa exist\u00eancia. Em seguida, uma vez terminado o per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o, dever\u00edamos, sem que os pensamentos nos condicionem, permanecer no estado da natureza da mente, tal como ele \u00e9 em si-mesmo.<\/strong><br \/>\n<strong> 29. Para as poss\u00edveis experi\u00eancias durante a medita\u00e7\u00e3o, pelo fato de que nos encontramos (constantemente) em um estado n\u00e3o dual, quer meditemos ou n\u00e3o, todas as apar\u00eancias surgem como simples manifesta\u00e7\u00e3o da energia de nossa contempla\u00e7\u00e3o. A real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de todos os fen\u00f4menos, tais como s\u00e3o, se apresenta sem deixar (abandonar) a situa\u00e7\u00e3o primordial que, naturalmente, se mostra.<\/strong><\/p>\n<p><strong>30. Em nossa dimens\u00e3o total: todos os fen\u00f4menos vis\u00edveis e invis\u00edveis se encontram totalmente purificados no estado de sua real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia. Unimo-nos, desse modo, \u00e0 dimens\u00e3o suprema da n\u00e3o dualidade, que \u00e9 uma sabedoria primordial suprema, de modo nenhum revestida (das atividades da mente), que est\u00e1 ent\u00e3o presente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>31. Completamente purificados de nossos v\u00e9us cognitivos, atingimos assim o conhecimento de todos os fen\u00f4menos, tais como s\u00e3o muito simplesmente, em sua real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia. Ficamos totalmente liberados de toda dualidade quanto \u00e0quele que compreende e \u00e0quilo que \u00e9 compreendido, e dizemos que pertencemos \u00e0 fam\u00edlia dos oniscientes tath\u00e2gatas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>32. Agora, no que concerne ao nosso avan\u00e7o no caminho por meio da pr\u00e1tica da noite, dever\u00edamos treinar em duas pr\u00e1ticas: uma \u00e0 noite, no momento de dormir, e outra de manh\u00e3, no momento de despertar. \u00c0 noite (antes de dormir), dever\u00edamos deixar os sentidos se colocarem em uma situa\u00e7\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Em seguida, dever\u00edamos integrar esta pr\u00e1tica da concentra\u00e7\u00e3o ao sono.<\/strong><\/p>\n<p><strong>33. No momento de adormecer, visualizamos entre nossas sobrancelhas uma letra A branca ou ent\u00e3o uma pequena esfera de luzes de cinco cores. A visualiza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 clara e ter\u00e1 mais ou menos o tamanho dum pequeno gr\u00e3o de ervilha. Come\u00e7aremos por fixar a\u00ed nossa aten\u00e7\u00e3o, depois, relaxando ligeiramente nossa aten\u00e7\u00e3o, nos deixaremos deslizar para o sono.<\/strong><\/p>\n<p><strong>34. Quando adormecemos em um estado onde os seis agregados sensoriais encontram-se relaxados e alertas em sua condi\u00e7\u00e3o original, a fuligem dos pensamentos discursivos n\u00e3o pode sujar a vigil\u00e2ncia, e a clara luz natural aparece. Encontramo-nos assim na presen\u00e7a de nossa real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia sem o menor pensamento discursivo (e distra\u00eddo).<\/strong><\/p>\n<p><strong>35. Ou ainda, quando observamos esta consci\u00eancia instant\u00e2nea (no momento preciso em que ela surge), n\u00e3o encontramos absolutamente nada que possamos dizer tratar-se da calma ou do movimento do pensamento. Assim, quando nos encontramos em um estado de presen\u00e7a alerta e fremente, nos colocamos em um estado de consci\u00eancia calmo e tranq\u00fcilo e adormecemos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>36. \u00c9 o processo de adormecimento que provoca a entrada na claridade da condi\u00e7\u00e3o real da exist\u00eancia. (Nossos sentidos) encontram-se ent\u00e3o completamente reabsorvidos no dharmadh\u00e2tu, em um estado de pura presen\u00e7a. Porque, mesmo que seja longo o processo de adormecimento, somos sempre suscet\u00edveis de nos encontrar no estado desta \u00fanica condi\u00e7\u00e3o real de exist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>37. Somos completamente liberados das marcas c\u00e1rmicas do corpo material, das marcas c\u00e1rmicas da vis\u00e3o e das marcas c\u00e1rmicas das atividades mentais, e nenhuma outra atividade da mente se apresentar\u00e1 (antes de come\u00e7ar o estado de sonho). Continuamos nos encontrando na presen\u00e7a do estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. E assim, teremos a experi\u00eancia de um certo grau de fus\u00e3o com a clara luz natural.<\/strong><\/p>\n<p><strong>38. (No momento em que efetivamente) adormecemos, nenhum pensamento discursivo aparecer\u00e1 e nosso estado de pura presen\u00e7a se reabsorver\u00e1 na sua \u201cm\u00e3e\u201d (a clara luz natural): nos encontraremos presentes no estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. Em seguida a este per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o (a clara luz natural em si-mesma), reconheceremos nossos sonhos como sonhos quando entrarmos no estado de sonho. Seremos liberados de todas as ilus\u00f5es, e (os sonhos) se apresentar\u00e3o amigavelmente para nos ajudar, como nossa dimens\u00e3o e nossa sabedoria primordial.<\/strong><\/p>\n<p><strong>39. Cedo pela manh\u00e3, (imediatamente ao despertar), surge uma sabedoria primordial que, n\u00e3o corrigida e presente em sua condi\u00e7\u00e3o original. Permanecendo sem distra\u00e7\u00e3o neste estado natural e sem meditar sobre o que seja isso, nos encontramos tranq\u00fcilamente presentes, de nenhum modo perturbados pelo menor pensamento discursivo. Eis o que chamamos o estado do Guru Samantabhadra.<\/strong><\/p>\n<p><strong>40. Olhando bem diante deste estado (de pura presen\u00e7a) buscamos com toda aten\u00e7\u00e3o \u201cquem\u201d, pois, est\u00e1 meditando. N\u00e3o encontrando nada de reconhec\u00edvel (ou confirm\u00e1vel) como tal, \u00e9 a sabedoria primordial clara, nua e nascida dela mesma que emerge se auto-liberando dos surgimentos (das emerg\u00eancias). Uma consci\u00eancia primordial n\u00e3o-dual est\u00e1 ent\u00e3o presente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>41. Nesse momento, encontramo-nos al\u00e9m de qualquer vis\u00e3o objetiva e transcendendo todos os pensamentos discursivos que se apegam \u00e0 dualidade, uma consci\u00eancia primordial livre da discursividade se faz ent\u00e3o claramente evidente. Somos conscientes, e uma sabedoria primordial de claridade, n\u00e3o manchada (pelos pensamentos discursivos), revela-se ent\u00e3o claramente. N\u00e3o h\u00e1 dualidade (entre sujeito e objeto) e uma sabedoria primordial de sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel se exprime ent\u00e3o claramente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>42. E como chegamos a compreender que todos os fen\u00f4menos sejam em si-mesmos, e efetivamente, a verdadeira condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, \u00e9 uma sabedoria primordial, de nenhuma maneira err\u00f4nea, que se torna ent\u00e3o supremamente manifesta.<\/strong><\/p>\n<p><strong>43. Quando praticamos dia e noite a ess\u00eancia deste yoga, \u00e9 a dimens\u00e3o da vida inteira que entra em contempla\u00e7\u00e3o. Quando estivermos familiarizados com a pr\u00e1tica, nossas paix\u00f5es far\u00e3o parte da Via (como alguma coisa \u00fatil). Realizando as tr\u00eas dimens\u00f5es de nossa exist\u00eancia, certamente levaremos ao auge a realiza\u00e7\u00e3o para o bem dos seres, cujo n\u00famero evoca a imensid\u00e3o do c\u00e9u.<\/strong><\/p>\n<p><strong>44. Nosso grau de familiariza\u00e7\u00e3o (com esta pr\u00e1tica \u00e9 medido com o nosso poder de) reconhecer que nossos sonhos s\u00e3o sonhos mesmo quando dormimos. Nosso apego \u00e0s sensa\u00e7\u00f5es de prazer e de dor (ser\u00e1 ent\u00e3o dominado cada dia), e nos encontramos em um estado de integra\u00e7\u00e3o de modo nenhum encoberto (por conceitos e julgamentos). Na presen\u00e7a da sabedoria primordial, todas as apar\u00eancias surgem como amigas (que podem nos ajudar na Via). A continuidade da ilus\u00e3o \u00e9 interrompida e eis-nos aqui na presen\u00e7a do estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>45. Como o adepto do Atiyoga fica dia e noite sem sair deste estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, \u00e9 dito que ele ou ela pode atingir a budeidade entre duas respira\u00e7\u00f5es. Assim falou Garab Dorje, esse grande ser.<\/strong><\/p>\n<p><strong>46. Para as paix\u00f5es que surgem no caminho (como algo \u00fatil \u00e0 pr\u00e1tica), as encontramos presentes no estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia sem classificar os fen\u00f4menos (em bons ou maus). Todos est\u00e3o presentes no interior da consci\u00eancia total, e n\u00e3o h\u00e1 tra\u00e7o de conceitua\u00e7\u00e3o nesse lugar: reconhecemos ent\u00e3o que a ilus\u00e3o (em si mesma n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o) a discursividade. Os fen\u00f4menos se manifestam (n\u00e3o discursivamente) como a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia tal como ela simplesmente \u00e9.<\/strong><\/p>\n<p><strong>47. Todos os fen\u00f4menos aparecem assim como os objetos dos seis agregados sensoriais, est\u00e3o presentes em toda claridade e luminosidade, e eles n\u00e3o tem substancialidade. \u00c9 exatamente por isso que reconhecemos na raiva as marcas evidentes da claridade e a ira se manifesta agora como sabedoria primordial da claridade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>48. Tudo o que se manifesta no exterior \u00e9 a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia e, no interior, a pura presen\u00e7a e sabedoria primordial. Como uma sensa\u00e7\u00e3o de grande felicidade, a qual ignora as distin\u00e7\u00f5es dualistas, \u00e9 uma encarna\u00e7\u00e3o da energia, reconhecemos que o desejo representa de fato o g\u00eanio inventivo da grande felicidade. Manifesta-se ent\u00e3o uma sabedoria primordial da sensa\u00e7\u00e3o de grande felicidade, espontaneamente auto-perfeita e livre de toda limita\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>49. Ainda mais, todos os seres progridem por interm\u00e9dio das tr\u00eas dimens\u00f5es de nossa exist\u00eancia. De outro modo, as tr\u00eas paix\u00f5es que nos envenenam se manifestam integralmente como a dimens\u00e3o de nossa exist\u00eancia, assim como a sabedoria primordial que lhe \u00e9 inerente. Por esta mesma raz\u00e3o, tudo o que surge por causa das paix\u00f5es se apresenta tamb\u00e9m como nossa dimens\u00e3o da exist\u00eancia e a sabedoria primordial espont\u00e2nea que lhe \u00e9 inerente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>50. Como o que chamamos \u201cemo\u00e7\u00f5es\u201d n\u00e3o mais existem, igualmente n\u00e3o existem mais as causas da transmigra\u00e7\u00e3o no samsara. Sobre esse assunto, al\u00e9m disso, se quisermos chamar esta condi\u00e7\u00e3o de \u201cnirvana\u201d, se tratar\u00e1 ainda e somente das m\u00faltiplas qualidades virtuosas (de nosso estado primordial de budeidade) que se manifestam espontaneamente em sua auto-perfei\u00e7\u00e3o sem que nenhuma corre\u00e7\u00e3o ou modifica\u00e7\u00e3o lhes seja feita. Como o sol que se eleva no c\u00e9u, podemos falar aqui da pura claridade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>51. A prop\u00f3sito deste m\u00e9todo: a esfera de atividade dos praticantes deveria incluir as cinco atitudes seguintes: vontade de participar, esfor\u00e7o sustentado, presen\u00e7a ativa, concentra\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia. Quaisquer que sejam as instru\u00e7\u00f5es do ve\u00edculo supremo (do Atiyoga) que recebemos, dever\u00edamos saber como realizar as condi\u00e7\u00f5es harmoniosas que nos permitir\u00e3o reunir e perfazer (essas cinco aptid\u00f5es).<\/strong><\/p>\n<p><strong>52. Tendo dito tudo isso, e pela virtude dessas breves palavras que produzem apenas um pouco do n\u00e9ctar do estado do mestre Kunzang Garab Dorje, possamos, eu e todos os seres, cujo n\u00famero \u00e9 igual a imensid\u00e3o do c\u00e9u, e que est\u00e3o ligados a mim (carmicamente e espiritualmente), atingir rapidamente o estado do vitorioso Jina Samantabhadra!<\/strong><\/p>\n<p>Este texto destinado \u00e0queles que desejam participar do supremo ve\u00edculo do dzogchen, foi escrito em mem\u00f3ria de Paul Anderson, que nos deixou em completa paz. \u00c9 por isso que estamos em retiro na Comunidade Dzogchen de Conway, no leste americano, este texto foi escrito pelo praticante do dzogchen Namkha\u00ef Norbu, no terceiro dia do nono m\u00eas do ano do porco d\u2019\u00e1gua, dia de boa fortuna, seguramente!<br \/>\nConway, Massachusetts,<br \/>\n09 de outubro de 1983<\/p>\n<p>\u00c0 pedido de Namkha\u00ef Norbu Rinpoche, e em colabora\u00e7\u00e3o com os membros da Comunidade Dzogchen de Conway, esse texto sobre a pr\u00e1tica cont\u00ednua da contempla\u00e7\u00e3o dzogchen foi traduzido para o ingl\u00eas por Vajran\u00e2tha, John Myrdhin Reynolds. Para a edi\u00e7\u00e3o francesa, foi traduzido diretamente do tibetano por Patrick Carr\u00e9.<br \/>\nSarvamangabam!<\/p>\n<p>NOTAS:<br \/>\n1. Kun-bzang \u2018gro-\u2018dul \u2018od-gsal klong-yangs rdor-rje, nascido em (1898-)<br \/>\n2. sNang-mdzod grub-pa\u2019i rdo-rje, nascido em (1900 -)<br \/>\n3. \u2018Gvo-\u2018dul dpa\u2019-bo rdo-rje, (1842-1924)<br \/>\n4. rDza dPal-sprul Rin-po-che, O-rgyan\u2019jigs-med chos kyi dbang-po, (1808-1887)<br \/>\n5. Durante os retiros de ver\u00e3o, ele ensinava os rdzogs-chen, e durante os retiros de inverno, o rtsa-rlung, o yoga dos canais e das energias.<br \/>\n6. rTogs-idan designa \u201caquele ou aquela que compreendeu\u201d, a palavra \u00e9 mais ou menos sin\u00f4nimo de rnal-\u2018byor-pa, \u201cyogui\u201d.<br \/>\n7. rGyal-ba Karmapa, Rang-\u2018byung rig-pa\u2019i rdo-rje (1924-1981)<br \/>\n8. Padma dbang-mchog rgyal-po (1886-1952)<br \/>\n9. Thugs-kyi sprul-sku<br \/>\n10. Ngag-dbang rnam-rgyal, (1594-1651)<br \/>\n11. Kun-dga\u2019 dpal-idan, (1878-1950)<br \/>\n12. \u2018Jam-dbyangs chos kyi dbang-phyng, (1910-1973)<br \/>\n13. \u2018Jam-dbyangs blo-gros rgya-mtsho, (1902-1952)<br \/>\n14. dbang dang khrid<br \/>\n15. gZhung-chen bcu-gsum. A saber:<br \/>\nO Pratimokshas\u00fbtra, O Vinayas\u00fbtra de Gunaprabha,<br \/>\nO Abhidharmasamuccaya de Asanga, O Abhidharmakosha de Vasubandhu,<br \/>\nO Madhyamakavatara de Chandrakirti, Os Mulamadhyamakakarika de Nagarjuna,<br \/>\nOs Catuhshataka de Aryadeva, O Bodhi\u00e7aryavatara de Shantideva.<br \/>\nE os cinco tratados maiores de Maitreya-Asanga:<br \/>\nO Abhisamayalankara,<br \/>\nO Mahayanasutralankara,<br \/>\nO Madhyantavibhanga,<br \/>\nO Dharmadharmatavibhanga,<br \/>\nO Uttaratantra<br \/>\n16. gZhan-phan chos-kyi snang-ba<br \/>\n17. Dus-\u2018Khor \u2018grel-chen<br \/>\n18. rGyud-bzhi<br \/>\n19. rTsis dkar-nag<br \/>\n20. Gur-brtag sam-gsum<br \/>\n21. Yongs-\u2018dzim mchog-sprul kun-dga\u2019 grags-pa, 1922 \u2013<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>COMENT\u00c1RIOS<\/strong><br \/>\n<em><strong> (AP\u00d3S AS EXPLICA\u00c7\u00d5ES ORAIS DE NAMKHA\u00cf NORBU RINPOCHE)<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>T\u00cdTULO<\/strong><\/p>\n<p>Este texto se chama em tibetano [gdod-ma\u2019i rnal-\u2018byor-gyi lam-khyer nyin-mtshan \u2018khor-lo-ma]. [gDod-ma\u2019i rnal-\u2018byor] que significa \u201cYoga Primordial\u201d e designa o conhecimento do estado primordial do indiv\u00edduo, em tibetano rig-pa, \u201cpresen\u00e7a pura\u201d, \u201cconsci\u00eancia enquanto tal\u201d. A express\u00e3o yoga primordial \u00e9 sin\u00f4nimo de Atiyoga ou Dzogchen. Traduzimos geralmente esse \u00faltimo termo por \u201cgrande perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Aqui, esses ensinamentos s\u00e3o colocados em pr\u00e1tica: [lam-khyer] significa \u201csobrepujar a vis\u00e3o\u201d. Como n\u00e3o se trata unicamente de uma pr\u00e1tica de retiro, mas sobretudo de uma pr\u00e1tica cont\u00ednua, visando o dia e a noite, comparamo-la \u00e0 uma roda, a um \u201cciclo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>HOMENAGEM<\/strong><\/p>\n<p>1. Ao t\u00edtulo segue-se a homenagem aos mestres e duas estrofes de invoca\u00e7\u00e3o. O autor invoca aqui seu mestre principal, Changchub Dorge do campo de Nyala, no principado de Dergue no Tibete oriental. Foi esse mestre que revelou ao autor o significado essencial do dzogchen com uma experi\u00eancia imediata, e n\u00e3o de maneira intelectual. Depois ele invoca seu tio, Orgien Tendzin, que foi seu primeiro mestre, e enfim Dorje Paldr\u00f6n (Ayou Khandro) que lhe transmitiu os preceitos da grande perfei\u00e7\u00e3o segundo o Yangtik e outros ensinamentos.<\/p>\n<p>2. Todos os ensinamentos est\u00e3o ligados a uma transmiss\u00e3o. No dzogchen, esses ensinamentos t\u00eam sua origem no Budha Primordial Samantabhadra, o aspecto dharmakaya do despertar. Este os transmite diretamente de sua mente a mente de Vajrasattva, o aspecto sambhogakaya do despertar. Este por sua vez os transmite usando gestos simb\u00f3licos ao primeiro mestre humano do dzogchen, Prahevajra, ou Garab Dordje, o aspecto nirmanakaya. Garab Dordje transmitiu oralmente os ensinamentos \u00e0 Manjushr\u00eemitra para que este pudesse, enquanto fosse poss\u00edvel, explicar o sentido dos preceitos do dzogchen, assim como \u00e0s d\u00e2kinis que s\u00e3o as guardi\u00e3s desses ensinamentos. As d\u00e2kinis, que s\u00e3o seres femininos iluminados, foram encarregadas de compilar os preceitos do dzogchen que haviam recebido de Garab Dordje, compondo os textos esot\u00e9ricos chamados tantras. Esses tantras s\u00e3o classificados em tr\u00eas s\u00e9ries: a s\u00e9rie da mente [semde], a s\u00e9rie do espa\u00e7o [klong-sde] e a s\u00e9rie das instru\u00e7\u00f5es secretas [man-ngag-gi sde].<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PR\u00c1TICAS PRELIMINARES<\/strong><\/p>\n<p>3. Os praticantes do dzogchen deveriam come\u00e7ar por purificar o fluxo dos pensamentos, nossa corrente de consci\u00eancia, abrandando-os com a ajuda das quatro medita\u00e7\u00f5es que promovem uma mudan\u00e7a na nossa maneira de encarar a vida, a saber:<\/p>\n<p>I. A dificuldade de renascer no mundo humano;<br \/>\nII. A brevidade da vida;<br \/>\nIII. A universalidade do sofrimento no samsara;<br \/>\nIV. Karma: causas e efeitos.<\/p>\n<p>Concretamente, isso quer dizer que, seja qual for a nossa pr\u00e1tica, devemos permanecer conscientes. Se j\u00e1 conhecermos algumas pr\u00e1ticas, as prosterna\u00e7\u00f5es, por exemplo, mas por distra\u00e7\u00e3o ou por pregui\u00e7a, nunca as fazemos, \u00e9 necess\u00e1rio buscar a raz\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o praticamos porque somos inconscientes, porque ser consciente, aqui, \u00e9 n\u00e3o perder seu tempo. Ser consciente, tamb\u00e9m quer dizer que dever\u00edamos nos dar conta do valor dos ensinamentos, e da ocasi\u00e3o \u00fanica que nos oferece esta vida humana. \u00c9 desta tomada de consci\u00eancia que vem o reconhecimento dos efeitos que seguem-se \u00e0 perda desta ocasi\u00e3o \u00fanica que representa a preciosa exist\u00eancia humana. Eis tudo o que se encontra impl\u00edcito no que entendemos por \u201cser consciente\u201d.<br \/>\nQuando se trata de explicar essas quatro medita\u00e7\u00f5es, come\u00e7amos geralmente por mostrar a import\u00e2ncia de ter renascido entre os humanos. Para estudar os ensinamentos preliminares, o ng\u00f6ndro, \u00e9 preciso abordar, em todos os detalhes, cada uma das dezoito caracter\u00edsticas de uma exist\u00eancia humana dita \u201cpreciosa\u201d. Mas igualmente, dever\u00edamos estar conscientes que, mesmo se tomarmos renascimento humano no planeta Terra, esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o durar\u00e1 sempre; ela n\u00e3o \u00e9 eterna. Nos sutras h\u00e1 uma hist\u00f3ria de um mercador que se encontra a merc\u00ea das circunst\u00e2ncias em uma ilha toda de pedras preciosas no meio do vasto oceano e que regressa de m\u00e3os vazias porque n\u00e3o havia reconhecido nada. Quando por fim morrermos e nos encontrarmos no bardo, o estado que segue a morte e precede o renascimento, se vivemos sem a menor consci\u00eancia, se nunca apreciamos o valor da vida humana nem reconhecemos sua imperman\u00eancia, nossa condi\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 melhor do que a de um c\u00e3o. Em geral, encontramos nos textos budhistas uma an\u00e1lise muito detalhada da imperman\u00eancia do mundo e do indiv\u00edduo. Entretanto, o essencial aqui n\u00e3o consiste em memorizar o maior n\u00famero poss\u00edvel de ensinamentos, mas em permanecer consciente, em cada instante, da imperman\u00eancia universal.<br \/>\nIsso n\u00e3o impede que, mesmo consciente da brevidade da vida, se exercemos alguma a\u00e7\u00e3o positiva \u00e0 altura de nossa preciosa exist\u00eancia, acumulemos causas para um feliz renascimento pr\u00f3ximo. Se continuarmos tolamente a acumular causas negativas, estaremos ignorando a realidade do carma, que \u00e9 de uma import\u00e2ncia extrema, ent\u00e3o \u00e9 seguro e certo que experienciaremos seus efeitos, negativos tamb\u00e9m. Esse processo n\u00e3o tem outro resultado do que a transmigra\u00e7\u00e3o e o sofrimento em um ou outro dos renascimentos poss\u00edveis. Quando tomamos consci\u00eancia das causas e dos efeitos de nossos atos, assim como da universalidade do sofrimento no samsara, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que seremos ent\u00e3o motivados a praticar os ensinamentos do dharma, a via segura e certa da libera\u00e7\u00e3o e do despertar.<br \/>\nExercitar-se nessas quatro medita\u00e7\u00f5es, isso quer dizer, sobretudo tentar estar presente em todo momento e consciente em todas as circunst\u00e2ncias. Isso n\u00e3o significa somente ler livros budistas e ainda menos se comprazer em discuss\u00f5es intelectuais as mais sofisticadas. Alguns entre n\u00f3s, por exemplo, estudam o texto tibetano do ng\u00f6ndro, depois o praticam durante um longo per\u00edodo de tempo. N\u00e3o h\u00e1 nada de mal nisso: o ng\u00f6ndro s\u00e3o pr\u00e1ticas muito importantes. Abordamos essas quatro medita\u00e7\u00f5es estudando as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para uma preciosa exist\u00eancia humana \u2013 uma exist\u00eancia humana, pois, que reunir\u00e1 todas as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 pr\u00e1tica do dharma.<br \/>\nQuais s\u00e3o essas condi\u00e7\u00f5es? \u00c9 preciso de in\u00edcio escapar \u00e0s oito condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o oferecem a menor ocasi\u00e3o, o menor lazer para praticar o dharma. Um renascimento nos infernos, no reino dos pretas \u2013 ou esp\u00edritos famintos -, no reino dos animais, ou entre os b\u00e1rbaros que ignoram o dharma, no reino dos deuses cuja vida \u00e9 desmedidamente longa, ou ent\u00e3o no reino dos seres que tem vis\u00f5es fundamentalmente perversas, ou numa era que nenhum budha d\u00e1 a honra de seu aparecimento, ou enfim, um renascimento entre os homens, claro, mas em um corpo cujos sentidos e faculdades n\u00e3o funcionam. Essas oito condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o aus\u00eancias de liberdade, e seus contr\u00e1rios, ter\u00e3o ocasi\u00f5es favor\u00e1veis. Dez outras ocasi\u00f5es favor\u00e1veis s\u00e3o em seguida necess\u00e1rias, cinco dependendo do indiv\u00edduo e cinco n\u00e3o dependendo dele. Essas \u00faltimas concernem a apari\u00e7\u00e3o de um budha nesse mundo: um budha veio, ele ensinou o dharma, seu dharma existe ainda, empreendemos a pr\u00e1tica, e h\u00e1 outros seres vivos em todo mundo suscet\u00edveis de se tornar objetos da compaix\u00e3o do praticante. As cinco condi\u00e7\u00f5es que dependem do indiv\u00edduo resultam de sua situa\u00e7\u00e3o: \u00e9 um ser humano, nasceu num pa\u00eds onde o dharma \u00e9 acess\u00edvel, ele possui todos os sentidos, ele n\u00e3o vive de expedientes imorais ou criminosos, e ele tem f\u00e9 no seu mestre e nos ensinamentos dele. Nenhuma dessas condi\u00e7\u00f5es deve faltar.<br \/>\nPara terminar, quando os adeptos do ng\u00f6ndro fazem um retiro, seu mestre lhes ensina a meditar em cada um desses pontos, um por um, durante cerca de dezoito dias. \u00c9 isso que muitos praticantes t\u00eam feito, e \u00e9 bem isso que \u00e9 preciso fazer: meditar sobre cada uma dessas condi\u00e7\u00f5es e na argumenta\u00e7\u00e3o que \u00e9 estabelecida, uma ap\u00f3s outra, para melhor conhecer as dezoito condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 uma exist\u00eancia humana verdadeiramente preciosa. \u00c9 nisso que eles se exercitam.<br \/>\nNo dzogchen, entretanto, a consci\u00eancia n\u00e3o funciona dessa maneira. N\u00e3o h\u00e1 argumento \u00e0 fornecer e depois \u00e0 confirmar. As demonstra\u00e7\u00f5es, os esquemas de an\u00e1lise foram criados por mestres posteriores. Quando o budha Shakyamuni explicava o valor de uma vida humana e sua indubit\u00e1vel imperman\u00eancia, ele recorria a diferentes imagens: a nuvem n\u2019um c\u00e9u de outono, a torrente na montanha, a representa\u00e7\u00e3o teatral, a chama tremulante d\u2019uma lamparina de manteiga, e assim por diante. Tendo extra\u00eddo essas compara\u00e7\u00f5es dos sutras, que s\u00e3o as palavras do budha, os eruditos estabeleceram uma lista e as analisaram criando um m\u00e9todo de racioc\u00ednio sobre a imperman\u00eancia. N\u00e3o foi o pr\u00f3prio budha que apresentou essas compara\u00e7\u00f5es na forma de demonstra\u00e7\u00f5es. Ele tentava somente conduzir os diferentes seres a uma certa compreens\u00e3o da exist\u00eancia humana, e por isso recorria a m\u00e9todos diferentes. O princ\u00edpio aqui, n\u00e3o \u00e9, pois meditar nesses diversos argumentos, os quais tendem a provar a imperman\u00eancia de todas as coisas, em nossa vida, mas manter constantemente presente na mente esta consci\u00eancia da imperman\u00eancia de todas as coisas. Pouco importa como em nossa vida atual, o momento em que satisfazemos essas dezoito condi\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o \u00e9 isso que conta! Dever\u00edamos ser mais conscientes, de momento a momento, da ocasi\u00e3o \u00fanica que oferece um renascimento humano, afim de n\u00e3o deixa-lo passar em v\u00e3o. Nossa exist\u00eancia humana vale mais que a de um gato ou de um cachorro, na medida em que o ser humano sabe pensar e falar. O ser humano tem de longe uma capacidade maior de prejudicar que os gatos e os c\u00e3es: fabricando bombas at\u00f4micas, por exemplo. Mas os seres humanos t\u00eam tamb\u00e9m a capacidade de realizar o despertar no curso de sua vida, desse modo seus poderes s\u00e3o muito superiores aos dos animais. Eis o verdadeiro sentido da preciosa exist\u00eancia humana \u2013 seu potencial. A consci\u00eancia de nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o, bem como nossos limites e nossas capacidades, eis o sentido da aten\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia [dran-rig].<br \/>\nSe for preciso estudar nos textos a totalidade dessas an\u00e1lises, \u00e9 a\u00ed que o trabalho se complica, n\u00e3o somente para os tibetanos, por\u00e9m mais ainda, para os ocidentais. E \u00e9 assim que freq\u00fcentemente perdemos o verdadeiro sentido das coisas. \u00c9 isso que \u00e9 preciso evitar. Revela-se, pois necess\u00e1rio simplificar as coisas se quisermos colocar o dedo no que \u00e9 verdadeiramente importante. Ser consciente n\u00e3o se resume somente em praticar as quatro medita\u00e7\u00f5es que mencionamos; em princ\u00edpio, isso significa n\u00e3o estar distra\u00eddo e tentando fazer o melhor em qualquer circunst\u00e2ncia. E \u00e9 assim que treinamos em ficar conscientes e presentes. \u00c9 esse o sentido do \u201ctreinamento da mente\u201d; e as quatro medita\u00e7\u00f5es que acabamos de ver, destinadas a nos fazer mudar de atitude, constituem as pr\u00e1ticas preliminares comuns.<br \/>\nEm seguida vem as pr\u00e1ticas preliminares extraordin\u00e1rias, que t\u00eam por fun\u00e7\u00e3o nos fazer acumular karma merit\u00f3rio e nos purificar de nossos v\u00e9us. Para isso, \u00e9 preciso tomar ref\u00fagio nas tr\u00eas j\u00f3ias, cultivar a mente do despertar (bodhichitta), meditar sobre Vajrasattva recitando seu mantra, oferecer mandala e nos unir a todos os mestres no \u201cguru yoga\u201d. De todas essas pr\u00e1ticas, a mais importante \u00e9 o \u201cguru yoga\u201d, ou \u201cyoga do mestre\u201d.<br \/>\nOs ensinamentos como o tantra e a grande perfei\u00e7\u00e3o est\u00e3o ligados \u00e0 uma transmiss\u00e3o. A transmiss\u00e3o permite ao indiv\u00edduo compreender seu estado primordial ao n\u00edvel da experi\u00eancia imediata, por interm\u00e9dio de palavras ou de s\u00edmbolos, ou diretamente de mente para mente. O papel do mestre \u00e9 conduzir o praticante a reconhecer que a natureza de sua mente \u00e9 compar\u00e1vel a um espelho, e que os pensamentos que aparecem s\u00e3o compar\u00e1veis aos reflexos que surgem no espelho. Nossa pura presen\u00e7a, nossa consci\u00eancia intr\u00ednseca [rig-pa], \u00e9 an\u00e1loga ao poder que tem o espelho de refletir tudo o que passa diante dele, tanto o belo como o feio. Esses reflexos aparecem como propriedades, ou qualidades, do espelho. Mas, pelo fato de n\u00e3o percebemos a natureza do espelho, seu poder, tomamos os reflexos que aparecem como entidades s\u00f3lidas, exteriores e reais. Assim condicionados por esses reflexos, agimos de acordo com essa conclus\u00e3o err\u00f4nea para cair na transmigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mestre que mostra ao praticante a diferen\u00e7a que existe entre a mente, quer dizer os pensamentos, e a natureza da mente. Quando come\u00e7amos a apreender esta distin\u00e7\u00e3o, podemos seriamente falar de transmiss\u00e3o de conhecimento, um conhecimento que n\u00e3o \u00e9 somente compreens\u00e3o intelectual, mas experi\u00eancia real e concreta.<br \/>\nNo dzogchen, a palavra yoga n\u00e3o significa somente \u201cuni\u00e3o\u201d, mas designa, sobretudo aquele ou aquela que seria rica de conhecimento do seu estado natural, dito de outro modo aquele ou aquela que se encontrar\u00e1 na presen\u00e7a do conhecimento de sua condi\u00e7\u00e3o primordial chamada rig-pa, ou pura presen\u00e7a. Esta consci\u00eancia de nossa pura presen\u00e7a inata, ou consci\u00eancia intr\u00ednseca, \u00e9 o nosso mestre verdadeiro. Esta condi\u00e7\u00e3o tem por contr\u00e1rio a ignor\u00e2ncia. N\u00e3o dever\u00edamos jamais nos permitir abandonar este estado de consci\u00eancia. Os quatro momentos ou ocasi\u00f5es, aos quais faz referencia no texto tibetano s\u00e3o os momentos em que comemos, quando andamos, quando estamos sentados e quando dormimos. Como j\u00e1 dissemos, na grande perfei\u00e7\u00e3o, o essencial, \u00e9 n\u00e3o ficar distra\u00eddo e perseverar na presen\u00e7a desta consci\u00eancia vigilante.<br \/>\nTal \u00e9 a raiz da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PR\u00c1TICA DO DIA<\/strong><\/p>\n<p>4. Geralmente, na experi\u00eancia comum, o que gira constantemente, \u00e9 o ciclo do dia e da noite. \u00c9 por isso que existe uma pr\u00e1tica do dia e uma da noite.<br \/>\nPara a pr\u00e1tica do dia, consideramos tr\u00eas pontos principais: compreender a pr\u00e1tica, estabilizar a pr\u00e1tica e progredir na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>I. COMPREENDER A PR\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>5. O primeiro ponto consiste, pois em compreender a pr\u00e1tica, \u201ccompreender\u201d, n\u00e3o \u00e9 somente raciocinar e analisar, mas repousa na transmiss\u00e3o. Nossa vis\u00e3o \u00e9 uma maneira de ver, ou considerar as coisas cuja an\u00e1lise e as explica\u00e7\u00f5es podem fazer parte. Mas \u201ccompreens\u00e3o\u201d \u00e9, fundamentalmente, entrar no conhecimento desta vis\u00e3o por meio da experi\u00eancia. Quando n\u00e3o temos conhecimento concreto desse tipo, dependemos das descri\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es dos outros, as quais est\u00e3o sujeitas \u00e0 mudan\u00e7a.<br \/>\nCom o conhecimento real, todos os fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o mais que imagens irreais; n\u00e3o existem realmente e se parecem de prefer\u00eancia com os in\u00fameros reflexos em um espelho. O gatinho que ignora que a imagem na vidra\u00e7a \u00e9 seu reflexo tenta agarr\u00e1-la, como se tratasse dum companheiro real de brincadeiras.<br \/>\nNo dzogchen, compreendemos que todas as apar\u00eancias s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es vis\u00edveis do g\u00eanio inventivo da energia de \u201cbodhichitta\u201d, o estado primordial. Essas experi\u00eancias s\u00e3o qualifica\u00e7\u00f5es, ou ornamentos, deste estado: entrando verdadeiramente na sabedoria, n\u00e3o podemos duvidar disso. E podemos decidir de maneira definitiva que as apar\u00eancias s\u00e3o um prod\u00edgio m\u00e1gico da mente.<\/p>\n<p>6. A natureza da mente \u00e9 desde o inicio vazia e desprovida de eu ou subst\u00e2ncia. Mas n\u00e3o devemos imaginar que a mente \u00e9 um simples nada, pois ela tem a claridade e a limpidez de um espelho. Esta claridade existe indefectivelmente e sem interrup\u00e7\u00e3o, como a lua que se reflete na superf\u00edcie das \u00e1guas mais diversas. Os pensamentos aparecem na mente, \u00e9 essa a maneira da natureza da mente manifestar-se. Mas, do mesmo modo que \u00e9 preciso compreender os reflexos para compreender a natureza do espelho, \u00e9 preciso examinar os pensamentos para ver onde eles aparecem, onde permanecem e para onde v\u00e3o. Entretanto olhando bem, descobrimos que n\u00e3o h\u00e1 lugar preciso onde os pensamentos surgem, nem onde permanecem, nem para onde v\u00e3o. N\u00e3o podemos afirmar nada sobre esse assunto, e n\u00e3o encontramos sen\u00e3o o vazio ou vacuidade. Eis a ess\u00eancia da mente. E, portanto, mesmo sendo assim, os pensamentos continuam a surgir sem descanso. Eis porque o que encontramos ent\u00e3o \u00e9 uma sabedoria de pura presen\u00e7a, totalmente livre da dualidade que opor-se-ia \u00e0 vacuidade, por um lado, e a claridade, por outro lado. Esta sabedoria primordial tem uma natureza espontaneamente perfeita. Ao n\u00edvel da mente, esta n\u00e3o-dualidade \u00e9 imposs\u00edvel, porque a mente age no tempo e o estado de pura presen\u00e7a transcende tudo o que limita a mente.<\/p>\n<p>7. Quando reconhecemos que as apar\u00eancias s\u00e3o ornamentos da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, essas apar\u00eancias que se apresentam aos seis sentidos despertos, relaxados e alertas, s\u00e3o liberadas em si-mesmas em sua condi\u00e7\u00e3o original no momento em que aparecem. Os seis agregados sensoriais s\u00e3o os cinco sentidos, aos quais juntamos a mente. A presen\u00e7a das apar\u00eancias, anteriores \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de qualquer conceito ou julgamento \u00e9 chamada \u201cclaridade\u201d. Com as apar\u00eancias fazemos refer\u00eancia ao mundo exterior, enquanto \u00e9 o mundo das experi\u00eancias interiores que descrevem as emo\u00e7\u00f5es, ou paix\u00f5es, e as marcas c\u00e1rmicas. A manifesta\u00e7\u00e3o do estado interior da pura presen\u00e7a \u00e9 a sabedoria primordial. A auto-perfei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, a saber, suas qualidades essenciais, est\u00e3o sempre presentes ao aparecimento da pura presen\u00e7a; em outros termos, essas qualidades essenciais nunca lhe fazem falta, do mesmo modo que os raios n\u00e3o faltam ao Sol que se levanta. Nossas emo\u00e7\u00f5es aumentam de poder pelo simples fato de que, ignorando o estado de pura presen\u00e7a, corremos atr\u00e1s delas. Quando nos encontramos no estado de pura presen\u00e7a, as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o nos dominam mais, com efeito, n\u00e3o temos mais que reprimi-las, pois elas s\u00e3o como ornamentos de nosso estado primordial. Assim nossas emo\u00e7\u00f5es se auto-liberam, no instante mesmo em que aparecem, em sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria.<\/p>\n<p>8. As apar\u00eancias e a pura presen\u00e7a s\u00e3o insepar\u00e1veis. Reconhecendo isso, nos encontramos nesse estado, e os pensamentos discursivos que habitualmente aparecem na liga\u00e7\u00e3o dualista de sujeito e objeto s\u00e3o liberados em sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. N\u00e3o tentamos bloque\u00e1-los nem repeli-los de modo algum, mas ficamos simplesmente vigilantes na presen\u00e7a de seu surgimento.<br \/>\nSegundo suas capacidades, os praticantes recorrem a um ou outro dos tr\u00eas m\u00e9todos de auto-libera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>I. Auto-libera\u00e7\u00e3o pela aten\u00e7\u00e3o nua,<br \/>\nII. Auto-libera\u00e7\u00e3o apoiando-se no aparecimento de um pensamento,<br \/>\nIII. Auto-libera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>O termo [gcer] designa a \u201caten\u00e7\u00e3o \u00fanica, ou nua\u201d. Mas n\u00e3o se trata aqui da verdadeira auto-libera\u00e7\u00e3o, pelo fato de que mesmo nos observando recorremos ainda a uma certa dose de esfor\u00e7o. Quando um pensamento aparece, por exemplo, n\u00f3s o olhamos diretamente de frente pelo que ele \u00e9 e ele se libera por si mesmo.<br \/>\nO termo [shar] significa \u201caparecer\u201d. No momento em que um pensamento surge, ele \u00e9 auto-liberado. Quando, ent\u00e3o, observamos que um pensamento surge, n\u00e3o temos que fazer o esfor\u00e7o de olh\u00e1-lo diretamente de frente, mas, no instante preciso de seu surgimento, estando j\u00e1 no estado da presen\u00e7a de rig-pa o pensamento se auto-libera. A verdadeira auto-libera\u00e7\u00e3o tem lugar quando esta capacidade \u00e9 totalmente utilizada. Nesse ponto, estamos na continuidade do estado de rig-pa.<\/p>\n<p>9. Este par\u00e1grafo exprime a ess\u00eancia do nosso assunto. A consci\u00eancia que surge no primeiro instante do contato sensorial \u00e9 esta pura presen\u00e7a, manifestada sem modifica\u00e7\u00e3o nem corre\u00e7\u00e3o pela mente, e que n\u00e3o \u00e9 criada nem produzida por nenhuma causa. O que \u00e9 este estado de presen\u00e7a? \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia que transcende os limites do sujeito e do objeto; \u00e9 uma sabedoria primordial de pura presen\u00e7a, espont\u00e2nea e natural, ou aut\u00eantica. O termo [ainsit\u00e9=asseidade] designa o estado que caracteriza ao mesmo tempo a pureza primordial e a auto-perfei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea.<\/p>\n<p>10. No estado de pura presen\u00e7a, os tr\u00eas aspectos do estado de Samantabhadra se encontram inteiramente presentes. Esses tr\u00eas aspectos receberam os nomes de ess\u00eancia, natureza e energia. Assim, o estado de pura presen\u00e7a tem por ess\u00eancia o dharmakaya, a vacuidade. Esta ess\u00eancia una \u00e9 o fundamento essencial onde os fen\u00f4menos s\u00e3o todos id\u00eanticos. Dharma designa a totalidade do ser e kaya, a dimens\u00e3o desta totalidade. Pois neste estado n\u00e3o existem marcas nem res\u00edduos c\u00e1rmicos, usamos a palavra \u201cvacuidade\u201d para falar dessa ess\u00eancia. O carma trabalha sempre no n\u00edvel da mente, enquanto que a pura presen\u00e7a, ou rig-pa, transcende \u00e0s fun\u00e7\u00f5es limitadas da mente. N\u00e3o \u00e9, pois aqui uma quest\u00e3o da mente, mas da consci\u00eancia primodial, ou sabedoria. A natureza deste estado, o sambhogakaya, \u00e9 a claridade luminosa.<br \/>\nSambhoga significa \u201cdotado de riquezas\u201d, \u201cfrui\u00e7\u00e3o de todas as qualidades do despertar em sua perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Kaya designa a dimens\u00e3o suscitada. Claridade luminosa significa que existe uma manifesta\u00e7\u00e3o, na forma de energia, a partir do fundamento primordial da vacuidade; esta manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ainda material mas ela j\u00e1 \u00e9 diferenciada e se exprime como as cinco luminosidades, ou sabedorias primordiais. Esta dimens\u00e3o ultrapassa todas as constru\u00e7\u00f5es conceituais poss\u00edveis do intelecto finito. Sua energia, o nirmanakaya, \u00e9 indefect\u00edvel e jamais se interrompe. Nirmana significa \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cemana\u00e7\u00e3o\u201d, e kaya evoca a dimens\u00e3o desta emana\u00e7\u00e3o. \u201cManifesta\u00e7\u00e3o\u201d designa alguma coisa no n\u00edvel relativo, quer dizer em contato com os seres vivos na dimens\u00e3o material.<br \/>\nO Budha Sakyamuni, que se manifestou no tempo e na hist\u00f3ria, n\u00e3o \u00e9 outra coisa que um nirmanakaya. Entretanto, o nirmanakaya n\u00e3o \u00e9 condicionado pelo carma nem pelas emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 assim que o trikaya, enquanto ess\u00eancia, natureza e energia, est\u00e1 inteiramente presente desde sempre na auto-perfei\u00e7\u00e3o de rig-pa.<\/p>\n<p>11. Esta consci\u00eancia, ou pura presen\u00e7a, que falamos aqui surge no frescor do primeiro instante, antes mesmo que a mente tenha a ocasi\u00e3o de mover-se e de funcionar na dualidade do sujeito e do objeto. Neste caso preciso, as apar\u00eancias exteriores se apresentam unicamente como a manifesta\u00e7\u00e3o da claridade luminosa. Tudo de que estamos conscientes nos aparece por interm\u00e9dio dos nossos sentidos: os seis agregados sensoriais \u2013 os cinco sentidos f\u00edsicos mais a mente. Quando \u00e9 produzido o contato sensorial, a presen\u00e7a da sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitida \u00e0 mente e o processo mental que se segue, engendra todos os tipos de concep\u00e7\u00f5es e de julgamentos. Mas, quando a mente ainda n\u00e3o est\u00e1 presa ao julgamento ou \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o, chamamos a isso [\u2018dzin-med], ou dito de outra maneira, \u201cn\u00e3o estar se agarrando \u00e0 nada\u201d. N\u00e3o cedemos a nenhum julgamento e permanecemos presentes na consci\u00eancia. De maneira que podemos dizer que as apar\u00eancias est\u00e3o presentes, ou permanecem, na real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia em si-mesma, o dharmata. Dharma significa \u201ctudo o que existe\u201d e ta, \u201cem sua condi\u00e7\u00e3o original\u201d. Todas as coisas que se apresentam t\u00eam uma condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, uma natureza inata. Todas as esp\u00e9cies de diferentes coisas podem se manifestar, mas a sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria continua a mesma. A madeira e a \u00e1gua, por exemplo, parecem diferentes, e suas fun\u00e7\u00f5es se apresentam diferentemente, mas sua verdadeira natureza em si \u00e9 a mesma, a saber, vacuidade. Esse n\u00edvel de manifesta\u00e7\u00e3o da energia de todos os fen\u00f4menos \u00e9 chamado dharmata. Quando falamos da energia do individuo, empregamos a palavra [rtsal] para designar esta energia da condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia enquanto tal. Devemos, pois compreender o que entendemos por dharmata, de outro modo n\u00e3o poderemos integrar nossa pr\u00f3pria energia.<br \/>\nPara concluir, diremos que o que se trata aqui, \u00e9 que, no momento em que um pensamento surge na mente, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio julg\u00e1-lo. Isso n\u00e3o quer dizer que \u00e9 preciso ficar adormecido ou desatento. Ao contr\u00e1rio, nesse instante, estamos absolutamente presentes, totalmente alertas e conscientes. E se nos encontrarmos presentes neste estado de vigil\u00e2ncia, isso estar\u00e1 al\u00e9m de todo conceito dualista e, portanto estaremos aqui, totalmente presentes com nossos sentidos. Quando permanecemos neste estado de presen\u00e7a e algu\u00e9m, por exemplo, faz alguma coisa do nosso lado, \u00e9 suficiente tomar nota mentalmente, sem, portanto processar o pensamento. O funcionamento dos sentidos n\u00e3o \u00e9 bloqueado ou impedido, mas n\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o permitido \u00e0 mente entregar-se a julgamentos sobre o que acontece. Neste estado de presen\u00e7a, encontramo-nos no que chamamos dharmata, a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>12. Como este estado natural da consci\u00eancia inicial instant\u00e2neo, reencontra assim a sua pr\u00f3pria m\u00e3e, a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, podemos dizer na verdade, que se trata do dharmakaya. Que significa esses reencontros com sua m\u00e3e? A m\u00e3e dharmata designa a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia tal como ela \u00e9, e \u00e9 dela que surgem todos os fen\u00f4menos que aparecem, assim como as crian\u00e7as nascem de suas m\u00e3es.<br \/>\nNos tantras, diz-se que tudo emerge de shunyata, a vacuidade: o vento, por exemplo, ou \u201cvayumandala\u201d, depois os outros elementos, um ap\u00f3s os outros. De maneira que shunyata, a vacuidade, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o mesma das coisas, dizemos que ela \u00e9 \u201csempre pura\u201d. O individuo \u00e9 geralmente condicionado por suas concep\u00e7\u00f5es e por sua vis\u00e3o dualista do mundo. Ele n\u00e3o compreende verdadeiramente o que entendemos por shunyata sem racionalizar e julgar de maneira dualista. Mas, aqui ele tem um reencontro face a face com a sabedoria-m\u00e3e o dharmata, um reencontro que n\u00e3o implica o funcionamento da mente, nem o raciocinar, nem o pensamento discursivo. Temos simplesmente a experi\u00eancia desta dimens\u00e3o da exist\u00eancia em si-mesma, que \u00e9 o dharmakaya. O dharmakaya n\u00e3o \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do Budha em postura de meditar, as m\u00e3os juntas e as pernas cruzadas; a imagem do Budha primordial, Samantabhadra existe somente para dar ao intelecto humano, limitado e finito, uma id\u00e9ia do significado do dharmakaya. Esta imagem \u00e9 um s\u00edmbolo, mas o pr\u00f3prio dharmakaya se encontra de fato al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o e da express\u00e3o em formas, cores, etc. Ele \u00e9 a dimens\u00e3o mesma, onipenetrante da exist\u00eancia.<br \/>\nQue entendemos por mente? \u00c9 necess\u00e1rio distingui-la do que chamamos \u201cnatureza da mente\u201d. Para esclarecer as coisas, tomemos o exemplo dos reflexos no espelho. Os pensamentos que surgem na mente s\u00e3o como os reflexos, e o espelho em-si, que tem o poder de refletir, como a \u201cnatureza da mente\u201d. Quando os pensamentos surgem, n\u00e3o os seguimos e n\u00e3o iniciamos julgamentos nem conceitua\u00e7\u00f5es a seu respeito, mas permanecemos simplesmente presentes, e esta qualidade da natureza da mente n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o rig-pa. Rig-pa \u00e9 o nome deste estado de simples presen\u00e7a. Rig-pa \u00e9 igualmente [lhun-grub], dito de outro modo, espontaneamente perfeito em todas as suas qualidades desde sempre. N\u00e3o se trata de adquirir alguma coisa que n\u00e3o possu\u00edmos. Sobretudo, quando nos encontramos em um estado de presen\u00e7a, este manifesta todas suas qualidades inatas de modo espont\u00e2neo, e \u00e9 isso que entendemos por [lhun-grub]. \u00c9 o estado aut\u00eantico, natural e original da pura presen\u00e7a espontaneamente auto-perfeita, o estado natural da Grande Perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQue significa Dzogchen, \u201cGrande Perfei\u00e7\u00e3o\u201d? N\u00e3o \u00e9 um texto, uma tradi\u00e7\u00e3o, uma escola, um sistema filos\u00f3fico. \u00c9, sobretudo o estado primordial do individuo, puro, atemporal [n\u00e3o-nascido] espontaneamente auto-perfeito. Encontrar-se neste estado, \u00e9 chamado Dzogchen, \u201cGrande Perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Estar consciente deste estado, \u00e9 o despertar; n\u00e3o reconhecer este estado, \u00e9 a ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>II. ESTABILIZAR A PR\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>13. Abordamos agora o segundo ponto, a \u201cestabiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica\u201d. No momento em que adquirimos uma certa compreens\u00e3o do estado de rig-pa que n\u00e3o t\u00ednhamos antes, devemos nos exercitar para nos reencontrar neste estado de presen\u00e7a. Achar-se neste estado de presen\u00e7a, \u00e9 o samadhi, a \u201ccontempla\u00e7\u00e3o\u201d. Nos sutras e tantras, encontramos numerosos m\u00e9todos para atingir esse fim, mas aqui, vamos nos ater a tr\u00eas instru\u00e7\u00f5es ess\u00eancias: A integra\u00e7\u00e3o. O relaxar na presen\u00e7a, e Os progressos na pr\u00e1tica. Essas tr\u00eas instru\u00e7\u00f5es t\u00eam por objetivo integrar a presen\u00e7a \u00e0 vida cotidiana. As duas primeiras instru\u00e7\u00f5es, a integra\u00e7\u00e3o e o repousar na presen\u00e7a, dependem da estabiliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica, e o terceiro, os progressos, representa o terceiro tema de nossa proposta que se decomp\u00f5em em compreens\u00e3o, estabiliza\u00e7\u00e3o e progresso na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>1. INTEGRAR<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso inicialmente considerar o m\u00e9todo de integra\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o meio de permanecer na presen\u00e7a. Em uma postura confort\u00e1vel, larguemo-nos at\u00e9 estar verdadeiramente relaxados por fora e por dentro; n\u00e3o nos sintamos respons\u00e1veis do que ou de quem quer que seja e integremos nossa consci\u00eancia ao espa\u00e7o claro e aberto do c\u00e9u a nossa frente. Fixar o olhar em um ponto preciso \u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o [concentra\u00e7\u00e3o], mas n\u00e3o \u00e9 o caso da integra\u00e7\u00e3o [ar-gtad]. Aqui, n\u00e3o h\u00e1, de fato, ponto no espa\u00e7o no qual nos fixar. Ao contr\u00e1rio, quando contemplamos o c\u00e9u, parecer\u00e1 que, segundo nossa maneira de ver as coisas, a sensa\u00e7\u00e3o dos olhos se esvaecem na vasta ab\u00f3bada celeste.<br \/>\nA abertura do espa\u00e7o integra-se em nosso estado e continuamos assim. Se n\u00e3o fizermos sen\u00e3o olhar o c\u00e9u, muito bem, olhamos o c\u00e9u: um processo de reintegra\u00e7\u00e3o de nossas energias est\u00e1 em vias de se realizar e, embora nada tenhamos a fazer com a mente, a mente est\u00e1 bem aqui, como uma aten\u00e7\u00e3o pura, durante a nossa contempla\u00e7\u00e3o do c\u00e9u.<\/p>\n<p>14. Uma vez estabelecido assim em um estado relaxado e alerta, sem distra\u00e7\u00e3o e sem medita\u00e7\u00e3o fabricada, esta consci\u00eancia do instante inicial, compar\u00e1vel ao c\u00e9u, \u00e9 ainda uma condi\u00e7\u00e3o onde nos achamos livres de todo apego e de toda pris\u00e3o aos conceitos e julgamentos. A medita\u00e7\u00e3o implica o funcionamento da mente, e isso n\u00e3o \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o. Na integra\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer com a mente, nada a visualizar ou a recitar. N\u00e3o pensamos em nada de particular; uma aten\u00e7\u00e3o nua. Somente esta consci\u00eancia ent\u00e3o est\u00e1 presente, semelhante ao c\u00e9u e n\u00e3o tem nada a ver com uma cria\u00e7\u00e3o mental ou um apego. \u00c9 uma simples presen\u00e7a de claridade que deixamos permanecer.<br \/>\nDir\u00edamos o momento ap\u00f3s a uma forte surpresa ou a um espanto profundo: quando, por exemplo, um possante som agudo nos assusta e todo o processo de pensamento para um instante. Ent\u00e3o surge uma consci\u00eancia simples e nua, onde n\u00e3o existe dualidade ou distin\u00e7\u00e3o entre o estado de calma, que \u00e9 desprovido de pensamentos, e do movimento dos pensamentos. Shine, em s\u00e2nscrito shamata, \u00e9 um estado de calma onde os pensamentos discursivos est\u00e3o ausentes; esta condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, todavia o que entendemos por contempla\u00e7\u00e3o propriamente falando. Shine \u00e9 somente uma experi\u00eancia de tranq\u00fcilidade. Quando surgem pensamentos, \u00e9 uma experi\u00eancia do movimento dos pensamentos. O estado de rig-pa, ou de pura presen\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 nem essa calma nem esse movimento, mas a presen\u00e7a encontrada tanto num como no outro estado.<\/p>\n<p>15. Quando prolongamos o per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o sem sucumbir \u00e0 sonol\u00eancia nem \u00e0 agita\u00e7\u00e3o, encontramo-nos em um estado que se apresenta como uma luminosidade e uma vivacidade profundas. Existem diversas esp\u00e9cies de samatha, ou pr\u00e1ticas de shine, e alguns defeitos nestas pr\u00e1ticas, como a sonol\u00eancia e a agita\u00e7\u00e3o. Nos sistemas dos sutras, propomos ant\u00eddotos contra esses defeitos, mas explicamos aqui que quando nos encontramos no estado de rig-pa, escapamos desses tipos de defeitos. Pois, o princ\u00edpio, aqui, \u00e9 encontramo-nos perfeitamente neste estado. Quando este estado est\u00e1 presente, n\u00e3o h\u00e1 sonol\u00eancia nem agita\u00e7\u00e3o; n\u00e3o \u00e9, pois quest\u00e3o de aplicar ant\u00eddotos a defeitos que n\u00e3o existem. Eis um princ\u00edpio essencial que ensina a upadesha dzogchen.<br \/>\nQuando prolongamos este estado de presen\u00e7a, e mesmo se, de maneira deliberada, fazemos apelo aos pensamentos ou, ao contr\u00e1rio, se procuramos repeli-los, at\u00e9 provocando a repeti\u00e7\u00e3o, ou ainda a\u00ed nos relaxar, eles ficar\u00e3o em sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. No momento em que eles surgem, sem que nada nos tire deste estado de presen\u00e7a, eles ser\u00e3o liberados por si-mesmos. Mesmo que todos os pensamentos surjam, isso n\u00e3o mudar\u00e1 nada, nem modificar\u00e1 nosso estado de presen\u00e7a.<\/p>\n<p>16. Enquanto continuamos no estado de contempla\u00e7\u00e3o, estamos em mnyam-bzhag, e o per\u00edodo que segue a realiza\u00e7\u00e3o deste estado se chama rjes-thob. Quando sa\u00edmos de um per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o, a estabilidade de nossa pr\u00e1tica pode ser medida observando se, sim ou n\u00e3o, estamos submetidos ao poder dos pensamentos condicionantes. Enquanto n\u00e3o permanecermos constantemente no estado da grande contempla\u00e7\u00e3o, todo per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o ser\u00e1 seguido de um per\u00edodo de n\u00e3o-contempla\u00e7\u00e3o. E, portanto, mesmo quando sa\u00edmos da contempla\u00e7\u00e3o, nossa pura presen\u00e7a, ou consci\u00eancia intr\u00ednseca, n\u00e3o \u00e9 condicionada pelos pensamentos discursivos. Quando, por exemplo, estamos sentados em algum lugar e nos vem o desejo de beber um copo d\u2019\u00e1gua, nos distra\u00edmos, e nossa consci\u00eancia fica condicionada por uma causa. N\u00e3o nos deixando distrair imediatamente e permanecendo na presen\u00e7a do instante, podemos avaliar a estabilidade de nossa pr\u00e1tica.<br \/>\nQuando praticamos, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que surjam todas as esp\u00e9cies de experi\u00eancias meditativas: vis\u00f5es, sons, sensa\u00e7\u00f5es e outras. Elas aparecem espontaneamente e n\u00e3o s\u00e3o condicionadas por nossas concep\u00e7\u00f5es ou julgamentos. Poder\u00e3o acontecer experi\u00eancias visuais, luzes, cores, auras, etc., ou ainda experi\u00eancias sensoriais como leveza do corpo ou parada da respira\u00e7\u00e3o. Essas experi\u00eancias s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de nossas energias elementares. N\u00e3o h\u00e1 nada a temer. Estamos perfeitamente tranq\u00fcilos, nossas energias est\u00e3o relaxadas, e as experi\u00eancias visuais ou sensitivas s\u00e3o exatamente os efeitos desta tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>17. Essas experi\u00eancias aparecem n\u00e3o somente durante a contempla\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m depois de terminada a sess\u00e3o de pr\u00e1tica. Desenvolvendo nossa capacidade de praticar, pensamos cada vez mais que tudo \u00e9 irreal e percebemos tudo como uma ilus\u00e3o. \u00c9 um sinal da diminui\u00e7\u00e3o dos apegos. Ou ainda, \u00e9 poss\u00edvel que tenhamos uma experi\u00eancia de vacuidade, uma experi\u00eancia que verdadeiramente chegar\u00e1 a n\u00f3s, muito diferente da simples leitura de um texto sobre shunyata, ou de uma compreens\u00e3o de shunyata seguida por uma an\u00e1lise intelectual aprofundada. Podemos assim ter medo do vazio. \u00c9 poss\u00edvel que sejamos capazes de permanecer em um estado de pura presen\u00e7a onde, aparentemente, n\u00e3o surge nenhum pensamento. Pode parecer ainda, que tenhamos atingido um n\u00edvel onde n\u00e3o haver\u00e1 mais necessidade de fazer esta ou aquela pr\u00e1tica, como se n\u00e3o pud\u00e9ssemos mais nos enganar. E, portanto, tudo isso, s\u00e3o apenas experi\u00eancias devidas \u00e0s pr\u00e1ticas e elas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ruins que as tenhamos que reprimir.<\/p>\n<p>18. Se observarmos os raios do Sol, \u00e9 preciso inicialmente que as nuvens que ocultam a nossa vis\u00e3o se retirem. O Sol ent\u00e3o ser\u00e1 vis\u00edvel e as qualidades de sua auto-perfei\u00e7\u00e3o come\u00e7ar\u00e3o a se manifestar simplesmente tal como elas s\u00e3o. E a realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa que \u00e9 uma quest\u00e3o de adquirir alguma coisa que n\u00e3o possu\u00edmos, nem produzir ou construir o que quer que seja artificialmente. O praticante que se encontra em um estado de pura presen\u00e7a n\u00e3o se at\u00e9m somente \u00e0 compreens\u00e3o intelectual de shunyata, mas entra definitivamente na dimens\u00e3o de shunyata. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o do supremo dharmakaya, a ess\u00eancia mesma da mente. O termo kaya, habitualmente traduzido por \u201ccorpo\u201d, designa nossa dimens\u00e3o total. Assim o dharmakaya \u00e9 a dimens\u00e3o total da exist\u00eancia. Quando estamos bem conscientes e surgem pensamentos, eles n\u00e3o se tornam jamais algo de concreto para n\u00f3s, mas guardam sempre sua condi\u00e7\u00e3o de vacuidade. N\u00e3o somos mais condicionados pelos pensamentos nem pelos conceitos, e atingimos a sabedoria primordial da n\u00e3o-discursividade. Esses m\u00e9todos nos permitem reduzir nossos obst\u00e1culos e nossos v\u00e9us.<\/p>\n<p>19. Uma vez que nossos v\u00e9us e nossas marcas c\u00e1rmicas foram inteiramente purificados, nossas emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o se manifestam mais para nos atrapalhar. Elas n\u00e3o escapam mais ao nosso controle, n\u00e3o se chocam mais contra n\u00f3s como cavalos selvagens indom\u00e1veis. Mesmo se formos um ser comum, vivendo em um mundo de homens de carne e osso, no momento em que estivermos no estado de rig-pa, ultrapassaremos os limites da transmigra\u00e7\u00e3o no samsara. Isso quer dizer que n\u00e3o seremos mais condicionados pelo que surge em nossa mente. O verdadeiro praticante de dzogchen, mesmo participando do mundo material concreto, n\u00e3o \u00e9 condicionado pelo que o cerca. Conseq\u00fcentemente, ele n\u00e3o sofre como um ser comum que toma tudo o que lhe concerne como s\u00f3lido, substancial e verdadeiro. Do praticante aut\u00eantico podemos dizer que triunfa da transmigra\u00e7\u00e3o e da vis\u00e3o c\u00e1rmica. Assim, ele, ou ela, pertencem \u00e0 fam\u00edlia dos Arya, ou seres sublimes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2. REPOUSAR NA PRESEN\u00c7A<\/strong><\/p>\n<p>20. Nossa segunda considera\u00e7\u00e3o versa sobre as instru\u00e7\u00f5es que permitem repousar na presen\u00e7a, permanecendo completamente alerta. Em tibetano \u201crelaxado\/repousado\u201d se diz glod-pa ou lhod-pa. Entretanto, podemos achar, que relaxado seja tamb\u00e9m sonolento. Lhug-pa designa um repousar onde a consci\u00eancia permanece alerta\/atenta e presente. Assim, quando nos encontramos num estado repousado e atento, mal surgem as apar\u00eancias e qualquer que seja o modo de surgimento, sem que n\u00e3o mais a mente proceda sobre elas alguma corre\u00e7\u00e3o ou modifica\u00e7\u00e3o, essas apar\u00eancias s\u00e3o percebidas como simples ornamentos, ou embelezamentos, deste estado em si mesmo, que \u00e9 a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. H\u00e1 na \u201cupadesha\u201d dzogchen uma pr\u00e1tica que consiste em deixar a apar\u00eancia ser como ela \u00e9 e n\u00e3o outra. N\u00e3o raciocinamos encima, n\u00e3o a alteramos por meio dos julgamentos. Em suma, surgindo as apar\u00eancias, as deixamos surgir, ainda que, por seu lado, as apar\u00eancias n\u00e3o condicionam mais o indiv\u00edduo de nenhuma maneira. Essas apar\u00eancias s\u00e3o como ornamentos da energia do individuo. Este se encontra na verdadeira condi\u00e7\u00e3o do espelho. Tudo o que se apresenta como apar\u00eancia \u00e9 compar\u00e1vel a um reflexo no espelho. Quer sejam belos ou feios, os reflexos n\u00e3o condicionam o espelho de nenhuma maneira. E \u00e9 porque nada do que aparece cria mais problemas ao indiv\u00edduo. Como dizia mestre Phadampa: \u201cO indiv\u00edduo n\u00e3o \u00e9 condicionado pelas apar\u00eancias, mas por seu apego \u00e0s apar\u00eancias; este apego encontra sua origem no indiv\u00edduo e n\u00e3o no objeto\u201d.<br \/>\nNo nosso interior, existe um estado de pura presen\u00e7a n\u00e3o corrigida, clara e nua. \u2018N\u00e3o corrigida\u2019 e n\u00e3o modificada porque nem os pensamentos discursivos nem o funcionamento da mente a condicionam. \u201cNua\u201d porque, no instante em que surgem os pensamentos estamos de fato aqui bem presentes, sem julgar nada nem racionalizar. Assim, permanecemos atentos e repousados, os pensamentos surgem, e os deixamos desfazerem-se em sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria tal como eles s\u00e3o em si.<\/p>\n<p>21. \u201cRepousar na presen\u00e7a\u201d, \u00e9 quando, os sentidos entram em contato com um objeto, mas n\u00e3o o conceituamos imediatamente, raciocinamos nem julgamos o que for \u00e0 seu respeito. Habitualmente, quando vemos um objeto, nossa mente emite um julgamento a seu respeito e pode ser que, por rea\u00e7\u00e3o, um acesso de apego ou de avers\u00e3o nos carregue. Ent\u00e3o, levado por este acesso, passamos \u00e0 a\u00e7\u00e3o acumulando um pouco mais de carma, que nos acorrenta a transmigrar no samsara. Entretanto, a express\u00e3o \u201csem racionalizar nem analisar\u201d n\u00e3o significa que dever\u00edamos tentar bloquear nossos pensamentos. Quando praticamos za-zen, por exemplo, entramos em um estado n\u00e3o discursivo onde temos a experi\u00eancia da vacuidade sem nenhum bloqueio dos pensamentos. Digamos que vemos um livro sobre a mesa. Poder\u00edamos lev\u00e1-lo ou deix\u00e1-lo ali como um objeto sem import\u00e2ncia. Bloquear um pensamento significa retirar algo, tentar elimin\u00e1-lo. Mas, quando falamos de n\u00e3o come\u00e7ar a racionalizar nem julgar, entendemos: deixar as coisas onde elas est\u00e3o, como elas s\u00e3o, sem que nos perturbem nem distraiam. \u00c0s vezes, mesmo quando n\u00e3o come\u00e7amos a raciocinar nem julgar, os pensamentos continuam a surgir em um estado de presen\u00e7a claro e atento sem interrup\u00e7\u00e3o nem impedimentos. \u00c9 importante compreender bem o que entendemos por \u201cn\u00e3o estar distra\u00eddo\u201d no contexto do dzogchen. \u00c9 permanecer desperto. N\u00e3o estar distra\u00eddo, n\u00e3o \u00e9 certamente ter uma esp\u00e9cie de policial que n\u00e3o cessaria de surgir no interior de nossa mente nos chamando \u00e0 ordem\/aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando nos encontramos no estado de rig-pa, as qualidades inerentes \u00e0 rig-pa se manifestam como tudo o que aparece, de modo que n\u00e3o h\u00e1 nada a interromper ou a construir. Os raios de Sol s\u00e3o a express\u00e3o mesma do Sol quando ele brilha. Igualmente, tudo se apresenta como o ornamento de nossa energia e, neste estado, esta presen\u00e7a \u00e9 perfeita enquanto tal. A id\u00e9ia que as coisas s\u00e3o espontaneamente perfeitas \u00e9 crucial no dzogchen. Se n\u00e3o falarmos de pureza primordial, o dzogchen n\u00e3o seria diferente do zen. Mas esta compreens\u00e3o de lhun-grub situa o dzogchen \u00e0 parte do zen. Quando estamos presentes no estado de rig-pa, tudo o que vemos \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de nossa energia individual, assim como os reflexos em um espelho.<br \/>\nToda a dimens\u00e3o que nos cerca, espontaneamente perfeita enquanto tal, obedece ao g\u00eanio inventivo da pura presen\u00e7a. Como diz nosso texto: Quando as apar\u00eancias, que s\u00e3o os objetos das seis faculdades sensoriais, surgem como simples ornamento de nosso estado em um modo luminoso, sem entraves e sem an\u00e1lises, ent\u00e3o essas apar\u00eancias s\u00e3o inteiramente perfeitas e completas, justamente enquanto tais. A experi\u00eancia que temos agora \u00e9 a do g\u00eanio inventivo da pura presen\u00e7a sem nenhum apego, sem conceituar nem emitir julgamento. Assim entramos neste estado n\u00e3o-dual e permanecemos, presentes e relaxados. \u00c9 isso que entendemos por lhug-pa.<\/p>\n<p>22. Quando falamos do per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o, ou mnyam-bzhag, falamos da presen\u00e7a no estado de rig-pa. A express\u00e3o rjes-thob designa o per\u00edodo que segue \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. A \u201cgrande contempla\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 quando o praticante atingiu uma fase de desenvolvimento onde sua contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita mais \u00e0s sess\u00f5es formais da pr\u00e1tica. Mas, para o iniciante, a contempla\u00e7\u00e3o e a parada da contempla\u00e7\u00e3o formam sempre dois momentos distintos. Alem disso, durante a sess\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o buscamos, sem nos lan\u00e7ar na menor an\u00e1lise nem no menor racioc\u00ednio do que seja isso, permitimos aos objetos dos cinco sentidos, dito de outro modo, \u00e0s apar\u00eancias, surgirem, claras e luminosas, permanecendo relaxados e alertas, livres da distra\u00e7\u00e3o e da tens\u00e3o sobre qualquer concep\u00e7\u00e3o ou julgamento que for. Mi g.yo-ba significa \u201cque n\u00e3o se move\u201d ou \u201cque n\u00e3o est\u00e1 distra\u00eddo\u201d. Quando o estado de rig-pa se interrompe, \u00e9 g.yoba, a distra\u00e7\u00e3o. Dizemos que o Budha Shakyamuni foi muitas vezes encontrado em um estado de samadhi imut\u00e1vel, de concentra\u00e7\u00e3o sem distra\u00e7\u00e3o. Mas isso n\u00e3o significa que seu corpo f\u00edsico est\u00e1va necessariamente im\u00f3vel. Isso quer dizer, sobretudo que ele se encontrava em um estado de pura presen\u00e7a rig-pa, e que ele n\u00e3o se desviava deixando-se distrair pelas atividades da mente. Ele n\u00e3o estava nem condicionado pelos pensamentos nem distra\u00eddo e, entretanto, agia perfeitamente \u2013 quando se deslocava, falava, pensava. Ent\u00e3o, uma vez conclu\u00edda a sess\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o, nada de concreto aparece aos sentidos nem parece ter realidade em-si. A mesma coisa para as emo\u00e7\u00f5es; elas n\u00e3o t\u00eam realidade em-si, nem natureza pr\u00f3pria. De modo que tudo o que aparece aos sentidos se torna um meio de permanecer na sabedoria primordial.<\/p>\n<p>23. At\u00e9 o momento, tomamos em considera\u00e7\u00e3o as apar\u00eancias exteriores; vamos agora nos voltar para o lado subjetivo das coisas, para o indiv\u00edduo mesmo. Os cinco venenos s\u00e3o as cinco emo\u00e7\u00f5es*, relaxamo-nos com vigil\u00e2ncia olhando-os direto na face sem ceder ao jogo dos conceitos e dos julgamentos. N\u00e3o dever\u00edamos, por outro lado, tentar bloque\u00e1-los recorrendo \u00e0 um ant\u00eddoto como se faz no sistema dos sutras, nem transform\u00e1-los por meio de um m\u00e9todo h\u00e1bil, como no sistema dos tantras. No sistema dos sutras, o ant\u00eddoto do desejo ou apego, por exemplo, \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o sobre o aspecto repugnante da carne; o ant\u00eddoto da c\u00f3lera \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o sobre o amor e a compaix\u00e3o; o ant\u00eddoto da inveja \u00e9 a alegria de apreciar os m\u00e9ritos daqueles que os t\u00eam, etc. No sistema dos tantras, transformamos as emo\u00e7\u00f5es em sabedoria primeira: a c\u00f3lera, por ex., \u00e9 transformada na c\u00f3lera de Heruka. N\u00e3o bloqueando nem transformando, as emo\u00e7\u00f5es que surgem no curso da pr\u00e1tica do caminho s\u00e3o auto-liberadas rang-grol, e uma sabedoria primordial se encontra ent\u00e3o presente.<br \/>\nQuando n\u00e3o estamos no estado de rig-pa, as emo\u00e7\u00f5es se tornam venenos; elas interrompem e entravam nossa realiza\u00e7\u00e3o, e as chamamos dem\u00f4nios. Elas dificultam a transforma\u00e7\u00e3o. Quando perseguimos um pensamento discursivo agitando nossa mente, este pensamento pode tornar-se um veneno para n\u00f3s, e \u00e9 assim que nos tornamos escravos das paix\u00f5es. Se ao contr\u00e1rio, permanecermos presentes n\u00e3o seremos de modo algum, condicionados pelos pensamentos, e tudo que percebermos nada mais ser\u00e3o que reflexos no espelho. N\u00e3o \u00e9, pois necess\u00e1rio recorrer a um ant\u00eddoto para bloquear a emo\u00e7\u00e3o, pois ela libera-se por si s\u00f3. Aqui, n\u00e3o \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o de gcer-grol, de libera\u00e7\u00e3o por aten\u00e7\u00e3o totalmente nua, a qual consiste em olhar direto na face o pensamento discursivo que aparece na mente e que por si s\u00f3 se libera. Esse procedimento implica ainda um esfor\u00e7o. Aqui, \u00e9 de outra coisa que se trata. Lhung-pa quer dizer, \u201crepousar na presen\u00e7a\u201d. Quando sentimos subir uma emo\u00e7\u00e3o, relaxamos a tens\u00e3o sem tentar bloque\u00e1-la ou aplicar-lhe um ant\u00eddoto. N\u00e3o sucumbimos \u00e0 emo\u00e7\u00e3o muito simplesmente porque, doravante, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 regida pela consci\u00eancia de pura presen\u00e7a rig-pa. No meio desta presen\u00e7a relaxada, nossas emo\u00e7\u00f5es em si n\u00e3o se revelam em nada diferentes das qualidades inerentes ao nosso estado primordial enquanto se manifestam. Tal \u00e9 o m\u00e9todo de auto-libera\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>24. Vejamos agora as experi\u00eancias que surgem durante a pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o. Elas se manifestam como luminosidade e vacuidade, e est\u00e3o presentes em um estado de vis\u00e3o e vacuidade, em um estado de movimento alternado de pensamentos e vacuidade, ou ainda em um estado de sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel e vacuidade. Essas esp\u00e9cies todas de experi\u00eancias conscientes, de sensa\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis, de vis\u00f5es luminosas e de instantes de n\u00e3o-discursividade s\u00e3o poss\u00edveis. Essas experi\u00eancias todas dependem do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>25. A palavra \u201ckaya\u201d designa a dimens\u00e3o total de nossa exist\u00eancia. Quando compreendemos que todos os fen\u00f4menos s\u00e3o o dharmakaya, a completa dimens\u00e3o da exist\u00eancia, penetramos num estado de conhecimento, ou consci\u00eancia, da real condi\u00e7\u00e3o das coisas como elas s\u00e3o al\u00e9m das modifica\u00e7\u00f5es da mente. Esta consci\u00eancia espontaneamente perfeita e n\u00e3o-dual apresenta-se como uma esfera perfeita, completa, una e n\u00e3o-dual. Esta esfera n\u00e3o tem \u00e2ngulos nem limites. Em torno desse centro, nossa energia se manifesta de maneira espontaneamente perfeita. \u00c9 assim que podemos falar de realizar a dimens\u00e3o total da sabedoria primordial, ou \u201cj\u00f1anakaya\u201d: uma sabedoria primordial de luminosidade.<\/p>\n<p>26. Os objetos e seus contatos com os sentidos s\u00e3o muitos, mas agora, o indiv\u00edduo n\u00e3o est\u00e1 mais condicionado pelos objetos. N\u00f3s temos uma viva experi\u00eancia no presente: seja o que for que se apresente, n\u00e3o tem realidade em si, mas se parece com um reflexo num espelho. Os objetos que percebemos apresentam-se como manifesta\u00e7\u00f5es da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia: nossas emo\u00e7\u00f5es e nossos v\u00e9us est\u00e3o purificados. \u00c9 assim que ultrapassamos o obst\u00e1culo das emo\u00e7\u00f5es e nos liberamos. A pr\u00f3pria presen\u00e7a duma sabedoria primordial de pura presen\u00e7a permite ao indiv\u00edduo de liberar-se de toda implica\u00e7\u00e3o nos comportamentos negativos. N\u00e3o mais nos limitamos pela necessidade de aprender o que \u00e9 preciso e o que n\u00e3o \u00e9 preciso fazer. Ultrapassamos os limites que nos imp\u00f5em as emo\u00e7\u00f5es e nos unimos a uma claridade luminosa. N\u00e3o somos mais escravos das apar\u00eancias exteriores e governamo-nos com completa autonomia, com ajuda de nossa pr\u00f3pria sabedoria. Atitudes e a\u00e7\u00f5es negativas s\u00e3o doravante imposs\u00edveis. Por qu\u00ea? Porque tudo que surge de negativo para o indiv\u00edduo \u00e9 devido a uma baixa de consci\u00eancia e de luminosidade.<br \/>\nO indiv\u00edduo \u00e9 liberado de suas emo\u00e7\u00f5es, de suas marcas c\u00e1rmicas e de seus v\u00e9us, e dizemos ent\u00e3o que ele, ou ela pertencem doravante \u00e0 fam\u00edlia dos bodhisatvas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>III. PROGREDIR NA PR\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>27. Agora, consideramos o terceiro tema desses ensinamentos: como progredir na pr\u00e1tica. As duas instru\u00e7\u00f5es precedentes concernem \u00e0 integra\u00e7\u00e3o e o relaxar na presen\u00e7a; elas t\u00eam por objetivo estabilizar nossa pr\u00e1tica. Mas, quando queremos nos beneficiar desta pr\u00e1tica e progredir, \u00e9 preciso que, desde o in\u00edcio, nossa consci\u00eancia permane\u00e7a presente sem modifica\u00e7\u00e3o alguma. Trata-se de uma pura presen\u00e7a n\u00e3o discursiva, luminosa e viva. O estado de rig-pa n\u00e3o \u00e9 condicionado pelos pensamentos discursivos. Aqui, entretanto, a n\u00e3o-discursividade n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia pura e simples dos pensamentos discursivos, mas o fato de n\u00e3o se deixar condicionar pelo seu surgimento. Rig-pa \u00e9 vasto; n\u00e3o falta espa\u00e7o para os pensamentos. Se fosse diferente, n\u00e3o haveria meio de integrar a contempla\u00e7\u00e3o \u00e0 vida cotidiana, nas atividades do corpo, da fala e da mente. O estado de rig-pa permanece fora e al\u00e9m do tempo. Este estado transcende, pois a mente. Mas \u00e9 poss\u00edvel encontrar-nos no estado de rig-pa efetuando perfeitamente todas as atividades do corpo, da fala e da mente. No estado de rig-pa, os pensamentos podem surgir sem provocar o menor dano, e \u00e9 poss\u00edvel seguramente traduzir esses pensamentos em atos. Tudo que precisamos, \u00e9 permanecer claramente a\u00ed, em um estado de presen\u00e7a. \u00c9 assim que a continuidade de nossa consci\u00eancia permanecer\u00e1 est\u00e1vel e n\u00e3o distra\u00edda. Eis como progredimos na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>28. O per\u00edodo de contempla\u00e7\u00e3o prossegue, e n\u00e3o nos submetemos mais a influ\u00eancia da sonol\u00eancia nem da agita\u00e7\u00e3o, porque no verdadeiro estado de rig-pa nenhum defeito \u00e9 poss\u00edvel. E mais, tudo se manifesta como vacuidade, que \u00e9 a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. Nossa vis\u00e3o surge em sua totalidade como um ornamento do estado do indiv\u00edduo. \u00c9 justamente assim e existe, pois um meio de reintegrar nossa energia. Ap\u00f3s a sess\u00e3o de contempla\u00e7\u00e3o, sem deixar-nos condicionar pelos pensamentos, dever\u00edamos continuar no estado da natureza da mente que existe simplesmente tal como \u00e9.<\/p>\n<p>29. Pelas experi\u00eancias produzidas durante a pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o, encontramo-nos num estado de n\u00e3o-dualidade, quer estejamos ou n\u00e3o meditando. A \u201cmedita\u00e7\u00e3o\u201d aqui, n\u00e3o designa uma atividade da mente \u2013 visualiza\u00e7\u00e3o ou an\u00e1lise \u2013, mas o simples fato de nos encontrar em um estado de presen\u00e7a. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 conceito, julgamento, ou nenhuma restri\u00e7\u00e3o mental. Quaisquer que sejam as apar\u00eancias que surjam, seja qual for a vis\u00e3o que nos cerca, tudo se apresentar\u00e1 como a express\u00e3o da energia da contempla\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. A real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de todos os fen\u00f4menos, simplesmente tal como \u00e9, se apresenta sem se desviar da situa\u00e7\u00e3o primordial que muito naturalmente tem lugar.<\/p>\n<p>30. Por aquilo que \u00e9 a nossa dimens\u00e3o total, todos os fen\u00f4menos que surgem, os vis\u00edveis bem como os invis\u00edveis, s\u00e3o totalmente purificados em si mesmos no estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, ou dharmata. \u201cPurificados\u201d, n\u00e3o porque eliminamos os fen\u00f4menos fazendo funcionar nossa mente, mas sobretudo porque o indiv\u00edduo se encontra ele pr\u00f3prio na condi\u00e7\u00e3o precisa dos fen\u00f4menos, e \u00e9 por isso que tudo \u00e9 purificado. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio retirar os reflexos do espelho. Porque, de fato, para compreender a natureza do espelho, \u00e9 preciso passar por seus reflexos. Aqui, o individuo se reencontra com o poder evidente que tem o espelho de refletir, e assim todos os reflexos s\u00e3o essencialmente puros: podemos dizer que atingimos a suprema dimens\u00e3o da n\u00e3o-dualidade onde n\u00e3o h\u00e1 mais divis\u00e3o em sujeito e objeto, e uma sabedoria primordial de modo nenhum revestida\/coberta de fun\u00e7\u00f5es mentais se encontra a\u00ed presente em toda a evid\u00eancia.<\/p>\n<p>31. Inteiramente purificados de nossos v\u00e9us cognitivos \u2013 os quais podem ser verdadeiramente muito sutis \u2013, atingimos um conhecimento de todos os fen\u00f4menos tal como s\u00e3o em sua real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia. O indiv\u00edduo \u00e9 ent\u00e3o liberado de todas as considera\u00e7\u00f5es dualistas \u2013 daquele que conhece e daquilo que \u00e9 conhecido \u2013, e dizemos que ele, ou ela, pertencem \u00e0 fam\u00edlia dos oniscientes tath\u00e2gatas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PR\u00c1TICA DA NOITE<\/strong><\/p>\n<p>32. O yoga da noite consiste em duas pr\u00e1ticas. Pr\u00e1tica da noite, que se executa no momento de adormecer, e da manh\u00e3 no instante do despertar. Quando dormimos, os sentidos est\u00e3o em repouso. Praticamos antes de adormecer por que todos os sentidos ainda est\u00e3o presentes. Os relaxamos em um estado de contempla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhes permitimos entrar em um estado condicionado; deixamos as coisas tais como s\u00e3o sem sentir-nos coagidos. O indiv\u00edduo deve tamb\u00e9m integrar sua pr\u00e1tica de concentra\u00e7\u00e3o ao sono. Que quer dizer \u201cmedita\u00e7\u00e3o concentrada\u201d, dhyana? Quando nos fixamos de maneira precisa e com uma grande concentra\u00e7\u00e3o num objeto antes de lentamente relaxar sua aten\u00e7\u00e3o, praticamos samatha ou shine, \u201cacalmar a mente\u201d. Quando trabalhamos de prefer\u00eancia com os movimentos dos pensamentos, isso \u00e9 que chamamos vipassana ou lhagtong. Dhyana designa essa esp\u00e9cie de medita\u00e7\u00e3o. Para a pr\u00e1tica da noite, um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o e vig\u00edlia da mente se revela necess\u00e1ria. Pois \u00e9 preciso integrar esta concentra\u00e7\u00e3o ao sono e adormecer em um estado de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>33. Como procedemos? Bem antes de adormecer, visualizamos um A branco entre nossas sobrancelhas, ou uma pequena p\u00e9rola esf\u00e9rica (tigl\u00e9) parecida com um arco-\u00edris de luzes das cinco cores. Visualizamos bem claramente: o A branco ou a p\u00e9rola n\u00e3o s\u00e3o maiores que um gr\u00e3o de ervilha. Na upadesha dzogchen, as visualizamos no centro do cora\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancia \u00e0 entre as sobrancelhas; porque essa \u00faltima visualiza\u00e7\u00e3o cria uma impress\u00e3o de presen\u00e7a excessiva, suscept\u00edvel de impedir o adormecimento. De nossa parte, entretanto, adotaremos a visualiza\u00e7\u00e3o entra as sobrancelhas, porque ela permite controlar automaticamente todas as nossas energias vitais ou \u201cprana\u201d (rlung). Se parecer dif\u00edcil visualizar o A nesse lugar, procederemos a alguns arranjos. O praticante deve proceder com discernimento porque \u00e9 o individuo que comanda a pr\u00e1tica e n\u00e3o ao contr\u00e1rio. \u00c9 in\u00fatil realizar esta visualiza\u00e7\u00e3o se ela impedir o sono. Ela n\u00e3o deve ser muito brilhante, o que nos impediria de adormecer facilmente. Podemos ainda, no lugar do A, visualizar um bindu (tigle), uma p\u00e9rola de luz irisada an\u00e1loga as penas da cauda do pav\u00e3o. Se pudermos visualizar esse bindu pentacolorido, isso ter\u00e1 melhor efeito no controle dos elementos. Come\u00e7aremos, pois fixando nossa aten\u00e7\u00e3o no objeto da medita\u00e7\u00e3o, depois relaxaremos ligeiramente nossa aten\u00e7\u00e3o; sem esse relaxar n\u00e3o conseguiremos dormir.<\/p>\n<p>34. Quando adormecemos em um estado onde nossos seis agregados sensoriais est\u00e3o relaxados e alertas, nossa presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 manchada pela fuligem dos pensamentos discursivos e a clara luz natural manifesta-se. Quando nos fixamos ou nos concentramos num \u00fanico objeto de medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 lugar para pensamentos estranhos. Mas quando relaxamo-nos um pouco, \u00e9 f\u00e1cil surgir pensamentos, como ao individuo deixar-se condicionar por eles. N\u00f3s n\u00e3o devemos tentar bloque\u00e1-los, mas se nos faltar presen\u00e7a, eles nos distrair\u00e3o. Seremos ent\u00e3o prisioneiros desses pensamentos e o sono ter\u00e1 que esperar. Mas se permanecermos na presen\u00e7a de um estado relaxado, o sono vir\u00e1 facilmente. Em outras palavras, teremos integrado essa pura presen\u00e7a ao sono, isso leva o nome de \u201cclara luz natural\u201d. Encontraremo-nos ent\u00e3o na presen\u00e7a da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, o dharmata, livre da distra\u00e7\u00e3o dos pensamentos discursivos.<\/p>\n<p>35. Entretanto, se podemos fazer a visualiza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o conseguimos dormir, como proceder ent\u00e3o? Quando vamos nos deitar, temos ainda pensamentos porque a mente continua funcionando. Tamb\u00e9m, quando surgee um pensamento, nesse instante de reconhecimento muito preciso, nos encontramos presentes com uma aten\u00e7\u00e3o clara a tudo que surge. Continuamos nessa presen\u00e7a clara e l\u00edmpida, apesar da intrus\u00e3o de outros pensamentos. Mas n\u00e3o vemos nada neles que poder\u00edamos dizer tratar-se da calma, ou ent\u00e3o do movimento dos pensamentos. Esse procedimento n\u00e3o impedir\u00e1 nem um pouco o individuo de dormir. Mas saturando a mente com pensamentos e deixando-nos prender \u00e0 todas as esp\u00e9cies de coisas por distra\u00e7\u00e3o, seremos incapazes de adormecer. Jamais, entretanto, o estado de presen\u00e7a afetar\u00e1 nosso sono. Encontraremo-nos, pois num estado de presen\u00e7a alerta e vibrante: estabelecidos ent\u00e3o em uma presen\u00e7a tranq\u00fcila, adormecemos.<\/p>\n<p>36. O processo de adormecimento gnyid-log \u00e9 em si mesmo a circunst\u00e2ncia que permite entrar na claridade da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. O funcionamento de todos os nossos sentidos, quando estamos em um estado de presen\u00e7a, se encontra inteiramente absorvido no dharmadatu. At\u00e9 o adormecer completo, \u00e9 poss\u00edvel, nos encontrar presentes nesse estado de contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>37. Ao adormecermos, livramo-nos das marcas k\u00e1rmicas do corpo material, das marcas k\u00e1rmicas da vis\u00e3o e das marcas k\u00e1rmicas do funcionamento da mente. Durante o estado de vig\u00edlia, essas marcas k\u00e1rmicas se manifestam respectivamente como nosso corpo material, como as apar\u00eancias exteriores que percebemos e como o funcionamento das nossas mentes. Porque dizemos que estamos desembara\u00e7ados? Os muros bem s\u00f3lidos de uma pe\u00e7a, por exemplo, constituem limites materiais que n\u00f3s n\u00e3o podemos livremente atravessar. Mas quando estamos presentes no estado de rigpa, n\u00e3o somos condicionados pelos corpos materiais. Quando estamos presentes neste estado, h\u00e1 meios de ultrapassar estes limites e nos reencontrar na real condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia. Como \u00e9 isso poss\u00edvel? Entre o momento em que dormimos e o momento em que come\u00e7amos a sonhar, a mente n\u00e3o funciona e encontramo-nos na presen\u00e7a da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. Neste estado, teremos a experi\u00eancia de um certo grau de fus\u00e3o com o que chamamos a clara luz natural. Se for o caso, seremos capazes de experimentar sem muito esfor\u00e7o, sonhos conscientes dos quais poderemos controlar o conte\u00fado. De outra maneira, no instante da morte, seremos capazes de morrer mantendo uma presen\u00e7a e uma sabedoria totais. E quando morremos mantendo a presen\u00e7a, todas as apari\u00e7\u00f5es que surgem no tch\u00f6nyi bardo, aparecem simplesmente como a manifesta\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, e as reconhecemos como tais. Essas qualidades espontaneamente perfeitas que aparecem ent\u00e3o s\u00e3o as do sambhogakaya. O adormecer \u00e9 um processo an\u00e1logo ao da morte, dominando o estado de sonho nesta vida, atingiremos o dom\u00ednio da morte e do estado do bardo. Adormecer no estado da clara luz natural equivale a experi\u00eancia do tch\u00f6nyi bardo.<br \/>\nA etapa seguinte \u00e9 o surgimento do sonho. O estado de sonho \u00e9 an\u00e1logo ao sipai bardo. Chamamos esse \u00faltimo \u201cbardo do futuro\u201d, porque ele representa o desencadeamento do processo de renascimento. Quando estamos conscientes de nos encontrar no bardo, h\u00e1 muitas coisas a fazer para melhorar a situa\u00e7\u00e3o. Assim, do mesmo modo que no estado de sonho, no bardo, n\u00e3o somos condicionados por um corpo material e, portanto n\u00e3o temos as nossas faculdades sensoriais. Gra\u00e7as \u00e0s pr\u00e1ticas efetuadas enquanto vivo, o praticante se encontrar\u00e1 numa melhor posi\u00e7\u00e3o, e ele ter\u00e1 adquirido uma claridade maior que um ser comum preso \u00e0s experi\u00eancias da p\u00f3s-morte. Pelo fato de sua maior claridade no bardo o praticante ter\u00e1 a capacidade de compreender sua condi\u00e7\u00e3o e o que est\u00e1 por vir. Ele n\u00e3o se sentir\u00e1 desamparado, empurrado cegamente e jogado daqui para l\u00e1 pelo vento de seu karma. Mas esta capacidade s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se estivermos conscientes e presentes durante o bardo. \u00c9 a mesma coisa para os sonhos l\u00facidos, embora possamos utilizar o estado de sonho para adquirir esta capacidade gra\u00e7as a uma pr\u00e1tica cotidiana. No estado de vig\u00edlia, \u00e9 preciso passar pela porta para sair de uma pe\u00e7a, mas no estado de sonho podemos atravessar muros, mesmo se forem aparentemente s\u00f3lidos. Essa experi\u00eancia do estado de sonho favorece enormemente o triunfo sobre os apegos de nossa vida cotidiana, porque em sonho n\u00f3s temos diretamente a experi\u00eancia da insubst\u00e2ncialidade e da irrealidade de todas as coisas.<\/p>\n<p>38. Quando nos encontramos no estado da clara luz natural, n\u00e3o temos pensamentos discursivos criadores de distra\u00e7\u00f5es. Nosso estado de presen\u00e7a se absorve em sua \u201cm\u00e3e\u201d, a clara luz natural, e n\u00f3s nos reconhecemos no estado de dharmata, a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. Dir\u00edamos os reencontros de um filho \u00fanico e sua m\u00e3e ap\u00f3s uma longa separa\u00e7\u00e3o. Assim falamos da clara luz \u201cfilha\u201d que tivemos a experi\u00eancia na pr\u00e1tica durante a vida, e da clara luz \u201cm\u00e3e\u201d que experimentamos no momento de adormecer, e muito particularmente no momento da morte. O que nos interessa, \u00e9 o principio de reintegra\u00e7\u00e3o da energia. Pelo fato de praticar a clara luz natural, ela chegar\u00e1 durante o per\u00edodo que segue \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, e no caso que nos ocupa, saber, o estado de sonho, onde n\u00f3s come\u00e7amos a ter a experi\u00eancia da consci\u00eancia de sonho: reconheceremos que os sonhos s\u00e3o sonhos sem sair do sono. Assim, a pr\u00e1tica da clara luz natural \u00e9 suficiente, e n\u00e3o temos necessidade alguma de nenhuma outra pr\u00e1tica especial, de nenhum outro yoga. Encontramo-nos libertos de toda ilus\u00e3o e alucina\u00e7\u00e3o, e os sonhos surgir\u00e3o como amigos benfeitores ajudando-nos a manifestar nossa dimens\u00e3o da exist\u00eancia na sua totalidade, do mesmo modo que sua sabedoria primordial.<br \/>\nExistem duas maneiras de olhar essa vit\u00f3ria sobre a ilus\u00e3o. De uma parte, reconhecendo que os sonhos s\u00e3o sonhos enquanto dormimos, tomamos consci\u00eancia da natureza ilus\u00f3ria do estado de sonho, e, durante o estado de vig\u00edlia, tomamos cada vez mais consci\u00eancia da natureza ilus\u00f3ria de todas as coisas na vida cotidiana. Por outro lado, n\u00e3o somos mais escravos dos sonhos e do sono. Quando dormimos, temos tend\u00eancia a ser condicionados pelos sonhos segundo os mesmo esquemas que nos condicionam na vida cotidiana. Esta pr\u00e1tica faz, pois do sonho um m\u00e9todo da descoberta do verdadeiro conhecimento e, do mesmo modo, um meio de desenvolver a manifesta\u00e7\u00e3o de nossa dimens\u00e3o e de nossa sabedoria primeira. Eis, em resumo a pr\u00e1tica da noite.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>PR\u00c1TICA DA MANH\u00c3<\/strong><\/p>\n<p>39. Existe uma pr\u00e1tica da manh\u00e3 para o momento de acordar. Que fazemos ent\u00e3o? Quando acordamos pela manh\u00e3, uma sabedoria primordial aparece sem que a mente a tenha modificado, que se mant\u00e9m presente em sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. Em seguida mergulhamos, habitualmente, no funcionamento da mente e dos sentidos, como um morto que descobre que renasceu em um novo corpo. Ora, se por outro lado, ficamos nesse estado natural de pura presen\u00e7a sem distra\u00e7\u00e3o e sem proceder \u00e0 nenhuma medita\u00e7\u00e3o, n\u00f3s nos reencontramos tranq\u00fcilamente presentes em nossa natureza espont\u00e2nea, e nenhum pensamento discursivo nos perturbar\u00e1. O indiv\u00edduo que se encontra nesse estado n\u00e3o poder\u00e1 ser condicionado por qualquer apar\u00eancia que for, nem por nenhum pensamento discursivo. \u00c9 o que chamamos do supremo guru Samantabhadra. Samantabhadra representa o verdadeiro estado primordial do indiv\u00edduo, seu \u201cguru secreto\u201d, se assim podemos dizer. Eis, pois uma maneira de praticar um \u201cguru yoga\u201d essencial. \u00c9 preciso compreender que esse estado de \u201crigpa\u201d \u00e9 rigorosamente id\u00eantico ao estado do guru, do mestre em-si, e que este estado de \u201crigpa\u201d n\u00e3o \u00e9 nenhum outro sen\u00e3o nosso estado primordial inato. Conseq\u00fcentemente, n\u00e3o ser\u00e1 uma quest\u00e3o, no \u201cguru yoga\u201d, de unir ou fundir duas entidades separadas, o mestre e n\u00f3s mesmos; s\u00e3o sobretudo duas coisas insepar\u00e1veis desde a origem primordial! Reconhecer a inseparabilidade do estado do mestre e do nosso pr\u00f3prio estado \u00e9 a maneira suprema de praticar o \u201cguru yoga\u201d.<\/p>\n<p>40. Assim, quando despertamos, encontramo-nos em um estado de presen\u00e7a e, com uma aten\u00e7\u00e3o nua, olhamos diretamente esse estado de presen\u00e7a correta para ver o que podemos encontrar. Neste instante de presen\u00e7a bem preciso n\u00e3o encontraremos, entretanto, absolutamente nada de identific\u00e1vel ou que possamos identificar. E n\u00e3o achamos mais o meditador: ningu\u00e9m est\u00e1 praticando medita\u00e7\u00e3o. De maneira que esta sabedoria primordial nascida de si mesma, luminosa e nua, que surge ao despertar, n\u00e3o encontrando nada a constatar, se auto-libera dos fen\u00f4menos. Uma sabedoria primeira n\u00e3o-dual torna-se presente. Esse \u00e9 um ponto da pr\u00e1tica muito importante. Embora aqui a quest\u00e3o seja do despertar, de manh\u00e3, dever\u00edamos tentar nos entregar \u00e0 essa pr\u00e1tica a cada instante, e por uma boa raz\u00e3o, mesmo quando nos acreditamos muito presentes em um estado de pura consci\u00eancia \u201crigpa\u201d, \u00e9 poss\u00edvel que estejamos ainda sujeitos a uma esp\u00e9cie de sonol\u00eancia, at\u00e9 mesmo de torpor. Para tratar esse problema, n\u00e3o teremos que recorrer a nenhuma estrat\u00e9gia seja qual for, n\u00e3o pensaremos que \u00e9 preciso inicialmente fazer isso ou aquilo. Ser\u00e1 suficiente estarmos presentes, porque assim reencontraremos nossa condi\u00e7\u00e3o anterior, e isso nos reconduzir\u00e1 ao estado de \u201crigpa\u201d. Esta condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica, portanto nem trabalho, nem pensamento da mente; \u00e9 simplesmente o meio de nos encontrar em um estado de presen\u00e7a cuja claridade vai aumentando. \u00c9 tamb\u00e9m um meio de \u201crefrescar\u201d nossa contempla\u00e7\u00e3o em geral, e referimo-nos a isso falando de \u201csabedoria primordial espont\u00e2nea\u201d.<\/p>\n<p>41. Assim, ao nos acordamos de manh\u00e3, uma sabedoria primordial n\u00e3o-dual aparece e, ao mesmo tempo em que ela aparece, \u00e9 auto-liberada. Encontramo-nos al\u00e9m de nossa vis\u00e3o k\u00e1rmica comum de um modo objetivo e transcendemos todos os pensamentos dualistas: uma sabedoria primordial n\u00e3o-discursiva manifesta-se claramente. Permanecemos ent\u00e3o presentes nesta sabedoria que os pensamentos discursivos n\u00e3o podem absolutamente condicionar. Nossa presen\u00e7a na sabedoria permite a uma consci\u00eancia primordial de luminosidade, n\u00e3o manchada pelos pensamentos discursivos de tornar-se claramente manifesta. E como n\u00e3o nos encontramos mais no n\u00edvel dual do sujeito e do objeto, \u00e9 uma sabedoria primordial de sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel que se torna claramente manifesta.<\/p>\n<p>42. Al\u00e9m disso, uma sabedoria primordial suprema se eleva, que n\u00e3o \u00e9 nunca err\u00f4nea porque compreendemos que todos os fen\u00f4menos s\u00e3o, em si mesmos, a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. A seguir, \u00e9 uma sabedoria primordial de avalia\u00e7\u00e3o quantitativa, conhecendo cada coisa em sua individualidade, que se faz completa e claramente evidente, e ent\u00e3o, a natureza espont\u00e2nea do \u201ctrikaya\u201d, ou das tr\u00eas dimens\u00f5es de nossa exist\u00eancia, se torna manifesta em grau supremo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>BENEF\u00cdCIOS DA PR\u00c1TICA<\/strong><\/p>\n<p>43. Quando praticamos desse modo noite e dia, \u00e9 a vida que entra em contempla\u00e7\u00e3o na totalidade de sua dimens\u00e3o. Pouco a pouco o individuo adquire uma aptid\u00e3o cada vez mais desenvolvida, at\u00e9 que a pr\u00e1tica lhe seja familiar. Portanto, as paix\u00f5es se apresentam como alguma coisa \u00fatil na via. E alem do mais, adquirimos, em certa medida, a possibilidade de ajudar os outros no \u201ctrikaya\u201d, as tr\u00eas dimens\u00f5es da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>44. Nosso grau de familiaridade com a pr\u00e1tica podemos medir pelo controle maior ou menor do estado de sonho. A pr\u00e1tica nos permite, dia ap\u00f3s dia, triunfar sobre os apegos, de maneira que as sensa\u00e7\u00f5es de prazer e de dor n\u00e3o mais nos condicionam. E encontramo-nos em um estado de integra\u00e7\u00e3o em nenhum caso recoberto por concep\u00e7\u00f5es e julgamentos. Pelo simples fato da presen\u00e7a da sabedoria primordial, todas as apar\u00eancias surgem como amigas suscet\u00edveis de nos ajudar na via. De fato, tudo o que encontramos na via pode servir \u00e0 aprofundar nossa pr\u00e1tica. Podemos, pois, interromper a continuidade da vis\u00e3o ilus\u00f3ria e nos reencontrar no estado do \u201cdharmata\u201d, a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>45. O perfeito praticante do dzogchen encontra-se no estado real da exist\u00eancia e a\u00ed permanece sem jamais se desviar, tanto de dia como de noite. \u201cSem desviar\u201d designa a estabilidade da presen\u00e7a. \u00c9 poss\u00edvel realizar a budeidade mesma em um instante t\u00e3o breve como aquele que separa duas respira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>46. Como podemos utilizar as emo\u00e7\u00f5es quando elas aparecem na via? Sem categoriz\u00e1-las em boas ou m\u00e1s, encontramos todos os fen\u00f4menos presentes no estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. \u00c9 isso que entendemos habitualmente por ro-gcig, \u201cde um \u00fanico sabor\u201d. Como todos esses fen\u00f4menos est\u00e3o a\u00ed na plena pura presen\u00e7a, e na aus\u00eancia de qualquer conceitua\u00e7\u00e3o \u00e0 respeito, reconhecemos o erro por permanecermos na n\u00e3o-discursividade. Em outros termos, nos encontramos em um estado de pura presen\u00e7a, e ent\u00e3o, quando se eleva a paix\u00e3o do erro, nos reencontramos em um estado de n\u00e3o-discursividade. Todos os fen\u00f4menos se manifestam como a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia tal como \u00e9 em si mesma. A vacuidade e a perfei\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea est\u00e3o simultaneamente presentes nesta sabedoria primordial.<\/p>\n<p>47. Todos os fen\u00f4menos que se apresentam como os objetos dos seis agregados sensoriais est\u00e3o presentes em um modo de claridade luminosa e s\u00e3o despidos de ser-em-si. Embora n\u00e3o existindo realmente, eles est\u00e3o a\u00ed como a real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. No momento que ela surge, reconhecemos que a emo\u00e7\u00e3o da c\u00f3lera tem por marca distintiva a claridade luminosa, e esta emo\u00e7\u00e3o se manifesta como a sabedoria primordial da luminosidade.<\/p>\n<p>48. Tudo o que aparece a nossa volta, tudo o que concerne a nossa vis\u00e3o exterior, tudo n\u00e3o \u00e9 outra coisa que o estado da real condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, e, no nosso interior, o estado de pura presen\u00e7a \u00e9 em si mesmo a sabedoria primordial. Dever\u00edamos, todavia evitar de pensar que essas duas coisas (o dharmata e rig-pa) s\u00e3o de um modo \u00faltimo distintos e separados. Se fosse esse o caso nenhuma integra\u00e7\u00e3o seria poss\u00edvel. Mas n\u00e3o permaneceremos no n\u00edvel onde fazemos distin\u00e7\u00e3o entre um exterior que se oporia a um interior. A realiza\u00e7\u00e3o desta inseparabilidade d\u00e1 nascimento a manifesta\u00e7\u00e3o de grande felicidade, mahasukha, que \u00e9 n\u00e3o\u2013dual por natureza. E como ela encarna a energia, ou compaix\u00e3o, reconhecemos a emo\u00e7\u00e3o do desejo como, na realidade uma manifesta\u00e7\u00e3o do poder criativo da grande felicidade. Assim, se manifesta uma consci\u00eancia primordial da sensa\u00e7\u00e3o de grande felicidade, espontaneamente perfeita e sem a menor limita\u00e7\u00e3o. Eis como \u00e9 poss\u00edvel utilizar as emo\u00e7\u00f5es na via.<\/p>\n<p>49. Adquiriremos o poder de ajudar todos os outros seres alargando as tr\u00eas dimens\u00f5es de nossa exist\u00eancia. O indiv\u00edduo existe em tr\u00eas modos, segundo o funcionamento do seu corpo, fala (ou energia) e sua mente. Quando nos realizamos completamente, esta realiza\u00e7\u00e3o pode se manifestar de diferentes maneiras que representam a manifesta\u00e7\u00e3o do trikaya, das tr\u00eas dimens\u00f5es de nossa exist\u00eancia. O nirmanakaya designa ent\u00e3o nossa dimens\u00e3o material, ou nosso corpo, o sambhogakaya designa a dimens\u00e3o sutil de nossa energia e o dharmakaya, a dimens\u00e3o da exist\u00eancia e a sabedoria primordial que lhe \u00e9 inerente. Nesse n\u00edvel os tr\u00eas venenos n\u00e3o s\u00e3o mais chamados \u201cvenenos\u201d porque, o indiv\u00edduo ao atingir a realiza\u00e7\u00e3o, esses mesmos venenos manifestam-se estritamente como sua dimens\u00e3o de exist\u00eancia e a sabedoria primordial que lhe \u00e9 inerente.<\/p>\n<p>50. N\u00e3o existem mais paix\u00f5es enquanto tais, as causas de sua emerg\u00eancia foram todas eliminadas, e escapamos da transmigra\u00e7\u00e3o no samsara. A condi\u00e7\u00e3o do nirvana foi atingida, isso significa literalmente \u201cpassamos al\u00e9m do sofrimento\u201d. Embora lhe seja dado o nome de nirvana, como se algu\u00e9m chegasse a algum lugar, ou houvesse atingido alguma coisa, na verdade n\u00e3o h\u00e1 nenhum objetivo, nem nada a atingir. Essas s\u00e3o, sobretudo e muito simplesmente, as qualidades inatas desse estado do indiv\u00edduo que s\u00e3o espontaneamente tornadas evidentes, em uma forma perfeita, por si mesmas e sem corre\u00e7\u00e3o nem modifica\u00e7\u00e3o da mente. Nada a mudar, nada a corrigir, nada a modificar; tudo \u00e9 perfeito tal como \u00e9 pelo fato mesmo de ser a manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea do estado primordial do indiv\u00edduo. Ele v\u00ea simplesmente que aquilo que estava em pot\u00eancia desde o in\u00edcio est\u00e1 doravante manifesto, como o sol que reaparece no c\u00e9u uma vez que as nuvens se dissiparam. \u00c9 isso que chamamos \u201cclaridade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>QUALIDADES DO PRATICANTE<\/strong><\/p>\n<p>50. No ve\u00edculo supremo do Atiyoga dzogchen, esta pr\u00e1tica \u00e9 dita ser bem adaptada ao praticante que possui cinco aptid\u00f5es:<\/p>\n<p>1. Boa vontade de participar, ou a f\u00e9.<br \/>\n2. Aplica\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica.<br \/>\n3. A presen\u00e7a da mente, ou aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n4. A concentra\u00e7\u00e3o.<br \/>\n5. A intelig\u00eancia, ou conhecimento.<\/p>\n<p>Temos necessidade de cada uma dessas cinco aptid\u00f5es. Com sabedoria e intelig\u00eancia, devemos trabalhar para reunir condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao desenvolvimento de tal aptid\u00e3o ou de outra que nos faz falta, ou de que temos necessidade. Assim, n\u00e3o nos faltar\u00e1 a ocasi\u00e3o suprema de praticar o dzogchen.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>52. Quando agimos segundo o sistema dos sutras do mahayana, \u00e9 sempre com a inten\u00e7\u00e3o altru\u00edsta de fazer o bem a todos. N\u00e3o \u00e9 preciso, em seguida negligenciar a compreens\u00e3o da vacuidade e da natureza ilus\u00f3ria de todas as coisas. E enfim, no momento de concluir, dedicamos os m\u00e9ritos provenientes da pr\u00e1tica para o benef\u00edcio de todos os seres. Expomos aqui uma \u00ednfima por\u00e7\u00e3o do n\u00e9ctar quintessencial do ensinamento do mestre Garab Dordje formulando o desejo que todos aqueles que entraram em contato com essas instru\u00e7\u00f5es realizem por eles mesmos o estado de Samantabhadra, o estado primordial do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>RESUMO BIOGR\u00c1FICO DO AUTOR<\/strong><\/p>\n<p>O autor deste texto sobre a pr\u00e1tica do dzogchen, Namkha\u00ef Norbu Rinpoche, nasceu em dGe-\u2018ug, cidade do distrito de lCongra, no principado de sDe-ge no Tibet oriental, no oitavo dia do d\u00e9cimo m\u00eas do ano do tigre da terra (1938). Seu pai, sGrol-ma Tshe-ring, pertencia a uma fam\u00edlia nobre e havia participado no governo de sDe-dge, e sua m\u00e3e se chamava Ye-shes Chos-sgron.<br \/>\nCom a idade de dois anos, ele foi reconhecido por dPal-yul Karma Yang-srid Rinpoche1 e Zhe-chen Rab-\u2018byams Rinpoche2 como a reencarna\u00e7\u00e3o de A\u2018dzom \u2018Brug-pa3. A\u2018dzom \u2018Brug-pa foi um dos grandes mestres dzogchen do in\u00edcio do s\u00e9culo. Ele foi disc\u00edpulo do primeiro mKhyen-brtse Rinpoche, \u2018Jamdbyangs mKhyen-brtse dBang-po (1829-1892), e de dPal-sprul Rinpoche4. esse dois ilustres mestres dirigiam o movimento ris-med, ou \u201cn\u00e3o\u2013sect\u00e1rio\u201d, no Tibet oriental do s\u00e9c XIX. Trinta e sete vezes, A\u2018dzom \u2018Brug-pa recebeu transmiss\u00f5es de seu mestre principal, \u2018Jam-dbyangs mKhyen-brtse; e de dPal-sprul Rinpoche ele recebeu a transmiss\u00e3o completa do kLong-chen snying-thig e dos preceitos do rtsa-rlung. A\u2018dzom \u2018Brug-pa se tornou por sua vez um gter-ston, um descobridor de tesouros ocultos, com a idade de trinta anos, ap\u00f3s certas vis\u00f5es diretas do incompar\u00e1vel \u2018Jigs-med gLin-pa (1730-17980. Como ele ensinava a A\u2018dzom-sgar, no leste do Tibet, durante os retiros de ver\u00e3o e de inverno5, A\u2018dzom \u2018Brug-pa tornou-se o mestre de um grande numero de docentes do rdzogs-chen da \u00e9poca. Um deles foi o tio paterno de Norbu Rinpoche, rTogs-ldan O-rgyan bsTan-\u2018dzin6, que foi seu primeiro mestre de rdzogs-chen.<br \/>\nCom a idade de oito anos, Norbu Rinpoche foi reconhecido pelo sexto Karmapa7 e dPal-spung Si-tu Rinpoche8, de Lho-\u2018brug Zhabs-drung Rinpoche10. Este \u00faltimo, reencarna\u00e7\u00e3o do ilustre mestre \u2018brug-pa bka\u2019-brgyud Padma dKarpo (1527-1592), \u00e9 o verdadeiro fundador hist\u00f3rico do Estado do But\u00e3o. At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os Zhabs-drung Rinpoches eram os dharmarajas, os chefes temporais e espirituais do But\u00e3o.<br \/>\nNorbu Rinpoche era ainda crian\u00e7a quando rDzogs-chen mKhan Rinpoche12 e seu tio paterno rTogs-ldan O-rgyan bsTan-\u2018dzin lhe transmitiram as instru\u00e7\u00f5es do rDzogs-chen gsang-ba snying-thig e do sNying-thig ya-bzhi. Nesse entretempo, gNas-rgyab mChog-sprul Rinpoche13 lhe transmitiu os rNying-ma bka\u2019-ma, o kLong-gsal rdo-rje snying-po e o gNams-chos de Mi-\u2018gyur rDorje, mKhan Rinpoche dPal-ldan Tshul-khrims (nascido em 1906) lhe transmitiu o rGyud-sde kun-btus, a celebre cole\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas tantricas sa-skya-pa. E por acr\u00e9scimo, ele recebeu muitas inicia\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es orais14 diretas de ilustres mestres ris-med, ou n\u00e3o sect\u00e1rias, do Tibet oriental.<br \/>\nEntre oito e doze anos, ele freq\u00fcentou o col\u00e9gio de sDe-dge dbon-stod slob-grwa do monast\u00e9rio de sDedge dgon-chen, e a\u00ed, com mKhan Rinpoche mKhyen-rab Chos-kyl \u2018Od-zer (nascido em 1901), ele estudou os treze textos b\u00e1sicos15 em vigor nos cursos acad\u00eamicos estabelecido por mKhan-po gZhan-dga\u201916. foi ent\u00e3o que Norbu Rinpoche se tornou um especialista do Abhisamayalankara. Com o mesmo mestre, ele estudou o grande coment\u00e1rio do tantra do Kalachakra, o tantra do Guhyagarbha, o Zab-mo nang-don do Karmapa Rang-byung rDo-rje, os tantras da medicina18, as astrologias chinesa e indiana19; e, dele ainda, recebeu as inicia\u00e7\u00f5es e as transmiss\u00f5es do Saskya\u2019i sgrub-thabs kun-btus.<br \/>\nDe oito a quatorze anos, ele cursou o col\u00e9gio de sDedge Ku-se gSer-ljongs bshad-grwa, e mKhan Rinpoche Ku-se gSer-ljongs bshad-grwa, e mKhan Rinpoche Brag-gyab bLogors (nascido em 1913) o instruiu nos sutras do Prajnaparamita, o Abhisamayalankara e tr\u00eas textos tantricos: o rDor-rje Gur, o tantra de Hevajra e o tantra de Samputa20. Seu preceptor mChog-sprul Rinpoche21 lhe ensinou as ci\u00eancias profanas22.<br \/>\nFoi ainda entre os oito e quatorze anos que, no monast\u00e9rio de rDsong\u2014gsar, ao sul de Dergue, ele recebeu os ensinamentos do ilustre rDzong-gsar mKhyen-brtse Rinpoche23 sobre o Sasskya\u2019i zachos lam-\u2018bras, a doutrina quintessencial da escola sa-skya-pa, e sobre o rGyud-kyi spyi-don tnam-bzhag, o lJon-shing chen-mo e o tantra de Hevajra24. Depois no col\u00e9gio de Khams-bre bshad-grwa, com mKhan Rinpoche Mi-nyag Dam-chos (nascido em 1920), ele estudou um texto fundamental de l\u00f3gica, o Tshad-ma rig-gter de Sa-skya Pandita.<br \/>\nEm seguida, ele se retirou para uma gruta de medita\u00e7\u00e3o, em Seng-chen gNam-brag, para fazer com seu tio r\u2019Togs-ldan O-rgyan bsTan-\u2018dzin um retiro dedicado as pr\u00e1ticas de Vajrapani, Sinhamukha e Tara Branca.<\/p>\n<p><strong>NOTAS:<\/strong><\/p>\n<p><em>1. Kun-bzang \u2018gro-\u2018dul \u2018od-gsal klong-yangs rdor-rje, nascido em (1898 -)<\/em><br \/>\n<em> 2. sNang-mdzod grub-pa\u2019i rdo-rje, nascido em (1900 &#8211; )<\/em><br \/>\n<em> 3. \u2018Gvo-\u2018dul dpa\u2019-bo rdo-rje, (1842-1924)<\/em><br \/>\n<em> 4. rDza dPal-sprul Rin-po-che, O-rgyan\u2019jigs-med chos kyi dbang-po, (1808-1887)<\/em><br \/>\n<em> 5. Durante os retiros de ver\u00e3o, ele ensinava os rdzogs-chen, e durante os retiros de inverno, o rtsa-rlung, o yoga dos canais e das energias.<\/em><br \/>\n<em> 6. rTogs-idan designa \u201caquele ou aquela que compreendeu\u201d, a palavra \u00e9 mais ou menos sin\u00f4nimo de rnal-\u2018byor-pa, \u201cyogui\u201d.<\/em><br \/>\n<em> 7. rGyal-ba Karmapa, Rang-\u2018byung rig-pa\u2019i rdo-rje (1924-1981)<\/em><br \/>\n<em> 8. Padma dbang-mchog rgyal-po (1886-1952)<\/em><br \/>\n<em> 9. Thugs-kyi sprul-sku<\/em><br \/>\n<em> 10. Ngag-dbang rnam-rgyal, (1594-1651)<\/em><br \/>\n<em> 11. Kun-dga\u2019 dpal-idan, (1878-1950)<\/em><br \/>\n<em> 12. \u2018Jam-dbyangs chos kyi dbang-phyng, (1910-1973)<\/em><br \/>\n<em> 13. \u2018Jam-dbyangs blo-gros rgya-mtsho, (1902-1952)<\/em><br \/>\n<em> 14. dBang dang khrid<\/em><br \/>\n<em> 15. gZhung-chen bcu-gsum. A saber:<\/em><br \/>\n<em> O Pratimokshas\u00fbtra, O Vinayas\u00fbtra de Gunaprabha,<\/em><br \/>\n<em> O Abhidharmasamuccaya de Asanga, O Abhidharmakosha de Vasubandhu,<\/em><br \/>\n<em> O Madhyamakavatara de Chandrakirti, Os Mulamadhyamakakarika de Nagarjuna,<\/em><br \/>\n<em> Os Catuhshataka de Aryadeva, O Bodhi\u00e7aryavatara de Shantideva.<\/em><br \/>\n<em> E os cinco tratados maiores de Maitreya-Asanga:<\/em><br \/>\n<em> O Abhisamayalankara,<\/em><br \/>\n<em> O Mahayanasutralankara,<\/em><br \/>\n<em> O Madhyantavibhanga,<\/em><br \/>\n<em> O Dharmadharmatavibhanga,<\/em><br \/>\n<em> O Uttaratantra<\/em><br \/>\n<em> 16. gZhan-phan chos-kyi snang-ba<\/em><br \/>\n<em> 17. Dus-\u2018Khor \u2018grel-chen<\/em><br \/>\n<em> 18. rGyud-bzhi<\/em><br \/>\n<em> 19. rTsis dkar-nag<\/em><br \/>\n<em> 20. Gur-brtag sam-gsum<\/em><br \/>\n<em> 21. Yongs-\u2018dzim mchog-sprul kun-dga\u2019 grags-pa, 1922 \u2013<\/em><br \/>\n<em> 22. Rig-gnas-kyi skor.<\/em><br \/>\n<em> 23. rDzong-gsar mkhyen-brtse rin-po-che, \u2018Jam-mgon mkhyen-sprul Choskyi blos-gros, 1896-1959.<\/em><br \/>\n<em> 24. sPyi-ljon brtag-gsum. O Tantra de Hevajra leva tamb\u00e9m do nome de brtag gnyis, ou \u201cem duas partes\u201d.<\/em><br \/>\n<em> 25. Mun-mtshams.<\/em><br \/>\n<em> 26. dGongs-gter.<\/em><br \/>\n<em> 27. Gangs-dkar rin-po-che Karma dshad-sprul shos-kyi seng-ge, (1903- 1956).<\/em><br \/>\n<em> 28. N\u00e3-ro chos-drug.<\/em><br \/>\n<em> 29. rTca-ba\u2019i bla-ma, (mestre principal).<\/em><br \/>\n<em> 30. Shar-rdza bKa-shis rgyal-mtshan, (1859-1935).<\/em><br \/>\n<em> 31. \u2018Ja\u2019-lus-pa.<\/em><br \/>\n<em> 32. rDzogs-chen \u2018dus-sde.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ch\u00f6gyal Namkha\u00ef Norbu Rinpoche Onde progredimos na Via do Yoga Primordial Texto essencial sobre a pr\u00e1tica do Dzogchen ordenado, traduzido e apresentado por John Reynolds para a edi\u00e7\u00e3o americana. Texto principal: LE CYCLE DU JOUR ET DE LA NUIT \u2013 &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-ciclo-do-dia-e-da-noite\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1611,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-1107","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dzogchen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1107"}],"version-history":[{"count":11,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5940,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1107\/revisions\/5940"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1611"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}