{"id":1115,"date":"2015-01-07T15:28:30","date_gmt":"2015-01-07T17:28:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?page_id=1115"},"modified":"2018-07-17T10:52:19","modified_gmt":"2018-07-17T12:52:19","slug":"o-estado-de-auto-perfeicao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-estado-de-auto-perfeicao\/","title":{"rendered":"O estado de auto-perfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: right;\"><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-estado-de-auto-perfeicao\/dzogchen-2\/\" rel=\"attachment wp-att-1320\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-1320\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/dzogchen.png\" alt=\"\" width=\"185\" height=\"185\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/dzogchen.png 225w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/dzogchen-150x150.png 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/dzogchen-50x50.png 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 185px) 100vw, 185px\" \/><\/a> <strong><em>Namkha\u00ef Norbu Rinpoche<\/em><\/strong><br \/>\n<em>Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Maria Heleosina Ribeiro Pess\u00f4a <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Revis\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o das notas: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Esta tradu\u00e7\u00e3o foi realizada para um c\u00edrculo restrito de praticantes de Dzogchen, assim sendo pedimos a considera\u00e7\u00e3o de n\u00e3o divulg\u00e1-la.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O DO EDITOR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>UMA PERSPECTIVA HIST\u00d3RICA DO DZOGCHEN<\/strong><\/p>\n<p>Os ensinamentos do Dzogchen <em>(rdzogs chen)<\/em>\u00b9, de acordo com o mestre Namkha\u00ef Norbu Rinpoche, podem ser \u00fateis para possibilitar qualquer indiv\u00edduo a descobrir sua verdadeira condi\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, ajudar a aprender a viver sua vida de um modo mais relaxado. N\u00f3s iremos descobrir nas p\u00e1ginas deste livro o significado de \u201crelaxamento\u201d no Dzogchen e como \u00e9 poss\u00edvel pratic\u00e1-lo sem qualquer tipo de ren\u00fancia ou submetendo-se a qualquer atividade que possa n\u00e3o ser compat\u00edvel com uma rotina normal de vida.<\/p>\n<p>Apesar de, no decorrer da hist\u00f3ria do Tibet, o Dzogchen ter sido introduzido e difundido no pa\u00eds por duas grandes tradi\u00e7\u00f5es \u2013 o Budismo e o <em>Bon<\/em>\u00b2, n\u00e3o devem ser classificados como uma religi\u00e3o ou como uma tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, pois eles s\u00e3o um meio de conhecimento completo do estado de ser do indiv\u00edduo al\u00e9m dos limites de qualquer cren\u00e7a religiosa ou cultura. Sem nunca ter se tornado uma seita, o Dzogchen se manteve como um ensinamento direto porque, no decorrer dos s\u00e9culos, permaneceu como uma pura e aut\u00eantica transmiss\u00e3o, incompat\u00edvel com as demais estruturas formais das institui\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>O Budismo foi oficialmente introduzido no Tibet durante o reinado de Trisong Detsen <em>(Khri srong lDe brtsan)<\/em> (742-797 AD) apesar de, h\u00e1 s\u00e9culos, ter influenciado a cultura da \u00cdndia, China e outros pa\u00edses vizinhos. O rei Trisong Detsen convidou para sua corte mestres budistas e <em>pandits<\/em> da \u00cdndia e de <em>Oddiyana<\/em>, um antigo reino que foi identificado como sendo localizado no <em>Swat Valley<\/em>, hoje em dia Paquist\u00e3o. <em>Oddiyana<\/em> foi considerado o lugar de onde se originaram os ensinamentos <em>t\u00e2ntricos<\/em> e foi, nos tempos antigos, um pa\u00eds onde j\u00e1 havia uma cultura budista bem desenvolvida, por isso muitos mestres foram para l\u00e1 receber ensinamentos. Foi tamb\u00e9m em <em>Oddiyana<\/em> que o Dzogchen teve origem com o mestre Garab Dorje\u00a0 <em>(DGa\u00b4rab rDo rje),<\/em> muitos s\u00e9culos antes da Era Crist\u00e3\u00b3. Posteriormente foi incorporado \u00e0 Tradi\u00e7\u00e3o Budista. Os ensinamentos de Garab Dorje foram considerados \u201cdistantes da lei <em>c\u00e1rmica<\/em> de causa e efeito\u201d e \u201csem p\u00e9 nem cabe\u00e7a\u201d por seus primeiros disc\u00edpulos \u2013 famosos <em>pandits<\/em> Budistas, de vis\u00e3o tradicionalista. Por causa disso, desse momento em diante, a transmiss\u00e3o do Dzogchen tornou-se secreta e paralela \u00e0s doutrinas Budistas oficiais. O Budismo, em sua forma <em>t\u00e2ntrica<\/em>, foi introduzido no Tibet principalmente por Padmasambhava, um mestre capaz de atos miraculosos, que veio de sua terra natal \u2013 <em>Oddiyna<\/em>, atrav\u00e9s de convite do rei Trisong Detsen. Com o intuito de difundir os ensinamentos do Dzogchen no Tibet, Padmasambhava sugeriu ao Rei que enviasse um tibetano de nome Vairocana para <em>Odiyana<\/em>. Vairocana recebeu posteriormente todos os ensinamentos de Dzogchen atingindo o mesmo est\u00e1gio do Mestre Shri Singha, disc\u00edpulo de Manjushrimitra<sup>4<\/sup>, que por sua vez foi disc\u00edpulo de Garab Dorje, e que mais tarde introduziu esses ensinamentos no Tibet, transmitindo-os, por\u00e9m, apenas para poucos. O <em>pandit<\/em> Vimalamitra, tamb\u00e9m disc\u00edpulo de Shri Singha, foi subseq\u00fcentemente convidado para a corte do Rei Trisong Detsen, onde transmitiu outros ensinamentos do Dzogchen. Esse per\u00edodo foi de intensa atividade de difus\u00e3o, de tradu\u00e7\u00e3o de textos budistas originais e tamb\u00e9m de tradu\u00e7\u00f5es para o Tibetano de textos Dzogchen, principalmente do idioma de <em>Oddiyana<\/em>. Todos os textos traduzidos nesse per\u00edodo contendo tanto ensinamentos <em>t\u00e2ntricos <\/em>como do Dzogchen foram depois classificados como pertencendo \u00e0 \u201cAntiga Tradi\u00e7\u00e3o\u201d ou <em>Nyingmapa (rNying ma pa<\/em>), diferenciando-se dos <em>Tantras <\/em>traduzidos na segunda difus\u00e3o dos ensinamentos no s\u00e9culo XI<sup>5<\/sup>. Deste modo o Dzogchen foi considerado parte da doutrina da Escola <em>Nyingmapa<\/em> do Budismo Tibetano. Nessa tradi\u00e7\u00e3o todos os v\u00e1rios sistemas de ensinamento s\u00e3o subdivididos em nove Caminhos ou \u201cVe\u00edculos\u201d <em>(yana).<\/em> S\u00e3o eles:<\/p>\n<p>1. O secular ve\u00edculo das divindades e homens <em>(\u00b4jig rten lha mi\u00b4i theg pa),<\/em> que inclui todos os tipos de sistemas religiosos n\u00e3o-Budistas.<\/p>\n<p>2. O ve\u00edculo dos <em>shravakas<\/em> (ouvintes) e dos <em>pratyekabuddhas<\/em> (aqueles que aspiram a ilumina\u00e7\u00e3o apenas para si pr\u00f3prios. Esses compreendem os ensinamentos de <em>Budismo Hinayana<\/em>.<\/p>\n<p>3. O ve\u00edculo dos <em>bodhisattvas,<\/em> que consiste nos ensinamentos <em>do Mahayana.<\/em><\/p>\n<p>4. <em>Kriya Tantra.<\/em><\/p>\n<p>5. <em>Ubhava Tantra.<\/em><\/p>\n<p>6. <em>Yoga Tantra.<\/em><\/p>\n<p>Esses tr\u00eas \u00faltimos ve\u00edculos s\u00e3o chamados de \u201c<em>Tantras<\/em> externos\u201d, porque as pr\u00e1ticas neles envolvidas s\u00e3o baseadas principalmente na purifica\u00e7\u00e3o e no preparo individual para receber a sabedoria de seres realizados.<\/p>\n<p>7. <em>Mahayoga.<\/em><\/p>\n<p>8. <em>Anuyoga.<\/em><\/p>\n<p>9. <em>Atiyoga.<\/em><\/p>\n<p>Esses ve\u00edculos s\u00e3o geralmente conhecidos como \u201c<em>Tantras <\/em>internos\u201d, por\u00e9m, na verdade, apenas os dois primeiros s\u00e3o ensinamentos <em>t\u00e2ntricos<\/em>, sendo o princ\u00edpio do <em>Tantra<\/em> a transforma\u00e7\u00e3o dos constituintes psicof\u00edsicos do indiv\u00edduo na pura dimens\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o. <em>Atiyoga,<\/em> que \u00e9 sin\u00f4nimo de Dzogchen, \u00e9 baseado no caminho de auto-libera\u00e7\u00e3o e no conhecimento experimental direto do estado primordial. Essas subdivis\u00f5es dos <em>Tantras<\/em> s\u00e3o peculiares das Escola <em>Nyingmapa.<\/em><\/p>\n<p>As outras tr\u00eas principais Tradi\u00e7\u00f5es do Budismo Tibetano, <em>Kagyudpa (bKa\u00b4 rgyud pa),<\/em> <em>Sakyapa (Sa skya pa)<\/em> e <em>Gelugpa (dGe lugs pa)<\/em> classificam os <em>Tantras <\/em>mais elevados ou <em>Anuttara Tantra<\/em> como:<\/p>\n<p><em>Pitriyoga:<\/em><\/p>\n<p><em>1. Tantras<\/em> dos Pais.<\/p>\n<p><em>2. Matriyoga: Tantras<\/em> das M\u00e3es.<\/p>\n<p><em>3. Advityayoga: Tantras<\/em> n\u00e3o-duais.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas tipos de <em>Anuttara-tantra<\/em> s\u00e3o baseados no sistema de transforma\u00e7\u00e3o gradual, como \u00e9 praticado no <em>Mahayoga<\/em> da Tradi\u00e7\u00e3o <em>Nyingmapa.<\/em> O <em>Anuyoga<\/em> \u00e9 um sistema baseado na transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o-gradual, somente encontrado nas Tradi\u00e7\u00f5es mais antigas \u2013 a <em>Nyingmapa.<\/em> Os ensinamentos escritos de Dzogchen s\u00e3o divididos em tr\u00eas se\u00e7\u00f5es: as S\u00e9ries da Natureza da Mente <em>(sems sde)<\/em><sup>6<\/sup>, as S\u00e9ries do Espa\u00e7o Primordial <em>(klong sde),<\/em> e as S\u00e9ries das Instru\u00e7\u00f5es Secretas <em>(man ngag sde<\/em>). As primeiras duas s\u00e9ries foram introduzidas no Tibet por Vairochana e, a terceira, por Vimalamitra. Esses ensinamentos que foram originalmente transmitidos por Padmasambhava e depois escondidos em v\u00e1rios lugares no Tibet s\u00e3o tamb\u00e9m parte da S\u00e9rie das Instru\u00e7\u00f5es Secretas. Este tipo de texto, conhecido como \u201c<em>terma<\/em>\u201d <em>(gter ma)<\/em> ou \u201ctesouros\u201d<sup>7<\/sup>, come\u00e7ou a ser descoberto do s\u00e9culo XIII em diante. Aqueles textos que, por outro lado, foram transmitidos oralmente da \u00e9poca de Garab Dorje em diante, s\u00e3o conhecidos como \u201cTradi\u00e7\u00e3o Oral\u201d <em>(bka\u00b4 ma).<\/em><\/p>\n<p>Outra Tradi\u00e7\u00e3o dos ensinamentos de Dzogchen, diferenciando-se tanto em sua origem como na linhagem de seus mestres, \u00e9 encontrada dentro da religi\u00e3o <em>B\u00f6n<\/em>, que se expandiu a partir de <em>Shang-Shung<\/em>, um antigo reino na regi\u00e3o Oeste do Tibet <sup>8<\/sup>. Dada a situa\u00e7\u00e3o presente das pesquisas, \u00e9 imposs\u00edvel saber se h\u00e1 apenas um \u00fanico ponto de origem para todos os ensinamentos de Dzogchen. No decorrer dos s\u00e9culos, os ensinamentos do Dzogchen t\u00eam sido praticados por mestres pertencentes a todas as escolas e tradi\u00e7\u00f5es. Isso se deve a verdadeira natureza do Dzogchen que transcende os limites de escolas e barreiras criadas por seres humanos.<\/p>\n<p>A linhagem \u00e9 formada por uma linha de mestres que vem do pr\u00f3prio Garab Dorje \u00e0 Ch\u00f6gyal Namkhai Norbu, que atualmente ensina Dzogchen no Oeste. Nascido em 1938, perto de Derghe, na regi\u00e3o Leste do Tibet, desde sua inf\u00e2ncia ele recebeu v\u00e1rios ensinamentos e inicia\u00e7\u00f5es de mestres de diversas tradi\u00e7\u00f5es, particularmente de dois primos que foram grandes praticantes de Dzogchen<sup>9<\/sup>. Com oito anos de idade, ele come\u00e7ou sua educa\u00e7\u00e3o escolar, que incluiu muitos anos de estudos da filosofia Budista e de v\u00e1rios outros ramos do conhecimento Tibetano. Em 1954, depois de completar seus estudos, ele foi convidado para ir \u00e0 China para fazer parte de uma delega\u00e7\u00e3o representando os monast\u00e9rios Budistas do Tibet. L\u00e1, ele lecionou Tibetano por dois anos em Chengdu, na prov\u00edncia de Sichuan, na regi\u00e3o Oeste das fronteiras da China. Durante esse per\u00edodo ele teve a oportunidade de conhecer Konkar Rinpoche <em>(Gangs dkar rin po Che)<\/em> (1903-1956)<sup>10<\/sup>, o famoso mestre da tradi\u00e7\u00e3o <em>Kagyudpa,<\/em> de quem ele recebeu muitos ensinamentos. Por\u00e9m, foi em seu retorno ao Tibet que ele conheceu, depois de um sonho premonit\u00f3rio, o mestre que lhe abriu os port\u00f5es do ensinamento \u2013 <em>Rigdzin <\/em>Changchub Dorje <em>(Rig \u00b4dzin Byang chub rDo rje)<\/em> (1826-1961), um grande mestre de Dzogchen e descobridor de <em>terma<\/em>, que viveu simplesmente como um m\u00e9dico de vilarejo. Durante os v\u00e1rios meses que Namkhai Norbu Rinpoche ficou com seu mestre, ele recebeu muitos ensinamentos essenciais do Dzogchen mas, acima de tudo, ele recebeu a transmiss\u00e3o do verdadeiro estado de conhecimento de Dzogchen, que vai muito al\u00e9m de livros e palavras. Rigdzin Changchub Dorje continuou a ser um constante exemplo e ponto de refer\u00eancia tanto na vida como para os ensinamentos de Namkhai Norbu Rinpoche.<\/p>\n<p>Em 1958 Ch\u00f6gyal Namkhai Norbu viajou \u00e0 \u00cdndia para estudar e para visitar v\u00e1rios locais sagrados. Incapaz de poder voltar ao Tibet, por causa das rebeli\u00f5es pol\u00edticas que l\u00e1 ocorriam, ele foi para Sikkhim, onde morou por dois anos. Em 1960 Giuseppe Tucci convidou-o para ir \u00e0 It\u00e1lia, para ajudar nas pesquisas no Instituto para Estudos do Extremo e M\u00e9dio Oriente, em Roma. A partir de 1964 ele ensinou a l\u00edngua e a literatura Tibetana e Mong\u00f3lica no Instituto Oriental da Universidade de N\u00e1poles. Durante os vinte anos seguintes, Ch\u00f6gyal Namkhai Norbu realizou profundos estudos das origens da cultura Tibetana, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o Bon, que \u00e9 a origem da cultura de <em>Shang-Shung<\/em> e, por conseguinte, do Tibet. Ele escreveu v\u00e1rios livros sobre este assunto, de extrema import\u00e2ncia para os estudantes da hist\u00f3ria e da cultura Tibetanas.<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>Em 1976 ele come\u00e7ou a transmitir ensinamentos Dzogchen primeiramente na It\u00e1lia e depois em outros pa\u00edses. Seus disc\u00edpulos formam a \u201cComunidade Dzogchen\u201d, cujo ponto de refer\u00eancia na It\u00e1lia fica situado sobre as encostas do Monte Amiata, perto de Arcidosso, em Tuscanyu, e \u00e9 chamado Merigar. Nos \u00faltimos anos Ch\u00f6gyal Namkhai Norbu apresentou semin\u00e1rios de Yoga Tibetana, medicina e astrologia em v\u00e1rias partes do mundo. Em 1983 ele presidiu a primeira Conven\u00e7\u00e3o Internacional de Medicina Tibetana, em Veneza e Arcidosso.<\/p>\n<p>Este livro \u00e9 baseado principalmente nos ensinamentos ministrados por Namkhai Norbu Rinpoche, em Merigar, em 1985 e 1986. Dividi o texto em duas partes, a primeira re\u00fane palestras que esclarecem de que se tratam os ensinamentos Dzogchen e tamb\u00e9m explicam o que distingue estes ensinamentos de outros caminhos para a realiza\u00e7\u00e3o. A segunda parte, \u201cO Cuco do Estado de Presen\u00e7a\u201d, \u00e9 um coment\u00e1rios sobre os <em>Seis Versos Vajra (rDo rje tshig drug)<\/em>, um breve texto que sintetiza a ess\u00eancia do Dzogchen em seis linhas, transmitidas em <em>Oddiyan<\/em>a por Shri Singha para Vairochana. Nos tr\u00eas cap\u00edtulos que formam esta segunda parte, Namkhai Norbu Rinpoche revela, de um modo simples e n\u00e3o-intelectual, o que queremos dizer quando falamos sobre a \u201cpr\u00e1tica\u201d do Dzogchen.<\/p>\n<p>Minha esperan\u00e7a \u00e9 que estes ensinamentos contribuam para o despertar da humanidade atrav\u00e9s de um estado de conhecimento verdadeiro e n\u00e3o-conceitual, al\u00e9m de todo condicionamento.<\/p>\n<p><em>Adriano Clemente<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1.\u00a0<em>Dei a translitera\u00e7\u00e3o exata dos termos tibetanos, em it\u00e1lico entre par\u00eanteses, na primeira vez que o termo foi utilizado. Utilizei acentos diacr\u00edticos sobre termos s\u00e2nscritos pouco comuns. <\/em><\/p>\n<p><em>2.<\/em><em>Nos tempos antigos o termo \u201cB\u00f6n\u201d foi utilizado no Tibet para se referir qualquer tipo de tradi\u00e7\u00e3o ritual baseada sobre a recita\u00e7\u00e3o de mantras ou de f\u00f3rmulas m\u00e1gicas, que n\u00e3o diferem provavelmente muito das diversas formas de chamanismo espalhadas na \u00c1sia Central. Posteriormente, \u00e0 \u00e9poca do aparecimento do mestre Tonpa Shenrab (sTon-pa gShen-rab), nascido em 1857 AD. Segundo fontes B\u00f6n, muitas dessas tradi\u00e7\u00f5es foram aperfei\u00e7oadas e ligadas por uma concep\u00e7\u00e3o comum na qual a exist\u00eancia \u00e9 compreendida como um processo de interdepend\u00eancia entre a energia do indiv\u00edduo e as energias exteriores dominadas por diferentes esp\u00e9cies de seres. Igualmente segundo as fontes B\u00f6n, Tonpa Shenrab, que vinha originalmente do Shang-Shung (Tibet do oeste), ensinou medicina e astronomia e uma forma inicial de Dzogchen. N\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o no per\u00edodo compreendido entre o oitavo e nono s\u00e9culos que o B\u00f6n, amea\u00e7ado de extin\u00e7\u00e3o por causa do aumento da difus\u00e3o do Budismo, come\u00e7a a revestir uma estrutura filos\u00f3fica e doutrinal, influenciada pelos princ\u00edpios do Budismo. A partir deste per\u00edodo, o B\u00f6n \u201ctorna-se\u201d uma religi\u00e3o e, em suas caracter\u00edsticas gerais, n\u00e3o foi mais poss\u00edvel distingui-lo claramente das outras escolas budistas.<\/em><\/p>\n<ol>\n<li><em>Segundo os textos da S\u00e9rie das Instru\u00e7\u00f5es Secretas do Dzogchen, Garab Dorje teria nascido 360 anos ap\u00f3s o parinirvana de Budha, e pois em 184 aC. Por outro lado, segundo o Vairo-rgyud-\u2018bum, o conjunto das obras traduzidas em tibetano por Vairocana, o nascimento de Garab Dorje teve lugar vinte oito anos ap\u00f3s o parinirvana de Budha, o que daria a data de 516 aC. Esta \u00faltima data confirmaria a tradi\u00e7\u00e3o segundo a qual Garab Dorje era filho da princesa de Oddiyana, Praharini, filha do rei Indrabhuti, que descobriu Padmasambhava sobre o lago Dhanakosa, oito anos ap\u00f3s o parinirvana de Budha.<\/em><\/li>\n<li><em>Esta tradi\u00e7\u00e3o foi fundada sobre a linhagem de mestres estabelecidos na S\u00e9rie das Instru\u00e7\u00f5es Secretas do Dzogchen. Entretanto, segundo\u00a0 a linhagem estabelecida na S\u00e9rie da Natureza da Mente, que tem a vantagem da credibilidade hist\u00f3rica, Sri Simha viveu bem antes de Manjusrimitra. Parece pois mais razo\u00e1vel supor que a transmiss\u00e3o de Manjusrimitra \u00e0 Sri Simha se fez por meio de vis\u00f5es e de contatos de natureza extraordin\u00e1ria.<\/em><\/li>\n<li><em>Durante a segunda difus\u00e3o do Budismo no Tibet v\u00e1rios novos Tantras foram introduzidos, e entre esses, no tempo de Padmasambhava alguns foram retraduzidos. Foi durante esse per\u00edodo que as outras escolas do Budismo tibetano se formaram: os Kagyudpa (bKa-rgyud-pa), os Sakyapa (Sa-skya-pa), e os Kadampa (bKa\u2019-gdams-pa), que vieram em seguida a ser conhecidos, quando eles se reformaram, como Gelugpa (dGe-lugs-pa).<\/em><\/li>\n<li><em>Traduzi o termo sems (mente) por \u201cnatureza da mente\u201d, porque em todos os antigos ensinamentos Dzogchen sems \u00e9 utilizado como abrevia\u00e7\u00e3o de byan-chub-kyi-sems (bodhicitta), a natureza primordial da mente.<\/em><\/li>\n<li><em>Os termas podem ser subdivididos em duas categorias: sater (sa-gter), os \u201cTesouros da Terra\u201d, que s\u00e3o objetos e manuscritos que foram encontrados escondidos na terra; e gonter (dgongs-gter), os \u201cTesouros do Estado de Conhecimento\u201d, que s\u00e3o textos memorizados na consci\u00eancia fundamental de um indiv\u00edduo, que pode lembrar-se deles espontaneamente no estado de contempla\u00e7\u00e3o, mesmo numerosas encarna\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a memoriza\u00e7\u00e3o original.<\/em><\/li>\n<li><em>Chang-Shung (Zhang-Zhung), o lugar que foi a fonte original da cultura tibetana, inclu\u00eda de fato na \u00e9poca a totalidade do Tibet. Com sua capital em Khyunlun Nulkar (Khyung-lung ngul-mkhar), perto do Monte Kailash,\u00a0 Chang-Shung era subdividida em tr\u00eas regi\u00f5es:\u00a0 interna, correspondente ao Tibet ocidental; central, correspondente ao Tibet central; e exterior, incluindo o Tibet oriental e as zonas com a fronteira da China. Quando o pequeno reino independente de Yarlung, ao Tibet central, come\u00e7ou a se expandir e a conquistar as zonas vizinhas durante o reinado do rei Songtsen Gampo (Srong-btsan sgam-po &#8211; 617-698 AD.), o pr\u00f3prio Chang-Shung foi tamb\u00e9m anexado. Foi assim que o reino inteiro veio a ser chamado Tibet (Bod). A religi\u00e3o de Chang-Shung era o B\u00f6n, e seus representantes tinham uma grande influ\u00eancia na corte.<\/em><\/li>\n<li><em>Seu tio paterno, rTogs-ldam O-rgyan bstan-\u2019dzin, e seu tio materno \u2018Jam-dbyangs Chos-kyi dbang-phyug.<\/em><\/li>\n<li><em>Um de seus ensinamentos sobre o Mahamudra pode ser encontrado em Enseignementes du Yoga Tibetain de G.C. Chang Hyde-Park: University Books, 1963.<\/em><\/li>\n<li><em>Ver a lista de publica\u00e7\u00f5es. <\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0<\/em><strong>PRIMEIRA PARTE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Cap\u00edtulo Um<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>O INDIV\u00cdDUO: CORPO, FALA E MENTE<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Algu\u00e9m que come\u00e7a a se interessar pelo ensinamento pode tender a distanciar-se da realidade das coisas materiais, a viver na fantasia, como se o ensinamento fosse algo completamente dissociado da vida cotidiana. Freq\u00fcentemente, no fundo de tudo isso, existe uma atitude de desist\u00eancia e fuga de seus pr\u00f3prios problemas, e a ilus\u00e3o de que se pode encontrar alguma coisa que ajudar\u00e1 miraculosamente a transcend\u00ea-los. Mas o ensinamento baseia-se no princ\u00edpio de nossa condi\u00e7\u00e3o humana. Temos um corpo f\u00edsico com todos os seus limites. A cada dia temos que comer, trabalhar, descansar, etc. Esta \u00e9 nossa realidade, e n\u00e3o podemos ignor\u00e1-la.<\/p>\n<p>O ensinamento Dzogchen n\u00e3o \u00e9 uma filosofia, uma doutrina religiosa, ou uma tradi\u00e7\u00e3o cultural. Compreender a mensagem do ensinamento significa descobrir sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o verdadeira, despida de todos os auto-enganos e falsifica\u00e7\u00f5es que a mente cria. O mesmo significado do termo tibetano Dzogchen, \u201cGrande Perfei\u00e7\u00e3o\u201d, indica o verdadeiro estado primordial de cada indiv\u00edduo e n\u00e3o se refere a uma realidade transcendente.<\/p>\n<p>Muitos caminhos espirituais t\u00eam como base o princ\u00edpio da compaix\u00e3o, do benef\u00edcio aos outros. Na tradi\u00e7\u00e3o budista <em>Mahayana,<\/em> por exemplo, a compaix\u00e3o \u00e9 um dos pontos fundamentais da pr\u00e1tica, associada ao conhecimento da verdadeira natureza dos fen\u00f4menos, ou \u201cvacuidade\u201d. Algumas vezes, entretanto, a compaix\u00e3o torna-se algo constru\u00eddo e tempor\u00e1rio por n\u00e3o entendermos o verdadeiro princ\u00edpio dela. Uma compaix\u00e3o genu\u00edna, n\u00e3o artificial, s\u00f3 pode surgir ap\u00f3s termos entendido nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o. Observando os nossos limites, nossos condicionamentos, nossos conflitos, etc, tornamo-nos verdadeiramente conscientes tamb\u00e9m do sofrimento dos outros, e, a nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia se torna a base ou o modelo para que possamos entender melhor e ajudar os outros \u00e0 nossa volta.<\/p>\n<p>A \u00fanica fonte de todos tipos de benef\u00edcios \u00e9 estar consciente de nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Quando soubermos como nos ajudar e como colaborar com n\u00f3s mesmos podemos realmente beneficiar os outros, e o nosso sentimento de compaix\u00e3o surgir\u00e1 espontaneamente, sem que tenhamos necessidade de nos atrelarmos as regras de comportamento de qualquer doutrina religiosa.<\/p>\n<p>O que queremos dizer com, \u201ctomar consci\u00eancia de nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o\u201d? Significa observarmo-nos, descobrir quem somos, quem acreditamos que somos, e qual a nossa atitude para com os outros e para com a vida. E\u2019 suficiente observar os limites, os julgamentos, as paix\u00f5es, o orgulho, os ci\u00fames, os apegos e todas as posturas com os quais n\u00f3s nos fechamos ao longo de apenas um dia. De onde surgem, onde est\u00e3o enraizados? Sua fonte \u00e9 nossa vis\u00e3o dual\u00edstica, e nosso condicionamento. Para sermos capazes de ajudar, tanto a n\u00f3s mesmos quanto aos outros precisamos ultrapassar todos os limites nos quais estamos enclausurados. Esta \u00e9 a verdadeira fun\u00e7\u00e3o do ensinamento.<\/p>\n<p>Qualquer ensinamento \u00e9 transmitido atrav\u00e9s da cultura e conhecimento dos seres humanos. Mas \u00e9 importante n\u00e3o confundir uma cultura ou uma tradi\u00e7\u00e3o com o ensinamento, cuja ess\u00eancia \u00e9 o conhecimento da natureza do indiv\u00edduo. Qualquer cultura pode ser de grande valor porque \u00e9 o meio que capacita as pessoas a receberem a mensagem de um ensinamento, mas n\u00e3o \u00e9 o ensinamento em si. Tomem o exemplo do Budismo. Buddha viveu na \u00cdndia, e para transmitir seu conhecimento ele n\u00e3o criou uma outra forma de cultura, mas usou a cultura do povo indiano de seu tempo. No <em>\u201cAbhidharmakosha\u201d,<\/em>\u00b9 por exemplo, encontramos conceitos e no\u00e7\u00f5es, tais como a descri\u00e7\u00e3o de Monte <em>Meru<\/em> e os quatro continentes, que s\u00e3o t\u00edpicos da cultura antiga da \u00cdndia, e que n\u00e3o devem ser considerados de import\u00e2ncia fundamental para a compreens\u00e3o do ensinamento de Buddha. Podemos ver um outro exemplo deste tipo na forma completamente original que o Budismo adquiriu no Tibet ap\u00f3s sua integra\u00e7\u00e3o com a cultura nativa tibetana. De fato, quando <em>Padmasambhava<\/em> introduziu o <em>Vajrayana<\/em> no Tibet ele n\u00e3o eliminou as pr\u00e1ticas rituais usadas na antiga tradi\u00e7\u00e3o <em>B\u00f6n<\/em>, mas soube como us\u00e1-las, incorporando-as \u00e0s pr\u00e1ticas do Budismo <em>t\u00e2ntrico<\/em>.<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m n\u00e3o souber compreender o verdadeiro sentido de um ensinamento atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria cultura, pode confundir entre a forma externa da tradi\u00e7\u00e3o religiosa e a ess\u00eancia de sua mensagem. Tomemos o exemplo de uma pessoa ocidental interessada no Budismo e que vai \u00e0 \u00cdndia a procura de um mestre. L\u00e1 ele encontra um mestre tibetano tradicional que vive em um mosteiro isolado e que desconhece a cultura ocidental. Quando se pede a esse mestre para ensinar, ele seguir\u00e1 o m\u00e9todo que usa para ensinar aos tibetanos. Mas a pessoa ocidental tem algumas grandes dificuldades para ultrapassar, a come\u00e7ar pelo obst\u00e1culo do idioma. Talvez ele receba uma inicia\u00e7\u00e3o muito importante e seja envolvido por uma atmosfera especial, pela \u201cvibra\u00e7\u00e3o\u201d espiritual, mas n\u00e3o compreender\u00e1 seu significado. Atra\u00eddo pela id\u00e9ia de um misticismo ex\u00f3tico ele poder\u00e1 permanecer uns poucos meses no mosteiro, absorvendo uns poucos aspectos da cultura e costumes religiosos tibetanos. Quando ele retornar ao ocidente estar\u00e1 convencido de que entendeu o Budismo e sente-se diferente daqueles que o cercam, assumindo posturas t\u00edpicas de um tibetano.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que para um ocidental praticar um ensinamento que vem do Tibet n\u00e3o h\u00e1 necessidade de que se torne semelhante a um tibetano. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia que ele saiba como integrar aquele ensinamento com sua pr\u00f3pria cultura a fim de ser capaz de transmiti-lo, em sua forma essencial, a outros ocidentais. Mas freq\u00fcentemente, quando as pessoas se aproximam de um ensinamento oriental, acreditam que sua pr\u00f3pria cultura n\u00e3o tem qualquer valor. Esta \u00e9 uma atitude muito errada, porque todas as culturas t\u00eam seu valor, relacionado com o ambiente e as circunst\u00e2ncias em que elas surgiram. Nenhuma cultura pode ser tachada de melhor do que a outra; isso depende sim do indiv\u00edduo, se ele usufruir\u00e1 maior ou menor vantagem dela em termos de desenvolvimento interior. Por esta raz\u00e3o \u00e9 in\u00fatil transferir regras e costumes para um ambiente cultural diferente daquele do qual eles surgiram.<\/p>\n<p>Os h\u00e1bitos e o ambiente cultural de uma pessoa s\u00e3o importantes para que o indiv\u00edduo torne-se capaz de compreender um ensinamento. N\u00e3o se pode transmitir um estado de compreens\u00e3o usando exemplos desconhecidos para o ouvinte. Se <em>\u201ctsampa\u201d<\/em>com ch\u00e1 tibetano for servido a um ocidental, ele provavelmente n\u00e3o ter\u00e1 id\u00e9ia de como com\u00ea-lo. Um tibetano, por outro lado, que come <em>tsampa<\/em>desde crian\u00e7a, n\u00e3o ter\u00e1 esse problema, e imediatamente misturar\u00e1 a <em>tsampa<\/em> com o ch\u00e1 e o comer\u00e1. Da mesma maneira, se uma pessoa n\u00e3o conhece a cultura atrav\u00e9s da qual o conhecimento \u00e9 transmitido, \u00e9 dif\u00edcil perceber sua mensagem essencial. Este \u00e9 o valor da cultura.\u00a0 Mas o ensinamento, por\u00e9m envolve um estado interior de conhecimento que n\u00e3o deve ser confundido com a cultura, os h\u00e1bitos, costumes, sistemas pol\u00edticos e sociais, etc. Os seres humanos criaram culturas diferentes em \u00e9pocas e lugares diferentes, e algu\u00e9m que esteja interessado no ensinamento deve estar consciente disto e saber como trabalhar com as diversas culturas sem, entretanto tornar-se condicionado por suas formas externas.<\/p>\n<p>Por exemplo, aqueles que j\u00e1 t\u00eam uma certa familiaridade com a cultura tibetana poderiam pensar que para praticar Dzogchen tenham que se converter ao Budismo ou ao <em>B\u00f6n<\/em>, porque o Dzogchen se espalhou atrav\u00e9s destas duas tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Isto mostra como \u00e9 limitada a nossa maneira de pensar. Se decidirmos seguir um ensinamento espiritual, estamos convencidos de que \u00e9 necess\u00e1rio para n\u00f3s mudar alguma coisa, tal como nossa maneira de vestir, de comer, de se comportar, etc. Mas o Dozgchen n\u00e3o pede a ningu\u00e9m para aderir a alguma doutrina religiosa ou entrar para uma ordem mon\u00e1stica, nem para aceitar cegamente os ensinamentos e se tornar \u201c<em>dzogchenista<\/em>\u201d. Todas estas coisas podem, de fato, criar s\u00e9rios obst\u00e1culos ao verdadeiro conhecimento.<\/p>\n<p>Na realidade o ser humano est\u00e1 t\u00e3o acostumado a colocar r\u00f3tulos em tudo que \u00e9 incapaz de entender qualquer coisa que n\u00e3o se enquadre dentro de seus limites. Deixe-me dar um exemplo pessoal. Cada vez que eu encontro um tibetano que n\u00e3o me conhece bem, recebo a seguinte pergunta: \u201cA que escola voc\u00ea pertence?\u201d. No Tibet, ao longo dos s\u00e9culos, surgiram quatro tradi\u00e7\u00f5es budistas tibetanas principais, e se um tibetano ouve falar de um mestre, ele est\u00e1 convencido de que o mestre deve necessariamente pertencer a uma destas tradi\u00e7\u00f5es. Se respondo que sou um praticante de Dzogchen, esta pessoa presumir\u00e1 que perten\u00e7o \u00e0 escola <em>Nyngmapa<\/em>, na qual os textos Dzogchen foram preservados. Algumas pessoas, por outro lado, como realmente aconteceu, sabendo que escrevi alguns livros sobre <em>B\u00f6n<\/em> com o objetivo de reavaliar a cultura nativa do Tibet, dir\u00e3o que sou um <em>Bonpo<\/em>. Mas Dzogchen n\u00e3o \u00e9 uma escola ou seita, ou sistema religioso. \u00c9 simplesmente um conhecimento que os mestres t\u00eam transmitido al\u00e9m dos limites da tradi\u00e7\u00e3o de uma seita ou linhagem. Na linhagem do ensinamento Dzogchen t\u00eam existido mestres pertencentes a todas as classes sociais, incluindo fazendeiros, n\u00f4mades, nobres, monges, e grandes figuras religiosas, de todas as tradi\u00e7\u00f5es espirituais e de seitas. O quinto <em>Dalai Lama,<\/em> por exemplo, enquanto mantinha perfeitamente as obriga\u00e7\u00f5es de sua elevada posi\u00e7\u00e3o religiosa e pol\u00edtica, foi um grande praticante de Dzogchen.<\/p>\n<p>Uma pessoa que esteja realmente interessada no ensinamento tem que entender seu princ\u00edpio fundamental sem que se torne condicionado pelos limites de uma tradi\u00e7\u00e3o. As organiza\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es, e hierarquias que existem nas v\u00e1rias escolas freq\u00fcentemente se tornam fatores que nos condicionam, mas isto \u00e9 algo dif\u00edcil para n\u00f3s notarmos. O verdadeiro valor dos ensinamentos est\u00e1 al\u00e9m de todas as estruturas que as pessoas criaram, e para descobrir se o ensinamento \u00e9 realmente uma coisa viva para n\u00f3s, precisamos observar em que medida ele nos libertou dos condicionamentos. Algumas vezes podemos acreditar que compreendemos o ensinamento, e que sabemos como aplic\u00e1-lo, mas na pr\u00e1tica continuamos condicionados por atitudes e princ\u00edpios doutrin\u00e1rios que est\u00e3o longe da compreens\u00e3o da nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando um mestre ensina Dzogchen, ele esta tentando transmitir o conhecimento. O objetivo do mestre \u00e9 despertar o indiv\u00edduo, abrindo a sua consci\u00eancia para o estado primordial. O mestre n\u00e3o diz \u201cSiga minhas regras e obede\u00e7a aos meus preceitos!\u201d. Mas, \u201cAbra seu olho interior e observe a si mesmo. Pare de procurar uma l\u00e2mpada externa para ilumin\u00e1-lo, mas acenda sua pr\u00f3pria l\u00e2mpada interna. Assim o ensinamento ir\u00e1 viver em voc\u00ea, e voc\u00ea no ensinamento\u201d.<\/p>\n<p>O ensinamento precisa tornar-se um conhecimento vivo em todas as atividades cotidianas. Esta \u00e9 a ess\u00eancia da pr\u00e1tica, e ao lado disso n\u00e3o h\u00e1 nada em particular para ser feito. Um monge, sem abandonar seus votos, pode praticar perfeitamente bem o Dzogchen. Assim como um padre cat\u00f3lico, um balconista, um oper\u00e1rio, etc, sem ter que abandonar seu papel na sociedade, porque o Dzogchen n\u00e3o modifica a pessoa a partir de seu exterior, mas a acorda internamente. A \u00fanica coisa que um mestre Dzogchen pedir\u00e1 \u00e9 que o indiv\u00edduo observe a si pr\u00f3prio, alcan\u00e7ando a consci\u00eancia necess\u00e1ria para aplicar o ensinamento no cotidiano.<\/p>\n<p>Toda religi\u00e3o, todo ensinamento espiritual, tem seus princ\u00edpios filos\u00f3ficos b\u00e1sicos, seu jeito caracter\u00edstico de ver as coisas. Na filosofia Budista, por exemplo, surgiram diferentes sistemas e tradi\u00e7\u00f5es, freq\u00fcentemente discordando entre si apenas sobre sutilezas de interpreta\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios fundamentais. No Tibet estas controv\u00e9rsias filos\u00f3ficas persistem at\u00e9 hoje, e os textos pol\u00eamicos resultantes constituem agora um corpo inteiro de literatura. No Dzogchen nenhuma import\u00e2ncia \u00e9 dada \u00e0s opini\u00f5es e convic\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. A forma de ver no Dzogchen n\u00e3o est\u00e1 baseada no conhecimento intelectual, mas na consci\u00eancia do indiv\u00edduo de sua verdadeira condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo mundo geralmente tem sua pr\u00f3pria forma de pensar e suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es sobre a vida, mesmo que nem sempre consigam defini-las filosoficamente. Todas as teorias filos\u00f3ficas que existem foram criadas pelas mentes dualistas equivocadas dos seres humanos. Aquilo que hoje \u00e9 considerado verdadeiro, amanh\u00e3 pode ser considerado falso. Nada pode garantir a validade de uma filosofia. Por causa disto, qualquer forma intelectual de ver \u00e9 parcial e relativa. O fato \u00e9 que n\u00e3o existe verdade a ser buscada ou confirmada logicamente; em lugar disto o que o indiv\u00edduo deve fazer \u00e9 descobrir o quanto a mente continuamente nos limita numa condi\u00e7\u00e3o de dualismo.<\/p>\n<p>O dualismo \u00e9 a raiz verdadeira do sofrimento e de todos os conflitos. Todos os nossos conceitos e cren\u00e7as, n\u00e3o importa qu\u00e3o profundos possam parecer, s\u00e3o como redes que nos aprisionam no dualismo. Quando descobrimos nossos limites temos que tentar ultrapass\u00e1-los, desligando-nos de qualquer tipo de convic\u00e7\u00e3o religiosa, pol\u00edtica, ou social que possa nos condicionar. Temos que abandonar tamb\u00e9m conceitos tais como \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cnatureza da mente\u201d, etc, at\u00e9 que n\u00e3o nos satisfa\u00e7amos mais com um conhecimento meramente intelectual, e at\u00e9 que n\u00e3o nos descuidemos mais de integrar a mente com a nossa exist\u00eancia verdadeira.<\/p>\n<p>Assim, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar pelo que conhecemos, pela nossa condi\u00e7\u00e3o humana material.\u00a0 No ensinamento \u00e9 explicado que o indiv\u00edduo \u00e9 constitu\u00eddo de tr\u00eas aspectos: corpo, fala e mente. Estes constituem nossa condi\u00e7\u00e3o relativa, que est\u00e1 sujeita ao tempo e \u00e0 separa\u00e7\u00e3o do sujeito e do objeto. Aquela que est\u00e1 al\u00e9m do tempo e dos limites do dualismo \u00e9 chamada \u201ccondi\u00e7\u00e3o absoluta\u201d, o verdadeiro estado do corpo, fala e mente. Para entrar nesta experi\u00eancia, entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio primeiro entender nossa exist\u00eancia relativa.<\/p>\n<p>O corpo \u00e9 algo verdadeiro para n\u00f3s; \u00e9 a forma material que nos limita dentro da dimens\u00e3o humana. Externamente ele encontra seu reflexo na dimens\u00e3o material, com a qual est\u00e1 intimamente ligado. No <em>Tantra<\/em>, por exemplo, fala-se de correspond\u00eancias precisas entre o corpo humano e o universo, com base no princ\u00edpio de que s\u00e3o uma \u00fanica energia. Quando pensamos em n\u00f3s mesmos, a primeira coisa que pensamos \u00e9 em nosso corpo e no nosso ser f\u00edsico. Disto surge um sentimento de um eu, o apego, e todos os conceitos de propriedade que decorrem disso, tais como, <em>minha<\/em> casa, <em>meu<\/em> pa\u00eds, <em>meu<\/em> planeta, etc.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da dimens\u00e3o material do corpo podemos compreender sua energia, ou \u201cfala\u201d, o segundo aspecto do indiv\u00edduo. A energia n\u00e3o \u00e9 material, vis\u00edvel, ou tang\u00edvel. \u00c9 algo mais sutil e dif\u00edcil de entender. Um de seus aspectos percept\u00edveis \u00e9 a vibra\u00e7\u00e3o, o som, assim conhecido como \u201cfala\u201d. A voz est\u00e1 ligada \u00e0 respira\u00e7\u00e3o, e a respira\u00e7\u00e3o \u00e0 energia vital do indiv\u00edduo. No <em>Yantra Yoga,<\/em> os quatro movimentos do corpo e exerc\u00edcios respirat\u00f3rios t\u00eam como objetivo o controle dessa energia vital.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre fala, respira\u00e7\u00e3o, e energiapode ser melhor demonstrada atrav\u00e9s do modo como os <em>mantras<\/em> funcionam. Um <em>mantra<\/em> \u00e9 uma s\u00e9rie de s\u00edlabas cujo poder reside no som, atrav\u00e9s da pron\u00fancia repetida delas se pode obter controle de uma dada forma de energia. A energia do indiv\u00edduo est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 energia externa, e cada uma pode influenciar a outra. O conhecimento dos v\u00e1rios aspectos da rela\u00e7\u00e3o entre as duas energias \u00e9 a base das tradi\u00e7\u00f5es rituais <em>B\u00f6n<\/em>, as quais at\u00e9 hoje t\u00eam sido relativamente descuidadas pelos estudiosos ocidentais. No <em>B\u00f6n<\/em>, por exemplo, considera-se que muitos dist\u00farbios e doen\u00e7as derivam de classes de seres que t\u00eam a capacidade de dominar certas formas de energia. Quando a energia de um indiv\u00edduo enfraquece, \u00e9 como deixar uma porta aberta \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es de tais classes de seres. Assim \u00e9 dada uma grande import\u00e2ncia \u00e0 integridade da energia do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Por outro lado, \u00e9 poss\u00edvel influenciar a energia externa, realizando os assim chamados \u201cmilagres\u201d. Este \u00e9 o resultado do controle da pr\u00f3pria energia, atrav\u00e9s da qual se obt\u00e9m a capacidade de dominar os fen\u00f4menos externos.<\/p>\n<p>A mente \u00e9 o aspecto mais sutil e oculto da nossa condi\u00e7\u00e3o relativa. Mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil notar sua exist\u00eancia. Tudo o que se tem a fazer \u00e9 observar como surgem os pensamentos e como nos deixamos capturar no seu fluxo. Se algu\u00e9m pergunta \u201cO que \u00e9 a mente?\u201d \u2013 a resposta poderia ser de que \u00e9 a mente que faz essa pergunta. A mente \u00e9 um fluxo ininterrupto de pensamentos que surgem e desaparecem. Tem a capacidade para julgar, para racionalizar, para imaginar, etc, dentro dos limites do espa\u00e7o e do tempo. Mas al\u00e9m da mente, al\u00e9m de nossos pensamentos, existe algo que chamamos \u201cnatureza da mente\u201d, a verdadeira condi\u00e7\u00e3o al\u00e9m de todos os limites. Se estivermos ent\u00e3o al\u00e9m da mente, como podemos chegar ao entendimento dela?<\/p>\n<p>Tomemos o exemplo do espelho. Quando olhamos num espelho vemos nele as imagens refletidas dos objetos que est\u00e3o em frente dele; n\u00e3o vemos a natureza do espelho. Mas o que queremos dizer com esta \u201cnatureza do espelho\u201d? A sua capacidade de refletir, definida como clareza, sua pureza, e sua limpidez, que s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para a manifesta\u00e7\u00e3o do reflexo. Esta \u201cnatureza do espelho\u201d n\u00e3o \u00e9 algo vis\u00edvel, e a \u00fanica maneira pela qual podemos compreender \u00e9 atrav\u00e9s das imagens refletidas. Do mesmo modo, n\u00f3s apenas sabemos e temos experi\u00eancia concreta daquilo que \u00e9 relativo \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de corpo, fala e mente. Mas esta \u00e9 a pr\u00f3pria maneira de entender sua natureza verdadeira.<\/p>\n<p>Na verdade, falando do ponto de vista absoluto, n\u00e3o existe separa\u00e7\u00e3o entre a condi\u00e7\u00e3o relativa e a sua verdadeira natureza, da mesma maneira que um espelho e as imagens refletidas nele s\u00e3o de fato indivis\u00edveis. Contudo, nossa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 tal que \u00e9 como se houv\u00e9ssemos sa\u00eddo do espelho e agora estiv\u00e9ssemos olhando para as imagens refletidas que est\u00e3o aparecendo nele. Inconscientes de nossa pr\u00f3pria natureza de claridade, pureza e limpidez, consideramos as imagens refletidas como reais, desenvolvendo avers\u00e3o ou apego. Assim, em vez destas imagens constitu\u00edrem um meio para descobrirmos nossa verdadeira natureza, elas se tornam um fator de condicionamento. E vivemos distra\u00eddos pelas condi\u00e7\u00f5es relativas, atribuindo grande import\u00e2ncia \u00e0s coisas.<\/p>\n<p>Esta condi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o geral de todos os seres humanos, \u00e9 chamada \u201cignor\u00e2ncia\u201d no ensinamento. E mesmo uma pessoa que tenha estudado os conceitos mais profundos quanto \u201c\u00e0 natureza da mente\u201d, mas que n\u00e3o entende realmente sua condi\u00e7\u00e3o relativa, pode ser definida como \u201cignorante\u201d, porque a \u201cnatureza da mente\u201d para aquela pessoa permanece um conhecimento intelectual. Entender nossa verdadeira natureza n\u00e3o requer necessariamente o uso do processo mental de an\u00e1lise e racionaliza\u00e7\u00e3o. Uma pessoa que tem um conhecimento intelectual da natureza do espelho permanecer\u00e1 atra\u00edda, tal como qualquer outra pessoa, pelas imagens refletidas que aparecem e as julgar\u00e3o como belas ou feias, permitindo a si mesmos serem presos pelo dualismo da mente.<\/p>\n<p>No Dzogchen o termo \u201cconhecimento\u201d significa tornar-se mesmo como o espelho, a natureza do qual n\u00e3o pode ser manchada pelas imagens refletidas nele. Quando nos encontramos a n\u00f3s mesmos no conhecimento de nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o, nada nos condiciona. Tudo o que surge \u00e9 parte das qualidades naturais do nosso estado primordial. Por esta raz\u00e3o o ponto fundamental n\u00e3o \u00e9 abandonar ou transformar a condi\u00e7\u00e3o relativa, mas compreender sua verdadeira natureza. Para este fim \u00e9 necess\u00e1rio esclarecer-nos de todos os preconceitos e falsifica\u00e7\u00f5es que continuamente nos aplicamos.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos um corpo material, que \u00e9 extremamente delicado, e que tem muitas necessidades que temos que respeitar. Se estivermos com fome precisamos comer, se estamos cansados precisamos descansar, etc. Se n\u00e3o o fizermos, podemos desenvolver problemas de sa\u00fade s\u00e9rios, porque os limites de nosso corpo s\u00e3o muito concretos. No ensinamento, ultrapassar o apego ao corpo \u00e9 ensinado de uma maneira ampla. Mas isto n\u00e3o significa que devemos romper abruptamente todos os limites e negar suas necessidades. O primeiro passo para ultrapassar este apego \u00e9 entender a condi\u00e7\u00e3o do corpo, e assim saber como respeit\u00e1-lo. Isto tamb\u00e9m \u00e9 verdade no que concerne ao funcionamento de nossa energia. Quando algu\u00e9m a ignora e tenta debater-se com seus limites naturais, os dist\u00farbios resultantes podem espalhar-se para as esferas do corpo ou da mente. Na medicina tibetana, por exemplo, algumas formas de loucura s\u00e3o consideradas como causadas pela circula\u00e7\u00e3o de uma energia vital sutil em lugares diversos daqueles em que usualmente fluiria.<\/p>\n<p>Problemas de energia s\u00e3o muito s\u00e9rios. Nos tempos modernos atravessamos um per\u00edodo no qual existe uma maior dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, tal como c\u00e2ncer, que est\u00e3o ligadas a desordens de energia. A medicina oficial, mesmo tendo identificado os sintomas de tal doen\u00e7a, ignora a causa fundamental, porque n\u00e3o compreende as fun\u00e7\u00f5es da energia. Na medicina tibetana estes tipos de dist\u00farbios, quando o curso do tratamento terap\u00eautico mostra inefic\u00e1cia, s\u00e3o curados atrav\u00e9s da pr\u00e1tica do <em>mantra<\/em>, que influencia e coordena a condi\u00e7\u00e3o da energia do paciente atrav\u00e9s do som e da respira\u00e7\u00e3o. Paralelamente, no <em>Yantra Yoga<\/em> utilizamos posi\u00e7\u00f5es do corpo, m\u00e9todos de controle da respira\u00e7\u00e3o, e concentra\u00e7\u00f5es mentais, para restabelecer desordens de energia.<\/p>\n<p>O ensinamento Dzogchen adverte para que o indiv\u00edduo nunca force a condi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria energia, mas sempre esteja consciente de seus limites em todas as v\u00e1rias circunst\u00e2ncias em que ele se encontre. Se algumas vezes o indiv\u00edduo n\u00e3o se sentir bem sentando para praticar, deve evitar se colocar em luta contra ele pr\u00f3prio. Pode ser que haja algum problema em nossa energia que n\u00f3s desconhecemos. Em tais situa\u00e7\u00f5es \u00e9 importante saber como relaxar, e como dar espa\u00e7o a si pr\u00f3prio, a fim de n\u00e3o bloquear o progresso de sua pr\u00e1tica. Problemas de solid\u00e3o, depress\u00e3o, confus\u00e3o mental, etc, tamb\u00e9m freq\u00fcentemente derivam de uma condi\u00e7\u00e3o de desequil\u00edbrio de nossa energia.<\/p>\n<p>A mente influencia tanto o corpo como a energia, e ao mesmo tempo depende da condi\u00e7\u00e3o deles. Algumas vezes a mente est\u00e1 totalmente escravizada pela energia e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma forma de balance\u00e1-la sem limpar as desordens de energia primeiro. \u00c9 muito importante entender a rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia entre mente e energia. Em todas as tradi\u00e7\u00f5es budistas, quando se ensina a medita\u00e7\u00e3o, explica-se que a respira\u00e7\u00e3o precisa ser lenta e profunda, a fim de favorecer o desenvolvimento de um estado de calma mental. Por outro lado, se observarmos uma pessoa nervosa cuja mente se encontra num estado agitado, notaremos certamente que sua respira\u00e7\u00e3o \u00e9 curta e apressada. Algumas vezes \u00e9 imposs\u00edvel acalmar a mente apenas pela medita\u00e7\u00e3o, e \u00e9 necess\u00e1rio praticar as respira\u00e7\u00f5es e movimentos de <em>Yantra Yoga<\/em>, a fim de realinhar a energia.<\/p>\n<p>A imagem de uma gaiola \u00e9 geralmente usada como exemplo para representar nossa condi\u00e7\u00e3o relativa.\u00a0 O indiv\u00edduo assemelha-se a um p\u00e1ssaro preso e protegido por uma gaiola. A gaiola \u00e9 aqui um s\u00edmbolo de todos os limites de nosso corpo, fala e mente. Mas a gaiola no exemplo n\u00e3o \u00e9 usada para indicar alguma situa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel para o homem, mas sim para descrever uma condi\u00e7\u00e3o normal na qual o ser humano vive. O problema \u00e9 que n\u00e3o estamos conscientes da situa\u00e7\u00e3o em que realmente nos encontramos, e estamos de fato com medo de descobri-la, porque crescemos nessa gaiola desde pequenos.<\/p>\n<p>Consideremos a maneira como uma crian\u00e7a entra nesses limites. Durante os primeiros meses de vida, quando a crian\u00e7a ainda n\u00e3o sabe racionalizar ou falar, seus felizes pais embalam-na em seus bra\u00e7os e murmuram palavras doces para ela. Mas quando a crian\u00e7a come\u00e7a a andar e querer tocar todas as coisas eles dizem, \u201cN\u00e3o toque nisso! N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1!\u201d Ent\u00e3o a crian\u00e7a cresce, e \u00e9 obrigada a limitar mais e mais sua maneira de se expressar, de sentar-se \u00e0 mesa, de comer, etc. para se tornar um menino modelo; os pais ficam orgulhosos disto, mas a verdade \u00e9 que a pobre coisinha esta sendo introduzida completamente na maneira deles pensarem, est\u00e1 aprendendo a viver na gaiola. E ent\u00e3o, aos cinco ou seis anos de idade, a crian\u00e7a come\u00e7a a ir \u00e0 escola, com todas as regras e imposi\u00e7\u00f5es. A crian\u00e7a ter\u00e1 novas dificuldades a superar, mas ir\u00e1 gradualmente acostumar-se a esta gaiola adicional. Atualmente leva-se muitos anos para completar a gaiola que \u00e9 indispens\u00e1vel para n\u00f3s vivermos em sociedade. Ent\u00e3o h\u00e1 muitos outros fatores condicionantes, tais como id\u00e9ias pol\u00edticas, cren\u00e7as religiosas, os v\u00ednculos da amizade, do trabalho, etc. Quando a gaiola est\u00e1 suficientemente desenvolvida estamos prontos para viver nela, e nos sentirmos protegidos. At\u00e9 que enfim tornamo-nos independentes; sabemos onde est\u00e1 a \u00e1gua, a ra\u00e7\u00e3o, etc. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de cada indiv\u00edduo, e n\u00f3s temos que descobri-la observando a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Quando estamos conscientes de nossos limites h\u00e1 a possibilidade de ultrapass\u00e1-los. Um p\u00e1ssaro numa gaiola gera seus filhotes na gaiola. Quando nascem, os passarinhos t\u00eam asas. Mesmo se, na gaiola, eles n\u00e3o possam voar, o fato de que eles nas\u00e7am com asas mostra que sua natureza verdadeira \u00e9 ter contato com o espa\u00e7o aberto do c\u00e9u. Mas se um passarinho que viveu sempre numa gaiola de repente escapa de tr\u00e1s das grades, poderia encontrar muitos perigos, porque n\u00e3o sabe o que h\u00e1 l\u00e1 fora. Um falc\u00e3o o devoraria ou um gato o capturaria. Assim \u00e9 necess\u00e1rio para o passarinho treinar um pouco a voar num espa\u00e7o limitado, at\u00e9 quando ele se sinta pronto, e possa al\u00e7ar v\u00f4o definitivamente.<\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo conosco: mesmo se \u00e9 dif\u00edcil ultrapassarmos todos os nossos limites em um instante, \u00e9 importante saber que nosso estado verdadeiro est\u00e1 l\u00e1, al\u00e9m de todos os fatores condicionantes, e que n\u00f3s realmente temos a possibilidade de redescobri-lo.<\/p>\n<p>Podemos aprender a voar al\u00e9m dos limites de nossa condi\u00e7\u00e3o dualista, at\u00e9 que estejamos prontos para deix\u00e1-la para tr\u00e1s completamente. Podemos come\u00e7ar tomando consci\u00eancia de nosso corpo, fala e mente. Entender nossa verdadeira natureza significa entender nossa condi\u00e7\u00e3o relativa e saber como reintegr\u00e1-la com sua natureza essencial, como um espelho que reflete qualquer objeto que seja, manifestando sua claridade.<\/p>\n<p><em><sup>Revis\u00e3o deste cap\u00edtulo: Muriela Colajacomo M\u00e1laga e Fl\u00e1vio C. Cardoso<\/sup><\/em><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1.\u00a0<em>Uma obra de Vasubandhu, um mestre Indiano, sobre a metaf\u00edsica budista.<\/em><\/p>\n<p><em>2. A tsampa \u00e9 uma farinha de cevada torrada misturada ao ch\u00e1 tibetano e manteiga. \u00c9 a alimenta\u00e7\u00e3o principal do povo tibetano.<\/em><\/p>\n<p><em>3.\u00a0<\/em><em>O quinto Dalai Lama, Blo-bzang rgya-mtsho (1617-82), foi tamb\u00e9m um grande terton (gter-ston), um descobridor de terma, ou textos ocultos.<\/em><\/p>\n<p><em>4.\u00a0<\/em><em>O Yantra Yoga (\u2018phrul-khor) \u00e9 o equivalente budista do Hatha Yoga, do qual ele se distingue pela din\u00e2mica de seus movimentos e pela import\u00e2ncia particular atribu\u00edda a respira\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>Cap\u00edtulo Dois<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>OS CAMINHOS DA REN\u00daNCIA E DA TRANSFORMA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos os diversos tipos de ensinamentos e caminhos espirituais est\u00e3o relacionados \u00e0s diferentes capacidades de compreens\u00e3o que diferentes indiv\u00edduos t\u00eam. N\u00e3o existe, de um ponto de vista absoluto, qualquer ensinamento que seja mais perfeito ou eficaz do que um outro. O valor de um ensinamento reside t\u00e3o somente no despertar interior que um indiv\u00edduo pode alcan\u00e7ar atrav\u00e9s dele. Se uma pessoa se beneficia com um dado ensinamento, para aquela pessoa aquele ensinamento \u00e9 o caminho supremo, porque ele \u00e9 adequado \u00e0 sua natureza e capacidade. N\u00e3o h\u00e1 justificativa em tentar julg\u00e1-lo como mais ou menos elevado em rela\u00e7\u00e3o a outros caminhos para a realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existem tr\u00eas caminhos principais ou m\u00e9todos de ensinar: o caminho da ren\u00fancia, o caminho da transforma\u00e7\u00e3o, e o caminho da auto-libera\u00e7\u00e3o, baseados, respectivamente, nos ensinamentos dos <em>Sutras,<\/em> dos <em>Tantras<\/em>, e do Dzogchen. Estes correspondem aos tr\u00eas aspectos do corpo, voz, e mente, chamados \u201cos tr\u00eas port\u00f5es\u201d, porque s\u00e3o as tr\u00eas maneiras de penetrar no estado de conhecimento. O caminho da ren\u00fancia est\u00e1 inclu\u00eddo nos ensinamentos do <em>Sutra,<\/em> isto \u00e9, nos serm\u00f5es atribu\u00eddos ao pr\u00f3prio Buda <em>Shakyamuni<\/em>. A base dos ensinamentos do <em>Sutra<\/em> \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o das Quatro Nobres Verdades: as verdades do sofrimento, da causa do sofrimento, da cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento, e do caminho que leva a essa cessa\u00e7\u00e3o. \u00c9 relatado que quando Buda atingiu a ilumina\u00e7\u00e3o e encontrou seus primeiros disc\u00edpulos em Sarnath, come\u00e7ou a transmitir-lhes seu conhecimento falando sobre a experi\u00eancia que \u00e9 a mais concreta e real para os seres: o sofrimento. Todos n\u00f3s estamos sujeitos a infinitos tipos de sofrimento, em adi\u00e7\u00e3o ao sofrimento natural do nascimento, doen\u00e7a, velhice, e morte. Qual \u00e9 a causa fundamental de todo o nosso sofrimento? Apego, desejo, e as paix\u00f5es; esta \u00e9 a segunda verdade. As paix\u00f5es, produzindo <em>carma,<\/em> ligam todos os indiv\u00edduos \u00e0 transmigra\u00e7\u00e3o sem qualquer caminho aparente de sa\u00edda. Mas a terceira verdade afirma que uma vez descoberta a causa da transmigra\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel elimin\u00e1-la, extinguindo o <em>carma<\/em> do indiv\u00edduo. Como isso pode ser feito? Pela aplica\u00e7\u00e3o do caminho da ren\u00fancia*, a quarta nobre verdade.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio b\u00e1sico dessa \u201cren\u00fancia\u201d \u00e9 que, para conseguir a cessa\u00e7\u00e3o das causas do sofrimento e da transmigra\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio renunciar ou abster-se de efetuar a\u00e7\u00f5es que produzam <em>carma<\/em> negativo. Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio ter uma compreens\u00e3o adequada do conceito de <em>carma,<\/em> porque algumas vezes as pessoas interpretam de forma imprecisa ou incompleta. A id\u00e9ia fundamental de <em>carma<\/em> (literalmente, \u201ca\u00e7\u00e3o\u201d) \u00e9 de que ter efetuado uma dada a\u00e7\u00e3o esta resultar\u00e1 em efeitos. Esses efeitos, entretanto, n\u00e3o s\u00e3o irrevers\u00edveis. O <em>carma<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma lei irrevog\u00e1vel que n\u00e3o pode ser alterada. Para um <em>carma<\/em> manifestar seu efeito s\u00e3o necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias, conhecidas como \u201ccausas secund\u00e1rias\u201d.<\/p>\n<p>Quando o <em>carma<\/em> \u00e9 explicado, geralmente se fala de dois fatores principais: <em>causas prim\u00e1rias<\/em> e <em>causas secund\u00e1rias<\/em>. Para produzir uma <em>causa prim\u00e1ria<\/em> que seja potencialmente capaz de levar a um efeito, s\u00e3o necess\u00e1rias tr\u00eas coisas: inten\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o satisfa\u00e7\u00e3o. A causa <em>c\u00e1rmica <\/em><em>prim\u00e1ria<\/em>, formada desse modo, \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0 semente de uma flor, cujo desenvolvimento depende de v\u00e1rios fatores tais como \u00e1gua, fertilizante, o sol, etc. Todos estes fatores s\u00e3o como <em>causas secund\u00e1rias<\/em> que constituem todas as diferentes circunst\u00e2ncias que encontramos em nossas vidas. Assim, estando conscientes deles, \u00e9 poss\u00edvel evitar o favorecimento daqueles que podem fazer com que as causas <em>c\u00e1rmicas<\/em> <em>prim\u00e1rias<\/em> se manifestem. Por exemplo, se numa vida passada eu cometi uma a\u00e7\u00e3o que possa ter como resultado que eu seja assassinado nesta vida, esta \u00e9 a <em>causa prim\u00e1ria<\/em>, que pode se manifestar quando a <em>condi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria<\/em> apropriada, tal como se uma briga estiver presente. Mas, se no momento da briga, eu tiver a consci\u00eancia de que estou criando <em>carma<\/em> negativo e ent\u00e3o refrear a raiva, a outra pessoa provavelmente se acalmaria, e eu teria evitado a possibilidade de ser morto. Em geral, todas as <em>causas secund\u00e1rias<\/em> s\u00e3o reflexos das <em>causas prim\u00e1rias<\/em>. Como o Buda disse, <em>\u201cSe voc\u00ea quer saber o que voc\u00ea fez em sua vida passada, observe sua condi\u00e7\u00e3o atual; se voc\u00ea quer saber qual a sua condi\u00e7\u00e3o futura, observe suas a\u00e7\u00f5es no presente\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Os meios para realizar o caminho da ren\u00fancia s\u00e3o atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o de regras de procedimento estabelecidas pelo Buda, contidas no <em>Vinaya,<\/em> o c\u00f3digo da lei budista mon\u00e1stica. Observando os preceitos relativos ao corpo, voz, e mente, \u00e9 poss\u00edvel purificar o <em>carma <\/em>negativo e acumular <em>carma<\/em> positivo. Al\u00e9m disso, a manuten\u00e7\u00e3o de um compromisso \u00e9 uma fonte de m\u00e9rito em si mesma. Por exemplo, se algu\u00e9m evita roubar, acumula uma virtude dupla: primeiro, por n\u00e3o ter cometido a a\u00e7\u00e3o negativa, e segundo, por manter seu voto. Todo este m\u00e9todo est\u00e1 baseado na limita\u00e7\u00e3o do comportamento do indiv\u00edduo, principalmente ao n\u00edvel do corpo, isto \u00e9, ao n\u00edvel da dimens\u00e3o material.<\/p>\n<p>Nos <em>Sutras,<\/em> o princ\u00edpio da elimina\u00e7\u00e3o do <em>carma<\/em> negativo \u00e9 tamb\u00e9m a base da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, cujo objetivo \u00e9 o de encontrar um estado mental calmo no qual os pensamentos n\u00e3o s\u00e3o mais capazes de perturbar a pessoa. Por este meio evita-se a possibilidade de produzir <em>carma <\/em>atrav\u00e9s da entrega \u00e0s paix\u00f5es. A realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada alcan\u00e7ada com a extin\u00e7\u00e3o do ego individual ilus\u00f3rio, que \u00e9 a raiz de todos os desejos e conflitos. Estes conceitos s\u00e3o, falando corretamente, os da tradi\u00e7\u00e3o <em>Hinayana<\/em> ou <em>Theravada<\/em>, que \u00e9 mais fiel \u00e0s explica\u00e7\u00f5es dadas nos primeiros ensinamentos de Buda <em>Shakyamuni<\/em>. O <em>Mahayana,<\/em> por outro lado, est\u00e1 baseado em considera\u00e7\u00f5es mais profundas, tais como na compaix\u00e3o universal e na vacuidade de todos os fen\u00f4menos. Em ambas as tradi\u00e7\u00f5es, entretanto, os votos s\u00e3o um elemento fundamental para colocar a a\u00e7\u00e3o de ren\u00fancia em a\u00e7\u00e3o. Quando algu\u00e9m recebe a ordena\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica, os sinais da ren\u00fancia do mundo laico s\u00e3o colocados em evid\u00eancia: a pessoa usa roupas mon\u00e1sticas, recebe um novo nome, e raspa sua cabe\u00e7a. Mas este princ\u00edpio da ren\u00fancia n\u00e3o \u00e9 encontrado exclusivamente na tradi\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica budista. \u00c9 tamb\u00e9m o alicerce de todas as tradi\u00e7\u00f5es religiosas e de todas as leis n\u00e3o religiosas da sociedade em geral.<\/p>\n<p>O caminho da transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrado nos ensinamentos <em>t\u00e2ntricos,<\/em> os escritos revelados atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es puras de seres realizados. Para compreender o princ\u00edpio fundamental do <em>tantrismo<\/em> podemos considerar o simbolismo de dois objetos do ritual <em>t\u00e2ntrico<\/em>: o <em>vajra <\/em>e o <em>sino<\/em>, que representam, respectivamente, \u201cm\u00e9todo\u201d, a manifesta\u00e7\u00e3o do estado primordial como forma; e \u201cenergia\u201d, a \u201cess\u00eancia\u201d do que est\u00e1 manifestado\u00b9. <em>Vajra<\/em> significa \u201cindestrut\u00edvel\u201d, e se refere \u00e0 condi\u00e7\u00e3o primordial do indiv\u00edduo, que est\u00e1 al\u00e9m do nascimento e da morte. O <em>sino<\/em>, que representa som, \u00e9 o s\u00edmbolo da energia do estado primordial. Se olharmos a forma do <em>vajra,<\/em> podemos ver que em seu centro esta uma pequena esfera, que se liga a duas se\u00e7\u00f5es, uma acima e uma abaixo, com cinco ramos cada. A pequena esfera, <em>\u201cthigle\u201d (thig le)<\/em> em tibetano, simboliza a potencialidade do estado primordial se manifestar, tanto como uma vis\u00e3o pura ou <em>nirvana, <\/em>ou como uma vis\u00e3o impura ou<em> samsara<\/em>.<\/p>\n<p>A <em>vis\u00e3o impura<\/em> est\u00e1 baseada nos cinco agregados\u00b2 que constituem o indiv\u00edduo, e as cinco paix\u00f5es que s\u00e3o suas fun\u00e7\u00f5es\u00b3. A <em>vis\u00e3o pura<\/em> \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do aspecto puro ou essencial dos cinco agregados e das cinco paix\u00f5es na dimens\u00e3o dos cinco Budas do <em>Sambhogakaya <\/em>e suas sabedorias correspondentes<sup>4<\/sup>. Em ambos os casos, entretanto, o princ\u00edpio da manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo: eles surgem da potencialidade de nosso estado primordial. \u00c9 por isso que os cinco ramos das duas se\u00e7\u00f5es do <em>vajra<\/em> est\u00e3o ligados \u00e0 esfera do centro. <em>Samsara<\/em> e <em>nirvana<\/em> s\u00e3o o aspecto dual\u00edstico de uma \u00fanica ess\u00eancia manifestado atrav\u00e9s de energia. Esta energia em si \u00e9 de fato insepar\u00e1vel da manifesta\u00e7\u00e3o, simbolizada pela forma do cabo do sino do <em>vajra<\/em>.<\/p>\n<p>Os <em>Tantras <\/em>s\u00e3o ensinamentos baseados no conhecimento e aplica\u00e7\u00e3o da energia. Sua origem n\u00e3o \u00e9 para ser encontrada nos ensinamentos orais de um mestre, como \u00e9 o caso dos <em>Sutras<\/em> ensinados pelo Buda, mas origina-se na manifesta\u00e7\u00e3o da <em>vis\u00e3o pura<\/em> de um ser realizado. Uma manifesta\u00e7\u00e3o <em>pura <\/em>surge atrav\u00e9s da energia dos elementos no seu aspecto sutil e luminoso, enquanto nossa <em>vis\u00e3o c\u00e1rmica<\/em> est\u00e1 baseada em seu aspecto grosseiro ou material. Para receber este tipo de transmiss\u00e3o, \u00e9 ent\u00e3o necess\u00e1rio ter a capacidade de perceber a dimens\u00e3o sutil da luz.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia dos elementos \u00e9 luz, ou cor, mas n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de cores materiais, vis\u00edveis para qualquer um. Percebemos apenas as cores ligadas \u00e0 vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica.<\/em> Quando estas s\u00e3o reabsorvidas na dimens\u00e3o sutil da luz, para n\u00f3s \u00e9 como se tivessem desaparecido. Mas um ser realizado, que purificou seu <em>carma,<\/em> e reintegrou a manifesta\u00e7\u00e3o material na dimens\u00e3o pura dos elementos, manifesta espontaneamente sua sabedoria atrav\u00e9s de cores e luz. Para ter contato com essa dimens\u00e3o pura o indiv\u00edduo precisa desenvolver sua claridade, ao grau mais elevado, e purificar os obst\u00e1culos do <em>carma<\/em> e da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Para explicar as origens dos <em>Tantras<\/em>, podemos tomar o exemplo de um dos mais conhecidos, o <em>Tantra Kalachakra<\/em>, que \u00e9 considerado como tendo sido transmitido pelo Buda <em>Shakyamuni<\/em><sup>5<\/sup>. Est\u00e1 claro, entretanto, que ele pode n\u00e3o ter sido transmitido pelo Buda no seu aspecto f\u00edsico, porque a divindade <em>Kalachakra<\/em> \u00e9 representada pela uni\u00e3o com sua consorte, uma forma conhecida como <em>\u201cYab-Yum\u201d,<\/em> enquanto o Buda era representado como um monge. Isto mostra como a transmiss\u00e3o de um <em>tantra<\/em> n\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s do contato de uma natureza comum, mas atrav\u00e9s da dimens\u00e3o pura da transforma\u00e7\u00e3o, capaz de ser percebida apenas por aqueles indiv\u00edduos que t\u00eam uma capacidade suficiente.<\/p>\n<p>O que queremos dizer com \u201ctransforma\u00e7\u00e3o\u201d? Estamos nos referindo \u00e0 potencialidade de um ser realizado manifestar infinitas formas no <em>Sambhogakaya,<\/em> as quais est\u00e3o relacionadas ao tipo de seres que ir\u00e3o perceber a transmiss\u00e3o. Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio ter uma compreens\u00e3o clara do que \u00e9 a dimens\u00e3o do <em>Sambhogakaya.<\/em> Em s\u00e2nscrito, <em>Sambhogakaya<\/em> significa \u201ccorpo\u201d ou \u201cdimens\u00e3o\u201d de <em>riqueza<\/em>, sendo a <em>riqueza<\/em> a potencialidade infinita das manifesta\u00e7\u00f5es de sabedoria. Esta potencialidade \u00e9 compar\u00e1vel \u00e0quela de um espelho no centro do universo que reflete todos os diversos tipos de seres. As manifesta\u00e7\u00f5es do <em>Sambhogakaya<\/em> est\u00e3o al\u00e9m do tempo e al\u00e9m dos limites da dimens\u00e3o material, e seu surgimento n\u00e3o depende da exist\u00eancia de inten\u00e7\u00e3o por parte do ser realizado. Isto significa que a manifesta\u00e7\u00e3o da divindade <em>Kalachakra<\/em> n\u00e3o foi algo criado pelo Buda em um dado momento do tempo hist\u00f3rico, mas \u00e9 algo que j\u00e1 existia, porque a dimens\u00e3o do <em>Sambhogakaya <\/em>est\u00e1 al\u00e9m do tempo. Aqueles que receberam sua transmiss\u00e3o, atrav\u00e9s da pura percep\u00e7\u00e3o de uma manifesta\u00e7\u00e3o de Buda, explicaram-na em palavras e s\u00edmbolos, dando origem ao <em>Kalachacra.<\/em><\/p>\n<p>A representa\u00e7\u00e3o visual de uma manifesta\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 chamado <em>mandala<\/em>, que \u00e9 um dos elementos fundamentais da pr\u00e1tica do <em>tantra.<\/em> O <em>mandala<\/em> pode ser explicado como uma foto tirada no momento da manifesta\u00e7\u00e3o pura da divindade. Ao centro de cada <em>mandala<\/em> se encontra a divindade central, que representa a condi\u00e7\u00e3o primordial da exist\u00eancia, correspondendo ao elemento do espa\u00e7o. Nos quatro pontos cardeais, representado pelas cores dos outros quatro elementos, haver\u00e1 o mesmo n\u00famero de divindades, simbolizando as fun\u00e7\u00f5es de sabedoria que surgem como as quatro a\u00e7\u00f5es<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>A divindade de um <em>mandala<\/em> nem sempre ter\u00e1 uma apar\u00eancia humana, mas algumas vezes ter\u00e1 uma ou mais cabe\u00e7as de animal e um n\u00famero correspondente de bra\u00e7os e pernas. Isto foi interpretado por muitos estudiosos como uma maneira simb\u00f3lica de representar os princ\u00edpios do <em>tantra<\/em> em quest\u00e3o. Mas tais considera\u00e7\u00f5es s\u00e3o, de fato, apenas de import\u00e2ncia relativa e parcial. A verdade disto \u00e9 que todas as manifesta\u00e7\u00f5es de divindades surgem da dimens\u00e3o <em>Sambhogakaya<\/em> e ent\u00e3o, como j\u00e1 explicamos, o <em>Sambhogakaya<\/em> \u00e9 como um espelho, ele reflete todo tipo de ser que aparece para ele. Assim, a chamada \u201cArte do <em>tantra<\/em> tibetano\u201d pode ser realmente vista como um tipo de evid\u00eancia de que existem diferentes tipos de seres em todo o universo.<\/p>\n<p>Tomemos como exemplo a representa\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica da <em>dakini<\/em> <em>Sinhamukha<\/em>, que tem uma cabe\u00e7a de le\u00e3o num corpo de mulher. As <em>dakinis<\/em> s\u00e3o, em geral, uma classe de seres com uma apar\u00eancia feminina, que s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de energia. <em>Sinhamukha<\/em> \u00e9 uma forma <em>Sambhogakaya <\/em>de <em>dakini<\/em>. Seu nome em s\u00e2nscrito quer dizer \u201ccom face de le\u00e3o\u201d, porque sua face \u00e9 semelhante \u00e0 de um le\u00e3o, em particular ao do m\u00edtico le\u00e3o das neves do Tibet. Por falta de qualquer outra forma de dizer com o que ela \u00e9 parecida, surgiu a conven\u00e7\u00e3o de que esta <em>dakini<\/em> tem uma face de le\u00e3o. Mas n\u00e3o se pode excluir a possibilidade de que o que realmente \u00e9 representado \u00e9 um tipo de ser que n\u00f3s n\u00e3o conhecemos.<\/p>\n<p>Um outro exemplo deste tipo de coisa \u00e9 a divindade irada<em> Yamantaka<\/em>, que \u00e9 representada como tendo a cabe\u00e7a de b\u00fafalo. Ele \u00e9 considerado como sendo a manifesta\u00e7\u00e3o <em>Sambhogakaya<\/em> do <em>Bodhisattva Manjushri<\/em>, uma manifesta\u00e7\u00e3o recebida por uma classe de seres chamada <em>\u201cYama\u201d,<\/em> cuja caracter\u00edstica particular est\u00e1 no fato de ter uma cabe\u00e7a semelhante \u00e0 de um b\u00fafalo.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o do <em>Sambhogakaya<\/em> vem de tr\u00eas fatores: som, luz, e raios. <em>Som<\/em> \u00e9 o primeiro est\u00e1gio da manifesta\u00e7\u00e3o de energia, que, na dimens\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o, \u00e9 percebida como <em>mantra.<\/em> Este tipo de <em>mantra,<\/em> chamado o \u201cSom Natural do <em>Vajra<\/em>\u201d uma vez que ele surge espontaneamente, \u00e9 usado na pr\u00e1tica para integrar a visualiza\u00e7\u00e3o (do <em>mandala<\/em> da divindade) com a fun\u00e7\u00e3o de uma de suas pr\u00f3prias energias. <em>Luz<\/em> \u00e9 o segundo est\u00e1gio de manifesta\u00e7\u00e3o, \u00e9 o aspecto vis\u00edvel da energia, ainda em uma fase anterior \u00e0quela em que assume qualquer forma espec\u00edfica. E assim, em terceiro, atrav\u00e9s de <em>raios<\/em> manifesta todas as infinitas formas e cores do <em>mandala<\/em> da divindade. Cada indiv\u00edduo possui a potencialidade destes tr\u00eas aspectos de manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe um ditado <em>t\u00e2ntrico<\/em> que diz, \u201cAplica-se o fruto como o caminho\u201d, porque a dimens\u00e3o do <em>mandala<\/em> \u2013 uma manifesta\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o ou o fruto \u2013 se torna o caminho para a realiza\u00e7\u00e3o do disc\u00edpulo atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o oral dada por um mestre. Muitos textos afirmam que v\u00e1rios <em>tantras<\/em> foram originalmente transmitidos aos <em>mahasiddhas<\/em> indianos que estavam se dirigindo para o pa\u00eds de Oddiyana e que, ainda no caminho para l\u00e1, receberam a transmiss\u00e3o atrav\u00e9s de vis\u00f5es. Oddiyana, que foi a fonte original tanto dos <em>Tantras <\/em>como do Dzgchen, e que foi o pa\u00eds nativo de mestres tais como Garab Dorje e Padmasambhava, \u00e9 algumas vezes chamado \u201cA Terra das <em>Dakinis<\/em>\u201d, uma frase usada para indicar a concentra\u00e7\u00e3o, num lugar espec\u00edfico, destas manifesta\u00e7\u00f5es de energia do universo.<\/p>\n<p>Os mestres realizados que \u201cimportaram\u201d os <em>Tantras<\/em> para o mundo a partir de v\u00e1rias dimens\u00f5es, transmitiram a dimens\u00e3o pura da transforma\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de representa\u00e7\u00f5es do <em>mandala<\/em>. Esta transmiss\u00e3o tem lugar toda vez que um mestre confere a inicia\u00e7\u00e3o de um <em>tantra<\/em> a um disc\u00edpulo.<\/p>\n<p>Durante a inicia\u00e7\u00e3o o mestre descreve a imagem do <em>mandala<\/em> a ser visualizada, e em particular a divindade em que cada um tem que se transformar. Ent\u00e3o, ele pr\u00f3prio visualizando a dimens\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o, confere poder para a pr\u00e1tica, transmitindo o som natural do <em>mantra <\/em>espec\u00edfico para a divindade. Ap\u00f3s o disc\u00edpulo ter recebido a inicia\u00e7\u00e3o e ter assim tido sua primeira experi\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o na <em>vis\u00e3o pura<\/em>, ele agora est\u00e1 pronto para aplicar isto como um caminho, atrav\u00e9s da visualiza\u00e7\u00e3o e da recita\u00e7\u00e3o do <em>mantra<\/em>. Por estes meios o praticante do <em>Tantra <\/em>tenta transformar a <em>vis\u00e3o comum impura<\/em> na <em>vis\u00e3o pura <\/em>do <em>mandala <\/em>da divindade. Todos os <em>tantras<\/em> se baseiam no princ\u00edpio da transforma\u00e7\u00e3o, trabalhando com o conhecimento de como a energia funciona. O verdadeiro significado da palavra <em>tantra<\/em> \u2013 \u201ccontinua\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 refere-se \u00e0 natureza da energia do estado primordial, que se manifesta sem interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do <em>tantra <\/em>tem duas fases: o est\u00e1gio de desenvolvimento (<em>bskyed rim<\/em>), e a fase de \u201caperfei\u00e7oamento\u201d (<em>rdzogs rim<\/em>). A primeira fase consiste na visualiza\u00e7\u00e3o gradual do <em>mandala<\/em>, come\u00e7ando com a s\u00edlaba semente da divindade principal, e as s\u00edlabas dos quatro elementos. Quando a cria\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do <em>mandala<\/em> est\u00e1 completa, enquanto a pessoa mant\u00e9m a visualiza\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3pria transformada na forma da divindade central, a pessoa recita o <em>mantra<\/em>. Nesta fase a pessoa trabalha em elevado grau com a faculdade de imagina\u00e7\u00e3o da mente, tentando desenvolver ao m\u00e1ximo a capacidade de visualiza\u00e7\u00e3o. A segunda fase, o est\u00e1gio de \u201caperfei\u00e7oamento\u201d, foca na visualiza\u00e7\u00e3o do <em>mandala<\/em> interno do <em>chakra<\/em> e do <em>nadi<\/em><sup>7<\/sup>, e na concentra\u00e7\u00e3o nas s\u00edlabas do <em>mantra<\/em>, que gira sem interrup\u00e7\u00e3o em torno da s\u00edlaba semente. No final da sess\u00e3o de pr\u00e1tica, os <em>mandalas<\/em> interno e externo est\u00e3o integrados na dimens\u00e3o do corpo, voz, e mente do praticante. O resultado final da pr\u00e1tica \u00e9 que a <em>vis\u00e3o pura<\/em> manifesta-se sem depender mais da visualiza\u00e7\u00e3o, tornando-se parte da claridade natural do indiv\u00edduo. Assim, a pessoa consegue o estado total de reintegra\u00e7\u00e3o da <em>vis\u00e3o pura <\/em>com a <em>vis\u00e3o impura<\/em>, o <em>Mahamudra<\/em>, o \u201cgrande s\u00edmbolo\u201d no qual <em>samsara<\/em> e <em>nirvana<\/em> est\u00e3o indissoluvelmente unidos.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo da pr\u00e1tica em transforma\u00e7\u00e3o gradual, vai ser encontrado na tradi\u00e7\u00e3o <em>Mahayoga <\/em>da Escola <em>Nyingmapa<\/em> e na tradi\u00e7\u00e3o do <em>Tantra<\/em> <em>Anuttara<\/em> de todas as outras escolas<sup>8<\/sup>. Mas tamb\u00e9m existe um m\u00e9todo <em>t\u00e2ntrico<\/em> baseado na visualiza\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, n\u00e3o gradual encontrado apenas na tradi\u00e7\u00e3o <em>Anuyoga<\/em>. O princ\u00edpio deste m\u00e9todo <em>Anuyoga<\/em> \u00e9 que desde que, no estado primordial de todo indiv\u00edduo, o <em>mandala <\/em>e a divindade s\u00e3o perfeitas desde o in\u00edcio, elaborar visualiza\u00e7\u00f5es graduais n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias. Assim, tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio neste m\u00e9todo \u00e9 a presen\u00e7a imediata da dimens\u00e3o do <em>mandala<\/em>, manifestado num instante. Al\u00e9m disso, esta pr\u00e1tica est\u00e1 baseada principalmente no est\u00e1gio de aperfei\u00e7oamento da visualiza\u00e7\u00e3o. No <em>Anuyoga<\/em>, o estado de total reintegra\u00e7\u00e3o que resulta de uma pr\u00e1tica bem sucedida n\u00e3o \u00e9 chamado <em>Mahamudra,<\/em> mas \u201cDzogchen\u201d Isto mostra que o princ\u00edpio do auto-aperfei\u00e7oamento que \u00e9 a base deste m\u00e9todo \u00e9 o mesmo nos ensinamentos Dzogchen, embora o caminho atual seja diferente.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m obteve real e verdadeiramente a capacidade de transforma\u00e7\u00e3o, este algu\u00e9m pode ativ\u00e1-la nos seus procedimentos di\u00e1rios atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es em poderes. Tr\u00eas paix\u00f5es principais s\u00e3o consideradas no budismo: raiva, apego, e obscurecimento mental (ignor\u00e2ncia) chamados os \u201ctr\u00eas venenos\u201d porque s\u00e3o a causa de transmigra\u00e7\u00e3o. No <em>tantrismo<\/em> \u00e9 considerado que estes tr\u00eas venenos podem ser transformados em poder atrav\u00e9s de tr\u00eas m\u00e9todos espec\u00edficos de transforma\u00e7\u00e3o: atrav\u00e9s da transforma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio indiv\u00edduo na forma irada da divindade para ultrapassar a ira, na forma alegre para ultrapassar o apego, e na forma calma para ultrapassar o obscurecimento mental<sup>9.<\/sup>. Treinando a pr\u00e1tica da transforma\u00e7\u00e3o com estas formas de divindades, o praticante \u00e9 capaz de conseguir ultrapassar as paix\u00f5es, transformando-as em seus poderes correspondentes.<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo concreto deste tipo de pr\u00e1tica. Suponha que algu\u00e9m se torne irado com uma pessoa e experimente uma forte sensa\u00e7\u00e3o de raiva; o que a pessoa faz \u00e9 tentar, no mesmo instante, visualizar a si mesma transformada na forma irada da divindade, na dimens\u00e3o pura do <em>Sambhogakaya<\/em>. Desta maneira a raiva pode ser aumentada ao ponto em que fa\u00e7a o pr\u00f3prio universo tremer, mas desde ent\u00e3o n\u00e3o resta para o praticante qualquer divis\u00e3o dualista da realidade em sujeito e objeto, a raiva se libera como energia pura, sem qualquer alvo contra o qual ser direcionada.<\/p>\n<p>Nas mesmas circunst\u00e2ncias um praticante do caminho da ren\u00fancia tentaria \u201cbloquear\u201d a raiva, pensando nas conseq\u00fc\u00eancias do <em>carma <\/em>negativo. Assim, podemos facilmente compreender a diferen\u00e7a entre os v\u00e1rios m\u00e9todos usados nestas pr\u00e1ticas. O praticante do caminho da ren\u00fancia, mesmo que \u201csinta\u201d a raiva surgir dentro dele, tenta a todo custo se livrar dela, como que receoso de enfrent\u00e1-la. Num certo sentido, tal praticante pode ser tachado de ignorante da natureza da energia. O praticante do <em>tantrismo, <\/em>entretanto est\u00e1 consciente de como a energia funciona, e sabe que bloquear a energia pode causar dist\u00farbios tanto ao corpo como \u00e0 mente. Ele n\u00e3o p\u00f5e freios no fluxo da energia, n\u00e3o a reprime, mas usa-a como um meio de transforma\u00e7\u00e3o. Para fazer isto, entretanto, requer uma capacidade de pr\u00e1tica altamente desenvolvida.<\/p>\n<p>Em termos gerais, estas s\u00e3o as caracter\u00edsticas dos caminhos do <em>Sutra<\/em> e do <em>Tantra.<\/em> No Dzogchen, por outro lado, o m\u00e9todo de autolibera\u00e7\u00e3o \u00e9 ensinado diretamente, um m\u00e9todo no qual n\u00e3o existe nada a renunciar ou a transformar. Se a pessoa n\u00e3o tem capacidade suficiente, entretanto, esta autolibera\u00e7\u00e3o n\u00e3o trar\u00e1 resultados verdadeiros. Por esta raz\u00e3o, nos ensinamentos do Dzogchen \u00e9 advertido que a pessoa deve saber como aplicar qualquer tipo de m\u00e9todo que seja mais adequado \u00e0s circunst\u00e2ncias em que a pessoa se encontre, e mais adequado ao n\u00edvel da capacidade que ela tenha, at\u00e9 que o indiv\u00edduo tenha adquirido conhecimento do estado de autolibera\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 algo de que o praticante deve estar consciente.<\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p><em>Do revisor:<\/em><\/p>\n<p><em>*. O caminho de oito passos n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ren\u00fancia<\/em><\/p>\n<p>1.\u00a0<em>No Tantrismo, o m\u00e9todo (upaya; thabs) e a energia (prajna; shes-rab) s\u00e3o considerados os dois princ\u00edpios fundamentais da exist\u00eancia, correspondentes as energias masculina e feminina, ou lunar e solar. O prajna (conhecimento superior) \u00e9 nesse contexto sin\u00f4nimo de \u201cenergia\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>2.\u00a0<\/em><em>Os cinco agregados (skandas) s\u00e3o um conceito fundamental da psicologia budista. S\u00e3o eles: a forma, a sensa\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o, as forma\u00e7\u00f5es mentais e a consci\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>3.\u00a0<\/em><em>As cinco paix\u00f5es s\u00e3o: a raiva, o apego, o obscurecimento mental, o orgulho, e a inveja. (Existe uma sexta: a gan\u00e2ncia).<\/em><\/p>\n<p><em>4.\u00a0<\/em><em>Os cinco Budhas s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es do Sambhogakaya, da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. As cinco sabedorias s\u00e3o as fun\u00e7\u00f5es ligadas aos aspectos dos cinco elementos fundamentais: o espa\u00e7o, o ar, a \u00e1gua, o fogo.<\/em><\/p>\n<p><em>5.\u00a0<\/em><em>O Tantra de Kalachakra \u00e9 considerado um ensinamento do Budha Sakyamuni, aos 81 anos de idade, na stupa de Dhanakuta ao sul da \u00cdndia.<\/em><\/p>\n<p><em>6.\u00a0<\/em><em>As cinco atividades de sabedoria s\u00e3o: a a\u00e7\u00e3o pacificadora, para a purifica\u00e7\u00e3o, corresponde ao elemento \u00e1gua, a dire\u00e7\u00e3o este e a cor branca; a a\u00e7\u00e3o irada, para vencer as energias negativas, corresponde ao elemento ar, a dire\u00e7\u00e3o norte e a cor verde; a a\u00e7\u00e3o poderosa, para conquistar, corresponde ao elemento fogo, a dire\u00e7\u00e3o oeste e a cor vermelha; a a\u00e7\u00e3o de crescimento, para a prosperidade, corresponde ao elemento terra, a dire\u00e7\u00e3o sul e a cor amarela.<\/em><\/p>\n<p><em>7.Os chakras, literalmente \u201crodas\u201d, s\u00e3o os pontos principais onde se concentram a energia no corpo humano. Visualizamos, cinco, seis, ou sete chakras, segundo os diversos m\u00e9todos utilizados nos diferentes Tantras. Os nadis s\u00e3o canais sutis, n\u00e3o-materiais, pelos quais a energia circula em todo o corpo.<\/em><\/p>\n<p><em>8. Os Anuttara-tantras s\u00e3o classificados em Tantra Pai quando damos mais import\u00e2ncia, na pr\u00e1tica, a etapa de desenvolvimento; em Tantra M\u00e3e quando a etapa de aperfei\u00e7oamento \u00e9 mais importante, e em \u201cN\u00e3o-Dual\u201d quando os duas fases da pr\u00e1tica tem igual import\u00e2ncia.<\/em><\/p>\n<p><em>9. O termo \u201cdivindade\u201d \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o parcial e imprecisa de \u201cyi-dam\u201d que significa literalmente \u201cmente sagrada\u201d. No Tantrismo, a \u201cdivindade\u201d \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o pura do indiv\u00edduo em si-mesmo e n\u00e3o alguma coisa exterior. A forma irada da \u201cdivindade\u201d representa a natureza din\u00e2mica da energia; a forma alegre representa a sensa\u00e7\u00e3o de prazer e a forma pac\u00edfica representa o estado da mente calma, sem pensamentos.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>Cap\u00edtulo Tr\u00eas\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O CAMINHO DA AUTO-LIBERA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Os ensinamentos Dzogchen s\u00e3o tamb\u00e9m conhecidos como <em>Atiyoga,<\/em> ou \u201c<em>yoga<\/em> primordial\u201d. A palavra <em>yoga<\/em> \u00e9 usada aqui com o significado que tem equivalente no termo tibetano <em>naljor<\/em> <em>(rnal \u00b4byor),<\/em> que significa \u201cpossuindo a condi\u00e7\u00e3o aut\u00eantica\u201d, esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 o estado primordial de cada indiv\u00edduo. Um outro nome para Dzogchen \u00e9 \u201co ensinamento do estado da mente <em>Samantabhadra<\/em>\u201d, ou a ilumina\u00e7\u00e3o primordial\u00b9. O m\u00e9todo praticado no caminho do Dzogchen \u00e9 chamado \u201cauto-libera\u00e7\u00e3o\u201d porque se baseia em conhecimento e compreens\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9 que haja alguma coisa que se deva saber: \u00e9 mais uma quest\u00e3o de penetrar na experi\u00eancia de um estado al\u00e9m da mente racional, o estado de contempla\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1, entretanto nenhum meio de come\u00e7ar a compreender este estado, se o indiv\u00edduo n\u00e3o tomar a mente como ponto de partida. Isto porque o caminho da auto-libera\u00e7\u00e3o \u00e9 dito estar mais ligado ao fator da mente do que os caminhos da ren\u00fancia e da transforma\u00e7\u00e3o. No Dzogchen, a introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 dada diretamente ao estado inerente do indiv\u00edduo, atrav\u00e9s de uma explica\u00e7\u00e3o da base primordial da exist\u00eancia que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o original de todos os seres.<\/p>\n<p>Tanto nos <em>Sutras<\/em> como nos <em>Tantras<\/em> um dos conceitos fundamentais discutidos \u00e9 o da \u201cnatureza <em>da<\/em> mente\u201d, a verdadeira condi\u00e7\u00e3o da mente, que est\u00e1 al\u00e9m dos limites do intelecto e do tempo. O princ\u00edpio b\u00e1sico aqui \u00e9 o da vacuidade ou <em>shunyata<\/em>, a doutrina central do <em>Mahayana<\/em>. O significado do termo <em>vacuidade<\/em> tal como usado no <em>Praj\u00f1aparamita<\/em>\u00b2, \u00e9 a aus\u00eancia de substancialidade \u2013 ou de natureza pr\u00f3pria \u2013 de todos os fen\u00f4menos, que \u00e9 a verdadeira e inerente condi\u00e7\u00e3o de toda a exist\u00eancia\u00b3. Quando se refere ao indiv\u00edduo, esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 referida como a \u201cnatureza da mente\u201d.<\/p>\n<p>Nos ensinamentos Dzogchen muitos termos s\u00e3o usados para denotar a natureza da mente, incluindo, a \u201cBase primordial\u201d (<em>ye gzhi<\/em>); a \u201cBase de tudo\u201d (<em>kun gzhi<\/em>); a ess\u00eancia da <em>Bodhichitta<\/em> primordial\u201d (<em>ye gzhi snying p\u00f3 byang chub kyi sems<\/em>), etc.. Esta \u00faltima denomina\u00e7\u00e3o \u00e9 encontrada em muitos textos Dzogchen antigos, e ser\u00e1 \u00fatil para explicar seu significado.<\/p>\n<p>No <em>Mahayana, bodhichitta<\/em> \u00e9 considerada como significando incumb\u00eancia, baseado no sentimento de compaix\u00e3o universal, de trazer todos os seres \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o. Dois tipos de <em>bodhichittas<\/em> s\u00e3o referidos em particular: <em>relativa<\/em> e <em>absoluta<\/em>. A <em>bodhichitta<\/em> <em>relativa<\/em> consiste no treinamento dos pensamentos do indiv\u00edduo para desenvolver a inten\u00e7\u00e3o de beneficiar os outros e levar a efeito a\u00e7\u00f5es altru\u00edstas. A <em>bodhichitta <\/em><em>absoluta<\/em> \u00e9 o conhecimento da vacuidade de todos os fen\u00f4menos, e se aproxima do conceito de \u201c<em>Bodhichitta<\/em> primordial\u201d no Dzogchen.<\/p>\n<p>Quando traduzida para o tibetano, <em>bodhichitta<\/em> torna-se <em>\u201cchang chub sem\u201d<\/em> (<em>byang chub sems<\/em>), um termo constitu\u00eddo de tr\u00eas palavras <em>\u201cchang\u201d (byang),<\/em> que significa \u201cpurificado\u201d: <em>\u201cchub\u201d,<\/em> significando \u201crealizado\u201d (perfeito); e <em>\u201csem\u201d,<\/em> que significa \u201cmente\u201d. \u201cMente\u201d em lugar de \u201cnatureza da mente\u201d; \u201cpurificado\u201d, significa que todos os obst\u00e1culos e negatividades foram purificados; e \u201crealizado\u201d significa que todos os conhecimentos e qualidades foram alcan\u00e7ados. Assim <em>Bodhichitta <\/em>primordial \u00e9 o estado do indiv\u00edduo, que \u00e9 verdadeiro desde o in\u00edcio, sem obst\u00e1culos, perfeito, e inclui como sua potencialidade todas as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de energia. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o al\u00e9m do tempo, al\u00e9m do dualismo, pura e perfeita como a natureza do espelho. Se algu\u00e9m ignora isso, entretanto, \u00e9 porque ela n\u00e3o est\u00e1 manifestada e \u00e9 necess\u00e1rio remover obst\u00e1culos tempor\u00e1rios que a obscurecem. Nos ensinamentos Dzogchen o estado primordial da Base n\u00e3o \u00e9 definido apenas como sendo vazio, mas \u00e9 explicado como tendo tr\u00eas aspectos ou caracter\u00edsticas, chamados os tr\u00eas poderes \u201cprimordiais\u201d: <em>ess\u00eancia, natureza, e energia<\/em>.<\/p>\n<p>A <em>ess\u00eancia<\/em> \u00e9 o vazio, a condi\u00e7\u00e3o verdadeira do indiv\u00edduo e de todos os fen\u00f4menos. Esta Base \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de todos os indiv\u00edduos, estejam eles conscientes disso ou n\u00e3o, se est\u00e3o iluminados ou em transmigra\u00e7\u00e3o. Diz-se ser \u201cpura desde o in\u00edcio\u201d <em>(ka dag),<\/em> porque, tal como o espa\u00e7o, ela (<em>a ess\u00eancia<\/em>) est\u00e1 livre de todos os obst\u00e1culos, e \u00e9 a base de todas as manifesta\u00e7\u00f5es na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o do estado primordial em todos os aspectos, sua \u201cclaridade\u201d, por outro lado \u00e9 chamada <em>natureza<\/em>. \u00c9 dito ser \u201cauto-realizada\u201d (<em>lhun grub<\/em>), porque ela existe espontaneamente desde o in\u00edcio, como o sol que brilha no espa\u00e7o. <em>Claridade<\/em> \u00e9 a qualidade pura de todos os pensamentos e de todos os fen\u00f4menos percebidos, n\u00e3o contaminados pelo julgamento mental. Por exemplo, quando vemos uma flor, primeiro percebemos sua imagem sem que a mente entre em julgamento, mesmo se essa fase de percep\u00e7\u00e3o dure uma fra\u00e7\u00e3o de segundo. Ent\u00e3o, numa segunda fase, o julgamento mental entra em a\u00e7\u00e3o e categoriza a percep\u00e7\u00e3o, pensando, \u201cEsta \u00e9 uma flor, \u00e9 vermelha, ela tem um perfume espec\u00edfico, etc.\u201d. Desenvolvendo a partir da\u00ed, apego e avers\u00e3o, aceita\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o ir\u00e3o surgir, com a conseq\u00fcente cria\u00e7\u00e3o de <em>carma<\/em> e transmigra\u00e7\u00e3o. Claridade \u00e9 a fase na qual a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00edvida e presente, mas a mente ainda n\u00e3o entrou em a\u00e7\u00e3o. \u00c9 a manifesta\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea do estado do indiv\u00edduo. O mesmo \u00e9 verdadeiro para os pensamentos: se n\u00e3o os seguirmos, e n\u00e3o formos apanhados em julgamento mental, eles tamb\u00e9m s\u00e3o parte de nossa claridade natural.<\/p>\n<p>A terceira destas sabedorias primordiais \u00e9 <em>energia<\/em>. Sua caracter\u00edstica \u00e9 que ela se manifesta sem interrup\u00e7\u00e3o<sup>4<\/sup>. A explica\u00e7\u00e3o da energia no Dzogchen \u00e9 fundamental para compreender a Base. Todas as dimens\u00f5es, tanto pura ou impura, material ou sutil, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de um ou outro aspecto da energia. Para explicar como se originam tanto a transmigra\u00e7\u00e3o como a ilumina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o descritas tr\u00eas formas em que a energia se manifesta. Estes tr\u00eas modos de energia s\u00e3o chamados <strong><em>\u201ctsel\u201d<\/em><\/strong><em> (rtsal), <strong>\u201crolpa\u201d<\/strong> <\/em>(<em>rol ba<\/em>), e <strong><em>\u201cdang\u201d<\/em><\/strong> (<em>gdangs<\/em>), nomes que n\u00e3o podem ser traduzidos nas l\u00ednguas ocidentais.<\/p>\n<p>Para entender a manifesta\u00e7\u00e3o da energia como <strong><em>tsel<\/em><\/strong>, podemos tomar como exemplo o que acontece quando uma bola de cristal \u00e9 colocada junto a uma janela. O cristal \u00e9 puro e transparente, mas quando os raios da luz incidem sobre ele, sofrem refra\u00e7\u00e3o dando origem a luzes coloridas por todo o quarto. Estas luzes n\u00e3o s\u00e3o inerentes ao pr\u00f3prio cristal, mas se manifestam quando a causa secund\u00e1ria apropriada est\u00e1 presente, neste caso os raios de sol. A bola de cristal simboliza o estado primordial do indiv\u00edduo, que consiste de ess\u00eancia, natureza e energia. Os raios coloridos que se espalham pelo quarto s\u00e3o um exemplo da manifesta\u00e7\u00e3o natural da energia, aparecendo em rela\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo como um objeto. No momento da manifesta\u00e7\u00e3o da energia do estado primordial, se o indiv\u00edduo a reconhece como uma proje\u00e7\u00e3o das qualidades originais do pr\u00f3prio indiv\u00edduo, ele entende a si mesmo na dimens\u00e3o da <em>vis\u00e3o pura<\/em>. Se ocorrer o oposto e o indiv\u00edduo perceber os raios e cores como externos a si pr\u00f3prio, ele manifesta a <em>vis\u00e3o impura<\/em>. <em>Assim, a causa de ambas as vis\u00f5es, samsara e nirvana, \u00e9 a mesma: a manifesta\u00e7\u00e3o da luz do estado primordial<\/em>.<\/p>\n<p>Como um exemplo de <strong><em>rolpa<\/em><\/strong>, podemos imaginar que em lugar das cores refletindo externamente ao cristal, desta vez elas refletem-se em seu interior, n\u00e3o aparecendo fora do cristal, mas dentro de suas pr\u00f3prias superf\u00edcies. Do mesmo modo, a energia do estado primordial pode manifestar-se dentro de sua pr\u00f3pria dimens\u00e3o \u201csubjetivamente\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao indiv\u00edduo. Isto acontece, por exemplo, no <em>bardo<\/em>, o estado intermedi\u00e1rio entre morte e renascimento, quando uma centena de divindades calmas e iradas aparecem. Elas n\u00e3o s\u00e3o externas ao indiv\u00edduo, mas s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es de suas qualidades naturais e, auto-aperfei\u00e7oadas. O aparecimento destas divindades, entretanto, apenas surge para aqueles que receberam em vida a transmiss\u00e3o de um mestre, e aplicaram o m\u00e9todo de transforma\u00e7\u00e3o espec\u00edfico para as divindades calmas e iradas. Para um indiv\u00edduo comum surgem apenas manifesta\u00e7\u00f5es de \u201csons, raios, e luzes\u201d, que podem durar apenas por um instante, e quase sempre s\u00e3o causa de alarme<sup>5<\/sup>. Por esta raz\u00e3o, \u00e9 dada grande import\u00e2ncia no <em>tantrismo<\/em> ao conhecimento do modo de energia <strong><em>rolpa<\/em><\/strong>,que \u00e9 a base de todos os v\u00e1rios m\u00e9todos de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para entender <strong><em>dang<\/em><\/strong>devemos pensar no pr\u00f3prio cristal, e em sua forma pura e transparente. Se colocarmos uma bola de cristal no centro de um <em>mandala<\/em> colorido e caminharmos ao redor, o cristal ir\u00e1 parecer por algumas vezes assumir as cores dos pontos cardeais do <em>mandala<\/em> aos quais sucessivamente chegamos, enquanto ao mesmo tempo permanece puro e transparente nele pr\u00f3prio. Este \u00e9 um exemplo da condi\u00e7\u00e3o inerente da energia em si tal como realmente \u00e9, em qualquer tipo de manifesta\u00e7\u00e3o que seja. Algumas vezes em vez do termo <strong><em>dang<\/em><\/strong> se usa o termo <em>\u201cgyen\u201d (rgyan)<\/em> significando \u201cornamento\u201d, porque no estado de contempla\u00e7\u00e3o todas as manifesta\u00e7\u00f5es de energia s\u00e3o \u201cpercebidas\u201d como ornamentos do estado primordial.<\/p>\n<p>Quando a introdu\u00e7\u00e3o foi dada por um mestre, a ess\u00eancia, natureza e energia s\u00e3o chamadas de \u201ctr\u00eas corpos da base\u201d. Eles correspondem, no caminho, aos tr\u00eas aspectos ou caracter\u00edsticas da natureza da mente: o estado calmo (<em>gnas pa<\/em>), movimento (<em>gyu ba<\/em>) e a presen\u00e7a (<em>rig pa<\/em>).<\/p>\n<p>O estado <strong>calmo<\/strong> \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da mente em que n\u00e3o surge qualquer pensamento. Um exemplo disto \u00e9 o espa\u00e7o que existe entre o desaparecimento de um pensamento e o surgimento de um outro, um espa\u00e7o que usualmente \u00e9 impercept\u00edvel. O <strong>movimento<\/strong> \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o dos pensamentos, sem interrup\u00e7\u00e3o. Um exemplo \u00e9 dado no qual o estado sem pensamentos \u00e9 dito ser calmo como um lago, e o surgimento de pensamentos ser como o movimento do peixe no lago. Estes dois fatores s\u00e3o comuns em todos os seres humanos. A <strong>Presen\u00e7a<\/strong><sup>6<\/sup>, por outro lado, est\u00e1 como que adormecida em n\u00f3s, e \u00e9 preciso um mestre para acord\u00e1-la atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o. A <strong>Presen\u00e7a<\/strong> <em>[<strong>rigpa<\/strong>]<\/em> \u00e9 o puro reconhecimento sem julgamento, tanto do estado calmo quanto do movimento. Estes tr\u00eas s\u00e3o chamados os \u201ctr\u00eas corpos do caminho\u201d.<\/p>\n<p>No <strong><em>fruto<\/em><\/strong>, ou realiza\u00e7\u00e3o, eles se manifestam como <em>Dharmakaya, Sambhogakaya,<\/em> e <em>Nirmanakaya,<\/em> as tr\u00eas \u201cdimens\u00f5es purificadas\u201d. O <strong><em>Dharmakaya<\/em> <\/strong>corresponde \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia, a vacuidade de todos os fen\u00f4menos. Entretanto, a presen\u00e7a aqui est\u00e1 totalmente acordada. O estado de <em>Dharmakaya<\/em> est\u00e1 al\u00e9m da forma ou cor, como o espa\u00e7o sem limite. O <strong><em>Sambhogakaya<\/em><\/strong> \u00e9 a dimens\u00e3o auto-realizada da manifesta\u00e7\u00e3o da energia. Ele corresponde \u00e0 claridade natural da Base, ligada \u00e0 presen\u00e7a. O <strong><em>Nirmanakaya<\/em><\/strong> \u00e9 a dimens\u00e3o da manifesta\u00e7\u00e3o tanto pura como impura, percebida como um objeto em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3prio estado do indiv\u00edduo, embora n\u00e3o reste qualquer tra\u00e7o de dualismo. A Presen\u00e7a est\u00e1 totalmente integrada com a dimens\u00e3o externa<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0N\u00e3o importa quantas an\u00e1lises algu\u00e9m fa\u00e7a, ele n\u00e3o deve esquecer que est\u00e1 se referindo \u00e0 sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, aos aspectos do pr\u00f3prio corpo, voz, e mente. Se algu\u00e9m tenta compreender um ensinamento com esta atitude, qualquer que seja a explica\u00e7\u00e3o que receba ser\u00e1 significativa, e n\u00e3o permanecer\u00e1 como algo abstrato. Eu me lembro quando eu era um menino no Tibet, eu estudei a fundo um coment\u00e1rio do <em>Sutra Praj\u00f1aparamita<\/em>, o <em>Abhisamayalankara<\/em><sup>8<\/sup>,e tornei-me um perito em expor seu conte\u00fado. Mas eu n\u00e3o atingi seu verdadeiro significado, porque todas as descri\u00e7\u00f5es que ele continha sobre os diferentes n\u00edveis dos <em>budas<\/em> e <em>bodhisattvas<\/em> me pareceram totalmente dissociadas da minha pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Meu mestre do col\u00e9gio provavelmente notou isto, porque um dia ele me disse, \u201cQuando voc\u00ea l\u00ea estas descri\u00e7\u00f5es dos <em>budas <\/em>etc, voc\u00ea deveria entender que elas s\u00e3o descri\u00e7\u00f5es de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o\u201d. Tentei colocar esta advert\u00eancia em pr\u00e1tica, mas achei muito dif\u00edcil. Foi apenas alguns anos mais tarde, quando tomei conhecimento do Dzogchen, que entendi o significado das palavras do meu mestre da escola. Ent\u00e3o, eu reli o texto, foi como se eu o estivesse lendo pela primeira vez, e ele teve um significado completamente novo para mim.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do Dzogchen est\u00e1 baseada em dois aspectos fundamentais da natureza do indiv\u00edduo: o estado <strong>calmo<\/strong>, e o <strong>movimento<\/strong> de pensamentos, atrav\u00e9s dos quais \u00e9 necess\u00e1rio para o indiv\u00edduo encontrar-se integrado no estado de <strong>presen\u00e7a<\/strong>. Em algumas tradi\u00e7\u00f5es budistas \u00e9 dada muita import\u00e2ncia \u00e0 medita\u00e7\u00e3o a fim de que o indiv\u00edduo se encontre no estado de calma, conhecido como <em>\u201cshine\u201d (zhi gnas),<\/em> cujo objetivo \u00e9 relaxar a mente em uma condi\u00e7\u00e3o sem pensamentos, ou n\u00e3o perturbada por seus movimentos. Algumas vezes, entretanto, h\u00e1 o risco de que o indiv\u00edduo adorme\u00e7a em tais estados, e assim bloqueie o progresso da pr\u00e1tica. Por esta raz\u00e3o \u00e9 considerado importante nos ensinamentos Dzogchen saber como trabalhar com a energia do pr\u00f3prio movimento, que \u00e9 um aspecto inerente ao indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>No <em>tantrismo,<\/em> tamb\u00e9m, a pr\u00e1tica se baseia no trabalho com movimento, mas neste caso, em um movimento imagin\u00e1rio, criado pela mente. O objetivo aqui, entretanto, \u00e9 n\u00e3o encontrar um estado de calma sem pensamento. Mas sim, atrav\u00e9s do trabalho com a imagina\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, criar a dimens\u00e3o pura do <em>mandala <\/em>come\u00e7ando com os elementos do ar, \u00e1gua, fogo, etc. Esta atividade \u00e9 movimento. Mas at\u00e9 que a pessoa compreenda o <em>Mahamudra,<\/em> ela n\u00e3o pode facilmente ser bem sucedida em integrar sua pr\u00f3pria energia com o movimento comum da dimens\u00e3o material.<\/p>\n<p>No Dzogchen, tamb\u00e9m, s\u00e3o praticados v\u00e1rios m\u00e9todos de uso da energia, mas estes n\u00e3o est\u00e3o baseados na atividade da mente. Seu princ\u00edpio \u00e9 a integra\u00e7\u00e3o direta das manifesta\u00e7\u00f5es de energia com o estado de presen\u00e7a. N\u00e3o faz diferen\u00e7a se aparece diante de n\u00f3s a vis\u00e3o pura de um <em>mandala,<\/em> ou se aparece diante dos nossos olhos a vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> de um quarto: ambos s\u00e3o olhados como parte da claridade da pessoa. Se a pessoa se encontra num estado calmo, ou numa manifesta\u00e7\u00e3o pura de movimento, estas s\u00e3o ambas experi\u00eancias e n\u00e3o o pr\u00f3prio estado de contempla\u00e7\u00e3o. No estado de <strong>presen\u00e7a<\/strong>, que permanece o mesmo para mil experi\u00eancias, o que quer que surja libera-se automaticamente. Isto \u00e9 o que significa \u201cauto-libera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Esta auto-libera\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente o que tem que ser aplicado \u00e0 conduta da pessoa no cotidiano. Tomando o exemplo da paix\u00e3o da raiva, descrevemos as diferentes maneiras pelas quais um praticante do caminho da ren\u00fancia ir\u00e1 reagir. Tamb\u00e9m dissemos que a transforma\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es em sabedorias, que \u00e9 o m\u00e9todo dos <em>Tantras,<\/em> requer um n\u00edvel mais elevado de capacidade, que \u00e9 o resultado de muitos anos de treinamento. No conceito da transforma\u00e7\u00e3o, entretanto, ainda permanece um senso de dualismo. Isto quer dizer, existe por um lado a paix\u00e3o, e do outro sua transforma\u00e7\u00e3o em sabedoria.<\/p>\n<p>Mas um praticante de Dzogchen, no momento de se tornar irado, n\u00e3o tenta nem bloquear nem transformar a paix\u00e3o, mas observ\u00e1-la sem julgar. Deste modo a raiva se dissolver\u00e1 por si mesma, uma vez que foi deixada em sua condi\u00e7\u00e3o natural, deixando que ela se libere a si pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Em geral, quando um pensamento ou paix\u00e3o surge, a pessoa pode distinguir duas fases diferentes. Na primeira surge o movimento, de raiva, por exemplo, e na segunda a pessoa se deixa envolver no julgamento mental e entra em a\u00e7\u00e3o. Para aplicar o m\u00e9todo da auto-libera\u00e7\u00e3o \u00e9 importante observar o momento em que a mente ainda n\u00e3o entrou no julgamento. Quando o indiv\u00edduo mant\u00e9m o estado de <strong>presen\u00e7a<\/strong>, qualquer pensamento ou movimento pode ser comparado a uma nuvem do tamanho de um ovo, que se torna maior pouco a pouco at\u00e9 que fica t\u00e3o grande quanto uma montanha, e finalmente, do mesmo modo que surgiu, se torna menor e menor novamente at\u00e9 que desaparece.<\/p>\n<p>O conhecimento do estado de auto-libera\u00e7\u00e3o \u00e9 a base da pr\u00e1tica de Dzogchen. \u00c9 dito que \u201co praticante de Dzogchen medita sem meditar\u201d, o que parece ser simplesmente um jogo de palavras, mas realmente \u00e9 a verdade. A coisa mais importante \u00e9 nunca se distrair, mantendo o estado de <strong>presen\u00e7a<\/strong> em todos os momentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma est\u00f3ria que conta como um monge culto foi visitar <em>Yunton (gYung ston)<\/em><sup>9<\/sup>, um mestre Dzogchen que vivia simplesmente, cercado por um grande n\u00famero de disc\u00edpulos. O monge, que tinha estudado doutrinas budistas por muitos anos, e se sentia um erudito, preso pela inveja pensou, \u201cComo pode ele, uma pessoa comum, ousar ensinar? Como se atreve a pretender ser um mestre se ele nem mesmo veste roupas de monge? Eu irei confrontar seu conhecimento com o meu, e humilh\u00e1-lo frente a seus disc\u00edpulos, de modo que eles o deixar\u00e3o e me seguir\u00e3o\u201d. Cheio de orgulho e arrog\u00e2ncia ele se aproximou de <em>Yunton <\/em>e perguntou, \u201cVoc\u00eas praticantes de Dzogchen, voc\u00eas est\u00e3o sempre meditando?\u201d Ao que <em>Yunton<\/em> respondeu, \u201cO que \u00e9 meditar?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o\u201d, o monge continuou, \u201cvoc\u00eas n\u00e3o meditam ent\u00e3o?\u201d <em>Yunton<\/em> respondeu, \u201cQuando estou distra\u00eddo?\u201d<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><em>Samantabhadra (Kun-tu-bzang-po),<\/em><em> o Budha primordial, \u00e9 o s\u00edmbolo do estado de Dharmakaya. Ele \u00e9 representado nu, sem ornamentos e de cor azul escuro, para indicar a pureza da Ess\u00eancia a profundeza do vazio.<\/em><\/li>\n<li><em>O ciclo dos Sutras conhecidos como Prajnaparamita, o cume dos ensinamentos do Mahayana, \u00e9 considerado como uma revela\u00e7\u00e3o de Nagarjuna, o c\u00e9lebre mestre indiano, fundador do sistema de filosofia Madhyamika ou \u201cCaminho do Meio\u201d.<\/em><\/li>\n<li><em>Para compreender corretamente o conceito de vazio, \u00e9 dado nos Sutras os exemplos dos \u201cchifres de coelho\u201d e dos \u201cchifres de b\u00fafalo\u201d. Um chifre de coelho jamais existiu, ser\u00e1 in\u00fatil tentar negar sua exist\u00eancia. Se, ao contr\u00e1rio, negamos a exist\u00eancia do chifre de b\u00fafalo, negaremos assim diretamente a exist\u00eancia de qualquer coisa que consideramos real e material. Do mesmo modo, o vazio n\u00e3o \u00e9 atributo de uma \u201ccondi\u00e7\u00e3o abstrata\u201d das coisas, mas ele \u00e9 a natureza mesma de sua materialidade.<\/em><\/li>\n<li><em>Thugs-rje ma-gags-pa<\/em><em>. Em numerosas tradu\u00e7\u00f5es ocidentais o termo thugs-rje, no contexto Dzogchen, tem sido traduzido por \u201ccompaix\u00e3o\u201d. Segundo explica\u00e7\u00e3o dada por Namkha\u00ef Norbu Rinpoche, esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o imprecisa e parcial do termo. Thugs significa \u201cestado da mente\u201d, e rje significa \u201csenhor\u201d.\u00a0 Faz refer\u00eancia de fato \u00e0 energia, que \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do estado primordial. Nos Sutras, a compaix\u00e3o \u00e9 considerada como a energia do vazio, e ent\u00e3o a chamamos igualmente thugs-rje. Mas no Dzogchen, a compaix\u00e3o \u00e9 considerada como sendo um dos numerosos aspectos da energia.<\/em><\/li>\n<li><em>Ver: Namkha\u00ef Norbu Rinpoche (redator) \u201cIl Libro dei Morti\u201d, Newton Compton, Roma \u20131979; ou F. Freemantle C. Trungpa, The Tibetan Book of Dead, Shambala Pub, Berkley and London \u2013 1975; e: G. Orofino (redator), Insegnamenti Tibetani su Morte e Liberazione, Ed. <\/em><em>Mediterranee, Roma \u2013 1985, tamb\u00e9m publicado em ingl\u00eas: Tibetain Teachings on Death and Liberation por Wisdom Pub., London.<\/em><\/li>\n<li><em>Rig-pa<\/em><em> \u00e9 um dos termos chave nos ensinamentos Dzogchen. Seu significado literal \u00e9 \u201cconhecimento\u201d, mas a utiliza\u00e7\u00e3o que fazemos no Dzogchen exprime bem mais que isso. Ele se refere ao conhecimento intuitivo e direto da condi\u00e7\u00e3o primordial, mantida como uma presen\u00e7a viva. Nesse livro, traduzi o termo rig-pa por \u201cestado de presen\u00e7a\u201d, e as vezes simplesmente por \u201cpresen\u00e7a\u201d, ainda que tenha igualmente utilizado esta palavra para traduzir o termo tibetano dran-pa, que se refere mais particularmente \u00e0 presen\u00e7a da mente.<\/em><\/li>\n<li><em>O termo Nirmanakaya indica tamb\u00e9m, geralmente, a manifesta\u00e7\u00e3o de um ser realizado que, a fim de dar ensinamentos, assume uma forma humana, ou a forma de um outro tipo de ser. O Budha Sakyamuni, Pdmasambhava e Garab Dordje, por exemplo, s\u00e3o considerados manifesta\u00e7\u00f5es Nirmanakaya.<\/em><\/li>\n<li><em>O Abbisamayalankara \u00e9 uma obra de Asanga, um importante fil\u00f3sofo indiano da tradi\u00e7\u00e3o Mahayana.<\/em><\/li>\n<li><em>gYung-ston rdo-rge dpal (1284-1365)<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>Cap\u00edtulo Quatro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>A IMPORT\u00c2NCIA DA TRANSMISS\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Os ensinamentos Dzogchen est\u00e3o vinculados a uma transmiss\u00e3o, que repousa em um mestre, e que \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental para o desenvolvimento do conhecimento e da realiza\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos. Nos <em>Sutras<\/em> \u00e9 ensinado que a ilumina\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel ap\u00f3s algumas vidas dedicadas \u00e0 pr\u00e1tica; nos <em>Tantras <\/em>por outro lado, \u00e9 dito que o indiv\u00edduo pode alcan\u00e7ar a ilumina\u00e7\u00e3o em apenas uma vida, porque os m\u00e9todos usados s\u00e3o muito mais eficazes. No Dzogchen, entretanto, a realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas \u00e9 considerada como poss\u00edvel em uma s\u00f3 vida, mas tamb\u00e9m \u00e9 abordada a \u201cGrande Transfer\u00eancia em um Corpo de Luz\u201d. Esta realiza\u00e7\u00e3o em particular, que foi efetuada por mestres tais como <em>Padmasambhava<\/em>, <em>Vimalamitra<\/em>, e por <em>Tapihritsa<\/em>\u00b9 da tradi\u00e7\u00e3o <em>B\u00f6n,<\/em> envolve a transfer\u00eancia ou a reabsor\u00e7\u00e3o, sem uma morte f\u00edsica, dos elementos do corpo material em ess\u00eancia luminosa, no curso desta realiza\u00e7\u00e3o o corpo f\u00edsico desaparece da vis\u00e3o dos seres comuns. Se o indiv\u00edduo n\u00e3o consegue realizar este Corpo de Luz nesta encarna\u00e7\u00e3o, ele pode consegui-lo ap\u00f3s sua morte, tal como aconteceu a muitos praticantes de Dzogchen no Tibet em tempos recentes. Esta realiza\u00e7\u00e3o depende n\u00e3o apenas dos m\u00e9todos espec\u00edficos do Dzogchen\u00b2, mas tamb\u00e9m fundamentalmente da fun\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o do mestre.<\/p>\n<p>Quando um mestre Dzogchen ensina, ele transmite o conhecimento atrav\u00e9s de tr\u00eas tipos de transmiss\u00e3o: oral, simb\u00f3lica, e direta. No Dzogchen, os rituais de inicia\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o indispens\u00e1veis, como o s\u00e3o no <em>tantrismo.<\/em> O significado verdadeiro da inicia\u00e7\u00e3o \u00e9 a transmiss\u00e3o do estado de conhecimento, e isto pode ser feito atrav\u00e9s de uma simples explana\u00e7\u00e3o. Tudo depende da capacidade do disc\u00edpulo compreender.<\/p>\n<p>Alguns mestres da tradi\u00e7\u00e3o <em>Nyingma<\/em> t\u00eam ensinado que as tr\u00eas transmiss\u00f5es referem-se \u00e0s origens dos ensinamentos Dzogchen. Eles dizem que o Dzogchen foi transmitido primeiro por <em>Samantabhadra<\/em> (o <em>Darmakaya<\/em>) a <em>Vajrasattva<\/em>\u00b3 (o <em>Sambhogakaya<\/em>), e ent\u00e3o, a partir dele, foi transmitido a Garab Dorje (o <em>Nirmanakaya<\/em>), atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o simb\u00f3lica. De Garab Dorje, atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o oral, ela foi recebida pelos seres humanos. Esta explica\u00e7\u00e3o faz parecer que houve tr\u00eas mestres diferentes que deram tr\u00eas tipos diversos de ensinamentos. Mas na verdade as tr\u00eas transmiss\u00f5es s\u00e3o todas insepar\u00e1veis do mestre, e eles mesmos s\u00e3o o \u201ccaminho\u201d. Se a transmiss\u00e3o direta veio do <em>Darmakaya<\/em> para o <em>Sambhogakaya<\/em> ela n\u00e3o poderia ser um caminho, porque o <em>Sambhogakaya<\/em> n\u00e3o tem necessidade de um caminho. O indiv\u00edduo \u00e9, na verdade, feito de corpo, fala e mente, todos ao mesmo tempo, e assim acontece que os tr\u00eas tipos de transmiss\u00e3o s\u00e3o usados pelo mestre para comunicar o estado de conhecimento.<\/p>\n<p>A <strong><em>transmiss\u00e3o oral<\/em><\/strong> inclui tanto explica\u00e7\u00f5es dadas pelo mestre para conduzir o disc\u00edpulo \u00e0 compreens\u00e3o da natureza do estado primordial, como m\u00e9todos de pr\u00e1tica para capacitar o indiv\u00edduo a penetrar no conhecimento do estado.<\/p>\n<p>A <strong><em>transmiss\u00e3o simb\u00f3lica<\/em><\/strong> ocorre tanto atrav\u00e9s de objetos simb\u00f3licos, tal como um espelho ou um peda\u00e7o de cristal, que s\u00e3o mostrados aos disc\u00edpulos pelo mestre a fim de transmitir o conhecimento do estado primordial, como atrav\u00e9s de est\u00f3rias, par\u00e1bolas, e enigmas<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>A <strong><em>transmiss\u00e3o direta<\/em><\/strong> vem atrav\u00e9s da unifica\u00e7\u00e3o do estado do mestre com o do disc\u00edpulo. Um exemplo de transmiss\u00e3o direta pode ser encontrado na est\u00f3ria do despertar de Naropa, o famoso <em>mahasiddha<\/em> indiano, que era disc\u00edpulo de Tilopa<sup>5<\/sup>. Naropa era um famoso <em>p\u00e2ndita<\/em> (hindu versado nas leis, religi\u00e3o e filosofia da \u00cdndia), um grande e culto erudito, e abade da Universidade de <em>Nalanda<\/em>, um dos mais importantes centros de cultura budista na \u00cdndia medieval. O conhecimento de <em>Naropa,<\/em> entretanto, permanecia num n\u00edvel doutrin\u00e1rio intelectual, e n\u00e3o era um estado vivenciado de conhecimento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rios anos em <em>Nalanda,<\/em> seguindo alguns sinais e indica\u00e7\u00f5es de natureza vision\u00e1ria, ele renunciou \u00e0 sua responsabilidade como abade e partiu em busca de <em>Tilopa<\/em>, que, de acordo com suas vis\u00f5es, seria o mestre capaz de despert\u00e1-lo. Ap\u00f3s uma busca longa e exaustiva, durante a qual ele encontrou <em>Tilopa<\/em> em v\u00e1rios disfarces sem reconhec\u00ea-lo, <em>Naropa<\/em> finalmente esbarrou com um pescador que chamava a si mesmo Tilopa. Este \u00faltimo estava fritando um peixe numa panela, e com um estalar de dedos trouxe o peixe de volta \u00e0 vida e atirou-o de volta \u00e0 \u00e1gua. <em>Naropa<\/em> ficou muito perturbado por este encontro, mas teve f\u00e9 em seu mestre e seguiu-o por muitos anos, servindo-o continuamente. Durante todo este tempo ele n\u00e3o recebeu qualquer ensinamento, mas <em>Tilopa<\/em> continuamente colocou-o a prova de v\u00e1rios atos de desprendimento. Um dia, quando o mestre e o disc\u00edpulo estavam numa caverna na montanha, <em>Tilopa <\/em>pediu a <em>Naropa<\/em> para descer ao vale para buscar-lhe \u00e1gua para beber. <em>Naropa,<\/em> apesar do calor escaldante, ap\u00f3s despender uma grande quantidade de energia, escalou de volta com a \u00e1gua. Assim que o viu <em>Tilopa <\/em>tomou uma sand\u00e1lia e bateu com ela na face de <em>Naropa<\/em>. <em>Naropa <\/em>caiu atordoado. Quando ele recuperou seus sentidos ele havia mudado completamente; o conhecimento despertou nele. Mas este n\u00e3o foi um milagre de <em>Tilopa<\/em>. Por anos <em>Naropa<\/em> fez um cont\u00ednuo auto-sacrif\u00edcio, preparando-se para receber a transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O valor da transmiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas introduzir ao estado de conhecimento, mas repousa tamb\u00e9m na sua fun\u00e7\u00e3o de trazer o amadurecimento da transmiss\u00e3o, at\u00e9 o ponto que o indiv\u00edduo atinja a realiza\u00e7\u00e3o. Por esta raz\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o que liga mestre e disc\u00edpulo \u00e9 muito \u00edntima. O mestre, no Dzogchen, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 como um amigo que ajuda e colabora com o disc\u00edpulo; mas o pr\u00f3prio mestre \u00e9 o caminho. Isto \u00e9 porque a pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o se desenvolve atrav\u00e9s da unifica\u00e7\u00e3o do estado do disc\u00edpulo com o do mestre. O mestre \u00e9 extremamente importante, tamb\u00e9m, nos n\u00edveis de ensinamento do <em>Sutra <\/em>e do <em>Tantra,<\/em> no primeiro porque ele det\u00e9m os ensinamentos de Buda, e no \u00faltimo porque ele \u00e9 a fonte de todas as manifesta\u00e7\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ilustrar este \u00faltimo ponto, h\u00e1 uma est\u00f3ria que conta que quando <em>Padmasambhava<\/em> transmitiu a inicia\u00e7\u00e3o de <em>Vajrakilaya<\/em><sup>6<\/sup> a seus disc\u00edpulos tibetanos, ele fez um <em>mandala <\/em>daquela divindade aparecer em frente deles, pedindo-lhes para render-lhe homenagem. Os disc\u00edpulos assustaram-se e prostraram-se diante do <em>mandala,<\/em> exceto <em>Yeshe Tsogyal<\/em>.<sup>7<\/sup>\u00a0 Somente ela prestou homenagem a <em>Padmasambhava<\/em>, porque ela havia compreendido que o mestre \u00e9 a raiz fonte das manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mestre \u00e9 a entrada do port\u00e3o do conhecimento para o disc\u00edpulo, e sua transmiss\u00e3o est\u00e1 sempre presente na vida do praticante. Uma pessoa pode receber ensinamento de v\u00e1rios mestres, sem qualquer limite, mas usualmente existe um mestre em particular que causa o surgimento do conhecimento em um dado indiv\u00edduo, este mestre \u00e9 conhecido como o \u201cmestre raiz\u201d do indiv\u00edduo (<em>rtsa ba\u00b4i bla ma<\/em>). Eu mesmo, quando estava no Tibet, encontrei muitos mestres que me deram ensinamentos e inicia\u00e7\u00f5es, mas houve um mestre em particular, <em>Changchub Dorje (Byang chub rdo rje)<\/em>, que abriu a porta do conhecimento para mim.<\/p>\n<p>Dois anos antes de eu encontrar este mestre eu tive um sonho. Eu sonhei que estava num lugar que n\u00e3o conhecia com muitas casas em concreto branco, um estilo de constru\u00e7\u00e3o raramente encontrado no Tibet, onde as casas s\u00e3o usualmente constru\u00eddas de pedra e de cores diferentes do branco. As casas no meu sonho eram similares \u00e0quelas que os chineses tinham come\u00e7ado a construir uns poucos anos antes daquela \u00e9poca em algumas \u00e1reas do leste do Tibet. Eu me aproximei de uma das casas e vi que estava escrito acima de sua porta, em letras douradas sobre fundo azul escuro, o <em>mantra<\/em> de <em>Padmasambhava.<\/em> Eu entrei e vi um homem idoso, que se parecia com um homem do campo do Tibet. Enquanto eu ainda estava me perguntando se ele seria um mestre, eu ouvi-o come\u00e7ar a recitar o <em>mantra<\/em> de <em>Padmasambhava<\/em>. Ent\u00e3o ele disse para mim, \u201cDo outro lado desta montanha, dentro da face de pedra, h\u00e1 uma caverna na qual existem oito <em>mandalas<\/em> naturais; v\u00e1 e veja-as!\u201d. Aborrecido, ainda sonhando, eu comecei a escalar a montanha, com meu pai me seguindo. Quando entrei na caverna meu pai come\u00e7ou a recitar alto o <em>sutra Praj\u00f1aparamita<\/em>, e eu juntei-me a ele. N\u00f3s caminhamos pela caverna olhando suas paredes, mas eu consegui ver apenas alguns detalhes ornamentais dos oito <em>mandalas<\/em>. Neste ponto, ainda recitando o <em>sutra<\/em>, eu acordei.<\/p>\n<p>Mais tarde, em 1956, a filha de uma fam\u00edlia nobre da minha regi\u00e3o no Tibet ficou gravemente doente, e apesar das tentativas de v\u00e1rios m\u00e9dicos de cur\u00e1-la, ela n\u00e3o obteve nenhuma melhora. Seus pais, que haviam ouvido falar de um mestre que tamb\u00e9m era m\u00e9dico com uma reputa\u00e7\u00e3o de ser capaz de curar casos dif\u00edceis, decidiram enviar alguns empregados at\u00e9 o m\u00e9dico para buscar um rem\u00e9dio para a doen\u00e7a de sua filha. Ap\u00f3s dois dias de viagem a cavalo, os empregados alcan\u00e7aram o local da resid\u00eancia do mestre, onde foram saudados e convidados a descansar. Mas no dia seguinte o mestre contou-lhes que todos os rem\u00e9dios n\u00e3o seriam \u00fateis, uma vez que a mo\u00e7a enferma havia morrido tr\u00eas dias ap\u00f3s sua partida. Quando os empregados retornaram, eles relataram tudo o que havia acontecido e descobriram que de fato a mo\u00e7a havia morrido logo depois que eles haviam partido.<\/p>\n<p>Um dia, um pouco mais tarde, o pai da mo\u00e7a, que era amigo de minha fam\u00edlia, chegou para visitar meu pai, e contou-lhe tudo sobre o mestre-m\u00e9dico, descrevendo-o como um campon\u00eas idoso que vivia em uma vila com muitas casas de cimento branco. Eu estava ouvindo sua est\u00f3ria junto com meu pai, e logo lembrei do sonho. Na mesma noite eu pedi permiss\u00e3o a meu pai para ir visitar o mestre. Ap\u00f3s dois dias de prepara\u00e7\u00e3o para a viagem eu parti, junto com meu pai, e quando n\u00f3s alcan\u00e7amos a vila do mestre eu notei que o lugar era exatamente como eu havia visto em sonho. O mestre nos deu boas-vindas como se j\u00e1 nos conhecesse. Ele era uma pessoa muito simples, que vivia como m\u00e9dico da vila, cercado por uma pequena comunidade de disc\u00edpulos que trabalhavam e praticavam juntos harmoniosamente. As pessoas do vilarejo disseram que quando o mestre chegou l\u00e1 ele disse ter setenta anos, daquele momento em diante ele continuou sempre a dizer, ano ap\u00f3s ano, que tinha a mesma idade. Calculando o n\u00famero de anos que haviam passado desde que ele havia chegado \u00e0 vila, podia-se calcular que na \u00e9poca de nossa visita ele estava com 130 anos.<\/p>\n<p>Eu permaneci por v\u00e1rios meses com esse mestre. Durante meus dias l\u00e1 eu tive certa dificuldade de ajustar-me \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, porque eu estava acostumado a mestres importantes que davam ensinamentos e inicia\u00e7\u00f5es no estilo formal, tradicional. <em>Changchub Dorje<\/em>, por outro lado, n\u00e3o parecia estar me dando quaisquer ensinamentos, enquanto na verdade ele estava me ensinando a libertar-me da gaiola que eu havia constru\u00eddo para mim mesmo. Eu tornei-me consciente de que, mesmo ap\u00f3s tantos anos de estudo, eu ainda n\u00e3o havia compreendido o verdadeiro significado dos ensinamentos. Contudo eu n\u00e3o me sentia satisfeito, porque este mestre n\u00e3o me dava nenhuma inicia\u00e7\u00e3o. Entretanto, quando eu lhe pedi para me dar uma inicia\u00e7\u00e3o ele replicou, \u201cVoc\u00ea n\u00e3o necessita de um ritual de inicia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 recebeu uma por\u00e7\u00e3o deles de muitos outros mestres\u201d. Mas respondi que queria receber uma dele, e finalmente, ap\u00f3s uma consider\u00e1vel insist\u00eancia de minha parte, ele concordou. Ele decidiu me dar a inicia\u00e7\u00e3o de uma centena de divindades calmas e iradas e, embora n\u00e3o fosse um entendido em fazer rituais, tinha um disc\u00edpulo que era bom nessas coisas para ajud\u00e1-lo. Aquela inicia\u00e7\u00e3o, que usualmente n\u00e3o leva muito tempo para ser dada, tomou-lhe todo um dia. <em>Changchub Dorje<\/em> n\u00e3o sabia como conduzir as v\u00e1rias fases do ritual, e de fato n\u00e3o podia sequer ler fluentemente. H\u00e1 uma parte em tais rituais onde, para transmitir a habilita\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de <em>mantras,<\/em> a pessoa que d\u00e1 a inicia\u00e7\u00e3o faz soar o sino e o <em>damaru<\/em><sup>8<\/sup> simultaneamente. Mas <em>Changchub Dorje<\/em> fez primeiro soar o sino, e depois o <em>damaru<\/em>, e ent\u00e3o recitou o <em>mantra<\/em>. Eu estava muito surpreso porque eu sabia muito bem como as v\u00e1rias fases de tais rituais de inicia\u00e7\u00e3o deveriam ser conduzidas.<\/p>\n<p>Aquela noite, ao fim da inicia\u00e7\u00e3o, <em>Changchub Dorje<\/em> falou-me e fez-me compreender o real significado da inicia\u00e7\u00e3o. Ao final de uma inicia\u00e7\u00e3o os mestres usualmente mostram ao disc\u00edpulo o texto contendo o ritual, e descrevem a linhagem de mestres que a transmitiram. Mas <em>Changchub Dorje<\/em> n\u00e3o me mostrou um livro. Mas sim, por tr\u00eas horas, sem interrup\u00e7\u00e3o, ele falou-me acerca do real significado dos ensinamentos Dzogchen. Parecia quase como se ele estivesse recitando um <em>tantra<\/em> de Dzogchen<sup>9<\/sup>, t\u00e3o perfeitas e t\u00e3o profundas eram as palavras que ele disse. Ele concluiu dizendo, \u201cEsta \u00e9 a transmiss\u00e3o completa de todas as tr\u00eas s\u00e9ries dos ensinamentos Dzogchen; das s\u00e9ries da Natureza da Mente, das s\u00e9ries do Espa\u00e7o Primordial, e das s\u00e9ries de Instru\u00e7\u00f5es Secretas\u201d. Com isto ele realmente derrubou todas as minhas id\u00e9ias, e todos os limites de meu conhecimento intelectual sofreram um colapso. <em>Changchub Dorje<\/em> tinha aberto uma porta, e me fez compreender que os ensinamentos vivem no indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o recebeu uma forma\u00e7\u00e3o erudita formal, e nunca havia estudado. Seu conhecimento era fruto do seu despertar interno que mudou sua vida. Ele era tamb\u00e9m um descobridor de <em>terma<\/em>, ou <em>\u201cterton\u201d<\/em> (<em>gter ston<\/em>), e eu pr\u00f3prio algumas vezes tomei nota de algumas de suas revela\u00e7\u00f5es. Ele usualmente passava seus dias sentado em frente a sua casa, junto a uma janela aberta, recebendo seus pacientes. Eu me sentava no interior da casa, do outro lado da janela, e, nos intervalos entre um paciente e outro, ele ditava algo para mim e eu tomava nota. Assim, quando o pr\u00f3ximo paciente chegava at\u00e9 ele, ele interrompia seu ditado. Mas quando ele recome\u00e7ava a ditar-me, ap\u00f3s o paciente ter partido, ele continuava a frase exatamente de onde ele havia interrompido, sem mesmo perguntar em que ponto ele havia parado de ditar\u00b9<sup>0<\/sup>.<\/p>\n<p>Um dos principais mestres de <em>Changchub Dorje <\/em>foi <em>Pema Dundul (Pad ma bdud \u00b4dul)<\/em>,\u00b9\u00b9 que tamb\u00e9m havia sido um mestre muito simples, e que se tornou famoso ap\u00f3s sua morte por ter se transformado em Corpo de Luz. Usualmente uma pessoa que pratica essa convers\u00e3o, quando decide morrer, pede para ser fechada dentro de um quarto ou tenda por sete dias, Ent\u00e3o no oitavo dia, apenas s\u00e3o encontrados seus cabelos e unhas, considerados como as impurezas do corpo.<\/p>\n<p>A est\u00f3ria conta que <em>Pema Dundul<\/em>, cerca de vinte dias antes de morrer, reuniu todos os seus principais disc\u00edpulos e deu-lhes todos os ensinamentos e transmiss\u00f5es que ele n\u00e3o havia dado antes. Meu mestre, <em>Changchub Dorje<\/em>, era um de seus disc\u00edpulos, e estava l\u00e1. Ent\u00e3o eles praticaram juntos o <em>ganapuja<\/em><sup>12 <\/sup>por muitos dias at\u00e9 que, no d\u00e9cimo primeiro dia do calend\u00e1rio lunar, um dia considerado especialmente ligado \u00e0 <em>Padmasambhava, Pema Dundul<\/em> pediu-lhes para acompanh\u00e1-lo na escalada da montanha ao lugar que ele havia escolhido para morrer. Quando eles chegaram l\u00e1 a pequena tenda dele estava armada, o mestre pediu-lhes que a selassem, durante aqueles sete dias, choveu forte e muitos arco-\u00edris apareceram. No oitavo dia, quando seus disc\u00edpulos reabriram a tenda, encontraram apenas suas roupas, ainda na mesma posi\u00e7\u00e3o em que o mestre havia sentado quando eles entraram na tenda. Seu cinto de tecido, que segurava suas roupas tibetanas tradicionais na cintura, permanecia ainda amarrado em volta das roupas como se ainda existisse uma pessoa dentro delas. <em>Pema Dundul<\/em> foi um praticante muito simples que n\u00e3o havia se fixado em abadia, mas que havia vagado toda a sua vida, praticando o <em>Ch\u00f6d <\/em>(<em>gcod<\/em>)<sup> 13<\/sup>. Ele foi o mestre de <em>Ayu Khandro (A yumkha\u00b4gro)<\/em><sup>14<\/sup>, um de meus mestres, que passou mais de cinq\u00fcenta anos de sua vida em retiro no escuro.<\/p>\n<p>Em 1949 houve outro exemplo de uma pessoa que transformou-se em Corpo de Luz. Um monge do monast\u00e9rio <em>Sakyapa,<\/em> no qual as regras eram r\u00edgidas, envolveu-se num relacionamento com uma jovem. Quando foi descoberto, as pessoas percorrendo o monast\u00e9rio bateram nele e o expulsaram. Triste e sem lar, este monge foi para o nordeste do Tibet onde ele teve a boa sorte de encontrar <em>Tsangpa Drubchen (gTsang pa grub chen<\/em><sup>15<\/sup><em>)<\/em>, um mestre Dzogchen que tinha doze crian\u00e7as, todas praticantes. Eles viviam como n\u00f4mades, criando gado. O monge permaneceu com eles por quase dois anos, trabalhando e recebendo muitos ensinamentos. Ent\u00e3o decidiu retornar \u00e0 sua pr\u00f3pria regi\u00e3o, mas ele n\u00e3o obteve permiss\u00e3o para viver em sua antiga casa, que era dentro do monast\u00e9rio. Ent\u00e3o construiu um pequeno retiro para ele mesmo em um lugar que lhe permitisse pelo menos ver o monast\u00e9rio. A mulher com quem havia tido o relacionamento foi viver com ele, atuando como sua assistente para seu retiro e tomar conta do seu gado. Assim viveram juntos por v\u00e1rios anos, at\u00e9 que um dia o ex-monge anunciou que iria morrer em sete dias. Foi aos respons\u00e1veis pelo monast\u00e9rio e combinou com eles que pelo menos metade de seus pertences deveriam ser dados \u00e0 sua companheira ap\u00f3s sua morte. No Tibet quando um monge morre todos os seus bens geralmente v\u00e3o para o mosteiro. Assim, ap\u00f3s ter ficado satisfeito de resolver esta quest\u00e3o, pediu ent\u00e3o que o deixassem s\u00f3 em seu quarto por uma semana. Ao amanhecer do oitavo dia, muitos monges e dirigentes do monast\u00e9rio vieram para tomar parte no evento, embora eles tivessem sempre criticado e menosprezado este homem durante sua vida. Quando abriram o quarto, apenas suas unhas e cabelo haviam permanecido. Uma tumba dourada foi constru\u00edda no monast\u00e9rio para abrigar estes restos.<\/p>\n<p>Ainda mais recentemente, em 1952, meu tio<sup>16<\/sup> testemunhou um outro evento como esse. Perto de onde eu vivi no Tibet, vivia um homem idoso que ganhava sua vida esculpindo <em>mantras<\/em> em rochas. Quando ele era jovem ele primeiramente foi alfaiate, a seguir tratador de cavalos de um mestre chamado <em>Dodrub Chen (rDo grub chen),<\/em><sup>17<\/sup> de quem provavelmente recebeu alguns ensinamentos. Antes dele morrer deixou todos os seus bens para o monast\u00e9rio no qual seu filho era monge, e anunciou que dentro de uma semana estaria morto. Todos estavam estupefatos, porque ningu\u00e9m o considerava como um praticante. Mas quando deu suas instru\u00e7\u00f5es para que o fechassem em uma tenda por sete dias, eles compreenderam que ele atingiria a convers\u00e3o em Corpo de Luz. No oitavo dia muitas pessoas se apressaram para tomar parte nos acontecimentos, inclusive alguns funcion\u00e1rios chineses que estavam convencidos que seriam capazes de mostrar definitivamente e para todos, como o povo tibetano era absurdamente supersticioso. Mas nesse caso, tamb\u00e9m, quando a tenda foi aberta tudo o que foi encontrado dentro foram as unhas e o cabelo do praticante.<\/p>\n<p>Eu me lembro como meu tio, que estava presente \u00e0 abertura da tenda, retornou em l\u00e1grimas dizendo, \u201cEu o conheci por anos e anos sem perceber que ele era um praticante t\u00e3o elevado!\u201d Mas os praticantes Dzogchen s\u00e3o assim, pessoas simples, que, mesmo que n\u00e3o externem, possuem conhecimento verdadeiro. O Corpo de Luz \u00e9 a suprema realiza\u00e7\u00e3o do Dzogchen. Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente duma manifesta\u00e7\u00e3o do <em>Sambhogakaya<\/em>, porque um ser num Corpo de Luz pode se comunicar e ativamente ajudar outros seres. \u00c9 como se o corpo f\u00edsico, sua subst\u00e2ncia material fosse absorvida em sua ess\u00eancia luminosa, continuasse a viver como um agregado dos elementos em seu aspecto sutil. Manifesta\u00e7\u00f5es do <em>Sambhogakaya,<\/em> por outro lado, s\u00e3o passivas, porque elas dependem dos seres que t\u00eam essa vis\u00e3o.<\/p>\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que se possa construir, e n\u00e3o depende das a\u00e7\u00f5es ou do esfor\u00e7o da pessoa. Tornar-se realizado significa que indiv\u00edduo ultrapassou seus obst\u00e1culos tempor\u00e1rios, para este fim a transmiss\u00e3o de um mestre \u00e9 de grande ajuda. No Dzogchen, o caminho para ultrapassar obst\u00e1culos pode ser muito r\u00e1pido porque, atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o, o indiv\u00edduo pode facilmente desenvolver o estado de contempla\u00e7\u00e3o. Do nosso ponto de vista limitado, podemos nos desencorajar ao pensar que para purificar o <em>karma<\/em> seriam necess\u00e1rias muitas vidas. Se pud\u00e9ssemos realmente ver materialmente nosso <em>karma<\/em> acumulado, o bom <em>karma <\/em>poderia parecer uma pequena rocha, comparado a uma gigantesca montanha de <em>karma<\/em> negativo. Quanto tempo levaria para purificar tudo aquilo? Pareceria talvez que mesmo centenas de pr\u00e1ticas de purifica\u00e7\u00e3o iriam somente diminuir a montanha de <em>karma<\/em> negativo apenas o correspondente \u00e0 extens\u00e3o de um dedo.<\/p>\n<p>Mas o <em>karma<\/em> n\u00e3o \u00e9, de fato, uma acumula\u00e7\u00e3o material, e n\u00e3o depende do que \u00e9 exterior; ao contr\u00e1rio seu poder de nos condicionar depende dos obst\u00e1culos que impedem nosso conhecimento. Se compararmos nosso <em>karma <\/em>e a ignor\u00e2ncia que o cria a um quarto escuro, o conhecimento do estado primordial seria como uma l\u00e2mpada, que, quando acesa no quarto, de uma s\u00f3 vez faz a escurid\u00e3o desaparecer, iluminando tudo. Do mesmo modo se um indiv\u00edduo tem a presen\u00e7a do estado primordial, ele pode ultrapassar todos os obst\u00e1culos num instante.<\/p>\n<p>Um praticante que apenas come\u00e7ou a tentar encontrar o estado de presen\u00e7a entre a confus\u00e3o de todos os seus pensamentos \u00e9 como um cego tentando enfiar uma linha atrav\u00e9s do buraco de uma agulha. O mestre \u00e9 como algu\u00e9m que enxerga e ajuda aquela pessoa a colocar suas m\u00e3os mais pr\u00f3ximas de onde elas deveriam estar. Quando o cego consegue enfiar a agulha, \u00e9 como se sua vis\u00e3o voltasse. Isto \u00e9 como o momento em que a pessoa reconhece e entra no estado primordial atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O exemplo do c\u00e9u, do sol, e das nuvens, \u00e9 dado para explicar a condi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. O c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o defin\u00edvel, ele n\u00e3o tem forma ou cor, e ningu\u00e9m pode dizer onde come\u00e7a ou termina. \u00c9 algo universal, tal como o estado primordial do indiv\u00edduo, o vazio. A <em>Base<\/em>, no n\u00edvel do indiv\u00edduo, \u00e9 como o espa\u00e7o dentro de um vaso de barro, o qual, embora esteja temporariamente limitado pela forma do vaso, n\u00e3o \u00e9 diferente do espa\u00e7o do lado de fora, envolvendo o vaso. Esta condi\u00e7\u00e3o do vazio que \u00e9 semelhante a um espa\u00e7o sem nada \u00e9 chamada <em>ess\u00eancia<\/em>, e est\u00e1 al\u00e9m de todos os conceitos. Mas nele existe uma cont\u00ednua <em>claridade<\/em> que se manifesta nos pensamentos do indiv\u00edduo e nos v\u00e1rios aspectos da <em>energia<\/em>; esta claridade \u00e9 o estado de presen\u00e7a, que \u00e9 como um sol nascendo no c\u00e9u.<\/p>\n<p>A luz do sol \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da claridade do c\u00e9u; e o c\u00e9u \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica necess\u00e1ria para a manifesta\u00e7\u00e3o da luz do sol. Assim, tamb\u00e9m, no c\u00e9u podem surgir dois, tr\u00eas, quatro, ou qualquer n\u00famero de s\u00f3is; mas o c\u00e9u permanece um c\u00e9u indivis\u00edvel. Similarmente, todo estado de presen\u00e7a do indiv\u00edduo \u00e9 \u00fanico e distinto, mas a natureza do vazio do indiv\u00edduo \u00e9 universal, e comum a todos os seres.<\/p>\n<p>Por fim, temos o exemplo das nuvens, que representam os obst\u00e1culos tempor\u00e1rios que impedem a manifesta\u00e7\u00e3o de nosso estado primordial. Quando as nuvens se tornam densas, \u00e9 como se o sol n\u00e3o existisse, mas a verdade \u00e9 que o sol n\u00e3o mudou em nada sua posi\u00e7\u00e3o. Tanto de dia como \u00e0 noite o sol est\u00e1 sempre l\u00e1, mas nem sempre seus raios iluminam a terra. Da mesma forma, o estado primordial de conhecimento est\u00e1 sempre l\u00e1 no indiv\u00edduo desde o in\u00edcio, se o indiv\u00edduo transmigra ou se ilumina, mas se ele n\u00e3o se manifesta, \u00e9 por causa de nossa ignor\u00e2ncia. Ilumina\u00e7\u00e3o, ou nirvana, n\u00e3o \u00e9 nada mais do que o estado al\u00e9m dos obst\u00e1culos, da mesma forma que sempre se v\u00ea o sol de um pico de uma montanha muito alta. Nirvana n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso ou algum lugar especial de felicidade, mas \u00e9 na verdade a condi\u00e7\u00e3o al\u00e9m de todos os conceitos dualistas, inclusive aqueles de felicidade e sofrimento.<\/p>\n<p>Quando todos os nossos obst\u00e1culos foram ultrapassados, e nos encontramos num estado de presen\u00e7a total, o poder de ilumina\u00e7\u00e3o se manifesta espontaneamente sem limites, tal como os raios infinitos do sol. As nuvens se dissolveram, e o sol finalmente est\u00e1 livre para brilhar mais uma vez.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><em>Tapihritsa<\/em><em> \u00e9 um dos mestres mais importantes da linhagem da tradi\u00e7\u00e3o oral do dzogchen do Shang-shung (rdzogs-pa chenpo zhang-zhung snyan brgyud), que cont\u00e9m de fato os ensinamentos B\u00f6n mais antigos, embora n\u00e3o tenham sido redigidos antes do s\u00e9c. VII AD.<\/em><\/li>\n<li><em>Os m\u00e9todos da pr\u00e1tica que conduzem \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do corpo de luz s\u00e3o principalmente, Thod rgal e Yang tig, que figuram na s\u00e9rie das instru\u00e7\u00f5es secretas. O estado de contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 a base dessas pr\u00e1ticas.<\/em><\/li>\n<li><em>Vajrasattva<\/em><em>, descrito como sorrindo, de cor branca, com os ornamentos de seda, um vajra e um sino em suas m\u00e3os, representa o Sambhogakaya. A pr\u00e1tica de Vajrasattva \u00e9 particularmente eficaz para a purifica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/li>\n<li><em>Para os exemplos de par\u00e1bolas e enigmas nos antigos escritos dzogchen ver N. Norbu Rinpoche, Emaho, A Study of the Drun, de\u2019u, B\u00f6n, cap\u00edtulos 1 e 2, Library of Tibetan Works and Archives, 1988.<\/em><\/li>\n<li><em>Tilopa (988-1069) e Naropa (1016-1100) s\u00e3o os dois primeiros mestres de uma linhagem que comporta em seguida Marpa e Milarepa, e a partir da qual a tradi\u00e7\u00e3o Kagiupa se desenvolveu.<\/em><\/li>\n<li><em>Vajra Kilaya<\/em><em> \u00e9 um dos oito ciclos de divindades t\u00e2ntricas introduzidas no Tibet por Padmasambhava.<\/em><\/li>\n<li><em>Yeshe Tsogyal (Ye-shes mtsho-rgyal) era a companheira, e disc\u00edpula principal de Padmasambhava. Sua biografia foi traduzida por Keith Dowman em Skydancer, Routledge e Kegan Paul, London 1984. Existe igualmente uma tradu\u00e7\u00e3o integral de sua biografia: Mother of Knowledge, Tartang Tulku, Dharma Publishing.<\/em><\/li>\n<li><em>Um damaru \u00e9 um pequeno tambor de dupla face utilizado nos rituais t\u00e2ntricos.<\/em><\/li>\n<li><em>Os textos dzogchen s\u00e3o chamados \u201cTantras\u201d ainda que eles n\u00e3o contenham ensinamentos da via da transforma\u00e7\u00e3o, porque explicam a Natureza do estado Primordial do indiv\u00edduo, que \u00e9 um \u201ccontinuum\u201d (Tantra) da manifesta\u00e7\u00e3o da energia. <\/em><\/li>\n<li><em>O que ele se refere aqui s\u00e3o os textos revelados como \u201cTesouros do Estado de Conhecimento\u201d.<\/em><\/li>\n<li><em>Nyag-bla Pad-ma bdud-\u2018dul<\/em><em> (1816-1872)<\/em><\/li>\n<li><em>Um Ganapuja \u00e9 um ritual t\u00e2ntrico, composto de diversas fases, cujo objetivo \u00e9 confirmar novamente a \u201cpromessa\u201d ou votos (samaya) entre o disc\u00edpulo e o mestre, e tamb\u00e9m entre disc\u00edpulo e disc\u00edpulo. E ainda mais, pelo fato de consumir alimento e bebida no Ganapuja, os praticantes desenvolvem a capacidade de integrar a contempla\u00e7\u00e3o aos prazeres dos sentidos, assim como entrar no estado al\u00e9m do dualismo, que \u00e9 o significado interior do samaya.<\/em><\/li>\n<li><em>O Ch\u00f6d (gcod) \u00e9 uma pr\u00e1tica fundada sobre o oferecimento do pr\u00f3prio corpo, sob uma forma visualizada, \u00e0s entidades e outros seres que causam perturba\u00e7\u00f5es e bloqueios, a fim de pacific\u00e1-los e pagar as d\u00edvidas c\u00e1rmicas que possamos ter adquirido para com eles. O ch\u00f6d \u00e9 cantado acompanhado de um damaru e de um sino. Fundamentado sobre o principio do \u201cvazio\u201d ensinado no Prajnaparamita, esta pr\u00e1tica foi desenvolvida e realizada pela grande mestra Ma-gcig lab-sgron (1055-1149).<\/em><\/li>\n<li><em>Para a biografia desta praticante extraordin\u00e1ria, que foi considerada uma Dakini viva, ver T. Allione, Women of Wisdom, Routledge e Kegan Paul, London 1984.<\/em><\/li>\n<li><em>rTang-pa grub-chen<\/em><em> foi um dos mestres principais do tio de N. Norbu Rinpoche, mKyen-brtse Chos-kyi dbang-phyug (1910-1973)<\/em><\/li>\n<li><em>Esse tio chamava-se rTogs-ldan O-rgyan bstan-\u2018dzin. Segundo testemunhas recentes do Tibet, ele tamb\u00e9m realizou o Corpo de Luz.<\/em><\/li>\n<li><em>rDo-grub-chen, \u201cJigs-med bstan-pa\u2019i nyi-ma<\/em><em> (1865-1926), terceira reencarna\u00e7\u00e3o de rDo-grub-chen \u201cJigs-med phrin-las odzer\u201d (1745-1821), disc\u00edpulo direto do grande mestre \u201cJigs-med gling-pa\u201d.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0<\/em><strong><em>SEGUNDA PARTE<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><strong>\u201cO CUCO DO ESTADO DE PRESEN\u00c7A\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0O \u201cCuco do Estado de Presen\u00e7a\u201d (<em>rig pa\u00b4i khu byug<\/em>) \u00e9 um dos textos Dzogchen trazido para o Tibet em tempos antigos por Vairochana. O t\u00edtulo do texto foi inventado por Vairochana como um ep\u00edteto para os <strong><em>Seis Versos Vajra<\/em><\/strong>, que pertencem \u00e0 categoria dos escritos Dzogchen conhecidos como <em>\u201clung\u201d<\/em> (<em>lung<\/em>). <em>Lung,<\/em> \u00e9 parte dos ensinamentos originalmente transmitidos por Garab Dorje, cont\u00eam os pontos essenciais de um ou mais <em>tantras<\/em>\u00b9. Os <em>Seis Versos Vajra<\/em>, assim chamados porque eles explicam a condi\u00e7\u00e3o primordial do indiv\u00edduo, resumem a <em>ess\u00eancia<\/em> da <em>Base<\/em>,<em> caminho<\/em>, e <em>fruto<\/em> do Dzogchen.<\/p>\n<p>A est\u00f3ria conta que <em>Vairochana,<\/em> que era tamb\u00e9m um grande tradutor, foi enviado a <em>Oddiyana<\/em> pelo rei <em>Trisong Detsen<\/em> para receber ensinamentos Dzogchen, que at\u00e9 aquele momento n\u00e3o tinham sido introduzidos no Tibet. <em>Padmasambhava<\/em> j\u00e1 havia transmitido ensinamentos Dzogchen aos seus disc\u00edpulos tibetanos, mas o que ele havia transmitido eram em sua maioria preceitos vinculados a m\u00e9todos de transforma\u00e7\u00e3o do <em>Anuyoga<\/em>.\u00b2<\/p>\n<p>Em <em>Oddiyana Vairochana<\/em> encontrou o mestre <em>Shri Singha,<\/em> que lhe ensinou tanto os <em>sutras<\/em> e os ensinamentos esot\u00e9ricos durante o dia, como Dzogchen durante a noite, por causa da proibi\u00e7\u00e3o sobre os ensinamentos Dzogchen imposta pelo rei de <em>Oddiyana. Vairochana<\/em> tamb\u00e9m traduziu uma s\u00e9rie de textos com a colabora\u00e7\u00e3o de <em>Shri Singa<\/em>, e diz-se que os escreveu com leite de cabra sobre algod\u00e3o a fim de mant\u00ea-los secretos. Quando retornou ao seu pa\u00eds come\u00e7ou a transmitir os ensinamentos Dzogchen ao rei e a uns poucos escolhidos. O texto dos <em>Seis Versos Vajra<\/em> foi na verdade o primeiro texto que ele introduziu no Tibet, e assim deu o t\u00edtulo, <em>O Cuco do Estado de Presen\u00e7a, um Sinal de Boa sorte e Gl\u00f3ria <\/em>(<em>bKra shis pa\u00b4i dpal rig pa\u00b4i khu byug<\/em>).\u00b3<\/p>\n<p>No Tibet o cuco \u00e9 considerado como um sinal de boa sorte e prosperidade porque anuncia a chegada da primavera. Quando o povo tibetano ouve o canto do cuco sabe que o longo inverno frio est\u00e1 acabando, e a natureza est\u00e1 despertando novamente. Assim, o canto do cuco \u00e9 comparado por <em>Vairochana<\/em> ao despertar da presen\u00e7a do estado primordial (<em>rig pa<\/em>) que se tornou poss\u00edvel com a introdu\u00e7\u00e3o dos ensinamentos Dzogchen no Tibet.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos os ensinamentos Dzogchen foram alvo algumas vezes de cr\u00edtica e difama\u00e7\u00e3o por parte de alguns eruditos tibetanos. Uma das maneiras pelas quais algumas pessoas tentaram provar que os textos Dzogchen n\u00e3o eram aut\u00eanticos foi sugerido que existiam erros de gram\u00e1tica s\u00e2nscrita nos textos de muitos <em>tantras<\/em> Dzogchen. O que de fato isto mostra \u00e9 que aqueles que denegriam os ensinamentos Dzogchen n\u00e3o conheciam a exist\u00eancia da l\u00edngua de <em>Oddiyana<\/em>, da qual os <em>tantras<\/em> foram traduzidos para o tibetano por <em>Vairochana<\/em> e outros mestres. Mas os praticantes de Dzogchen nunca tiveram nenhum interesse em formar uma seita, ou em defender a si mesmos ou entrar em argumenta\u00e7\u00e3o, porque o principal no Dzogchen \u00e9 o estado de conhecimento, que n\u00e3o tem a ver com o que \u00e9 exterior. Hoje, entretanto, a autenticidade hist\u00f3rica dos textos Dzogchen pode ser provada, gra\u00e7as a certos textos redescobertos entre os manuscritos de <em>Tun Huang<\/em> que s\u00e3o considerados originais e aut\u00eanticos por todos os eruditos<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>Um destes manuscritos redescobertos cont\u00e9m de fato <em>O Cuco do Estado de Presen\u00e7a<\/em>, que foi encontrado junto com um coment\u00e1rio sobre ele que foi provavelmente trabalho do pr\u00f3prio <em>Vairochana<\/em>. Estes textos nos trazem alguns dos mais antigos ensinamentos Dzogchen, que refletem o esp\u00edrito original da tradi\u00e7\u00e3o oral, em particular da S\u00e9rie da Natureza da Mente.<\/p>\n<p><strong>Os <em>Seis Versos Vajra<\/em><\/strong> n\u00e3o s\u00e3o palavras vazias. Atrav\u00e9s do entendimento de sua mensagem, uma linha ininterrupta de mestres, do tempo de Garab Dorje em diante, tem manifestado o conhecimento do estado primordial. Nas tr\u00eas partes de duas linhas cada, que faz um total de seis linhas, podem ser encontrados os princ\u00edpios da <em>Base<\/em>, do <em>Caminho<\/em> e do <em>Fruto<\/em>, ao lado de uma explica\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da <em>maneira de ver, <\/em>da <em>maneira de praticar<\/em>, e da <em>maneira de agir<\/em> de acordo com os ensinamentos Dzogchen. A <em>Base<\/em> n\u00e3o \u00e9 algo abstrato. \u00c9 a nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o quando reconhecemos nosso estado. Isto tamb\u00e9m \u00e9 verdade quanto \u00e0 maneira de ver de um praticante Dzogchen, que \u00e9 um ponto de vista insepar\u00e1vel do verdadeiro conhecimento em si mesmo.\u00a0 O <em>Caminho<\/em> \u00e9 o meio para desenvolver este conhecimento atrav\u00e9s de v\u00e1rios m\u00e9todos de pr\u00e1tica. E o <em>Fruto<\/em> \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de unir o modo de agir de uma pessoa com o estado de presen\u00e7a de modo que a contempla\u00e7\u00e3o e as atividades di\u00e1rias da pessoa fiquem totalmente integradas. Atrav\u00e9s do entendimento dos <em>Seis Versos Vajra<\/em> podemos ter acesso direto \u00e0 ess\u00eancia do Dzogchen.<\/p>\n<p>FIGURA (no livro) \u2013 <em>Kuntuzangpo e Kuntuzangmo, Samantabhadra e Samantrabhadri, representando o estado n\u00e3o\u2013dual.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0Notas:<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><em>A subdivis\u00e3o dos escritos dzogchen em tantras (rgyud), lung (lung), ou literalmente \u201ccita\u00e7\u00f5es\u201d, e instru\u00e7\u00f5es secretas (man-ngag) \u00e9 aqui evocada. Ent\u00e3o as duas primeiras dessas tr\u00eas categorias cont\u00e9m ensinamentos originalmente transmitidos por Garab Dorje, a terceira cont\u00e9m instru\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es que decorrem das experi\u00eancias de diversos mestres.<\/em><\/li>\n<li><em>A tradi\u00e7\u00e3o conta que foi o pr\u00f3prio Padmasambhava que sugeriu ai rei Trisong Detsen de enviar Vairocana \u00e0 Oddiyana.<\/em><\/li>\n<li><em>Existe um tantra do \u201cCuco\u201d levando esse t\u00edtulo no rNying-ma\u2019i rgyud-\u2018bum, o c\u00e2non das escritura Nyingmapa.<\/em><\/li>\n<li><em>Os documentos encontrados em Tun Huang, que situa-se no Turquest\u00e3o Chin\u00eas, foram descobertos no in\u00edcio desse s\u00e9culo por A. Stein e P. Pelliot. Gra\u00e7as \u00e0 natureza arenosa do terreno de\u00a0 Tun Huang, que era ent\u00e3o um posto avan\u00e7ado do Imp\u00e9rio tibetano, os manuscritos de imenso valor para o estudo da historia e da cultura tibetana foram preservados para a posteridade.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Cap\u00edtulo Cinco<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>\u00a0<\/strong><strong>OS SEIS VERSOS VAJRA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sna tshogs rang bzhin mi gnyis kyang<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Cha\u00a0 shas nyid du spros dang bral<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Ji bzhin ba zhes mi rtogs kyang<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Rnam par snang mdzad kun tu bzang<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Zin p\u00e1s rtsol ba\u2019i nad spangs te<\/em><\/strong><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><strong><em>Lhun gyis gnas pas bzhag pa yin<\/em><\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A natureza dos fen\u00f4menos \u00e9 n\u00e3o-dual,<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Mas cada um, em seu pr\u00f3prio estado est\u00e1 al\u00e9m dos limites da mente.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>N\u00e3o h\u00e1 conceito que possa definir a condi\u00e7\u00e3o \u201cdo que \u00e9\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Mas a vis\u00e3o, contudo se manifesta: tudo \u00e9 bom.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Tudo j\u00e1 foi realizado, e assim, tendo ultrapassado a doen\u00e7a do esfor\u00e7o,<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>O indiv\u00edduo encontra-se a si mesmo no estado de <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>auto-perfei\u00e7\u00e3o: isto \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Outra vers\u00e3o;<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A variedade dos fen\u00f4menos \u00e9 n\u00e3o-dual.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>E na pr\u00f3pria multiplicidade os fen\u00f4menos individuais s\u00e3o despidos de elabora\u00e7\u00f5es conceituais.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>N\u00e3o vamos, portanto pensar \u00e9 \u201cisto ou aquilo\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>As apar\u00eancias em sua totalidade, s\u00e3o todas boas de um modo \u00faltimo.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Abandonem a atitude doentia que se esfor\u00e7a por agarrar.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>E permane\u00e7am na espontaneidade deixando todas as coisas em seu estado natural.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em><sup>Extrato do livro: A Liberdade Natural da Mente<\/sup><\/em><\/p>\n<p><em><sup>Tradu\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio C. Cardoso<\/sup><\/em><\/p>\n<p><em><sup>\u00a0<\/sup><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong>Cap\u00edtulo Seis<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00a0A BASE E A MANEIRA DE VER<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong><em>A natureza dos fen\u00f4menos \u00e9 n\u00e3o-dual,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em><\/strong>Os primeiros dois versos dos <em>Seis Versos Vajra<\/em> explicam a condi\u00e7\u00e3o da <em>Base <\/em>primordial, e a <em>maneira de ver<\/em> nos ensinamentos Dzogchen, assinalando que embora exista aparentemente um n\u00famero infinito de coisas e fen\u00f4menos, sua natureza verdadeira \u00e9 uma e id\u00eantica. Podemos, por exemplo, considerar que muitos tipos diferentes de pessoas existem, e muitos tipos de pa\u00edses com todos os seus tipos diferentes de montanhas, rios, e vegeta\u00e7\u00e3o. Assim novamente, al\u00e9m da nossa dimens\u00e3o humana, podemos imaginar ainda muitos tipos de seres, cujos mundos e o que eles cont\u00eam nos s\u00e3o desconhecidos.<\/p>\n<p>Todos os seres vivem dentro das v\u00e1rias vis\u00f5es <em>c\u00e1rmicas<\/em> que surgem para eles como resultados das paix\u00f5es que eles acumularam. Nos <em>Sutras<\/em>, s\u00e3o descritos 84.000 tipos de paix\u00e3o, que podem causar o surgimento de um n\u00famero igual de formas de exist\u00eancia. Se n\u00e3o permitimos nos prender a esses n\u00fameros literalmente, podemos, entretanto ver o que isto significa, assim como existe um n\u00famero infinito de paix\u00f5es, assim tamb\u00e9m pode existir um n\u00famero igual de efeitos <em>c\u00e1rmicos<\/em> resultantes dessas paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Os ensinamentos explicam que existem tr\u00eas tipos de vis\u00e3o: a vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> ou <em>impura<\/em> dos seres comuns; a vis\u00e3o das \u201cexperi\u00eancias\u201d que aparecem para os praticantes; e a vis\u00e3o <em>pura<\/em> dos seres realizados. A vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> \u00e9 a vis\u00e3o ilus\u00f3ria dos seres em transmigra\u00e7\u00e3o. \u00c9 chamada \u201cilus\u00f3ria\u201d porque, dependendo do <em>carma<\/em> da pessoa, ela surge de uma causa precisa. As seis paix\u00f5es principais s\u00e3o consideradas como as causas fundamentais das seis dimens\u00f5es da exist\u00eancia. Orgulho, inveja, apego, obscurecimento mental (ignor\u00e2ncia), cobi\u00e7a, e raiva, d\u00e3o origem, respectivamente, \u00e0s vis\u00f5es <em>c\u00e1rmicas <\/em>dos deuses, semi-deuses, seres humanos, animais, fantasmas fam\u00e9licos (<em>preta<\/em>), e seres infernais. Estas dimens\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mundos que possam ser encontrados para serem localizados em alguma parte do universo, mas s\u00e3o vis\u00f5es <em>c\u00e1rmicas<\/em>, que se manifestam de acordo com a preval\u00eancia de uma ou outra destas paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Para os seres humanos, por exemplo, os reinos dos infernos n\u00e3o existem; mas se acumularmos <em>carma<\/em> de raiva suficiente durante nossa vida podemos facilmente nascer em nossa pr\u00f3xima vida na vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> do inferno. E o mesmo \u00e9 verdade se acumularmos as paix\u00f5es que causam nascimentos como outros tipos de seres. Cada um deles tem uma vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> caracter\u00edstica, que dura at\u00e9 que o <em>carma <\/em>que a produziu tenha se extinguido. Uma est\u00f3ria usada para dar um exemplo disto conta que uma vez vieram juntos seis tipos diferentes de seres perto de um rio, cada qual viu o rio de uma maneira diferente. O deus entre os seis viu o rio como um n\u00e9ctar, o fantasma fam\u00e9lico viu-o como lava em chama, o ser humano como \u00e1gua clara, e assim por diante. Este exemplo \u00e9 usado para possibilitar que o indiv\u00edduo entenda que n\u00e3o existe uma vis\u00e3o que seja objetivamente verdadeira e concreta da mesma maneira para todos os seres. Se oferecermos um copo de \u00e1gua a um fantasma fam\u00e9lico, provavelmente ela queimar\u00e1 sua garganta.<\/p>\n<p>O que o termo \u201cvis\u00e3o da experi\u00eancia\u201d significa \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o dos resultados da pr\u00e1tica. Atrav\u00e9s da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o, por exemplo, podem surgir os sinais de relaxamento interno dos cinco elementos do indiv\u00edduo. Ou se algu\u00e9m est\u00e1 praticando os m\u00e9todos de visualiza\u00e7\u00e3o encontrados no <em>tantrismo<\/em>, ele pode ter experi\u00eancia de vis\u00f5es de coisas como <em>mandalas<\/em> ou divindades. Como o indiv\u00edduo tem um n\u00famero infinito de paix\u00f5es e fun\u00e7\u00f5es de energia, estas podem, no trajeto, dar origem a um n\u00famero infinito de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Quando, por outro lado, as causas da vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> foram totalmente purificadas, a vis\u00e3o do indiv\u00edduo n\u00e3o desaparece junto, mas se manifesta em sua forma pura, como a dimens\u00e3o dos seres realizados. No <em>tantrismo<\/em>, por exemplo, o resultado final da pr\u00e1tica \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o das cinco paix\u00f5es em cinco sabedorias. Assim as paix\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o eliminadas ou aniquiladas, mas sim transformadas de tal maneira que elas podem se manifestar em seu aspecto purificado ou essencial. Esta vis\u00e3o pura dos seres realizados n\u00e3o est\u00e1 sujeita aos limites do espa\u00e7o e do tempo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas tipos de vis\u00e3o que discutimos incluem todas as infinitas possibilidades de formas de manifesta\u00e7\u00e3o, mas sua natureza inerente \u00e9 n\u00e3o-dual. Esta natureza \u00e9 a <em>Base<\/em>, nossa condi\u00e7\u00e3o fundamental, que \u00e9 t\u00e3o clara, pura, e l\u00edmpida como a capacidade que possibilita ao espelho refletir. E tal como os reflexos diferentes aparecem num espelho de acordo como as causas secund\u00e1rias, assim tamb\u00e9m a verdadeira condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia aparece sob diferentes formas, tanto pura como impura, mas sua natureza verdadeira n\u00e3o muda. \u00c9 por isto que se diz n\u00e3o-dual.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o-dual\u201d \u00e9, de fato, um termo bastante usado no Dzogchen, em lugar do termo \u201cuni\u00e3o\u201d. Para entender porque, a pessoa necessita estar consciente de que a palavra \u201cuni\u00e3o\u201d implica que existem duas coisas diferentes inicialmente para serem unidas, enquanto \u201cn\u00e3o-dual\u201d significa que desde o in\u00edcio n\u00e3o h\u00e1 qualquer conceito de duas coisas separadas para serem reunidas. Esta \u00e9 uma maneira de explicar a <em>Base<\/em>, mas como podemos entrar no seu verdadeiro entendimento? O fato \u00e9 que a <em>Base<\/em> n\u00e3o pode ser entendida atrav\u00e9s do intelecto. Mesmo se pensarmos que compreendemos o significado da palavra \u201cn\u00e3o-dual\u201d, estamos na realidade nos iludindo, porque nossas mentes ainda est\u00e3o aprisionadas na condi\u00e7\u00e3o dualista.<\/p>\n<p>A mente \u00e9, por natureza, limitada. N\u00e3o tem a capacidade de pensar em duas coisas simultaneamente, e existe no n\u00edvel relativo. Quando pensamos em tudo como sendo n\u00e3o-dual, nossas mentes est\u00e3o de fato ocupadas naquele momento com o conceito. Mas isto n\u00e3o \u00e9 o que designamos por \u201cconhecimento do estado n\u00e3o-dual\u201d. O entendimento intelectual e o conhecimento experimental direto s\u00e3o duas coisas diferentes.<\/p>\n<p>No Dzogchen os v\u00e1rios m\u00e9todos de pr\u00e1tica servem para favorecer o desenvolvimento de experi\u00eancias, que s\u00e3o o principal meio para desenvolver o estado de conhecimento de uma pessoa, e para ultrapassar os obst\u00e1culos que o bloqueiam. O indiv\u00edduo pode ter uma infinidade de tipos de experi\u00eancias ligadas \u00e0 pr\u00e1tica, mas se eles permanecem ao n\u00edvel do julgamento mental n\u00e3o levam a pessoa ao encontro do verdadeiro conhecimento, mas se tornam obst\u00e1culos em si mesmos. Apenas quando a pessoa descobre que em todas as diferentes experi\u00eancias existe o mesmo estado de presen\u00e7a, compreender\u00e1 o que est\u00e1 al\u00e9m do dualismo.<\/p>\n<p>Quando praticamos contempla\u00e7\u00e3o, podem surgir diferentes experi\u00eancias, mas a presen\u00e7a do estado de contempla\u00e7\u00e3o nunca muda. Isto n\u00e3o significa que o indiv\u00edduo tem que tentar de alguma forma suprimir ou negar as experi\u00eancias que possam surgir, mas apenas que o indiv\u00edduo n\u00e3o deve tomar erroneamente a experi\u00eancia pelo estado de contempla\u00e7\u00e3o em si. Fala-se em tr\u00eas tipos fundamentais de experi\u00eancia: as experi\u00eancias de <em>prazer<\/em>, de <em>claridade<\/em>, e de <em>aus\u00eancia de pensamentos<\/em>,\u00b9 que correspondem aos tr\u00eas aspectos do indiv\u00edduo, <em>corpo<\/em>, <em>fala<\/em> e <em>mente<\/em>.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de <em>aus\u00eancia de pensamentos<\/em> pode implicar tanto numa verdadeira falta de pensamentos, como num estado em que pensamentos, mesmo que surjam, n\u00e3o perturbam o indiv\u00edduo. Esta experi\u00eancia, que podemos tamb\u00e9m definir como um estado de \u201cvazio\u201d da mente, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o natural de relaxamento da mente. A experi\u00eancia de <em>claridade<\/em> est\u00e1 ligada \u00e0 energia do indiv\u00edduo, ao aspecto da fala, e pode se manifestar de v\u00e1rias maneiras, atrav\u00e9s tanto de <em>sensa\u00e7\u00f5es<\/em> como de <em>vis\u00f5es<\/em>. Um exemplo seria a pura apari\u00e7\u00e3o do <em>mandala <\/em>de uma divindade. A experi\u00eancia de <em>prazer<\/em> est\u00e1 ligada ao n\u00edvel f\u00edsico do indiv\u00edduo, ao corpo. Quando uma pessoa pratica medita\u00e7\u00e3o num estado calmo por um longo tempo, por exemplo, ela pode experimentar uma sensa\u00e7\u00e3o de grande prazer tal como ao se encontrar no meio de uma nuvem no espa\u00e7o vazio.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o exemplos dos infinitos tipos de experi\u00eancia que podem manifestar-se atrav\u00e9s da pr\u00e1tica. Dizer que uma pessoa encontrar-se no estado de contempla\u00e7\u00e3o significa que ela esta completamente relaxada, por\u00e9m se a pessoa tornar-se apegada as experi\u00eancias de prazer, ou condicionada por uma vis\u00e3o ou um estado sem pensamentos, isto ter\u00e1 um efeito oposto ao desejado. A fim de relaxar, o indiv\u00edduo n\u00e3o deve estar \u201cbloqueado\u201d por uma experi\u00eancia, tomando-a erroneamente pelo estado de contempla\u00e7\u00e3o. Este pode ser um grande obst\u00e1culo \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o. Se um praticante permanecer absorvido por dias e dias num estado de prazer, ou de vacuidade, sem manter a presen\u00e7a da contempla\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 como cair adormecido em uma experi\u00eancia. Isto acontece quando as experi\u00eancias s\u00e3o erroneamente assumidas no lugar do verdadeiro objetivo da pessoa.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer e uma de vacuidade, mas a natureza inerente de ambas as experi\u00eancias \u00e9 \u00fanica e a mesma. Quando estamos em um estado de vacuidade e n\u00e3o perdemos a consci\u00eancia, h\u00e1 uma <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> que continua durante todo o tempo, uma <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> que \u00e9 a mesma numa experi\u00eancia de sensa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel. Esta <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> \u00e9 \u00fanica e al\u00e9m da mente. \u00c9 um estado n\u00e3o-dual que \u00e9 a base de todas as formas infinitas de manifesta\u00e7\u00e3o, e a fim de reconect\u00e1-la, a transmiss\u00e3o direta de um mestre \u00e9 indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>O segundo verso do <em>Seis Versos Vajra<\/em> em que se l\u00ea: <strong><em>\u201cmas cada um, em seu estado pr\u00f3prio (estado primordial, sua ess\u00eancia), est\u00e1 al\u00e9m dos limites da mente\u201d<\/em><\/strong>, significa que, mesmo se a natureza da exist\u00eancia \u00e9 n\u00e3o-dual, tudo se manifesta distintamente como a energia do estado primordial. O verdadeiro estado de cada coisa que se manifesta como um objeto est\u00e1 verdadeiramente al\u00e9m de todas as defini\u00e7\u00f5es e al\u00e9m de todos os conceitos. Comparamos, anteriormente neste livro, o aspecto <em>\u201ctsel\u201d<\/em> da manifesta\u00e7\u00e3o de nossa energia a uma bola de cristal, porque o cristal \u00e9 transparente, e sua natureza \u00e9 clara, pura, e l\u00edmpida. E j\u00e1 notamos como, quando uma causa secund\u00e1ria dos raios do sol est\u00e1 presente, infinitos raios de arco-\u00edris espalham-se a partir do cristal. Este exemplo \u00e9 dado para mostrar como tanto a <em>vis\u00e3o pura<\/em> de um ser realizado que se manifesta na forma de <em>mandala<\/em> e divindades, como a <em>vis\u00e3o impura<\/em> de indiv\u00edduos comuns que est\u00e3o limitados pelo dualismo e pelo <em>carma<\/em>, manifesta-se a partir do pr\u00f3prio estado (estado primordial, sua ess\u00eancia) do indiv\u00edduo da mesma forma que os raios se manifestam a partir de um cristal quando o sol incide nele. Assim, da mesma maneira que milhares de formas e cores se manifestam a partir do cristal, uma variedade infinita de fen\u00f4menos podem surgir em rela\u00e7\u00e3o ao nosso pr\u00f3prio estado primordial.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ditado no Dzogchen que diz, \u201cObjetos s\u00f3lidos s\u00e3o puros desde o in\u00edcio\u201d, que significa que a natureza inerente de qualquer tipo de objeto aparentemente manifesto \u00e9 vazia e fundamentalmente pura. Por exemplo, mesmo se, olhando com nossa \u201cvis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> comum\u201d, vemos uma tenda amarela, um animal ou outro tipo de ser n\u00e3o v\u00ea o mesmo objeto da mesma maneira, porque o animal n\u00e3o possui as causas da vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em> humana. Assim n\u00e3o existe uma vis\u00e3o s\u00f3lida, imut\u00e1vel, universal das coisas. Tudo o que nos parece como uma dimens\u00e3o do objeto n\u00e3o \u00e9, de fato, realmente alguma coisa totalmente concreta, mas \u00e9 um aspecto de nosso estado primordial aparecendo para n\u00f3s. Assim a natureza verdadeira dos objetos n\u00e3o pode ser definida, por isso os <em>Seis Versos Vajra<\/em> dizem que sua natureza est\u00e1 <strong><em>\u201cal\u00e9m dos limites da mente\u201d<\/em><\/strong><strong><em>.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando nos encontramos em nosso estado primordial, no centro da manifesta\u00e7\u00e3o de todo o n\u00famero infinito de fen\u00f4menos poss\u00edveis, ent\u00e3o pode ser dito que estamos verdadeiramente come\u00e7ando a relaxar. At\u00e9 que uma pessoa descubra verdadeiramente este estado, qualquer relaxamento do corpo, fala, ou mente, que a pessoa consiga, permanece apenas provisoriamente. A pessoa pode relaxar seu corpo deitando no ch\u00e3o, ou relaxar sua energia fazendo pr\u00e1ticas respirat\u00f3rias, mas estes s\u00e3o relaxamentos apenas parciais, porque para ter seus efeitos, estes exerc\u00edcios precisam ser repetidos todo dia. E ent\u00e3o novamente, algumas vezes, quando estamos muito agitados, mesmo que tentemos relaxar, n\u00e3o conseguimos, porque permanecemos completamente dependentes de todas as v\u00e1rias circunst\u00e2ncias relacionadas \u00e0 nossa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos gostariam idealmente de viver uma vida calma e relaxada. Mesmo pessoas que n\u00e3o seguem qualquer sistema religioso em particular, e que talvez dissessem que n\u00e3o cr\u00eaem absolutamente em nada, gostariam de viver uma vida calma. Assim os ensinamentos n\u00e3o s\u00e3o algo de interesse apenas para aqueles que sentem a si pr\u00f3prios como \u201cespirituais\u201d, mas s\u00e3o verdadeiramente \u00fateis a todos que gostariam de viver de um modo mais relaxado, e assim serem capazes de resolver seus problemas do dia a dia mais facilmente.<\/p>\n<p>Geralmente temos muitos tipos de problemas e conflitos, e na verdade o pr\u00f3prio Buda assinalou que a verdadeira natureza do <em>samsara<\/em> \u00e9 sofrimento. Se observarmos nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o por um dia, uma semana, ou um m\u00eas, notaremos que nunca estamos completamente livres do sofrimento. E se n\u00e3o soubermos como relaxar, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente pior, porque n\u00f3s a agravamos ainda mais com nossa agita\u00e7\u00e3o. Quando estamos agitados mesmo as coisas mais simples se tornam dif\u00edceis, assim \u00e9 muito importante aprender a relaxar. Quando encontramos um estado al\u00e9m de todas as nossas tens\u00f5es habituais, tudo se relaxa automaticamente. De fato, no verdadeiro estado de contempla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nada para relaxar, porque a natureza daquele estado \u00e9 em si mesma relaxada.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>\u00a0 O Dzogchen poderia ser definido como um caminho para relaxar completamente. Isto pode ser claramente entendido a partir dos termos usados para denotar o estado de contempla\u00e7\u00e3o, tais como, \u201cviva-o justamente como ele \u00e9\u201d (<em>cog bzhag<\/em>), \u201crelaxe a tens\u00e3o\u201d (<em>khregs chod<\/em>), \u201cal\u00e9m do esfor\u00e7o\u201d (<em>rtsol bral<\/em>), e assim por diante. Alguns eruditos classificaram o Dzogchen como um \u201ccaminho direto\u201d, comparando-o a ensinamentos como o Zen, onde esta express\u00e3o \u00e9 freq\u00fcentemente usada. Nos textos Dzogchen, entretanto, as express\u00f5es \u201ccaminho direto\u201d e \u201ccaminho n\u00e3o gradual\u201d (<em>cig car<\/em>) nunca s\u00e3o usadas, porque o conceito de \u201ccaminho direto\u201d implica necessariamente que exista, de um lado, um lugar a partir do qual o indiv\u00edduo come\u00e7a, e do outro, um lugar para o indiv\u00edduo chegar. Mas no Dzogchen existe o princ\u00edpio \u00fanico do estado de conhecimento, e se uma pessoa possui este estado, descobre que desde o in\u00edcio ela j\u00e1 est\u00e1 aonde queria chegar. Por esta raz\u00e3o o estado \u00e9 dito ser de \u201cauto-realiza\u00e7\u00e3o\u201d <em>(lhun grub)<\/em><em>.<\/em><\/p>\n<p>Nos <em>Sutras Mahayana<\/em>, s\u00e3o considerados dez <em>bhumi<\/em>, ou n\u00edveis de realiza\u00e7\u00e3o espiritual do <em>Bodhisattva<\/em>, conduzindo gradualmente \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o total. Estes graus de realiza\u00e7\u00e3o est\u00e3o baseados no n\u00edvel da purifica\u00e7\u00e3o dos obst\u00e1culos sutis ao conhecimento realizado pelo praticante. Mas na condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o-dual n\u00e3o existem n\u00edveis ou est\u00e1gios de realiza\u00e7\u00e3o (sabedoria); nesse ponto de vista h\u00e1 apenas um \u00fanico <em>bhumi<\/em>, que \u00e9 o pr\u00f3prio estado de conhecimento.<\/p>\n<p>O estado de conhecimento surge e amadurece atrav\u00e9s do relaxamento, mas \u201crelaxamento\u201d n\u00e3o significa apenas n\u00e3o fazer nada. Algumas vezes as pessoas interpretam err\u00f4neamente o princ\u00edpio de \u201cn\u00e3o-corrigir\u201d nada do Dzogchen e se deixam distrair. Mas a pr\u00e1tica Dzogchen significa que uma pessoa aprende a relaxar enquanto mant\u00e9m sua <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> todo o tempo em quaisquer circunst\u00e2ncias em que se encontre. Assim, num estado de total inteireza, a pessoa permanece relaxada e presente em rela\u00e7\u00e3o a todas as infinitas manifesta\u00e7\u00f5es de energia que possam surgir. Para praticar Dzogchen n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio estudar as id\u00e9ias de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa ou filos\u00f3fica. Dzogchen pode ser perfeitamente bem entendido sem o uso de uma quantidade de termos e express\u00f5es complicados. Por exemplo, usamos o nome \u201cDzogchen\u201d porque ele sinaliza para a total (<em>chen<\/em>) perfei\u00e7\u00e3o (<em>dzog<\/em>) do estado de um indiv\u00edduo, mas n\u00e3o haveria qualquer diferen\u00e7a se us\u00e1ssemos algum outro termo. O princ\u00edpio verdadeiro \u00e9, finalmente, a transmiss\u00e3o de um estado de conhecimento que pode abrir e despertar o indiv\u00edduo, e n\u00e3o como o indiv\u00edduo define a tradi\u00e7\u00e3o espiritual envolvida.<\/p>\n<p>Algumas pessoas pensam que n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel que tenham um mestre, e sentem que, para que sejam capazes de praticar, as instru\u00e7\u00f5es que podem encontrar em um livro sejam suficientes. Mas um livro, assim como n\u00e3o \u00e9 capaz de conter a transmiss\u00e3o viva de um ensinamento, tamb\u00e9m n\u00e3o pode conter exemplos e explica\u00e7\u00f5es adequadas a cada tipo de pessoa. Um mestre, colaborando com os disc\u00edpulos, ajuda-os a encontrar o estado de contempla\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da experi\u00eancia do corpo, fala, e mente, e ensina muitos m\u00e9todos para desenvolver o estado de conhecimento. Conhecendo a caracter\u00edstica particular de cada disc\u00edpulo, o mestre pode aconselh\u00e1-lo com m\u00e9todos mais adequados para cada um deles.<\/p>\n<p>Estes dois primeiros versos tamb\u00e9m explicam a maneira de ver no Dzogchen, porque a natureza n\u00e3o-dual de todos os fen\u00f4menos a que se referem n\u00e3o \u00e9 alguma coisa externa ao indiv\u00edduo, mas \u00e9 na realidade a verdadeira condi\u00e7\u00e3o de todos os indiv\u00edduos. Assim, se continuarmos procurando fora de n\u00f3s mesmos como seremos capazes de entender o estado primordial? Tudo o que percebemos como externo atrav\u00e9s da rede do dualismo \u00e9 de fato o resultado da separa\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto que n\u00f3s mesmos, com nossas mentes, criamos. S\u00e3o nossas mentes que d\u00e3o origem a todos os nossos julgamentos, apegos, e <em>carma<\/em>, e para entender a n\u00e3o-dualidade falada nos <em>Seis Versos Vajra<\/em> precisamos simplesmente estar conscientes do princ\u00edpio de que o que percebemos como nossa vis\u00e3o \u00e9 de fato a potencialidade manifestada de nosso estado primordial.<\/p>\n<p>Nas v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es do budismo tibetano, o que geralmente significa a \u201cmaneira de ver\u201d \u00e9 a teoria filos\u00f3fica particular na qual aquela escola em particular est\u00e1 baseada. Todas as escolas de budismo tibetano aceitam os trabalhos de <em>Nagarjuna<\/em>, o ponto culminante da filosofia budista <em>Mahayana,<\/em> como contendo o caminho supremo do ver, que \u00e9 conhecido como Caminho do Meio. De Acordo com este sistema filos\u00f3fico \u00e9 imposs\u00edvel, do ponto de vista da suprema realidade cuja natureza \u00e9 a indescrit\u00edvel vacuidade, afirmar qualquer coisa como sendo absolutamente verdadeira. Por meio deste tipo de infer\u00eancia, com l\u00f3gica cruel, <em>Nagarjuna<\/em> ultrapassou todas as vis\u00f5es extremistas de todas as outras escolas filos\u00f3ficas de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ao longo do curso dos s\u00e9culos seguintes, entretanto, surgiram entre as escolas tibetanas varia\u00e7\u00f5es na interpreta\u00e7\u00e3o da filosofia de <em>Nagarjuna<\/em> que deram origem a infind\u00e1veis controv\u00e9rsias doutrin\u00e1rias e disputas. Cada escola tentou defender e sustentar seu pr\u00f3prio caminho caracter\u00edstico de ver com base na l\u00f3gica e na especula\u00e7\u00e3o. Mas esta atitude n\u00e3o tem nada em comum com o caminho n\u00e3o-dual de ver, que est\u00e1 al\u00e9m da pondera\u00e7\u00e3o e da discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>A filosofia budista geralmente est\u00e1 baseada no conceito das <em>duas verdades<\/em>, relativa e absoluta. A \u00faltima corresponde \u00e0 condi\u00e7\u00e3o absoluta, que \u00e9 vazia e n\u00e3o-dual, enquanto a primeira corresponde a tudo que surge na condi\u00e7\u00e3o relativa da exist\u00eancia. Na pr\u00e1tica verdadeira, \u00e9 considerado que quando algu\u00e9m est\u00e1 num estado de medita\u00e7\u00e3o, sentado com as costas eretas, ent\u00e3o esse algu\u00e9m est\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o absoluta. Mas quando a sess\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo termina e recome\u00e7a suas atividades da vida di\u00e1ria, ent\u00e3o ele esta na condi\u00e7\u00e3o relativa. \u00c9 como se o indiv\u00edduo tivesse duas pernas, uma da verdade absoluta, e a outra da verdade relativa, para prosseguir ao longo do caminho para realiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 definido como a uni\u00e3o das duas verdades. Mas no Dzogchen, desde o in\u00edcio este conceito de duas verdades n\u00e3o existe, e o estado n\u00e3o-dual \u00e9 introduzido como o alicerce tanto da maneira de ver como da maneira de praticar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Dzogchen a maneira de ver de uma pessoa n\u00e3o \u00e9 a mesma de algu\u00e9m que olha atrav\u00e9s de um par de \u00f3culos. Mesmo se atrav\u00e9s de suas lentes o indiv\u00edduo possa ser capaz de ver claramente milhares de formas e cores, a dire\u00e7\u00e3o em que ele est\u00e1 olhando ainda \u00e9 equivocada. Por esta raz\u00e3o o espelho \u00e9 usado como um exemplo, porque se olharmos num espelho vemos a nossa pr\u00f3pria face, e embora n\u00e3o gostemos de como ela se apresenta, temos que aceit\u00e1-la. Este \u00e9 o \u00fanico caminho pelo qual podemos descobrir algo mais profundo, e come\u00e7ar realmente a entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A maneira de ver pode ajudar-nos bastante no desenvolvimento de um entendimento correto da Base, contudo ainda \u00e9 f\u00e1cil para nosso conhecimento permanecer meramente intelectual. Este \u00e9 um obst\u00e1culo que \u00e9 muito sutil e dif\u00edcil de remover, porque freq\u00fcentemente nem mesmo o notamos. H\u00e1, em geral, dois tipos de obst\u00e1culos que um praticante pode encontrar, obst\u00e1culos das <em>paix\u00f5es<\/em>, e obst\u00e1culos do <em>conhecimento<\/em>. Obst\u00e1culos das paix\u00f5es, de <em>carmas<\/em> negativos, e etc, s\u00e3o relativamente f\u00e1ceis de descobrir. Mas obst\u00e1culos de conhecimento s\u00e3o sutis e podem mesmo obstaculizar seriamente praticantes muito avan\u00e7ados. Mesmo se o indiv\u00edduo, por exemplo, tiver ultrapassado seus apegos e suas paix\u00f5es e tiver obtido certo n\u00edvel de estabilidade em sua medita\u00e7\u00e3o, na medida em que ele ainda pode ser apanhado em alguma id\u00e9ia ou conceito sobre o conhecimento em si, ele ainda ser\u00e1 automaticamente desviado do caminho para a realiza\u00e7\u00e3o. Assim, a maneira como se entenda a Base \u00e9 extremamente importante no Dzogchen.<\/p>\n<p>Algumas pessoas, quando seguem um mestre, acreditam cegamente em tudo o que ele diz, sem verificar atrav\u00e9s dos m\u00e9todos da pr\u00e1tica. Por\u00e9m, existem outros que pensam ent\u00e3o que \u00e9 sempre necess\u00e1rio debater e discutir tudo. Mas a verdade \u00e9 que a pessoa n\u00e3o resolve realmente nada nem pelo questionamento nem pela aceita\u00e7\u00e3o passiva de tudo o que o mestre diz, como se ele fosse um general. Tudo o que precisamos fazer \u00e9 tentar \u201csaborear\u201d o que o mestre esta comunicando, de modo que possamos verdadeiramente descobrir o estado de conhecimento em n\u00f3s mesmos. Quando o mestre explica alguma coisa, n\u00e3o esta fazendo isto s\u00f3 para exibir uma id\u00e9ia pr\u00f3pria, mas prover os disc\u00edpulos com meios para entender sua pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n<p>O mestre explica, ensina, ajuda, etc, mas n\u00e3o pode realizar o milagre de iluminar, ou transformar a condi\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. Algumas pessoas est\u00e3o convencidas de que existem mestres extraordin\u00e1rios que s\u00e3o capazes de fazer uma doa\u00e7\u00e3o de ilumina\u00e7\u00e3o para outros, mas ningu\u00e9m pode faz\u00ea-lo. O poder do mestre \u00e9 explicar e fazer alguma coisa ser entendida, transmitindo o estado de conhecimento de diferentes maneiras. Quando o estudante, aplicando as pr\u00e1ticas, entra no estado de conhecimento, ent\u00e3o pode-se dizer realmente que o mestre realizou um milagre. De fato o pr\u00f3prio Buda disse, \u201c<em>Eu posso mostrar-lhe o caminho, mas a realiza\u00e7\u00e3o depende de voc\u00ea mesmo<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>[Figura \u2013 <em>Vairochana, tradutor dos Seis Versos Vajra na l\u00edngua de Oddiyana para o tibetano.<\/em>]<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em>Algumas vezes, entretanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel transmitir os ensinamentos porque n\u00e3o h\u00e1 capacidade ou participa\u00e7\u00e3o suficiente por parte daqueles que querem receb\u00ea-los. Uns poucos anos atr\u00e1s, por exemplo, eu fui \u00e0 regi\u00e3o do Nepal onde vive o povo <em>Sherpa<\/em>. Muitos <em>Sherpas<\/em> vieram ver-me, uma vez que ouviram falar de mim como reencarna\u00e7\u00e3o de um outro mestre\u00b2. Quando chegaram \u00e0 sala onde eu estava me ofereceram arroz, dinheiro, e a tradicional <em>echarpe<\/em> branca usada para dar boas vindas \u00e0s pessoas. Depois, me pediram uma ben\u00e7\u00e3o e se foram. Eles n\u00e3o me pediram nenhum ensinamento, e isto \u00e9 t\u00edpico do que nos referimos quando dizemos que algu\u00e9m tem uma atitude passiva frente aos ensinamentos.<\/p>\n<p>O Buda disse que a realiza\u00e7\u00e3o depende de n\u00f3s mesmos. Ele estava totalmente iluminado, onisciente, e cheio de compaix\u00e3o. Ele n\u00e3o era indiferente ao sofrimento dos outros seres. Ent\u00e3o, porque ele n\u00e3o realizou o milagre da ilumina\u00e7\u00e3o de todos os seres em transmigra\u00e7\u00e3o, se tal coisa fosse poss\u00edvel? Mas o fato \u00e9 que n\u00e3o era poss\u00edvel mesmo para o Buda fazer tal coisa, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para ningu\u00e9m faz\u00ea-lo. Assim, precisamos ser ativos em rela\u00e7\u00e3o aos ensinamentos, aplicando-os verdadeiramente \u00e0s nossas vidas.<\/p>\n<p>Para entrar e permanecer est\u00e1vel no estado de contempla\u00e7\u00e3o, assim como ser capaz de integrar este estado a todas as nossas atividades di\u00e1rias, \u00e9 necess\u00e1ria muita experi\u00eancia de pr\u00e1tica, mas n\u00f3s n\u00e3o dever\u00edamos nos deixar ficar preocupados a cerca de todos os m\u00e9todos diferentes, ou deix\u00e1-los nos condicionar. Pode acontecer que, ap\u00f3s uma pessoa ter recebido uma inicia\u00e7\u00e3o, por exemplo, fa\u00e7a um voto de fazer aquela pr\u00e1tica todos os dias. Pode ser que nos primeiros dias a pessoa n\u00e3o tenha nenhuma dificuldade em cumprir sua promessa, mas logo depois os conflitos podem come\u00e7ar a surgir, porque ela ter\u00e1 se for\u00e7ado, como resultado de sua id\u00e9ia limitada, de ver-se obrigada a sentar para praticar, a fazer isto todos os dias quer as circunst\u00e2ncias sejam favor\u00e1veis ou n\u00e3o. No Dzogchen esta atitude \u00e9 considerada desfavor\u00e1vel para o progresso da pessoa na pr\u00e1tica, porque se ela torna-se exageradamente dependente dos m\u00e9todos do ensino, a pessoa n\u00e3o colhe o benef\u00edcio da ess\u00eancia do estado de relaxamento.<\/p>\n<p>Eu tenho no meu guarda-roupa, por exemplo, muitos tipos de roupa, mas isto n\u00e3o significa que eu tenha a necessidade de coloc\u00e1-las todas no mesmo dia. Por\u00e9m, a cada vez, isto \u00e9 uma quest\u00e3o de escolher a roupa mais adequada \u00e0s circunst\u00e2ncias em que me encontre. Da mesma forma, existem milhares de m\u00e9todos nos ensinamentos, mas se algu\u00e9m entende o princ\u00edpio da contempla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 importante qual desses m\u00e9todos ele use.<\/p>\n<p>Os ensinamentos Dzogchen est\u00e3o baseados em <strong><em>quatro pontos<\/em><\/strong>, o <strong><em>primeiro<\/em><\/strong> dos quais \u00e9 que, <strong><em>\u201cest\u00e1 baseado no significado real, e n\u00e3o no convencional\u201d<\/em><\/strong><strong>.<\/strong> O \u201csignificado convencional\u201d a forma como o conhecimento \u00e9 comunicado entrando na mentalidade ou nos costumes daqueles que v\u00e3o receb\u00ea-lo, foi a maneira pela qual Buda ensinou quando ele usou no\u00e7\u00f5es e conceitos pertencentes \u00e0 cultura indiana de seu tempo, embora ele estivesse perfeitamente consciente da natureza ilus\u00f3ria de todos os conceitos. Seu discurso tem como seu \u00fanico objetivo o prop\u00f3sito de transmitir o estado que est\u00e1 <em>al\u00e9m dos conceitos<\/em>, que \u00e9 o \u201cverdadeiro significado\u201d referido neste primeiro ponto. Diz-se que o Dzogchen est\u00e1 baseado no verdadeiro significado, porque desde o in\u00edcio ele ensina ao indiv\u00edduo a encontrar a si mesmo em sua condi\u00e7\u00e3o natural (primordial, sua ess\u00eancia) sem a corrigir nem alter\u00e1-la.<\/p>\n<p>O <strong><em>segundo<\/em><\/strong> ponto \u00e9 que, <strong><em>\u201cele est\u00e1 baseado no indiv\u00edduo e n\u00e3o nos ensinamentos\u201d<\/em><\/strong><strong>.<\/strong> No caminho da ren\u00fancia, a pessoa se torna subordinada ao ensinamento. N\u00e3o tendo a capacidade de assumir a responsabilidade por si mesma, toma a decis\u00e3o de observar certas regras, aceitando que n\u00e3o vai cometer aquelas a\u00e7\u00f5es que s\u00e3o proibidas pelo c\u00f3digo mon\u00e1stico. Mas o Dzogchen esta baseado no indiv\u00edduo, porque no Dzogchen a coisa fundamental \u00e9 entender a capacidade do pr\u00f3prio indiv\u00edduo e saber como usar aqueles m\u00e9todos que s\u00e3o mais adequados a ele.<\/p>\n<p>O <strong>terceiro<\/strong> ponto diz: <strong><em>\u201cele est\u00e1 baseado na sabedoria primordial e n\u00e3o na mente\u201d<\/em><\/strong><strong>.<\/strong> A mente \u00e9 a base do dualismo e de todos os nossos conflitos, enquanto a sabedoria primordial \u00e9 a natureza do estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>, o conhecimento que aparece como resultado da transmiss\u00e3o do mestre e desenvolve-se pela pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O <strong><em>\u00faltimo<\/em><\/strong> ponto \u00e9 que <strong><em>\u201cele esta baseado no significado e n\u00e3o nas palavras\u201d<\/em><\/strong><strong>,<\/strong>que significa que o indiv\u00edduo deveria tentar entender o verdadeiro sentido que o mestre comunica, e n\u00e3o permanecer aprisionado ao significado literal das palavras. Um termo tal como <em>bodhichitta<\/em>, por exemplo, tem diferentes significados dependendo se estamos no contexto dos <em>Sutras,<\/em> dos <em>Tantras<\/em>, ou Dzogchen.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da Base n\u00e3o \u00e9 peculiar aos ensinamentos Dzogchen, mas \u00e9 encontrado em todas as tradi\u00e7\u00f5es budistas. No n\u00edvel dos <em>sutras<\/em> a Base significa o conhecimento das duas verdades, <em>relativa<\/em> e <em>absoluta<\/em>, que corresponde aos conceitos de <em>\u201cmente\u201d<\/em> e <em>\u201cnatureza da mente\u201d<\/em>. O caminho nos <em>Sutras<\/em> \u00e9 o duplo ac\u00famulo, de m\u00e9rito e de sabedoria, o primeiro dos quais est\u00e1 ligado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o relativa atrav\u00e9s do trabalho com os tr\u00eas aspectos do indiv\u00edduo da seguinte forma: com o <em>corpo<\/em> o indiv\u00edduo executa a\u00e7\u00f5es virtuosas, com a <em>fala<\/em> recita <em>mantras<\/em> de purifica\u00e7\u00e3o, e com a <em>mente<\/em> cultiva pensamentos de compaix\u00e3o pelos outros. As a\u00e7\u00f5es virtuosas t\u00eam o poder de diminuir os obst\u00e1culos do indiv\u00edduo, criando as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o caminho de ac\u00famulo de sabedoria.<\/p>\n<p>O ac\u00famulo de sabedoria envolve conhecimento da condi\u00e7\u00e3o absoluta, atrav\u00e9s do conhecimento do estado de contempla\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 considerado o caminho fundamental mesmo nos <em>Sutras<\/em>, e o pr\u00f3prio Buda assinalou que <em>\u201cUma pessoa que permanece na contempla\u00e7\u00e3o pelo tempo que uma formiga leva para ir da ponta de seu nariz at\u00e9 a sua testa acumular\u00e1 muito mais sabedoria do que um outro que, mesmo a custo de grande sacrif\u00edcio, faz oferendas ao Buda e \u00e0s divindades durante todo o tempo\u201d<\/em>. Contudo, nos <em>Sutras<\/em> \u00e9 geralmente considerado que, desde que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil entender e aplicar o caminho da sabedoria diretamente, o indiv\u00edduo deveria de fato praticar a purifica\u00e7\u00e3o e o ac\u00famulo de m\u00e9rito.<\/p>\n<p>Diz-se que quando Buda tentou pela primeira vez comunicar o estado de conhecimento a seus disc\u00edpulos, uma vez que nenhum deles o entendeu, ele falou-lhes, <em>\u201cEncontrei um caminho para o estado de conhecimento que \u00e9 profundo e claro, al\u00e9m dos conceitos e al\u00e9m de todas as explica\u00e7\u00f5es. Mas quando tentei comunic\u00e1-lo, ningu\u00e9m o entendeu. Assim irei de agora em diante morar sozinho na floresta, onde meditarei em solid\u00e3o\u201d<\/em>. Isto mostra como \u00e9 dif\u00edcil comunicar o caminho da sabedoria, e um texto Dzogchen escrito em versos\u00b3 realmente diz, <em>\u201cPara explicar este estado, mesmo a l\u00edngua do Buda \u00e9 desajeitada\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>1.<em>Em tibetano: bde-ba, gsal-ba e mi-rtog-pa.<\/em><\/p>\n<p><em>2.<\/em><em>Namka\u00ef Norbu Rinpoche foi reconhecido como a reencarna\u00e7\u00e3o de Ngog-dbang rnam-rgyal (1594-1651), o fundador do estado do But\u00e3o, e de A\u2019dzom-\u2018brug-pa (1842-1924), um grande mestre dzogchen que foi, entre outros, o mestre de Changchub Dorje.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>3.O texto ao qual ele faz refer\u00eancia aqui \u00e9 a Aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 Base, \u00e0 Via e ao Fruto (gzi-lam- \u2018bras-bu\u2019il-smon-lam) contido no Klongchen snying thig, o c\u00e9lebre terma revelado por Jigs-med gling-pa (1729-98).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u00a0<\/em><strong>Cap\u00edtulo Sete<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0<strong>O CAMINHO E A MANEIRA DE PRATICAR<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<em>N\u00e3o h\u00e1 nenhum conceito que possa definir a condi\u00e7\u00e3o \u201cdo que \u00e9\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Mas a vis\u00e3o, contudo se manifesta: tudo \u00e9 bom.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em><\/strong>Diz-se que a pr\u00e1tica do Dzogchen est\u00e1 \u201cal\u00e9m do esfor\u00e7o\u201d, e realmente ningu\u00e9m precisa criar, modificar, ou mudar nada, mas apenas encontrar a si mesmo na verdadeira condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d. Mas pode acontecer que uma frase, que tem a inten\u00e7\u00e3o de indicar um estado al\u00e9m dos conceitos, se torne ela mesma um outro conceito, da mesma forma que se voc\u00ea perguntar a uma pessoa seu nome e ela responder que n\u00e3o t\u00eam nenhum nome, voc\u00ea ir\u00e1 talvez, incorretamente, cham\u00e1-la de \u201cnenhum nome\u201d.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos dois versos dos <em>Seis Versos Vajra<\/em> explicam o significado do caminho e a pr\u00e1tica do Dzogchen. A express\u00e3o \u201co que \u00e9\u201d (<em>ji bzhin h\u00e1<\/em>) \u00e9 largamente usada nos textos antigos de Dzogchen, e \u00e9 sin\u00f4nimo de \u201cn\u00e3o corrigido\u201d (<em>ma bcos pa<\/em>) e outros termos que denotam o estado verdadeiro, inalterado, n\u00e3o modificado e n\u00e3o corrigido. Corrigir, modificar, etc., s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas de nossas mentes duais, e assim quando algu\u00e9m encontra-se no estado n\u00e3o corrigido significa estar al\u00e9m da mente. No Dzogchen isto \u00e9 verdadeiro apenas no est\u00e1gio final da pr\u00e1tica, tal como em outras tradi\u00e7\u00f5es, mas por outro lado, a pessoa deve tentar entrar no estado de conhecimento de \u201co que \u00e9\u201d desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>No\u00a0<em>tantrismo,<\/em> a introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza original da mente \u00e9 o \u00faltimo est\u00e1gio da pr\u00e1tica, ap\u00f3s os est\u00e1gios de desenvolvimento e de conclus\u00e3o. Mas no Dzogchen esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 introduzida diretamente, n\u00e3o apenas no n\u00edvel da mente, mas tamb\u00e9m nos n\u00edveis de voz e corpo, porque, para ser integrado com a contempla\u00e7\u00e3o, todos os aspectos de nossa exist\u00eancia precisam estar neste estado n\u00e3o corrigido.<\/p>\n<p>No &#8220;<em>O\u00a0Grande Espa\u00e7o de Vajrasattva&#8221;\u00a0<\/em>(<em>rDorje sems dpa\u2019 nam mkha\u2019 che<\/em>)\u00b9, num dos principais textos da S\u00e9rie da Natureza da Mente, est\u00e1 escrito que, <em>\u201cCorrigir a condi\u00e7\u00e3o do corpo a fim de\u00a0 encontrar um estado de contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aplicado no Dzogchen. Controlar a posi\u00e7\u00e3o do corpo de algu\u00e9m e manter as costas eretas n\u00e3o \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o, mas podem, de fato, tornarem-se obst\u00e1culos \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>. Como resultado de tais afirma\u00e7\u00f5es algumas pessoas t\u00eam acusado o Dzogchen de negar o valor da medita\u00e7\u00e3o sentada, ou do controle da respira\u00e7\u00e3o e da postura do corpo, etc. Mas o Dzogchen n\u00e3o nega nada, e quando se fala em deixar o corpo \u201cn\u00e3o controlado\u201d, isto significa simplesmente deixar o corpo permanecer na condi\u00e7\u00e3o aut\u00eantica, n\u00e3o corrigida, na qual n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio modificar ou melhorar nada. Isto porque, desde que todas as nossas tentativas de corrigir o corpo v\u00eam da mente racional, elas s\u00e3o todas falsas e artificiais.<\/p>\n<p>Na S\u00e9rie das Instru\u00e7\u00f5es Secretas, s\u00e3o explicadas quatro maneiras de continuar em contempla\u00e7\u00e3o, conhecidas como as quatro maneiras de <em>\u201cdeixar exatamente como est\u00e1\u201d<\/em>. A primeira que se refere ao corpo, \u00e9 dita <em>\u201ccomo uma montanha\u201d<\/em>. Isto se refere a que, mesmo que uma montanha possa ser mais alta ou mais baixa, ou de diferentes formas, \u00e9 alguma coisa que, contudo permanecer\u00e1 sempre est\u00e1vel, e nunca mudar\u00e1 de posi\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, ao longo de um mesmo dia assumimos diferentes posi\u00e7\u00f5es de acordo com as circunst\u00e2ncias variadas em que nos encontramos, e todas estas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o igualmente adequadas \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, sem a necessidade de alter\u00e1-las. Se a posi\u00e7\u00e3o em que me encontro \u00e9 a deitada, no momento em que me encontro no estado de \u201co que \u00e9\u201d, ent\u00e3o esta \u00e9 a minha posi\u00e7\u00e3o natural, exatamente como a posi\u00e7\u00e3o im\u00f3vel de uma montanha. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que eu me levante imediatamente, coloque minhas costas eretas, e cruze minhas pernas. O mesmo \u00e9 verdadeiro se eu me encontro em contempla\u00e7\u00e3o no momento de beber uma x\u00edcara de caf\u00e9. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que eu corra para o meu quarto, feche a porta, e sente em medita\u00e7\u00e3o. Todos os pontos acima s\u00e3o \u00fateis no aprendizado de como integrar a contempla\u00e7\u00e3o \u00e0 vida di\u00e1ria.<\/p>\n<p>A fim de algu\u00e9m ser capaz de realmente integrar sua pr\u00e1tica \u00e0 vida di\u00e1ria, umas poucas sess\u00f5es de medita\u00e7\u00e3o sentada por dia n\u00e3o s\u00e3o suficientes, porque vivemos um dia de vinte e quatro horas e uma ou duas horas de pr\u00e1tica n\u00e3o dar\u00e1 os resultados corretos. \u201cIntegrar\u201d, por outro lado, significa entender a condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vida, sem corrigi-la, de modo que cada circunst\u00e2ncia da vida da pessoa se torna uma ocasi\u00e3o de pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Pode-se, ent\u00e3o, perguntar, <em>\u201cUma vez que no Dzogchen \u00e9 ensinado que a pessoa n\u00e3o deve corrigir nada, isto significa que \u00e9 in\u00fatil efetuar pr\u00e1ticas de respira\u00e7\u00e3o, visualiza\u00e7\u00e3o, etc, que est\u00e3o realmente baseadas em corrigir uma coisa ou outra?\u201d<\/em> Mas no Dzogchen <em>\u201cn\u00e3o corrigir\u201d<\/em> n\u00e3o significa nem negar nem combater qualquer m\u00e9todo de pr\u00e1tica. Por\u00e9m o praticante deve estar aberto e relaxado em rela\u00e7\u00e3o aos v\u00e1rios m\u00e9todos, e saber como us\u00e1-los, sem ser condicionado por eles.<\/p>\n<p>Algumas vezes pode ser que uma grande import\u00e2ncia seja dada a detalhes da posi\u00e7\u00e3o do corpo de uma pessoa, de suas m\u00e3os, etc, e \u00e0 cor e forma da divindade a ser visualizada, de tal forma que o verdadeiro significado daquilo que a pessoa esta fazendo seja esquecido. Posi\u00e7\u00e3o, respira\u00e7\u00e3o, e visualiza\u00e7\u00e3o, trabalhando com os tr\u00eas aspectos de corpo, voz e mente, s\u00e3o somente meios para nos capacitarem a entrar no estado relaxado de contempla\u00e7\u00e3o. Existem milhares de m\u00e9todos de pr\u00e1tica, muitos dos quais podem parecer muito semelhantes entre si, assim se a pessoa apenas olha para o exterior, mais do que para o significado essencial, pode ficar perturbada por d\u00favidas e contradi\u00e7\u00f5es. Mas todos esses problemas e conflitos surgem da mente, que \u00e9 semelhante a uma pessoa limitada que \u00e9 ajudada e auxiliada por cinco pessoas ainda mais limitadas; os cinco sentidos. Entretanto quando algu\u00e9m conhece verdadeiramente o estado de contempla\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do esfor\u00e7o, e al\u00e9m do julgamento, tamb\u00e9m ser\u00e1 capaz de ultrapassar estes problemas em rela\u00e7\u00e3o aos m\u00e9todos de pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nos <em>tantras<\/em>, o m\u00e9todo para chegar ao estado n\u00e3o corrigido \u00e9 o da transforma\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de visualiza\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o pura. Tomemos o exemplo de <em>Hevajra Tantra<\/em>. <em>Hevajra <\/em>\u00e9 o nome dado \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o pura de um ser realizado em particular, tal como recebida por certo mestre. Quando algu\u00e9m recebe transmiss\u00e3o de <em>Hevajra Tantra<\/em>, a pessoa aplica a vis\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o todos os dias, usando o <em>mantra <\/em>de <em>Hevajra<\/em>, para integrar a visualiza\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria energia. Ent\u00e3o, num certo momento, a vis\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o cessa de depender da visualiza\u00e7\u00e3o da pessoa e se torna uma manifesta\u00e7\u00e3o da claridade inata da pessoa. Tudo se torna reintegrado com aquela claridade, na contempla\u00e7\u00e3o do <em>Mahamudra<\/em>. Quando a pessoa alcan\u00e7a este estado a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais a coisa fundamental. A pessoa pode entender isto muito bem se ler algumas das poesias dos <em>mahasiddhas<\/em>, ou suas biografias.<\/p>\n<p>Um dos mais famosos praticantes do <em>Hevajra Tantra<\/em> foi o <em>mahasiddha Virupa<\/em>. Ele foi originalmente um grande erudito, um <em>p\u00e2ndita<\/em>, mas mais tarde se tornou um praticante do <em>tantra.<\/em> Por anos e anos ele aplicou em si mesmo o m\u00e9todo de transforma\u00e7\u00e3o <em>Hevajra,<\/em> recitando em particular o <em>mantra<\/em> de <em>Damema (bDag m\u00e9d ma),<\/em> a consorte de <em>Hevajra.<\/em> Conta-se que um dia, enquanto ele estava no estado de contempla\u00e7\u00e3o de total claridade, ele de repente se levantou e atirou seu <em>mala<\/em><sup>3<\/sup>, que usualmente mantinha em suas m\u00e3os enquanto recitava o <em>mantra,<\/em> no vaso sanit\u00e1rio. Ent\u00e3o quando ele voltou a seu quarto, ele atirou no ch\u00e3o a oferenda de <em>mandala<\/em> que ele havia preparado para a pr\u00e1tica e foi embora, nunca mais retornando. <em>Virupa<\/em> havia despertado, mas todos pensaram que ele havia enlouquecido.<\/p>\n<p>Algumas vezes seres realizados, como pessoas loucas, agem de uma forma que est\u00e1 al\u00e9m dos limites \u201cnormais\u201d de procedimento convencional; mas o fato \u00e9 que somos os loucos, \u201cenlouquecidos\u201d pelas cinco paix\u00f5es e todos os nossos apegos. N\u00e3o notando isto, podemos chamar de \u201cloucos\u201d a quem n\u00e3o age da maneira que consideramos normal. Por esta raz\u00e3o muitos mestres, tais como <em>Drukpa Kunl\u00e9 (Brug pa kun legs),<\/em> que teve um estilo de vida que foi al\u00e9m dos limites, foram chamados de \u201c<em>yogis<\/em> loucos\u201d. <em>[louca sabedoria]<\/em><\/p>\n<p>Assim vimos que no <em>tantrismo<\/em>, tamb\u00e9m, ao final da pr\u00e1tica, o indiv\u00edduo rompe a constru\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria do processo de transforma\u00e7\u00e3o, e alcan\u00e7a um estado de integra\u00e7\u00e3o com a manifesta\u00e7\u00e3o pura, al\u00e9m dos conceitos. Para alcan\u00e7ar este n\u00edvel, entretanto, s\u00e3o necess\u00e1rios muitos anos de pr\u00e1tica em retiro. Mas Dzogchen, o \u201ccaminho da auto-libera\u00e7\u00e3o\u201d, est\u00e1 baseado no princ\u00edpio do conhecimento, e n\u00e3o no sentido de fazer uma decis\u00e3o mental uma vez e para sempre de conhecer algo e ent\u00e3o nunca modific\u00e1-lo, mas no sentido de descobrir realmente e verdadeiramente a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> do estado primordial.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do Dzogchen pode come\u00e7ar pela fixa\u00e7\u00e3o em um objeto, a fim de acalmar os pensamentos da pessoa. Ent\u00e3o ela relaxa a fixa\u00e7\u00e3o, dissolvendo a depend\u00eancia do objeto, e fixa o olhar no espa\u00e7o aberto. Ent\u00e3o, quando ela consegue tornar o estado calmo est\u00e1vel, \u00e9 importante trabalhar com o movimento dos seus pensamentos e energia da pessoa, integrando este movimento com a presen\u00e7a da contempla\u00e7\u00e3o. Neste ponto a pessoa est\u00e1 pronta para aplicar a contempla\u00e7\u00e3o ao seu cotidiano. O sistema de pr\u00e1tica descrito \u00e9 caracter\u00edstico das S\u00e9ries da Natureza da Mente, mas isto n\u00e3o quer dizer que no Dzogchen o indiv\u00edduo precisa necessariamente come\u00e7ar com fixa\u00e7\u00e3o e medita\u00e7\u00e3o em um estado calmo. Nas S\u00e9ries de Espa\u00e7o Primordial, e nas S\u00e9ries de Instru\u00e7\u00f5es Secretas, por exemplo, a pessoa entra diretamente na pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o. Particularmente no primeiro, existem instru\u00e7\u00f5es muito precisas de como encontrar o estado puro de contempla\u00e7\u00e3o. No \u00faltimo, por outro lado, as explica\u00e7\u00f5es concernem principalmente a como a pessoa continua em contempla\u00e7\u00e3o em todas as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 explicada concisamente na linha em que se l\u00ea, <em>\u201cmas a vis\u00e3o, contudo se manifesta: tudo \u00e9 bom<\/em><sup>4<\/sup><em>\u201d<\/em>. Contudo, mesmo se a condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d n\u00e3o pode ser captada com firmeza pela mente, a manifesta\u00e7\u00e3o completa do estado primordial, incluindo nossa vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em>, existe. Todos os v\u00e1rios aspectos de formas, cores, etc., continuam a surgir sem interrup\u00e7\u00e3o. Quando nos encontramos em contempla\u00e7\u00e3o, isto n\u00e3o significa que nossa vis\u00e3o impura desaparece e a vis\u00e3o pura se manifesta em seu lugar. Se tivermos um corpo f\u00edsico, h\u00e1 uma causa <em>c\u00e1rmica<\/em> para isso, ent\u00e3o n\u00e3o haveria sentido tentar abandonar ou negar a situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos. Apenas precisamos estar conscientes dela. Se tivermos uma vis\u00e3o do n\u00edvel material, f\u00edsico da exist\u00eancia que \u00e9 a causa de um grande n\u00famero de problemas, precisamos entender que esta vis\u00e3o \u00e9 apenas o aspecto grosseiro das cores, que s\u00e3o a ess\u00eancia dos elementos. A \u00e1gua, por exemplo, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o material da cor branca, a ess\u00eancia do elemento \u00e1gua, que se tornou o que \u00e9 para n\u00f3s em sua forma de subst\u00e2ncia material, atrav\u00e9s de nosso <em>carma<\/em> ou ignor\u00e2ncia. Entretanto, quando finalmente descobrimos o princ\u00edpio desta manifesta\u00e7\u00e3o das formas materiais, podemos reverter o processo, de forma a fazer com que a \u00e1gua retorne a seu estado sutil como ess\u00eancia luminosa. Os principais meios para realizar esta revers\u00e3o s\u00e3o atrav\u00e9s da contempla\u00e7\u00e3o, ocasionando a reintegra\u00e7\u00e3o da energia da pessoa com a da dimens\u00e3o material.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cTudo \u00e9 bom\u201d<\/em><\/strong>, que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o para o tibetano do nome <em>Samantabhadra<\/em>, o Buda primordial, o <em>Dharmakaya<\/em>, significa que n\u00e3o existe nada para modificar ou eliminar na vis\u00e3o de algu\u00e9m, que \u00e9 perfeita como \u00e9. Quando algu\u00e9m est\u00e1 no estado n\u00e3o-dual, mesmo milhares de apari\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem perturbar sua contempla\u00e7\u00e3o. Mas \u201cbom\u201d n\u00e3o est\u00e1 aqui com rela\u00e7\u00e3o a algo \u201cpositivo\u201d, que ent\u00e3o est\u00e1 colocado em oposi\u00e7\u00e3o a algo que \u00e9 considerado \u201cnegativo\u201d. O que se est\u00e1 referindo \u00e9 um estado no qual n\u00e3o existe nada negativo para rejeitar e nada positivo para se aceitar. Todas as manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o al\u00e9m tanto do bem como do mal, e s\u00e3o como um ornamento para o estado primordial de uma pessoa.<\/p>\n<p>No Dzogchen n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio transformar a vis\u00e3o impura em vis\u00e3o pura, trabalhando com a imagina\u00e7\u00e3o da pessoa. Todas as vis\u00f5es de algu\u00e9m s\u00e3o qualidades inerentes \u00e0 claridade natural do pr\u00f3prio indiv\u00edduo. Se virmos uma casa feita de pedra, e tentarmos imagin\u00e1-la transformada em uma dimens\u00e3o de luz, estaremos apenas brincando com nossas mentes, porque a casa \u00e9 como ela \u00e9, mesmo que seja parte de nossa vis\u00e3o <em>c\u00e1rmica<\/em>, \u00e9 verdadeiramente uma manifesta\u00e7\u00e3o de nossa pr\u00f3pria claridade. Ent\u00e3o por que dever\u00edamos bloque\u00e1-la, ou transform\u00e1-la? Problemas somente surgem quando entramos em julgamento se a casa \u00e9 bonita ou feia, pequena ou grande, etc. Ent\u00e3o, com nossas mentes racionais, \u00e9 muito f\u00e1cil entrar em a\u00e7\u00e3o e produzir <em>carma.<\/em><\/p>\n<p><em>Machig Labdron (Ma gcig lab sgron),<\/em> em seus ensinamentos sobre a pr\u00e1tica do <em>Ch\u00f6d<\/em> (<em>gcod<\/em>), explicou que existem quatro \u201cdiabos\u201d, ou obst\u00e1culos, que impedem o caminho da realiza\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. O primeiro \u00e9 chamado \u201co diabo que bloqueia (os sentidos)\u201d. Quando vemos um objeto bonito, se a mente entra em julgamento com rela\u00e7\u00e3o a ele, o desejo surge e a pessoa se torna v\u00edtima de suas pr\u00f3prias paix\u00f5es. O que est\u00e1 no fundo disto? Primeiro seus olhos percebem o objeto, sem qualquer conceito de bonito ou feio. Ent\u00e3o a mente come\u00e7a a funcionar e a percep\u00e7\u00e3o direta dos sentidos \u00e9 bloqueada. Ent\u00e3o, o objeto percebido torna-se um obst\u00e1culo, ou \u201cdiabo\u201d. Quando a percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 bloqueada pelo julgamento mental, entretanto, a vis\u00e3o se auto-libera, como o n\u00f3 formado pelo corpo de uma serpente que se libera por si mesmo.<\/p>\n<p>Se algo maravilhoso aparece diante de n\u00f3s, mas n\u00e3o o julgamos, ent\u00e3o ele permanece parte de nossa claridade. O mesmo \u00e9 verdadeiro se alguma coisa horr\u00edvel aparecer. Assim por que desenvolvemos desejo por um e avers\u00e3o por outro? Claridade n\u00e3o pertence \u00e0 nossa mente racional, mas \u00e0 ess\u00eancia pura do estado primordial, que est\u00e1 al\u00e9m tanto do bom como do mau. No Tibet, praticantes desenvolvidos do <em>Ch\u00f6d<\/em> eram chamados para ajudar quando havia uma epidemia ou um surto de uma doen\u00e7a contagiosa, porque ao irem completamente al\u00e9m de qualquer conceito de \u201cbom\u201d e \u201cmau\u201d ou \u201cpuro\u201d e \u201cimpuro\u201d, eles estavam imunes a todos os tipos de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>\u00c9 importante manter a presen\u00e7a na contempla\u00e7\u00e3o, sem corrigir o corpo, a voz, ou a mente. A pessoa precisa encontrar-se numa condi\u00e7\u00e3o relaxada, mas os sentidos precisam estar presentes e alertas, porque eles s\u00e3o as portas para a claridade. A pessoa relaxa sem esfor\u00e7o nenhum, abandonando toda tens\u00e3o com respeito \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do corpo, respira\u00e7\u00e3o, e pensamentos, apenas mantendo uma presen\u00e7a v\u00edvida.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m come\u00e7a a praticar, pode parecer que a confus\u00e3o de seus pensamentos est\u00e1 aumentando, mas isto \u00e9 na verdade devido ao relaxamento da mente. De fato, este movimento dos pensamentos sempre existiu; apenas agora a pessoa est\u00e1 se tornando consciente deles, porque a mente ficou mais clara, da mesma maneira, quando o mar est\u00e1 agitado, n\u00e3o se pode ver o fundo, mas quando se acalma pode-se ver o que est\u00e1 l\u00e1 embaixo.<\/p>\n<p>Quando nos tornamos conscientes do movimento de nossos pensamentos, precisamos aprender a integr\u00e1-los com a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>, sem segui-los ou deixar-nos distrair por eles. O que queremos dizer com \u201cdeixar-nos distrair\u201d? Se ao ver uma pessoa imediatamente crio antipatia por ela, isto significa que me permiti ser apanhado num julgamento mental; isto \u00e9, me distrai. Se mantiver a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>, por outro lado, por que antipatizar com algu\u00e9m que vejo? Aquela pessoa tamb\u00e9m \u00e9 realmente parte de minha pr\u00f3pria claridade. Entendendo realmente isto, todas as minhas tens\u00f5es e conflitos se dissolver\u00e3o, e tudo se estabilizar\u00e1 num estado de completo relaxamento.<\/p>\n<p>Existem dois defeitos principais freq\u00fcentemente encontrados na pr\u00e1tica, que s\u00e3o a sonol\u00eancia e a agita\u00e7\u00e3o. Algumas vezes, por exemplo, quando estamos praticando podemos ficar sonolentos, ou nos acharmos t\u00e3o agitados que nossos pensamentos n\u00e3o nos d\u00e3o paz nem por um momento, e parece imposs\u00edvel encontrarmos um estado calmo. Existem pr\u00e1ticas, que a pessoa pode aplicar como ant\u00eddoto para esses problemas, mas se soubermos como relaxar podemos ultrapassar estas dificuldades naturalmente sem tal esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma pessoa que est\u00e1 come\u00e7ando a praticar geralmente prefere retirar-se para um lugar ermo, porque ela precisa encontrar um estado de calma e equil\u00edbrio mental. Mas quando algu\u00e9m come\u00e7a a ter verdadeira experi\u00eancia do estado de contempla\u00e7\u00e3o ela necessita integr\u00e1-lo \u00e0s atividades di\u00e1rias de caminhar, conversar, comer, etc. Um praticante Dzogchen nunca necessita afastar-se da sociedade e retirar-se para meditar no topo de uma montanha. Isto \u00e9 especialmente impr\u00f3prio na nossa sociedade moderna, na qual todos t\u00eam que trabalhar para comer e viver normalmente. Se soubermos como integrar nossa contempla\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa vida di\u00e1ria, entretanto, manifestaremos progresso em nossa pr\u00e1tica do mesmo modo.<\/p>\n<p>Praticar significa integrar-se com a vis\u00e3o. O termo \u201cvis\u00e3o\u201d aqui inclui todos os nossos sentidos de percep\u00e7\u00e3o. Se estiver numa sala ouvindo uma m\u00fasica agrad\u00e1vel, ou em algum lugar onde exista um som ensurdecedor, tal como numa f\u00e1brica, isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a, porque tudo \u00e9 parte da vis\u00e3o. Se sinto o delicado aroma de uma rosa, ou o odor de um banheiro, estes tamb\u00e9m s\u00e3o parte da vis\u00e3o, e na contempla\u00e7\u00e3o esta vis\u00e3o \u00e9 percebida como a manifesta\u00e7\u00e3o da energia do estado primordial, com nada a ser rejeitado ou aceito. Assim, a ess\u00eancia da pr\u00e1tica \u00e9 encontrar a si mesmo num estado de <strong><em>presen\u00e7a <\/em><\/strong>relaxada, integrada com qualquer percep\u00e7\u00e3o que possa surgir.<\/p>\n<p>O conhecimento da contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 transmitido diretamente do mestre ao disc\u00edpulo, e, no Dzogchen, \u00e9 parte da transmiss\u00e3o explicar e ensinar o verdadeiro significado. Para isto, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio preparar um <em>mandala<\/em> ou tocar a cabe\u00e7a do disc\u00edpulo com um vaso<sup>6<\/sup>.Estes s\u00e3o elementos de ritual que pertencem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o <em>t\u00e2ntrica<\/em>. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio receber o voto de ref\u00fagio, que \u00e9 um dos pilares fundamentais do budismo. Por causa disto, algumas pessoas que receberam a transmiss\u00e3o dos ensinamentos Dzogchen sentem-se desconfort\u00e1veis porque n\u00e3o tomaram seu voto de ref\u00fagio<sup>7<\/sup>. Mas tal atitude mostra que elas ignoram o verdadeiro significado do ref\u00fagio, porque mesmo nos <em>sutras<\/em> budistas foi estabelecido que o supremo ref\u00fagio \u00e9 a ess\u00eancia dos <em>tathagatas<\/em>, que \u00e9 o estado de ilumina\u00e7\u00e3o primordial.<\/p>\n<p>Hoje em dia, entretanto, o voto de ref\u00fagio tornou-se comum no ocidente. Ap\u00f3s uma cerim\u00f4nia ritual de ref\u00fagio, durante a qual uma mecha de cabelo da pessoa \u00e9 cortada e ela recebe um nome tibetano, a pessoa provavelmente pensar\u00e1 consigo mesma, \u201crecebi ref\u00fagio; agora sou um budista\u201d. Mas n\u00e3o h\u00e1, de fato, nenhuma necessidade de sentir que \u00e9 um \u201cbudista\u201d. Nossa condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d \u00e9 suficiente apenas como \u00e9, assim por que uma pessoa precisa tornar-se alguma coisa diferente do que ela j\u00e1 \u00e9?<\/p>\n<p>Se tomarmos um voto isto significa que n\u00e3o temos capacidade de nos governar. Mas nossa capacidade \u00e9 relativa \u00e0s circunst\u00e2ncias em que nos encontramos, e pode ser melhorada. Assim a primeira coisa que algu\u00e9m deve fazer \u00e9 descobrir qual \u00e9 a sua capacidade, e ent\u00e3o, de acordo com a necessidade de cada um, tentar aument\u00e1-la atrav\u00e9s de v\u00e1rios m\u00e9todos de pr\u00e1tica. Existem, por exemplo, muitos m\u00e9todos de pr\u00e1tica de purifica\u00e7\u00e3o cujo prop\u00f3sito \u00e9 remover os obst\u00e1culos \u00e0 claridade, e o disc\u00edpulo trabalhar\u00e1 com um ou outro desses m\u00e9todos de purifica\u00e7\u00e3o escolhido como o mais adequado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o em particular. O mestre n\u00e3o pode decidir pelo disc\u00edpulo qual pr\u00e1tica ser\u00e1 mais adequada, mas pode apenas dar alguns conselhos e sugest\u00f5es a esse respeito, para ajudar o disc\u00edpulo a ver mais claramente dentro de si mesmo, e assim tornar-se mais consciente e autoconfiante.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o no caminho da ren\u00fancia \u00e9 muito diferente da que acabamos de descrever, porque o aspecto fundamental desse caminho \u00e9 de que a pessoa segue regras de conduta que limitam as a\u00e7\u00f5es de corpo, voz e mente. As regras de qualquer tradi\u00e7\u00e3o religiosa, entretanto, nunca podem ser universais, e s\u00e3o dependentes das circunst\u00e2ncias e do tempo.<\/p>\n<p>Uma regra que hoje parece v\u00e1lida pode amanh\u00e3, com o passar do tempo e a mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos das pessoas, tornar-se irrelevante. As regras de <em>Vinaya<\/em>, por exemplo, indubitavelmente surgiram para governar aspectos da conduta dos disc\u00edpulos de Buda que eram considerados incorretos em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente em que viviam. Suponha, por exemplo, que alguns disc\u00edpulos de Buda caminhassem nus, e fossem recebidos mal pelos habitantes de um vilarejo vizinho. Ent\u00e3o Buda pronunciaria uma regra declarando que, \u201cOs disc\u00edpulos de Buda n\u00e3o devem andar nus\u201d. As 252 principais regras do <em>Vinaya <\/em>foram todas feitas nesse sentido. Assim \u00e9 obvio que algumas destas regras, que surgiram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas da \u00cdndia, seriam inaplic\u00e1veis num pa\u00eds tal como o Tibet, se elas n\u00e3o fossem adaptadas para adequ\u00e1-las aos diferentes climas e dietas encontrados l\u00e1.<\/p>\n<p>No Dzogchen o indiv\u00edduo aprende a tornar-se respons\u00e1vel por si mesmo sem seguir regras. Uma pessoa que segue regras \u00e9 como as pessoas cegas que precisam de algu\u00e9m para gui\u00e1-las a fim de que sejam capazes de andar. Por esta raz\u00e3o diz-se que um praticante Dzogchen precisa abrir seus olhos para descobrir suas condi\u00e7\u00f5es, de modo que ele n\u00e3o depender\u00e1 mais de ningu\u00e9m nem de nada.<\/p>\n<p>Algumas pessoas porque n\u00e3o est\u00e3o satisfeitas com seu relacionamento com o mestre, pensam para si mesmas, \u201cO mestre \u00e9 apenas uma pessoa comum que come espaguete e bebe vinho tal como eu. Mas eu quero entrar em contato direto com Buda ou com <em>Padmasambhava<\/em>\u201d. No fundo temos todos essa atitude, porque a causa principal do nascimento no reino humano \u00e9 o orgulho. Mas \u00e9, na realidade, muito dif\u00edcil entrar em contato com Buda se n\u00e3o reconhecermos o Buda em nosso mestre, de fato, o verdadeiro Buda, para o disc\u00edpulo \u00e9 seu mestre.<\/p>\n<p>No <em>Abhisamayalankara<\/em>, um coment\u00e1rio sobre o <em>Prajnaparamitra-sutra,<\/em> est\u00e1 escrito, \u201cMesmo se os raios do sol forem fortes, eles n\u00e3o produzir\u00e3o fogo se n\u00e3o houver lente [para foc\u00e1-los]. Mesmo se milhares de Budas estiverem cheios de sabedoria, o indiv\u00edduo n\u00e3o poder\u00e1 receb\u00ea-la exceto atrav\u00e9s de um mestre\u201d.<\/p>\n<p>No <em>tantra<\/em> \u201cCuco\u201d est\u00e1 escrito que, \u201cO conhecimento da condi\u00e7\u00e3o \u201cdo que \u00e9\u201d \u00e9 introduzido pelo mestre atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o, e desenvolvido atrav\u00e9s da contempla\u00e7\u00e3o. O valor do mestre \u00e9 como a do mineral usado para limpar o ouro\u201d. No Tibet um mineral \u00e9 usado para limpar a superf\u00edcie do ouro das subst\u00e2ncias que o cobrem. Quando este mineral entra em contato com o ouro sua verdadeira cor reaparece. Neste exemplo, o ouro \u00e9 um s\u00edmbolo do que \u00e9 chamado Dzogchen, o estado primordial que \u00e9 nossa condi\u00e7\u00e3o inerente, auto-aperfei\u00e7oada desde o in\u00edcio. As subst\u00e2ncias que cobrem o ouro representam os obst\u00e1culos e a confus\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o relativa que impede que o conhecimento do estado primordial se manifeste. E o mineral que limpa o ouro, fazendo com que sua cor verdadeira reapare\u00e7a, \u00e9 o poder da transmiss\u00e3o do mestre que nos capacita a redescobrir nossa pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o. Mesmo se o ouro, quando coberto com sujeira, parece ser apenas uma rocha ou um torr\u00e3o de terra, sua verdadeira qualidade \u00e9, contudo sempre a mesma e apenas necessita ser redescoberta.<\/p>\n<p>O mestre \u00e9 insepar\u00e1vel do estado de conhecimento, e no Dzogchen uma das pr\u00e1ticas fundamentais para desenvolvimento da contempla\u00e7\u00e3o \u00e9, de fato, o <em>Guru Yoga<\/em>, ou a \u201cUni\u00e3o com o Mestre\u201d. O prop\u00f3sito real desta pr\u00e1tica \u00e9 manter a transmiss\u00e3o do mestre viva e sempre presente na vida do disc\u00edpulo. Um outro aspecto fundamental dos ensinamentos, que deriva dos <em>tantras,<\/em> \u00e9 o <em>samaya<\/em>, ou \u201cpromessa\u201d, que \u00e9 um equivalente no <em>tantrismo<\/em> dos votos nos ensinamentosdos<em> sutras<\/em>. Quando algu\u00e9m recebe uma inicia\u00e7\u00e3o, por exemplo, promete efetuar a pr\u00e1tica da transforma\u00e7\u00e3o diariamente, recitando o <em>mantra<\/em> correspondente pelo menos tr\u00eas ou sete vezes. No topo deste compromisso, existem muitos outros <em>samayas<\/em> relacionados que precisam ser observados. Mas no Dzogchen o \u00fanico <em>samaya<\/em> envolvido \u00e9 encontrar-se a si mesmo na condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d, como ele \u00e9. Todo o resto, ou seja, todos os julgamentos e cria\u00e7\u00f5es da mente, todos os nossos limites, etc, s\u00e3o falsos e sup\u00e9rfluos. Sem tornar-se desatento, o indiv\u00edduo tenta encontrar a si mesmo em todos os momentos no estado relaxado.<\/p>\n<p>Quando estamos no estado de contempla\u00e7\u00e3o, mesmo se um milh\u00e3o de pensamentos surgirem, n\u00e3o os seguimos, apenas permanecemos observando tudo o que acontece. Isto \u00e9 o que significa <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>. Encontrar a si mesmo no estado de \u201co que \u00e9\u201d significa manter continuamente a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>. Assim o <em>samaya<\/em> do Dzogchen significa n\u00e3o se distra\u00edr, e apenas isso. Mas isto n\u00e3o significa que se algu\u00e9m se torna desatento quebrou seu <em>samaya<\/em>. O que a pessoa tem que fazer \u00e9 notar o que aconteceu, e tentar novamente n\u00e3o se distrair.<\/p>\n<p>Existem duas maneiras de n\u00e3o se distrair. A mais elevada destas \u00e9 quando a capacidade de contempla\u00e7\u00e3o da pessoa \u00e9 suficientemente desenvolvida para que ela consiga integrar todas as suas a\u00e7\u00f5es com o estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>. Este \u00e9 o ponto final da pr\u00e1tica, e \u00e9 conhecido como a Grande Contempla\u00e7\u00e3o. Mas na medida em que a pessoa n\u00e3o \u00e9 capaz de atingir este n\u00edvel, existe uma maneira de n\u00e3o se distrair que est\u00e1 mais ligada \u00e0 mente, na qual a pessoa tem que manter um m\u00ednimo de aten\u00e7\u00e3o. Esta n\u00e3o \u00e9 a verdadeira contempla\u00e7\u00e3o, porque existe ainda alguma quantidade de intencionalidade, de trabalho ativo com a mente racional, envolvida. Mas este est\u00e1gio, contudo \u00e9 muito \u00fatil para nos ajudar a desenvolver o estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Se notarmos qualquer inten\u00e7\u00e3o surgindo, \u00e9 importante relax\u00e1-la, mas sem entrar numa atitude de luta com nossa distra\u00e7\u00e3o, que nos traria o efeito oposto ao desejado. Em nossas vidas di\u00e1rias precisamos relembrar sempre de relaxar, porque esta \u00e9 a chave de tudo para n\u00f3s. Tomemos um exemplo concreto: suponhamos que enquanto estamos sentados em uma sala, vem \u00e0 nossa cabe\u00e7a a id\u00e9ia de pegar um objeto em outra sala. Assim que este pensamento surge, o reconhecemos, e estamos conscientes dele, mas n\u00e3o tentamos bloque\u00e1-lo, ou dissolve-lo. Sem nos tornarmos distra\u00eddos, mantendo uma <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> relaxada, levantamos e vamos \u00e0 outra sala, tentando permanecer presente em tudo o que fazemos. Esta \u00e9 uma pr\u00e1tica extremamente importante, que n\u00e3o requer nem uma posi\u00e7\u00e3o particular e controle da respira\u00e7\u00e3o, nem qualquer visualiza\u00e7\u00e3o. Tudo o que a pessoa deve fazer \u00e9 permanecer presente e relaxada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio pode n\u00e3o ser f\u00e1cil manter a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>, mas pouco a pouco a pessoa consegue integr\u00e1-la com os movimentos de seu corpo. O mesmo se d\u00e1 com a voz: enquanto conversa, discursa, discute algo, ou canta, a pessoa deve tentar manter sua <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> pelo maior tempo poss\u00edvel. E ent\u00e3o, no que concerne \u00e0 mente, \u00e9 o mesmo: a pessoa deve tentar permanecer presente enquanto o processo de racionaliza\u00e7\u00e3o, ou imagina\u00e7\u00e3o, julgamento, etc, est\u00e1 acontecendo. A pessoa pode pensar: \u201cComo posso integrar o processo de racionaliza\u00e7\u00e3o com a <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> se \u00e9 a mente a causa da distra\u00e7\u00e3o?\u201d Mas a mente \u00e9 apenas como um reflexo que surge no espelho. Se algu\u00e9m se re-introduz na capacidade inerente de refletir do espelho, o reflexo n\u00e3o vai mais permanecer como algo externo ao pr\u00f3prio eu, percebido de forma dual. Quando algu\u00e9m encontra seu pr\u00f3prio eu na condi\u00e7\u00e3o da natureza do espelho, todo aspecto de seu corpo, voz e mente \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da sabedoria do estado de <em>presen\u00e7a<\/em>. A sabedoria est\u00e1 al\u00e9m da mente, mas quando dizemos que ela esta \u201cal\u00e9m\u201d dela, isto n\u00e3o significa que ela n\u00e3o tem qualquer rela\u00e7\u00e3o com ela. De fato a rela\u00e7\u00e3o entre a sabedoria inerente do indiv\u00edduo e sua mente racional \u00e9 a mesma entre um espelho e os reflexos que surgem nele.<\/p>\n<p>Quando falamos de permanecer em contempla\u00e7\u00e3o, s\u00e3o dadas v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es das experi\u00eancias com as quais a contempla\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada. Todas as v\u00e1rias experi\u00eancias que surgem nas pr\u00e1ticas est\u00e3o relacionadas com a condi\u00e7\u00e3o de nossa exist\u00eancia atual, que podemos dizer em geral que t\u00eam dois aspectos ou caracter\u00edsticas, o <em>\u201cestado calmo\u201d<\/em> e <em>\u201cmovimento\u201d<\/em>. Quando um pensamento surge e o observamos para descobrir de <em>onde ele surgiu<\/em>, <em>onde permanece<\/em>, e <em>aonde vai<\/em>, n\u00e3o encontramos qualquer coisa concreta. Mesmo se nossos pensamentos aparentemente parecem realmente, existir, quando os observamos, eles apenas desaparecem sem deixar tra\u00e7os. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma, tamb\u00e9m, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 voz e ao corpo. Se algu\u00e9m tem uma dor de cabe\u00e7a, por exemplo, e observa onde a dor surge e aonde ela vai quando desaparece, n\u00e3o chega a nenhuma conclus\u00e3o real. Esta condi\u00e7\u00e3o de vazio em rela\u00e7\u00e3o ao corpo corresponde ao estado calmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mente.<\/p>\n<p>Mas, mesmo se nossos pensamentos desaparecem desta maneira eles, contudo surgem novamente sem interrup\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 o que \u00e9 chamado \u201cmovimento\u201d, que \u00e9 o funcionamento da claridade. No Dzogchen \u00e9 necess\u00e1rio aprender a trabalhar com este \u201cmovimento\u201d e integrar todos os aspectos da energia da pessoa. O <em>\u201cestado calmo\u201d<\/em> \u00e9 apenas uma experi\u00eancia, e n\u00e3o a contempla\u00e7\u00e3o em si. Quando uma pessoa est\u00e1 realmente em contempla\u00e7\u00e3o, no estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> pura, n\u00e3o h\u00e1 ent\u00e3o nenhuma diferen\u00e7a entre o <em>estado calmo<\/em> e o <em>movimento<\/em>. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 necessidade da pessoa procurar um estado sem pensamentos. Como Garab Dorje disse, <em>\u201cSe surgir [o movimento dos pensamentos], esteja consciente do estado em que eles surgem. Se estiver livre dos pensamentos, esteja consciente do estado em que est\u00e1 livre deles. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a entre o surgimento dos pensamentos e estar livre deles\u201d<\/em>. Assim, quando algu\u00e9m pratica contempla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de tentar encontrar um estado calmo e evitar movimento, mas a pessoa deve apenas manter o mesmo estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> em ambas as experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Em todas as tradi\u00e7\u00f5es budistas de medita\u00e7\u00e3o, fala-se de duas fases de medita\u00e7\u00e3o, no estado de calma ou <em>\u201cshine\u201d,<\/em> e na vis\u00e3o intuitiva ou <em>\u201clhagtong\u201d<\/em> (<em>lhag mthhong<\/em><sup>8<\/sup>). A medita\u00e7\u00e3o <em>Shine <\/em>trabalha trazendo um estado de calma mental, em que os pensamentos n\u00e3o t\u00eam mais a capacidade de perturbar o praticante. <em>Lhagtong,<\/em> por outro lado, \u00e9 geralmente considerado como uma esp\u00e9cie de despertar interior da consci\u00eancia, mas \u00e9 interpretado de forma diferente nos diferentes sistemas de ensinamento.<\/p>\n<p>Nos <em>Sutras<\/em> ele \u00e9 considerado como sendo uma realiza\u00e7\u00e3o ligada ao corpo, \u00e0 voz, e \u00e0 mente, que surge automaticamente ap\u00f3s algu\u00e9m praticar a medita\u00e7\u00e3o no estado de calma. No <em>tantrismo<\/em>, entretanto, ele \u00e9 considerado como um n\u00edvel espec\u00edfico de realiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de transforma\u00e7\u00e3o, que se manifesta como sinais vinculados ao <em>prana<\/em>, ao <em>chakra<\/em>, e etc. Poderia se dizer que <em>shine<\/em> corresponde ao vazio, <em>lhagtong<\/em> \u00e0 claridade, e a uni\u00e3o destes dois ao ponto final de chegada da pr\u00e1tica do <em>tantra<\/em>.<\/p>\n<p>Mas no Dzogchen, na S\u00e9rie da Natureza da Mente, <em>Lhagtong<\/em> \u00e9 um n\u00edvel da integra\u00e7\u00e3o do estado de presen\u00e7a com o movimento. \u00c9 tamb\u00e9m chamado de \u201cestado inalter\u00e1vel\u201d (<em>mi.g.yo.ba<\/em>), que n\u00e3o pode ser perturbado por qualquer movimento. \u201cMovimento\u201d aqui inclui tamb\u00e9m a energia do <em>prana<\/em> <em>c\u00e1rmico<\/em>, que usualmente tem influ\u00eancia consider\u00e1vel na mente. Neste estado, todos os aspectos do corpo, fala e mente est\u00e3o integrados na contempla\u00e7\u00e3o. Se um praticante estiver meditando pr\u00f3ximo de uma m\u00e1quina barulhenta, ele n\u00e3o precisa procurar um lugar quieto, porque neste est\u00e1gio da pr\u00e1tica ele est\u00e1 completamente integrado com qualquer tipo de percep\u00e7\u00e3o. O praticante n\u00e3o \u00e9 mais obrigado a permanecer ligado ao estado calmo, mas est\u00e1 consciente da dimens\u00e3o <em>c\u00e1rmica <\/em>do movimento, e n\u00e3o o percebe como externo a ele.<\/p>\n<p>Quando s\u00e3o explicados os n\u00edveis de progresso na contempla\u00e7\u00e3o, as imagens de uma corrente, um rio, e um mar, etc., s\u00e3o usados como exemplo do desenvolvimento da capacidade de integra\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ada. Quando um praticante conseguiu estabilidade completa na contempla\u00e7\u00e3o, mesmo se n\u00e3o estiver ocupado com qualquer pr\u00e1tica em particular, t\u00e3o logo adormece encontra-se no estado da luz natural<sup>9<\/sup>, e quando sonhar estar\u00e1 consciente de que sonha. A pr\u00e1tica individual est\u00e1 completa, e se viver ou morrer estar\u00e1 sempre presente tendo alcan\u00e7ado o <em>Sambhogakaya.<\/em> Quando ele morrer, e o \u201cBardo da Condi\u00e7\u00e3o Essencial\u201d (<em>dharmata<\/em>) manifestar-se, estar\u00e1 pronto naquele mesmo instante para se integrar na realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><em>O Grande Espa\u00e7o de Vajrasattva (rdorje sems-dpa nam-mkha-che) \u00e9 um texto que pertence \u00e0 categoria de lung o qual dizemos que foi transmitido primeiramente por Garab Dorje quando crian\u00e7a, \u00e9poca na qual ele o recitou espontaneamente.<\/em><\/li>\n<li><em>Cog-bzag rnam-pa bzhi<\/em><em>, as quatro maneiras de \u201cdeixar sem corrigir\u201d. (ri-bo cog-bzhag), ligado ao corpo; \u201ccomo o oceano\u201d (rgya-mtsho cog-bzhag), ligado aos olhos; \u201co estado de presen\u00e7a\u201d (rig-pa cog-bzhag); e \u201cda vis\u00e3o\u201d (sang-ba cog-bzhag), que \u00e9 fundamentado sobre o princ\u00edpio da integra\u00e7\u00e3o e todas as percep\u00e7\u00f5es sensoriais.<\/em><\/li>\n<li><em>O ros\u00e1rio budista de 108 p\u00e9rolas.<\/em><\/li>\n<li><em>Esse verso \u00e9 composto, em tibetano, dos nomes de Vairocana (rnam-par snang mdzad), um dos seis budhas do Sambhogakaya, e Samantabhadra (Kun-tu bzang-po), o s\u00edmbolo do Dharmakaya.<\/em><\/li>\n<li><em>Thogs-bcas-kyi-bdud<\/em><em>. Os tr\u00eas outros dem\u00f4nios, ou obst\u00e1culos, que bloqueiam o progresso do praticante s\u00e3o: \u201co dem\u00f4nio que n\u00e3o bloqueia\u201d (thogs-med) com rela\u00e7\u00e3o aos pensamentos; \u201co dem\u00f4nio do prazer\u201d (dga-brod), que implica no apego aos resultados da pr\u00e1tica; e \u201co dem\u00f4nio do princ\u00edpio do ego\u201d (byed).<\/em><\/li>\n<li><em>Isso se refere \u00e0 Inicia\u00e7\u00e3o do Vaso (bum-dbang), cujo objetivo \u00e9 purificar os obst\u00e1culos do corpo.<\/em><\/li>\n<li><em>O Voto de Ref\u00fagio \u00e9 o fundamento da pr\u00e1tica budista em todas as tradi\u00e7\u00f5es, quer sejam para monges ou laicos. Os Objetos de Ref\u00fagio s\u00e3o o Budha, o Ensinamento (Dharma) e a Comunidade Espiritual (Sangha), chamados as \u201cTr\u00eas J\u00f3ias\u201d. No n\u00edvel t\u00e2ntrico, entretanto, os Objetos de Ref\u00fagio s\u00e3o o Mestre (Guru), a Deidade (Deva, Yidam) e a (Dakini). <\/em><\/li>\n<li><em>Em S\u00e2nscrito, Samatha e Vipasyana.<\/em><\/li>\n<li><em>O estado de luminosidade natural (\u2018od-gsal) corresponde ao per\u00edodo entre o adormecimento e o aparecimento dos sonhos<\/em><em>. Neste per\u00edodo, mesmo que a mente n\u00e3o funcione, o praticante continua na claridade do estado de presen\u00e7a.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong><em>Cap\u00edtulo Oito<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0<strong>O FRUTO E O CAMINHO DA A\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Tudo j\u00e1 est\u00e1 \u00a0realizado, \u00e9 por isso<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>que tendo vencido a doen\u00e7a do esfor\u00e7o,<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Encontramo-nos no estado de auto-perfei\u00e7\u00e3o:<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Isso \u00e9 contempla\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em>Se algu\u00e9m realmente compreendeu que nossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o \u00e9 o estado auto-aperfei\u00e7oado, ent\u00e3o h\u00e1 uma base sobre a qual a pessoa pode se desenvolver. Se, no entanto, n\u00e3o compreendeu isso, mesmo que estude todos os diferentes sistemas de ensinamento, ela permanecer\u00e1 num estado de ignor\u00e2ncia. Neste ponto de vista, mesmo uma pessoa muito culta ser\u00e1 considerada ignorante, enquanto uma pessoa sem a menor educa\u00e7\u00e3o escolar poder\u00e1 perfeitamente bem ter o verdadeiro conhecimento. Estudo, an\u00e1lise, questionamento filos\u00f3fico, etc., podem ser \u00fateis se a pessoa souber como se beneficiar deles, mas freq\u00fcentemente eles s\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 verdadeira compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>Tomemos o exemplo de uma pessoa que passou a se interessar pela filosofia oriental porque est\u00e1 insatisfeita com a filosofia ocidental. Essa pessoa poderia estudar profundamente as v\u00e1rias correntes de pensamento oriental e ent\u00e3o vir ao encontro da filosofia budista, tornando-se fascinada por seus princ\u00edpios. Ela passa a crer que finalmente encontrou uma alternativa para a sua cultura. Tornando-se mais e mais envolvida, a pessoa ent\u00e3o se torna uma seguidora da filosofia de <em>Nagarjuna<\/em>, e est\u00e1 completamente convencida da validade deste ponto de vista. Mas o que aconteceu de fato \u00e9 que essa pessoa se tornou uma escrava da ideologia de <em>Nagarjuna<\/em>, porque ela formou agora um conceito de vacuidade, e n\u00e3o tem um conhecimento verdadeiro disto, baseado na verdadeira experi\u00eancia. De fato, as convic\u00e7\u00f5es e teorias filos\u00f3ficas, mesmo que pare\u00e7am perfeitas, podem ruir de um dia para outro, porque est\u00e3o baseadas em algo fundamentalmente falso, isto \u00e9, na mente.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do Dzogchen \u00e9 evitar criar qualquer coisa falsa, e realmente entender as raz\u00f5es do que est\u00e1 fazendo. N\u00e3o \u00e9 importante definir a pessoa como pertencendo a esta ou aquela escola, tradi\u00e7\u00e3o, ou ponto de vista, e n\u00e3o faz qualquer diferen\u00e7a se ela se considera budista ou n\u00e3o. Basicamente, uma pessoa sentir-se como seguidora de uma coisa ou outra \u00e9 apenas um limite, e o que realmente a pessoa precisa \u00e9 entender sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o e abrir-se, livrando-se de todos estes tipos de barreiras.<\/p>\n<p>No Tibet, durante o \u00faltimo s\u00e9culo, surgiu uma tradi\u00e7\u00e3o a partir dos esfor\u00e7os de certos mestres que tentaram a libera\u00e7\u00e3o de barreiras ideol\u00f3gicas que surgiram entre as v\u00e1rias escolas, para favorecer uma abertura e troca de id\u00e9ias entre as diferentes linhagens de ensinamentos. Estes mestres, que pertenciam originalmente a v\u00e1rias escolas, eram todos grandes praticantes de Dzogchen, e mesmo que n\u00e3o tenham definido a si mesmos de qualquer forma, foram chamados \u201cn\u00e3o sect\u00e1rios\u201d (<em>ris med<\/em>) pelos outros. Para um praticante de Dzogchen, mesmo chamar algu\u00e9m de \u201cn\u00e3o sect\u00e1rio\u201d \u00e9 justamente uma outra forma de tomar uma posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o dos outros, o que \u00e9 irrelevante, porque a verdade \u00e9 que qualquer defini\u00e7\u00e3o deste tipo \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>O estado primordial, por exemplo, \u00e9 definido como sendo constitu\u00eddo das \u201ctr\u00eas sabedorias\u201d, <em>ess\u00eancia, natureza e energia<\/em>, mas a explica\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um artif\u00edcio provis\u00f3rio com objetivo de nos ajudar, prisioneiros que somos de nossos limites, vagando numa cont\u00ednua transmigra\u00e7\u00e3o, de modo que possamos ter uma id\u00e9ia do que realmente acontece. Mas nenhuma an\u00e1lise ou defini\u00e7\u00e3o consegue realmente abranger o estado primordial, e elas s\u00e3o apenas um meio adequado \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Diz-se da mesma maneira que <em>Jamyang Khyentse Wangpo (\u2018Jam sbyangs mkhyen brtse\u2019I dbang po) e Jamgon Kongtrul (\u2018Jam mgon kong sprul)<\/em> foram os fundadores da tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o sect\u00e1ria que falamos anteriormente, embora eles n\u00e3o tenham tido nenhuma inten\u00e7\u00e3o de encerrar-se em uma escola. Quando o sol nasce no c\u00e9u seus raios inevitavelmente brilham, mas o sol n\u00e3o disse \u201cVejam como meus raios brilham!\u201d Foram as pessoas que estavam na escurid\u00e3o que definiram a situa\u00e7\u00e3o dizendo \u201cOlhem, agora existe a luz do sol\u201d. Assim os mestres desta tradi\u00e7\u00e3o, praticando Dzogchen, agiram de uma maneira que estava al\u00e9m dos limites de uma seita, sem tomar uma posi\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira sect\u00e1ria de ver as coisas.<\/p>\n<p>Existe um ditado Dzogchen que diz <strong><em>\u201cN\u00e3o sejam prisioneiros dos limites, n\u00e3o perten\u00e7am a uma escola\u201d<\/em><\/strong>, e limites s\u00e3o, de fato, uma manifesta\u00e7\u00e3o t\u00edpica do dualismo, que \u00e9 a causa de transmigra\u00e7\u00e3o. Ultrapassar nossos limites significa descobrir a verdadeira condi\u00e7\u00e3o do \u201cque \u00e9\u201d, e agir de tal maneira que nossos conhecimentos ir\u00e3o verdadeiramente se igualar \u00e0 realidade de nossa exist\u00eancia. Isto \u00e9 extremamente importante. A id\u00e9ia de \u201cn\u00e3o sectarismo\u201d fundamentalmente presume uma separa\u00e7\u00e3o dualista entre eu e os outros, o que \u00e9 uma barreira da qual a pessoa tem que se livrar a fim de ser capaz de integrar sua pr\u00e1tica com qualquer circunst\u00e2ncia em qualquer situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem barreiras na condi\u00e7\u00e3o verdadeira de \u201co que \u00e9\u201d, e nessa condi\u00e7\u00e3o todas as tens\u00f5es s\u00e3o relaxadas. Praticar realmente significa afrouxar suas tens\u00f5es. Falamos muito sobre ultrapassar o apego, mas qual \u00e9 a fonte dele? Ele realmente surge das tens\u00f5es que criamos ap\u00f3s termos separado a realidade na nossa e na dos outros. Assim, a \u00fanica maneira verdadeira de vencer este apego \u00e9 nos encontrarmos num estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> relaxada. O fato \u00e9 que um estado aut\u00eantico de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> \u00e9, por sua pr\u00f3pria natureza, relaxado.<\/p>\n<p>Os dois \u00faltimos versos dos <em>Seis Versos Vajra<\/em> explicam o significado do <em>fruto<\/em> e <em>a maneira de agir<\/em>. No Dzogchen a maneira de agir de algu\u00e9m no estado de <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> \u00e9 o <em>fruto<\/em>, e n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m para obter. Quando a pessoa tem este estado de conhecimento ela descobre que tudo j\u00e1 estava realizado desde o in\u00edcio. O estado auto-aperfei\u00e7oado \u00e9 uma qualidade inerente da condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d; n\u00e3o h\u00e1 nada a ser aperfei\u00e7oado, e o que todos precisam fazer \u00e9 ter o verdadeiro conhecimento desta condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio colocar o corpo em determinada posi\u00e7\u00e3o, ou olhar fixo, a fim de praticar, e a pessoa n\u00e3o deve condicionar sua exist\u00eancia a nada, mas permanecer no estado natural. O esfor\u00e7o e o senso de obriga\u00e7\u00e3o, que surgem da preocupa\u00e7\u00e3o e tens\u00e3o, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da mente racional, e nestes versos eles s\u00e3o comparados a uma doen\u00e7a, que, quando algu\u00e9m supera, possibilita encontrar-se finalmente na dimens\u00e3o da genu\u00edna consci\u00eancia do estado de auto-perfei\u00e7\u00e3o. Um estado verdadeiro n\u00e3o pode ser constru\u00eddo, mas \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o realmente inerente a todo indiv\u00edduo, que est\u00e1 ligada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o relativa do corpo, voz e mente. Quando a pessoa tem conhecimento deste estado, sem esfor\u00e7o, sem estar confinado a sess\u00f5es limitadas de pr\u00e1tica, nossas presen\u00e7as relaxadas se integram com a nossa vida como um todo. Assim, nossa contempla\u00e7\u00e3o se torna cont\u00ednua, e quando algu\u00e9m alcan\u00e7a este est\u00e1gio as qualidades de auto-perfei\u00e7\u00e3o, conhecidas como os \u201ctr\u00eas corpos\u201d, se manifestam automaticamente, da mesma maneira que os raios do sol brilham quando o sol surge no c\u00e9u.<\/p>\n<p>No Dzogchen, a maneira de agir \u00e9 a chave para a pr\u00e1tica, n\u00e3o porque existam regras fixas tal como o que uma pessoa deve ou n\u00e3o fazer, mas porque o princ\u00edpio \u00e9 daquilo que uma pessoa precisa aprender para tornar-se respons\u00e1vel por si mesma, trabalhando com a pr\u00f3pria consci\u00eancia. Mas um dos perigos que pode ser enfrentado pela pessoa que n\u00e3o compreende corretamente o que significa \u201cn\u00e3o corrigir\u201d, \u00e9 que ela possa ir adiante com o que quer que aconte\u00e7a, permanecendo ainda no estado de distra\u00e7\u00e3o. Diz-se que <em>Padmasambhava<\/em> deu esse aviso a seus disc\u00edpulos: <em>\u201cCom respeito ao estado de conhecimento, sigam a maneira de ver e de praticar do Dzogchen. Mas com respeito \u00e0 maneira de agir, sigam as regras do Vinaya\u201d<\/em>. Podemos estar certos de que <em>Padmasambhava<\/em> certamente n\u00e3o disse isto porque ele n\u00e3o considerava importante para a pessoa aprender a ser respons\u00e1vel por si mesma, mas disse isto por prud\u00eancia, a fim de n\u00e3o dar origem a mal entendidos.<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nubchen Sangye Yeshe (gNubs chen sangs rgyas ye shes),<\/em> um mestre tibetano que foi disc\u00edpulo de <em>Padmasambhava,<\/em> em seu tratado chamado <em>Light for the Eyes of Meditation <\/em>(<em>bSam gtam mig sgron<\/em>)\u00b2, disse: <em>\u201cAlguns mestres afirmam que, mesmo sendo o princ\u00edpio do Dzogchen o de n\u00e3o corrigir nada, a pessoa n\u00e3o pode alcan\u00e7ar este estado sem corrigir. Eles chamam o que eles ensinam de \u201cDzogchen\u201d, mas falando praticamente o que eles ensinam s\u00e3o v\u00e1rios meios de corrigir tudo. Isto \u00e9 um erro; \u00e9 como atirar uma flecha sem saber qual o seu alvo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 importante, no Dzogchen, saber exatamente onde a pessoa est\u00e1 querendo chegar, mas ao mesmo tempo a pessoa n\u00e3o deve ignorar sua pr\u00f3pria capacidade. Se a pessoa descobre que sua capacidade n\u00e3o \u00e9 suficiente para capacit\u00e1-la a viver com consci\u00eancia, ent\u00e3o seria melhor seguir algumas regras at\u00e9 que sua consci\u00eancia esteja mais desenvolvida. Se, por exemplo, eu gosto de beber, mas eu sei que o \u00e1lcool \u00e9 ruim para mim, ent\u00e3o eu posso simplesmente parar de beber. Mas se, assim que eu vejo uma garrafa de bebida, eu experimento um forte desejo de beber que eu n\u00e3o posso controlar, isto significa que eu preciso de uma regra a seguir para governar a situa\u00e7\u00e3o. Reconhecer isto tamb\u00e9m \u00e9 parte de nossa consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Diz-se que o Dzogchen \u00e9 um ensinamento para aqueles com um elevad\u00edssimo n\u00edvel de capacidade. Esta \u201celevad\u00edssima capacidade\u201d significa que a pessoa tem aquelas qualidades que s\u00e3o necess\u00e1rias a capacit\u00e1-la a entender e aplicar os ensinamentos. Se ela n\u00e3o tem qualquer uma dessas qualidades, pode tentar desenvolv\u00ea-la. A fim de dar resultados, a consci\u00eancia precisa estar sempre acompanhada pela <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong>. Estar consciente significa saber as conseq\u00fc\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es, mas algumas vezes, mesmo se a pessoa sabe que certa a\u00e7\u00e3o ser\u00e1 prejudicial, apesar disso segue em frente e a faz, porque n\u00e3o est\u00e1 presente no momento. Se ela n\u00e3o est\u00e1 presente, n\u00e3o faz diferen\u00e7a se tem o conhecimento ou n\u00e3o. Uma pessoa que, num momento de distra\u00e7\u00e3o, bebe uma x\u00edcara de veneno mesmo que saiba de seus efeitos prejudiciais, morrer\u00e1 da mesma forma que uma outra que n\u00e3o dispunha desse conhecimento.<\/p>\n<p>Geralmente \u00e9 muito f\u00e1cil tornarmo-nos distra\u00eddos atrav\u00e9s de nossas paix\u00f5es, nossos estados agitados da mente, nossos apegos, etc. Duas pessoas que se apaixonam, por exemplo, no primeiro momento de seu romance quase n\u00e3o suportam ficarem afastadas por um instante. Eles n\u00e3o percebem que se tornaram distra\u00eddos e cegos por sua paix\u00e3o. Ap\u00f3s umas poucas semanas, uns poucos meses, ou uns poucos anos, entretanto, sua paix\u00e3o come\u00e7a a enfraquecer, e a se tornar desgastada. O casal n\u00e3o sente mais da mesma maneira. Algumas vezes, em tais situa\u00e7\u00f5es, o relacionamento pode ir realmente t\u00e3o errado que as duas pessoas come\u00e7am a se odiar a tal ponto que chegam \u00e0 viol\u00eancia f\u00edsica. Este \u00e9 um exemplo de como algu\u00e9m pode se tornar distra\u00eddo por suas paix\u00f5es.<\/p>\n<p>Um praticante Dzogchen deve tentar tornar-se consciente e compreender a verdadeira natureza dos relacionamentos sem confundi-los com suas paix\u00f5es. O relacionamento entre as pessoas \u00e9 muito importante e, especialmente quando ele diz respeito a dois praticantes, \u00e9 essencial que cada um saiba como colaborar com o outro sem criar problemas e obst\u00e1culos. \u00c9 natural para os seres humanos viverem como casais mais do que renunciar \u00e0s paix\u00f5es. Se dois praticantes vivem juntos eles precisam n\u00e3o basear seu relacionamento em paix\u00e3o cega, porque isto pode ter conseq\u00fc\u00eancias extremamente negativas. Mas se o casal compreende a natureza essencial das paix\u00f5es, ent\u00e3o, este casal pode integrar as pr\u00f3prias paix\u00f5es com sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que significa quando no <em>tantrismo<\/em> se fala em transforma\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es em sabedorias. No Dzogchen, se a pessoa sabe entrar e permanecer no estado de \u201co que \u00e9\u201d, todas as suas paix\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es, etc, podem tornar-se experi\u00eancias que ajudar\u00e3o \u00e0 pessoa a desenvolver seus conhecimentos. N\u00e3o \u00e9 verdade que o praticante n\u00e3o deve ter paix\u00f5es, e precisa tornar-se como uma rocha. De fato, a verdade \u00e9 quase o inverso; um praticante precisa estar no controle total de todas as manifesta\u00e7\u00f5es de sua energia, e, sem estar distra\u00eddo por elas, precisa integr\u00e1-las com a contempla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os ensinamentos Dzogchen sempre advertem que a pessoa tente ajudar a si mesma, que ela deve dar a m\u00e3o a si mesma. Mas como, exatamente? A pessoa deve tentar estar sempre consciente de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o nas v\u00e1rias circunst\u00e2ncias em que se encontre, e, se estiver muito agitada ou confusa, deve tentar relaxar e dar espa\u00e7o a si mesma. Se estiver cansada, deve descansar. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma necessidade de seguir regras precisas, mesmo se, como j\u00e1 dissemos, elas possam ser \u00fateis algumas vezes. Precisamos sempre nos lembrar de nosso objetivo, que \u00e9 uma maneira de viver nossas vidas com a verdadeira <strong><em>presen\u00e7a<\/em><\/strong> da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Precisamos agir com consci\u00eancia, tamb\u00e9m, na nossa rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, de modo que o desenvolvimento interior do indiv\u00edduo possa realmente evoluir para uma plena maturidade. Muitas ideologias pol\u00edticas encorajam o indiv\u00edduo a engajar-se numa luta para construir uma sociedade melhor. Mas o caminho que eles prop\u00f5em para fazer isto \u00e9 atrav\u00e9s da derrubada da sociedade antiga, talvez por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, entretanto, os benef\u00edcios produzidos por tais meios s\u00e3o relativos e provis\u00f3rios, e uma verdadeira equanimidade entre as classes sociais nunca \u00e9 conseguida. A verdade \u00e9 que uma sociedade melhor surgir\u00e1 apenas atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Isto porque a sociedade \u00e9 feita de milh\u00f5es de indiv\u00edduos. Para contar um milh\u00e3o, a pessoa tem que come\u00e7ar com o n\u00famero um, que significa que a pessoa tem que come\u00e7ar com o indiv\u00edduo, o \u00fanico lugar que a pessoa pode realmente come\u00e7ar a mudar alguma coisa. Isto n\u00e3o significa colocar-se em primeiro lugar de forma ego\u00edsta, mas sim desenvolver uma compreens\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de toda a humanidade atrav\u00e9s da compreens\u00e3o de nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia. Com esta experi\u00eancia como nosso guia, saberemos como agir com consci\u00eancia em qualquer circunst\u00e2ncia em qualquer tipo de sociedade.<\/p>\n<p>Precisamos saber como lidar com nossas situa\u00e7\u00f5es de acordo com as circunst\u00e2ncias que podemos encontrar, sem prejulgar ou falsificar nada. Assim, a fim de aprender como praticar Dzogchen a pessoa tem que observar a si mesma. Para fazer isto, ela deve apenas prestar aten\u00e7\u00e3o por uns poucos minutos \u00e0 maneira como seus pensamentos, seus julgamentos e suas id\u00e9ias v\u00eam e v\u00e3o, como ondas que surgem e desaparecem. A natureza caracter\u00edstica de nossas mentes \u00e9 que cada pensamento pode ser uma causa secund\u00e1ria para o desenvolvimento de uma a\u00e7\u00e3o. Assim se, em nossas vidas, formos conscientes e presentes em rela\u00e7\u00e3o a todos os aspectos de nossa exist\u00eancia, certamente experimentaremos menos problemas.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais importante tentar estar presente e consciente todo o tempo do que dedicar um per\u00edodo limitado cada dia a pr\u00e1ticas espec\u00edficas. Aprender os detalhes de t\u00e9cnicas de medita\u00e7\u00e3o, visualiza\u00e7\u00e3o, etc, \u00e9 secund\u00e1rio. Existe um ditado no Dzogchen que diz <em>\u201cA coisa principal n\u00e3o \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o, mas o conhecimento\u201d<\/em>. E, de fato, se a pessoa n\u00e3o tem este conhecimento, a medita\u00e7\u00e3o se torna simplesmente uma cria\u00e7\u00e3o da mente, uma constru\u00e7\u00e3o sup\u00e9rflua. Mas de onde vem o verdadeiro conhecimento? Ele surge da consci\u00eancia de nossa exist\u00eancia no n\u00edvel relativo, que \u00e9 a verdadeira base para a compreens\u00e3o da medita\u00e7\u00e3o e da natureza da mente.<\/p>\n<p>Este termo, \u201ca natureza da mente\u201d, pode muito bem ser uma frase elegante e fascinante, mas o problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o sabem realmente o que ela significa. Se n\u00e3o vivermos realmente na natureza da mente e tivermos apenas um conceito mental dela, mesmo que possamos falar dela, e pensar sobre ela, tudo isto realmente n\u00e3o tem nada a ver com sua realidade. Se estivermos famintos, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 suficiente apenas pensar \u201cComer e n\u00e3o comer \u00e9 a mesma coisa\u201d; ou, \u201cN\u00e3o h\u00e1 alimento no n\u00edvel da natureza mente\u201d. \u00c9 melhor que entendamos nossa situa\u00e7\u00e3o material como ela realmente \u00e9. A natureza da mente \u00e9 um termo que se refere a uma condi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 al\u00e9m da exist\u00eancia do corpo, da voz e da mente, cujo conhecimento pode surgir apenas atrav\u00e9s da experi\u00eancia. Conhecendo os limites e caracter\u00edsticas da condi\u00e7\u00e3o relativa a pessoa pode realmente tornar-se consciente de sua verdadeira natureza.<\/p>\n<p>Um praticante precisa estar sempre consciente da import\u00e2ncia de sua rela\u00e7\u00e3o com o mestre. Um mestre ensina atrav\u00e9s de tr\u00eas transmiss\u00f5es, <em>direta<\/em>, <em>simb\u00f3lica<\/em> e <em>oral<\/em>. Mas a transmiss\u00e3o <em>oral<\/em> n\u00e3o tem lugar apenas nos momentos em que o mestre est\u00e1 formalmente sentado numa sala com centenas de pessoas diante dele, a quem ele est\u00e1 explicando v\u00e1rios aspectos te\u00f3ricos dos ensinamentos. O mestre pode transmitir o estado de conhecimento a qualquer momento, e qualquer conversa ou conselho que ele possa dar \u00e9 parte da transmiss\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Se o mestre encontra o corpo f\u00e9tido de um rato morto e mostra ao disc\u00edpulo dizendo \u201cSinta este fedor!\u201d \u2013 esta pode ser a maneira que ele escolheu usar para transmitir conhecimento do estado de contempla\u00e7\u00e3o. Sentir o fedor de um rato morto \u00e9 uma experi\u00eancia direta, concreta, e a pessoa em face disso n\u00e3o precisa mentir ou fazer um grande esfor\u00e7o para ter a experi\u00eancia. Se, ent\u00e3o, atrav\u00e9s dessa experi\u00eancia o disc\u00edpulo for capaz de entender o estado em que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre um odor terr\u00edvel e o aroma de uma rosa, o rato morto foi suficiente como meio de transmiss\u00e3o. Mas isto \u00e9 apenas um exemplo da infinita variedade de situa\u00e7\u00f5es que o mestre pode usar. Os ensinamentos n\u00e3o s\u00e3o algo sagrado, que seja encontrado apenas nos templos e nas escrituras, eles s\u00e3o verdadeiramente a real compreens\u00e3o do estado inerente de toda experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Garab Dorje, o primeiro mestre Dzogchen, ap\u00f3s ensinar por toda a sua vida, deixou para todos os praticantes de Dzogchen do futuro um pequeno testamento, tr\u00eas versos. Os versos dizem:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong><em>Descubra diretamente seu estado.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>N\u00e3o permane\u00e7a na d\u00favida.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Ganhe confian\u00e7a na auto-libera\u00e7\u00e3o\u00b3.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><em>\u201cDescubra diretamente seu estado\u201d<\/em><\/strong> refere-se \u00e0 transmiss\u00e3o pelo mestre, que, de v\u00e1rias maneiras, introduz e traz o disc\u00edpulo \u00e0 compreens\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de \u201co que \u00e9\u201d, o estado primordial do indiv\u00edduo. Esta \u00e9 a <em>Base<\/em>.<\/p>\n<p>\u00a0<strong><em>\u201cN\u00e3o permane\u00e7a na d\u00favida\u201d<\/em><\/strong>significa que a pessoa precisa ter um conhecimento preciso deste estado, encontrando o estado da presen\u00e7a de contempla\u00e7\u00e3o que \u00e9 um e o mesmo em todos os milhares de experi\u00eancias. Este \u00e9 o <em>caminho<\/em>.<\/p>\n<p><strong><em>\u201cGanhe confian\u00e7a na auto-libera\u00e7\u00e3o\u201d<\/em><\/strong>este \u00e9 o <em>fruto<\/em>. Isto significa que o conhecimento completo e inalter\u00e1vel da auto-libera\u00e7\u00e3o est\u00e1 totalmente integrado com a vida di\u00e1ria da pessoa, e que em todas as circunst\u00e2ncias ela continua no estado. Todas as centenas e centenas de textos originais de Dzogchen podem ser consideradas como sendo uma explica\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas versos de Garab Dorge. Mas, os ensinamentos n\u00e3o s\u00e3o apenas como um livro ou uma tradi\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o um estado vivo de conhecimento.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li><em>Isso foi introduzido no Tibet do leste, ligado ao trabalho de dois mestres \u201cJam-dbyangs-mkhen-brtse\u2019i dbang-po\u201d (1820-92) e \u201cJam-mgon Kong-sprul\u201d (1813-99).<\/em><\/li>\n<li><em>Esse texto, uma obra de Nub Sangye Yeshe (832-942), recapitula as caracter\u00edsticas de todas as tradi\u00e7\u00f5es budistas, incluindo o Ch\u2019an, Zen e o Tantrismo, em rela\u00e7\u00e3o com os ensinamentos Dzogchen. \u00c9, portanto de uma extrema import\u00e2ncia para compreender as diferentes vis\u00f5es e pr\u00e1ticas entre o Dzogchen e as outras escolas, durante o per\u00edodo da primeira difus\u00e3o do budismo no Tibet.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>3. \u00a0Em tibetano: ngo-rang-tu-sprad\/thag-gcig-thog-tu bcad\/gdeng-grol-thog-tu-bca\u2019.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Namkha\u00ef Norbu Rinpoche Tradu\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas: Maria Heleosina Ribeiro Pess\u00f4a Revis\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o das notas: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso Esta tradu\u00e7\u00e3o foi realizada para um c\u00edrculo restrito de praticantes de Dzogchen, assim sendo pedimos a considera\u00e7\u00e3o de n\u00e3o divulg\u00e1-la. \u00a0INTRODU\u00c7\u00c3O &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-estado-de-auto-perfeicao\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1320,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-1115","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dzogchen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1115"}],"version-history":[{"count":9,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5551,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1115\/revisions\/5551"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1320"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1115"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1115"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1115"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}