{"id":1125,"date":"2015-01-17T08:29:38","date_gmt":"2015-01-17T10:29:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?page_id=1125"},"modified":"2018-02-12T19:11:11","modified_gmt":"2018-02-12T21:11:11","slug":"o-vazio-e-a-nao-dualidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-vazio-e-a-nao-dualidade\/","title":{"rendered":"O vazio e a n\u00e3o-dualidade"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<h2><strong><a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Fract055.gif\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-611\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Fract055-300x225.gif\" alt=\"Fract055\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Fract055-300x225.gif 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/Fract055-400x300.gif 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/strong><\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>O VAZIO E A N\u00c3O-DUALIDADE<\/strong><\/h2>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Ser\/N\u00e3o-ser, Vazio\/N\u00e3o-dualidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Nas religi\u00f5es, na Ci\u00eancia e nas Filosofias.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Compilado e organizado por: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso\/Karma Tenpa Dhargye<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>NAS\u00a0 RELIGI\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>HINDUISMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>ISHA UPANISHAD<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>1) &#8211; BRAHMAN &#8211; A UNIDADE<\/strong><strong> : <\/strong>Unidade de Deus e o Mundo\u00a0\u00a0 [versos 4-5]<\/p>\n<p>O senhor e o mundo, ainda quando parecem distintos, n\u00e3o diferem na realidade um do outro, eles s\u00e3o um s\u00f3 Brahma.<\/p>\n<p><strong>O \u00daNICO IM\u00d3VEL<\/strong><\/p>\n<p>Brahma \u00e9 a \u00fanica realidade est\u00e1vel e eterna. \u00c9 Uno porque n\u00e3o h\u00e1 nada mais, dado que toda exist\u00eancia e n\u00e3o-exist\u00eancia se trata dele. \u00c9 est\u00e1vel e im\u00f3vel, porque movimento implica mudan\u00e7a no espa\u00e7o e mudan\u00e7a no tempo, e Ele, ao estar al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo, \u00e9 imut\u00e1vel. Possui eternamente em si tudo o que \u00e9, foi ou sempre ser\u00e1 e, portanto Ele n\u00e3o aumenta nem diminui. Esta al\u00e9m da causalidade e da relatividade e, portanto, em Seu ser n\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7a de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>MAIS VELOZ QUE A MENTE<\/strong><\/p>\n<p>O mundo \u00e9 um movimento c\u00edclico <em>(samsara)<\/em> da exist\u00eancia divina no espa\u00e7o e no tempo. Sua lei e, em um sentido, seu objeto \u00e9 a progress\u00e3o; existe pelo movimento e se dissolver\u00e1 por cessa\u00e7\u00e3o de movimento. Mas a base deste movimento n\u00e3o \u00e9 material; \u00e9 a energia da consci\u00eancia ativa a qual, por seu movimento e multiplica\u00e7\u00e3o em diferentes princ\u00edpios [diferentes em apar\u00eancia, iguais em ess\u00eancia], cria oposi\u00e7\u00f5es de unidade e multiplicidade, divis\u00f5es de tempo e espa\u00e7o, rela\u00e7\u00f5es e agrupamentos de circunst\u00e2ncia e causalidade.<\/p>\n<p>Todas essas coisas s\u00e3o reais na consci\u00eancia, por\u00e9m, somente simb\u00f3licas do ser, como se o imaginado por uma mente criadora fosse verdadeira representa\u00e7\u00e3o de s\u00ed mesma, sem constituir-se em absolutamente real em compara\u00e7\u00e3o com ela mesma, ou real com um g\u00eanero diferente de realidade.<\/p>\n<p>Por\u00e9m a consci\u00eancia mental n\u00e3o \u00e9 o poder que cria o universo. Trata-se de algo infinitamente mais potente, veloz e livre de restri\u00e7\u00f5es que a mente. \u00c9 a pura e onipotente auto-sapi\u00eancia do Absoluto isenta de ataduras de qualquer lei da relatividade.<\/p>\n<p>As leis da relatividade, sustentadas pelos deuses, s\u00e3o suas cria\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. Sua aparente eternidade \u00e9 somente dura\u00e7\u00e3o, incomensur\u00e1vel para n\u00f3s, do mundo que eles governam. S\u00e3o leis que regulam o movimento e a mudan\u00e7a, n\u00e3o leis que liguem o senhor ao movimento. Os deuses, portanto, s\u00e3o descritos como correndo em seu deslocamento. Mas o senhor est\u00e1 livre e n\u00e3o lhe afeta seu pr\u00f3prio movimento.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fazer, por\u00e9m chegar-a-ser em termos e formas de exist\u00eancia consciente.<\/p>\n<p>No vir-a-ser, cada indiv\u00edduo \u00e9 Brahma diversamente representado e entrando em diversas rela\u00e7\u00f5es com Aquele no rol da consci\u00eancia divina; no Ser, cada indiv\u00edduo \u00e9 todo Brahma.<\/p>\n<p>Brahma, como o Absoluto ou o Universal, tem o poder de colocar-se atr\u00e1s de S\u00ed Mesmo narelatividade. (multiplicidade) (&#8230;)<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo pode at\u00e9 se considerar como eternamente diferente do Uno, ou se quiser, eternamente uno com Ele, por\u00e9m ainda diferente, ou pode, em sua consci\u00eancia, voltar inteiramente \u00e0 pura Identidade. Por\u00e9m nunca pode considerar-se como independente de certo g\u00eanero de Unidade, pois tal parecer corresponderia a uma verdade inconceb\u00edvel no universo ou al\u00e9m dele. (&#8230;)<\/p>\n<p>Essa coexist\u00eancia, dif\u00edcil de conceber para o intelecto l\u00f3gico, pode experimentar-se mediante a identifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia com Brahma.<\/p>\n<p>Inclusive ao afirmar a Unidade, devemos recordar que Brahma est\u00e1 al\u00e9m de nossas diferencia\u00e7\u00f5es mentais e se trata de um fato que n\u00e3o condiz com o pensamento que discrimina, sen\u00e3o com o Ser que \u00e9 Absoluto, Infinito, e que escapa a nossa discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nossa consci\u00eancia \u00e9 representativa e simb\u00f3lica; n\u00e3o pode conceber a coisa-em-si-mesma, o Absoluto, a n\u00e3o ser por nega\u00e7\u00e3o, em uma esp\u00e9cie de Vazio, esvaziando de tudo quanto pare\u00e7a conter o Universo, e tudo o que est\u00e1 aqui no espa\u00e7o\/tempo e al\u00e9m do espa\u00e7o\/tempo.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de uma meta final no movimento da Natureza mesma \u00e9 ilus\u00f3ria. Pois Brahma \u00e9 Absoluto e Infinito. Nada, dentro das apar\u00eancias do universo, pode ser inteiramente Brahma enquanto consci\u00eancia relativa; tudo \u00e9 somente uma representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do Incognosc\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Todas as coisas j\u00e1 se realizaram em Brahma<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p>(&#8230;) A vis\u00e3o humana ou ego\u00edsta \u00e9 a de um mundo de inumer\u00e1veis criaturas separadas, cada uma auto-existente e diferente das demais, cada uma procurando lograr o m\u00e1ximo proveito poss\u00edvel dos demais e do mundo, por\u00e9m a vis\u00e3o divina, o modo como \u201cDeus v\u00ea\u201d o mundo, \u00e9 Ele mesmo, como Ser \u00fanico, que vive inumer\u00e1veis exist\u00eancias que s\u00e3o Ele mesmo.(&#8230;) O ser individual tem de mudar a vis\u00e3o humana e ego\u00edsta pela divina, suprema e universal, e viver nessa realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, portanto, ter o conhecimento da unidade, na equa\u00e7\u00e3o, EU SOU ELE <em>(So ham),<\/em> e nesse conhecimento estender a exist\u00eancia consciente de si de modo tal que abarque toda a multiplicidade.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ideal duplo ou sint\u00e9tico do <em>Isha Upanishad<\/em><em>;<\/em> abarcar simultaneamente <em>Vidya<\/em> e <em>Avidya<\/em>, o Um e os Muitos; existir no mundo, por\u00e9m mudar os termos da morte pelos termos da imortalidade; ter a liberdade e a paz do N\u00e3o-Nascimento simultaneamente com a atividade do Nascimento. (versos 9-14)<\/p>\n<p>\u201cIsha Upanishad\u201c &#8211; Ed. Kier &#8211; Sri Aurobindo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>TAOISMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong>TAO TE KING<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O Tao que pode ser pronunciado<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>n\u00e3o \u00e9 o Tao eterno.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O nome que pode ser proferido<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>n\u00e3o \u00e9 o Nome eterno.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Ao princ\u00edpio do C\u00e9u e da Terra\u00a0 chamo\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>N\u00c3O-SER.<\/em><\/strong><\/p>\n<h3><strong><em>Dirigir-se para o N\u00e3o-Ser\u00a0 leva<\/em><\/strong><\/h3>\n<p><strong><em>\u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da maravilhosa Ess\u00eancia;<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>dirigir-se para o Ser leva <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00e0 contempla\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es espaciais.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Pela origem,\u00a0 AMBOS S\u00c3O UMA COISA S\u00d3,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Diferindo apenas\u00a0 no nome.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Em sua Unidade, esse Um \u00e9 mist\u00e9rio.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O mist\u00e9rio dos mist\u00e9rios<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00e9 o portal por onde entram as maravilhas. <\/em><\/strong><\/p>\n<p>Pode se designar com o nome de \u201cn\u00e3o-ser\u201d ao mundo da ess\u00eancia e com o nome de \u201cser\u201d, ao mundo dos fen\u00f4menos. O \u201cn\u00e3o-ser\u201d \u00e9 ent\u00e3o, o princ\u00edpio do C\u00e9u e da Terra; o \u201cSer\u201d, a origem de todos os Entes. Por isso, concentrando-nos sobre o \u201cn\u00e3o-ser\u201d, contemplamos os segredos da ess\u00eancia e, concentrando-nos sobre o \u201cser\u201d, contemplamos a apar\u00eancia externa, espacial, das coisas. N\u00e3o se deve, no entanto, pensar que se trata de um mundo duplo, de um aqu\u00e9m e de um al\u00e9m. Ao contr\u00e1rio, a diferen\u00e7a reside apenas no nome. O nome de um \u00e9 \u201cser\u201d; o outro \u00e9 \u201cn\u00e3o-ser\u201d. Mas, apesar da diferen\u00e7a dos nomes, trata-se de um \u00fanico e mesmo fato: o obscuro segredo de cuja profundeza brotam todos os milagres<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>Quando o intelecto se defronta com o Vazio ele chega ao seu limite. Da\u00ed em diante a linguagem l\u00f3gica, os conceitos, julgamentos de valor, n\u00e3o poder\u00e3o mais ser usados. Para exprimir o inexprim\u00edvel teremos de recorrer ent\u00e3o \u00e0s par\u00e1bolas, contradi\u00e7\u00f5es, e aos paradoxos. O Vazio, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 somente o limite do pensamento humano, \u00e9 tamb\u00e9m a porta para o transcendental.<\/p>\n<p>[1] &#8211; TAO &#8211; TE\u00a0 KING &#8211; Lao-Tzu &#8211; Trad. Richard Wilhelm [pag. 135]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>BUDISMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>MAHA-PRAJNA-PARAMITA\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A MAIS ALTA E PERFEITA SABEDORIA<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Assim, eu ouvi.<\/p>\n<p>Certa vez, o Aben\u00e7oado, juntamente com v\u00e1rios dos maiores <em>Bodhysattvas<\/em> e um grande n\u00famero de <em>bhikhus<\/em>, se encontravam em Rajagriha, no monte Gridhrakuta. O Aben\u00e7oado estava absorvido no <em>samadhi<\/em> e o nobre Avalokitesvara meditava sobre o profundo <em>Prajna-Paramita<\/em>.<\/p>\n<p>O vener\u00e1vel Sariputra, influenciado pelo Aben\u00e7oado, absorvido no <em>samadhi,<\/em> perguntou ao nobre <em>Bodhysattva<\/em> Avalokitesvara: &#8211; Se um homem ou uma mulher quisesse estudar o <em>Prajna-Paramita<\/em>, como podia faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>O nobre Avalokitesvara respondeu: &#8211; Deve o homem ou a mulher primeiramente se livrar de todas as suas id\u00e9ias egoc\u00eantricas. Dever\u00e1 refletir: \u201cPersonalidade? O que \u00e9 personalidade? Ser\u00e1 uma entidade permanente ou ser\u00e1 feita de subst\u00e2ncias impermanentes que desaparecem?\u201d.<\/p>\n<p>A personalidade \u00e9 composta dos cinco agregados do apego:<\/p>\n<p>A forma, a sensa\u00e7\u00e3o, a percep\u00e7\u00e3o, as forma\u00e7\u00f5es mentais e a consci\u00eancia, que s\u00e3o, por natureza, desprovidas de natureza pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong><em>A forma<\/em><\/strong> \u00e9 vazia de qualquer subst\u00e2ncia pr\u00f3pria e o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente da forma; na realidade, a forma \u00e9 o vazio.<\/p>\n<p><strong><em>A sensa\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> \u00e9 vazia de subst\u00e2ncia pr\u00f3pria, o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente da sensa\u00e7\u00e3o, nem a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente do vazio; na realidade, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 o vazio<\/p>\n<p><strong><em>A percep\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong> tamb\u00e9m \u00e9 vazia de subst\u00e2ncia pr\u00f3pria, o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente da percep\u00e7\u00e3o, nem a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente do vazio; na verdade, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 o vazio.<\/p>\n<p><strong><em>As forma\u00e7\u00f5es mentais<\/em><\/strong>tamb\u00e9m s\u00e3o vazias de subst\u00e2ncia pr\u00f3pria, o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente das forma\u00e7\u00f5es mentais, nem forma\u00e7\u00f5es mentais s\u00e3o diferente do vazio; na verdade, as forma\u00e7\u00f5es mentais s\u00e3o vazias.<\/p>\n<p><strong><em>A consci\u00eancia<\/em><\/strong>tamb\u00e9m \u00e9 vazia de subst\u00e2ncia pr\u00f3pria, o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente da consci\u00eancia, nem a consci\u00eancia \u00e9 diferente do vazio; portanto na verdade, a consci\u00eancia \u00e9 vazia.<\/p>\n<p>Assim sendo, Sariputra, todas as coisas que t\u00eam\u00a0 a natureza do vazio n\u00e3o t\u00eam nem princ\u00edpio nem fim. Eles n\u00e3o s\u00e3o culpados, nem sem culpa; eles n\u00e3o s\u00e3o perfeitos nem imperfeitos. No vazio n\u00e3o h\u00e1 forma, nem sensa\u00e7\u00e3o, nem percep\u00e7\u00e3o, nem consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na realidade n\u00e3o h\u00e1 olhos, nem ouvidos, nem nariz, nem l\u00edngua, nem sensibilidade do contato, nem mente. N\u00e3o h\u00e1 vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, olfato, gusta\u00e7\u00e3o, tato, nem processos mentais, nem objetos desses processos mentais, nem conhecimento, (consci\u00eancia) nem ignor\u00e2ncia. N\u00e3o h\u00e1 destrui\u00e7\u00e3o dos objetos ou cessa\u00e7\u00e3o do conhecimento, nem cessa\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia. [n\u00e3o h\u00e1 subst\u00e2ncia pr\u00f3pria]<\/p>\n<p>Na Realidade [Absoluto] n\u00e3o existem as Quatro Nobres Verdades: n\u00e3o h\u00e1 Dor, nem causa da Dor, nem cessa\u00e7\u00e3o da Dor, nem Nobre Caminho que leva \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o da Dor. N\u00e3o h\u00e1\u00a0 decad\u00eancia ou morte, nem destrui\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia e morte. N\u00e3o h\u00e1 o conhecimento do Nirvana, n\u00e3o h\u00e1 obten\u00e7\u00e3o do Nirvana, nem n\u00e3o-obten\u00e7\u00e3o do <em>Nirvana<\/em>.<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o h\u00e1 obten\u00e7\u00e3o do <em>Nirvana<\/em><em>?<\/em> Porque o <em>Nirvana<\/em> \u00e9 o dom\u00ednio do \u201cn\u00e3o-pensar\u201d. Se o ego ou a personalidade fosse uma entidade permanente, n\u00e3o se poderia alcan\u00e7ar o <em>Nirvana<\/em>. Somente porque a personalidade \u00e9 constitu\u00edda de elementos impermanentes que se desintegram, essa personalidade pode alcan\u00e7ar o <em>Nirvana<\/em>. Enquanto o homem estiver \u00e0 procura da mais alta e perfeita Sabedoria, ele estar\u00e1 ainda habitando o dom\u00ednio da consci\u00eancia objetiva. No mais profundo <em>Samadhi<\/em>, tendo transcendido a consci\u00eancia objetiva, ele tamb\u00e9m ultrapassa a discrimina\u00e7\u00e3o e o conhecimento; transcendendo as garras do medo, \u201cele\u201d j\u00e1 estar\u00e1 se deliciando no <em>Nirvana<\/em>.<\/p>\n<p>A perfeita compreens\u00e3o e a paciente aceita\u00e7\u00e3o disso \u00e9 a mais alta e perfeita Sabedoria \u2013 <em>Prajna-Paramita<\/em>. Todos os Budhas do passado, presente e futuro, tendo alcan\u00e7ado o mais alto <em>Samadhi,<\/em> se encontram na realiza\u00e7\u00e3o da Suprema Sabedoria.<\/p>\n<p>Assim sendo, Sariputra, todos deveriam procurar a auto-realiza\u00e7\u00e3o da Suprema Sabedoria &#8211; <em>Prajna-Paramita<\/em>, da Verdade Transcendental, que realiza o fim de todos os sofrimentos, a Verdade que \u00e9 eternamente verdadeira.<\/p>\n<p>\u00d3 <em>Prajna-Paramita<\/em>! Verdade Transcendental que se estende ao agitado oceano da vida e morte, leva contigo em seguran\u00e7a todos os teus seguidores para a outra margem, para a Ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou\u00e7am o <em>mantra<\/em>, o Grande Misterioso <em>Mantra<\/em><em>:<\/em>\u00a0 \u201cV\u00e1, v\u00e1 em seguran\u00e7a \u00e0 outra margem, \u00f3 <em>Prajna-Paramita<\/em>! Que assim seja!\u201d<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Tadyata Om Gate, Gate, Parasamgate, Bodhi, SOha<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Segundo Nagarjuna, o vazio (s\u00e2nsc<em>. shunya<\/em><em>)<\/em> \u00e9 a aus\u00eancia de uma ess\u00eancia [pr\u00f3pria], de uma exist\u00eancia inerente (s\u00e2nsc. <em>svabhava<\/em>). A aus\u00eancia de uma ess\u00eancia n\u00e3o significa que os fen\u00f4menos n\u00e3o existam, e sim que eles s\u00e3o destitu\u00eddos de \u201cexist\u00eancia pr\u00f3pria\u201d, de uma \u201cnatureza pr\u00f3pria\u201d, e que eles \u201cexistem\u201d apenas em depend\u00eancia de causas, partes e condi\u00e7\u00f5es (origina\u00e7\u00e3o dependente ou <em>pratitya samutpada<\/em>). O <em>nirvana<\/em> (incondicionado) e o <em>samsara<\/em> (condicionado) seriam igualmente vazios.<\/p>\n<p>O surgimento interdependente dos fen\u00f4menos \u00e9 a vacuidade e vice-versa. \u00c9 como olhar os dois lados de uma mesma moeda. O vazio de exist\u00eancia por si mesmo [exist\u00eancia inerente] significa que o mundo que alucinamos, cheio de objetos e pessoas independentes e permanentes, n\u00e3o existe. Isso n\u00e3o quer dizer, por\u00e9m, que nada existe e que podemos ficar hist\u00e9ricos ou explodir de energia nervosa. Essa \u00e9, normalmente, a rea\u00e7\u00e3o exagerada que temos quando nossa mente toca pela primeira vez o espa\u00e7o absoluto, mas ainda n\u00e3o compreende ou n\u00e3o aceita essa realidade. O que existe s\u00e3o coisas, pessoas e objetos surgidos interdependentemente, transformando-se e funcionando momento ap\u00f3s momento segundo a lei do <em>karma<\/em>. A lei do <em>karma<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma coisa m\u00edstica, mas uma an\u00e1lise precisa da transmuta\u00e7\u00e3o da energia e dos fen\u00f4menos, que parece ter alguma semelhan\u00e7a com as leis de conserva\u00e7\u00e3o da energia da f\u00edsica moderna.<\/p>\n<p><sup>(T.Y.S. Lama Gangchen, Ngelso)<\/sup><\/p>\n<p>Pelo enfoque da Escola da Vis\u00e3o do Caminho do Meio, a Escola <em>Madhyamaka<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 qualquer apego a qualquer conceito sobre a natureza absoluta, essencial. Em nenhuma experi\u00eancia dos agregados h\u00e1 algo verdadeiramente real. Se examinarmos a natureza b\u00e1sica da realidade, n\u00e3o encontraremos nada que constitua a sua ess\u00eancia, mas isto n\u00e3o implica num mero nada.<\/p>\n<p>A falta de uma realidade palp\u00e1vel, n\u00e3o obstante, permite a express\u00e3o cont\u00ednua de todos os tipos de experi\u00eancias. Ao investigarmos a Natureza \u00daltima, descobrimos que n\u00e3o h\u00e1 qualquer caracter\u00edstica fundamental, realidade essencial, palp\u00e1vel, ou qualquer realidade verdadeira, absoluta, o que significa que todas as coisas s\u00e3o \u201cvazias\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, a Vacuidade n\u00e3o \u00e9 distingu\u00edvel da apar\u00eancia dos fen\u00f4menos que experimentamos. Os fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o separ\u00e1veis da Natureza Fundamental e, assim, nossa experi\u00eancia b\u00e1sica do mundo \u00e9, na verdade, t\u00e3o somente a \u201cVacuidade Fundamental\u201d, ou a falta de Realidade \u00daltima de todas as coisas [Formas da vacuidade].<\/p>\n<p>Desta forma, a \u201cVerdade Relativa\u201d (sobre o modo como as apar\u00eancias e experi\u00eancias funcionam) e a \u201cVerdade Absoluta\u201d (sobre a natureza fundamentalmente vazia e sem realidade constat\u00e1vel nas coisas) s\u00e3o insepar\u00e1veis, n\u00e3o s\u00e3o duas coisas diferentes, mas um todo integrado.\u00a0 [Os fen\u00f4menos s\u00e3o o vazio, e o vazio s\u00e3o os fen\u00f4menos. O vazio e as formas se interpenetram]<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto de vista b\u00e1sico da Escola <em>Madhyamaka<\/em> conforme explicado pelo S\u00e1bio Nagarjuna e \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o do verdadeiro ponto de vista de um Iluminado sobre a Realidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se alcan\u00e7ar este ponto de vista: atingindo-o por est\u00e1gios, entendendo-o todo de uma s\u00f3 vez, reconhecendo-o por meio de met\u00e1foras, etc. Meramente descrevi aqui, em termos gerais, qual \u00e9 a natureza deste ponto de vista.\u00a0 [&#8230;]<\/p>\n<p>Segundo a perspectiva da <em>Madhyamaka<\/em>, a verdade do sofrimento, a verdade da fonte do sofrimento, bem como dos atos de comer, de dormir e de praticar quaisquer atividades corriqueiras mundanas, s\u00e3o todos igualmente desprovidos de qualquer realidade intr\u00ednseca. Ocorrem atrav\u00e9s de surgimentos condicionados sem possu\u00edrem qualquer Realidade Fundamental, seja l\u00e1 qual for. Somente em assim sendo o caso, pode o mundo tal qual o experimentamos surgir, j\u00e1 que se existisse alguma Realidade Fundamental relativa a este mundo, ou, se a Vacuidade fosse algo completamente diferente da nossa experi\u00eancia usual, n\u00e3o haveria nenhuma maneira pela qual qualquer experi\u00eancia pudesse ter ocorrido inicialmente. A Vacuidade Fundamental n\u00e3o \u00e9 isolada de nossa experi\u00eancia corriqueira, nem \u00e9 em hip\u00f3tese alguma divorciada das Quatro Nobres Verdades e do Caminho da Liberta\u00e7\u00e3o do Sofrimento. Agora, todas estas formas de surgimento condicionado, conforme demonstramos por meio das Quatro Per\u00edcias da Madhyamaka \u2013 O Pequeno Diamante, etc. \u2013 n\u00e3o possuem nenhuma Realidade Absoluta. N\u00e3o obstante, surgem como se verdadeiramente l\u00e1 estivessem, exatamente como o elefante, em nosso sonho, parece realmente l\u00e1 estar. Mas, se examinarmos as condi\u00e7\u00f5es do mundo, se examinarmos de que forma aparecem, se examinarmos como produzem frui\u00e7\u00e3o, e procurarmos pela Qualidade Essencial, constataremos que, de qualquer um destes pontos de vista, as coisas n\u00e3o possuem nenhuma realidade intr\u00ednseca \u2013 tudo ocorre devido a determinadas causas e condi\u00e7\u00f5es. Este ponto de vista \u00e9 desenvolvido em maiores detalhes por Nagarjuna no <em>Prajna Nama Mula Madhyamaka Karika<\/em>. Da mesma forma como uma pessoa trancada em uma pris\u00e3o n\u00e3o tem nenhum jeito de escapar exceto se abrir a porta, tamb\u00e9m n\u00f3s, que ca\u00edmos sob os dom\u00ednios do sofrimento, n\u00e3o temos como nos livrar exceto atrav\u00e9s da compreens\u00e3o, atrav\u00e9s do reconhecimento da Natureza Fundamental da Realidade: a Vacuidade. O reconhecimento da Natureza Fundamental da Realidade \u00e9 por vezes chamado de \u201cOs Tr\u00eas Fatores Libertadores\u201d, quais sejam:<\/p>\n<p><strong>(1)<\/strong> \u2013 <em>Que nenhuma fonte real pode jamais ser descoberta;<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>(2) <\/strong>\u2013<em>Que as condi\u00e7\u00f5es resultantes n\u00e3o tem nenhuma natureza verdadeira intr\u00ednseca; e,<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>(3)<\/strong> \u2013 <em>O reconhecimento da qualidade essencial vazia de todas as apar\u00eancias.<\/em><\/p>\n<p>Pela apreens\u00e3o da verdade destes tr\u00eas fatores, podemos alcan\u00e7ar a compreens\u00e3o e podemos nos libertar do <em>samsara<\/em>. Esta vis\u00e3o suprema da Vacuidade une, invisivelmente, a Verdade Relativa e a Verdade Absoluta. Quer dizer, a Vacuidade apontada pela Escola <em>Madhyamaka<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma nulidade em branco, n\u00e3o \u00e9 uma mera aus\u00eancia de qualidades, muito embora, em uma an\u00e1lise final, ela seja indescrit\u00edvel. A Vacuidade \u00e9 uma potencialidade total na medida em que d\u00e1 vaz\u00e3o a todos os surgimentos e a todas as apar\u00eancias que ocorrem aos seres sensoriais. \u00c9 a vis\u00e3o integrada dos n\u00edveis convencional e \u00faltimo que precisa ser obtida a fim de se alcan\u00e7ar a Realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este campo supremo de Vis\u00e3o Interior, o <em>Dharmadhatu<\/em>, ou Espa\u00e7o B\u00e1sico de todos os <em>Dharmas<\/em>, \u00e9 freq\u00fcentemente apontado como sendo a M\u00e3e de Todos os <em>Budhas<\/em> e <em>Bodhisatvas<\/em>, pois exatamente como uma m\u00e3e d\u00e1 nascimento \u00e0s crian\u00e7as, igualmente a Vis\u00e3o Interior da Natureza Fundamental produz todos os seres iluminados do passado, do presente e do futuro. A Natureza Fundamental da Vacuidade e Apar\u00eancia Integrais \u00e9 similar, muito parecida, como o interior de um espa\u00e7o vazio e, embora tenhamos tentado descrev\u00ea-la nos ensinamentos precedentes, \u00e9 basicamente indescrit\u00edvel no que toca a impossibilidade de predicados (ou de constru\u00e7\u00f5es conceituais) serem a ela aplicados: transcende a todas as afirma\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas. Se permanecermos na consci\u00eancia meditativa com respeito a esta Sabedoria N\u00e3o-Discriminativa, al\u00e9m de qualquer poss\u00edvel concep\u00e7\u00e3o e, saindo de nossa medita\u00e7\u00e3o, reconhecermos todos os <em>dharmas<\/em> como sendo ilus\u00f5es, sonhos, ou reflex\u00f5es, os quais aparecem, mas n\u00e3o possuem nenhuma realidade fundamental, desenvolveremos confian\u00e7a na Vis\u00e3o Reta, a Natureza Integral das Duas Verdades. Tal \u00e9 a grande ferramenta do conhecimento transcendente, a Perfei\u00e7\u00e3o da Sabedoria, o <em>Prajna-Paramita<\/em>.<\/p>\n<p><sup>\u201cA Porta Aberta para a Vacuidade\u201d &#8211; Kenchen Thrangu Rinpoche &#8211; Ed. <\/sup><sup>Bodigaya<\/sup><\/p>\n<p>M. Eckhart cita Sto. Agostinho: \u201cA alma tem uma porta celestial para penetrar na natureza divina, onde algumas coisas s\u00e3o reduzidas ao vazio\u201d. Evidentemente temos de esperar que a porta celestial se abra ante as nossas repetidas batidas ou incessantes pancadas, quando se \u00e9 \u201cignorante no saber\u201d, \u201cinsens\u00edvel no amor\u201d, \u201cescuro na luz\u201d.<\/p>\n<p>Tudo vem dessa experi\u00eancia fundamental, e somente quando ela \u00e9 compreendida \u00e9 que penetramos no reino do vazio onde a divindade mant\u00e9m nossas mentes discriminat\u00f3rias\u00a0 inteiramente \u201creduzidas ao vazio\u201d. <sup>2<\/sup><\/p>\n<p>Para entrar em contato com essa \u201cfonte\u201d e saber o que ela \u00e9, (para ver minha pr\u00f3pria face antes mesmo que eu tenha nascido), tenho de mergulhar no \u201cGrande Vazio do Tao Absoluto\u201d.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>[2,3] &#8211; M\u00edstica Crist\u00e3 e Budista &#8211; Suzuki<\/p>\n<p>O que pensam os crist\u00e3os de \u201co divino n\u00facleo de absoluta quietude\u201d ou de \u201co simples n\u00facleo que \u00e9 o deserto tranq\u00fcilo em que n\u00e3o se insinuam quaisquer distin\u00e7\u00f5es\u201d?\u00a0 M. Eckart est\u00e1 de perfeito acordo com a doutrina budista do <em>Shunyata<\/em>, [VAZIO], quando sustenta a id\u00e9ia da divindade como \u201cpuro nada\u201d, <em>[ein bloss niht].<\/em> <sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Realmente, o que foi criado n\u00e3o tem realidade; \u201cTodas as criaturas s\u00e3o puro vazio\u201d, todas as coisas foram feitas por ele e, sem ele, nada do que foi feito, se fez. [Jo\u00e3o, 1,3]<\/p>\n<p>O imperador Wu era um bom estudante da filosofia budista e desejava que o primeiro princ\u00edpio fosse elucidado por Bodhidarma o grande mestre vindo da \u00cdndia. O primeiro princ\u00edpio consiste na identidade do Ser e do N\u00e3o-ser, al\u00e9m da qual os fil\u00f3sofos n\u00e3o podem ir. O imperador imaginou se esse bloqueio n\u00e3o poderia, de algum modo, ser rompido por Bodhidarma. Da\u00ed sua pergunta. Bodhidarma sabia que qualquer resposta que desse seria decepcionante. Ent\u00e3o respondeu as quest\u00f5es; \u201cQue \u00e9 a Realidade? Que \u00e9 a Divindade?\u201d\u00a0 \u201cA vasta Vacuidade, sem nada Santo dentro dela\u201d.<\/p>\n<p>[4,5] &#8211; M\u00edstica Crist\u00e3 e Budista- Suzuki<\/p>\n<p>Uma passagem do <em>\u201cPrajnaparamita-Hridaya-Sutra\u201d<\/em> bastante impregnada da id\u00e9ia de <em>\u201cShunyata\u201d.<\/em> \u201cAssim \u00f3 Shariputra, todas as coisas t\u00eam o car\u00e1ter do vazio\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 pergunta \u201ccomo pode o indiv\u00edduo estar sempre com Budha?\u201d. Obteve a seguinte resposta de um mestre Zen: \u201cN\u00e3o tenhais perturba\u00e7\u00f5es na mente. Sede perfeitamente sereno com rela\u00e7\u00e3o ao mundo objetivo. Permanecer assim todo o tempo, num vazio absoluto e calmo, \u00e9 o caminho para a uni\u00e3o com Budha<sup>7<\/sup>\u201d.<\/p>\n<p>[6,7] &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o ao Zen Budismo &#8211; Suzuki<\/p>\n<p><strong>PRODUZIR O VAZIO<\/strong><\/p>\n<p>No Tao\u00edsmo o trabalho integral para consumar a ess\u00eancia e a vida se encontra inclu\u00eddo na express\u00e3o \u201cPRODUZIR O VAZIO\u201d. Encontrar o elixir espiritual, para passar da morte \u00e0 vida. Em que consiste este elixir espiritual? Significa: Permanecer sempre sem finalidade. O segredo profundo do \u201cbanho\u201d, que \u00e9 o mais profundo do nosso ensinamento, \u00e9 limitado desse modo ao trabalho de fazer VAZIO O CORA\u00c7\u00c3O. Com isso se tranq\u00fciliza o cora\u00e7\u00e3o. O que aqui revelei com palavras \u00e9 fruto de muito trabalho. Vamos esclarecer a tr\u00edplice concentra\u00e7\u00e3o budista sobre o VAZIO, ilus\u00e3o, e centro. Das tr\u00eas contempla\u00e7\u00f5es vem como primeira o VAZIO. Se observarmos todas as coisas como vazias, logo segue a ilus\u00e3o. Embora se saiba que s\u00e3o vazias, n\u00e3o as destru\u00edmos mas continuamos nossos afazeres no meio do vazio. Por\u00e9m se as coisas n\u00e3o s\u00e3o destru\u00eddas por n\u00f3s, tampouco\u00a0 damos valor a elas: isto \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o do centro. Enquanto se pratica a contempla\u00e7\u00e3o do vazio, sabemos que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel destruir as in\u00fameras coisas, e, no entanto n\u00e3o as tomamos em considera\u00e7\u00e3o. Desta maneira coincidem as tr\u00eas contempla\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m finalmente a for\u00e7a repousa na contempla\u00e7\u00e3o do VAZIO. Portanto quando praticamos a contempla\u00e7\u00e3o do VAZIO, o vazio esta seguramente vazio, por\u00e9m tamb\u00e9m a ilus\u00e3o \u00e9 vazia e o centro \u00e9 vazio. \u00c9 necess\u00e1ria uma grande for\u00e7a para praticar a contempla\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o, por\u00e9m tamb\u00e9m o vazio \u00e9 ilus\u00e3o e o centro \u00e9 tamb\u00e9m ilus\u00e3o. No caminho do centro criamos imagens do vazio, por\u00e9m n\u00e3o a denominamos vazias, mas de centrais. Praticamos tamb\u00e9m a contempla\u00e7\u00e3o da ilus\u00e3o, por\u00e9m n\u00e3o a chamamos de central. E quanto ao que concerne ao centro, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de falar mais<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p><sup>\u00a0[8]- O SEGREDO DA FLOR DE OURO &#8211;\u00a0\u00a0 C. G. Jung e R. Wilhelm<\/sup><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A VACUIDADE TRANSCENDE AS DUALIDADES<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>Nirvana<\/em>\u201d \u00e9 outra denomina\u00e7\u00e3o de Vacuidade. A express\u00e3o vacuidade, pode ser mal interpretada, por diversos motivos.<\/p>\n<p><strong>1 : \u00a0<\/strong>A lebre e o coelho n\u00e3o t\u00eam chifres, a tartaruga n\u00e3o tem pelos. Isso \u00e9 uma forma de vacuidade. <strong>O \u201cShunyata\u201d budista n\u00e3o significa aus\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p><strong>2 : \u00a0\u00a0<\/strong>Um fogo estava aceso at\u00e9 agora e j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1. Eis uma nova forma de vacuidade.<strong> O \u201cShunyata\u201d budista n\u00e3o significa extin\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>3 : \u00a0\u00a0<\/strong>A parede cerca o aposento: deste lado h\u00e1 uma mesa e do outro n\u00e3o h\u00e1 coisa alguma, o espa\u00e7o est\u00e1 desocupado.<strong> O \u201cShunyata\u201d budista n\u00e3o significa lacuna<\/strong>.<\/p>\n<p>Aus\u00eancia, extin\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o constituem a concep\u00e7\u00e3o budista de vacuidade. A vacuidade n\u00e3o est\u00e1 no plano da relatividade. \u00c9 a Vacuidade Absoluta, que transcende todas as formas de rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua, de sujeito e objeto, de nascimento e morte, de Deus e do mundo, de alguma coisa e nada, de sim e n\u00e3o, de afirma\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o. Na Vacuidade n\u00e3o existe tempo, nem espa\u00e7o, nem tornar-se, nem n\u00e3o ser. Ela \u00e9 o que faz todas as coisas poss\u00edveis; \u00e9 o zero pleno de infinitas possibilidades, \u00e9 o v\u00e1cuo de conte\u00fado inesgot\u00e1vel.<sup>9<\/sup><\/p>\n<p>[9] &#8211; M\u00cdSTICA CRIST\u00c3 E BUDISTA &#8211; Suzuki<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>C\u00e9u e terra tem a mesma raiz.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Tudo \u00e9 Um.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A forma vis\u00edvel das coisas n\u00e3o \u00e9 diferente do vazio,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>que \u00e9 sua natureza essencial.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Um \u201csatori\u201d fraco \u00e9 aquele em que o mundo do vazio<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00e9 ainda visto como diferente do mundo da forma.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Sua m\u00fatua interpenetra\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o foi percebida.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A mente \u00e9 a verdadeira natureza das coisas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Buda \u00e9 Mente.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A Mente n\u00e3o est\u00e1 no interior, nem no exterior,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>nem entre os dois.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>N\u00e3o \u00e9 o Ser ou o N\u00e3o-Ser, o nada ou o n\u00e3o-nada.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Portanto \u00e9 chamada a Mente sem morada.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A Mente transcende todas as formas,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>mas \u00e9 insepar\u00e1vel delas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Qual \u00e9 a subst\u00e2ncia desse Buda ou Natureza-Dharma?<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>No Budismo se chama \u201cShunya\u201d (Vazio).<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Ora, o \u201cShunya\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas o esvaziamento.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00c9 aquilo que esta vivendo, din\u00e2mico, carente de volume, n\u00e3o fixo, \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0para al\u00e9m da individualidade <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>ou personalidade.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A Matriz de todo o fen\u00f4meno.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Temos aqui o princ\u00edpio fundamental, a Doutrina, ou a Filosofia Budista.\u00a0 Com a experi\u00eancia da ilumina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a fonte de toda doutrina budista, percebemos o mundo de <em>\u201cshunyata\u201d.<\/em> Este mundo n\u00e3o fixo, carente de conte\u00fado, para al\u00e9m da realidade ou da personalidade [existe fora do dom\u00ednio da imagina\u00e7\u00e3o].<\/p>\n<p>De acordo com isso, a verdadeira subst\u00e2ncia das coisas, isto \u00e9, sua <em>Natureza-Budha<\/em> ou <em>\u201cDharma\u201d,<\/em> \u00e9 inconceb\u00edvel e inescrut\u00e1vel. Uma vez que tudo que \u00e9 imagin\u00e1vel compartilha da forma e da cor, seja o que for que se imagine ser a <em>Natureza-Buda<\/em> dever\u00e1 necessariamente ser irreal.<\/p>\n<p>A mente do ego, e a Mente C\u00f3smica s\u00e3o dois lados da mesma Realidade. Quando se compreende a verdadeira natureza do Universo sabe-se que n\u00e3o existe realidade nem objetiva nem subjetiva. Nesse mesmo instante estruturas \u201c<em>k\u00e1rmicas<\/em><em>\u201d<\/em> que carregariam voc\u00ea ao mais profundo dos infernos s\u00e3o apagadas. Esta verdadeira natureza \u00e9 a raiz e subst\u00e2ncia de todo ser sens\u00edvel. O homem custa a se convencer que sua pr\u00f3pria mente \u00e9 a Grandiosa Integridade compreendida por Budha, por isso se apega as formas superficiais e olha para a verdade fora de sua mente, lutando para ser um Budha, atrav\u00e9s de pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas. O que busca e n\u00e3o encontra ainda, est\u00e1 amarrado por suas ilus\u00f5es dos dois mundos: um da perfei\u00e7\u00e3o que esta al\u00e9m, de paz sem luta, de alegria sem fim; outro o mundo do cotidiano do sofrimento e do mal, sem sentido, com o qual vale muito pouco a pena se relacionar.<\/p>\n<p>Secretamente ele deseja o primeiro, mesmo porque abertamente despreza o \u00faltimo. Entretanto,\u00a0 hesita em mergulhar no fecundo Vazio, no abismo de sua pr\u00f3pria Natureza-Original, porque, na sua\u00a0 mais profunda inconsci\u00eancia, receia abandonar seu mundo familiar de dualismo pelo mundo desconhecido da Unidade, de cuja realidade ainda duvida.<\/p>\n<p>Neste mundo h\u00e1 incont\u00e1veis objetos e cada um \u00e9, respectivamente, o mundo inteiro. Quando algu\u00e9m chega a compreender esse fato, percebe que cada objeto, cada ser vivo \u00e9 o todo, mesmo\u00a0 que ele pr\u00f3prio n\u00e3o\u00a0 compreenda.<\/p>\n<p><strong><em>Se compreendermos o corpo de Budha,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>N\u00e3o existe mais nada.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Fonte original,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nossa pr\u00f3pria natureza<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00c9 o puro e verdadeiro Budha.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>\u00a0 \u00a0<\/em>Esse verso do <em>Sutra Shodoka<\/em>, \u201cO canto do <em>Satori <\/em>imediato\u201d, de Yoka Da\u00efshi, significa que, se compreendemos a realidade, se obtivermos a realiza\u00e7\u00e3o completa, nosso corpo\/Mente j\u00e1 \u00e9\u00a0Budha. Realizar\u00a0Budha significa receber e apreender a vida C\u00f3smica. Temos de compreender que nosso corpo e o Cosmos n\u00e3o est\u00e3o separados; eles formam uma unidade. A ess\u00eancia do <em>sutra<\/em> do <em>Hannya Shingyo<\/em> <em>(Prajna Paramita)<\/em> \u00e9:<\/p>\n<p><strong><em>Os fen\u00f4menos n\u00e3o s\u00e3o diferentes do vazio,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente dos fen\u00f4menos <\/em><\/strong><strong><sup>10<\/sup><\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0(A ess\u00eancia e os fen\u00f4menos se interpenetram)<\/strong><\/p>\n<p>[10] &#8211; SHODOKA &#8211; \u201cO CANTO DO IMEDIATO SATORI\u201d de Yoka Da\u00efshi &#8211; Tradu\u00e7\u00e3o e coment\u00e1rios de Ta\u00efsen Deshimaru.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ZERO = INFINITO<\/strong><\/p>\n<p>O \u201c<em>Prajna<\/em><em>\u201d<\/em> n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado quando algu\u00e9m atinge o mais profundo centro interno do \u201cpr\u00f3prio\u201d ser. N\u00e3o consiste na \u201cperman\u00eancia\u201d em um ponto m\u00edstico secreto do \u201cpr\u00f3prio\u201d ser, mas perman\u00eancia em parte alguma em particular, no ser ou fora dele. N\u00e3o consiste na auto-realiza\u00e7\u00e3o como afirma\u00e7\u00e3o do \u201cpr\u00f3prio\u201d ser limitado, ou no gozo da \u201cpr\u00f3pria\u201d ess\u00eancia espiritual interna, mas ao contr\u00e1rio \u00e9 isenta da necessidade de auto-afirma\u00e7\u00e3o e auto-realiza\u00e7\u00e3o de qualquer esp\u00e9cie. Numa palavra, <em>Prajna<\/em> n\u00e3o \u00e9 auto-realiza\u00e7\u00e3o, mas realiza\u00e7\u00e3o pura e simples al\u00e9m do sujeito e do objeto. Evidentemente, numa realiza\u00e7\u00e3o desse tipo a \u201cVacuidade\u201d j\u00e1 n\u00e3o mais se op\u00f5e \u00e0 \u201cPlenitude\u201d, porque Vacuidade e Plenitude s\u00e3o UM. O Zero \u00e9 igual ao Infinito. Onde existe \u201calguma coisa\u201d, um objeto definido ou limitado, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel existir a \u201cPlenitude\u201d. Mais uma vez, a \u201cVacuidade\u201d de todas as formas limitadas \u00e9 a plenitude do \u201cUM\u201d: entretanto, o UM jamais deve ser encarado como uma forma isolada. Para evitar essa tenta\u00e7\u00e3o, os mestres Zen sempre se referem a Vacuidade<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>[11]\u00a0 &#8211; Trechos do Livro THE ZEN DOCTRINE OF NO MIND &#8211;\u00a0\u00a0 Daisetz Teitaro Suzuki<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>NA CI\u00caNCIA MODERNA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>BUDISMO, CI\u00caNCIA E TECNOLOGIA,<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0O Novo ve\u00edculo de Sabedoria<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Todas os fen\u00f4menos dos mundos externo e interno, com exce\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o natural e da vacuidade, existem na imperman\u00eancia. Das maiores cadeias de montanhas, estrelas e gal\u00e1xias \u00e0 corrente interna de energia de vida dos seres humanos com suas emo\u00e7\u00f5es e pensamentos sempre em muta\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 continuamente se desintegrando momento a momento e se transformando em outra manifesta\u00e7\u00e3o de vida e de energia elemental.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a c\u00f3smica da cria\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o, nos n\u00edveis grosseiro, sutil e muito sutil, segue o ritmo c\u00f3smico fundamental e a melodia do carma, da vacuidade e do surgimento interdependente dos fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, os yogues t\u00e2ntricos antigos e modernos, os mahasiddhas, santos, fil\u00f3sofos tibetanos (gueshes) e outros Seres Sagrados que pesquisam o mundo interior e os f\u00edsicos do s\u00e9culo XX, que investigam o mundo externo, independentemente uns dos outros, descobriram a verdade da vacuidade e da interdepend\u00eancia dos fen\u00f4menos. \u00c9 claro, que da perspectiva budista, tudo isso \u00e9 criado pela mente. Acreditamos que a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica interna da mente sutil e da energia, realizada por muitas gera\u00e7\u00f5es de yogues, santos e grandes meditadores, \u00e9 muito mais profunda e poderosa que a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do n\u00edvel grosseiro, realizada por nossa gera\u00e7\u00e3o atual. Entretanto, ambos parecem estar tocando a mesma realidade a partir de \u00e2ngulos diferentes e em diferentes n\u00edveis, Os cientistas est\u00e3o tocando a vacuidade e o surgimento interdependente dos fen\u00f4menos do ponto de vista objetivo, no n\u00edvel grosseiro, baseados nos objetos manifestos e no que pode ser registrado pelas m\u00e1quinas e conceitualmente formulado pela matem\u00e1tica. Os mahasiddhas e grandes meditadores tocam a vacuidade diretamente, subjetivamente e sem conceitos, nos n\u00edveis sutil e muito sutil, baseados em sua experi\u00eancia pessoal da dissolu\u00e7\u00e3o de seus elementos, ventos e consci\u00eancia, resultado de terem aprendido a cuidar de seus canais, ventos e gotas. Ambos est\u00e3o tocando a vacuidade e o surgimento interdependente dos fen\u00f4menos utilizando as estruturas de suas pr\u00f3prias metodologias cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Os <em>yogues <\/em>budistas afirmam o seguinte:<\/p>\n<p>&#8211; \u00a0Os fen\u00f4menos f\u00edsicos e mentais s\u00e3o vazios de exist\u00eancia em si mesmos, pois todos os fen\u00f4menos s\u00e3o proje\u00e7\u00f5es de nossa mente nos n\u00edveis grosseiro, sutil e muito sutil, e o criador supremo do universo fenom\u00eanico \u00e9 nossa mente muito sutil de clara luz<\/p>\n<p>&#8211; Todos os fen\u00f4menos se manifestam interdependentemente e funcionam devido ao <em>karma<\/em> (a lei de causa e efeito). Podemos examinar n\u00edveis diferentes de surgimento interdependente dos fen\u00f4menos, desde o mais grosseiro (as coisas dependem de suas partes, causas e condi\u00e7\u00f5es) at\u00e9 a interdepend\u00eancia no n\u00edvel muito sutil, quando percebemos que nosso \u201crotular\u201d mental dos fen\u00f4menos \u00e9 o verdadeiro ato de cria\u00e7\u00e3o que os traz \u00e0 realidade.<\/p>\n<p>&#8211; O macrocosmo \u00e9 um reflexo do microcosmo e vice-versa.<\/p>\n<p>Conforme posso entender, as id\u00e9ias defendidas pelos cientistas s\u00e3o as seguintes:<\/p>\n<p>Nenhum fen\u00f4meno do mundo material existe de forma concreta substancial ou independente como normalmente aparentam. Verificando o interior dos \u00e1tomos, n\u00e3o encontramos nada al\u00e9m de espa\u00e7o e energia em movimento.<\/p>\n<p>Todos os fen\u00f4menos materiais est\u00e3o se desintegrando e se transformando momento a momento, no n\u00edvel sutil, de acordo com uma precisa lei de conserva\u00e7\u00e3o da energia, segundo a qual, a energia nunca pode ser perdida no universo e, assim, se transforma continuamente em novas formas.<\/p>\n<p>Todos os fen\u00f4menos do macrocosmo e do microcosmo s\u00e3o uma grande rede interdependente, O macrocosmo reflete-se no microcosmo tal como os campos eletromagn\u00e9ticos de nossos corpos.<\/p>\n<p>Alguns pesquisadores da f\u00edsica qu\u00e2ntica afirmam que o universo material n\u00e3o pode ser entendido sem uma refer\u00eancia \u00e0 consci\u00eancia humana e que, de alguma forma, a mente est\u00e1 ajudando a criar os fen\u00f4menos materiais.<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, a vis\u00e3o dos yogues budistas est\u00e1 muito pr\u00f3xima da vis\u00e3o dos f\u00edsicos de hoje. Talvez suas explica\u00e7\u00f5es sejam exatamente as mesmas, ou talvez, muito pouco diferentes. Mesmo n\u00e3o podendo ter certeza sobre isso, n\u00e3o h\u00e1 como negar que os f\u00edsicos de hoje podem virtualmente concordar com a vis\u00e3o budista da realidade. Por isso, muitos cientistas est\u00e3o come\u00e7ando a se interessar por aspectos espec\u00edficos do budismo tibetano, e tamb\u00e9m por outras tradi\u00e7\u00f5es espirituais antigas, como o hindu\u00edsmo e o tao\u00edsmo.<\/p>\n<p>Os cientistas est\u00e3o iniciando um di\u00e1logo com os yogues budistas porque o budismo pesquisou por completo a rela\u00e7\u00e3o mente-mat\u00e9ria, os n\u00edveis sutil e muito sutil de consci\u00eancia e os cinco elementos. Se os cientistas tivessem acesso a esse n\u00edvel sutil subjetivo e objetivo da realidade, n\u00e3o precisariam comunicar-se com os Lamas. Isso n\u00e3o significa que os cientistas precisam tornar-se budistas. Os Lamas modernos como eu desejam apenas oferecer a ess\u00eancia da pr\u00e1tica e da filosofia Prajnaparamita, Pramana, Abhidharmakosha, do Tantra e outros m\u00e9todos aos cientistas, para que eles os utilizem como lhes parecer mais adequado.<\/p>\n<p>Sua Santidade o Dalai Lama est\u00e1 pedindo \u00e0 gera\u00e7\u00e3o atual de Lamas que mostrem a qualidade da investiga\u00e7\u00e3o budista ao mundo. Hoje em dia, quase tudo j\u00e1 foi examinado e pesquisado. As \u00fanicas coisas interessantes que ainda n\u00e3o foram pesquisadas por completo s\u00e3o as mensagens das antigas culturas de sabedoria, como o budismo tibetano. Precisamos fazer uma ponte entre a maravilhosa pesquisa dos cientistas modernos e a maravilhosa investiga\u00e7\u00e3o dos lamas, yogues e mahasiddhas. Eu gostaria de organizar uma s\u00e9rie de confer\u00eancias sobre isso e publicar os resultados para poder apresentar com clareza as boas novas dos cientistas e yogues ao mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que os cientistas entendam tudo sobre o budismo ou que os budistas entendam tudo sobre a ci\u00eancia. Precisamos apenas explorar conjuntamente as \u00e1reas de interesse comum e fazer uma ponte, iniciar o di\u00e1logo e a comunica\u00e7\u00e3o. Essa troca \u00e9 muito importante pois, no pr\u00f3ximo s\u00e9culo, todos n\u00f3s estaremos ligados \u00e0 ci\u00eancia ou \u00e0 tecnologia, mas ainda estaremos procurando respostas profundas para o \u201csentido da vida e da realidade\u201d.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 interessado em pesquisar o solo comum entre o budismo e a ci\u00eancia, por favor, considere as seguintes cita\u00e7\u00f5es de uma sele\u00e7\u00e3o dos mais influentes cientistas do mundo interno e externo dos \u00faltimos dois mil e quinhentos anos como ponto de partida para sua reflex\u00e3o. Por favor, n\u00e3o se sinta desencorajado ou impaciente ao ler suas palavras. \u00c9 natural que os cientistas, em seu trabalho de investiga\u00e7\u00e3o da realidade, usem seus termos cient\u00edficos pr\u00f3prios para explicar suas descobertas. Mesmo n\u00e3o conhecendo o significado de algumas destas palavras, \u00e9 poss\u00edvel ter algum sentimento sobre as verdades que eles est\u00e3o tentando revelar.<\/p>\n<p>Precisamos sentir e entender que essas duas correntes de vis\u00e3o e resultados experimentais possuem ambas a capacidade de desvelar algo da natureza fundamental do universo. Embora os cientistas do mundo interno e externo se expressem de formas diferentes, sinto que existe certamente uma rela\u00e7\u00e3o entre suas vis\u00f5es de mundo e, se fosse poss\u00edvel sintetiz\u00e1-las, isso seria de grande benef\u00edcio para a sociedade, tanto em termos do desenvolvimento da ci\u00eancia e da tecnologia, quanto para o desenvolvimento da paz interior e da paz no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A<\/strong> <strong>VACUIDADE<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O bodisatva Avalokitesvara disse no Sutra da Ess\u00eancia da Perfei\u00e7\u00e3o da Sabedoria, h\u00e1 dois mil e quinhentos anos:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong><em>\u201cForma \u00e9 Vacuidade, Vacuidade \u00e9 Forma<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Vacuidade n\u00e3o \u00e9 outra coisa que forma. Forma tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 outra coisa que vacuidade\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cAssim, os sentimentos, a discrimina\u00e7\u00e3o e os fatores composicionais s\u00e3o vazios. Portanto&#8230; na vacuidade n\u00e3o h\u00e1 corpo existente por si mesmo, sentimento existente por si mesmo, consci\u00eancia existente por si mesma. N\u00e3o h\u00e1 forma existente por si mesma, som existente por si mesmo, cheiro existente por si mesmo, gosto existente por si mesmo, objetos t\u00e1teis existentes por si mesmos, fen\u00f4menos mentais existentes por si mesmos\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tchandrakirti, um famoso <em>mahasiddha <\/em>indiano do s\u00e9culo IV, fil\u00f3sofo e cientista interno, disse em seu coment\u00e1rio das quatrocentas estrofes de Aryadeva:<\/p>\n<p><em>\u201cQue as coisas existam por si mesmas significa que as coisas n\u00e3o s\u00e3o dependentes de outros fatores para sua exist\u00eancia. Mas porque as coisas realmente dependem de outros fatores, n\u00e3o pode haver exist\u00eancia por si mesma\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Robert Oppenheimer, o f\u00edsico que desenvolveu a bomba de hidrog\u00eanio para os americanos durante a Segunda Guerra Mundial, afirmou:<\/p>\n<p><em>\u201cSe perguntarmos, por exemplo, se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron permanece a mesma, devemos responder que n\u00e3o; se perguntarmos se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron muda com o tempo, devemos responder que n\u00e3o; se perguntarmos se ele est\u00e1 em movimento, devemos responder que n\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Buda deu as mesmas respostas quando interrogado sobre as condi\u00e7\u00f5es do \u2018eu\u2019 do homem ap\u00f3s a morte. Mas essas n\u00e3o s\u00e3o respostas familiares \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo XVII ou XVIII\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Thomas Stapp disse em seu relat\u00f3rio para a comiss\u00e3o de energia at\u00f4mica dos Estados Unidos:<\/p>\n<p><em>\u201cCom certeza n\u00e3o existe um mundo f\u00edsico substancial\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Heisenberg comentou a descoberta da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica com as seguintes palavras:<\/p>\n<p><em>\u201cFoi como se nos tirassem o ch\u00e3o. N\u00e3o havia mais nenhuma funda\u00e7\u00e3o firme sobre a qual se pudesse construir algo\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Niels Bohr, o pai da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica ganhador do Pr\u00eamio Nobel, afirmou:<\/p>\n<p><em>\u201cA mec\u00e2nica qu\u00e2ntica imp\u00f5e a necessidade de uma ren\u00fancia definitiva \u00e0s id\u00e9ias cl\u00e1ssicas de causalidade, assim como uma revis\u00e3o radical de nossa atitude em rela\u00e7\u00e3o ao problema da realidade f\u00edsica\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>A INTERDEPEND\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Na ci\u00eancia interna budista, temos a imagem de uma rede feita de j\u00f3ias cobrindo o telhado do pal\u00e1cio de Indra, na qual cada j\u00f3ia reflete a rede e o pal\u00e1cio inteiros. Lama Tsong Khapa, um famoso budista tibetano, cientista interno e fil\u00f3sofo do s\u00e9culo XIV, fundador da escola Guelupa, afirmou:<\/p>\n<p><em>\u201cA Rainha das Raz\u00f5es, a Interdepend\u00eancia dos Fen\u00f4menos, mostra que \u201ctodas as coisas carecem de exist\u00eancia por si mesmas, pois s\u00e3o<\/em><em>fen\u00f4menos dependentemente relacionados\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>E em seu texto <em>Os Tr\u00eas Principais Aspectos do Caminho, <\/em>ele diz:<\/p>\n<p><em>\u201cQuem enxergar a rela\u00e7\u00e3o causa-efeito completamente n\u00e3o ilus\u00f3ria de todos os fen\u00f4menos do samsara e do Nirvana e destruir todas as percep\u00e7\u00f5es dualistas enganosas entrar\u00e1 no caminho que satisfaz os conquistadores\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Pantchen Tchoekyi Gyaltsen, um famoso budista tibetano do s\u00e9culo XVI, cientista interno e detentor da linhagem de Lama Tsong Khapa, afirmou em seu texto <em>Lama Tchoepa:<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>\u201cN\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o, mas sim harmonia, entre a aus\u00eancia de um \u00fanico \u00e1tomo existente por si mesmo no samsara e no Nirvana e a rela\u00e7\u00e3o dependente n\u00e3o ilus\u00f3ria entre causa e efeito.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Niels Bohr, o f\u00edsico dinamarqu\u00eas do s\u00e9culo XIX ganhador do Pr\u00eamio Nobel, afirmou:<\/p>\n<p><em>\u201cAs part\u00edculas materiais isoladas s\u00e3o abstra\u00e7\u00f5es, sendo suas propriedades defin\u00edveis e observ\u00e1veis apenas por meio da intera\u00e7\u00e3o com outros sistemas\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Thomas Stapp, um famoso f\u00edsico americano do s\u00e9culo XX, afirmou em um relat\u00f3rio patrocinado pela Comiss\u00e3o Norte-\u00adAmericana de Energia At\u00f4mica:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO mundo f\u00edsico n\u00e3o \u00e9 uma estrutura constru\u00edda a partir de entidades n\u00e3o analis\u00e1veis existentes independentes umas das outras, mas sim uma rede ele rela\u00e7\u00f5es entre elementos cujos significados surgem totalmente a partir de suas rela\u00e7\u00f5es com o todo\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 e<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><em>\u201cUma part\u00edcula elementar n\u00e3o \u00e9 uma entidade n\u00e3o-analis\u00e1vel que existe independente de outras, mas sim um conjunto de rela\u00e7\u00f5es que se estendem a outras coisas\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h1><strong>A RELA\u00c7\u00c3O ENTRE O MACROCOSMO E O MICROCOSMO<\/strong><\/h1>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O Tantra de Kalachakra diz:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cAssim como \u00e9 no mundo externo, tamb\u00e9m \u00e9 no mundo interno\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Segundo Bohm, um famoso f\u00edsico do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<p><em>\u201cAs partes s\u00e3o vistas como estando em conex\u00e3o imediata, na qual suas rela\u00e7\u00f5es din\u00e2micas dependem irredutivelmente do estado do sistema<\/em><em>como um todo e do todo do universo. Somos, portanto, levados <\/em>\u00e0 <em>nova no\u00e7\u00e3o de uma totalidade sem quebras, que nega a ideia cl\u00e1ssica da possibilidade de se analisar o mundo em partes separadas e existentes independentemente umas das outras\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><strong>A MENTE EST\u00c1 CRIANDO A REALIDADE MATERIAL<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Uma das conclus\u00f5es da f\u00edsica qu\u00e2ntica \u00e9a de que os fen\u00f4menos s\u00e3o trazidos \u00e0 <strong>exist\u00eancia <\/strong>pelo nosso ato mental que os rotula ou os nomeia, por exemplo, \u201cgato vivo ou gato morto\u201d. Segundo essa teoria, talvez os fen\u00f4menos n\u00e3o existam sen\u00e3o como qualifica\u00e7\u00f5es mentais. Isso \u00e9o mesmo que os s\u00e1bios budistas v\u00eam dizendo h\u00e1 s\u00e9culos. Estas s\u00e3o as palavras de Saraha, um mahasiddha indiano do s\u00e9culo X:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cApenas a mente \u00e9 a semente de todas as realidades, de onde se originam o samsara e o Nirvana\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Segundo James Jeans, um grande f\u00edsico americano do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cO curso do conhecimento est\u00e1 se movendo em dire\u00e7\u00e3o a uma realidade n\u00e3o mec\u00e2nica. O universo come\u00e7a a se parecer mais como um grande pensamento do que com uma grande m\u00e1quina\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Fritzof Capra, um f\u00edsico americano do s\u00e9culo XX, afirmou:<\/p>\n<p>\u201cA <em>abordagem \u2018bootstrap\u2019 abre a possibilidade in\u00e9dita de sermos for\u00e7ados a incluir explicitamente o estudo da consci\u00eancia humana nas futuras teorias da mat\u00e9ria.\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>E Evan Walker, um f\u00edsico americano do s\u00e9culo XX, disse:<\/p>\n<p><em>\u201cA consci\u00eancia pode ser associada a todos os processos da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Wolfgang Pauli, um f\u00edsico ganhador do Pr\u00eamio Nobel:<\/p>\n<p><em>\u201cA partir de um centro interno, a psique parece mover-se para fora no sentido de uma extrovers\u00e3o no interior do mundo f\u00edsico\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Eugene Wigner, um f\u00edsico americano do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o foi poss\u00edvel formular as leis da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica de uma forma completamente consistente sem referir-se \u00e0 consci\u00eancia\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em><sup>NGELSO \u2013 AUTOCURA III \u2013 T.Y.S. Lama Gangchen Tulku Rimpoche<\/sup><\/em><\/p>\n<p>\u201cToda a neurofisiologia, escreveu o Prof. P. Chauchard, repousa sobre a atividade psico-qu\u00edmica do sistema nervoso. A atividade nervosa \u00e9 uma verdadeira sociologia neur\u00f4nica de onde emerge o indiv\u00edduo superior\u201d. Os fen\u00f4menos da consci\u00eancia s\u00e3o n\u00e3o somente ligados a transforma\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, mas n\u00e3o se limitam somente a interven\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios espec\u00edficos. Assim escreve o Prof. Pierre Rylant: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, como mostrou claramente Sherrington, limitar a consci\u00eancia a interven\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios espec\u00edficos\u201d.<\/p>\n<p>Uma certa forma de consci\u00eancia se acha intimamente ligada a energia formando a ess\u00eancia de toda materialidade.<\/p>\n<p>\u00c9 de se supor que os caracteres de surgimento e de renova\u00e7\u00e3o onde se encontram marcados os mais altos estados de consci\u00eancia espiritual est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o processo de cria\u00e7\u00e3o constante que se persegue nas profundezas do mundo at\u00f4mico.<\/p>\n<p>Assim se exprime P. Jordan: <strong>\u201cA cada instante, h\u00e1 qualquer coisa de totalmente nova no interior de cada \u00e1tomo\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><sup>\u201cLe Zen\u201d \u2013 de Robert Linssen \u2013 Ed. <\/sup><sup>Marabout Universit\u00e9<\/sup><\/p>\n<p><strong>Matthieu Ricard:<\/strong> \u2013 &#8220;Quando fala da \u2018vacuidade\u2019 dos fen\u00f4menos, o budismo diz que estes \u2018aparecem\u2019, mas n\u00e3o refletem absolutamente a exist\u00eancia de entidades fixas. A f\u00edsica moderna nos diz que um el\u00e9tron, por exemplo, pode ser considerado uma part\u00edcula ou uma onda, duas no\u00e7\u00f5es completamente incompat\u00edveis, segundo o senso comum. Certos fen\u00f4menos de interfer\u00eancia causados por el\u00e9trons s\u00f3 podem ser explicados supondo-se que um el\u00e9tron passe no mesmo instante por dois buracos diferentes. Segundo o budismo, os \u00e1tomos n\u00e3o podem ser considerados como entidades fixas, existentes sob um modo \u00fanico e determinado; por conseguinte, como o mundo da manifesta\u00e7\u00e3o grosseira, que supostamente \u00e9 composto dessas part\u00edculas, teria uma realidade fixa? Tudo isso contribui para destruir nossa no\u00e7\u00e3o de solidez das apar\u00eancias. \u00c9 nesse sentido que o budismo afirma que a natureza \u00faltima dos fen\u00f4menos \u00e9 vacuidade, e que essa vacuidade traz em si um potencial infinito de manifesta\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>[&#8230;]. &#8220;Fala-se de part\u00edculas que \u2018n\u00e3o tem partes\u2019, que n\u00e3o podem ser subdivididas. Ou seja, o componente \u00faltimo da mat\u00e9ria. Consideremos agora uma dessas part\u00edculas indivis\u00edveis, concebida como uma entidade aut\u00f4noma. Como poderia ela se associar com outras part\u00edculas para constituir a mat\u00e9ria? Se essas part\u00edculas se tocarem, o oeste de uma part\u00edcula, por exemplo, tocar\u00e1 o leste da outra. Mas se t\u00eam dire\u00e7\u00f5es, elas podem ser novamente divididas e ent\u00e3o perdem seu car\u00e1ter \u2018indivis\u00edvel\u2019. Se n\u00e3o tem nem lados nem dire\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o se assemelham a um ponto matem\u00e1tico \u2013 sem dimens\u00e3o, espessura ou subst\u00e2ncia. Se tentarmos juntar duas part\u00edculas sem dimens\u00e3o, ou elas n\u00e3o se tocam e n\u00e3o podem se juntar, ou entram em contato e, ao fazerem isso, se confundem. Assim, uma montanha de part\u00edculas indivis\u00edveis poderia se fundir em uma s\u00f3 dessas part\u00edculas! A conclus\u00e3o, portanto, \u00e9 que n\u00e3o podem existir part\u00edculas indivis\u00edveis, descont\u00ednuas, dotadas de uma exist\u00eancia intr\u00ednseca, que seriam os constituintes da mat\u00e9ria. Al\u00e9m disso, se um \u00e1tomo possui uma massa, uma dimens\u00e3o, uma carga etc., ser\u00e1 ele id\u00eantico ao conjunto de seus atributos? Existe fora de seus atributos? O \u00e1tomo n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico a sua massa nem a sua dimens\u00e3o. Tampouco \u00e9 outra coisa al\u00e9m de sua massa e de sua dimens\u00e3o. O \u00e1tomo, portanto, tem um conjunto de caracter\u00edsticas, mas \u201dn\u00e3o \u00e9\u201d nenhuma delas. O \u00e1tomo, portanto, n\u00e3o passa de um conceito, uma etiqueta que n\u00e3o abarca uma entidade existente de modo independente e absoluto. Tem uma exist\u00eancia apenas convencional, relativa&#8221;. [&#8230;]<\/p>\n<p>Ao demonstrar que n\u00e3o podem existir part\u00edculas indivis\u00edveis, o budismo n\u00e3o pretende dar conta de fen\u00f4menos f\u00edsicos, no sentido no qual a ci\u00eancia os entende hoje: ele procura quebrar o conceito<em> intelectual<\/em> da solidez do mundo fenomenal. Pois \u00e9 esse conceito que faz apegar-nos ao \u2018eu\u2019 e aos fen\u00f4menos; portanto, \u00e9 esse conceito a causa da dualidade entre o eu e o outro, exist\u00eancia e n\u00e3o-exist\u00eancia, apego e repulsa etc., \u00e9 a causa de todos os nossos tormentos. De qualquer modo, nesse particular o budismo vai ao encontro, intelectualmente falando, de certas vis\u00f5es da f\u00edsica contempor\u00e2nea e sua contribui\u00e7\u00e3o deveria ser inclu\u00edda na hist\u00f3ria das id\u00e9ias. Eu gostaria de citar, por exemplo, um dos grandes f\u00edsicos de nossa \u00e9poca, Henri Margenau, professor da Universidade de Yale, que escreve: \u201cNo fim do s\u00e9culo XIX, sustentava-se que todas as intera\u00e7\u00f5es implicavam objetos materiais. Hoje em dia, em geral j\u00e1 n\u00e3o se considera isso uma verdade. Prefere-se pensar que se trata da intera\u00e7\u00e3o de campos de energia ou de outras for\u00e7as que s\u00e3o, basicamente, n\u00e3o-materiais\u201d. E Heisenberg dizia: \u201cOs \u00e1tomos n\u00e3o s\u00e3o coisas\u201d. Para Bertrand Russel: \u201cA id\u00e9ia de que existe ali uma bolinha, uma massinha s\u00f3lida que seria o el\u00e9tron, \u00e9 uma intrus\u00e3o ileg\u00edtima do senso comum, derivada da no\u00e7\u00e3o do tato\u201d, e ele acrescenta: \u201cA mat\u00e9ria \u00e9 uma f\u00f3rmula c\u00f4moda para descrever o que sobrev\u00eam no lugar onde, na verdade, a mat\u00e9ria n\u00e3o est\u00e1, portanto, no lugar onde n\u00e3o h\u00e1 nada\u201d. Por outro lado, Sir James Jeans, em suas<em> Rede\u2019s lectures (Conferencias de rede)<\/em> chegava a dizer que \u201cO universo come\u00e7a a parecer mais um grande pensamento do que uma grande m\u00e1quina\u201d. [&#8230;]<\/p>\n<p>\u201cO Monge e o Fil\u00f3sofo\u201d &#8211;\u00a0 Jean-Fran\u00e7ois Revel (Fil\u00f3sofo) e Matthieu Ricard (Monge)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><strong>BUDISMO E CI\u00caNCIA MODERNA<\/strong><strong>.<\/strong><\/h1>\n<p><strong>\u00a0<em>\u201cA vida e a consci\u00eancia existem ao n\u00edveldas part\u00edculas intranucleares\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>Dr. D. Lawden<\/em><\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 interessante notar que o progresso da ci\u00eancia moderna, especialmente da f\u00edsica e da psicologia, trazem\u00a0 a luz certas similitudes entre os ensinamentos da ci\u00eancia e do Budismo&#8221;.<\/p>\n<p>A rapidez da evolu\u00e7\u00e3o recente das ci\u00eancias obriga os pesquisadores a se descartar cada vez mais dos valores antigos.<\/p>\n<p>Esta atitude encontra indiretamente a do <em>Ch\u2019an<\/em> e do <em>Zen,<\/em> definida por um eminente cientista franc\u00eas, G. Cahen: <em>\u201cA despersonaliza\u00e7\u00e3o do julgamento cient\u00edfico \u00e9 considerado como uma condi\u00e7\u00e3o essencial de sua validade. Em toda medida o f\u00edsico deve lutar contra a precariedade duma constata\u00e7\u00e3o que seria muito individual. Ele deve sempre que poss\u00edvel eliminar sua equa\u00e7\u00e3o pessoal. Face ao fato, ele se torna invis\u00edvel, passivo, impessoal, inexistente\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Nessa mesma obra G. Cahen conclui por um lado pela identidade da ess\u00eancia entre o intelecto e o universo, e por outro lado a exist\u00eancia de um \u201cvazio\u201d como realidade fundamental do universo, o que nos lembra o <em>Sunyata <\/em>Budista.<\/p>\n<p>Ele declara: <em>\u201cO exame dos fen\u00f4menos em face ao conte\u00fado imediato de nossas percep\u00e7\u00f5es, apresenta dois caracteres que colocaremos em evid\u00eancia. Por um lado, esse processo revela uma identidade de ess\u00eancia entre o intelecto e o universo. Por outro lado esse conte\u00fado se esvazia progressivamente de sua subst\u00e2ncia aparente: a mat\u00e9ria tendendo ela mesma a n\u00e3o ser mais que uma forma vazia,<\/em><em>[Como \u00e9 dito no Maha-Prajna-Paramita Sutra: \u201cA forma \u00e9 vazia de qualquer subst\u00e2ncia pr\u00f3pria e o vazio n\u00e3o \u00e9 diferente da forma; na realidade, a forma \u00e9 o vazio\u201d] um campo de a\u00e7\u00e3o das propriedades estruturais de nossa mente, quer dizer qualquer coisa de imaterial.<\/em><\/p>\n<p><em>Exprimiremos assim da maneira mais extrema a tend\u00eancia \u00f9ltima da ci\u00eancia: \u201credu\u00e7\u00e3o da realidade ao vazio\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Esse vazio, esse N\u00e3o-Ser, esse \u201cNada\u201d, \u00e9 o Ser mais completo poss\u00edvel, pois ele cont\u00e9m potencialmente o universo\u201d.<\/p>\n<p>Podem-se estabelecer outros paralelismos entre os ensinamentos do Budismo e da ci\u00eancia moderna. Queremos mostrar aqui que o <em>satori<\/em>, esta experi\u00eancia fundamental do <em>Ch\u2019an<\/em> e do <em>Zen,<\/em> est\u00e1 em estreita liga\u00e7\u00e3o com uma interfus\u00e3o universal na qual participam todos os \u00e1tomos do corpo humano em rela\u00e7\u00e3o com o universo inteiro e reciprocamente.<\/p>\n<p>Tudo se sustenta, nada \u00e9 separado no universo, desde a densa mat\u00e9ria f\u00edsica at\u00e9 os \u00faltimos confins do universo n\u00e3o manifesto.<\/p>\n<p>As oposi\u00e7\u00f5es entre o mundo fenomenal e o mundo <em>no\u00famenal<\/em>, entre mat\u00e9ria e mente, entre o que \u00e9 regido pela lei de causa e efeito e o que est\u00e1 fora de toda a causalidade, entre o temporal e o atemporal, devem desaparecer. Elas existem somente em nosso intelecto.<\/p>\n<p>Na Antig\u00fcidade, tanto no Oriente como no Ocidente, n\u00e3o se estabeleciam distin\u00e7\u00f5es entre o pensamento filos\u00f3fico e o cient\u00edfico. Para o Budismo <em>Mahayana<\/em>, mente e mat\u00e9ria, o <em>Nirvana<\/em> e o <em>Samsara<\/em> s\u00e3o faces opostas, mas complementares de uma s\u00f3 e mesma realidade. Para Her\u00e1clito, Dem\u00f3crito, Pit\u00e1goras, Plat\u00e3o, e Arist\u00f3teles, os fen\u00f4menos naturais, a vida, o homem formam um todo homog\u00eaneo, insepar\u00e1vel. A recusa de considerar a unidade do f\u00edsico e do ps\u00edquico e as liga\u00e7\u00f5es existentes entre a microf\u00edsica e a metaf\u00edsica prov\u00e9m principalmente de uma tend\u00eancia que foi delineada no s\u00e9c. XVI, quando a ci\u00eancia se tornou experimental e se liberou de toda obedi\u00eancia religiosa, liberta\u00e7\u00e3o que permitiu \u00e0 ci\u00eancia e a t\u00e9cnica\u00a0 conseguirem os progressos extraordin\u00e1rios que atualmente assistimos, ao mesmo tempo perplexos e inquietos. N\u00f3s observamos um movimento durante o qual, desde o s\u00e9c. XIX, os s\u00e1bios foram obrigados a consagrarem-se a trabalhos cada vez mais espec\u00edficos e tornaram-se especialistas em raz\u00e3o da extens\u00e3o e da variedade dos fen\u00f4menos estudados. Eles recusaram de sa\u00edda qualquer inger\u00eancia da metaf\u00edsica na ci\u00eancia e tomaram atitudes parciais e sect\u00e1rias do cientificismo e do materialismo estrito, representados principalmente por Taine e Le Dautec.<\/p>\n<p>Veremos em seguida que esse movimento atravessa uma fase inversa. Os s\u00e1bios mais e mais numerosos adotam em nossos dias uma atitude absolutamente oposta. Eles cr\u00eaem superar as deforma\u00e7\u00f5es inerentes aos especialistas cujos conhecimentos, separados por compartimentos estanques, chegaram, voltados sobre eles mesmos, a verdadeiros impasses. Os s\u00e1bios compreendem hoje que todas as ci\u00eancias s\u00e3o solid\u00e1rias e que as descobertas aparentemente as mais afastadas se fecundam mutuamente em uma esp\u00e9cie de simbiose cont\u00ednua. Eles se dedicam de novo e de maneira definitiva ao estudo da unidade fundamental dos fen\u00f4menos. Eles se empenham em realizar uma s\u00edntese e uma coordena\u00e7\u00e3o das inumer\u00e1veis descobertas realizadas cada novo ano no mundo inteiro. \u00c9 assim que vemos reunidos no mesmo congresso astr\u00f4nomos, f\u00edsicos, qu\u00edmicos, especialistas em anatomia do c\u00e9rebro, cibern\u00e9ticos, bi\u00f3logos, m\u00e9dicos. Sem esta coopera\u00e7\u00e3o e esses confrontos cont\u00ednuos, sem tais \u00eaxitos o envio dos cosmonautas a Lua teria sido imposs\u00edvel. As s\u00ednteses novas que se formam de um encontro mais numeroso entre todos os especialistas de todos os setores nos for\u00e7am a repensar certas posi\u00e7\u00f5es tradicionais do pensamento. Nesta nova tend\u00eancia\u00a0 vemos reaparecer com uma for\u00e7a particular as institui\u00e7\u00f5es dos antigos s\u00e1bios do Oriente, impregnados de unidade e universalidade. Em um memor\u00e1vel estudo intitulado \u201cMicrof\u00edsica e Metaf\u00edsica\u201d, Mathilde Niel escreveu: <em>\u201cOs progressos conquistados nos dom\u00ednios muito variados da f\u00edsica, biologia, astronomia, psicologia conduzem a repensar certos problemas colocados a muito tempo pela espiritualidade e principalmente pela espiritualidade Oriental. As novas descobertas sobre o mundo at\u00f4mico e as part\u00edculas elementares obrigaram os pesquisadores a renovar inteiramente sua vis\u00e3o do universo e seu modo de pensar. A raz\u00e3o em si mesma que acredit\u00e1vamos imut\u00e1vel tem sido desmantelada, e Gaston Bachelard sa\u00fada a chegada de um novo esp\u00edrito cient\u00edfico. Mas essas descobertas tendem a transformar igualmente nosso senso metaf\u00edsico, ou se somos espiritualistas, nosso modo de experimentar o divino, \u00e9 preciso atentar que ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o racional sucede uma revolu\u00e7\u00e3o espiritual\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O ponto de partida da revolu\u00e7\u00e3o espiritual encontra-se nas revela\u00e7\u00f5es recentes sobre a natureza estranha do infinitamente pequeno. As descobertas relativas aos constituintes \u00faltimos da mat\u00e9ria s\u00e3o cada dia mais fascinantes. A import\u00e2ncia do papel do infinitamente pequeno\u00a0 em todos os fen\u00f4menos n\u00e3o somente f\u00edsicos mais igualmente bioqu\u00edmicos, biol\u00f3gicos, neurofisiol\u00f3gicos, e psicol\u00f3gicos se revela cada dia mais importante. Cada vez mais, a natureza energ\u00e9tica, n\u00e3o causal, atemporal e talvez n\u00e3o-condicionada do infinitamente pequeno nos conduz ao limiar de mundos f\u00edsicos e espirituais. Al\u00e9m da antiga mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, os s\u00e1bios, como Robert Tournaire, elaboraram uma mec\u00e2nica sub-qu\u00e2ntica. Nessa reside igualmente uma das revolu\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas e espirituais mais fundamentais dos tempos modernos. Esta posi\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio e s\u00edntese entre o materialismo ultrapassado e o espiritualismo se encontra, nos parece, definida nas tend\u00eancias modernas do <em>Zen<\/em>. Os progressos da biologia e da neurofisiologia psicol\u00f3gica s\u00e3o efeitos de descobertas do infinitamente pequeno. A evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, as muta\u00e7\u00f5es, correspondem a mudan\u00e7as de ordem molecular nos genes. O gene \u00e9 uma mol\u00e9cula complexa de \u00e1cido desoxiribonucleico [DNA] que transmite a hereditariedade desde a concep\u00e7\u00e3o. Os genes s\u00e3o reunidos em cromossomos. Cada c\u00e9lula humana cont\u00e9m 48 cromossomos ou 24 pares.<\/p>\n<p>E. Schr\u00f6dinger escreveu:<\/p>\n<p><em>\u201cGrupamentos incrivelmente pequenos de \u00e1tomos, pequenos demais para se conformarem \u00e0s leis estat\u00edsticas exatas, jogam uma regra dominante nos eventos muito bem ordenados que se produzem no interior de um organismo vivo\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Na obra \u201cA F\u00edsica e o segredo da vida org\u00e2nica\u201d o f\u00edsico alem\u00e3o P. Jordan nos mostra como alguns f\u00f3tons de luz projetados sobre a retina\u00a0 de um olho habituado a escurid\u00e3o s\u00e3o suficientes para criar uma sensa\u00e7\u00e3o luminosa, portanto <em>\u201cum processo de consci\u00eancia no interior do c\u00e9rebro humano\u201d<\/em>. Jordan acrescenta que <em>\u201cos fen\u00f4menos de ordem de grandeza at\u00f4mica correspondem, do ponto de vista f\u00edsico, ao movimento t\u00e3o fino e t\u00e3o t\u00eanue dos pensamentos e das sensa\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>. Os trabalhos do Dr. Roger Godel\u00a0 \u201cA experi\u00eancia liberadora, Vida e Renova\u00e7\u00e3o\u201d e os do Prof. Pierre Rylant, da Universidade de Bruxelas, colocaram em evid\u00eancia a import\u00e2ncia dos fen\u00f4menos eletr\u00f4nicos e el\u00e9tricos em todas as manifesta\u00e7\u00f5es da consci\u00eancia.<\/p>\n<p><em>\u201cToda a neurofisiologia, <\/em>escreveu o Prof. P. Chauchard,<em> repousa sobre a atividade psico-qu\u00edmica do sistema nervoso. A atividade nervosa \u00e9 uma verdadeira sociologia neur\u00f4nica de onde emerge o indiv\u00edduo superior\u201d<\/em>. Os fen\u00f4menos da consci\u00eancia s\u00e3o n\u00e3o somente ligados a transforma\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, e n\u00e3o se limitam somente \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios espec\u00edficos. Assim escreve o Prof. Pierre Rylant: <em>\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, como mostrou claramente Sherrington, limitar a consci\u00eancia a interven\u00e7\u00e3o de neur\u00f4nios espec\u00edficos\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Uma certa forma de consci\u00eancia se acha intimamente ligada a energia formando a ess\u00eancia de toda materialidade.<\/p>\n<p>\u00c9 de se supor que os caracteres de surgimento e de renova\u00e7\u00e3o onde se encontram marcados os mais altos estados de consci\u00eancia espiritual est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o processo de cria\u00e7\u00e3o constante que se busca nas profundezas do mundo at\u00f4mico.<\/p>\n<p>Assim se exprime P. Jordan: <em>\u201cA cada instante, h\u00e1 qualquer coisa de totalmente nova no interior de cada \u00e1tomo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p>Nos n\u00edveis mais profundos da vida espiritual, h\u00e1 precisamente alguma coisa integralmente nova e desconhecida, de instante a instante. \u00c9 em outros termos e em outro n\u00edvel, o que exprime igualmente M. Niel: <em>\u201cSe nosso sentimento de liberdade prov\u00e9m, como parece provar a nova psican\u00e1lise, da consci\u00eancia que n\u00e3o impede uma energia de ordem c\u00f3smica, ent\u00e3o a indetermina\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica e nosso sentimento de liberdade, embora diferentes um do outro, podem ter uma causa semelhante\u201d.<\/em> Esta causa semelhante \u00e9 evidentemente, para os mestres Zen, a Mente C\u00f3smica. Esta realidade se manifesta sob a forma de um campo para o qual muitos s\u00e1bios tentam estabelecer uma f\u00f3rmula, por\u00e9m qualquer que seja ela escapa a toda tentativa de formula\u00e7\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o de \u201cCampo Unificado\u201d preocupava particularmente A. Einstein, e Heisenberg. Na Fran\u00e7a J. Charon procurava a f\u00f3rmula de um campo unificado capaz de explicar em uma s\u00f3 equa\u00e7\u00e3o os campos nucleares, eletromagn\u00e9ticos, e gravitacionais. Os fen\u00f4menos nucleares, eletromagn\u00e9ticos, e gravitacionais s\u00e3o regidos por uma realidade id\u00eantica na qual est\u00e3o suspensas as manifesta\u00e7\u00f5es do universo inteiro. Esta realidade foi designada pelo astr\u00f4nomo ingl\u00eas Fred Hoyle como um \u201cCampo de Cria\u00e7\u00e3o\u201d. A no\u00e7\u00e3o de <em>campo<\/em> permite ultrapassar a antiga dualidade de mente e mat\u00e9ria. Tal \u00e9 igualmente a opini\u00e3o de Emile Br\u00e9hier que declara que <em>\u201co Campo seria a Realidade Universal que ultrapassa a distin\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e do esp\u00edrito\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Podemos deixar a conclus\u00e3o aos cuidados de M. Niel que escreveu: <em>\u201c\u00e9 curioso ver que a no\u00e7\u00e3o de campo, considerado como realidade universal, une certas intui\u00e7\u00f5es do pensamento oriental, principalmente a da Mente C\u00f3smica, do Zen-Budismo ou da Consci\u00eancia C\u00f3smica de Tagore\u201d.<\/em><\/p>\n<p>\u201c\u00c9, pois a a\u00e7\u00e3o desse campo sobre as part\u00edculas elementares que parece determinar as combina\u00e7\u00f5es infinitas, as cria\u00e7\u00f5es de estruturas novas, lim\u00edtrofes ao que chamamos de mat\u00e9ria, de vida, de consci\u00eancia.<\/p>\n<p><em>\u201cMas uma vez surgida a consci\u00eancia individual, o Campo Universal agir\u00e1 ent\u00e3o por seu interm\u00e9dio. Ela ser\u00e1 pois criadora, porque tem a mesma natureza que o Campo fundamental da cria\u00e7\u00e3o\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h1><strong>CAMPO DE CRIA\u00c7\u00c3O E SATORI<\/strong><\/h1>\n<p>Em sua ess\u00eancia mais profunda, o Universo se resolve em um <em>Campo Unificado de Cria\u00e7\u00e3o Pura<\/em>. O Ser puro dos fil\u00f3sofos, o Deus dos m\u00edsticos n\u00e3o seriam, pois diferentes. Quando estabelecemos em nossa mente uma vis\u00e3o panor\u00e2mica dos progressos recentes da maioria das ci\u00eancias, uma realidade emerge sobre qualquer outra: a do <em>campo unificado de cria\u00e7\u00e3o<\/em> onde se alimentam todas as manifesta\u00e7\u00f5es do universo vis\u00edvel e invis\u00edvel. Esta realidade ocupa um lugar de prioridade cuja evid\u00eancia se afirma dia a dia. Assim se exprime Schr\u00f6dinger:<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o existe sen\u00e3o uma s\u00f3 coisa, a pluralidade aparente \u00e9 uma s\u00e9rie de aspectos diferentes desta coisa \u00fanica\u201d. <\/em><\/p>\n<p>A complexidade da arquitetura celular que caracteriza o corpo humano manifesta uma admir\u00e1vel flexibilidade e uma receptividade\u00a0 perfeita dos ritmos mais profundos e mais sutis da natureza.<\/p>\n<p>O homem pode ser particularmente receptivo ao ritmo c\u00f3smico no qual se recria constantemente o universo porque sua ess\u00eancia e a do universo se confundem em <em>um campo de cria\u00e7\u00e3o id\u00eantico<\/em>.<\/p>\n<p>O <em>satori<\/em> do <em>Zen<\/em> ou do <em>Ch\u2019an<\/em> \u00e9 a experi\u00eancia viva do <em>Campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em> tomando consci\u00eancia de si mesmo por ele mesmo, em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Mas trata-se de uma comodidade de linguagem que parece fazer ainda algumas concess\u00f5es ao dualismo. Na realidade, a experi\u00eancia do <em>satori<\/em> esta al\u00e9m da dualidade do experimentador e da experi\u00eancia. Ela n\u00e3o \u00e9 mais uma objetiva\u00e7\u00e3o semelhante a outras experi\u00eancias familiares. Krishnamurti, o <em>Ch\u2019an<\/em> e o <em>Zen<\/em>, insistem particularmente sobre esse ponto. Quer estejamos l\u00e1 ou n\u00e3o, o <em>Campo unificado de cria\u00e7\u00e3o pura<\/em> \u00e9 a realidade fundamental do universo e de n\u00f3s mesmos fora de qualquer distin\u00e7\u00e3o de objeto e de sujeito. Por esta raz\u00e3o, a experi\u00eancia viva do <em>Campo unificado da cria\u00e7\u00e3o<\/em> exige de nossa parte uma abertura mental e uma transpar\u00eancia interior totais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>CO-EXTENSIVIDADE\u00a0 UNIVERSAL DO \u00c1TOMO E <em>SATORI<\/em><\/strong><\/h5>\n<p>Acabamos de examinar sumariamente as liga\u00e7\u00f5es que possam existir entre o\u00a0 <em>Campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura <\/em>e a\u00a0 experi\u00eancia do <em>Satori<\/em>.<\/p>\n<p>Propomo-nos agora examinar o comportamento do universo e dos \u00e1tomos que nos constituem, a um n\u00edvel mais aproximado do mundo fenomenal: onde perseguimos a extraordin\u00e1ria e constante interfus\u00e3o at\u00f4mica por interm\u00e9dio dos aspectos ondulat\u00f3rios da energia. Sabemos que a ess\u00eancia profunda da materialidade \u00e9 fluida, movente, em cont\u00ednua mudan\u00e7a. N\u00e3o podemos comparar o universo a um edif\u00edcio arquitetonicamente \u201cs\u00f3lido\u201d. O tempo, o espa\u00e7o, a solidez est\u00e3o ausentes nas \u201cbases \u00faltimas do mundo\u201d. Como exprime freq\u00fcentemente Lao-tzu, <em>\u201cA flexibilidade e a espontaneidade s\u00e3o as leis da Vida\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Temos mostrado repetidamente que esta flexibilidade e esta espontaneidade manifestam-se principalmente na forma de um processo fundamental: o processo das rela\u00e7\u00f5es. Definimos em detalhe as leis e as modalidades em uma outra obra que resumiremos aqui.<\/p>\n<p>Nas zonas \u00faltimas da materialidade, ao n\u00edvel intra-nuclear, assistimos \u00e0s inter-permuta\u00e7\u00f5es\u00a0 prodigiosas. Os corp\u00fasculos situados no interior dos n\u00facleos at\u00f4micos n\u00e3o t\u00eam nenhuma individualidade. Ap\u00f3s haver enunciado esse fato, enunciamos um principio: <em>\u201cNo intra-\u00e1tomo,\u00a0 o fato das rela\u00e7\u00f5es \u00e9 mais importante que a individualidade dos elementos interligados\u201d.<\/em> Podemos fazer a mesma constata\u00e7\u00e3o em biologia, onde a vida \u00e9 essencialmente fun\u00e7\u00e3o da habilidade celular, da flexibilidade, da rapidez e da fluidez das trocas. Os progressos da gen\u00e9tica moderna colocaram em evid\u00eancia a import\u00e2ncia da no\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o entre os genes de um indiv\u00edduo e os fatores do meio. O meio e a hereditariedade s\u00e3o fatores em cont\u00ednua intera\u00e7\u00e3o das quais depende todo comportamento do indiv\u00edduo. Os genes reagem entre eles, o meio reage sobre os genes e os genes por si mesmos mudam e operam por seu turno sobre um meio transformado. Isso, sobretudo no dom\u00ednio at\u00f4mico, assim uma vez mais descobriremos um novo aspecto do fato fundamental das rela\u00e7\u00f5es regendo o universo em todos os n\u00edveis. Evocamos precedentemente a intensidade das rela\u00e7\u00f5es ou das trocas no interior de um sistema at\u00f4mico entre o el\u00e9tron planet\u00e1rio e o n\u00facleo de um lado, do mesmo modo que no interior mesmo do n\u00facleo, por outro lado. Vamos examinar um fato bem mais significativo ainda.<\/p>\n<p><em>\u201cN\u00e3o existe no universo nenhum ser, nenhum objeto, alguma coisa, algum \u00e1tomo independente\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Assim se exprime T. Chardin:<\/p>\n<p><em>\u201cQuanto mais, pelos meios de um poder sempre aumentado, penetramos profundamente na mat\u00e9ria, mais as interliga\u00e7\u00f5es de suas partes nos confundem. Cada elemento do cosmos esta positivamente tecido de todos os outros, mais acima dele mesmo, pelo misterioso fen\u00f4meno da composi\u00e7\u00e3o que o faz subsistente, num conjunto organizado, e mais abaixo, pela influ\u00eancia sofrida das unidades de ordem superior que o englobam e o dominam para sua pr\u00f3pria finalidade.<\/em><\/p>\n<p><em>Imposs\u00edvel cortar-se essa rede, isolar uma pe\u00e7a, sem que essa n\u00e3o se desfie e se desmanche por todos os lados. A perder de vista, a nossa volta, o universo se mant\u00e9m por seu conjunto&#8230; e n\u00e3o h\u00e1\u00a0 sen\u00e3o uma maneira realmente poss\u00edvel de o considerar, \u00e9 tomando-o como um bloco inteiro\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A f\u00edsica moderna nos ensina, com efeito, que independentemente do seu aspecto corpuscular claramente definido e localizado, cada corp\u00fasculo at\u00f4mico comporta um aspecto oposto complementar: o aspecto ondulat\u00f3rio. A a\u00e7\u00e3o de um el\u00e9tron, por seu aspecto ondulat\u00f3rio, se estende ao universo inteiro.<\/p>\n<p>Existe uma presen\u00e7a potencial do aspecto ondulat\u00f3rio de cada corp\u00fasculo at\u00f4mico que nos constituem, que se estende at\u00e9 os \u00faltimos confins do universo [em expans\u00e3o ou n\u00e3o]. E reciprocamente, cada \u00e1tomo das nebulosas situadas nos abismos insond\u00e1veis de milhares de anos luz, est\u00e1 presente em cada um de n\u00f3s, em cada objeto, em cada gr\u00e3o de areia de nosso planeta. L\u00e1 se encontra trabalhando a constante, mas invis\u00edvel interpenetra\u00e7\u00e3o m\u00fatua de todos os constituintes do universo. Tudo se comporta como se o cosmos inteiro n\u00e3o fosse mais que um bloco imenso perfeitamente homog\u00eaneo. Tudo est\u00e1 em tudo, verdadeiramente, com uma intensidade, uma continuidade, uma profundidade tais que a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 impotente para conceber a mais fraca parte desta interfus\u00e3o universal. Repetindo \u2013 n\u00e3o diremos nunca suficientemente \u2013 afim de que cada um se impregne profundamente: Tudo est\u00e1 em tudo; o universo inteiro est\u00e1 em n\u00f3s e reciprocamente. Parece a primeira vista uma linguagem muito paradoxal vinda de um vision\u00e1rio ou poeta. Nada \u00e9, entretanto mais conforme \u00e0 verdade ao mesmo tempo f\u00edsica e metaf\u00edsica. Assim escreveu T. Chardin:<\/p>\n<p><em>\u201cO raio de a\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio a cada elemento c\u00f3smico deve ser prolongado por direito at\u00e9 os limites \u00faltimos do mundo. Pois que o \u00e1tomo \u00e9 naturalmente co-extensivo a todo espa\u00e7o no qual ele se situa, e j\u00e1 que este espa\u00e7o universal \u00e9 o \u00fanico que conhecemos, somos for\u00e7ados a admitir que \u00e9 esta imensid\u00e3o que representa o dom\u00ednio de a\u00e7\u00e3o comum a todos os \u00e1tomos. Cada um deles tem por volume, o volume do universo inteiro. O \u00e1tomo n\u00e3o \u00e9 mais o mundo microsc\u00f3pico e fechado que imagin\u00e1vamos&#8230; Ele \u00e9 o centro infinitesimal do mundo\u201d. <\/em><\/p>\n<p>Compreendemos enfim que um fragmento de mat\u00e9ria qualquer n\u00e3o \u00e9 somente constitu\u00eddo pela soma dos \u00e1tomos que a comp\u00f5e. H\u00e1 infinitamente mais que uma simples soma de elementos justapostos. Mas esta perspectiva nova \u00e9 t\u00e3o diferente daquela que aprendemos, e tamb\u00e9m daquela que nos oferecem os sentidos, que admitimo-la com espanto e dificuldade. Existe uma for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o que une cada fragmento de mat\u00e9ria, todos os \u00e1tomos, o universo inteiro e reciprocamente. A energia inclusa nesta for\u00e7a de liga\u00e7\u00e3o \u00e9 consider\u00e1vel e faz parte integrante da mat\u00e9ria de cada objeto, de todas as coisas, de cada ser. Teilhard Chardin escreveu a esse prop\u00f3sito:<\/p>\n<p><em>\u201cOs centros inumer\u00e1veis que partilham em comum um dado volume de mat\u00e9ria n\u00e3o s\u00e3o, portanto independentes. Alguma coisa une uns aos outros, e os faz solid\u00e1rios. Longe de se comportar como um recept\u00e1culo inerte, o espa\u00e7o que permeia essa multid\u00e3o age sobre ela \u00e0 maneira de um meio ativo\u00a0 de dire\u00e7\u00e3o e de transmiss\u00e3o no seio do qual a<\/em><em>pluralidade se organiza. Simplesmente adicionados ou justapostos, os \u00e1tomos n\u00e3o fazem ainda a mat\u00e9ria. Uma misteriosa unidade os engloba e os cimenta de uma maneira que nossa mente se choca, mas \u00e9 finalmente for\u00e7ada a aceitar\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Compreendemos no presente como \u00e9 rid\u00edculo considerar um ser vivo, uma coisa ou um objeto quaisquer sob o angulo de um isolamento ou de uma independ\u00eancia quaisquer que seja. Nada \u00e9 independente, isolado. Tudo se interpenetra. Pretender o isolamento de um objeto, tal como um corta-pap\u00e9is met\u00e1lico, porque os sentidos da vis\u00e3o e do tato lhe conferem contornos definidos e exatos \u00e9, de fato uma infantilidade que \u00e9 importante denunciar. A a\u00e7\u00e3o dos \u00e1tomos deste corta-pap\u00e9is se estende a totalidade dos mundos\u00a0 inter-estelares. Ela enche o universo inteiro at\u00e9 milhares de anos luz com sua presen\u00e7a potencial. E reciprocamente, qualquer coisa de cada um dos \u00e1tomos situados nos \u00faltimos confins das gal\u00e1xias se acham no \u00e2mago desse corta-pap\u00e9is aparentemente isolado. \u00c9 muito prov\u00e1vel que, se essa qualquer coisa de proveni\u00eancia long\u00ednqua n\u00e3o est\u00e1 presente, uma modifica\u00e7\u00e3o not\u00e1vel na organiza\u00e7\u00e3o coletiva dos \u00e1tomos e das mol\u00e9culas intervir\u00e1 e dar\u00e1 um aspecto ao nosso corta-pap\u00e9is absolutamente irreconhec\u00edvel. Milhares de liames invis\u00edveis, mas intensamente ativos unem entre si todas as partes aparentemente separadas do universo. Isso ilustra de maneira impressionante, n\u00e3o somente o fato fundamental das rela\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m a da interfus\u00e3o universal. Esta interfus\u00e3o universal \u00e9 o fato fundamental de cada segundo que se escoa, enquanto que, simultaneamente, a um n\u00edvel mais profundo, o <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em> regenera as \u00faltimas profundezas do universo.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante notar\u00a0 que o que acabamos de dizer forma a base dos ensinamentos do <em>Avatamsaka Sutra<\/em> o qual o <em>Kegon<\/em>, muito pr\u00f3ximo ao <em>Zen<\/em>, nos tem dado desenvolvimentos profundos. O fato da interfus\u00e3o [interdepend\u00eancia] est\u00e1 ai. Quer pensemos nisso ou n\u00e3o, quer saibamos ou n\u00e3o, a a\u00e7\u00e3o do aspecto ondulat\u00f3rio de todos os \u00e1tomos que nos constituem est\u00e1 presente no universo inteiro. E reciprocamente. Deste ponto de vista, o <em>Satori<\/em> n\u00e3o ser\u00e1 outra coisa do que uma tomada de consci\u00eancia desta interdepend\u00eancia, embora a um n\u00edvel mais profundo, o <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em> se revela em n\u00f3s e por n\u00f3s. A condi\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia viva da interfus\u00e3o c\u00f3smica poder\u00e1 ser enunciada como segue: \u00e9 indispens\u00e1vel deixar esta interfus\u00e3o \u201cser o que ela \u00e9\u201d sem que intervenhamos por um ato de vontade ou escolha. [caso essa interven\u00e7\u00e3o fosse poss\u00edvel!]. N\u00e3o devemos querer \u201cinterfundir\u201d. <em>A Interfus\u00e3o \u00c9<\/em>. N\u00e3o devemos querer nos recriar segundo o ritmo do <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em>. Ele se recria por si mesmo. N\u00e3o devemos proceder \u00e0 uma representa\u00e7\u00e3o mental qualquer da interfus\u00e3o ou da ubiq\u00fcidade do <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em>. Eles s\u00e3o aut\u00f3genos, absolutos, onipresentes. Os despertos nos ensinam que a \u201csuprema ben\u00e7\u00e3o\u201d nos \u00e9 dada quando o que resta de n\u00f3s se torna perme\u00e1vel, vulner\u00e1vel, dispon\u00edvel ao ritmo da cria\u00e7\u00e3o\u00a0 do <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o pura<\/em>, e a interfus\u00e3o c\u00f3smica.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 dito no Tao: <em>\u201cDeixemos o imp\u00e9rio do Real ser sua pr\u00f3pria lei em n\u00f3s\u201d.<\/em> A experi\u00eancia do <em>Satori <\/em>ou a <em>\u201clibera\u00e7\u00e3o\u201d<\/em> de um Krishnamurti n\u00e3o \u00e9, pois nenhuma proje\u00e7\u00e3o imaginativa, especula\u00e7\u00f5es, dos \u201ca priori\u201d, nem dos estados de auto-hipnose resultando de uma medita\u00e7\u00e3o sobre um determinado tema. O <em>satori<\/em> ser\u00e1 realizado no instante em que deixamos o <em>campo unificado da<\/em> <em>cria\u00e7\u00e3o<\/em> retomar o lugar que ele ocupa desde a eternidade. Para isto, todas as nossas interpreta\u00e7\u00f5es, nossas imagens as mais sutis relativas a esse campo devem previamente desaparecer ap\u00f3s terem sido evocadas. O mesmo para a interfus\u00e3o. Esta n\u00e3o ser\u00e1 experimentada sen\u00e3o a partir do momento onde qualquer tra\u00e7o de sua representa\u00e7\u00e3o mental de interfus\u00e3o for banida de nosso mente. Tratamos desse assunto porque ele \u00e9 interessante para os homens de certa cultura, quando de uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o. Mas para a aproxima\u00e7\u00e3o \u00faltima, dizem paradoxalmente os mestres <em>Zen<\/em> e do <em>Ch\u2019an<\/em>, tudo isso deve ser ultrapassado e esquecido. No seu discurso a seu disc\u00edpulo Thot, Hermmes Trimegisto disse que <em>\u201co infinito se move em sua estabilidade\u201d<\/em>. Este enunciado paradoxal parece ser bastante ver\u00eddico. O homem \u00e9 uma imagem estampada desse processo universal de interfus\u00e3o, de intera\u00e7\u00f5es no \u00e2mago de uma estabilidade aparente tanto quanto provis\u00f3ria. Qual significado teriam um f\u00edgado, ou um rim sem o conjunto do organismo para o equil\u00edbrio do qual eles contribuem? Somente a interliga\u00e7\u00e3o, a intera\u00e7\u00e3o e a organiza\u00e7\u00e3o do conjunto d\u00e3o, tanto ao indiv\u00edduo global como aos \u00f3rg\u00e3os particulares, sua plena significa\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo que uma pedra \u00e9 exteriormente est\u00e1vel, tomada em bloco e de maneira superficial, malgrado sua estabilidade exterior, tudo se movimenta intensamente em profundidade, do mesmo modo a totalidade universal se move intensamente ao longo de sua aparente estabilidade exterior. Do mesmo modo que o homem parece \u00e0 primeira vista uma individualidade imut\u00e1vel cuja aparente continuidade, e a vida mesma, s\u00e3o baseadas na interfus\u00e3o r\u00e1pida e complexa da circula\u00e7\u00e3o sang\u00fc\u00ednea, alimentando os \u00f3rg\u00e3os separados, mas interdependentes. Igualmente a totalidade\u00a0 universal vive ao ritmo de uma interfus\u00e3o prodigiosa entre os elementos aparentemente separados que a constituem.<\/p>\n<p>Segundo uma antiga imagem indiana, a interfus\u00e3o infinitamente complexa e sutil \u00e9 o \u201crespirar\u201d da realidade universal. O ritmo de renova\u00e7\u00e3o do <em>campo unificado da cria\u00e7\u00e3o <\/em>ser\u00e1 a fonte de vida subjacente a esse \u201crespirar\u201d fundamental. Tudo que foi dito se aplica ao universo \u201cexterior\u201d ou mundo manifestado, de modo que nosso pensamento pode conceb\u00ea-lo e compreende-lo nos limites do tempo e do espa\u00e7o. Os mestres do <em>Ch\u2019an<\/em> e do <em>Zen<\/em> v\u00e3o muito mais em profundidade, em dire\u00e7\u00e3o ao que alguns fil\u00f3sofos chamam de <em>\u201cnoumeno\u201d<\/em> ou mundo n\u00e3o manifestado. A exposi\u00e7\u00e3o que acabamos de fazer serve de aproxima\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre essas duas faces opostas e complementares do Real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>OS <em>KOANS<\/em> E O \u201cMONDO\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Os <em>koans <\/em>s\u00e3o enunciados de pensamentos paradoxais empregados pelos mestres <em>Zen<\/em> para dar um choque psicol\u00f3gico em seus disc\u00edpulos. S\u00e3o tamb\u00e9m quest\u00f5es que n\u00e3o podem ser resolvidas pelo pensamento e criam um grande estado de tens\u00e3o intelectual que pode ser seguido por uma experi\u00eancia interior <em>[satori]<\/em>. O <em>\u201cmondo\u201d<\/em> \u00e9 apresentado mais comumente sob forma de perguntas e respostas com o mesmo fim. Os dois for\u00e7am o disc\u00edpulo a realiza\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio mental e projetam uma esp\u00e9cie de obst\u00e1culo em suas agita\u00e7\u00f5es. Gra\u00e7as a esse sil\u00eancio, os n\u00edveis mais profundos da consci\u00eancia podem se manifestar. Eis aqui um exemplo de <em>koan<\/em> seguido de nossos coment\u00e1rios.<\/p>\n<p><em>1 &#8211; No in\u00edcio as montanhas s\u00e3o as montanhas.<\/em><\/p>\n<p><em>2 &#8211; No meio as montanhas n\u00e3o s\u00e3o mais as montanhas.<\/em><\/p>\n<p><em>3 &#8211; No final, as montanhas s\u00e3o novamente as\u00a0 montanhas.<\/em><\/p>\n<p>A primeira vista, esses enunciados parecem uma mistifica\u00e7\u00e3o. Na verdade eles est\u00e3o cheios de ensinamentos. A interpreta\u00e7\u00e3o correta desse texto permite dar uma vis\u00e3o panor\u00e2mica das etapas que conduzem ao <em>satori<\/em> segundo o <em>Ch\u2019an<\/em> e o <em>Zen<\/em>.<\/p>\n<p>Ao longo da fase anterior a qualquer procura n\u00e3o colocamos nada em d\u00favida, n\u00e3o refletimos sobre os grandes problemas da exist\u00eancia. Deixamos os outros pensarem por n\u00f3s. Quando vemos, dizemos muito simplesmente: \u201cEssas montanhas s\u00e3o montanhas\u201d. Os contornos exteriores\u00a0 representam aos nossos olhos a \u00fanica realidade. Os rochedos n\u00e3o s\u00e3o mais que rochedos, a terra \u00e9 a terra. Quando come\u00e7amos a despertar para a busca interior, descobrimos que as imagens que nos d\u00e3o nossos sentidos ao contato com o mundo exterior n\u00e3o correspondem \u00e0 realidade. Vemos que nada \u00e9 im\u00f3vel. Tudo se move, tudo se transforma. Em lugar dos rochedos, da terra e das montanhas, descobrimos a a\u00e7\u00e3o duma energia prodigiosamente ativa animando part\u00edculas estranhas que se movem com a velocidade da luz. Conhecemos, seja por intui\u00e7\u00e3o, seja por pesquisa cient\u00edfica, a vida secreta e a natureza profunda de toda mat\u00e9ria. Os aspectos superficiais e sua multiplicidade de nuan\u00e7as s\u00e3o secund\u00e1rios diante de uma ess\u00eancia comum de natureza energ\u00e9tica formando sua realidade profunda. Quando olhamos as montanhas, ao longo dessa fase, elas n\u00e3o s\u00e3o mais, para n\u00f3s, as mesmas montanhas de antes. Elas parecem miragens desprovidas de qualquer consist\u00eancia real. No in\u00edcio de nossas buscas, temos tend\u00eancia a nos orientar para uma atitude de oposi\u00e7\u00e3o extrema \u00e0 nossa primeira atitude. Sofremos a tal ponto a magia encantadora da realidade profunda das coisas, que esta luz interior mascara aos nossos olhos sua apar\u00eancia de superf\u00edcie. A mat\u00e9ria se tornou para n\u00f3s o v\u00e9u, a ilus\u00e3o <em>[maya]<\/em> e dizemos: <em>\u201cas montanhas n\u00e3o s\u00e3o mais as montanhas\u201d.<\/em> Chegaremos a discernir um dia que n\u00e3o existe nenhuma cis\u00e3o entre o mundo material tal como o vemos superficialmente e a pura ess\u00eancia da Mente C\u00f3smica em profundidade. Essas distin\u00e7\u00f5es resultam de uma falta de penetra\u00e7\u00e3o e da faculdade de s\u00edntese de nossa mente. Tudo \u00e9 a Mente C\u00f3smica. Nem um gr\u00e3o de areia esta fora desta Totalidade Una. Deste instante em diante, quando nosso olhar pousa de novo sobre as montanhas, dizemos como no in\u00edcio: \u201cas montanhas s\u00e3o as montanhas\u201d. Mas situamos sua apar\u00eancia material no lugar justo que elas ocupam em um conjunto infinitamente mais vasto e profundo. As montanhas n\u00e3o s\u00e3o mais absolutamente uma ilus\u00e3o. A no\u00e7\u00e3o de ilus\u00e3o ou de <em>maya<\/em> prov\u00e9m de um v\u00edcio de funcionamento em nossa mente. \u00c9 essa \u00faltima que nos d\u00e1, dos seres, das coisas e de n\u00f3s mesmos no\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias. Quando o Desperto diz: <em>\u201cas montanhas s\u00e3o as montanhas\u201d <\/em>essas palavras exprimem um estado de vis\u00e3o panor\u00e2mica englobando as apar\u00eancias de superf\u00edcie e a realidade profunda. Seus olhos lhes d\u00e3o uma imagem do mundo exterior condicionada por sua escala de observa\u00e7\u00e3o f\u00edsica enquanto que, simultaneamente, a Mente C\u00f3smica se revela como sendo a \u00fanica realidade das montanhas ao n\u00edvel das profundidades \u00faltimas. Quando de nosso contato com o Prof. D. T. Suzuki, o eminente especialista do Zen nos apresentou o seguinte <em>koan<\/em>: <em>\u201cQuando eu entendo, eu vejo; e quando eu vejo, entendo\u201d<\/em>, o que parece menos paradoxal. Por isso, devemos compreender que na experi\u00eancia do <em>satori <\/em>nossa percep\u00e7\u00e3o das coisas n\u00e3o \u00e9 distinta, mas global, mas isso n\u00e3o diminui nada a capacidade que temos de perceber claramente a singularidade das coisas em um certo n\u00edvel. Quando capto o som de um sino long\u00ednquo, duas possibilidades se apresentam na minha maneira de reagir. Ou bem estou distra\u00eddo, sem nenhuma profundeza de percep\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia \u00e9 banal. Ela se limita a simples audi\u00e7\u00e3o de um som que n\u00e3o tem nenhum dom de me emocionar ou de me revelar o que quer que seja. Fico fechado em mim mesmo. O sino e o som s\u00e3o fen\u00f4menos completamente estranhos que n\u00e3o me interessam. Ou bem eu estou <em>\u201cdesperto\u201d,<\/em> nesse caso, todas as provoca\u00e7\u00f5es do meio, quer sejam visuais, auditivas, olfativas, t\u00e1teis, me revelam a unidade e a interdepend\u00eancia dos seres e das coisas. Quando entendo o som de um sino long\u00ednquo, sou eu em certo sentido \u2013 pela Mente C\u00f3smica \u2013 a ess\u00eancia energ\u00e9tica desse sino. Sou as mol\u00e9culas do ar que ele faz vibrar, sou a onda sonora que se propaga no espa\u00e7o. Sou a ess\u00eancia mesma do espa\u00e7o. Estando atento \u00e0 natureza profunda de todas as coisas, todo evento exterior, todo movimento me permite vibrar em perfeita identidade de ess\u00eancia comum por uma resson\u00e2ncia secreta renovando-se de instante em instante. Num certo sentido tudo que vejo, eu percebo atrav\u00e9s desta realidade mais profunda. N\u00e3o se trata de uma auto-sugest\u00e3o, nem duma cria\u00e7\u00e3o mental qualquer. Ao contr\u00e1rio. Tudo que escuto, compreendo atrav\u00e9s desta identidade insond\u00e1vel. Ela acaba por ocupar a meu ver um lugar de tal modo preponderante que \u00e9 ela que forma a nota dominante de todas as percep\u00e7\u00f5es distintas. Ao final desse processo eu posso dizer efetivamente: <em>\u201cQuando entendo, eu vejo; quando eu vejo, entendo\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><em><sup>Extratos\u00a0 do livro de\u00a0\u00a0 Robert Linssen &#8211; \u201cLE ZEN\u201d &#8211; Ed . marabout universit\u00e9 Tradu\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso<\/sup><\/em><\/p>\n<p>A vis\u00e3o da mat\u00e9ria que emerge do estudo dos \u00e1tomos e dos n\u00facleos mostra-nos que essa mat\u00e9ria, em sua maior parte, acha-se concentrada em min\u00fasculas gotas separadas por dist\u00e2ncias consider\u00e1veis. No vasto espa\u00e7o existente entre as gotas nucleares compactas e intensamente ferventes movem-se os el\u00e9trons. Estes constituem apenas uma reduzid\u00edssima fra\u00e7\u00e3o da massa total, embora confiram a mat\u00e9ria seu aspecto s\u00f3lido e forne\u00e7am os v\u00ednculos necess\u00e1rios a constru\u00e7\u00e3o das estruturas moleculares. Eles se acham ainda envolvidos nas rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas, sendo tamb\u00e9m respons\u00e1veis pelas propriedades qu\u00edmicas da mat\u00e9ria. As rea\u00e7\u00f5es nucleares, por outro lado, geralmente n\u00e3o se verificam de modo natural nessa forma de mat\u00e9ria, em virtude do fato de que as energias dispon\u00edveis n\u00e3o s\u00e3o suficientemente elevadas para perturbar o equil\u00edbrio nuclear. Essa forma de mat\u00e9ria, entretanto, com sua grande variedade de formas e texturas e sua complexa arquitetura molecular, s\u00f3 consegue existir sob condi\u00e7\u00f5es muito especiais, quando a temperatura n\u00e3o \u00e9 muito elevada, de modo que as part\u00edculas n\u00e3o se agitem em demasia. Quando a energia t\u00e9rmica aumenta cerca de cem vezes mais, como sucede na maioria das estrelas, todas as estruturas at\u00f4micas e moleculares s\u00e3o destru\u00eddas. A maior parte da mat\u00e9ria presente no universo existe, de fato, num estado bastante diverso daquele acima descrito. No centro das estrelas existem vastas acumula\u00e7\u00f5es de mat\u00e9ria nuclear, e processos nucleares que raramente s\u00e3o registrados na Terra, s\u00e3o predominantes l\u00e1. S\u00e3o, ali\u00e1s, essenciais para a grande variedade de fen\u00f4menos estelares observados na Astronomia, a maioria dos quais deriva de uma combina\u00e7\u00e3o de efeitos nucleares e gravitacionais. Para o planeta em que habitamos, os processos nucleares no centro do Sol s\u00e3o de particular import\u00e2ncia, pois fornecem a energia que mant\u00e9m nosso ambiente terrestre. Um dos grandes triunfos da F\u00edsica moderna foi a descoberta de que o continuo fluxo de energia proveniente do Sol \u2013 nosso elo vital com o mundo dos corpos de grandes dimens\u00f5es \u2013 resulta de rea\u00e7\u00f5es nucleares, de fen\u00f4menos no mundo do infinitamente pequeno. Na hist\u00f3ria da penetra\u00e7\u00e3o humana dentro deste mundo sub-microsc\u00f3pico, uma nova etapa foi alcan\u00e7ada no inicio da d\u00e9cada de 1930, quando os cientistas imaginaram haver finalmente descoberto os \u201cblocos de constru\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos\u201d da mat\u00e9ria. Sabia-se que toda a mat\u00e9ria consistia em \u00e1tomos e que todos os \u00e1tomos consistiam em pr\u00f3tons, neutros e el\u00e9trons. Essas chamadas \u201cpart\u00edculas elementares\u201d eram encaradas como as \u00faltimas e indestrut\u00edveis unidades da mat\u00e9ria, \u00e1tomos tais como os tinha concebido Dem\u00f3crito. Embora a teoria qu\u00e2ntica implique o fato j\u00e1 mencionado de que n\u00e3o podemos decompor o mundo nas menores unidades existentes independentemente, esse fato n\u00e3o foi, via de regra, percebido naquela \u00e9poca. Os h\u00e1bitos cl\u00e1ssicos de pensamento ainda se mostravam de tal forma persistentes que a maioria dos f\u00edsicos tentava compreender a mat\u00e9ria em termos de seus \u201cblocos de constru\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos\u201d, tend\u00eancia de pensamento que, ali\u00e1s, ainda hoje continua s\u00f3lida. Dois desenvolvimentos posteriores da F\u00edsica moderna mostraram-nos, entretanto, que a no\u00e7\u00e3o de part\u00edculas elementares como sendo as unidades primarias da mat\u00e9ria tinha que ser posta de lado. Um desses desenvolvimentos foi experimental, o outro te\u00f3rico, e ambos tiveram inicio na d\u00e9cada de 30. Do lado experimental, foram descobertas novas part\u00edculas a medida que os f\u00edsicos aperfei\u00e7oavam suas t\u00e9cnicas experimentais e desenvolviam novos e engenhosos dispositivos para a detec\u00e7\u00e3o de part\u00edculas. Assim, o numero destas ampliou-se de tr\u00eas para seis por volta de 1935, de seis para dezoito por volta de 1955; hoje, conhecemos mais de duzentas part\u00edculas \u201delementares\u201d. As duas tabelas, [&#8230;] apresentam a maior parte das part\u00edculas atualmente conhecidas. Essas tabelas demonstram convincentemente o fato de que o adjetivo \u201celementar\u201d deixou de ser atraente em tal situa\u00e7\u00e3o. A medida que um numero crescente de part\u00edculas iam sendo descobertas ao longo dos anos, ia se tornando claro que nem todas elas poderiam ser chamadas de \u201celementares\u201d. Hoje \u00e9 cren\u00e7a generalizada entre os f\u00edsicos que nenhuma dessas part\u00edculas merece esse nome. Essa cren\u00e7a \u00e9 refor\u00e7ada pelos desenvolvimentos te\u00f3ricos que caminharam paralelos com a descoberta de um numero sempre crescente de part\u00edculas. Logo ap\u00f3s a formula\u00e7\u00e3o da teoria qu\u00e2ntica, tornou-se claro que uma teoria completa dos fen\u00f4menos nucleares n\u00e3o deveria ser apenas uma teoria qu\u00e2ntica, mas deveria incorporar, igualmente, a teoria da relatividade. Isto se deve ao fato de que as part\u00edculas confinadas \u00e0s dimens\u00f5es do n\u00facleo freq\u00fcentemente se movem t\u00e3o r\u00e1pido que sua velocidade se aproxima da velocidade da luz. Esse fato \u00e9 fundamental para a discri\u00e7\u00e3o do seu comportamento, pois toda descri\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos naturais envolvendo velocidades pr\u00f3ximas a da luz precisa levar em conta a teoria da relatividade. Essa descri\u00e7\u00e3o, como se costuma falar, precisa ser \u201crelativ\u00edstica\u201d. 0 que precisamos, pois, para um entendimento integral do mundo nuclear \u00e9 uma teoria que incorpore tanto a teoria qu\u00e2ntica quando a da relatividade, Uma teoria desse porte ainda n\u00e3o foi encontrada, o que nos impede de formular uma teoria completa do n\u00facleo. Embora saibamos bastante acerca da estrutura nuclear e das intera\u00e7\u00f5es entre as part\u00edculas nucleares, ainda n\u00e3o compreendemos a natureza e a forma complexa da for\u00e7a nuclear a n\u00edvel fundamental. Inexiste uma teoria completa do mundo das part\u00edculas nucleares compar\u00e1vel a teoria qu\u00e2ntica para o mundo at\u00f4mico. Dispormos, isto sim, de diversos modelos \u201cquantico-relativ\u00edsticos\u201d que nos descrevem adequadamente alguns aspectos do mundo das part\u00edculas; mas, a fus\u00e3o das teorias qu\u00e2ntica e da relatividade numa teoria completa do mundo das part\u00edculas ainda constitui o problema central e o grande desafio da F\u00edsica moderna. A teoria da relatividade tem exercido profunda influ\u00eancia na maneira como figuramos a mat\u00e9ria, for\u00e7ando-nos a modificar de um modo essencial nosso conceito de part\u00edcula. Na F\u00edsica cl\u00e1ssica, a massa de um objeto sempre esteve associada a uma substancia material indestrut\u00edvel, a algum \u201cestofo\u201d com o qual se acreditava que todas as coisas fossem feitas. A teoria da relatividade demonstrou que a massa nada tem a ver com qualquer subst\u00e2ncia, sendo, isso sim, uma forma de energia. A energia, entretanto, \u00e9 uma quantidade din\u00e2mica associada com a atividade, ou com processos. 0 fato de a massa de uma part\u00edcula ser equivalente a uma certa quantidade de energia significa que a part\u00edcula n\u00e3o pode mais ser encarada como um objeto est\u00e1tico, mas sim, que ela deve ser concebida como um modelo din\u00e2mico, um processo que envolve uma energia que se manifesta a si mesma como a massa da part\u00edcula. Essa nova concep\u00e7\u00e3o de part\u00edcula foi iniciada por Dirac, ao formular uma equa\u00e7\u00e3o relativ\u00edstica que descreve o comportamento dos el\u00e9trons. A teoria de Dirac mostrou-se n\u00e3o apenas extremamente bem-sucedida na explica\u00e7\u00e3o dos pequenos detalhes da estrutura at\u00f4mica como tamb\u00e9m revelou uma simetria fundamental entre a mat\u00e9ria e a anti-mat\u00e9ria. Dirac previu a exist\u00eancia de um anti-el\u00e9tron com a mesma massa do el\u00e9tron, mas com carga oposta. Essa part\u00edcula positivamente carregada, agora denominada positron, foi realmente descoberta dois anos depois de Dirac ter predito a sua exist\u00eancia. A simetria entre mat\u00e9ria e anti-mat\u00e9ria implica o fato de que para cada part\u00edcula existe uma anti-part\u00edcula, portadora de igual massa e carga oposta. Pares de part\u00edculas e anti-part\u00edculas podem ser criados se dispusermos de suficiente energia e podem ser transformados em energia pura no processo reverso de aniquila\u00e7\u00e3o. Esses processos de cria\u00e7\u00e3o e aniquila\u00e7\u00e3o de part\u00edculas haviam sido previstos pela teoria de Dirac antes de serem efetivamente descobertos na natureza, Tem sido, desde ent\u00e3o, observados milh\u00f5es de vezes. A cria\u00e7\u00e3o de part\u00edculas materiais a partir da energia pura \u00e9, por certo, o efeito mais espetacular da teoria da relatividade, podendo ser compreendida somente em termos da concep\u00e7\u00e3o de part\u00edculas acima esbo\u00e7ada. Antes da F\u00edsica das part\u00edculas relativ\u00edsticas, sempre se considerara a mat\u00e9ria constitu\u00edda ou de unidades elementares, que seriam indestrut\u00edveis e imut\u00e1veis, ou de objetos compostos, que podiam ser fragmentados em suas partes componentes. A quest\u00e3o b\u00e1sica girava em torno da indaga\u00e7\u00e3o se seria poss\u00edvel dividir indefinidamente a mat\u00e9ria ou se, ao inv\u00e9s disso, poder-se-ia chegar \u00e0s menores unidades indivis\u00edveis. Ap\u00f3s a descoberta de Dirac, toda essa quest\u00e3o da divis\u00e3o da mat\u00e9ria apareceu sob uma nova luz. Quando duas part\u00edculas dotadas de elevada energia colidem, geralmente fragmentam-se, mas cada um desses fragmentos n\u00e3o \u00e9 menor que as part\u00edculas originais. Trata-se, uma vez mais, de part\u00edculas da mesma esp\u00e9cie e que s\u00e3o criadas a partir da energia do movimento (energia cin\u00e9tica) envolvida no processo de colis\u00e3o. 0 problema da divis\u00e3o da mat\u00e9ria \u00e9, assim, resolvido de uma forma inesperada. A \u00fanica maneira de dividir part\u00edculas subat\u00f4micas consiste em lan\u00e7a-las em processos de colis\u00e3o envolvendo energias elevadas. Pode-se, desse modo, dividir indefinidamente a mat\u00e9ria, embora jamais obtenhamos peda\u00e7os menores uma vez que simplesmente criamos part\u00edculas a partir da energia envolvida no processo. As part\u00edculas subat\u00f4micas s\u00e3o, pois, destrut\u00edveis e indestrut\u00edveis ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Esse estado de coisas permanecer\u00e1 paradoxal enquanto adotarmos a concep\u00e7\u00e3o est\u00e1tica que postula \u201cobjetos\u201d compostos consistindo em \u201cblocos de constru\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos\u201d. Somente quando adotarmos a concep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e relativista o paradoxo desaparecer\u00e1. As part\u00edculas passam ent\u00e3o a ser vistas como padr\u00f5es (processos) din\u00e2micos, que envolvem uma determinada quantidade de energia que se manifesta a n\u00f3s como sua massa. [&#8230;]<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h1><strong>VAZIO E FORMA<\/strong><\/h1>\n<p>A vis\u00e3o cl\u00e1ssica, mecanicista do mundo baseava-se no conceito de part\u00edculas s\u00f3lidas e indestrut\u00edveis deslocando-se no vazio. A F\u00edsica moderna trouxe a tona uma revis\u00e3o radical dessa representa\u00e7\u00e3o, levando n\u00e3o apenas a uma no\u00e7\u00e3o inteiramente in\u00e9dita do que sejam \u201cpart\u00edculas\u201d, mas tamb\u00e9m transformando profundamente o conceito cl\u00e1ssico de vazio. Essa transforma\u00e7\u00e3o ocorreu nas chamadas teorias de campo. Teve inicio com a id\u00e9ia de Einstein de associar o campo gravitacional a geometria do espa\u00e7o e tornou-se ainda mais pronunciada quando a teoria qu\u00e2ntica e a teoria da relatividade foram combinadas para descrever os campos de for\u00e7a das part\u00edculas subat\u00f4micas. Nessas \u201cteorias qu\u00e2nticas do campo\u201d, a distin\u00e7\u00e3o entre part\u00edculas e o espa\u00e7o circunvizinho perde sua nitidez original e o vazio passa a ser reconhecido como uma quantidade din\u00e2mica de exponencial import\u00e2ncia. 0 conceito de campo foi introduzido no s\u00e9culo XIX por Faraday e Maxwell, atrav\u00e9s de sua descri\u00e7\u00e3o das for\u00e7as entre cargas e correntes el\u00e9tricas. Um campo el\u00e9trico \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o em torno de um campo carregado e que produzir\u00e1 uma for\u00e7a sobre qualquer outra carga nesse espa\u00e7o. Os campos el\u00e9tricos s\u00e3o, pois, criados por corpos carregados e seus efeitos s\u00f3 podem ser experimentados por corpos carregados. Campos magn\u00e9ticos s\u00e3o produzidos por cargas em movimento, isto \u00e9, por correntes el\u00e9tricas, e as for\u00e7as magn\u00e9ticas dai resultantes podem ser sentidas por outras cargas em movimento. Na Eletrodin\u00e2mica cl\u00e1ssica, a teoria constru\u00edda por Faraday e Maxwell, os campos s\u00e3o entidades f\u00edsicas primarias que podem ser estudadas sem qualquer referencia a corpos materiais. Campos el\u00e9tricos e magn\u00e9ticos em vibra\u00e7\u00e3o podem deslocar-se atrav\u00e9s do espa\u00e7o sob a forma de ondas de radio, de ondas de luz ou de outras modalidades de radia\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica. A teoria da relatividade tornou muito mais elegante a estrutura da Eletrodin\u00e2mica atrav\u00e9s da unifica\u00e7\u00e3o dos conceitos de cargas e correntes e campos el\u00e9tricos e magn\u00e9ticos. Levando-se em conta que todo movimento \u00e9 relativo, cada carga pode igualmente aparecer como uma corrente \u2013 num referencial onde se desloca em rela\u00e7\u00e3o ao observador \u2013 e, conseq\u00fcentemente, seu campo el\u00e9trico tamb\u00e9m pode aparecer como um campo magn\u00e9tico. Na formula\u00e7\u00e3o relativ\u00edstica da Eletrodin\u00e2mica, os dois campos s\u00e3o dessa forma unificados num \u00fanico campo eletromagn\u00e9tico. 0 conceito de campo tem sido associado n\u00e3o apenas a for\u00e7a eletromagn\u00e9tica, mas tamb\u00e9m, a for\u00e7a de maior express\u00e3o no mundo das grandes escalas, a for\u00e7a de gravidade. Os campos gravitacionais s\u00e3o criados e experimentados por todos os corpos s\u00f3lidos e as for\u00e7as dai resultantes s\u00e3o sempre for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio dos campos eletromagn\u00e9ticos, que s\u00e3o experimentados apenas por corpos carregados e que originam as for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o e repuls\u00e3o. A teoria do campo adequada ao campo gravitacional e a teoria geral da relatividade; nessa teoria, a influ\u00eancia de um corpo s\u00f3lido sobre o espa\u00e7o circunvizinho \u00e9 mais ampla do que a influ\u00eancia correspondente de um corpo carregado na Eletrodin\u00e2mica. Uma vez mais, o espa\u00e7o em torno do objeto \u00e9 \u201ccondicionado\u201d de tal modo que outro objeto experimentar\u00e1 uma for\u00e7a. Desta vez, contudo, o condicionamento afeta a Geometria e, atrav\u00e9s desta, a pr\u00f3pria estrutura do espa\u00e7o. Mat\u00e9ria e espa\u00e7o vazio \u2013 o cheio e o vazio \u2013 foram os dois conceitos fundamentalmente distintos sobre os quais se basearam o atomismo de Dem\u00f3crito e de Newton. Na relatividade geral, esses dois conceitos n\u00e3o podem mais ser separados. Sempre que exista um corpo s\u00f3lido, existir\u00e1 igualmente um campo gravitacional, e este se manifestar\u00e1 como a curvatura do espa\u00e7o circunvizinho aquele corpo. N\u00e3o devemos pensar, contudo, que o campo preenche o espa\u00e7o e o \u201ccurva\u201d. Os dois n\u00e3o podem ser diferenciados; o campo<em> \u00e9<\/em> o espa\u00e7o curvo! Na relatividade geral, o campo gravitacional e a estrutura ou geometria do espa\u00e7o s\u00e3o id\u00eanticos e se acham representados nas equa\u00e7\u00f5es de campo de Einstein por uma \u00fanica quantidade matem\u00e1tica. Na teoria de Einstein, pois, a mat\u00e9ria n\u00e3o pode ser separada de seu campo de gravidade e este n\u00e3o pode ser separado do espa\u00e7o curvo. Mat\u00e9ria e espa\u00e7o s\u00e3o, pois, encarados como partes insepar\u00e1veis e interdependentes de um \u00fanico todo. Os objetos materiais n\u00e3o apenas determinam a estrutura do espa\u00e7o circunvizinho como s\u00e3o, por sua vez, influenciados de forma essencial por seu meio. De acordo com o f\u00edsico e fil\u00f3sofo Ernst Mach, a in\u00e9rcia de um objeto material \u2013 ou seja, a resist\u00eancia deste contra a acelera\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma propriedade intr\u00ednseca da mat\u00e9ria, mas uma medida de sua intera\u00e7\u00e3o com o restante do universo. Na concep\u00e7\u00e3o de Mach, a mat\u00e9ria s\u00f3 possui in\u00e9rcia porque existe outra mat\u00e9ria no universo. Quando um corpo gira, sua in\u00e9rcia produz for\u00e7as centrifugas (utilizadas, por exemplo, numa m\u00e1quina de lavar para retirar a \u00e1gua da roupa), mas essas for\u00e7as s\u00f3 aparecem porque o corpo gira \u201cem rela\u00e7\u00e3o as estrelas fixas\u201d, segundo as palavras de Mach. Se essas estrelas fixas desaparecessem repentinamente, a in\u00e9rcia e as for\u00e7as centrifugas do corpo que gira tamb\u00e9m desapareceriam. Essa concep\u00e7\u00e3o de in\u00e9rcia, que se tornou conhecida como o principio de Mach, exerceu uma profunda influ\u00eancia sobre Albert Einstein e foi sua motiva\u00e7\u00e3o original para construir a teoria geral da relatividade. Em raz\u00e3o da consider\u00e1vel complexidade matem\u00e1tica da teoria de Einstein, os f\u00edsicos ainda n\u00e3o puderam concluir se essa teoria efetivamente incorpora o princ\u00edpio de Mach. Muitos f\u00edsicos acreditam, contudo, que esse principio deveria ser incorporado, de uma forma ou de outra, numa teoria completa da gravidade. Assim, a F\u00edsica moderna mostra-nos, uma vez mais \u2013 e desta vez em n\u00edvel macrosc\u00f3pico \u2013 que os objetos materiais n\u00e3o s\u00e3o entidades distintas, mas se encontram inseparavelmente vinculadas a seu meio; que suas propriedades s\u00f3 podem ser compreendidas em termos de sua intera\u00e7\u00e3o com o restante do mundo. De acordo com o principio de Mach, essa intera\u00e7\u00e3o volta-se para o universo como um todo, para as estrelas e gal\u00e1xias distantes. A unidade b\u00e1sica do cosmos manifesta-se, portanto, n\u00e3o apenas no mundo do muito pequeno, mas tamb\u00e9m no mundo do muito grande, um fato crescentemente reconhecido na Astrof\u00edsica e na Cosmologia modernas. Nas palavras do astr\u00f4nomo Fred Hoyle:<\/p>\n<p><em>\u201cOs desenvolvimentos atuais da Cosmologia est\u00e3o a ponto de sugerir, com certa insist\u00eancia, que as condi\u00e7\u00f5es cotidianas n\u00e3o poderiam persistir a n\u00e3o ser para as partes mais distantes do universo, que todas as nossas id\u00e9ias acerca do espa\u00e7o e da geometria tornar-se-iam inteiramente inv\u00e1lidas se as partes distantes do universo fossem retiradas. Nossa experi\u00eancia cotidiana, at\u00e9 mesmo nos detalhes mais insignificantes, afigura-se t\u00e3o intimamente integrada \u00e0s caracter\u00edsticas em grande escala do universo que se torna praticamente imposs\u00edvel encar\u00e1-las como coisas separadas\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>A unidade e inter-rela\u00e7\u00e3o entre um objeto material e seu meio, manifestada em escala macrosc\u00f3pica na teoria geral da relatividade, aparece ainda mais not\u00e1vel em n\u00edvel subat\u00f4mico. Aqui, as id\u00e9ias da teoria cl\u00e1ssica do campo s\u00e3o combinadas com as da teoria qu\u00e2ntica, de modo a descrever as intera\u00e7\u00f5es entre as part\u00edculas subat\u00f4micas. Uma combina\u00e7\u00e3o desse tipo ainda n\u00e3o se tornou poss\u00edvel para a intera\u00e7\u00e3o gravitacional em raz\u00e3o da complexidade matem\u00e1tica da teoria einsteiniana da gravidade; contudo, a outra teoria cl\u00e1ssica do campo, a Eletrodin\u00e2mica, foi fundida \u00e0 teoria qu\u00e2ntica, na chamada teoria \u201celetrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica\u201d que descreve todas as intera\u00e7\u00f5es eletromagn\u00e9ticas entre as part\u00edculas subat\u00f4micas. Essa teoria incorpora tanto a teoria qu\u00e2ntica quanto a da relatividade. Foi o primeiro modelo \u201cqu\u00e2ntico-relativ\u00edstico\u201d da F\u00edsica moderna, sendo at\u00e9 hoje o mais bem-sucedido de todos. A surpreendente nova caracter\u00edstica da Eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica deriva da combina\u00e7\u00e3o de dois conceitos, ou seja, o do campo eletromagn\u00e9tico e o dos f\u00f3tons como manifesta\u00e7\u00f5es, sob a forma de part\u00edculas, das ondas eletromagn\u00e9ticas. Uma vez que os f\u00f3tons tamb\u00e9m s\u00e3o ondas eletromagn\u00e9ticas, e uma vez que essas ondas s\u00e3o campos vibrat\u00f3rios, os f\u00f3tons devem ser manifesta\u00e7\u00f5es de campos eletromagn\u00e9ticos. Resulta dai o conceito de um \u201ccampo quantizado\u201d, isto \u00e9, de um campo que pode assumir a forma de<em> quanta<\/em> ou de part\u00edculas. Trata-se, de fato, de um conceito inteiramente novo que foi ampliado de modo a descrever todas as part\u00edculas subat\u00f4micas e suas intera\u00e7\u00f5es, sendo que cada tipo de part\u00edcula corresponde a um campo diferente. Nessas \u201cteorias qu\u00e2nticas dos campos\u201d, o contraste cl\u00e1ssico entre as part\u00edculas s\u00f3lidas e o espa\u00e7o circunvizinho \u00e9 completamente superado. 0 campo quantizado \u00e9 concebido como entidade f\u00edsica fundamental, um meio continuo que est\u00e1 presente em todos os pontos do espa\u00e7o. As part\u00edculas n\u00e3o passam de condensa\u00e7\u00f5es locais do campo, concentra\u00e7\u00f5es de energia que vem e v\u00e3o, perdendo dessa forma seu car\u00e1ter individual e se dissolvendo no campo subjacente. Nas palavras de Albert Einstein:<\/p>\n<p>\u201c<em>Podemos ent\u00e3o considerar a mat\u00e9ria como constitu\u00edda por regi\u00f5es do espa\u00e7o nas quais o campo \u00e9<\/em> <em>extremamente intenso\u201d.<\/em>[&#8230;]<\/p>\n<p><em><strong>N\u00e3o h\u00e1 lugar nesse novo tipo de F\u00edsica para campo e mat\u00e9ria, pois o campo \u00e9 a \u00fanica realidade.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos e coisas f\u00edsicas como manifesta\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias de uma entidade fundamental subjacente n\u00e3o \u00e9 apenas um elemento b\u00e1sico da teoria qu\u00e2ntica dos campos, mas \u00e9 tamb\u00e9m um elemento b\u00e1sico da vis\u00e3o oriental do mundo. A semelhan\u00e7a de Einstein, os m\u00edsticos orientais consideram essa entidade subjacente como a \u00fanica realidade: todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es fenom\u00eanicas s\u00e3o vistas como transit\u00f3rias e ilus\u00f3rias. Essa realidade do m\u00edstico oriental n\u00e3o pode ser identificada com o campo quantizado do f\u00edsico, pois \u00e9 vista como a ess\u00eancia de <strong><em>todos<\/em><\/strong> os fen\u00f4menos deste mundo e, conseq\u00fcentemente, est\u00e1 situada al\u00e9m de todos os conceitos e id\u00e9ias. 0 campo quantizado, por outro lado, \u00e9 um conceito bem definido que responde apenas por alguns dos fen\u00f4menos f\u00edsicos. N\u00e3o obstante, a intui\u00e7\u00e3o impl\u00edcita na interpreta\u00e7\u00e3o que o f\u00edsico faz do mundo subat\u00f4mico, em termos do campo quantizado \u00e9 estreitamente paralela a do m\u00edstico oriental que interpreta sua experi\u00eancia do mundo em termos de uma realidade subjacente \u00faltima. Posteriormente ao aparecimento do conceito de campo, os f\u00edsicos tentaram unificar os diversos campos num \u00fanico campo fundamental que incorporaria todos os fen\u00f4menos f\u00edsicos. Einstein, em particular, passou os \u00faltimos anos de sua vida na busca desse campo unificado. O <em>Brahman<\/em> dos hindus, a semelhan\u00e7a do <em>Dharmakaya<\/em> dos budistas e do <em>Tao <\/em>dos <em>taoistas<\/em>, pode talvez ser encarado como o campo unificado fundamental do qual emergem n\u00e3o apenas os fen\u00f4menos estudados na F\u00edsica como tamb\u00e9m todos os outros fen\u00f4menos. Na vis\u00e3o oriental, a realidade subjacente a todos os fen\u00f4menos est\u00e1 al\u00e9m de todas as formas e desafia qualquer descri\u00e7\u00e3o e especifica\u00e7\u00e3o. Por isso freq\u00fcentemente se diz que ele \u00e9 sem forma, vazio ou v\u00e1cuo. Mas essa vacuidade n\u00e3o deve ser encarada como o simples nada. Ao contrario, ela \u00e9 a ess\u00eancia de todas as formas e a fonte de toda a vida. Nas palavras dos <em>Upanishads, Brahman<\/em> \u00e9 vida. <em>Brahman<\/em> \u00e9 alegria. <em>Brahman <\/em>\u00e9 o vazio [&#8230;]<\/p>\n<p><strong><em>Alegria, na verdade, \u00e9 o mesmo que o Vazio.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O Vazio, na verdade, \u00e9 o mesmo que alegria.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os budistas expressam a mesma id\u00e9ia ao afirmarem que a realidade \u00faltima \u2013 <em>Sunyata<\/em> (\u201cVazio\u201d ou \u201cVacuidade\u201d) \u2013 \u00e9 um Vazio vivo que gera todas as formas do mundo dos fen\u00f4menos. Os taoistas conferem semelhante criatividade, infinita e eterna ao <em>Tao<\/em> e, uma vez mais, chamam-na de vazio. \u201cO <em>Tao <\/em>do C\u00e9u \u00e9 vazio e sem forma\u201d, afirma o Kuan Ts\u00e9. Lao Ts\u00e9 utiliza v\u00e1rias met\u00e1foras para ilustrar esse vazio, comparando o <em>Tao<\/em> a um vale vazio ou a um vaso perenemente vazio e que possui o potencial de conter uma infinidade de coisas. Apesar de lan\u00e7ar m\u00e3o de termos como vazio e v\u00e1cuo, os s\u00e1bios orientais deixam bem claro que n\u00e3o se referem ao vazio usual quando falam acerca de <em>Brahman<\/em>, de <em>Sunyata<\/em> ou de <em>Tao<\/em>; ao contrario, referem-se a um Vazio que possui um potencial criativo infinito. Assim, o Vazio dos m\u00edsticos orientais pode ser facilmente comparado ao campo qu\u00e2ntico da F\u00edsica subat\u00f4mica. A semelhan\u00e7a deste, aquele origina uma variedade infinita de formas que mant\u00e9m e, eventualmente, reabsorve. Conforme expressam os <em>Upanishads<\/em><em>:<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong><em>\u201cTranq\u00fcilo, deixe que algu\u00e9m o adore<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Como aquilo de onde veio,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Como aquilo no qual se dissolver\u00e1,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Como aquilo no qual respira\u201d.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es fenom\u00eanicas do Vazio m\u00edstico, a semelhan\u00e7a das part\u00edculas sub-at\u00f4micas, n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas e permanentes, mas din\u00e2micas e transit\u00f3rias, surgindo e desaparecendo numa dan\u00e7a incessante de movimento e energia. A semelhan\u00e7a do mundo subat\u00f4mico do f\u00edsico, o mundo fenom\u00eanico do m\u00edstico oriental \u00e9 um mundo de<em> samsara,<\/em> de nascimento e morte cont\u00ednuos. Por serem manifesta\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias do V\u00e1cuo, as coisas neste mundo n\u00e3o possuem qualquer identidade fundamental. Esse ponto \u00e9 enfatizado particularmente na filosofia budista que nega a exist\u00eancia de qualquer substancia material <em>{Prajna Paramita}<\/em> e igualmente sustenta que a id\u00e9ia de um Si-mesmo constante e que passa por experi\u00eancias sucessivas \u00e9 uma ilus\u00e3o. Os budistas comparam com freq\u00fc\u00eancia essa ilus\u00e3o de uma subst\u00e2ncia material e de um Si-mesmo individual ao fen\u00f4meno de uma onda de \u00e1gua, no qual os movimentos de ascens\u00e3o e queda das part\u00edculas da \u00e1gua levam-nos a acreditar que um \u201cpeda\u00e7o\u201d de \u00e1gua se move sobre a superf\u00edcie. \u00c9 interessante observar que os f\u00edsicos utilizaram a mesma analogia no contexto da teoria de campo para indicar a ilus\u00e3o de uma subst\u00e2ncia material criada por uma part\u00edcula em movimento. De acordo com Hermann Weyl:<\/p>\n<p><em>\u201cSegundo a teoria [de campo da mat\u00e9ria], uma part\u00edcula material \u2013 por exemplo, um el\u00e9tron \u2013 \u00e9 apenas um pequeno dom\u00ednio do campo el\u00e9trico dentro do qual a intensidade do campo assume valores extremamente elevados, indicando que uma energia de campo comparativamente elevada acha-se concentrada num espa\u00e7o bastante pequeno. Um tal n\u00f3 de energia, que de forma alguma est\u00e1 claramente delineado contra o campo restante, propaga-se atrav\u00e9s do espa\u00e7o vazio como uma onda de \u00e1gua atrav\u00e9s da superf\u00edcie de um lago. N\u00e3o existe \u2018algo\u2019 que seja uma subst\u00e2ncia \u00fanica da qual o el\u00e9tron se comp\u00f5e sempre\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Na filosofia chinesa, a id\u00e9ia de campo n\u00e3o est\u00e1 apenas impl\u00edcita na no\u00e7\u00e3o do<em> Tao<\/em> como algo vazio e sem forma e, contudo gerador de todas as formas, mas \u00e9 igualmente expressa, de maneira explicita, no conceito de<em> ch\u2019i.<\/em> Esse termo desempenhou um papel importante em quase todas as escolas chinesas de filosofia natural, tornando-se particularmente importante no neoconfucionismo, a escola que tentou chegar a uma s\u00edntese do Confucionismo, do Budismo e do Taoismo. A palavra <em>ch\u2019i<\/em> significa, literalmente, \u201cg\u00e1s\u201d ou \u201c\u00e9ter\u201d e era utilizada na China antiga para denotar o sopro vital ou a energia que anima o cosmos. No corpo humano, os \u201ccaminhos do<em> ch\u2019i<\/em> constituem a base da medicina tradicional chinesa, 0 objetivo da acupuntura consiste em estimular o fluxo do<em> ch\u2019i<\/em> atrav\u00e9s desses canais\u201d.<\/p>\n<p>O fluxo do<em> ch\u2019i<\/em> constitui igualmente a base dos movimentos fluentes do<em> T\u2019ai Chi Ch\u2019uan,<\/em> a dan\u00e7a <em>taoista <\/em>do guerreiro. [&#8230;]<\/p>\n<p>As teorias de campo da f\u00edsica moderna for\u00e7am-nos a abandonar a distin\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica entre part\u00edculas materiais e o vazio. A teoria de campo da gravidade, de Einstein, e a teoria qu\u00e2ntica dos campos mostram que as part\u00edculas n\u00e3o podem ser separadas do espa\u00e7o que as circunda. Por outro lado, determinam a estrutura daquele espa\u00e7o, ao passo que n\u00e3o podem ser encaradas como entidades isoladas mas, em vez disso, como condensa\u00e7\u00f5es de um campo cont\u00ednuo que se acha presente por todo o espa\u00e7o. Na teoria qu\u00e2ntica dos campos, o campo \u00e9 visto como a base de todas as part\u00edculas e de suas intera\u00e7\u00f5es m\u00fatuas.<\/p>\n<p><em><strong>O campo existe sempre e por toda parte; jamais pode ser removido. \u00c9 o portador de todos os fen\u00f4menos materiais. \u00c9 o \u201cvazio\u201d a partir do qual o pr\u00f3ton cria os mesons \u201cpi\u201d. A exist\u00eancia e o desaparecimento das part\u00edculas n\u00e3o passam de formas de movimento do campo.<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o entre mat\u00e9ria e espa\u00e7o vazio teve finalmente de ser abandonada quando se tornou evidente que as part\u00edculas virtuais podem passar a existir espontaneamente a partir do v\u00e1cuo e desaparecer novamente neste ultimo, sem que esteja presente qualquer <em>nucleon<\/em> ou outra part\u00edcula que interaja fortemente. A seguir aparece um \u201cdiagrama do vazio\u201d para esse processo: tr\u00eas part\u00edculas \u2013 um <em>pr\u00f3ton <\/em>(p), um <em>antipr\u00f3ton <\/em>(-p) e um <em>pion <\/em>(\u03c0) \u2013 s\u00e3o formados a partir do nada e desaparecem novamente no vazio. De acordo com a teoria de campo, eventos desse tipo ocorrem a todo instante. O vazio est\u00e1 longe de ser vazio. Ao contr\u00e1rio, cont\u00e9m um numero ilimitado de part\u00edculas que passam a existir e desaparecem ininterruptamente. Eis aqui o mais estreito paralelo entre o V\u00e1cuo do misticismo oriental e a F\u00edsica moderna. Assim como o v\u00e1cuo oriental, o \u201cvazio f\u00edsico\u201d \u2013 como \u00e9 denominado na teoria de campo \u2013 n\u00e3o \u00e9 um estado de um simples nada, mas cont\u00e9m a potencialidade para todas as formas do mundo das part\u00edculas. Essas formas, por sua vez, n\u00e3o s\u00e3o entidades f\u00edsicas independentes, mas simplesmente, manifesta\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias do Vazio subjacente. Como diz o<em> Sutra,<\/em> <em>\u201cForma \u00e9 vazio, e vazio, na verdade, \u00e9 forma\u201d.<\/em><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre as part\u00edculas virtuais e o vazio \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o essencialmente din\u00e2mica: na verdade, o vazio \u00e9 um <em>\u201cVazio vivo\u201d<\/em> <em>e que pulsa num ritmo sem fim de cria\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o.<\/em> A descoberta da qualidade din\u00e2mica do v\u00e1cuo \u00e9 vista por muitos f\u00edsicos como uma das descobertas mais importantes da F\u00edsica moderna. De seu papel de recipiente vazio dos fen\u00f4menos f\u00edsicos, o v\u00e1cuo emergiu como uma quantidade din\u00e2mica da maior import\u00e2ncia. Os resultados da F\u00edsica moderna parecem, pois, confirmar as palavras do s\u00e1bio chin\u00eas Chuang Ts\u00e9:<\/p>\n<p><em>\u201cQuando se sabe\u00a0 que o Grande Vazio est\u00e1 pleno de ch\u2019i, compreende-se que n\u00e3o existe coisa alguma que seja o nada\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em><sup>\u201cO Tao da F\u00edsica\u201d- Fritjof Capra \u2013 Ed. Cultrix<\/sup><\/em><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><strong>Na f\u00edsica qu\u00e2ntica, o vazio \u00e9 um formid\u00e1vel reservat\u00f3rio de energia, que cria e aniquila part\u00edculas sem parar. Nada menos que 70% da energia do universo estaria associada a esse vazio, enquanto a mat\u00e9ria propriamente dita contribuiria com apenas 30%. \u201cN\u00e3o temos ainda uma F\u00edsica suficientemente sofisticada para lidar com o v\u00e1cuo. Isso significa que 70% do conte\u00fado do universo jamais foi explorado pela ci\u00eancia\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Mas o espanto suscitado pela nova descoberta n\u00e3o termina ai. O conte\u00fado de energia do vazio pode ser at\u00e9 10\u00a0elevado a\u00a0120 vezes maior do que o necess\u00e1rio para provocar a acelera\u00e7\u00e3o do universo. Essa cifra fant\u00e1stica corresponde ao algarismo 1 seguido de 120 zeros: um n\u00famero simplesmente inimagin\u00e1vel. <strong>\u201cInvestigar a natureza desse v\u00e1cuo ser\u00e1 o grande desafio cient\u00edfico das pr\u00f3ximas d\u00e9cadas\u201d<\/strong> <sup>1<\/sup><\/p>\n<p><sup>Revista Galileu n97 pag.28<\/sup><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>ROMPENDO A REDE DE NASCIMENTO E MORTE<\/strong><\/p>\n<p><strong>A mente cria a forma da realidade<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea se lembra de nossa conversa a respeito dos conceitos de espa\u00e7o e tempo no Avatamsaka Sutra e na teoria da relatividade?\u00a0 T\u00e3o logo abandonamos os conceitos de espa\u00e7o absoluto e tempo absoluto, muitos conceitos correlatos, que durante muito tempo formaram nossos padr\u00f5es de pensamentos, come\u00e7am a desmoronar. Os te\u00f3ricos do <em>bootstrap<\/em> reconhecem que todas as part\u00edculas at\u00f4micas, como os el\u00e9trons, n\u00e3o podem existir independentemente umas das outras. Existem efetivamente \u201cinterliga\u00e7\u00f5es\u201d entre as part\u00edculas, e essas \u201cpart\u00edculas\u201d s\u00e3o por sua vez interliga\u00e7\u00f5es\u201d entre outras part\u00edculas. Nenhuma part\u00edcula possui natureza independente. Essa no\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito pr\u00f3xima da id\u00e9ia de interdepend\u00eancia, interexist\u00eancia e interpenetra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A teoria da relatividade exerceu forte influ\u00eancia em nossa interpreta\u00e7\u00e3o das part\u00edculas nucleares. Na relatividade, a massa e a energia s\u00e3o a mesma coisa, do mesmo modo como descobrimos que a chuva pode ser ao mesmo tempo sujeito e verbo de uma frase.\u00a0 Quando sabemos que a massa \u00e9 apenas uma forma de energia, compreendemos que as \u201cinterliga\u00e7\u00f5es\u201d entre as part\u00edculas s\u00e3o realidades din\u00e2micas do espa\u00e7o\/tempo quadridimensional. Para os cientistas de hoje, uma part\u00edcula nuclear, exatamente como \u201cum gr\u00e3o de poeira\u201d ou \u201ca ponta de um fio de cabelo\u201d no <em>Avatamsaka Sutra<\/em>, combina o espa\u00e7o e o tempo.\u00a0 Essas part\u00edculas podem ser consideradas um \u201cgr\u00e3o\u201d de tempo, assim como o <em>Avatamsaka Sutra<\/em> diz que o momento mais curto poss\u00edvel (<em>ksana<\/em>) cont\u00e9m n\u00e3o apenas o passado, o presente e o futuro, como tamb\u00e9m a mat\u00e9ria e o espa\u00e7o. Uma part\u00edcula n\u00e3o pode mais ser considerada um objeto tridimensional (como uma laje de m\u00e1rmore ou um gr\u00e3o de poeira) situado no espa\u00e7o.\u00a0 Ela tornou-se mais abstrata para nossa mente. Os el\u00e9trons, por exemplo, podem ser chamados de \u201ccorpos din\u00e2micos quadridimensionais no espa\u00e7o-tempo\u201d ou \u201condas de probabilidade\u201d.\u00a0 Precisamos ter em mente que palavras como \u201cpart\u00edcula\u201d, \u201ccorpo\u201d e \u201conda\u201d n\u00e3o t\u00eam mais o mesmo significado que na linguagem comum. A f\u00edsica contempor\u00e2nea tem lutado para transcender o mundo dos conceitos e, como resultado, as part\u00edculas s\u00e3o agora encaradas como quantidades matem\u00e1ticas abstratas (do ponto de vista do conhecimento discriminativo ordin\u00e1rio).<\/p>\n<p>Alguns cientistas proclamam que as propriedades das part\u00edculas nucleares nada mais s\u00e3o do que cria\u00e7\u00f5es da mente deles, que na verdade as part\u00edculas n\u00e3o possuem propriedades independentes da mente daqueles que as observam. Isso implica que, no mundo das part\u00edculas, a mente que percebe a realidade de fato a cria.<\/p>\n<p><strong>Observador e<\/strong><strong>participante<\/strong><\/p>\n<p>Para os f\u00edsicos de hoje, o objeto da mente e a mente em si n\u00e3o podem ser separados.\u00a0 Os cientistas n\u00e3o podem mais observar nada com total objetividade.\u00a0 A mente deles n\u00e3o pode ser separada dos objetos.\u00a0 John Wheeler sugeriu que substituamos o termo \u201cobservador\u201d pelo termo \u201cparticipante\u201d.\u00a0 Para que haja um \u201cobservador\u201d, \u00e9 preciso que exista uma r\u00edgida fronteira entre sujeito e objeto, mas no caso de um \u201cparticipante\u201d a distin\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto torna-se indistinta e at\u00e9 mesmo desaparece, e a experi\u00eancia direta passa a ser poss\u00edvel. Essa no\u00e7\u00e3o de um participante\/observador aproxima-se bastante da pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o. Quando meditamos sobre nosso corpo, de acordo com o <em>Satipatthana Sutta<\/em> meditamos sobre \u201co corpo dentro do corpo\u201d. Isto significa que n\u00e3o consideramos nosso corpo como um objeto separado, independente da nossa mente que o est\u00e1 observando.\u00a0 Meditar n\u00e3o \u00e9 medir o objeto da mente ou refletir sobre ele, e sim perceb\u00ea-lo diretamente. Isto se chama <em>\u201cpercep\u00e7\u00e3o sem discrimina\u00e7\u00e3o\u201d <\/em>(<em>nirvikalpajnana<\/em>).<\/p>\n<p>O h\u00e1bito de distinguir a mente do seu objeto est\u00e1 t\u00e3o profundamente entranhado em n\u00f3s que somente aos poucos, atrav\u00e9s da medita\u00e7\u00e3o, conseguimos elimin\u00e1-lo.\u00a0 O <em>Sat\u00edpatthana Sutta<\/em> apresenta quatro objetos de medita\u00e7\u00e3o: o corpo, os sentimentos, a mente e os objetos da mente.\u00a0 Esse tipo de medita\u00e7\u00e3o foi praticado pelos disc\u00edpulos do Buda enquanto ele estava vivo. O objetivo dessa classifica\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 nos ajudar a meditar, e n\u00e3o a analisar as coisas. No <em>Sutta<\/em>, todos os fen\u00f4menos materiais s\u00e3o considerados \u201cobjetos da mente\u201d. \u00c9 claro que podemos observar que o corpo, os sentimentos e at\u00e9 mesmo a mente tamb\u00e9m podem ser classificados como \u201cobjetos da mente\u201d.\u00a0 O fato de todos os fen\u00f4menos, inclusive os materiais, serem considerados \u201cobjetos da mente\u201d no <em>Sutta<\/em> demonstra claramente que desde os tempos mais antigos o Budismo se opunha \u00e0 distin\u00e7\u00e3o entre a mente e seus objetos.<\/p>\n<p><strong>As montanhas s\u00e3o novamente montanhas, os rios s\u00e3o novamente rios<\/strong><\/p>\n<p>Os f\u00edsicos que se dedicam ao estudo da part\u00edcula elementar, quando voltam para casa ap\u00f3s um dia de trabalho no laborat\u00f3rio, frequentemente t\u00eam a sensa\u00e7\u00e3o de que os objetos comuns, como uma cadeira ou uma fruta, perderam a substancialidade que pareciam ter anteriormente. Depois de penetrar no mundo das part\u00edculas elementares, tais cientistas n\u00e3o conseguem encontrar nada essencial no mundo da mat\u00e9ria, exceto sua pr\u00f3pria mente. Alfred Kastler declarou: \u201cA mat\u00e9ria s\u00f3 pode ser apreciada a partir de seus dois aspectos complementares, que s\u00e3o ondas e part\u00edculas.\u00a0 Os objetos ou coisas que sempre foram considerados componentes da natureza precisam ser repudiados<sup>22<\/sup>\u201d. Embora a cadeira ou a laranja possa n\u00e3o ser mais mat\u00e9ria para n\u00f3s, mesmo assim precisamos nos sentar na cadeira e chupar a laranja. Somos constitu\u00eddos da mesma ess\u00eancia delas, mesmo que isto seja apenas uma forma matem\u00e1tica que n\u00f3s mesmos podemos inventar. Os meditadores compreendem que todos os fen\u00f4menos se interpenetram e interexistem com todos os outros fen\u00f4menos, de modo que na vida do dia-a-dia eles encaram uma cadeira ou uma laranja de uma maneira diferente da maioria das pessoas.\u00a0 Quando eles olham para as montanhas e os rios, eles percebem que \u201cos rios n\u00e3o s\u00e3o mais rios e as montanhas n\u00e3o s\u00e3o mais montanhas\u201d.\u00a0 As montanhas \u201centraram\u201d nos rios, e os rios \u201centraram\u201d nas montanhas (interpenetra\u00e7\u00e3o).\u00a0 N\u00e3o obstante, quando querem nadar, eles t\u00eam de mergulhar no rio, e n\u00e3o subir a montanha.\u00a0 Quando voltam \u00e0 vida do dia-a-dia, \u201cas montanhas s\u00e3o novamente montanhas, e os rios s\u00e3o novamente rios\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Nem forma nem vazio<\/strong><\/p>\n<p>O cientista que compreende a natureza da interdepend\u00eancia entre as part\u00edculas provavelmente ser\u00e1 influenciado pela maneira com a qual percebe a realidade at\u00e9 mesmo na vida cotidiana.\u00a0 Por causa disso, tamb\u00e9m pode ocorrer algum tipo de transforma\u00e7\u00e3o em sua vida espiritual. Os meditadores que compreendem a interpenetra\u00e7\u00e3o e a interexist\u00eancia das coisas tamb\u00e9m sofrem mudan\u00e7a em si mesmos. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 a meta fundamental da medita\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que a \u201cconsci\u00eancia de ser\u201d \u00e9 mantida durante todo o dia e n\u00e3o apenas durante os per\u00edodos de medita\u00e7\u00e3o. O meditador est\u00e1 consciente quando caminha, fica de p\u00e9, se deita e assim por diante. Alguns cientistas tamb\u00e9m fazem isso, refletindo o dia inteiro sobre o tema que est\u00e3o pesquisando, atrav\u00e9s de todo seu ser, mesmo enquanto comem ou tomam banho.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de inter-origem (<em>paratantra<\/em>) est\u00e1 muito pr\u00f3xima da realidade vivente. Ela destr\u00f3i os conceitos dualistas de um\/muitos, dentro\/fora, tempo\/espa\u00e7o, mente\/mat\u00e9ria, e assim por diante, que a mente usa para limitar, dividir e moldar a realidade.\u00a0 A no\u00e7\u00e3o de inter-origem pode ser usada n\u00e3o apenas para destruir o h\u00e1bito de retalhar a realidade, mas tamb\u00e9m para ocasionar uma experi\u00eancia direta da realidade.\u00a0 Como ferramenta, contudo, ela n\u00e3o deve ser considerada em si mesma uma forma de realidade.<\/p>\n<p><em>Paratantra<\/em> \u00e9 a natureza da realidade vivente, a aus\u00eancia de um eu essencial [exist\u00eancia inerente]. Assim como o tri\u00e2ngulo s\u00f3 existe porque tr\u00eas linhas se cruzam, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos afirmar que qualquer coisa existe em si mesma. Por n\u00e3o possu\u00edrem uma identidade independente, todos os fen\u00f4menos s\u00e3o descritos como vazios <em>(shunya).<\/em>\u00a0 Isso n\u00e3o significa que os fen\u00f4menos estejam ausentes, mas apenas que s\u00e3o destitu\u00eddos de um eu essencial, ou de uma identidade permanente independente de outros fen\u00f4menos.\u00a0 Da mesma maneira, na f\u00edsica do <em>bootstrap<\/em>, a palavra \u201cpart\u00edculas\u201d n\u00e3o significa pontos tridimensionais que existem independentemente uns dos outros.<\/p>\n<p>A palavra \u201cvazio\u201d nesse caso \u00e9 diferente do termo habitual.\u00a0 Ela transcende os termos usuais de vazio e forma.\u00a0 Ser vazio n\u00e3o significa ser n\u00e3o-existente, e sim destitu\u00eddo de uma identidade permanente. Para evitar confus\u00e3o, os estudiosos budistas com freq\u00fc\u00eancia usam a express\u00e3o \u201cverdadeiro vazio\u201d para referir-se a esse tipo de vazio. O mestre zen Hue Sinh, que viveu no s\u00e9c. XI durante a dinastia Ly, declarou que n\u00e3o podemos usar as palavras vazio e forma para descrever objetos; porque a realidade est\u00e1 al\u00e9m desses dois conceitos:<\/p>\n<p><strong><em>Os dharmas s\u00e3o id\u00eanticos aos n\u00e3o-dharmas,<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Nem existindo nem n\u00e3o existindo.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Aquele que compreende totalmente esta id\u00e9ia<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Percebe que todos os seres s\u00e3o Buda.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>A flor Udumbara ainda est\u00e1 florescendo<\/strong><\/p>\n<p>Existe uma pr\u00e1tica denominada \u201cMedita\u00e7\u00e3o sobre o Verdadeiro Vazio\u201d, na qual o meditador abandona sua maneira habitual de pensar sobre o ser e o n\u00e3o-ser, compreendendo que esses conceitos eram formados pela percep\u00e7\u00e3o incorreta das coisas como independentes e permanentes. Quando uma macieira produz flores, n\u00e3o vemos ainda as ma\u00e7\u00e3s, de modo que poder\u00edamos dizer: \u201cExistem flores, mas n\u00e3o existem ma\u00e7\u00e3s nesta \u00e1rvore\u201d. Fazemos essa afirma\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o percebemos a presen\u00e7a latente das ma\u00e7as nas flores.\u00a0 O tempo aos poucos revelar\u00e1 as ma\u00e7\u00e3s.<\/p>\n<p>Quando contemplamos uma cadeira, vemos a madeira, mas deixamos de observar a \u00e1rvore, a floresta, o carpinteiro, ou nossa pr\u00f3pria mente. Quando meditamos sobre ela, conseguimos ver na cadeira todo o universo em todas as suas rela\u00e7\u00f5es entrela\u00e7adas e interdependentes. A presen\u00e7a da madeira revela a presen\u00e7a da \u00e1rvore. A presen\u00e7a da folha revela a presen\u00e7a do sol.\u00a0 A presen\u00e7a da flor da ma\u00e7\u00e3 revela a presen\u00e7a da fruta. Os meditadores conseguem enxergar o um nos muitos, e os muitos no um.\u00a0 Mesmo antes de verem a cadeira, eles s\u00e3o capazes de perceber sua presen\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o da realidade vivente. A cadeira n\u00e3o \u00e9 separada. Ela existe apenas em suas rela\u00e7\u00f5es interdependentes com tudo o mais no universo. Ela <em>existe <\/em>porque todas as outras coisas existem. Se n\u00e3o <em>existisse, <\/em>as outras coisas tamb\u00e9m n\u00e3o existiriam.<\/p>\n<p>Cada vez que usamos a palavra \u201ccadeira\u201d ou que o conceito \u201ccadeira\u201d se forma em nossa mente, a realidade \u00e9 dividida em dois. Existe a \u201ccadeira\u201d e existe tudo o que \u00e9 \u201cn\u00e3o-cadeira\u201d. Esse tipo de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo violenta e absurda.\u00a0 A espada da conceitua\u00e7\u00e3o funciona dessa maneira porque n\u00e3o compreendemos que a cadeira \u00e9 feita totalmente de elementos n\u00e3o-cadeira.\u00a0 Uma vez que todos os elementos n\u00e3o-cadeira est\u00e3o presentes na cadeira, como podemos separ\u00e1-los? Um indiv\u00edduo desperto v\u00ea vividamente os elementos n\u00e3o-cadeira ao olhar para a cadeira, e compreende que a cadeira n\u00e3o tem limites, n\u00e3o tem in\u00edcio nem fim.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7a, talvez voc\u00ea tenha brincado com um caleidosc\u00f3pio. quantas imagens maravilhosas s\u00e3o formadas pelos fragmentos de vidro colorido colocados entre duas lentes e tr\u00eas espelhos.\u00a0 Cada vez que voc\u00ea mexe levemente o dedo, surge uma imagem nova e igualmente bela.\u00a0 Poder\u00edamos dizer que cada imagem tem um in\u00edcio e um fim, mas sabemos que a verdadeira natureza dela, as lentes e o vidro colorido, n\u00e3o surge nem desaparece com cada nova configura\u00e7\u00e3o.\u00a0 Esses milhares ou milh\u00f5es de padr\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o sujeitos \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cin\u00edcio e fim\u201d.\u00a0 Da mesma maneira, seguimos nossa respira\u00e7\u00e3o e meditamos sobre a natureza sem in\u00edcio e sem fim de n\u00f3s mesmos e do mundo. Ao faz\u00ea-lo, podemos perceber que a libera\u00e7\u00e3o do nascimento e morte j\u00e1 est\u00e1 ao nosso alcance.<\/p>\n<p>Negar a exist\u00eancia de uma cadeira \u00e9 negar a presen\u00e7a de todo o universo. Uma cadeira que existe n\u00e3o pode se tornar n\u00e3o-existente, mesmo que a rachemos em pedacinhos ou a queimemos. Se consegu\u00edssemos destruir uma \u00fanica cadeira, poder\u00edamos destruir todo o universo. O conceito de \u201cin\u00edcio e fim\u201d est\u00e1 estreitamente ligado ao conceito de \u201cexistir e n\u00e3o-existir\u201d. Por exemplo, a partir de que momento no tempo podemos dizer que uma bicicleta espec\u00edfica passou a existir e a partir de que momento ela deixou de existir?\u00a0 Se dissermos que ela come\u00e7ou a existir no momento em que a \u00faltima pe\u00e7a foi montada, isto significa que n\u00e3o podemos dizer: \u201cEsta bicicleta precisa apenas de uma \u00faltima pe\u00e7a\u201d, no momento anterior? E quando ela est\u00e1 quebrada e n\u00e3o podemos andar nela, por que dizemos que ela \u00e9 \u201cuma bicicleta quebrada\u201d?\u00a0 Se meditarmos a respeito do momento em que a bicicleta existe e sobre o momento em que ela n\u00e3o <em>existe <\/em>ma\u00eds, perceberemos que a bicicleta n\u00e3o pode ser colocada nas categorias \u201cexistir e n\u00e3o-existir\u201d ou \u201cin\u00edcio e fim\u201d.<\/p>\n<p>O poeta indiano Rabindranath Tagore existiu ou n\u00e3o antes de nascer? Se voc\u00ea aceitar o princ\u00edpio da \u201cinterpenetra\u00e7\u00e3o\u201d do <em>Avatamsaka Sutra<\/em> ou o princ\u00edpio da \u201cinterexist\u00eancia\u201d da f\u00edsica <em>bootstrap<\/em>, voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 dizer que j\u00e1 houve um tempo em que \u201cTagore <em>n\u00e3o existiu<\/em>&#8220;, mesmo na \u00e9poca antes do nascimento ou depois da morte dele. Se Tagore n\u00e3o existe, ent\u00e3o todo o universo n\u00e3o pode existir, e nem eu nem voc\u00ea existimos. N\u00e3o \u00e9 por causa do \u201cnascimento\u201d dele que Tagore existe, e tampouco por causa da \u201cmorte\u201d dele que ele n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Num final de tarde eu estava no pico do Abutre no estado indiano de Bihar quando vi um belo p\u00f4r-do-sol e, de repente, percebi que Shakyamuni Buda ainda estava sentado no local:<\/p>\n<p><em>O grande mendigo de outrora<\/em><\/p>\n<p><em>ainda se encontra no pico do Abutre<\/em><\/p>\n<p><em>contemplando o belo p\u00f4r-do-sol.<\/em><\/p>\n<p><em>Gautama, como \u00e9 estranho!<\/em><\/p>\n<p><em>Quem disse que a flor Udumbara<\/em><\/p>\n<p><em>floresce apenas a cada 3.000 anos?<\/em><\/p>\n<p><em>O som da mar\u00e9 alta, voc\u00ea n\u00e3o pode <\/em><\/p>\n<p><em>deixar de escutar se tiver o ouvido atento.<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 ouvi muitos amigos se lamentarem por n\u00e3o ter vivido na \u00e9poca de Buda.\u00a0 Creio que mesmo que eles cruzassem por ele na rua, n\u00e3o o teriam reconhecido.\u00a0 N\u00e3o apenas Tagore e Shakyamuni Buda, mas sim todos n\u00f3s n\u00e3o temos in\u00edcio nem fim.\u00a0 Estou aqui porque voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed.\u00a0 Se um de n\u00f3s n\u00e3o existir, ningu\u00e9m mais pode existir.\u00a0 A realidade n\u00e3o pode ser limitada por conceitos como existir, n\u00e3o-existir, nascimento e morte.\u00a0 A express\u00e3o &#8220;verdadeiro vazio&#8221; pode ser usada para descrever a realidade e destruir todas as id\u00e9ias que nos aprisionam e nos dividem, e que criam artificialmente uma realidade. \u00a0Sem uma mente livre de id\u00e9ias preconcebidas, n\u00e3o podemos penetrar a realidade.\u00a0 Os cientistas est\u00e3o come\u00e7ando a perceber que n\u00e3o podem usar a linguagem comum para descrever <em>insights<\/em> n\u00e3o conceituais.\u00a0 A linguagem cient\u00edfica est\u00e1 come\u00e7ando a ter a natureza simb\u00f3lica da poesia.\u00a0 Hoje em dia, palavras como \u201ccharme\u201d e \u201ccor\u201d est\u00e3o sendo usadas para descrever propriedades de part\u00edculas que n\u00e3o possuem uma contraparte conceitual na \u201cmacro-esfera\u201d.\u00a0 Algum dia a realidade se revelar\u00e1 al\u00e9m de todas as conceitualiza\u00e7\u00f5es e medi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O <em>Tathagata<\/em> n\u00e3o chega nem vai embora<\/strong><\/p>\n<p>Esta realidade n\u00e3o conceitual, ou verdadeiro vazio, tamb\u00e9m \u00e9 chamada de \u201cassim \u00e9\u201d (<em>bhutatathata<\/em>). Ela n\u00e3o pode ser concebida ou descrita atrav\u00eas de palavras, devendo ser diretamente experimentada. Suponha que haja uma tangerina sobre a mesa e algu\u00e9m lhe pergunte: \u201cQual o gosto dessa fruta?\u201d<\/p>\n<p>Em vez de responder, voc\u00ea precisa tirar um gomo da tangerina e oferec\u00e8-lo \u00e0 pessoa que fez \u00e0 pergunta para que ela o prove. Ao fazer isso, voc\u00ea permite que ela penetre a qualidade \u201c<em>assim \u00e9\u201d<\/em> da tangerina sem nenhuma descri\u00e7\u00e3o verbal ou conceitual.<\/p>\n<p>Para lembrar a seus disc\u00edpulos da natureza incondicionada, sem in\u00edcio e sem fim da realidade, Buda lhes pediu que se dirigissem a ele como o <em>Tathagata<\/em>.\u00a0 N\u00e3o se trata de um t\u00edtulo honor\u00edfico. <em>Tathagata<\/em> significa \u201caquele que vem assim\u201d ou \u201caquele que vai assim\u201d.\u00a0 Significa que ele surge do <em>assim \u00e9<\/em>, permanece no <em>assim \u00e9<\/em> e, algum dia, voltar\u00e1 ao <em>assim \u00e9<\/em>. Quem ou o que n\u00e3o surge do <em>assim \u00e9<\/em>? Voc\u00ea e eu, uma lagarta, um gr\u00e3o de poeira, tudo surge do <em>assim \u00e9<\/em>, tudo permanece no <em>assim \u00e9<\/em>, e um dia voltar\u00e1 ao <em>assim \u00e9<\/em>. Na verdade, as palavras \u201csurge do\u201d, \u201cpermanece no\u201d, e \u201cvoltar\u00e1 ao\u201d n\u00e3o t\u00eam um significado real. Nunca podemos abandonar o <em>assim \u00e9<\/em>. No <em>Anuradha Sutra<\/em>, o Buda respondeu a uma pergunta que estava perturbando muitos monges: \u201cO que acontece ao <em>Tathagata<\/em> depois da morte?\u00a0 Ele continua a existir?\u00a0 Ele deixa de existir?\u00a0 Ele continua ao mesmo tempo a existir e a n\u00e3o existir?\u00a0 Ele n\u00e3o continua nem deixa de existir?&#8221;<\/p>\n<p>O Buda perguntou a Anuradha: \u201cO que voc\u00ea acha?\u00a0 O <em>Tathagata<\/em> pode ser reconhecido atrav\u00e9s da forma?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO <em>Tathagata<\/em> pode ser encontrado fora da forma?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO <em>Tathagata<\/em> pode ser reconhecido por meio do sentimento, da percep\u00e7\u00e3o, das cria\u00e7\u00f5es mentais ou da consci\u00eancia?\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, mestre\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAnuradha, se voc\u00ea n\u00e3o consegue achar o <em>Tathagata<\/em> nem mesmo nesta vida, por que voc\u00ea quer resolver o problema de se ele continuar\u00e1 ou deixar\u00e1 de existir, se continuar\u00e1 ao mesmo tempo a existir ou deixar de existir, ou se nem continuar\u00e1 nem deixar\u00e1 de existir depois da morte?\u201d<sup>23<\/sup><\/p>\n<p>Robert Oppenheimer, f\u00edsico conhecido como o pai da primeira bomba at\u00f4mica, teve a oportunidade de ler esta se\u00e7\u00e3o do <em>Anuradha Sutra<\/em>. Ele a interpretou baseado nas observa\u00e7\u00f5es que fez sobre as part\u00edculas, que n\u00e3o podem ser limitadas por conceitos de espa\u00e7o, tempo, exist\u00eancia ou n\u00e3o-exist\u00eancia.\u00a0 Ele escreveu:<\/p>\n<p>Para aquelas que parecerem ser as mais simples perguntas, tenderemos a n\u00e3o dar resposta ou dar uma resposta que \u00e0 primeira vista far\u00e1 lembrar mais um estranho catecismo do que declara\u00e7\u00f5es diretas da ci\u00eancia f\u00edsica.\u00a0 Se perguntarmos, por exemplo, se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron permanece a mesma, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se a posi\u00e7\u00e3o do el\u00e9tron muda com o tempo, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se o el\u00e9tron est\u00e1 em repouso, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d; se perguntarmos se ele est\u00e1 em movimento, precisamos responder \u201cn\u00e3o\u201d.<sup>24<\/sup><\/p>\n<p>Como voc\u00ea pode ver, a linguagem da ci\u00eancia j\u00e1 come\u00e7ou a aproximar-se da linguagem do budismo.\u00a0 Depois de ler a cita\u00e7\u00e3o acima do <em>Anuradha Sutra<\/em>, Oppenheimer declarou que at\u00e9 este s\u00e9culo os cientistas ainda n\u00e3o haviam sido capazes de compreender as respostas que Buda dera 2.500 anos antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A rede de nascimento e morte pode ser despeda\u00e7ada<\/strong><\/p>\n<p>Uma outra medita\u00e7\u00e3o pode ser usada em lugar da do verdadeiro vazio.\u00a0 Ela se chama medita\u00e7\u00e3o sobre a qualidade milagrosa da exist\u00eancia. \u201cExist\u00eancia\u2019 significa estar no presente. \u201cA qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d significa ter consci\u00eancia de que o universo est\u00e1 contido em cada coisa, e que o universo n\u00e3o poderia existir se n\u00e3o contivesse cada coisa. Essa consci\u00eancia da interliga\u00e7\u00e3o, interpenetra\u00e7\u00e3o e interexist\u00eancia faz com que seja imposs\u00edvel dizermos que algo \u201c\u00e9\u201d ou \u201cn\u00e3o-\u00e9\u201d, de modo que a chamamos de \u201cexist\u00eancia milagrosa\u201d.<\/p>\n<p>Embora Oppenheimer tenha respondido \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cn\u00e3o\u201d quatro vezes \u00e0s perguntas a respeito da natureza dos el\u00e9trons, ele n\u00e3o quis dizer que os el\u00e9trons n\u00e3o existem.\u00a0 Embora o Buda tenha dito: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o consegue achar o <em>Tathagata<\/em> nem mesmo nesta vida\u201d, ele n\u00e3o quis dizer que o <em>Tathagata<\/em> n\u00e3o existe. O Grande <em>Prajna Sutra<\/em> usa a palavra \u201cn\u00e3o-vazio\u201d (<em>asunya<\/em>) para descrever esse estado. \u201cN\u00e3o vazio\u201d \u00e9 o mesmo que \u201ca qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d. \u201cVerdadeiro vazio\u201d \u00e9 \u201ca qualidade milagrosa da exist\u00eancia\u201d podem evitar que caiamos na armadilha de estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre a exist\u00eancia e a n\u00e3o-exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tanto os el\u00e9trons quanto o <em>Tathagata<\/em> est\u00e3o al\u00e9m dos conceitos de exist\u00eancia e n\u00e3o-exist\u00eancia. A natureza do verdadeiro vazio e da qualidade milagrosa da exist\u00eancia dos el\u00e9trons e do <em>Tathagata<\/em> nos salvam das armadilhas da exist\u00eancia e da n\u00e3o-exist\u00eancia e nos conduzem diretamente ao mundo da n\u00e3o-conceitua\u00e7\u00e3o.\u00a0 Como podemos praticar a medita\u00e7\u00e3o sobre a qualidade milagrosa da exist\u00eancia?\u00a0 Qualquer pessoa que compreenda a teoria da relatividade sabe que o espa\u00e7o est\u00e1 intimamente relacionado tanto com o tempo quanto com a mat\u00e9ria. Para essas pessoas, o espa\u00e7o tem um significado mais amplo do que para aquelas que ainda acreditam que o espa\u00e7o existe independentemente do tempo e da mat\u00e9ria. Quando contemplamos uma abelha, talvez queiramos v\u00ea-Ia primeiro atrav\u00e9s dos olhos de um f\u00edsico que compreenda a relatividade, e depois ir inclusive al\u00e9m dessa vis\u00e3o e enxergar nela o verdadeiro vazio e a qualidade milagrosa da exist\u00eancia. Se voc\u00ea tentar fazer isso regularmente, com todo o seu ser, estou certo de que conseguir\u00e1 se libertar do emaranhamento da rede de nascimento e morte. Nos c\u00edrculos zen, o problema do nascimento e morte sempre foi considerado extremamente premente. O mestre zen Hakuin desenhou bem grande o caracter que representa a morte e depois acrescentou a seguinte frase, em pinceladas menores: \u201cQuem conseguir enxergar as profundezas desta palavra \u00e9 um verdadeiro her\u00f3i\u201d.<sup>25<\/sup><\/p>\n<p>Eu costumava achar que libertar-me do nascimento e da morte era uma meta long\u00ednqua. Quando lecionei em Saigon, na Universidade Budista Van Hanh, contemplei as est\u00e1tuas de Arahats descarnados, e imaginei que devia ser necess\u00e1rio exaurir nossas for\u00e7as dessa maneira para diminuir nossos desejos, at\u00e9 que f\u00f4ssemos tomados pela completa exaust\u00e3o e compreend\u00eassemos essa libera\u00e7\u00e3o. Mais tarde, por\u00e9m, quando praticava em Phuong Boi, no Vietn\u00e3 central, percebi que a liberta\u00e7\u00e3o do nascimento e morte n\u00e3o \u00e9 um projeto abstrato ou de longo prazo. O nascimento e a morte s\u00e3o apenas conceitos. Livrarmo-nos desses conceitos significa livrarmo-nos do nascimento e morte. \u00c9 perfeitamente poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas a liberta\u00e7\u00e3o do nascimento e morte n\u00e3o pode acontecer apenas em fun\u00e7\u00e3o do entendimento intelectual.\u00a0 Quando percebermos a natureza interdependente de tudo no universo, quando compreendermos o significado do verdadeiro vazio e da qualidade milagrosa da exist\u00eancia, teremos plantado as sementes da liberta\u00e7\u00e3o no campo da nossa consci\u00eancia. Para que essas sementes cres\u00e7am, precisamos praticar a medita\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o, podemos nos tornar suficientemente fortes para abrir caminho atrav\u00e9s do conceito de nascimento e morte, que \u00e9 na verdade apenas um dos in\u00fameros conceitos que criamos.<\/p>\n<p>Um f\u00edsico capaz de perceber a interpenetra\u00e7\u00e3o e a interexist\u00eancia das part\u00edculas elementares sem ultrapassar o pr\u00f3prio intelecto alcan\u00e7ou, do ponto de vista da libera\u00e7\u00e3o budista, apenas uma fachada decorativa. Algu\u00e9m que estude o budismo sem praticar a medita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acumulou o conhecimento como mera decora\u00e7\u00e3o. Temos o nosso destino em nossas m\u00e3os.\u00a0 Temos a capacidade de praticar at\u00e9 que todos os conceitos sobre o nascimento e a morte, sobre a exist\u00eancia e a n\u00e3o-exist\u00eancia, sejam erradicados.<\/p>\n<p>As imagens que ofereci &#8211; o sol, a laranja, a cadeira, a lagarta, a bicicleta, os el\u00e9trons e assim por diante &#8211; podem ser objetos que nos tragam uma experi\u00eancia direta da realidade. Medite sobre o sol como seu segundo cora\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o do seu \u201ceu exterior\u201d.\u00a0 Medite sobre o sol em cada c\u00e9lula de seu corpo. Medite para ver o sol nas plantas, em cada peda\u00e7o nutritivo dos legumes e verduras que voc\u00ea ingere. Gradualmente, voc\u00ea ver\u00e1 \u201c<em>o corpo da realidade suprema<\/em>\u201d (<em>Dharmakaya<\/em>) e reconhecer\u00e1 sua \u201c<em>verdadeira natureza<\/em>\u201d.\u00a0 Ent\u00e3o o nascimento e a morte n\u00e3o mais poder\u00e3o toc\u00e1-lo, e voc\u00ea ter\u00e1 alcan\u00e7ado o sucesso.\u00a0 Tu\u00ea Trung, um mestre vietnamita zen do s\u00e9c.\u00a0 XIV, escreveu:<\/p>\n<p><em>Nascimento e morte,<\/em><\/p>\n<p><em>Voc\u00eas t\u00eam me esmagado.<\/em><\/p>\n<p><em>Agora voc\u00eas n\u00e3o mais podem me tocar.<\/em><\/p>\n<p>Por favor, medite profundamente sobre essas duas frases at\u00e9 conseguir ver Tu\u00ea Trung em cada c\u00e9lula do seu corpo.<\/p>\n<p><em>Uma folha pode nos conduzir diretamente<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c0\u00a0 realidade n\u00e3o conceitual.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em><sup>Do livro,\u00a0 O SOL MEU CORA\u00c7\u00c3O &#8211; da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o intuitiva &#8211;<\/sup><\/em><\/p>\n<p><strong><em><sup>Thich Nhat Hanh<\/sup><\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>FILOSOFIA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h1><strong>OS PR\u00c9-SOCR\u00c1TICOS:<\/strong><\/h1>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>ANAXIMANDRO<\/strong><\/p>\n<p><strong>[ Cerca de 610-547 A.C. ]<\/strong><sup> 1<\/sup><\/p>\n<p>O Ser origin\u00e1rioassim denominado est\u00e1 acima do vir-a-ser e, justamente por isso, garante a eternidade e o curso ininterrupto do vir-a-ser. Essa unidade \u00faltima naquele \u201cIndeterminado\u201d, matriz de todas as coisas, por certo s\u00f3 pode ser designada negativamente pelo homem, como algo a que n\u00e3o pode ser dado nenhum predicado do mundo do vir-a-ser que a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p>De onde as coisas t\u00eam seu nascimento, ali tamb\u00e9m devem ir ao fundo, segundo a necessidade; pois tem de pagar penit\u00eancia e de serem julgadas, conforme a ordem do tempo\u201d. Anaximandro considera todo o vir-a-ser como uma emancipa\u00e7\u00e3o do Ser eterno, digna de castigo, como uma injusti\u00e7a que deve ser espiada pelo sucumbir. Tudo que alguma vez veio a ser, tamb\u00e9m perece outra vez, quer pensemos na vida humana, ou na \u00e1gua, ou no quente e no frio; por toda parte, onde podem ser percebidas propriedades determinadas, podemos profetizar o sucumbir dessas\u00a0 propriedades, de acordo com uma monstruosa prova experimental. Nunca, portanto, um ser que possui propriedades determinadas, e consiste nelas, pode ser origem e princ\u00edpio das coisas; o que \u00c9 verdadeiramente, conclui Anaximandro de Mileto [disc\u00edpulo de Tales], n\u00e3o pode possuir propriedades determinadas, sen\u00e3o teria nascido, como todas as outras coisas, e teria de ir ao fundo. Para que o vir-a-ser n\u00e3o cesse, o \u201cSer origin\u00e1rio tem de ser\u00a0 indeterminado\u201d,\u00a0\u00a0 \u201c\u00c1peiron\u201d\u00a0 [Sem limite, infinito, ilimitado].<\/p>\n<p>A imortalidade e eternidade do Ser Origin\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 em sua infinitude e inexauribilidade [como comumente admitem os comentadores de Anaximandro], mas em ser destitu\u00eddo de qualidades determinadas, que o levam a sucumbir: e \u00e9 por isso, tamb\u00e9m, que ele traz o nome de\u00a0 \u201cO Indeterminado\u201d. [*]<\/p>\n<p><strong>HER\u00c1CLITO <\/strong><\/p>\n<p><strong>[Cerca de 540-470\u00a0\u00a0\u00a0 A.C.]<sup>2 <\/sup>&#8211; <\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Arist\u00f3teles diz que Her\u00e1clito afirma que \u00e9 apenas o UM<sup>(1)<\/sup> que permanece; disto todo o resto \u00e9 formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste Um flui, que nada \u00e9 firme, que nada se demora; isto \u00e9, o verdadeiro \u00e9 o devir, n\u00e3o o Ser &#8211; a determina\u00e7\u00e3o mais exata para este conte\u00fado universal \u00e9 o devir. Her\u00e1clito diz: \u201cTudo \u00e9 devir, este devir \u00e9 o princ\u00edpio . Isto est\u00e1 na express\u00e3o :&#8221;O ser \u00e9 t\u00e3o pouco como o n\u00e3o-ser; o devir \u00e9 e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9\u201d.\u00a0 As determina\u00e7\u00f5es absolutamente opostas est\u00e3o ligadas numa unidade; nela temos o Ser e tamb\u00e9m o N\u00e3o-Ser. Dela faz parte n\u00e3o apenas o surgir, mas tamb\u00e9m o desaparecer; ambos n\u00e3o s\u00e3o para si, mas s\u00e3o id\u00eanticos. \u00c9 isto que Her\u00e1clito expressou com suas senten\u00e7as.\u00a0 \u201cO ser n\u00e3o \u00e9, por isso \u00e9 o n\u00e3o-ser, e o n\u00e3o-ser \u00e9, por isso \u00e9 o ser\u201d ; isto \u00e9 a verdade da identidade de ambos. Este esp\u00edrito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda:\u00a0 \u201cO ser n\u00e3o \u00e9 mais que\u00a0 o n\u00e3o-ser\u201d, nem menos; ou \u201cser e nada s\u00e3o o mesmo\u201d. A ess\u00eancia \u00e9 a mudan\u00e7a. Ele diz ainda: \u201cTudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo\u201d. Ele compara as coisa como a corrente de um rio &#8211; que n\u00e3o se pode entrar duas vezes na mesma corrente&#8221; ; o rio corre e toca-se outra \u00e1gua. Seus sucessores dizem at\u00e9 que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que \u00e9, ao mesmo tempo j\u00e1 novamente n\u00e3o \u00e9. [&#8230;]<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>PARM\u00caNIDES DE EL\u00c9IA<\/strong><\/p>\n<p><strong>[cerca de 530-460 A.C.]<sup>3<\/sup><\/strong><\/p>\n<p>Parm\u00eanides v\u00ea como Her\u00e1clito, o vir-a-ser e o n\u00e3o-permanecer universais, mas apenas pode interpretar um perecer de tal maneira que nele o n\u00e3o-ser precise ter uma culpa. Pois como podia o ser ter a culpa do perecer! Entretanto, o nascer precisa igualmente realizar-se pelo aux\u00edlio do n\u00e3o-ser: pois o ser est\u00e1 sempre, presente e n\u00e3o\u00a0 poderia, por si mesmo, nascer nem explicar nenhum nascer. Assim, tanto o nascer como o perecer s\u00e3o produzidos pelas qualidades negativas. O fato de ter um conte\u00fado o que nasce e perder um conte\u00fado o que perece, pressup\u00f5e que as qualidades positivas &#8211; isto \u00e9, do ser &#8211; participem igualmente de ambos os processos: \u201cAo vir-a-ser \u00e9 necess\u00e1rio tanto o ser quanto o n\u00e3o ser; se eles agem conjuntamente, ent\u00e3o resulta um vir-a-ser\u201d. [&#8230;]<\/p>\n<p>Parm\u00eanides examinava aquelas oposi\u00e7\u00f5es cooperantes cujo desejo e \u00f3dio constitu\u00edam o mundo e o vir-a-ser, o ser e o n\u00e3o-ser, as qualidades positivas e negativas; e ent\u00e3o ele se prendeu repentinamente, desconfiado, ao conceito de qualidade negativa, do n\u00e3o-ser. Algo que n\u00e3o \u00e9 pode ser uma qualidade? Ou, interrogando no plano dos princ\u00edpios: Algo que n\u00e3o \u00e9 pode ser?\u00a0 Mas a \u00fanica forma do conhecimento que nos oferece imediatamente uma seguran\u00e7a incondicional e cuja nega\u00e7\u00e3o iguala a loucura \u00e9 a tautologia\u00a0 <strong>A = A. <\/strong>Este mesmo conhecimento tautol\u00f3gico lhe dizia implacavelmente: \u201cO ser que n\u00e3o \u00e9, n\u00e3o \u00e9! O que \u00e9, \u00e9!\u201d. Repentinamente ele sentiu pesar sobre sua vida um monstruoso pecado l\u00f3gico: ele sempre havia suposto sem escr\u00fapulos que existiam qualidades negativas, n\u00e3o seres em geral, havia suposto que, formalmente expresso, <strong>A = ~A<\/strong>: o que somente a mais completa perversidade do pensamento poderia formular. Mas vendo as coisas de perto, como ele mesmo percebeu, a maioria dos homens julgava com a mesma perversidade; ele mesmo tinha apenas tomado parte no crime geral contra a l\u00f3gica. Mas o mesmo momento que o acusa deste crime ilumina-o com a gl\u00f3ria de uma descoberta: ele encontrou um princ\u00edpio, a chave para o mist\u00e9rio universal, separado de toda ilus\u00e3o humana; na firme e terr\u00edvel m\u00e3o da verdade tautol\u00f3gica sobre o ser, ele desce agora ao abismo das coisas.<\/p>\n<p>No caminho ele encontra Her\u00e1clito: um encontro infeliz! Para ele, que tinha colocado tudo na mais rigorosa separa\u00e7\u00e3o entre ser e n\u00e3o-ser, os jogos de antinomias de Her\u00e1clito tinham que ser profundamente odiosos; proposi\u00e7\u00f5es como: \u201cN\u00f3s simultaneamente somos e n\u00e3o somos&#8230;\u201d \u201cSer e n\u00e3o-ser s\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o os mesmos\u201d, proposi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s das quais tudo que ele tinha destrinchado e esclarecido se tornaria novamente opaco e inexplic\u00e1vel, levaram-no ao furor. [&#8230;]<\/p>\n<p>A compreens\u00e3o da massa, glorificada atrav\u00e9s dos jogos de antinomias e exaltada como o cume de todo o conhecimento, era para ele uma viv\u00eancia dolorosa e inintelig\u00edvel.<\/p>\n<p>Ele mergulhava ent\u00e3o no banho frio de suas terr\u00edveis abstra\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 verdadeiro precisa estar no presente eterno, dele n\u00e3o pode ser dito \u201cele era\u201d, \u201cele ser\u00e1\u201d. O ser n\u00e3o pode vir-a-ser: pois de que ele teria vindo? Isto n\u00e3o seria sen\u00e3o produzir-se a si mesmo. O mesmo acontece com o perecer; ele \u00e9 igualmente imposs\u00edvel, como o vir-a-ser, como toda muta\u00e7\u00e3o, como todo aumento, como toda diminui\u00e7\u00e3o. \u00c9 v\u00e1lida em geral a proposi\u00e7\u00e3o: tudo do que pode ser dito \u201cfoi\u201d ou \u201cser\u00e1\u201d, n\u00e3o \u00e9. Do ser, entretanto, nunca pode ser dito \u201cn\u00e3o \u00e9\u201d. O ser \u00e9 indivis\u00edvel, pois onde est\u00e1 a segunda pot\u00eancia que devia dividi-lo? Ele \u00e9 im\u00f3vel, pois para onde ele deveria movimentar-se? Ele n\u00e3o pode ser nem infinitamente grande nem infinitamente pequeno, pois ele \u00e9 acabado e um infinito dado por acabado \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim limitado, acabado, im\u00f3vel, em equil\u00edbrio, em todos os pontos igualmente perfeito como uma esfera, ele paira, mas n\u00e3o em um espa\u00e7o, pois caso contr\u00e1rio este espa\u00e7o seria um segundo ser. Mas n\u00e3o podem existir v\u00e1rios seres, pois para separ\u00e1-los precisaria haver algo que n\u00e3o fosse um ser: o que \u201c\u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o que se suprime a si mesma. Assim, existe apenas a <strong>Unidade<\/strong> eterna (atemporal)\u201d.<\/p>\n<p>Mas, se agora Parm\u00eanides voltava seu olhar ao mundo do vir-a-ser, cuja exist\u00eancia ele antes tinha procurado compreender atrav\u00e9s de combina\u00e7\u00f5es t\u00e3o engenhosas, ele zangava-se com seus olhos, por verem o vir-a-ser e com seus ouvidos, por ouvi-lo. Seu imperativo agora era: \u201cN\u00e3o siga seus olhos est\u00fapidos, n\u00e3o siga seu ouvido ruidoso ou a l\u00edngua, mas examine tudo somente com a for\u00e7a do pensamento\u201d. Com isso ele operava a primeira cr\u00edtica do aparelho do conhecimento<sup>4<\/sup>, extremamente importante e funesta em suas conseq\u00fc\u00eancias,\u00a0 se bem que ainda muito insuficiente. Atrav\u00e9s disso ele repentinamente separou os sentidos e a capacidade de pensar abstra\u00e7\u00f5es, a raz\u00e3o, como se fossem duas faculdades inteiramente distintas<sup>5<\/sup>, desintegrou o pr\u00f3prio intelecto e animou aquela divis\u00e3o completamente err\u00f4nea entre corpo e mente que, especialmente desde Plat\u00e3o pesa sobre a filosofia como uma maldi\u00e7\u00e3o. Todas as percep\u00e7\u00f5es dos sentidos pensa Parm\u00eanides, d\u00e3o apenas ilus\u00f5es; e sua ilus\u00e3o fundamental \u00e9 simular que o n\u00e3o-ser \u00e9, que o vir-a-ser tem um ser. Toda aquela multiplicidade e variedade do mundo conhecido pela experi\u00eancia, a troca de suas qualidades, a ordena\u00e7\u00e3o de seus altos e baixos, foram postas de lado impiedosamente como uma ilus\u00e3o e pura apar\u00eancia[&#8230;]<\/p>\n<p>Na filosofia de Parm\u00eanides preludia-se o tema da ontologia. A experi\u00eancia n\u00e3o lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele pensava, mas, do fato que podia\u00a0 pens\u00e1-lo, ele conclu\u00eda que ele precisava existir: uma conclus\u00e3o que repousa sobre o pressuposto de que n\u00f3s temos um \u00f3rg\u00e3o do conhecimento que vai \u00e0 ess\u00eancia das coisas e \u00e9 independente da experi\u00eancia. Segundo Parm\u00eanides, o elemento de nosso pensamento n\u00e3o est\u00e1 presente na intui\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 trazido de outra parte, de um mundo extra-sens\u00edvel ao qual n\u00f3s temos um acesso direto atrav\u00e9s do pensamento. [&#8230;]<\/p>\n<p>Mas agora a multiplicidade tem um ser verdadeiro todas as qualidades t\u00eam um ser verdadeiro, e o movimento n\u00e3o menos; e de cada momento deste mundo, mesmo se estes momentos arbitrariamente escolhidos fossem separados por mil\u00eanios, precisaria ser dito: todas as essencialidades verdadeiras presentes neles existem simultaneamente sem exce\u00e7\u00e3o, imut\u00e1veis, irredut\u00edveis, sem aumento sem diminui\u00e7\u00e3o. Um mil\u00eanio mais tarde elas s\u00e3o as mesmas, nada se transformou. A despeito disto, se o mundo parece uma vez completamente diferente do que em outra, isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma ilus\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 nenhuma apar\u00eancia,\u00a0 mas conseq\u00fc\u00eancia do movimento eterno.<\/p>\n<p>As palavras s\u00e3o apenas s\u00edmbolos das rela\u00e7\u00f5es das coisas entre si e conosco, elas n\u00e3o fundam em parte alguma a verdade absoluta ; e a palavra \u201cser\u201d indica apenas a rela\u00e7\u00e3o mais geral que liga todas as coisas, igualmente como a palavra \u201cn\u00e3o-ser\u201d. Mas se a pr\u00f3pria exist\u00eancia das coisas n\u00e3o \u00e9 demonstr\u00e1vel, ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o das coisas entre si, o chamado \u201cser\u201d e\u00a0 \u201cn\u00e3o-ser\u201d, n\u00e3o pode ajudar a aproximarmo-nos nem um passo do pa\u00eds da verdade. Atrav\u00e9s de palavras e conceitos n\u00e3o chegamos jamais a penetrar a muralha das rela\u00e7\u00f5es, nem mesmo a algum fabuloso fundamento origin\u00e1rio das coisas; no tempo e na causalidade, n\u00e3o atingimos a nada que se assemelhe a uma <em>veritas aeterna.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 incondicionalmente imposs\u00edvel para o sujeito, querer conhecer e ver algo acima de si mesmo; t\u00e3o imposs\u00edvel que conhecimento e ser s\u00e3o, de todas as esferas, as mais contradit\u00f3rias. Se Parm\u00eanides, na ingenuidade ignorante da cr\u00edtica do intelecto de ent\u00e3o, podia presumir chegar a um <strong>ser-em-si<\/strong> a partir de um conceito eternamente subjetivo, hoje, depois de Kant, \u00e9 uma ignor\u00e2ncia atrevida colocar aqui e ali, como tarefa da filosofia, particularmente junto aos te\u00f3logos mal instru\u00eddos que querem brincar de fil\u00f3sofos, \u201capreender o Absoluto com a consci\u00eancia [o intelecto]\u201d, aproximadamente na forma: \u201cO\u00a0 Absoluto j\u00e1 est\u00e1 presente, sen\u00e3o como ele poderia ser procurado?\u201d &#8211; como se exprimiu Hegel. Ou na dire\u00e7\u00e3o de Beneke: \u201cO ser precisa estar dado de alguma maneira, ele precisa de alguma maneira estar acess\u00edvel, sem o que nem mesmo o conceito do ser poder\u00edamos ter\u201d. O conceito de ser! Como se ele j\u00e1 n\u00e3o mostrasse na etimologia a mais pobre origem emp\u00edrica. Pois, no fundo, <strong><em>esse<\/em><\/strong> quer dizer apenas respirar; e, quando o homem o emprega em rela\u00e7\u00e3o a todas as outras coisas, ele transfere a convic\u00e7\u00e3o que ele mesmo respira e vive as coisas, atrav\u00e9s de uma met\u00e1fora, isto \u00e9, atrav\u00e9s de algo il\u00f3gico, compreendendo a exist\u00eancia destas coisas como um respirar, segundo a analogia humana.<\/p>\n<p>[*] &#8211; \u00c9 tamb\u00e9m a vis\u00e3o Taoista e Budista<\/p>\n<p><sup>[1] &#8211; Nietzsche &#8211; A FILOSOFIA DOS GREGOS #4.\u00a0 <\/sup><\/p>\n<p><sup>[2] &#8211; Hegel &#8211; Her\u00e1clito de \u00c9feso.<\/sup><\/p>\n<p><sup>[3] &#8211; Niettzsche &#8211; Trechos da &#8220;A Filosofia na \u00c9poca Tr\u00e1gica dos Gregos&#8221; <\/sup><\/p>\n<p><sup>[4] &#8211; Budha h\u00e1 2500 AC. J\u00e1 havia feito<\/sup><\/p>\n<p><sup>[5] &#8211; Budha diz que \u00e9 al\u00e9m do pensar e do n\u00e3o-pensar<\/sup><\/p>\n<p><sup>[6] &#8211; Por isso o Tao, o Budismo usam o termo Vazio em lugar do\u00a0 ser no sentido de Parm\u00eanides.<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>SER = NADA = VAZIO ?<\/strong><\/p>\n<p>Sobre o Nada a Metaf\u00edsica se expressa desde a Antig\u00fcidade numa enuncia\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida mult\u00edvoca: <em>\u201cex nihilo nihil fit\u201d,<\/em> \u201cdo nada, nada vem\u201d.<\/p>\n<p>Ainda que, na discuss\u00e3o do enunciado, o nada, em si mesmo, nunca se torne problema, expressa ele, contudo, a partir do respectivo ponto de vista sobre o nada a concep\u00e7\u00e3o fundamental do ente que aqui \u00e9 condutora. A Metaf\u00edsica antiga concebe o Nada no sentido do n\u00e3o-ente, quer dizer, da mat\u00e9ria informe, que a si mesma n\u00e3o pode dar forma\u00a0 de um ente com car\u00e1ter de figura, que, desta maneira, oferece um aspecto [<em>eidos<\/em>]. Ente \u00e9 a figura que se forma a si mesma, que enquanto tal se apresenta como imagem. Origem, justifica\u00e7\u00e3o e limites desta concep\u00e7\u00e3o do Ser, s\u00e3o t\u00e3o pouco discutidos como \u00e9 o pr\u00f3prio Nada.<\/p>\n<p>A dogm\u00e1tica crist\u00e3, pelo contr\u00e1rio, nega a verdade do enunciado; \u201c<em>ex nihilo nihil fit<\/em>\u201d e d\u00e1, com isso, uma significa\u00e7\u00e3o modificada ao Nada, que ent\u00e3o passa a significar a absoluta aus\u00eancia do ente fora de Deus: \u201c<em>ex nihilo fit ens creatum<\/em>\u201d. O Nada torna-se o conceito oposto ao ente verdadeiro, ao \u201c<em>summum ens<\/em>\u201d, a Deus enquanto \u201c<em>ens increatum<\/em>\u201d. Tamb\u00e9m a explica\u00e7\u00e3o do Nada indica a concep\u00e7\u00e3o fundamental do ente. A discuss\u00e3o metaf\u00edsica do ente mant\u00e9m-se,\u00a0 por\u00e9m, ao mesmo\u00a0 n\u00edvel que a quest\u00e3o do Nada. As quest\u00f5es do Ser e do Nada enquanto tais n\u00e3o t\u00eam lugar. \u00c9 por isso que nem mesmo preocupa a dificuldade de que, se Deus cria do Nada justamente precisa poder entrar em rela\u00e7\u00e3o com o Nada.<\/p>\n<p>A superficial recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica mostra o Nada como conceito oposto ao ente verdadeiro, quer dizer, como sua nega\u00e7\u00e3o. Se, por\u00e9m o Nada de algum modo se torna problema, ent\u00e3o esta contraposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o experimenta apenas uma determina\u00e7\u00e3o mais clara, mas ent\u00e3o primeiramente se suscita a verdadeira quest\u00e3o metaf\u00edsica a respeito do Ser do ente. O Nada n\u00e3o permanece o indeterminado oposto do ente, mas se desvela como pertencente ao Ser do ente. \u201cO puro Ser e o puro Nada s\u00e3o, portanto, o mesmo\u201d. Esta frase de Hegel enuncia algo certo. Ser e Nada co-pertencem, mas n\u00e3o porque ambos [vistos a partir da concep\u00e7\u00e3o hegeliana do pensamento] coincidem em sua indetermina\u00e7\u00e3o e imediaticidade, mas porque o Ser mesmo \u00e9 finito em sua manifesta\u00e7\u00e3o no ente, e somente se manifesta na transcend\u00eancia do Ser-a\u00ed [homem] suspenso dentro do Nada. <sup>7<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0[7] &#8211; QUE \u00c9 METAF\u00cdSICA &#8211; M. Heidegger<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>AS FILOSOFIAS DA EXIST\u00caNCIA<\/strong><\/p>\n<p>O problema metaf\u00edsico complica-se com o fato de que quando reeditou o op\u00fasculo: \u201cQue \u00e9 Metaf\u00edsica?\u201d, Heidegger ter acrescentado um p\u00f3s-escrito onde diz que <em>o Nada outra coisa n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o Ser<\/em>; n\u00f3s podemos definir o Nada como o que n\u00e3o \u00e9 qualquer sendo [ente], e que \u00e9 portanto o Ser.<\/p>\n<p>Heidegger subentende que n\u00e3o podem existir duas coisas que tenham esta mesma propriedade. Por conseguinte, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que \u201cO Nada \u00e9 o pr\u00f3prio Ser\u201d, na medida em que \u00e9 superior a toda determina\u00e7\u00e3o<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Que poderemos n\u00f3s dizer deste Nada? N\u00e3o podemos dizer que <strong>\u00e9<\/strong>, porque seria um julgamento contradit\u00f3rio. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, criar uma palavra nova. O Nada tem uma certa atividade , essa atividade que Heidegger traduz pela express\u00e3o reduzir ao Nada. Somos for\u00e7ados, dir\u00e1\u00a0 ele, a criar palavras, ou a novamente empregar velhas palavras gastas e em desuso, para exprimir certas no\u00e7\u00f5es. Por exemplo, n\u00e3o podemos dizer que o mundo \u00e9: diremos que se mundaniza. N\u00e3o podemos dizer que o tempo \u00e9: diremos que se temporaliza. N\u00e3o podemos dizer que o Nada \u00e9: ele realiza uma\u00a0 atividade de redu\u00e7\u00e3o ao Nada, pela qual abala as coisas, as faz desmoronar, saem por si pr\u00f3prias do Nada. O Nada \u00e9, portanto o fundamento de todas as coisas<sup>9<\/sup>.\u00a0 Existem certamente passos nas obras de Heidegger que indicam que \u00e9 <em>no Da-sein <\/em>[ser-a\u00ed], que aparece essencialmente o Nada. Mas as duas id\u00e9ias est\u00e3o ligadas mais estreitamente para Sartre. \u201cSou eu pr\u00f3prio o Nada, \u00e9 por mim mesmo que a id\u00e9ia de Nada vem ao mundo. O mundo \u00e9 plenitude, ou, melhor seria plenitude\u00a0 se n\u00e3o houvesse o \u201cpara-s\u00ed\u201d, ou se n\u00e3o houvesse o homem. O homem \u00e9 uma esp\u00e9cie de vazio, uma dura\u00e7\u00e3o profunda e viciada, \u00e9 o homem que traz ao mundo, de qualquer modo, a aus\u00eancia\u201d<sup>10<\/sup>.<\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup>[8,9,10] &#8211; AS FILOSOFIAS DA EXIST\u00caNCIA &#8211; Jean Wahl<\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup>A anal\u00edtica existencial do homem em sua cotidianidade torna-se o ponto de partida necess\u00e1rio para a discuss\u00e3o do problema do Ser, do mundo e de Deus. O problema do Nada \u00e9 levantado a partir do homem. N\u00e3o \u00e9, sem d\u00favida uma dimens\u00e3o qualquer do homem que serve de ponto de partida, mas aquela em que ele se revela na sua exist\u00eancia, enquanto exerc\u00edcio da transcend\u00eancia. Desta maneira o homem \u00e9 considerado o lugar privilegiado para a manifesta\u00e7\u00e3o do Ser, manifesta\u00e7\u00e3o que se realiza pela experi\u00eancia do Nada.<\/p>\n<p><strong>&#8211; 1:<\/strong> \u00a0\u00a0\u00a0 O Nada, nada tem a ver com qualquer tipo de niilismo ou pessimismo. Isto s\u00f3 compreende quem se desprende da atitude do objetivismo e se eleva para a dimens\u00e3o transcendental. \u00c9 a\u00ed que se desdobra a fenomenologia heideggeriana, \u00e9 a\u00ed que \u201cO Nada \u00e9 um nome para o Ser\u201d.<\/p>\n<p><strong>&#8211; 2:<\/strong> \u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m a ang\u00fastia deve ser compreendida na dimens\u00e3o transcendental. Ela n\u00e3o representa algum estado psicopatol\u00f3gico ou sentimento. \u00c9 um acontecer no \u201c<em>Da-sein<\/em>\u201d,\u00a0 Ser-a\u00ed [no homem] na dimens\u00e3o transcendental em que se realiza a experi\u00eancia do Ser com o Nada.<\/p>\n<p><strong>&#8211; 3:<\/strong>\u00a0 \u00a0\u00a0 O mesmo acontece com a l\u00f3gica, Heidegger n\u00e3o lhe nega a validade. Mostra apenas que h\u00e1 dimens\u00f5es, e uma delas \u00e9 aquela em que se manifesta o Ser\/Nada, em que se ultrapassa a l\u00f3gica do entendimento. A verdade do Ser\/Nada, ou a sua manifesta\u00e7\u00e3o ou ainda\u00a0 \u201cA compreens\u00e3o do Ser\/ Nada ultrapassa a l\u00f3gica dos entes\u201d. <sup>11<\/sup><sup>\u00a0 <\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <\/sup>[11] Nota do tradutor do\u00a0 QUE \u00c9 METAF\u00cdSICA de M. Heidegger &#8211; Ernildo Stein<\/p>\n<h5><\/h5>\n<h5><\/h5>\n<h5><strong>CONSCI\u00caNCIA = EXIST\u00caNCIA PURA = VAZIO<\/strong><\/h5>\n<p>A consci\u00eancia s\u00f3 se define a partir de si pr\u00f3pria, que ela \u00e9 toda leveza, toda translucidez, e que n\u00e3o se poderia encontrar nela nenhuma subst\u00e2ncia, por infinitesimal e imaterial que fosse, nem \u201chabitante\u201d algum. A consci\u00eancia, que \u00e9 assim vazio absoluto, expuls\u00e3o para fora dela mesma de toda a realidade, inclusive a do sujeito, n\u00e3o pode se definir por nenhuma realidade, por nenhuma ess\u00eancia, nem subst\u00e2ncia alguma, ela \u00e9 exist\u00eancia pura, o existente absoluto \u00e0 for\u00e7a de inexist\u00eancia<sup>12<\/sup>.<\/p>\n<p>Dizer que a Consci\u00eancia \u00e9 s\u00f3 exist\u00eancia porque ela n\u00e3o pode ser abarcada na reflex\u00e3o, porque ela \u00e9 totalmente vazia e foge imediatamente para as coisas exteriores, remete-nos ent\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da exist\u00eancia. Que entender por exist\u00eancia quando definimos como exist\u00eancia pura esse vazio, esse \u201cNada que \u00e9 a Consci\u00eancia?\u201d V\u00ea-se desde o in\u00edcio que n\u00e3o se pode tratar a exist\u00eancia no sentido cl\u00e1ssico, a saber, o fato de ser, de pertencer ao dom\u00ednio da realidade por oposi\u00e7\u00e3o ao das possibilidades puras, como o supomos quando dizemos de um objeto: \u201cexiste\u201d.\u00a0 Pois, dessa exist\u00eancia que \u00e9 a consci\u00eancia cumpre dizer, ao contr\u00e1rio, que ela \u00e9 um Vazio ou um Nada. Para dizer a verdade, n\u00e3o h\u00e1 termo que traduza essa intui\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria j\u00e1 que a exist\u00eancia da consci\u00eancia, ou a consci\u00eancia-exist\u00eancia, se distingue de todas as ess\u00eancias que podem trazer um nome<sup>13<\/sup>.\u00a0\u00a0 \u201cEla \u00e9 o que ela \u00e9\u201d, isto \u00e9, ela \u00e9 a raz\u00e3o pela qual h\u00e1 um mundo com objetos e valores e que n\u00e3o \u00e9 nem esse mundo, nem esses objetos, nem esses valores. Sartre leva a redu\u00e7\u00e3o husserliana a seu grau \u00faltimo j\u00e1 que o doador do sentido residual, que se pode chamar consci\u00eancia ou exist\u00eancia, \u00e9 igualmente Nada. Esse campo transcendental, consci\u00eancia pura ou exist\u00eancia, [num sentido \u00e9 um Nada] , j\u00e1 que todos os objetos f\u00edsicos , psicof\u00edsicos, todas as verdades, todos os valores, est\u00e3o fora dele, j\u00e1 que o meu pr\u00f3prio eu [psicol\u00f3gico] n\u00e3o faz parte dele. Mas esse NADA \u00c9 TUDO j\u00e1 que \u00e9\u00a0 consci\u00eancia de todos esses objetos. A consci\u00eancia transcendental \u00e9 uma espontaneidade impessoal. Ela se determina para a exist\u00eancia a cada instante, sem que nada se possa conceber antes dela. Assim, cada instante de nossa vida consciente nos revela uma cria\u00e7\u00e3o \u201c<em>ex\u00a0 nihilo<\/em>\u201d. N\u00e3o um arranjo novo, mas uma exist\u00eancia nova<sup>14<\/sup>.<\/p>\n<p>O existencialismo muitas vezes vai t\u00e3o longe na dire\u00e7\u00e3o do destino humano que quase n\u00e3o parece ser mais uma filosofia europ\u00e9ia, mas\u00a0uma filosofia hindu, ou seja, um pensamento endere\u00e7ado a ser exclusivamente, at\u00e9 com sua l\u00f3gica, um instrumento de salva\u00e7\u00e3o <sup>15<\/sup>.<\/p>\n<p>\u201cSe eu compreendo o Dr. Suzuki corretamente, eis o que tentei dizer em todos os meus escritos\u201d, afirma o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Martin Heidegger, ap\u00f3s ter lido toda a obra de D. T. Suzuki. E arremata: \u201cA publica\u00e7\u00e3o em 1927 dos primeiros ensaios sobre o <strong><em>Budismo Zen<\/em><\/strong> de Suzuki, se apresenta \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras como acontecimento t\u00e3o importante quanto a tradu\u00e7\u00e3o em latim de Arist\u00f3teles no s\u00e9c. XIII, por Guilherme de Moerbeck, ou a de Plat\u00e3o, no s\u00e9c. XV, por Marsilio Ficino\u201d. <sup>16 <\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0 [12,13,14]- A TRANSCEND\u00caNCIA DO EU J. P. Sartre<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0 [15]-FILOSOFIA CONTEMPOR\u00c2NEA OCIDENTAL &#8211; L. M. Bochenski <\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0[16]-M\u00cdSTICA CRIST\u00c3 E BUDISTA &#8211; Suzuki<\/sup><\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><em>\u00a0<\/em><em>\u00a0<\/em><em>Compilado e organizado por: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O VAZIO E A N\u00c3O-DUALIDADE \u00a0 O Ser\/N\u00e3o-ser, Vazio\/N\u00e3o-dualidade Nas religi\u00f5es, na Ci\u00eancia e nas Filosofias. Compilado e organizado por: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso\/Karma Tenpa Dhargye \u00a0 NAS\u00a0 RELIGI\u00d5ES &nbsp; \u00a0HINDUISMO \u00a0ISHA UPANISHAD \u00a01) &#8211; BRAHMAN &#8211; A UNIDADE : Unidade &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-vazio-e-a-nao-dualidade\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":611,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,25],"tags":[47],"class_list":["post-1125","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meditacao","category-mestres","tag-filosofia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1125","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1125"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1125\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1608,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1125\/revisions\/1608"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/611"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1125"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1125"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1125"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}