{"id":1995,"date":"2018-05-17T11:28:26","date_gmt":"2018-05-17T13:28:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=1995"},"modified":"2018-08-01T11:58:42","modified_gmt":"2018-08-01T13:58:42","slug":"meditacao-e-concentracao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/meditacao-e-concentracao\/","title":{"rendered":"Medita\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/vimala-thakar\/vimala-takar\/\" rel=\"attachment wp-att-1998\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1998\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar-300x169.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar-768x432.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar-1024x576.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar-500x281.jpg 500w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Vimala-Takar.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i>do livro &#8220;Medita\u00e7\u00e3o  &#8211; Uma maneira de viver<br \/> de <b><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/vimala-thakar\/\">Vimala Thakar<\/a><\/b><\/i><\/div>\n<p><b>Palestra realizada em Matheran, a 29 de novembro de 1971<\/b><\/p>\n<p>Esta manh\u00e3, pediram-me para falar sobre a medita\u00e7\u00e3o. Como h\u00e1 pessoas nesta reuni\u00e3o que n\u00e3o est\u00e3o familiarizadas com a oradora e com sua forma de express\u00e3o, com o seu modo de falar a l\u00edngua inglesa, eu gostaria de pedir, logo de in\u00edcio, que sejamos muito cuidadosos com o uso das palavras e tamb\u00e9m com o ato de escutar. Cada palavra tem uma associa\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e de emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 extremamente dif\u00edcil encontrar uma palavra, em qualquer l\u00edngua do mundo, que n\u00e3o esteja impregnada de associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ora, a palavra &#8220;medita\u00e7\u00e3o&#8221; tem uma variedade infinita de associa\u00e7\u00f5es, e eu gostaria, portanto, de solicitar a todos que prestem aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s conota\u00e7\u00f5es da palavra. Eu n\u00e3o vou usar a palavra &#8220;medita\u00e7\u00e3o&#8221; como derivada do verbo &#8220;meditar a respeito de&#8221;, &#8220;meditar sobre&#8221;. Na l\u00edngua inglesa, &#8220;meditar&#8221; significa uma atividade mental ou cerebral na qual h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de sujeito e objeto. Eu, um indiv\u00edduo, cogito acerca de, medito sobre algum objeto, algum ponto predeterminado por mim, ou por algu\u00e9m mais, para mim. Nesse sentido, &#8220;meditar&#8221; seria focalizar a aten\u00e7\u00e3o exclusivamente sobre um ponto predeterminado, por um certo tempo, e envolveria esfor\u00e7o consciente para manter a aten\u00e7\u00e3o, para focalizar a aten\u00e7\u00e3o nesse ponto. Assim, as pessoas est\u00e3o prontas a acreditar que a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma atividade mental para enfocar toda a aten\u00e7\u00e3o em algum ponto, e mant\u00ea-la ali tenazmente. Essa atividade mental deveria ser chamada &#8220;concentra\u00e7\u00e3o&#8221; e n\u00e3o &#8220;medita\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Na l\u00edngua s\u00e2nscrita, h\u00e1 duas palavras diferentes: dharana e dhyana. Dharana significa manter, conservar a aten\u00e7\u00e3o, cujo equivalente, em ingl\u00eas, \u00e9 a palavra concentration [concentra\u00e7\u00e3o]. Procurarei traduzir para a l\u00edngua inglesa as conota\u00e7\u00f5es do termo dhyana. Vou usar a palavra &#8220;medita\u00e7\u00e3o&#8221; como uma palavra paralela, em ingl\u00eas, \u00e0 palavra s\u00e2nscrita dhyana.<\/p>\n<p>Dhyana, ou medita\u00e7\u00e3o, \u00e9 um estado de ser no qual existe uma percep\u00e7\u00e3o sem esfor\u00e7o, sem escolha, do que a vida \u00e9 em si e ao seu redor. E, portanto, um estado de ser, n\u00e3o uma atividade. H\u00e1 um mundo de diferen\u00e7a entre os dois. A pessoa pode desabrochar nesse estado de ser. Em outras palavras, a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 um modo de viver em aten\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, numa percep\u00e7\u00e3o din\u00e2mica do que a vida \u00e9; \u00e9 um movimento desinibido, descondicionado da consci\u00eancia individual, em harmonia com o ritmo da vida universal.<\/p>\n<p>Portanto eu gostaria de livrar a palavra &#8220;medita\u00e7\u00e3o&#8221; de uma s\u00e9rie de associa\u00e7\u00f5es. Trata-se de um movimento n\u00e3o-cerebral, de um movimento da consci\u00eancia individual, mas n\u00e3o do c\u00e9rebro condicionado, n\u00e3o daquela parte do c\u00e9rebro que \u00e9 inibida pelo condicionamento atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, da cultura, da civiliza\u00e7\u00e3o e do conte\u00fado s\u00f3cio-econ\u00f4mico da vida. O c\u00e9rebro, que \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o f\u00edsico &#8211; uma parte do organismo biol\u00f3gico-, \u00e9 t\u00e3o condicionado quanto o resto do organismo f\u00edsico. H\u00e1 padr\u00f5es cerebrais de comportamento. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de corpo cerebral cristalizado &#8211; um corpo psicol\u00f3gico. Ele \u00e9 invis\u00edvel e se expressa atrav\u00e9s de palavras, atrav\u00e9s de movimentos f\u00edsicos, etc.<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 um movimento n\u00e3o-cerebral da consci\u00eancia humana, em harmonia com o ritmo da vida interior, da vida exterior e daquilo que a cerca. N\u00e3o pode ser um meio para um fim. A concentra\u00e7\u00e3o pode ser um meio para um fim. A concentra\u00e7\u00e3o pode relaxar os nervos, tranq\u00fcilizar a psique perturbada, criar um equil\u00edbrio qu\u00edmico no corpo, estimular os poderes latentes da mente e experi\u00eancias n\u00e3o-sensoriais. Tudo isso pode ocorrer atrav\u00e9s da concentra\u00e7\u00e3o. E as pessoas que vivem numa sociedade altamente industrializada, experimentando uma tremenda fadiga nervosa todos os dias, vivendo sob uma variedade de tens\u00f5es, de press\u00f5es neurol\u00f3gicas e qu\u00edmicas, sentem necessidade mesmo da arte da concentra\u00e7\u00e3o para desenvolver poderes, adquirir experi\u00eancias, afinar e elevar a sensibilidade, refinar e sofisticar os \u00f3rg\u00e3os cerebrais. Se a pessoa deseja isso, pode seguir esse caminho. Tal concentra\u00e7\u00e3o, resultando no desenvolvimento de poderes, pode n\u00e3o levar a uma transforma\u00e7\u00e3o radical na qualidade de vida. Pode n\u00e3o ter nenhum valor para a base da nossa rela\u00e7\u00e3o com outros entes humanos.<\/p>\n<p>Portanto a concentra\u00e7\u00e3o pode estimular poderes, experi\u00eancias, tornar uma pessoa poderosa; e os que est\u00e3o perturbados, os que est\u00e3o cansados dos prazeres sensuais, os que vivem em seguran\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica gostam realmente de viajar e vagar no astral, no oculto , para obter experi\u00eancias n\u00e3o-sensuais, para adquirir poderes transcendentais, e assim por diante. Trata-se de um jogo no mundo ps\u00edquico, e o esp\u00edrito de aventura cria uma compuls\u00e3o interna para buscar essas experi\u00eancias. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado nisso, uma vez que a pessoa esteja bem esclarecida em rela\u00e7\u00e3o ao fim que tem em vista. A vida \u00e9 para aventuras e experimenta\u00e7\u00f5es. A concentra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a ver com religi\u00e3o, com espiritualidade, com a descoberta da verdade, com medita\u00e7\u00e3o, com liberta\u00e7\u00e3o ou Nirvana. Ela se encontra absolutamente na dire\u00e7\u00e3o oposta &#8211; fortalecendo a consci\u00eancia do eu, aumentando a sensibilidade da consci\u00eancia do eu, alargando a esfera das experi\u00eancias e aprofundando a esfera da penetra\u00e7\u00e3o cerebral. Portanto a pessoa tem de esclarecer a pr\u00f3pria mente sobre o que a medita\u00e7\u00e3o realmente significa. N\u00e3o h\u00e1 o que romancear a respeito disso. Trata-se de uma transcend\u00eancia do c\u00e9rebro condicionado. Trata-se do despontar de uma pessoa numa dimens\u00e3o de consci\u00eancia inteiramente nova, onde o pr\u00f3prio experimentar chega a um fim; onde o experimentador, a consci\u00eancia do eu, a consci\u00eancia do ego, \u00e9 mantida em completa inatividade; onde as fronteiras de tempo e espa\u00e7o, nas quais a consci\u00eancia do eu se move, de momento a momento, se desvanecem no nada; onde a dualidade chega a um fim e a rela\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria de sujeito-objeto com a vida cessa completamente.<\/p>\n<p>A n\u00e3o ser que sinta uma compuls\u00e3o para descobrir o que est\u00e1 al\u00e9m da mente, a n\u00e3o ser que se sinta impelida para descobrir o que esta al\u00e9m do c\u00e9rebro condicionado, o que est\u00e1 al\u00e9m do ato de observa\u00e7\u00e3o e do observador, do pensamento e do pensador, do que est\u00e1 al\u00e9m do espa\u00e7o e do tempo, do que est\u00e1 al\u00e9m de todos esses s\u00edmbolos, do que est\u00e1 al\u00e9m das maneiras cerebrais de comportamento; a n\u00e3o ser que haja uma paix\u00e3o inata para achar, para descobrir por si mesma, a pessoa n\u00e3o estar\u00e1 preparada para viver de uma forma meditativa.<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 todo um modo de viver; n\u00e3o uma atividade parcial ou fragment\u00e1ria. N\u00e3o sei se existe uma maneira oriental ou ocidental de consider\u00e1-la. A vida n\u00e3o \u00e9 nem ocidental nem oriental. A vida \u00e9 pura exist\u00eancia. Ela apenas \u00e9. Os limites de ra\u00e7a, pa\u00eds e religi\u00e3o, as fronteiras de tempo e espa\u00e7o s\u00e3o absolutamente irrelevantes para a vida e o viver.<\/p>\n<p>E, ent\u00e3o, sinto acaso uma compuls\u00e3o para descobrir o que \u00e9 tempo, o que \u00e9 espa\u00e7o e o que est\u00e1 al\u00e9m disso; o que \u00e9 mente, o que \u00e9 pensamento, e o que est\u00e1 al\u00e9m? Sinto acaso uma compuls\u00e3o &#8211; n\u00e3o como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s frustra\u00e7\u00f5es, aos insucessos ou desapontamentos da vida; n\u00e3o como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o aquisitiva, para obter algo diferente da aquisi\u00e7\u00e3o material, econ\u00f4mica ou pol\u00edtica? Se trata-se de uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s ambi\u00e7\u00f5es, frustra\u00e7\u00f5es ou fracassos na vida, ent\u00e3o a busca me conduzir\u00e1 somente at\u00e9 onde me leve o impulso da rea\u00e7\u00e3o. Eu terei de ultrapassar o \u00edmpeto do desapontamento, da frustra\u00e7\u00e3o, ou da ambi\u00e7\u00e3o. \u00c9, portanto, absolutamente necess\u00e1rio possuir a chama pura, sem fuma\u00e7a, da investiga\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a compuls\u00e3o para achar, para descobrir, para aprender, n\u00e3o para qualquer outro fim sen\u00e3o pela pr\u00f3pria plenitude de descobrir o significado da vida; pela gra\u00e7a, pela alegria que est\u00e1 inerente a tudo isso.<\/p>\n<p>Quando existe essa chama de indaga\u00e7\u00e3o para aprender, para descobrir, para ver, para procurar, pela alegria em si, as inibi\u00e7\u00f5es dos motivos, das inten\u00e7\u00f5es e ambi\u00e7\u00f5es fenecem. Tal estado n\u00e3o-motivado \u00e9 vitalmente necess\u00e1rio no come\u00e7o do descobrimento. Como voc\u00eas sabem, cada motivo cria uma inibi\u00e7\u00e3o e carrega um medo em sua pr\u00f3pria sombra. Cada ambi\u00e7\u00e3o carrega no seu ventre o medo do insucesso e da frustra\u00e7\u00e3o. A pessoa tem que se preparar para o estado de medita\u00e7\u00e3o, para o estado de indaga\u00e7\u00e3o pura. Uma investiga\u00e7\u00e3o genu\u00edna \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria; este \u00e9 um ponto a ser enfatizado ao m\u00e1ximo. A indaga\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 elimina a inibi\u00e7\u00e3o dos medos reprimidos, mas uma indaga\u00e7\u00e3o genu\u00edna cria a flexibilidade da humildade &#8211; n\u00e3o a rigidez da ambi\u00e7\u00e3o. A consci\u00eancia do eu \u00e9 muito r\u00edgida.<\/p>\n<p>Assim, a brandura, a flexibilidade, que v\u00e3o nos ajudar muito, ser\u00e3o imprescind\u00edveis. O destemor n\u00e3o pode surgir, a n\u00e3o ser que haja a flexibilidade da humildade. Voc\u00eas sabem como as crian\u00e7as s\u00e3o flex\u00edveis e ternas. Todo o seu ser \u00e9 uma chama de interroga\u00e7\u00e3o. Olhem para os seus olhos, seus movimentos; elas querem aprender e crescer. A humildade libera uma energia que n\u00e3o \u00e9 nem f\u00edsica nem cerebral. Eis por que eu gostaria de chamar a aten\u00e7\u00e3o de voc\u00eas para a dimens\u00e3o da humildade que acompanha uma busca genu\u00edna. A brandura, a flexibilidade liberam muitas energias latentes &#8211; a muscular, a nervosa, a glandular, a cerebral e a n\u00e3o-cerebral &#8211; que estavam enclausuradas e bloqueadas devido \u00e0 rigidez da consci\u00eancia do eu. Elas s\u00e3o liberadas no momento em que somos flex\u00edveis no esp\u00edrito de indaga\u00e7\u00e3o, e desejamos conhecer, descobrir, aprender atrav\u00e9s dos olhos, dos ouvidos, do nariz, atrav\u00e9s de cada nervo do ser. Estar no estado de indaga\u00e7\u00e3o \u00e9 estar no estado de bem-aventuran\u00e7a, porque a indaga\u00e7\u00e3o ir\u00e1 explodir na realiza\u00e7\u00e3o. A realiza\u00e7\u00e3o, ou a descoberta, nada mais \u00e9 que o amadurecimento dessa indaga\u00e7\u00e3o. A indaga\u00e7\u00e3o e a realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o duas coisas separadas. A pessoa \u00e9 aben\u00e7oada se est\u00e1 interessada numa indaga\u00e7\u00e3o genu\u00edna, n\u00e3o numa indaga\u00e7\u00e3o falsa, nem numa atra\u00e7\u00e3o, fascina\u00e7\u00e3o ou excita\u00e7\u00e3o intelectual ou emocional. N\u00e3o h\u00e1 excita\u00e7\u00e3o num verdadeiro pesquisador; h\u00e1 uma profundeza de intensidade, n\u00e3o a superficialidade da excita\u00e7\u00e3o entusi\u00e1stica. A excita\u00e7\u00e3o, o entusiasmo, o est\u00edmulo das emo\u00e7\u00f5es e dos sentimentos perturbam o equil\u00edbrio qu\u00edmico do ser. Portanto \u00e9 preciso assentar a base correta desse estado de medita\u00e7\u00e3o, no qual o mecanismo f\u00edsico e biol\u00f3gico da pessoa est\u00e1 em equil\u00edbrio qu\u00edmico e relaxamento nervoso.<\/p>\n<p>Eu me pergunto se voc\u00eas j\u00e1 observaram como as crian\u00e7as, na idade entre 3 e 6 anos, e aquelas acima dessa idade, aprendem. Voc\u00eas as observaram nas classes, no lar, quando fazem os deveres de casa, o modo como se sentam, como tocam a lousa, a delicadeza, a flexibilidade e o desenvolvimento gradual e a manifesta\u00e7\u00e3o da rigidez de seus modos, conforme elas v\u00e3o avan\u00e7ando em anos? O pesquisador \u00e9 como uma crian\u00e7a flex\u00edvel eterna. Ele \u00e9 vulner\u00e1vel ao toque da vida, est\u00e1 exposto, de qualquer \u00e2ngulo, \u00e0 realidade da vida, sem qualquer mecanismo de defesa. Na crian\u00e7a, o mecanismo de defesa n\u00e3o funciona, exceto no n\u00edvel f\u00edsico; no n\u00edvel psicol\u00f3gico, a crian\u00e7a est\u00e1 exposta \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es da vida. Do mesmo modo, o pesquisador est\u00e1 exposto \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es da vida.<\/p>\n<p>Por certo, a medita\u00e7\u00e3o requer que a pessoa esteja sadia de corpo e mente. \u00c9 por isso que a cultura ioga f\u00edsica, a ioga pranaiama &#8211; que ajuda a oxigenar o sangue &#8211; e as asanas &#8211; que ajudam a manter todo o corpo, os sistemas todos, muscular, glandular e nervoso, numa condi\u00e7\u00e3o muito flex\u00edvel e branda &#8211; s\u00e3o necess\u00e1rias. O desabrochar numa dimens\u00e3o n\u00e3o-cerebral \u00e9 precedido pelo encontro com a mente condicionada, com a mente consciente, a subconsciente e a inconsciente; e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil passar por esse encontro, a n\u00e3o ser que se tenha a for\u00e7a do a\u00e7o nos nervos. Se n\u00e3o, a pessoa pode fracassar e o sistema nervoso pode ser destru\u00eddo. Enfrentar face a face o conte\u00fado do subconsciente e do inconsciente, as discrep\u00e2ncias, as defici\u00eancias e as deforma\u00e7\u00f5es neur\u00f3ticas em nossa maneira de comportamento n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 necess\u00e1ria uma for\u00e7a tremenda para passar por esse encontro. Eis por que \u00e9 preciso assentar as funda\u00e7\u00f5es corretas e ter um organismo f\u00edsico puro e saud\u00e1vel. Do contr\u00e1rio, o mais leve encontro pode excitar e provocar as l\u00e1grimas, a ansiedade, a dan\u00e7a ou o choro. Todos esses acontecimentos s\u00e3o causados pela incapacidade de o sistema nervoso suportar o encontro. Como temos que examinar tantas coisas em t\u00e3o curto tempo, s\u00f3 lhes posso falar a respeito dos fundamentos.<\/p>\n<p>Pessoas h\u00e1 que se precipitam em despertar poderes, sem equipar seus sistemas nervoso e muscular com a for\u00e7a da pureza, sem assentar a base de uma ordem interna. Elas se lan\u00e7am a estimular poderes e experi\u00eancias, seja atrav\u00e9s de drogas para a expans\u00e3o da consci\u00eancia, como o LSD, a mescalina e outras, ou cantando mantras, concentrando ou aceitando a ajuda de alguns tantras, e se viciam em shaktipat para estimular e despertar a kundalini e abrir os chacras. Qualquer que seja o caminho que sigam, se elas se lan\u00e7am a estimular poderes sem equipar seu sistema nervoso com a for\u00e7a da pureza, elas se lan\u00e7am em algo muito perigoso, nada cient\u00edfico. Por isso, a minha primeira advert\u00eancia \u00e9: assentar as bases corretas. Precisamos descobrir se este corpo, este belo, complexo e magn\u00edfico instrumento que temos, encontra-se em estado de suportar a intensidade da medita\u00e7\u00e3o, desse movimento desinibido da consci\u00eancia em harmonia com a consci\u00eancia universal.<\/p>\n<p>A intensidade desse movimento desinibido n\u00e3o pode ser comparada com a intensidade dos pensamentos e das emo\u00e7\u00f5es. Estes s\u00e3o movimentos cerebrais, s\u00e3o pulsa\u00e7\u00f5es, e t\u00eam sido medidos e controlados. O movimento da medita\u00e7\u00e3o, o infinito movimento da vida, tem um impulso de natureza inteiramente diversa. Qualitativamente diferente do movimento de impulsos tais como o desejo sexual, o apetite, o sono. Os pensamentos, as emo\u00e7\u00f5es, os sentimentos t\u00eam o seu pr\u00f3prio movimento, o seu pr\u00f3prio mecanismo incorporado ao sistema, em reflexos biol\u00f3gicos. A medita\u00e7\u00e3o tem um &#8220;momentum&#8221; qualitativamente diferente dos pensamentos. \u00c9 muito mais intenso; sua profundidade e sua intensidade n\u00e3o podem ser medidas pela mente. Eis a raz\u00e3o por que esta base da purifica\u00e7\u00e3o de todo o sistema \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria; n\u00e3o num sentido puritano, mas com o aux\u00edlio de uma abordagem cient\u00edfica. Tudo isso tem de ser descoberto pela pr\u00f3pria pessoa; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel padronizar regras e regulamentos para todos os seres humanos,<\/p>\n<p>Tomando-se por assente que j\u00e1 se tenha conseguido isto, o segundo passo consiste em familiarizar-se com o movimento da mente. O movimento f\u00edsico, ou a capacidade para o movimento f\u00edsico, n\u00e3o constitui uma barreira no caminho da medita\u00e7\u00e3o, mas o movimento cerebral pode ser um obst\u00e1culo; assim, \u00e9 preciso que se entenda o que \u00e9 a mente. \u00c9 preciso familiarizar-se com a anatomia da mente, com a qu\u00edmica dos pensamentos e das emo\u00e7\u00f5es; como um pensamento se move; como os reflexos se movem, como eles controlam a nossa percep\u00e7\u00e3o, as nossas rea\u00e7\u00f5es \u00e0s situa\u00e7\u00f5es, como eles governam as nossas rela\u00e7\u00f5es com as outras pessoas. E para isso \u00e9 preciso aprender o que \u00e9 observa\u00e7\u00e3o. Se eu sou um experimentador, ent\u00e3o estarei envolvido no processo de experimentar e n\u00e3o serei capaz de vigiar o movimento da mente. Portanto e preciso aprender a ci\u00eancia e a arte da observa\u00e7\u00e3o: n\u00e3o interpretar, n\u00e3o analisar, n\u00e3o comparar, n\u00e3o julgar, mas ter a percep\u00e7\u00e3o do movimento da mente, da mesma maneira que temos a percep\u00e7\u00e3o do p\u00f4r-do-sol. Enquanto estivemos sentados por poucos minutos em sil\u00eancio, voc\u00eas devem ter notado o choro da crian\u00e7a. A mente resistiu a ele? Se a mente resiste, ent\u00e3o h\u00e1 um atrito, e o atrito resulta numa rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, a resist\u00eancia leva ao atrito e o atrito resulta em contrariedade, irrita\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o perde-se o estado de observa\u00e7\u00e3o. Toda rea\u00e7\u00e3o nasce de uma resist\u00eancia. N\u00e3o existe rea\u00e7\u00e3o se n\u00e3o h\u00e1 resist\u00eancia \u00e0 vida; assim, n\u00e3o cabe resistir, nem experimentar, sendo a experimenta\u00e7\u00e3o uma forma muito sutil de resist\u00eancia. Notaram voc\u00eas, alguma vez, as resist\u00eancias aos acontecimentos da vida? Eles s\u00e3o convertidos em experi\u00eancias porque a emo\u00e7\u00e3o cria uma resist\u00eancia, uma divis\u00e3o. Voc\u00eas querem interpretar o acontecimento, identific\u00e1-lo, reconhec\u00ea-lo, avali\u00e1-lo, dar-lhe um r\u00f3tulo e p\u00f4-lo na mem\u00f3ria, debaixo de uma categoria, a fim de que a experi\u00eancia lhes seja \u00fatil para posteriores interpreta\u00e7\u00f5es dos acontecimentos. A pessoa quer ter defesa, e as experi\u00eancias s\u00e3o uma parte do mecanismo de defesa, da mesma forma que o conhecimento. A pessoa tem medo de se expor \u00e0 vida, de viver num estado de inoc\u00eancia, de absoluta e incondicional vulnerabilidade ao toque puro da vida como ela \u00e9, e deixar que as respostas venham. A pessoa quer cultivar resist\u00eancias, adquirir respostas em forma de experi\u00eancias, guard\u00e1-las na mem\u00f3ria, a fim de que possa abrir a gaveta ou o arquivo da mem\u00f3ria, reportar-se a ele, logo que surge um desafio, e buscar a resposta condicionada. A mem\u00f3ria \u00e9 uma esp\u00e9cie de saldo banc\u00e1rio. Assim como as pessoas querem um saldo banc\u00e1rio na forma de dinheiro, elas querem um saldo banc\u00e1rio na forma de experi\u00eancias; n\u00e3o importa se compram, se pedem emprestadas ou se roubam experi\u00eancias!<\/p>\n<p>Voc\u00eas notaram o crescimento desequilibrado do homem? Ele sofisticou o c\u00e9rebro e perdeu a eleg\u00e2ncia da simplicidade; perdeu a capacidade de olhar as coisas sem um motivo, inocentemente, sem converter o ato de observa\u00e7\u00e3o e o objeto da observa\u00e7\u00e3o em meio para algum fim. A eleg\u00e2ncia, a beleza da simplicidade e da inoc\u00eancia est\u00e3o perdidas para o homem. A pessoa tem que florescer na vulnerabilidade, na ternura, na flexibilidade da medita\u00e7\u00e3o; ent\u00e3o o homem ser\u00e1 digno desse nome.<\/p>\n<p>Hoje, todos n\u00f3s nos tornamos desequilibrados. Eis por que existe tanta esquizofrenia. O homem vive mais ou menos num estado de neurose. Nossas respostas s\u00e3o inibidas, nossas percep\u00e7\u00f5es condicionadas. N\u00e3o h\u00e1 espontaneidade na vida. H\u00e1 apenas um processo mec\u00e2nico de rea\u00e7\u00e3o, de acordo com o condicionamento, a tradi\u00e7\u00e3o, as ambi\u00e7\u00f5es pessoais, os motivos, etc., etc. A beleza da a\u00e7\u00e3o est\u00e1 perdida. A espontaneidade tamb\u00e9m est\u00e1 perdida. Portanto hoje a medita\u00e7\u00e3o tornou-se relevante para a vida, para ajudar o homem a se descondicionar, para ajud\u00e1-lo a ver o quanto ele se tornou neur\u00f3tico, para estimular nele o desejo de se desenvolver numa dimens\u00e3o de consci\u00eancia inteiramente nova.<\/p>\n<p>Consequentemente, toda pessoa tem de aprender a observar os pensamentos conforme eles surgem, tem de devotar algum tempo a isso, sentando-se sossegadamente &#8211; se voc\u00ea se senta \u00e0 maneira oriental ou ocidental, isso n\u00e3o vem ao caso. O \u00fanico requisito \u00e9 que a coluna e o pesco\u00e7o estejam eretos, a fim de que o ritmo da respira\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o do sangue n\u00e3o sejam perturbados. A pessoa tem de estar a s\u00f3s, quieta, por algum tempo, para observar o movimento do pensamento, para entrar num estado de observa\u00e7\u00e3o. Ela tem de aprender isso, porque, no momento em que se p\u00f5e no estado de observa\u00e7\u00e3o, o antigo h\u00e1bito de introspec\u00e7\u00e3o, de avalia\u00e7\u00e3o, surge. Mesmo numa fra\u00e7\u00e3o de segundo, o estado de observa\u00e7\u00e3o pode ser dissipado; voc\u00ea se torna juiz, agente, experimentador. Dia a dia, a pessoa tem de se auto-educar. Chame voc\u00ea isso de disciplina, sadhana ou autocontrole, ou qualquer outro nome de que goste, o fato \u00e9 que a pessoa tem de passar por essa educa\u00e7\u00e3o de si mesma, aprendendo como observar. No come\u00e7o, por uma fra\u00e7\u00e3o de segundo, h\u00e1 o estado de observa\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, o experimentador se intromete, e o estado de observa\u00e7\u00e3o se dissipa. Isso acontece muitas vezes e pode continuar assim por algum tempo. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil esse estado de observa\u00e7\u00e3o onde voc\u00ea n\u00e3o faz nada, onde voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 nem se abandonando, nem fazendo coisa alguma, nem ativo, nem inativo; onde a atividade mental dualista \u00e9 mantida em suspenso e s\u00f3 a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 ativa, n\u00e3o ocorrendo o mesmo nem com o agente nem com o experimentador. Ent\u00e3o esse estado de observa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a permear as horas de vig\u00edlia. Se voc\u00ea est\u00e1 cozinhando, se vai ao escrit\u00f3rio ou enquanto est\u00e1 conversando, o estado de observa\u00e7\u00e3o permeia todas as atividades das horas de vig\u00edlia.<\/p>\n<p>Quando o estado de observa\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m nas horas de vig\u00edlia, a pessoa se torna constantemente c\u00f4nscia, de manh\u00e3 \u00e0 noite, dos desafios objetivos &#8211; as \u00e1rvores, os p\u00e1ssaros, os sons, os edif\u00edcios em volta e o tr\u00e1fego que se move na rua. A pessoa se torna consciente da situa\u00e7\u00e3o objetiva &#8211; intensamente consciente; atualmente, n\u00f3s n\u00e3o estamos conscientes; n\u00e3o estamos atentos, mesmo quando tomamos as refei\u00e7\u00f5es, quando usamos as roupas; estamos simplesmente flutuando na espuma da desaten\u00e7\u00e3o, da distra\u00e7\u00e3o, das perturba\u00e7\u00f5es; executamos apaticamente todas as atividades do dia, do sono, do despertar, e as coisas nos escapam. Estamos atentos somente para os nossos motivos, e, portanto, nossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 desviada por esses motivos. Assim, a cada momento, \u00e9 dada aten\u00e7\u00e3o apenas a uma parte da percep\u00e7\u00e3o; mas, quando o estado de observa\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m, a sensibilidade aumenta e, de manh\u00e3 \u00e0 noite, voc\u00ea est\u00e1 muito mais atento do que antes.<\/p>\n<p>Primeiro, n\u00e3o havia consci\u00eancia do fato. A percep\u00e7\u00e3o e a aten\u00e7\u00e3o apareciam ocasionalmente a voc\u00ea. Agora voc\u00ea est\u00e1 constantemente consciente, constantemente atento, a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 intensificada, a sensibilidade \u00e9 agu\u00e7ada e se torna \u00e1gil. Voc\u00ea est\u00e1 a par do que est\u00e1 acontecendo exteriormente, bem como do que est\u00e1 acontecendo interiormente. Se o estado de observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o resultar nessa consci\u00eancia \u00e1gil, na sensibilidade intensificada e na aten\u00e7\u00e3o acurada, ent\u00e3o n\u00e3o estamos observando; estamos apenas passando para algum estado entorpecido de consci\u00eancia. Isso n\u00e3o \u00e9 observa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 sil\u00eancio. A observa\u00e7\u00e3o abre novas avenidas de energia, novas avenidas de aten\u00e7\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o, de modo que o estado de observa\u00e7\u00e3o, permeando as horas de vig\u00edlia, resulta numa decolagem da consci\u00eancia. Antes, t\u00ednhamos a percep\u00e7\u00e3o apenas de um fragmento do objeto, qualificado e modificado pelos nossos motivos, e as rea\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m eram condicionadas pelos motivos.<br \/>\nAgora, vejam o que acontece: a pessoa est\u00e1 a par da total unidade da percep\u00e7\u00e3o, sem motivo, sem inibi\u00e7\u00e3o alguma. Voc\u00ea tem a percep\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea dos dois: para isso, tem de haver uma decolagem da consci\u00eancia do estado anterior de desafio e rea\u00e7\u00e3o. O impulso da mente subconsciente &#8211; de raiva, de ci\u00fame, de repress\u00f5es do pensamento, surgindo em forma de rea\u00e7\u00f5es &#8211; est\u00e1 l\u00e1, mas ele perde o seu aguilh\u00e3o, perde o poder sobre voc\u00ea de deformar e torcer as suas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se e quando o estado de observa\u00e7\u00e3o permeia as horas de vig\u00edlia, ele come\u00e7a ent\u00e3o a se infiltrar no que chamamos de sono. O estado de observa\u00e7\u00e3o, que se infiltra at\u00e9 no sono profundo, que se infiltra atrav\u00e9s dos sonhos, \u00e9 algo maravilhoso &#8211; estar consciente do sono, como voc\u00ea est\u00e1 das horas de vig\u00edlia &#8211; e isso n\u00e3o \u00e9 poesia, \u00e9 um fato. Acontece mesmo. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9o repouso do sono profundo nas horas de vig\u00edlia. \u00c9 uma percep\u00e7\u00e3o sem esfor\u00e7o, tanto do sono como das horas de vig\u00edlia. As horas de vig\u00edlia e de sono causam um movimento porque deixam de ser duas dimens\u00f5es diferentes.<\/p>\n<p>Consequentemente, o estado de observa\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o mantido dia e noite, e somente quando ele se mant\u00e9m assim \u00e9 que o conte\u00fado do subconsciente come\u00e7a a surgir e a dar sugest\u00f5es, na forma de vis\u00f5es e de experi\u00eancias diferentes. Contemos em n\u00f3s o conhecimento e a experi\u00eancia de toda a humanidade. Os psic\u00f3logos ocidentais, a come\u00e7ar por William James, Freud, Jung, Adler e James Martin, descobriram o que acontece nas camadas mais profundas da consci\u00eancia. Toda a experi\u00eancia e o conhecimento da humanidade, a despeito das ra\u00e7as, est\u00e3o contidos na consci\u00eancia individual. Quando o estado de observa\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m, essas experi\u00eancias brotam, manifestando-se, para serem expostas \u00e0sua aten\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua observa\u00e7\u00e3o, enquanto os poderes ocultos da psique &#8211; tais como a clarivid\u00eancia, a vis\u00e3o de acontecimentos passados ou a de acontecimentos futuros, a telepatia, a leitura de pensamentos, etc. &#8211; come\u00e7am a se manifestar. Todos esses poderes tornam-se poss\u00edveis. Essas exig\u00eancias internas, n\u00e3o-sensuais, t\u00eam um tremendo efeito embriagador, muito mais do que quaisquer experi\u00eancias sensuais. Trata-se de uma experi\u00eancia sem a dualidade da rela\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto. isso cria a ilus\u00e3o de liberdade, voc\u00ea n\u00e3o tem de estar relacionado com qualquer coisa fora de voc\u00ea mesmo. O estimulo \u00e9 interno, a experi\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 interna. Eis por que \u00e9 t\u00e3o embriagadora.<\/p>\n<p>A descoberta das experi\u00eancias ocultas e transcendentais resulta na liberta\u00e7\u00e3o de novas capacidades, de novos poderes. A pessoa se torna poderosa. Seus olhos se tornam diferentes; o modo de ela andar \u00e9 diferente. Existe nela uma nova for\u00e7a, um novo senso de liberta\u00e7\u00e3o, embora n\u00e3o seja ainda a liberta\u00e7\u00e3o &#8211; pois ainda est\u00e1 no \u00e2mbito da psique. E ia se torna qualitativamente diferente das outras pessoas e, na maioria das vezes, o estado de observa\u00e7\u00e3o \u00e9 perdido logo que ocorre o estimulo de novos poderes e experi\u00eancias. O homem perde o sono. As conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o demasiadas para ele, o sistema nervoso enfraquece e ele se curva novamente aos ditames da consci\u00eancia do eu, da consci\u00eancia do ego. A ambi\u00e7\u00e3o volta. A lasc\u00edvia passa a imiscuir-se nas experi\u00eancias ocultas. Tal pessoa pode sacrificar qualquer coisa para satisfazer esse apetite. E perde o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>Manter o estado de observa\u00e7\u00e3o enquanto se passa atrav\u00e9s das experi\u00eancias n\u00e3o-sensuais \u00e9 extremamente dif\u00edcil. Para n\u00e3o sermos tirados do equil\u00edbrio, precisamos da flexibilidade e da humildade de um pesquisador. Estou falando isso com grande agonia. Tenho observado, nos \u00faltimos seis anos, como as pessoas se entusiasmam facilmente, como se tornam prisioneiras das experi\u00eancias ps\u00edquicas &#8211; jovens dos Pa\u00edses Baixos, da Calif\u00f3rnia, da Irlanda, da Noruega, do Nepal, do Jap\u00e3o, do Hava\u00ed -; quanto mal esse apego aos prazeres n\u00e3o-sensuais faz a elas! \u00c9 a ang\u00fastia de uma amiga sens\u00edvel que est\u00e1 falando, n\u00e3o como uma critica. Tamb\u00e9m neste pais, com todas as suas associa\u00e7\u00f5es espirituais, \u00e9 o chamariz das experi\u00eancias n\u00e3o-sensuais que tem atra\u00eddo muitas pessoas para o oculto; assim, a pessoa tem de ser extremamente sens\u00edvel, humilde e flex\u00edvel para manter o estado de observa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 que se passar atrav\u00e9s desse t\u00fanel; o encontro entre o subconsciente e o inconsciente \u00e9 o t\u00fanel atrav\u00e9s do qual cada pesquisador tem de passar. N\u00e3o h\u00e1 que suprimir essas experi\u00eancias, mas deix\u00e1-las acontecer.<\/p>\n<p>Quando a ternura do cora\u00e7\u00e3o come\u00e7a a fluir atrav\u00e9s dos olhos, chegou a esta\u00e7\u00e3o chuvosa da pesquisa. Quando tudo come\u00e7a a acalmar-se e a pessoa se sente desapegada internamente, \u00e9 o outono e, assim, emocionalmente, h\u00e1 que se atravessar o ciclo completo das esta\u00e7\u00f5es dentro de si mesma. Se a pessoa se fixa nas express\u00f5es do processo que ocorre ao passar atrav\u00e9s desse t\u00fanel, ou se se apega aos poderes da mente, ent\u00e3o a indaga\u00e7\u00e3o \u00e9 sustada. Voc\u00ea n\u00e3o estar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de levar a indaga\u00e7\u00e3o mais al\u00e9m. Portanto a pessoa precisa de toda humildade e toda delicadeza e, se a pessoa preserva e mant\u00e9m assim o estado de observa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 mais nada a ser observado. Todas as experi\u00eancias captam o impulso do subconsciente e o inconsciente se exaure. Ele aflora, manifesta-se e se exaure por si mesmo. As experi\u00eancias de Jesus de Nazar\u00e9, de Gautama, o Buda, na \u00edndia, de Lao-ts\u00e9, na China, e de outros, sustentam esta verdade.<\/p>\n<p>Essas experi\u00eancias podem subir \u00e0 camada superior da consci\u00eancia. H\u00e1 t\u00e3o-somente que se observar, que olhar; olhar como se olham as nuvens do c\u00e9u ao entardecer. Ent\u00e3o, quando elas se exaurem atrav\u00e9s desse movimento, nada mais h\u00e1 para ser visto, nada mais para ser observado. O observador n\u00e3o tem mais nenhum papel a desempenhar, e fica inativo. Voc\u00ea n\u00e3o tem de fazer nada contra o observador. Quando o impulso das associa\u00e7\u00f5es \u00e9 exaurido, n\u00e3o resta nenhum papel para o observador desempenhar. A express\u00e3o final da consci\u00eancia do eu entrou em inatividade e a pessoa se encontra no reino do sil\u00eancio. At\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 sil\u00eancio. No estado de observa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 atividade e, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 o sil\u00eancio como dimens\u00e3o da consci\u00eancia, porque a pessoa est\u00e1 observando, est\u00e1 no processo de observar; mas agora h\u00e1 uma dimens\u00e3o de sH\u00eancio no pensamento, na experi\u00eancia, nas vis\u00f5es. O transcendental foi ultrapassado; a pessoa foi al\u00e9m do oculto. Isto \u00e9 mais f\u00e1cil de se dizer do que fazer, mas estou desenhando um mapa da coisa toda para voc\u00eas. Em palavras, isso \u00e9 tudo o que se pode fazer. As palavras nada mais s\u00e3o que um meio de arrebatamento; se a pessoa apreende o seu significado, ela \u00e9 arrebatada. Se \u00e9 seduzida pelas palavras, n\u00e3o \u00e9 arrebatada.<\/p>\n<p>Portanto a pessoa est\u00e1 agora no reino do sil\u00eancio; n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia do eu no centro. Trata-se de uma consci\u00eancia sem fronteiras, de uma consci\u00eancia sem centro. O homem n\u00e3o pode fazer qualquer coisa agora. Existe apenas sil\u00eancio. Portanto a energia nas ra\u00edzes de nosso ser &#8211; as ra\u00edzes do ser est\u00e3o no ponto central; a energia que estava dividida, espalhada e fragmentada em pensamentos e emo\u00e7\u00f5es em conflito, na dualidade de sujeito e objeto, de observador e observado, de experimentador e de experimentado &#8211; est\u00e1 agora no reino da n\u00e3o-dualidade; n\u00e3o mais fragmentada; ela est\u00e1 l\u00e1, no ponto fundamental, em sua inteireza, em sua totalidade, voltando a unir-se a si mesma em sua fonte. A energia n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. \u00c9 um movimento infinito. Assim, pela primeira vez na vida do homem, \u00e9 dada \u00e0 totalidade da energia uma oportunidade para mover-se. Ela n\u00e3o tem de acompanhar o &#8220;momentum&#8221; dos impulsos, dos pensamentos, das emo\u00e7\u00f5es etc. de voc\u00eas. Agora ela est\u00e1 livre para expressar-se em sua totalidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o sil\u00eancio come\u00e7a a se mover, o sil\u00eancio come\u00e7a a operar, a funcionar. Como n\u00e3o h\u00e1 movimento de dualidade do c\u00e9rebro, do pensamento, da emo\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 perturba\u00e7\u00e3o qu\u00edmica no corpo, n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o nos nervos. O sistema nervoso entra em completo repouso e, quimicamente, h\u00e1 um equil\u00edbrio. Isso \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio. Se o sil\u00eancio n\u00e3o resulta nisso, n\u00e3o \u00e9 sil\u00eancio. \u00c9 um pensamento desejoso de sil\u00eancio, e o ego est\u00e1 por tr\u00e1s, escondido em alguma parte; ainda est\u00e1 operando. Portanto a pessoa est\u00e1 quimicamente equilibrada e com os nervos repousados, e a totalidade da energia se move. Voc\u00ea ver\u00e1 como \u00e9 essa totalidade. Somente a totalidade de nosso ser \u00e9 que cura todas as feridas. Assim como a totalidade da energia se move em sono profundo, n\u00e3o perturbada por sonhos, da mesma maneira a totalidade da energia se move agora no estado de medita\u00e7\u00e3o. Energia \u00e9 sensibilidade, \u00e9 intelig\u00eancia. Portanto a sensibilidade do ser total, n\u00e3o a sensibilidade do c\u00e9rebro, do \u00f3rg\u00e3o f\u00edsico, mas de todo o ser, a intelig\u00eancia, como uma for\u00e7a, se torna operante. Hoje n\u00f3s n\u00e3o sabemos o que \u00e9 a sensibilidade, n\u00e3o sabemos o que \u00e9 a intelig\u00eancia. Conhecemos o intelecto, as fun\u00e7\u00f5es cerebrais. A intelig\u00eancia \u00e9 um caminho de natureza diferente, um elemento diferente de vida. O movimento da energia total n\u00e3o pode ser descrito. Trata-se de um movimento na n\u00e3o-dualidade, de um movimento do ser inteiro.<\/p>\n<p>Assim, a totalidade responde, percebe e elimina a divis\u00e3o entre o indiv\u00edduo e o universo. A divis\u00e3o ilus\u00f3ria, a divis\u00e3o enganosa, criada pela consci\u00eancia do eu, entre o individual e o universal, desaparece nessa dimens\u00e3o do sil\u00eancio. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 nem o individual nem o universal: voc\u00ea \u00e9 apenas vida. A totalidade da vida olha ent\u00e3o atrav\u00e9s da totalidade dessa pessoa. O sil\u00eancio dos olhos responde atrav\u00e9s da totalidade dessa pessoa. A moldura de carne e ossos estar\u00e1 l\u00e1 enquanto durar o impulso herdado, mas os movimentos dessa pessoa n\u00e3o s\u00e3o individuais, pois n\u00e3o s\u00e3o motivados. Chame-se a isso a imers\u00e3o do indiv\u00edduo no universal. N\u00e3o se pode descrev\u00ea-lo. O fato \u00e9 que desaparece a divis\u00e3o entre o um e os muitos, entre o interior e o exterior, entre o individual e o universal. A pessoa \u00e9, ent\u00e3o, consci\u00eancia sem esfor\u00e7o, sem escolha, do infinito movimento da vida. Vida \u00e9 viver constantemente atrav\u00e9s do nascimento e da morte, atrav\u00e9s da dor e do prazer; a vida opera atrav\u00e9s do dia e da noite, a vida respira o tempo todo &#8211; o nascimento \u00e9 a vida inspirando, enquanto a morte \u00e9 a vida expirando.<\/p>\n<p>A vida se move, ent\u00e3o, al\u00e9m da dualidade. Este \u00e9 o estado de medita\u00e7\u00e3o. Chame-o samadhi, se quiser, ou nirvana, se preferir. Tal pessoa torna-se ent\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o, em carne e osso, da unidade, da totalidade da vida, e para mim isso \u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o do crescimento humano, O homem ainda n\u00e3o est\u00e1 maduro para ela. Ele aprimorou o corpo, o c\u00e9rebro, mas tem que atingir ainda a maturidade da consci\u00eancia que a medita\u00e7\u00e3o abre para ele. Atualmente, somos seres humanos apenas na forma, e n\u00e3o no conte\u00fado. A divindade para mim \u00e9 a humanidade aprimorada e purificada. O homem tem que atingir a condi\u00e7\u00e3o na qual venha a existir uma sociedade baseada no amor, na amizade e na coopera\u00e7\u00e3o, na ordem social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica, livre da explora\u00e7\u00e3o, da corrup\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><b><\/p>\n<div style=\"text-align:center\">Eis por que a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 uma forma de revolu\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. A crise est\u00e1 na psique e, portanto, tem de ser resolvida na psique.<\/div>\n<p><\/b><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>do livro &#8220;Medita\u00e7\u00e3o &#8211; Uma maneira de viver de Vimala Thakar Palestra realizada em Matheran, a 29 de novembro de 1971 Esta manh\u00e3, pediram-me para falar sobre a medita\u00e7\u00e3o. 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