{"id":2033,"date":"2018-05-17T16:45:07","date_gmt":"2018-05-17T18:45:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=2033"},"modified":"2018-05-17T16:45:07","modified_gmt":"2018-05-17T18:45:07","slug":"a-essencia-mais-profunda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-essencia-mais-profunda\/","title":{"rendered":"A ess\u00eancia mais profunda"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-mente-em-meditacao\/sogyal-rinpoche\/\" rel=\"attachment wp-att-1911\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Sogyal-Rinpoche.jpg\" alt=\"\" width=\"139\" height=\"186\" class=\"alignleft size-full wp-image-1911\" \/><\/a><a name=\"inicio\"><\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><font size=\"4\"><b>A ESS\u00caNCIA MAIS PROFUNDA<\/b><\/font><\/div>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Sogyal Rinpoche<\/b><\/i><\/div>\n<p><\/p>\n<ul type=\"disc\">\n<li><a href=\"#a\"><font size=\"2\">a ess\u00eancia mais profunda<\/font>\n<li><a href=\"#b\"><font size=\"2\">a vis\u00e3o<\/font>\n<li><a href=\"#c\"><font size=\"2\">medita\u00e7\u00e3o<\/font>\n<li><a href=\"#d\"><font size=\"2\">a\u00e7\u00e3o<\/font><br \/>\n<\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p><\/a><a name=\"a\"><\/p>\n<h5>A ESS\u00caNCIA MAIS PROFUNDA<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nNingu\u00e9m pode morrer sem medo e em completa seguran\u00e7a sem ter atingido a realiza\u00e7\u00e3o da natureza da mente. Porque s\u00f3 essa realiza\u00e7\u00e3o, aprofundada em anos de pr\u00e1tica continuada, pode manter a mente est\u00e1vel no confuso caos do processo da morte. De todas as maneiras que conhe\u00e7o de ajudar a realizar a natureza da mente, a pr\u00e1tica de Dzogchen, a mais antiga e direta corrente de sabedoria dentro dos ensinamentos do budismo \u00e9 a pr\u00f3pria fonte dos ensinamentos do bardo, \u00e9 a mais clara, mais eficaz e relevante para as circunst\u00e2ncias atuais. As origens do Dzogchen remontam ao Buda Primordial, Samantabhadra, que o transmitiu a uma linha ininterrupta de grandes mestres que chega at\u00e9 o presente. Centenas de milhares de indiv\u00edduos na \u00cdndia, no Himalaia e no Tibet, atingiram a realiza\u00e7\u00e3o e a ilumina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s dessa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Alguns dos meus mestres me disseram que este \u00e9 o momento de se difundir o Dzogchen. Os seres humanos chegaram a um ponto cr\u00edtico da sua evolu\u00e7\u00e3o e esta \u00e9poca de extrema confus\u00e3o pede um ensinamento com o mesmo grau de poder e claridade.<br \/>\nDescobri tamb\u00e9m que as pessoas de hoje querem um caminho que elimine o dogma, o fundamentalismo, exclusivismo, metaf\u00edsica, complexa e parafern\u00e1lia cultural ex\u00f3tica, um caminho ao mesmo tempo simples e profundo, que n\u00e3o precise ser praticado em ashrams ou mosteiros, mas possa integrar-se \u00e0 vida do dia-a-dia e ser praticado em qualquer lugar.<\/p>\n<p>O que \u00e9, ent\u00e3o, o Dzogchen? O Dzogchen n\u00e3o \u00e9 apenas um ensinamento, nem mais uma filosofia, nem mais um elaborado sistema, nem mesmo uma sedutora s\u00e9rie de t\u00e9cnicas. Dzogchen \u00e9 um estado, o estado primordial, aquele estado totalmente desperto que \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o e a ess\u00eancia de todos os budas e de todos os caminhos espirituais e o \u00e1pice da evolu\u00e7\u00e3o espiritual de um indiv\u00edduo. Dzogchen \u00e9 freq\u00fcentemente traduzido como Grande Perfei\u00e7\u00e3o. Prefiro deixar a palavra sem traduzir, porque Grande Perfei\u00e7\u00e3o traz esse sentido do perfeito que temos de lutar para conseguir, meta que fica no final de um longa e \u00e1rdua jornada.<\/p>\n<p>Nada podia estar mais distante do significado de Dzogchen: o estado j\u00e1 perfeito em si mesmo da nossa natureza primordial, que n\u00e3o precisa de &#8220;aperfei\u00e7oamento&#8221;, uma vez que, como o c\u00e9u, sempre foi perfeito desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Todos os ensinamentos budistas s\u00e3o explicados em termos de &#8220;Base, Caminho e Frui\u00e7\u00e3o&#8221;. A Base do Dzogchen \u00e9 esse estado fundamental e primevo, nossa natureza absoluta que j\u00e1 \u00e9 perfeita e est\u00e1 sempre presente. Patrul Rinpoche diz: &#8220;Nem \u00e9 para ser buscada externamente, nem \u00e9 algo que voc\u00ea n\u00e3o tinha antes ou que precise nascer agora de um modo novo em sua mente&#8221;. Do ponto de vista da Base &#8211; o absoluto &#8211; nossa natureza \u00e9 a mesma que a dos budas, e nesse n\u00edvel n\u00e3o h\u00e1 que ouvir ensinamentos ou fazer pr\u00e1tica &#8211; nem um pingo, dizem os mestres.<br \/>\nN\u00e3o obstante, temos de entender, os budas tomaram um caminho e n\u00f3s tomamos outro. Os budas reconhecem sua natureza original e tornam-se iluminados; n\u00f3s n\u00e3o a reconhecemos e por isso nos tornamos confusos. Nos ensinamentos, esses estado de coisas \u00e9 chamado &#8220;Uma base, dois Caminhos&#8221;. Nossa condi\u00e7\u00e3o relativa \u00e9 que nossa natureza intr\u00ednseca est\u00e1 obscurecida e precisamos seguir os ensinamentos e a pr\u00e1tica para voltarmos \u00e0 verdade: esse \u00e9 o caminho do Dzogchen. Finalmente, atingir a realiza\u00e7\u00e3o da nossa natureza original \u00e9 atingir a completa libera\u00e7\u00e3o e tornar-se um buda. Essa \u00e9 a frui\u00e7\u00e3o do Dzogchen, que de fato \u00e9 poss\u00edvel ao praticante em uma s\u00f3 vida, quando ele ou ela a isso dedica seu cora\u00e7\u00e3o e mente.<\/p>\n<p>Os mestres Dzogchen s\u00e3o agudamente conscientes dos perigos de confundir o absoluto com o relativo. Quem n\u00e3o consegue compreender essa rela\u00e7\u00e3o pode subestimar ou at\u00e9 desprezar os aspectos relativos da pr\u00e1tica espiritual e a lei c\u00e1rmica de causa e efeito. No entanto, \u00e0queles que apreendem verdadeiramente o significado do Dzogchen ter\u00e3o um respeito ainda mais profundo pelo carma, bem como uma aprecia\u00e7\u00e3o mais intensa e premente da necessidade de purifica\u00e7\u00e3o e de pr\u00e1tica espiritual. Isso se dar\u00e1 porque eles poder\u00e3o perceber a vastid\u00e3o daquilo que h\u00e1 neles e que foi obscurecido, o que os far\u00e1 empenhar-se de maneira mais fervorosa, e com disciplina sempre fresca e natural, em remover o que quer que se interponha entre eles e sua verdadeira natureza.<br \/>\nOs ensinamentos Dzogchen s\u00e3o como um espelho que reflete a Base da nossa natureza original com pureza t\u00e3o elevada e liberadora, e claridade t\u00e3o imaculada, que constituem uma prote\u00e7\u00e3o ao perigo de ficar presos em qualquer forma de entendimento conceitualmente fabricado, mesmo que sutil, convincente ou sedutor.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 ent\u00e3o, para mim, a maravilha do Dzogchen? Todos os ensinamentos levam \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o, mas a singularidade do Dzogchen \u00e9 que, mesmo na dimens\u00e3o relativa dos ensinamentos, a sua linguagem nunca macula o absoluto com conceitos; deixa-o intacto em sua simplicidade desnuda, din\u00e2mica e majestosa, e mesmo assim fala dela a qualquer um de mente aberta em termos t\u00e3o v\u00edvidos e expressivos que, mesmo antes de nos iluminarmos, somos agraciados com o vislumbre mais forte que podemos ter do esplendor do estado desperto.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"b\"><\/p>\n<h5>A VIS\u00c3O<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nTradicionalmente, o treinamento pr\u00e1tico do Caminho Dozogchen \u00e9 descrito com muita simplicidade em termos de Vis\u00e3o, Medita\u00e7\u00e3o e A\u00e7\u00e3o. Ver diretamente o estado absoluto, a Base do nosso ser, \u00e9 a Vis\u00e3o; o modo de estabilizar essa Vis\u00e3o e fazer dela uma experi\u00eancia cont\u00ednua \u00e9 Medita\u00e7\u00e3o; integrar a Vis\u00e3o \u00e0 nossa realidade total e \u00e0 nossa vida \u00e9 o que chamamos A\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO que \u00e9 ent\u00e3o a Vis\u00e3o? \u00c9 nada menos que ver o estado real das coisas como elas s\u00e3o; saber que a verdadeira natureza da mente \u00e9 a verdadeira natureza de tudo; e atingir a realiza\u00e7\u00e3o de que a verdadeira natureza da nossa mente \u00e9 a verdade absoluta. Dudjom Rinpoche diz:<\/p>\n<p>A vis\u00e3o \u00e9 a compreens\u00e3o da consci\u00eancia intr\u00ednseca desnuda,<br \/>\nDentro da qual tudo est\u00e1 contido: a percep\u00e7\u00e3o sensorial e a exist\u00eancia fenom\u00eanica, o samsara e o nirvana.<br \/>\nEssa consci\u00eancia intr\u00ednseca e imediata tem dois aspectos:<br \/>\n&#8220;vacuidade&#8221; como o absoluto, e apar\u00eancia ou percep\u00e7\u00e3o como relativo.<\/p>\n<p>O que isso significa \u00e9 que todo o conjunto das possibilidades das apar\u00eancias e todos os poss\u00edveis fen\u00f4menos em todas as diferentes realidades &#8211; todos eles, sem exce\u00e7\u00e3o, seja no samsara ou no nirvana &#8211; sempre foram e sempre ser\u00e3o perfeitos e completos, dentro da vasta e ilimitada extens\u00e3o da natureza da mente. Mais ainda, que a ess\u00eancia de tudo seja vazia e &#8220;pura desde o in\u00edcio&#8221;, sua natureza \u00e9 rica em nobres qualidades, prenhe de todas as possibilidades, um campo ilimitado, incessante e dinamicamente criativo que \u00e9 sempre perfeito e expont\u00e2neo.   (&#8230;)<\/p>\n<p>Como a mente de sabedoria dos budas pode ser introduzida? Imagine a natureza da mente como seu pr\u00f3prio rosto; est\u00e1 sempre com voc\u00ea, mas n\u00e3o pode v\u00ea-lo sem ajuda.  Agora imagine que nunca viu um espelho antes. A introdu\u00e7\u00e3o feita pelo mestre \u00e9 colocar subitamente um espelho diante de voc\u00ea, no qual pela primeira vez vai ver seu pr\u00f3prio rosto refletido. Tal como seu rosto, a pura percep\u00e7\u00e3o de Rigpa [a base do nosso ser] n\u00e3o \u00e9 algo &#8220;novo&#8221; que o mestre lhe est\u00e1 dando, ou algo que nunca tenha tido antes, e nem algo que teria a possibilidade de achar fora de si mesmo. Sempre foi seu e sempre esteve com voc\u00ea, mas at\u00e9 aquele momento, surpreendente, voc\u00ea nunca o tinha visto de maneira direta.<\/p>\n<p>Patrul Rinpoche explica que &#8220;de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o especial dos grandes mestres da linhagem dessa pr\u00e1tica, a natureza da mente, o rosto de Rigpa, \u00e9 intoduzido precisamente na dissolu\u00e7\u00e3o da mente conceitual&#8221;.   (&#8230;)<\/p>\n<p>Apenas uns poucos indiv\u00edduos na hist\u00f3ria, devido ao seu carma purificado, puderam reconhecer e iluminar-se num instante; porisso a introdu\u00e7\u00e3o deve quase sempre ser precedida pelas pr\u00e1ticas preliminares que apresento a seguir. S\u00e3o  essas pr\u00e1ticas preliminares que purificam e removem os obscurecimentos da mente ordin\u00e1ria, trazendo voc\u00ea ao estado em que &#8220;seu&#8221; Rigpa pode ser revelado.<\/p>\n<p>Primeiro, a MEDITA\u00c7\u00c3O, ant\u00eddoto supremo da distra\u00e7\u00e3o, traz a mente de volta e permite que ela se assente no seu estado natural.<\/p>\n<p>Segundo, pr\u00e1ticas profundas de purifica\u00e7\u00e3o e o fortalecimento do carma positivo, atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito e sabedoria, come\u00e7am a enfraquecer e dissolver os v\u00e9us intelectuais e emocionais que obscurecem a natureza da mente. Como escreveu meu mestre Jamyang Khyentse: &#8220;Se os obscurecimentos forem removidos, a sabedoria de Rigpa de cada um brilhar\u00e1 naturalmente&#8221;. Essas pr\u00e1ticas de purifica\u00e7\u00e3o, chamadas Ng\u00f6ndro em tibetano, devem ser cuidadosamente observadas para produzir uma ampla transforma\u00e7\u00e3o interior. Elas envolvem o ser inteiro &#8211; corpo, fala, mente &#8211; e come\u00e7am com uma s\u00e9ria de profundas contempla\u00e7\u00f5es sobre:<\/p>\n<p>&#8211;\tA singularidade da vida humana<br \/>\n&#8211;\tA cont\u00ednua presen\u00e7a da imperman\u00eancia e da morte<br \/>\n&#8211;\tA infalibilidade da causa e efeito das nossas a\u00e7\u00f5es<br \/>\n&#8211;\tO ciclo vicioso de frustra\u00e7\u00e3o e sofrimento que \u00e9 o samsara   (&#8230;)<\/p>\n<p>Mesmo sabendo que as palavras e os conceitos fracassam quando tentamos descrev\u00ea-la, vou procurar dar uma id\u00e9ia do que \u00e9 a VIS\u00c3O e do que acontece quando Rigpa \u00e9 revelado diretamente.<br \/>\nDudjom Rinpoche diz: &#8220;Esse momento \u00e9 como tirar um capuz de sua cabe\u00e7a. Que amplitude infinita e que al\u00edvio! Esse \u00e9 o ver supremo: ver o que n\u00e3o foi visto antes&#8221;. Quando voc\u00ea V\u00ca tudo se abre, se expande e se torna fresco, claro, transbordante de vida, animado de encantamento e frescor. \u00c9 como se o teto de sua cabe\u00e7a se desprendesse, ou se um bando de p\u00e1ssaros repentinamente revoasse de um ninho escuro. Todas as limita\u00e7\u00f5es se dissolvem e desaparecem como se, dizem os tibetanos, um selo tivesse rompido.<\/p>\n<p>Imagine-se morando numa casa no topo do mundo. De repente, toda a estrutura da casa que limitava sua vis\u00e3o simplesmente desaparece e voc\u00ea pode ver tudo ao seu redor, tanto dentro como fora. Mas n\u00e3o h\u00e1 alguma &#8220;coisa&#8221; para ver; o que acontece n\u00e3o tem qualquer refer\u00eancia no mundo ordin\u00e1rio; \u00e9 uma vis\u00e3o total, completa, sem precedentes, perfeita.<\/p>\n<p>Dudjon Rinpoche diz: &#8220;Seus inimigos mais mortais, aqueles que o mantiveram amarrado ao samsara por incont\u00e1veis vidas, desde tempos imemoriais at\u00e9 o presente, s\u00e3o o agarrar e o agarrado&#8221;.<br \/>\nQuando o mestre o introduz e voc\u00ea os reconhece, &#8220;esses dois s\u00e3o completamente consumidos como penas numa fogueira, n\u00e3o deixando vest\u00edgios&#8221;. Agarrar e agarrado, a coisa agarrada e aquele que agarra s\u00e3o completamente liberados a partir mesmo da sua base. As ra\u00edzes da ignor\u00e2ncia e do sofrimento s\u00e3o totalmente cortadas e todas as coisas aparecem como reflexos num espelho, transparentes, bruxuleantes, ilus\u00f3rias e com a qualidade de um sonho.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea chega naturalmente a esse estado de medita\u00e7\u00e3o, inspirado pela Vis\u00e3o, pode permanecer a\u00ed por um longo tempo sem qualquer distra\u00e7\u00e3o ou esfor\u00e7o especial. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma coisa de nome medita\u00e7\u00e3o para proteger ou sustentar, uma vez que voc\u00ea est\u00e1 no fluxo natural da sabedoria Rigpa. E, quando est\u00e1 nele, perceber\u00e1 que \u00e9 como se tivesse sido sempre assim, e \u00e9. Quando brilha a sabedoria de Rigpa, nem uma sombra de d\u00favida permanece e um entendimento completo e profundo surge diretamente e sem qualquer esfor\u00e7o. (&#8230;)<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o momento do despertar. Um profundo senso de humor brota de dentro e voc\u00ea sorri, divertido com a inadequa\u00e7\u00e3o dos seus antigos conceitos e id\u00e9ias sobre a natureza da mente.<br \/>\nO que surge disto \u00e9 uma crescente, tremenda e inabal\u00e1vel certeza e convic\u00e7\u00e3o de que &#8220;\u00e9 isto&#8221;. N\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m a procurar, nada a mais a ser esperado. Essa certeza da Vis\u00e3o \u00e9 aquilo que deve ser aprofundado, de lampejo a lampejo, sobre a natureza da mente, e estabilizado pela cont\u00ednua disciplina da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"c\"><\/p>\n<h5>MEDITA\u00c7\u00c3O<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nEnt\u00e3o o que \u00e9 medita\u00e7\u00e3o do Dzogchen? \u00c9 simplesmente repousar, sem distra\u00e7\u00f5es, na Vis\u00e3o, uma vez que ela tenha sido introduzida. Dudjon Rinpoche a descreve:<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o consiste em ficar atento a esse estado de Rigpa, livre de todas as constru\u00e7\u00f5es mentais, embora permanecendo totalmente relaxado, sem qualquer distra\u00e7\u00e3o e sem agarrar-se a nada. Por isso se diz que a &#8220;medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se esfor\u00e7ar, mas permitir que a pr\u00f3pria medita\u00e7\u00e3o nos assimile naturalmente&#8221;.<\/p>\n<p>O ponto central da pr\u00e1tica de medita\u00e7\u00e3o Dzogchen \u00e9 fortalecer e estabilizar Rigpa, permitindo que ele cres\u00e7a at\u00e9 sua plena maturidade. A mente ordin\u00e1ria e habitual, com suas proje\u00e7\u00f5es, \u00e9 extremamente poderosa. Ela fica voltando e toma conta de n\u00f3s quando estamos desatentos e distra\u00eddos. Como Dudjon Rinpoche costumava dizer: &#8220;No momento, nosso Rigpa \u00e9 como um bebezinho desamparado no campo de batalha onde os pensamentos irrompem com for\u00e7a&#8221;. Gosto de dizer que temos de come\u00e7ar sendo a ama-seca do nosso Rigpa dentro do ambiente seguro da medita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe a medita\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente continuar o fluxo de Rigpa ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o, como sabemos quando \u00e9 Rigpa e quando n\u00e3o \u00e9? Fiz essa pergunta a Dilgo Khyentse Rinpoche e ele respondeu com sua simplicidade caracter\u00edstica: &#8220;Se voc\u00ea est\u00e1 num estado inalterado, \u00e9 Rigpa&#8221;. Se n\u00e3o estamos dentro da mente que de algum modo manipula e distorce a realidade, mas apenas repousando num estado inalterado de consci\u00eancia pura e original, ent\u00e3o isso \u00e9 Rigpa. Se h\u00e1 qualquer trama ou maquina\u00e7\u00e3o de nossa parte, alguma forma de manobra ou de apego, j\u00e1 n\u00e3o se trata de Rigpa. Rigpa \u00e9 um estado em que n\u00e3o h\u00e1 mais qualquer d\u00favida: n\u00e3o h\u00e1 na verdade algo como uma mente que possa duvidar: voc\u00ea v\u00ea diretamente. Se estiver nesse estado, certeza e confian\u00e7as completas e naturais vibram com o pr\u00f3prio Rigpa, e \u00e9 assim que voc\u00ea sabe.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o do Dzogchen \u00e9 de precis\u00e3o extrema, j\u00e1 que quanto mais fundo voc\u00ea vai mais sutil s\u00e3o os enganos que podem surgir, e o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o conhecimento da realidade absoluta.<br \/>\nMesmo ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o, os mestres esclarecem em detalhes os estados que n\u00e3o s\u00e3o medita\u00e7\u00e3o Dzogchen e que com ela n\u00e3o devem ser confundidos. Num desses estados voc\u00ea perambula por uma terra de ningu\u00e9m da mente, onde n\u00e3o h\u00e1 pensamentos ou mem\u00f3rias; \u00e9 um estado obscuro, embotado e ap\u00e1tico, onde voc\u00ea est\u00e1 mergulhado na base da mente ordin\u00e1ria. Num segundo estado h\u00e1 certa quietude e leve claridade, mas \u00e9 uma quietude estagnada, ainda enterrada na mente ordin\u00e1ria. Num terceiro voc\u00ea experimenta a aus\u00eancia de pensamentos mas est\u00e1 &#8220;em outra&#8221; , apenas num estado vazio de encantamento. Num quarto estado sua mente vagueia, ansiando por pensamentos e proje\u00e7\u00f5es. Nenhum desses \u00e9 o verdadeiro estado de medita\u00e7\u00e3o e o praticante deve observar habilmente o que ocorre para evitar ser iludido por esses caminhos.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o no Dzogchen est\u00e1 contida nesses quatro pontos:<\/p>\n<p>I &#8211; Quando um pensamento passado cessou e ainda n\u00e3o surgiu um pensamento futuro, h\u00e1 uma brecha. Nesse preciso instante, n\u00e3o h\u00e1 uma consci\u00eancia do momento presente, fresca, virgem, em nada alterada por conceitos, uma aten\u00e7\u00e3o luminosa e pura?<br \/>\nPois bem isso \u00e9 Rigpa!<\/p>\n<p>II &#8211; Entretanto a mente n\u00e3o fica neste estado para sempre, porque outro pensamento subitamente surge, n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nEssa \u00e9 a auto-irradia\u00e7\u00e3o de Rigpa.<\/p>\n<p>  III &#8211; No entanto, se voc\u00ea n\u00e3o reconhece esse pensamento pelo que de fato ele \u00e9, no instante em que surge, ele se transformar\u00e1 em um pensamento comum, como antes. Essa \u00e9 a chamada &#8220;cadeia da ilus\u00e3o&#8221;, e \u00e9 a raiz de samsara.<\/p>\n<p>       IIII &#8211; Se voc\u00ea \u00e9 capaz de reconhecer a verdadeira natureza do pensamento logo que ele surge e o deixa em paz, sem persegui-lo, ent\u00e3o quaisquer pensamentos que surjam se dissolvem automaticamente, retornando \u00e0 vasta extens\u00e3o de Rigpa, e s\u00e3o liberados.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso uma vida inteira de pr\u00e1tica para entender e realizar a profunda riqueza e a majestade desses quatro pontos t\u00e3o simples e t\u00e3o fundamentais, e tudo o que posso fazer aqui \u00e9 dar a voc\u00ea uma amostra da vastid\u00e3o que \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o Dzogchen.<br \/>\nTalvez o ponto mais importante \u00e9 que a medita\u00e7\u00e3o Dzogchen vem a tornar-se um cont\u00ednuo fluxo de Rigpa, como um rio que se move constantemente, dia e noite sem interrup\u00e7\u00e3o. Claro que isto \u00e9 um estado ideal, uma vez que esse atento repouso na Vis\u00e3o, j\u00e1 introduzida e identificada, \u00e9 a recompensa de muitos anos de pr\u00e1tica permanente.<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o Dzogchen \u00e9 sutilmente poderosa na lida com os movimentos da mente, apresentando uma perspectiva \u00fanica sobre eles. Tudo o que surge \u00e9 visto na sua verdadeira natureza, n\u00e3o como coisa separada de Rigpa, e n\u00e3o antag\u00f4nica a ele, mas &#8211; e isso \u00e9 muito importante &#8211; verdadeiramente como nada mais que a sua auto-irradia\u00e7\u00e3o, a manifesta\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria energia.<br \/>\nDigamos que voc\u00ea se encontre num estado de profunda quietude; ele n\u00e3o costuma durar muito, porque logo um movimento ou um pensamento surge, como uma onda no oceano. N\u00e3o rejeite o movimento nem se apegue \u00e0 tranq\u00fcilidade, mas deixe seguir o fluxo da sua pura presen\u00e7a. O estado penetrante e sereno da sua medita\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Rigpa e tudo que surge nada mais \u00e9 que a auto-irradia\u00e7\u00e3o de Rigpa. Esse \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o e a base da pr\u00e1tica Dzogchen.  (&#8230;)<\/p>\n<p> \u00c0 medida que incorpora a firme estabilidade da Vis\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais enganado nem distra\u00eddo pelo que quer que possa surgir, e assim n\u00e3o cai v\u00edtima da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro que no oceano h\u00e1 ondas violentas e ondas suaves; surgem emo\u00e7\u00f5es fortes como raiva, desejo e inveja. O verdadeiro praticante as reconhece n\u00e3o como perturba\u00e7\u00e3o ou obst\u00e1culo, mas como uma grande oportunidade. O fato de voc\u00ea reagir ao que aparece com as tend\u00eancias habituais de apego e avers\u00e3o \u00e9 sinal n\u00e3o somente que est\u00e1 distra\u00eddo, mas tamb\u00e9m de que n\u00e3o tem o reconhecimento e perdeu a base de Rigpa. Reagir as emo\u00e7\u00f5es desse modo significa refor\u00e7a-las , prendendo-nos ainda mais fortemente \u00e0s cadeias da ilus\u00e3o. O grande segredo do Dzogchen \u00e9 ver bem atrav\u00e9s delas, t\u00e3o logo aparecem, percebendo-as pelo que de fato s\u00e3o: a v\u00edvida e el\u00e9trica manifesta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria energia Rigpa. \u00c0 medida que voc\u00ea aprende a fazer isso, mesmo as emo\u00e7\u00f5es mais turbulentas j\u00e1 n\u00e3o conseguem domin\u00e1-lo e se dissolvem como ondas bravias que aparecem e retrocedem, mergulhando de volta na calma do oceano.<\/p>\n<p>O praticante descobre &#8211; e essa \u00e9 uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria, cuja sutileza e poder v\u00e3o al\u00e9m do que podemos entrever &#8211; que as emo\u00e7\u00f5es violentas n\u00e3o precisam necessariamente precipit\u00e1-lo no turbilh\u00e3o de suas pr\u00f3prias neuroses; elas podem ser usadas para aprofundar, estimular, avivar e fortalecer Rigpa. Essa energia tempestuosa torna-se mat\u00e9ria-prima para a energia desperta de Rigpa. Quanto mais forte e ardente a emo\u00e7\u00e3o, mais Rigpa se fortalece. Sinto que esse m\u00e9todo peculiar ao Dzogchen \u00e9 uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria para libertar at\u00e9 os problemas emocionais e psicol\u00f3gicos mais inveterados e mais profundamente enraizados.   (&#8230;)<\/p>\n<p>No Dzogchen, a fundamental e inerente natureza de tudo \u00e9 chamada &#8220;Luminosidade Base&#8221;, ou &#8220;Luminosidade M\u00e3e&#8221;. Ela permeia todas as nossas experi\u00eancias e \u00e9 inclusive, embora n\u00e3o a reconhe\u00e7amos, a natureza inerente tamb\u00e9m dos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es que surgem em nossa mente. Quando o mestre introduz \u00e0 verdadeira natureza da mente, ao estado de Rigpa, \u00e9 como ele ou ela nos desse uma chave mestra. No Dzogchen chamamos essa chave, que vai abrir a porta do conhecimento total, de &#8220;Luminosidade Caminho&#8221;, ou &#8220;Luminosidade Filha&#8221;. A L. Base e a L.Caminho s\u00e3o fundamentalmente as mesmas, \u00e9 claro, e \u00e9 s\u00f3 para fins de explana\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica que elas s\u00e3o categorizadas dessa forma. Mas uma vez que temos a chave da L.C. dada pela introdu\u00e7\u00e3o do mestre, podemos us\u00e1-la \u00e0 vontade para abrir a porta da natureza inata da realidade. Este abrir a porta se chama na pr\u00e1tica do Dzogchen &#8220;o encontro da L. M\u00e3e e Filha&#8221;.. Outro modo de dizer isso \u00e9 que, assim que um pensamento ou emo\u00e7\u00e3o aparece, a L.C. &#8211; Rigpa &#8211; reconhece-os imediatamente pelo que s\u00e3o, reconhece sua natureza inerente, a L. Base. Nesse instante de reconhecimento, as duas Luminosidades se fundem e os pensamentos e emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o liberados em sua pr\u00f3pria base.<br \/>\n\u00c9 fundamental o aperfei\u00e7oamento dessa pr\u00e1tica de fus\u00e3o das duas Luminosidades e da auto-libera\u00e7\u00e3o daquilo que surge na sua mente enquanto voc\u00ea est\u00e1 vivo, porque o que ocorre para todos no momento da morte \u00e9 isto: a Luminosidade Base desponta com seu imenso esplendor, trazendo com ela uma oportunidade de libera\u00e7\u00e3o total &#8211; se, e somente se, voc\u00ea tiver aprendido a reconhece-la.<\/p>\n<p>Talvez fique claro agora que essa fus\u00e3o das Luminosidades e da autolibera\u00e7\u00e3o dos pensamentos e das emo\u00e7\u00f5es \u00e9 medita\u00e7\u00e3o no seu n\u00edvel mais profundo. De fato, um termo como medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente apropriado para a pr\u00e1tica Dzogchen porque, em \u00faltima an\u00e1lise, implica meditar &#8220;sobre&#8221; algo, enquanto que no Dzogchen tudo \u00e9 apenas e para sempre Rigpa. Desse modo, n\u00e3o existe medita\u00e7\u00e3o separada do simples ficar na pura presen\u00e7a de Rigpa.<\/p>\n<p>A \u00fanica palavra que talvez pudesse descrever isso \u00e9 &#8220;n\u00e3o-medita\u00e7\u00e3o&#8221;. Nesse estado, dizem os mestres, mesmo se voc\u00ea procurar a ilus\u00e3o, n\u00e3o encontrar\u00e1 nenhuma. Mesmo se voc\u00ea procurar pedrinhas comuns numa ilha de ouro e j\u00f3ias, n\u00e3o ter\u00e1 oportunidade de encontra-las. Quando a Vis\u00e3o \u00e9 constante, o fluxo de Rigpa \u00e9 inesgot\u00e1vel e a fus\u00e3o das duas Luminosidades \u00e9 cont\u00ednua e espont\u00e2nea, toda a ilus\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 liberada em sua pr\u00f3pria raiz e toda a sua percep\u00e7\u00e3o aparece como Rigpa, sem interrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os mestres enfatizam que para estabilizar a Vis\u00e3o na medita\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial, primeiro, realizar essa pr\u00e1tica num ambiente especial, de retiro, onde todas as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis estejam presentes; entre as distra\u00e7\u00f5es e a correria do mundo, as experi\u00eancias verdadeiras, por mais que voc\u00ea medite, n\u00e3o surgir\u00e3o na sua mente. Segundo, embora n\u00e3o haja diferen\u00e7a no Dzogchen entre medita\u00e7\u00e3o e vida cotidiana, at\u00e9 que voc\u00ea tenha encontrado a verdadeira estabilidade pela pr\u00e1tica em sess\u00f5es a isso dedicadas, n\u00e3o conseguir\u00e1 integrar a sabedoria da medita\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia da vida di\u00e1ria. Terceiro, mesmo se voc\u00ea pratica e \u00e9 capaz de assentar no fluxo de Rigpa com confian\u00e7a na Vis\u00e3o, mas n\u00e3o consegue manter esse fluxo todo o tempo, em todas as situa\u00e7\u00f5es, combinando sua pr\u00e1tica com a vida cotidiana, isso n\u00e3o servir\u00e1 quando circunst\u00e2ncias desfavor\u00e1veis surgirem, e voc\u00ea ser\u00e1 desviado para a ilus\u00e3o pelos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es. (&#8230;)<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"d\"><\/p>\n<h5>A\u00c7\u00c3O<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\n\u00c0 medida que a familiaridade com o fLuxo de Rigpa vai se tornando realidade e permeia a vida cotidiana, as a\u00e7\u00f5es do praticante come\u00e7am a mudar e geram estabilidade e confian\u00e7a profundas.<\/p>\n<p>Dudjom Rinpoche diz:<\/p>\n<p>A\u00e7\u00e3o \u00e9 estar verdadeiramente atento aos seus pr\u00f3prios pensamentos. Bons ou maus, olhando para a verdadeira natureza de qualquer pensamento que surja, sem evocar o passado ou convidar o futuro, sem permitir qualquer apego a experi\u00eancia de alegria nem se deixar dominar pelas situa\u00e7\u00f5es tristes. Assim fazendo, voc\u00ea tenta atingir e permanecer num estado de grande equil\u00edbrio em que bom e mau, paz e ang\u00fastia, s\u00e3o desprovidas de verdadeira identidade.<\/p>\n<p>Atingir a realiza\u00e7\u00e3o da Vis\u00e3o transforma de maneira sutil, por\u00e9m completa, o modo como voc\u00ea v\u00ea as coisas. Mais e mais eu percebi o quanto pensamentos e conceitos s\u00e3o tudo o que nos impede de estar sempre, muito simplesmente, no absoluto. Agora vejo com claridade porque os mestres dizem com tanta freq\u00fc\u00eancia: &#8220;Procure com afinco n\u00e3o criar muita esperan\u00e7a ou medo&#8221;, porque s\u00f3 engendram mais tagarelice mental. Quando a Vis\u00e3o est\u00e1 presente, os pensamentos s\u00e3o percebidos como de fato s\u00e3o: fugazes, transparentes e apenas relativos. Voc\u00ea pode enxergar atrav\u00e9s de tudo, como se tivesse olhos de rios-X. N\u00e3o se apega aos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, nem os rejeita, mas acolhe-os todos no vasto abra\u00e7o de Rigpa. O que levava muito a s\u00e9rio antes &#8211; ambi\u00e7\u00f5es, planos, expectativas, d\u00favidas e paix\u00f5es &#8211; j\u00e1 n\u00e3o tem nenhum poder profundo sobre voc\u00ea nem o deixa ansioso, uma vez que a Vis\u00e3o o ajudou a perceber a futilidade e a insensatez de todas as coisas, e fez nascer em voc\u00ea um esp\u00edrito de verdadeira ren\u00fancia.<\/p>\n<p>Permanecer na claridade e na confian\u00e7a de Rigpa permite que todos os seus pensamentos e emo\u00e7\u00f5es se liberem naturalmente e sem esfor\u00e7o em sua vasta extens\u00e3o, qual escrever na superf\u00edcie da \u00e1gua ou pintar no c\u00e9u. Se voc\u00ea aperfei\u00e7oa verdadeiramente essa pr\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 jeito de acumular carma; e nesse estado de entrega despreocupada e sem intencionalidade, que Dudjom Rinpoche chama de tranq\u00fcilidade aberta e desnuda, a lei de causa e efeito j\u00e1 n\u00e3o pode sujeit\u00e1-lo de modo algum.<\/p>\n<p>N\u00e3o presuma que isso \u00e9 f\u00e1cil ou poderia de algum modo s\u00ea-lo. \u00c9 muito dif\u00edcil repousar sem distra\u00e7\u00f5es na natureza da mente, mesmo por um instante, e permitir que um pensamento ou emo\u00e7\u00e3o se auto libere espontaneamente quando surge. Via de regra assumimos que apenas porque compreendemos algumas coisas intelectualmente, ou pensamos que compreendemos, n\u00f3s de fato as realizamos. Essa \u00e9 uma enorme ilus\u00e3o. A tarefa exige a maturidade que somente anos de audi\u00e7\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica cont\u00ednua podem trazer. E nunca \u00e9 demais enfatizar que a pr\u00e1tica continuada do Dzogchen sempre requer a dire\u00e7\u00e3o e a instru\u00e7\u00e3o de um mestre qualificado. <\/p>\n<p>De outro modo h\u00e1 um grande perigo, que a tradi\u00e7\u00e3o chama &#8220;perder a A\u00e7\u00e3o na Vis\u00e3o&#8221;. Um ensinamento t\u00e3o elevado e poderoso como o Dzogchen comporta um risco extremo. Ao iludir-se de que est\u00e1 liberando pensamentos e emo\u00e7\u00f5es, quando de fato n\u00e3o est\u00e1 nem pr\u00f3ximo de conseguir isso, e ao imaginar que est\u00e1 agindo com a espontaneidade de um verdadeiro yogue Dzogchen, tudo o que voc\u00ea faz \u00e9 acumular enormes quantidades de carma negativo. Como dizia Padmasambhava, e esta \u00e9 a atitude que todos devem ter:<\/p>\n<p>Embora minha vis\u00e3o seja t\u00e3o vasta quanto o c\u00e9u<br \/>\nMinhas a\u00e7\u00f5es e meu respeito pela causa e efeito<br \/>\nS\u00e3o refinados como o gr\u00e3o de farinha.<\/p>\n<p>Os mestres da tradi\u00e7\u00e3o Dzogchen enfatizam incansavelmente que, sem um conhecimento completo e profundo da &#8220;ess\u00eancia e m\u00e9todo da auto-libera\u00e7\u00e3o&#8221;, atrav\u00e9s de longa pr\u00e1tica, a medita\u00e7\u00e3o somente incrementa o caminho da ilus\u00e3o. Isso pode parecer severo mas este \u00e9 o caso, porque s\u00f3 a auto-libera\u00e7\u00e3o constante dos pensamentos pode de fato acabar com o dom\u00ednio da ilus\u00e3o e proteger o disc\u00edpulo de mergulhar outra vez no sofrimento e na neurose. Sem o m\u00e9todo da auto-libera\u00e7\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o estar\u00e1 apto para enfrentar desventuras e circunst\u00e2ncias infelizes quando elas surgirem, e mesmo se voc\u00ea j\u00e1 tem o h\u00e1bito de meditar vai perceber que emo\u00e7\u00f5es como raiva e desejo est\u00e3o presentes, t\u00e3o fortes quanto antes. O perigo de outros tipos de medita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem esse m\u00e9todo consiste em que eles se tornam como a &#8220;medita\u00e7\u00e3o dos deuses&#8221;, extraviando-se com facilidade em uma suntuosa auto-absor\u00e7\u00e3o, num transe passivo, ou numa inanidade de esp\u00edrito de um tipo ou de outro, e nada disso ataca e dissolve a ilus\u00e3o na sua raiz.<\/p>\n<p>O grande mestre Dzogchen, Vimalamitra, falou de maneira muito precisa sobre os graus de crescente naturalidade nesse caminho de libera\u00e7\u00e3o: quando voc\u00ea domina a pr\u00e1tica pela primeira vez, a libera\u00e7\u00e3o acontece simultaneamente ao que surge na mente, e a\u00ed \u00e9 como reconhecer um velho amigo na multid\u00e3o. Aperfei\u00e7oando e aprofundando a pr\u00e1tica a libera\u00e7\u00e3o vir\u00e1 junto com o surgimento das emo\u00e7\u00f5es e pensamentos, como uma serpente desenrolando-se. E, no estado final de mestria, a libera\u00e7\u00e3o \u00e9 como um ladr\u00e3o que entra numa casa vazia; nada do que surge traz males nem benef\u00edcios para o verdadeiro yogue Dzogchen.<\/p>\n<p>Mesmo nos maiores yogues, a alegria e o sofrimento, a esperan\u00e7a e o medo, ainda aparecem exatamente como antes. A diferen\u00e7a de uma pessoa comum e o yogue est\u00e1 em como eles v\u00eaem suas emo\u00e7\u00f5es e reagem a elas. Uma pessoa comum, de maneira instintiva, ir\u00e1 aceit\u00e1-las ou rejeit\u00e1-las, suscitando assim apego ou avers\u00e3o que resultar\u00e3o na acumula\u00e7\u00e3o de carma negativo. Um yogue, no entanto, percebe tudo o que surge no seu estado natural e originalmente puro, sem permitir o apego, ou qualquer pensamento superveniente. Como diz Dudjom rinpoche:<\/p>\n<p>Em qualquer percep\u00e7\u00e3o que surja, voc\u00ea deve ser como uma crian\u00e7a que entra num templo lindamente decorado: ela olha, mas o apego n\u00e3o entra de modo algum em sua percep\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o voc\u00ea deixa tudo ali, fresco, natural, vivo e intocado.<br \/>\nQuando voc\u00ea deixa tudo no seu estado pr\u00f3prio, a forma n\u00e3o muda, a cor n\u00e3o esmaece, o brilho n\u00e3o declina. Tudo o que surge n\u00e3o \u00e9 maculado por nenhum apego, e assim todas as coisas que voc\u00ea percebe surgem como a desnuda sabedoria de Rigpa, que \u00e9 a inseparabilidade entre luminosidade e vacuidade.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a, o contentamento, a vasta serenidade, a for\u00e7a, o profundo humor e a certeza que adv\u00eam da realiza\u00e7\u00e3o direta da Vis\u00e3o de Rigpa s\u00e3o o maior tesouro da vida, a maior das felicidades, que uma vez obtida nada pode destruir, nem mesmo a morte. Dilgo Khyentse Rinpoche diz:<\/p>\n<p>Uma vez que voc\u00ea obtem a Vis\u00e3o, embora as percep\u00e7\u00f5es ilus\u00f3rias do samarra possam surgir na sua mente, voc\u00ea ser\u00e1 como o c\u00e9u: n\u00e3o fica particularmente lisonjeado quando surge nele o arco-\u00edris, nem particularmente desapontado quando as nuvens o encobrem. H\u00e1 uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de contentamento. Voc\u00ea ri por dentro quando v\u00ea a fachada do samsara e do nirvana; a Vis\u00e3o o manter\u00e1 constantemente maravilhado com um suave sorriso interior se esbo\u00e7ando, todo o tempo.<\/p>\n<p>Como diz Dudjom Rinpoche: &#8220;Tendo purificado a grande ilus\u00e3o, que \u00e9 o lado escuro do cora\u00e7\u00e3o, a luz radiante do sol n\u00e3o-obscurecido nascer\u00e1 continuamente&#8221;.<br \/>\nQuem leva a s\u00e9rio as instru\u00e7\u00f5es sobre Dzogchen e sua mensagem sobre o morrer, contidas nesse livro, ir\u00e1 se sentir inspirado, espero, para buscar, encontrar e seguir um mestre qualificado, e para comprometer-se a passar por um completo treinamento sob orienta\u00e7\u00e3o dele ou dela. O cora\u00e7\u00e3o do treinamento Dzogchen consiste em duas pr\u00e1ticas, Trekch\u00f6 e T\u00f6gal, que s\u00e3o indispens\u00e1veis a uma compreens\u00e3o profunda do que ocorre durante os bardos. S\u00f3 posso dar aqui uma brev\u00edssima introdu\u00e7\u00e3o a ambas. A explica\u00e7\u00e3o completa s\u00f3 \u00e9 dada de mestre a disc\u00edpulo, quando este j\u00e1 se comprometeu de todo o cora\u00e7\u00e3o com os ensinamentos e atingiu um certo est\u00e1gio de desenvolvimento. O que expliquei neste cap\u00edtulo &#8211; &#8220;A Ess\u00eancia Mais Profunda&#8221; &#8211; \u00e9 a ess\u00eancia da pr\u00e1tica do Trekch\u00f6.<\/p>\n<p>Trekch\u00f6 significa atravessar a ilus\u00e3o essencialmente com for\u00e7a irresist\u00edvel da vis\u00e3o Rigpa, como uma faca corta manteiga ou um mestre de karat\u00ea quebra uma pilha de tijolos. Todo o fant\u00e1stico edif\u00edcio da ilus\u00e3o desmorona, como se voc\u00ea tivesse pulverizado seus alicerces. A ilus\u00e3o \u00e9 atravessada e a pureza primordial e a natural simplicidade da mente s\u00e3o desveladas.<br \/>\nSomente quando o mestre determinar que voc\u00ea tem uma base firme na pr\u00e1tica do Trekch\u00f6 \u00e9 que ele ou ela o introduzir\u00e1 na pr\u00e1tica avan\u00e7ada do T\u00f6gal. O praticante do T\u00f6gal trabalha diretamente com a Clara Luz &#8211; que habita de modo inerente em todos os fen\u00f4menos e est\u00e1 &#8220;espontaneamente presente neles&#8221; &#8211; usando exerc\u00edcios espec\u00edficos e muito poderosos para revela-la dentro de si mesmo.<\/p>\n<p>O T\u00f6gal tem a qualidade de ser instant\u00e2neo, de trazer realiza\u00e7\u00e3o imediata. Em vez de viajar por uma cordilheira para alcan\u00e7ar um pico distante, o T\u00f6gal leva-o at\u00e9 l\u00e1 num salto. O efeito de T\u00f6gal \u00e9 tornar algu\u00e9m capaz de efetivar todos os diferentes aspectos da ilumina\u00e7\u00e3o em si pr\u00f3prios no decurso de uma vida. Por isso \u00e9 considerado o m\u00e9todo \u00fanico e extraordin\u00e1rio do Dzogchen; enquanto o Trekch\u00f6 \u00e9 a sua sabedoria, o T\u00f6gal s\u00e3o seus meios h\u00e1beis. Exige imensa disciplina e \u00e9 geralmente praticado em retiro. (&#8230;)<br \/>\n<\/font><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ESS\u00caNCIA MAIS PROFUNDA Sogyal Rinpoche a ess\u00eancia mais profunda a vis\u00e3o medita\u00e7\u00e3o a\u00e7\u00e3o A ESS\u00caNCIA MAIS PROFUNDA Ningu\u00e9m pode morrer sem medo e em completa seguran\u00e7a sem ter atingido a realiza\u00e7\u00e3o da natureza da mente. 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