{"id":2035,"date":"2018-05-17T17:09:58","date_gmt":"2018-05-17T19:09:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=2035"},"modified":"2018-05-17T17:14:29","modified_gmt":"2018-05-17T19:14:29","slug":"os-quatro-selos-do-dharma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/os-quatro-selos-do-dharma\/","title":{"rendered":"Os quatro selos do Dharma"},"content":{"rendered":"<p><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/os-quatro-selos-do-dharma\/dzongsar-khyentse-rinpoche\/\" rel=\"attachment wp-att-2038\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Dzongsar-Khyentse-Rinpoche.jpeg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"270\" class=\"alignleft size-full wp-image-2038\" \/><\/a><a name=\"inicio\"><\/p>\n<h4>OS QUATRO SELOS DO DHARMA<\/h4>\n<p> <i><b>Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche<\/b><\/i><\/p>\n<ul type=\"disc\">\n<li><a href=\"#a\"><font size=\"2\">O que \u00e9 o buddhismo em poucas palavras?<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#b\"><font size=\"2\">O primeiro selo<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#c\"><font size=\"2\">O segundo selo<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#d\"><font size=\"2\">O terceiro selo<\/font><\/a>\n<\/li>\n<li><a href=\"#e\"><font size=\"2\">O quarto selo<\/font><\/a>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p><\/a><a name=\"a\"><\/p>\n<h4>O que \u00e9 o buddhismo em poucas palavras?<\/h4>\n<p><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">\nMuitas vezes j\u00e1 me perguntaram, &#8220;O que \u00e9 o buddhismo em poucas palavras?&#8221;, ou &#8220;Qual \u00e9 a vis\u00e3o ou a filosofia que caracteriza o buddhismo?&#8221;<\/p>\n<p>Infelizmente, no Ocidente, o buddhismo parece ter ca\u00eddo no departamento da religi\u00e3o ou, ent\u00e3o, no departamento da auto-ajuda; claramente no departamento da medita\u00e7\u00e3o, um dos modismos do momento.  Eu gostaria aqui de contestar a defini\u00e7\u00e3o de medita\u00e7\u00e3o buddhista.<\/p>\n<p>Para muitos, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tem a ver com relaxar, assistir ao p\u00f4r-do-sol ou acompanhar as ondas do mar.  Id\u00e9ias atraentes como &#8220;soltar-se de todos os problemas&#8221; e ficar &#8220;livre, leve e solto&#8221; v\u00eam \u00e0 mente.  Do ponto de vista do buddhismo, medita\u00e7\u00e3o \u00e9 um pouco mais do que isso.<\/p>\n<p>Primeiramente, acredito ser necess\u00e1rio falar do contexto cl\u00e1ssico em que a medita\u00e7\u00e3o aparece no buddhismo, o qual \u00e9 descrito em termos de vis\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o.  Essa \u00e9 uma forma bastante h\u00e1bil de compreender o caminho.  Ainda que n\u00e3o empreguemos esses termos em nosso cotidiano, sempre temos alguma vis\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o.  Se pretendermos comprar um carro, escolhemos um que imaginamos ser\u00e1 um bom carro.  A vis\u00e3o nesse caso \u00e9 essa id\u00e9ia ou cren\u00e7a.  Medita\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, seria contemplar essa id\u00e9ia, admirar suas caracter\u00edsticas e familiarizar-se com ela, ao passo que a\u00e7\u00e3o \u00e9 efetivamente sair e comprar o carro dirigi-lo, us\u00e1-lo.  Isso n\u00e3o \u00e9 uma coisa necessariamente buddhista; essa conduta est\u00e1 presente a todo tempo, mesmo quando escolhemos um restaurante para ir jantar.  Talvez n\u00e3o chamemos isso de vis\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, mas, sim, de &#8220;ter uma id\u00e9ia&#8221;, &#8220;contempl\u00e1-la&#8221; e &#8220;realiz\u00e1-la&#8221;.<\/p>\n<p>Qual seria, ent\u00e3o, a vis\u00e3o com a qual os buddhistas buscam se familiarizar?  H\u00e1 quatro selos que distinguem o buddhismo. Na verdade, se encontramos todas essas quatro vis\u00f5es em uma filosofia ou caminho independentemente de ser chamado de buddhista ou n\u00e3o, j\u00e1 que a designa\u00e7\u00e3o na realidade n\u00e3o tem import\u00e2ncia &#8211; esse caminho poder\u00e1 ser considerado o caminho do Buddha.  Por isso s\u00e3o chamados Os Quatro Selos do Dharma.<br \/>\nEsses Quatro Selos s\u00e3o: Tudo que \u00e9 composto \u00e9 impermanente.<br \/>\nTodas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o dolorosas.  Isso \u00e9 algo que s\u00f3 os buddhistas dizem.<\/p>\n<p>Muitas religi\u00f5es veneram sentimentos como o amor e o celebram em suas can\u00e7\u00f5es.  Os buddhistas pensam que &#8220;essas coisas s\u00e3o todas sofrimento&#8221;.<\/p>\n<p>Os fen\u00f4menos s\u00e3o desprovidos de uma natureza dotada de exist\u00eancia intr\u00ednseca.  Aqui temos a vis\u00e3o \u00faltima do buddhismo.  Os outros tr\u00eas selos, na realidade, se assentam neste terceiro.<\/p>\n<p>O quarto \u00e9 o nirvana, ele est\u00e1 al\u00e9m dos extremos.<br \/>\nSem esses quatro selos o caminho buddhista passa a ser te\u00edsta, um dogma religioso, e a pr\u00f3pria finalidade do buddhismo se perde.  Poderia ocorrer uma situa\u00e7\u00e3o em que uma pessoa louca estivesse dando ensinamentos sobre como ficar sentado numa praia assistindo ao p\u00f4r, do sol.  Se por acaso esses quatro selos tamb\u00e9m estivessem presentes, os ensinamentos seriam, necessariamente, buddhistas.  Talvez eles desagradem aos tibetanos, chineses ou japoneses, mas n\u00e3o precisam aparecer dentro de um formato tradicional para serem buddhistas.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"b\"><b>O Primeiro Selo<\/b><\/a><\/p>\n<p>Esses Quatro Selos est\u00e3o tamb\u00e9m muito interligados, como veremos.  O primeiro diz que todas as coisas compostas s\u00e3o impermanentes.  N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico fen\u00f4meno que possamos imaginar que n\u00e3o seja composto e, portanto, n\u00e3o esteja sujeito \u00e0 imperman\u00eancia.  Podemos aceitar facilmente certos aspectos da imperman\u00eancia, como a mudan\u00e7a do tempo; h\u00e1, por\u00e9m outros aspectos, igualmente \u00f3bvios, que n\u00e3o aceitamos.  Embora nosso corpo seja visivelmente impermanente, envelhe\u00e7a a cada dia, n\u00e3o queremos aceitar isso.  Certas revistas populares que vendem a juventude e a beleza exploram essa atitude.  Se pensarmos em termos de vis\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o de seus leitores poderia ser concebida em termos de n\u00e3o envelhecer, passar adiante do envelhecimento de algum <\/p>\n<p>Contemplando essa vis\u00e3o de perman\u00eancia, a a\u00e7\u00e3o desses leitores \u00e9 freq\u00fcentar academias de gin\u00e1stica, fazer cirurgia pl\u00e1stica e se meter em todo tipo de complica\u00e7\u00f5es.  Aos seres sublimes isso pareceria rid\u00edculo, baseado em uma vis\u00e3o equivocada.  Ao olhar para esses diferentes aspectos da imperman\u00eancia, como o envelhecimento, a morte, a mudan\u00e7a do tempo, etc., os buddhistas t\u00eam uma \u00fanica coisa a declarar &#8211; esse primeiro selo: fen\u00f4menos s\u00e3o impermanentes porque s\u00e3o compostos.  Tudo que \u00e9 feito de partes reunidas, cedo ou tarde, ir\u00e1 se dispersar.<br \/>\nQuando dizemos &#8220;composto&#8221;, isso inclui o tempo, o espa\u00e7o e as dimens\u00f5es.  O tempo \u00e9 composto e, por isso, impermanente.  Sem o passado e o futuro, o presente n\u00e3o existe.  Se o momento presente se tornasse permanente, n\u00e3o haveria futuro, pois o presente estaria sempre aqui.  Tudo que podemos fazer &#8211; por exemplo, plantar uma flor ou cantar uma can\u00e7\u00e3o &#8211; tem um come\u00e7o, meio e fim.  Se enquanto estiv\u00e9ssemos cantando uma can\u00e7\u00e3o faltasse o come\u00e7o, o meio ou o fim, n\u00e3o haveria como cantar a can\u00e7\u00e3o, o que faz desse ato algo composto.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos, ent\u00e3o, nos perguntar, &#8220;E da\u00ed?&#8221; &#8220;Por que se preocupar com esse tipo de coisa?&#8221; &#8220;O que h\u00e1 de t\u00e3o importante nisso?&#8221; &#8220;Tem um come\u00e7o, meio e fim &#8211; e da\u00ed?&#8221; N\u00e3o \u00e9 que os buddhistas estejam de fato preocupados com come\u00e7os, meios e fins.  Esse n\u00e3o \u00e9 o problema aqui.  O problema est\u00e1 no fato de que, quando a imperman\u00eancia est\u00e1 presente, a incerteza e o sofrimento tamb\u00e9m est\u00e3o presentes.<\/p>\n<p>Algumas pessoas acham que o buddhismo \u00e9 pessimista, sempre falando de morte, morrer, imperman\u00eancia, velhice &#8211; mas isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdade.  A imperman\u00eancia \u00e9 um al\u00edvio!  Eu n\u00e3o tenho uma BMW hoje e \u00e9 gra\u00e7as \u00e0 imperman\u00eancia desse fato que eu posso vir a ter uma amanh\u00e3.  Sem a imperman\u00eancia eu ficaria preso \u00e0 n\u00e3o-posse de uma BMW e nunca poderia vir a ter uma.  Eu posso estar me sentindo muito deprimido hoje e, gra\u00e7as \u00e0 imperman\u00eancia, amanh\u00e3 eu posso estar me sentindo \u00f3timo.  A imperman\u00eancia n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma m\u00e1 not\u00edcia; tudo depende de como a interpretamos e a compreendemos.  Mesmo que hoje nossa BMW seja riscada por um v\u00e2ndalo ou que nosso melhor amigo nos deixe na m\u00e3o, n\u00e3o vamos ficar t\u00e3o preocupados assim.<br \/>\nQuando n\u00e3o reconhecemos que toda coisa composta \u00e9 impermanente, isso \u00e9 um engano, uma ilus\u00e3o.  Quando compreendemos isso &#8211; e n\u00e3o s\u00f3 intelectualmente &#8211; ficamos livres desse engano.  \u00c9 a isso que chamamos de libera\u00e7\u00e3o: ficar livre da cren\u00e7a unidirecionada e bitolada de que as coisas s\u00e3o permanentes.  Mesmo o caminho, o precioso caminho buddhista, tamb\u00e9m pertence \u00e0 esfera do composto, quer gostemos disso ou n\u00e3o.  Ele tem um come\u00e7o, tem um fim, tem um meio.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea compreende que todas as coisas compostas s\u00e3o impermanentes e voc\u00ea vive alguma perda, voc\u00ea tem condi\u00e7\u00e3o de aceitar esse fato.  Visto que todas as coisas s\u00e3o impermanentes, esse fato \u00e9 de se esperar.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"c\"><b>O Segundo Selo<\/b><\/a><\/p>\n<p>Todas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o dor.  N\u00f3s aceitamos que certas emo\u00e7\u00f5es, como a raiva ou o ci\u00fame, s\u00e3o dor.  Mas o que dizer do amor e do carinho, da bondade e da devo\u00e7\u00e3o?  O que dizer dessas emo\u00e7\u00f5es que s\u00e3o agrad\u00e1veis, belas, ador\u00e1veis?  N\u00f3s n\u00e3o as encaramos como sendo dor.  No entanto, as emo\u00e7\u00f5es implicam em dualidade, o que, ao final, cria sofrimento.  Emo\u00e7\u00f5es como o choro, a dor, a raiva, s\u00e3o na verdade apenas o amadurecimento de emo\u00e7\u00f5es mais sutis; surgem no final de um processo.  Elas s\u00e3o as menos perigosas e logo se exaurem.  A causa \u00e9 a verdadeira emo\u00e7\u00e3o, a mente dualista, e isso inclui quase todos os pensamentos que temos.<\/p>\n<p>Por que isso \u00e9 dor?  Porque \u00e9 equivocado.  Toda mente dualista \u00e9 uma mente equivocada, uma mente que ignora a natureza das coisas.  O que \u00e9 que se entende por dualidade?  De um lado, estamos n\u00f3s; de outro, nossa experi\u00eancia.  Ela \u00e9 relativa, pois podemos ver que pessoas diferentes percebem o mesmo objeto de diferentes modos.  Um homem pode pensar que uma mulher seja bonita, e para ele isso \u00e9 verdade.  Mas se essa verdade fosse independente, ent\u00e3o uma outra pessoa tamb\u00e9m teria que ver essa mesma mulher como bonita.  Essa verdade n\u00e3o \u00e9 independente; depende da mente de cada um, da proje\u00e7\u00e3o de cada um.<\/p>\n<p>A mente dualista cria muitas expectativas, muito medo, muitas esperan\u00e7as.  Onde quer que a mente dualista exista, existe a esperan\u00e7a, existe o medo.  A esperan\u00e7a \u00e9 uma forma perfeita e sistematizada de sofrimento.  Com rela\u00e7\u00e3o ao medo nenhuma explica\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, mas nossa tend\u00eancia \u00e9 pensar que a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 sofrimento.  Na verdade, por\u00e9m, \u00e9 um grande sofrimento e definitivamente \u00e9 uma fonte de dor.<\/p>\n<p>O Buddha ensinou &#8220;conhe\u00e7a o sofrimento&#8221;. Essa \u00e9 a Primeira Nobre Verdade.  Muitos de n\u00f3s tomamos erroneamente o sofrimento pelo prazer.  O prazer que tenho hoje \u00e9, na verdade, a pr\u00f3pria causa da dor que vou estar experimento mais cedo ou mais tarde.  Uma outra forma que o buddhismo tem de colocar isso \u00e9 dizer que, quando uma grande dor fica menor, tomamos isso por prazer.  Esse \u00e9 o per\u00edodo que chamamos de felicidade.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a emo\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que n\u00e3o tem uma exist\u00eancia<\/p>\n<p> intr\u00ednseca.  Quando uma pessoa que est\u00e1 com sede v\u00ea \u00e1gua em uma miragem, tem um sentimento de al\u00edvio, &#8220;Ah, encontrei \u00e1gua!&#8221; Por\u00e9m, \u00e0 medida que se aproxima, a qualidade e a percep\u00e7\u00e3o desaparecem e, por fim, resta a decep\u00e7\u00e3o.  Esse \u00e9 um aspecto bastante importante da defini\u00e7\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o, segundo o buddhismo: &#8220;Algo que n\u00e3o tem nada em sua ess\u00eancia&#8221;. &#8220;Algo que n\u00e3o tem exist\u00eancia aut\u00f4noma&#8221; &#8211; isso mesmo, exist\u00eancia aut\u00f4noma.<br \/>\nOs buddhistas concluem que todas as emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o sofrimento porque s\u00e3o dualistas, o que quer dizer que est\u00e3o envoltas em incerteza e v\u00eam acompanhadas de esperan\u00e7a e medo, n\u00e3o tendo, em \u00faltima an\u00e1lise, qualquer natureza dotada de exist\u00eancia intr\u00ednseca.  Ent\u00e3o, podemos dizer elas n\u00e3o valem a pena tanto assim.  Tudo o que criamos por interm\u00e9dio das emo\u00e7\u00f5es, ao final, \u00e9 completamente f\u00fatil e doloroso.  Por essa raz\u00e3o os buddhistas fazem medita\u00e7\u00e3o shamatha e vipassana.  O benef\u00edcio que isso nos traz \u00e9 soltar o la\u00e7o com o qual as emo\u00e7\u00f5es nos prendem, soltar a fixa\u00e7\u00e3o que temos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"d\"><b>O Terceiro Selo<\/b><\/a><\/p>\n<p>Todos os fen\u00f4menos s\u00e3o desprovidos de exist\u00eancia intr\u00ednseca.  Aqui estamos falando de shunyata, vacuidade.  Quando dizemos todos os fen\u00f4menos, isso inclui todas as coisas, at\u00e9 mesmo o Buddha, a ilumina\u00e7\u00e3o ou o caminho.  Os buddhistas definem fen\u00f4meno como algo que possui caracter\u00edsticas e que seja um objeto percebido por um sujeito. \u00c9 a ignor\u00e2ncia que toma o objeto como algo externo e faz com que ignoremos a verdade daquele fen\u00f4meno.  A verdade do fen\u00f4meno \u00e9 o que denominamos shunyata, vacuidade, o que d\u00e1 a entender que ele n\u00e3o possui uma ess\u00eancia que exista verdadeiramente.<\/p>\n<p>Quando um sujeito enganado v\u00ea um objeto, este \u00e9 interpretado como algo que existe verdadeiramente.  No entanto, a exist\u00eancia que o sujeito imputa ao objeto \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o equivocada que aparece apoiada em diferentes condi\u00e7\u00f5es.  Como no caso de algu\u00e9m que v\u00ea uma miragem, a pessoa n\u00e3o tem diante dos olhos uma miragem dotada de exist\u00eancia verdadeira.  Ao falar em vacuidade, o Buddha queria dizer que as coisas de fato n\u00e3o existem como equivocadamente acreditamos que elas existam, e que as coisas s\u00e3o, em realidade, vazias dessa exist\u00eancia falsamente imputada.<\/p>\n<p>Por que acreditam no que \u00e9, na realidade, apenas proje\u00e7\u00f5es confusas, os seres sencientes sofrem, e para corrigir isso o Buddha ensinou o Dharma.<\/p>\n<p>De modo muito simples, podemos nos referir \u00e0 vacuidade dizendo &#8220;a maneira como as coisas aparecem n\u00e3o \u00e9 como elas realmente s\u00e3o&#8221;. Como expliquei ao falar sobre as emo\u00e7\u00f5es, quando voc\u00ea olha para um fen\u00f4meno como se estivesse olhando para uma miragem, ele desaparece \u00e0 medida que voc\u00ea se aproxima, ainda que no princ\u00edpio parecesse real.<\/p>\n<p>A vacuidade \u00e9, \u00e0s vezes, denominada dharmakaya e, em um contexto diferente, poder\u00edamos estar descrevendo como o dharmakaya \u00e9 permanente, imut\u00e1vel, permeia tudo &#8211; todas essas palavras po\u00e9ticas e belas.  Essas s\u00e3o palavras m\u00edsticas que dizem respeito ao caminho.  Agora, por\u00e9m, estamos tratando do terreno, da base, estamos nos esfor\u00e7ando para adquirir uma compreens\u00e3o intelectual.  No caminho \u00e9 poss\u00edvel retratar o Buddha Vajradhara como um s\u00edmbolo do dharmakaya ou da vacuidade, mas do ponto de vista acad\u00eamico at\u00e9 mesmo pensar em pintar o dharmakaya \u00e9 um erro.<\/p>\n<p>Pergunta:\tSe n\u00f3s pr\u00f3prios somos dualistas, podemos chegar a compreender a vacuidade, que \u00e9 algo que est\u00e1 al\u00e9m de qualquer descri\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Os buddhistas s\u00e3o muito escorregadios.  Voc\u00ea tem raz\u00e3o: n\u00e3o podemos nunca falar da vacuidade absoluta, mas podemos falar de uma &#8220;imagem&#8221; da vacuidade.  Ent\u00e3o, voc\u00ea pode avali\u00e1-la, contempl\u00e1-la e, por fim, chegar \u00e0 verdadeira vacuidade.  E se voc\u00ea dissesse, &#8220;Mas isso \u00e9 facilitar as coisas demais, isso \u00e9 uma embroma\u00e7\u00e3o&#8221;, os buddhistas diriam, &#8220;Mas \u00e9 assim que as coisas funcionam&#8221;. Se voc\u00ea precisa encontrar algu\u00e9m com quem nunca tenha estado antes, eu posso descrever essa pessoa para voc\u00ea, mostrar-lhe uma fotografia dela e, com a ajuda dessa imagem, voc\u00ea pode ir e achar a verdadeira pessoa.  O caminho, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 irracional mas, do ponto de vista relativo, \u00e9 muito racional, pois se casa com as conven\u00e7\u00f5es relativas do nosso mundo.  Quando estou falando da vacuidade, tudo que estou apresentando \u00e9 uma &#8220;imagem&#8221; da vacuidade.  N\u00e3o posso lhe mostrar a verdadeira vacuidade, mas posso lhe contar porque as coisas n\u00e3o s\u00e3o dotadas de exist\u00eancia intr\u00ednseca.<\/p>\n<p>O Buddha ensinou tr\u00eas caminhos diferentes em tr\u00eas momentos separados, conhecidos como Os Tr\u00eas Giros da Roda.  Por\u00e9m, ele resumiu esses tr\u00eas caminhos em uma \u00fanica frase: &#8220;Mente; n\u00e3o h\u00e1 mente; a mente \u00e9 luminosa&#8221;.<\/p>\n<p>Aqui &#8220;Mente&#8221; se refere ao &#8220;primeiro giro da roda&#8221;, o primeiro conjunto de ensinamentos.  Indica que o Buddha ensinou que h\u00e1 uma &#8220;mente&#8221;, e isso serve para afastar a vis\u00e3o niilista de nenhum c\u00e9u, nenhum inferno, nenhuma causa e efeito.  Quando ele disse, &#8220;N\u00e3o h\u00e1 mente, isso reflete o ponto de vista de que a mente \u00e9 apenas um conceito e que n\u00e3o existe algo como uma mente dotada de exist\u00eancia verdadeira. A terceira afirma\u00e7\u00e3o, &#8220;A mente \u00e9 luminosa,&#8221; aponta para a natureza b\u00faddhica, a sabedoria sem equ\u00edvocos nem ilus\u00f5es que existe deste o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Nagarjuna, um grande comentarista, disse que a finalidade do primeiro giro foi afastar tudo que \u00e9 n\u00e3o-virtuoso.  Quando a n\u00e3o, virtude aparece?  Quando voc\u00ea se torna eternalista ou niilista.  Portanto, para p\u00f4r fim aos atos e pensamentos n\u00e3o virtuosos, o Buddha fez o primeiro serm\u00e3o.  O segundo giro, no qual o Buddha ensinou sobre a vacuidade, foi apresentado para afastar o apego ao eu, bem como o apego aos fen\u00f4menos como verdadeiramente existentes.  O terceiro giro destinou-se a afastar todos os pontos de vista, todas as vis\u00f5es, at\u00e9 mesmo a vis\u00e3o da aus\u00eancia do eu.  Os tr\u00eas conjuntos de ensinamentos do Buddha n\u00e3o pretendem introduzir algo de novo; sua finalidade \u00e9 apenas eliminar a confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Como buddhistas, praticamos compaix\u00e3o, mas, se nos falta a compreens\u00e3o deste terceiro selo, a compaix\u00e3o pode ser um tiro que sai pela culatra.  Se voc\u00ea fica apegado \u00e0 meta da sua compaix\u00e3o, ao solucionar um problema \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea passe por cima do fato de que a sua id\u00e9ia de solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 inteiramente baseada na sua interpreta\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea pode acabar v\u00edtima da esperan\u00e7a e do medo, v\u00edtima da decep\u00e7\u00e3o.  Voc\u00ea pode se tornar um bom praticante do Mahayana e, uma vez, duas vezes, voc\u00ea tenta ajudar os seres sencientes.  Mas, porque lhe falta a compreens\u00e3o deste terceiro selo, pode ser que voc\u00ea fique cansado de ajudar os seres sencientes.<\/p>\n<p>Um outro tipo de problema que tamb\u00e9m vem da falta de compreens\u00e3o da vacuidade e que ocorre com buddhistas mais superficiais ou enfastiados, tem a ver com a quest\u00e3o de que, nos c\u00edrculos buddhistas, se voc\u00ea n\u00e3o aceita a vacuidade, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 por dentro.  Assim, fingimos que apreciamos a vacuidade e fingimos meditar sobre ela.  No entanto, quando n\u00e3o a compreendemos adequadamente, pode surgir um efeito colateral nocivo.<\/p>\n<p>Dizemos, &#8220;Ah, tudo \u00e9 vacuidade. Posso fazer tudo o que eu quiser&#8221;.<br \/>\nIgnoramos e violamos os detalhes do karma, a responsabilidade sobre nossos atos.  Voc\u00ea se torna deselegante e tamb\u00e9m uma fonte que leva os outros a perder inspira\u00e7\u00e3o.  Sua Santidade o Dalai Lama muitas vezes faz refer\u00eancia a essa falha que \u00e9 a n\u00e3o-compreens\u00e3o da vacuidade.  A compreens\u00e3o correta da vacuidade nos leva a ver como as coisas s\u00e3o inter-relacionadas e como temos responsabilidade por nosso mundo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode ler milh\u00f5es de p\u00e1ginas sobre esse assunto.  S\u00f3 de Nagarjuna voc\u00ea pode ler cinco coment\u00e1rios diferentes que tratam basicamente deste t\u00f3pico.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m coment\u00e1rios escritos pelos seguidores de Nagarjuna.  H\u00e1 incont\u00e1veis ensinamentos sobre o estabelecimento da vis\u00e3o da vacuidade.<\/p>\n<p>Nos templos ou monast\u00e9rios Mahayana canta-se o Sutra do Cora\u00e7\u00e3o da Prajnaparamita, que tamb\u00e9m \u00e9 um ensinamento sobre o terceiro selo.<\/p>\n<p>As filosofias ou religi\u00f5es podem dizer &#8220;as coisas s\u00e3o ilus\u00f3rias&#8221;, &#8220;o mundo \u00e9 maya, ilus\u00e3o&#8221;, mas h\u00e1 sempre uma ou duas coisas que ficam de fora por serem tidas como verdadeiramente existentes &#8211; como Deus, a energia c\u00f3smica, seja l\u00e1 o que for.  No buddhismo, n\u00e3o \u00e9 isso que acontece.  Tudo no samsara e no nirvana, da cabe\u00e7a do Buddha at\u00e9 um peda\u00e7o de p\u00e3o, tudo \u00e9 vacuidade.  N\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00e3o esteja inclu\u00eddo na verdade \u00faltima.<\/p>\n<p>Pergunta: \tNo buddhismo h\u00e1 tanta iconografia que parece ser objeto de medita\u00e7\u00e3o ou de adora\u00e7\u00e3o.  No entanto, seu ensinamento parece me conduzir para a compreens\u00e3o de que tudo isso \u00e9 inexistente?<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea vai a um templo, v\u00ea muitas belas est\u00e1tuas, cores e s\u00edmbolos.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o importantes no caminho.  Isso \u00e9 o que chamamos &#8220;imagem&#8221; da sabedoria, &#8220;imagem&#8221; da vacuidade.  Ainda assim, mesmo enquanto seguimos pelo caminho e aplicamos seus m\u00e9todos, precisamos saber que o caminho, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 uma ilus\u00e3o.  O caminho, de modo bastante h\u00e1bil, coaduna-se com a nossa mente habitual e, ainda assim, tem o potencial de, ao final, despert\u00e1-la.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"d\"><b>O Quarto Selo<\/b><\/a><\/p>\n<p>Com a explica\u00e7\u00e3o dada sobre a vacuidade acho que de algum modo j\u00e1 descobrimos que o nirvana est\u00e1 al\u00e9m dos extremos.  Esse \u00faltimo selo tamb\u00e9m \u00e9 um ponto de vista \u00fanico ao buddhismo.  Em muitas filosofias ou religi\u00f5es a meta final \u00e9 alguma coisa na qual podemos nos firmar, a qual podemos conservar: &#8220;a meta final \u00e9 a \u00fanica coisa verdadeira que existe&#8221;. No buddhismo, por\u00e9m, a meta n\u00e3o \u00e9 fabricada; por isso n\u00e3o pode ser guardada.  Por isso dizemos: ela est\u00e1 &#8220;al\u00e9m dos extremos&#8221;. Talvez imaginemos que, de algum modo, poder\u00edamos ir para um lugar onde houvesse um sof\u00e1 melhor, um chuveiro melhor, uma rede de esgotos melhor, algum tipo de nirvana onde voc\u00ea n\u00e3o precisa nem mesmo de controle remoto, onde todas as coisas aparecem no momento em que voc\u00ea pensa nelas.  No entanto, como disse antes, n\u00f3s n\u00e3o introduzimos alguma coisa que n\u00e3o estava presente antes.  A meta \u00e9 alcan\u00e7ada quando removemos o que havia de artificial e obscurecedor.  N\u00e3o ficamos apegados a uma verdade \u00faltima dotada de exist\u00eancia real, a um nirvana que realmente existe.<\/p>\n<p>Quer voc\u00ea seja um monge ou monja que tenha renunciado \u00e0 vida mundana, quer seja um yogi que pratique m\u00e9todos t\u00e2ntricos profundos, quando voc\u00ea busca abandonar ou transformar o apego \u00e0s suas pr\u00f3prias experi\u00eancias, se voc\u00ea n\u00e3o tem familiaridade com esses quatro selos voc\u00ea estar\u00e1 encarando suas experi\u00eancias como manifesta\u00e7\u00e3o de alguma coisa m\u00e1, sat\u00e2nica, ruim.  Isso quer dizer que voc\u00ea estar\u00e1 longe da verdade.  Todo o buddhismo tem por objetivo levar \u00e0 compreens\u00e3o da verdade.  Se houvesse alguma perman\u00eancia verdadeira nas coisas compostas, se houvesse prazer verdadeiro nas emo\u00e7\u00f5es, o Buddha teria sido o primeiro a recomend\u00e1-las, dizendo: &#8220;Por favor, guardem e prezem essas coisas&#8221;, porque o que ele queria, em sua grande compaix\u00e3o, era que tiv\u00e9ssemos o que \u00e9 verdadeiro, real.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea tiver uma clara compreens\u00e3o desses quatro selos como a base da sua pr\u00e1tica, voc\u00ea se sentir\u00e1 confort\u00e1vel, independentemente das experi\u00eancias que surgirem.  Desde que voc\u00ea mantenha esses quatro selos como a sua vis\u00e3o, nada pode sair errado.  A pessoa que mant\u00e9m esses quatro selos no cora\u00e7\u00e3o ou na mente, a pessoa que os contempla, \u00e9 buddhista.  Ainda que n\u00e3o ostente o r\u00f3tulo de buddhista, ela ser\u00e1 uma seguidora do Buddha.<\/p>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS QUATRO SELOS DO DHARMA Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche O que \u00e9 o buddhismo em poucas palavras? O primeiro selo O segundo selo O terceiro selo O quarto selo O que \u00e9 o buddhismo em poucas palavras? 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