{"id":2042,"date":"2018-05-17T17:57:06","date_gmt":"2018-05-17T19:57:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=2042"},"modified":"2018-05-17T18:06:35","modified_gmt":"2018-05-17T20:06:35","slug":"pratica-na-vida-cotidiana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/pratica-na-vida-cotidiana\/","title":{"rendered":"Pr\u00e1tica na vida Cotidiana"},"content":{"rendered":"<p><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/lama-padma-samten\/lama-padma-samten-2\/\" rel=\"attachment wp-att-2048\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2048\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten-768x768.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten-50x50.jpg 50w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Lama-Padma-Samten.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><a name=\"inicio\"><\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><font size=\"4\"><b>Pr\u00e1tica na vida Cotidiana<\/b><\/font><\/div>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/lama-padma-samten\/\"><i><font size=\"2\"><b>Lama Padma Samten<\/b><\/font><\/i><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align:justify\"><i>Este texto foi retirado da Home Page do Centro de Estudos Budistas &#8211; BODISATVA, grupo dedicado ao estudo e pr\u00e1tica budista do Rio Grande do Sul. Lama Padma Samten \u00e9 o coordenador do CEB.<\/i><\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas espirituais s\u00f3 adquirem seu sentido na vida cotidiana. A rela\u00e7\u00e3o com nossos pais,esposa, marido, filhos e colegas de trabalho, e tamb\u00e9m com os seres em todos os planos da exist\u00eancia, material e sutil, isto \u00e9 o term\u00f4metro da pr\u00e1tica. Um sinal grave \u00e9 o desinteresse e a falta de compaix\u00e3o. O isolamento e a pr\u00e1tica formal s\u00e3o artificialidades &#8211; s\u00f3 se justificam pela remo\u00e7\u00e3o de obst\u00e1culos que eventualmente proporcionem. Todas as constru\u00e7\u00f5es espirituais, ainda que merit\u00f3rias, s\u00e3o esponja, \u00e1gua e sab\u00e3o, ou seja, dispens\u00e1veis ao final.<\/p><\/div>\n<ul type=\"disc\">\n<li><a href=\"#a\"><font size=\"2\">Pr\u00e1tica na vida Cotidiana<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#b\"><font size=\"2\">1. Felicidade e motiva\u00e7\u00e3o no budismo<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#c\"><font size=\"2\">2. Buda no pa\u00eds do Kalamas<br \/>\n<\/font><\/a>\n\t<\/li>\n<li><a href=\"#d\"><font size=\"2\">3. Tr\u00eas n\u00edveis de motiva\u00e7\u00e3o<\/font><\/a>\n<\/li>\n<li><a href=\"#e\"><font size=\"2\">4. Examinando a forma de &#8220;ver&#8221;<br \/>\n<\/font><\/a>\n<\/li>\n<li><a href=\"#f\"><font size=\"2\">5. Iniciando transforma\u00e7\u00f5es<\/font><\/a>\n<\/li>\n<li><a href=\"#g\"><font size=\"2\">6. A\u00e7\u00e3o positiva<\/font><\/a>\n<\/li>\n<\/ul>\n<hr \/>\n<h5><a name=\"a\">Pr\u00e1tica na vida Cotidiana<\/a><\/h5>\n<div style=\"text-align:justify\">\nS.S.XIV Dalai Lama diz que todos os seres fazem pr\u00e1tica espiritual, mesmo que n\u00e3o saibam, uma vez que se movem buscando tanto a felicidade como a liberdade frente ao sofrimento, e lembra que as religi\u00f5es preenchem sua fun\u00e7\u00e3o justo por estarem voltadas a auxiliar os seres nisto.<br \/> <br \/>\nQuando desejamos ter uma casa na praia, estamos tamb\u00e9m buscando felicidade. Ainda que nos falte clareza quanto a isto, esta \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o verdadeira, o elemento mental que cria no nosso desejo quanto \u00e0 casa. Para buscar a felicidade, a casa de praia \u00e9 uma boa op\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Passar l\u00e1 o fim de semana \u00e9 \u00f3timo, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1cula nisso, mas quando chega o domingo, acaba. A casa da praia nos traz um tipo de felicidade que necessita um certo esfor\u00e7o e trabalho para acontecer, e o benef\u00edcio \u00e9 curto. No budismo, sentimos que trabalhos longos e felicidades curtas n\u00e3o s\u00e3o muito interessantes, buscamos produzir felicidade de longo alcance. Algu\u00e9m, por exemplo, que supere internamente o orgulho, imediatamente melhorar\u00e1 sua rela\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia e com os amigos, nessa vida e nas que se seguir\u00e3o e todos ao redor se beneficiam. <\/p>\n<p>H\u00e1 variados tipos de felicidade, por exemplo, a vaga em algum emprego. Neste caso nossa felicidade implica na frustra\u00e7\u00e3o dos outros (que n\u00e3o conseguir\u00e3o), al\u00e9m do mais, t\u00e3o logo comecemos a trabalhar, j\u00e1 surge a insatisfa\u00e7\u00e3o e come\u00e7amos a pensar nos feriados ou ent\u00e3o quanto tempo falta para nossa aposentadoria&#8230; Esse benef\u00edcio de conseguir um &#8220;bom emprego&#8221; \u00e9 muito diferente do de superar um dos cinco venenos &#8211; orgulho, inveja e avareza, desejo e apego, ignor\u00e2ncia, raiva. Veja bem, quando superamos a avareza, neste exato instante nos tornamos ricos. Descobrimos uma fonte de satisfa\u00e7\u00e3o permanente, e tudo que brota dessa fonte e que podemos oferecer aos outros \u00e9 motivo de alegria para n\u00f3s. Quem d\u00e1 alguma coisa nunca perde essa alegria, j\u00e1 quem recebe, pode at\u00e9 esquecer. <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"b\"><b>1. Felicidade e motiva\u00e7\u00e3o no budismo <\/b><\/a><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica budista foca cuidadosamente a motiva\u00e7\u00e3o. Recitar mantras ou entrar num templo sem a motiva\u00e7\u00e3o correta, envelhece a religi\u00e3o. A falha \u00e9 nossa. Por que n\u00e3o olhamos as pr\u00e1ticas com o olho correto, n\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcios, e nos tornamos surdos \u00e0s palavras de sabedoria. Por outro lado, a motiva\u00e7\u00e3o de trazer benef\u00edcios aos outros tem o poder de transformar qualquer a\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica espiritual. \u00c9 muito comum que as m\u00e3es n\u00e3o tenham tempo para praticar formalmente, mas com a motiva\u00e7\u00e3o de ajudar seus filhos e sustentar a casa, tudo que elas fazem se transforma em pr\u00e1tica espiritual.<br \/> <br \/>\nDependendo da motiva\u00e7\u00e3o, em meio a suas atividades, a pessoa pode se sentir aprisionada ou pode se sentir como um sol, irradiando benef\u00edcios. As situa\u00e7\u00f5es externas s\u00e3o um espelho do que temos internamente. Sempre podemos optar. Um dia vamos morrer, e isso n\u00e3o \u00e9 propriamente um momento feliz, mas mesmo nesse momento, n\u00f3s podemos irradiar amor, compaix\u00e3o, e equanimidade para todos os seres. <\/p>\n<p>Usualmente nosso carma nos conduz a ver tudo atrav\u00e9s dos cinco venenos, mas temos sempre ao alcance os olhos dos Bodisatvas que tudo v\u00eaem com compaix\u00e3o, amor, alegria e equanimidade &#8211; as quatro &#8220;qualidades incomensur\u00e1veis&#8221;. Utilizar esta capacidade de op\u00e7\u00e3o \u00e9 que define a pr\u00e1tica espiritual budista. <br \/>\nQuando um filho morre, \u00e9 um grande sofrimento, \u00e9 um momento muito dif\u00edcil, e s\u00f3 existe uma forma de produzir e receber benef\u00edcios: ter a percep\u00e7\u00e3o da natureza luminosa, divina, est\u00e1vel, que \u00e9 nossa identidade e que est\u00e1 al\u00e9m de qualquer transforma\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de nome e forma, de vida e morte, de esperan\u00e7a e medo, de espa\u00e7o e tempo. Desta experi\u00eancia interna brotam naturalmente as quatro qualidades incomensur\u00e1veis. <\/p>\n<p>Chagdud Rinpoche diz que meditar uma hora por dia e ter vinte e tr\u00eas horas de m\u00e1s a\u00e7\u00f5es, maus pensamentos, n\u00e3o adianta.<br \/>\n \u00c9 necess\u00e1rio praticar vinte e quatro horas por dia. A pr\u00e1tica do cotidiano \u00e9 a base, a pr\u00e1tica formal \u00e9 complementar ao intensificar nossa qualidade de aten\u00e7\u00e3o nas outras horas do dia. <br \/>\nAs motiva\u00e7\u00f5es podem ser classificadas como: mundanas, pr\u00e9-budistas e budistas. Em todos os tr\u00eas casos, os seres, sem exce\u00e7\u00e3o, buscam a felicidade e se afastar do sofrimento. Isso \u00e9 uma chave unificadora. Todos os seres, dos elefantes \u00e0s pulgas, se movem nessa dire\u00e7\u00e3o. Na nossa rela\u00e7\u00e3o com as pessoas \u00e9 assim, mesmo as pessoas que nos agridem, querem felicidade e n\u00e3o querem sofrimento. Se nos aproximamos com a inten\u00e7\u00e3o de prestar benef\u00edcio, todos nos acolhem; mas se nos aproximamos querendo sugar o que o outro tem, somos repelidos, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. A chave numa rela\u00e7\u00e3o afetiva, ou com amigos, \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o de dar, e n\u00e3o a de receber. Todos os mestres budistas falam isso. A origem do sofrimento \u00e9 colocar a experi\u00eancia de felicidade na depend\u00eancia de algo externo. N\u00e3o h\u00e1 como escapar, com a flutua\u00e7\u00e3o do objeto, nossa felicidade flutua junto. <\/p>\n<p>O budismo \u00e9 resumido pelas express\u00f5es &#8220;Buda, Darma e Sanga&#8221;, que s\u00e3o os &#8220;tr\u00eas ref\u00fagios&#8221;. Cada um de n\u00f3s \u00e9 um Buda, nossa natureza \u00e9 perfeita. Nossa mente \u00e9 um diamante, uma j\u00f3ia, mas por operarmos a partir de certos referenciais, n\u00e3o conseguimos manifest\u00e1-la de forma pura, \u00e9 como se o diamante estivesse coberto com barro. <br \/>\nO &#8220;Darma&#8221; s\u00e3o os ensinamentos do Buda, m\u00e9todos de limpar o barro que envolve esse diamante. Num sentido interno, Darma \u00e9 a compreens\u00e3o que brota da mente iluminada dentro de n\u00f3s. Quando repousamos sob a natureza do que \u00e9 liberto, al\u00e9m do espa\u00e7o e tempo, podemos olhar os jogos livremente, sem flutuar. <\/p>\n<p>&#8220;Sanga&#8221; \u00e9 a comunidade daqueles que praticam, \u00e9 onde n\u00f3s praticamos a moralidade, que \u00e9 se mover sem causar malef\u00edcios e para o benef\u00edcio dos outros. Com o tempo reconheceremos todos os seres como a Sanga. <br \/>\nMoralidade e medita\u00e7\u00e3o v\u00eam juntas. Se a pessoa pratica uma hora de medita\u00e7\u00e3o e vinte e tr\u00eas horas de iniq\u00fcidades, n\u00e3o adianta. A medita\u00e7\u00e3o \u00e9 insepar\u00e1vel do nosso pr\u00f3prio cotidiano, e da motiva\u00e7\u00e3o das nossas a\u00e7\u00f5es. Ela \u00e9 que vai permitir transformar qualquer a\u00e7\u00e3o em pr\u00e1tica espiritual.<br \/> <br \/>\nNos portamos como mendigos, colocamos a felicidade como algo externo. H\u00e1 nisso um carma instant\u00e2neo: no momento em que se olha para fora em busca de felicidade, esquecemos que a nossa natureza \u00e9 uma j\u00f3ia, e nos tornamos mendigos. \u00c9 como se fossemos muito ricos, mas n\u00e3o tom\u00e1ssemos consci\u00eancia. Quando temos uma atitude de mendigos, nos relacionamos com os outros buscando ganhar um p\u00e3o velho de vez em quando. <br \/>\nUma pessoa entra numa situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o sabe como sair, e assim esquece a sua natureza luminosa b\u00e1sica. Dizemos que o budismo inteiro \u00e9 revelar esta natureza b\u00e1sica; isso n\u00e3o \u00e9 uma teoria, \u00e9 uma coisa pr\u00e1tica. \u00c9 como um carro que est\u00e1 atolado, basta tir\u00e1-lo dali. E o ponto b\u00e1sico para fazer isso \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 ela que inclui o aspecto sutil da energia da a\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 vimos que a motiva\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de todos os seres \u00e9 buscar felicidade e se afastar do sofrimento. H\u00e1, ent\u00e3o uma harmonia, todos fazendo a mesma coisa. Ainda assim h\u00e1 diferen\u00e7as, h\u00e1 a felicidade permanente e as felicidades passageiras. A experi\u00eancia de felicidade de um casamento termina quando termina o casamento. <br \/>\nDentre as passageiras, podemos ter felicidades curtas e longos pagamentos por elas, ou ter felicidades de m\u00e9dia dura\u00e7\u00e3o e longo sofrimento. Podemos ter felicidades mais ou menos intensas; e podemos ter felicidades \u00e0 custa de outros seres, como no caso do churrasco. Mas h\u00e1 um tipo de felicidade que quando se obt\u00e9m traz felicidade para n\u00f3s e para todos os outros, instantaneamente, e n\u00e3o s\u00f3 isso, essa felicidade dura permanentemente. <\/p>\n<p>Por exemplo, a pessoa se libera do orgulho; isso \u00e9 bom para ela e para todos, permanentemente. Ou ent\u00e3o algu\u00e9m se libera da raiva, isso \u00e9 uma grande felicidade! Ela pode olhar com carinho para os outros. \u00c9 uma libera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o termina; ela pode olhar os outros como pais, irm\u00e3os. Liberar significa que as qualidades que brotam na libera\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de perda. Existe essa felicidade que \u00e9 liberar as seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras. Nesse momento o mundo muda, passa a ser uma fonte de felicidade radiante, que n\u00e3o est\u00e1 em depend\u00eancia de fatores externos, nem de objetos. \u00c9 a felicidade permanente. As outras felicidades existem, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. H\u00e1 as que se d\u00e3o em depend\u00eancia a objetos, as felicidades mundanas. H\u00e1 felicidades que podemos obter \u00e0 custa dos outros, que perdem ou s\u00e3o prejudicados. <\/p>\n<p>Existem tradi\u00e7\u00f5es religiosas que usam a palavra Deus para seres que produzem benef\u00edcios para uns e malef\u00edcios para outros. Temos que olhar com cuidado isso. Em primeiro lugar, n\u00e3o \u00e9 Deus. <br \/>\nA natureza do absoluto n\u00e3o pode ser descrita por conceitos relativos. Mas h\u00e1 um tipo de seres, em algumas religi\u00f5es, que fazem isso. S\u00e3o seres que pertencem aos reinos de exist\u00eancia condicionada, e t\u00eam o poder de produzir benef\u00edcios para alguns e malef\u00edcios para outros. Como n\u00f3s, eles t\u00eam uma natureza intr\u00ednseca perfeita, mas que est\u00e1 operando sob condi\u00e7\u00f5es. Assim, ainda que tenham poder, n\u00e3o t\u00eam sabedoria. <br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcio dual que seja permanente, mas nossos olhos est\u00e3o perturbados e, quando nos voltamos a esses seres poderosos, s\u00f3 pedimos coisas impermanentes. Isso aparentemente \u00e9 religi\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9, embora lide com coisas sutis. No passado havia religi\u00f5es de povos espec\u00edficos, onde se ensinava a destruir outros povos para benef\u00edcio pr\u00f3prio. Esse tipo de cren\u00e7a ainda hoje est\u00e1 por tr\u00e1s dos infind\u00e1veis conflitos e \u00f3dios entre na\u00e7\u00f5es e ra\u00e7as. <\/p>\n<p>Parece que nossa felicidade material se d\u00e1 dentro de um contexto onde \u00e9 necess\u00e1rio esfor\u00e7o, luta, mas essa vis\u00e3o \u00e9 equivocada. Tudo se resolve com generosidade. A generosidade cria os m\u00e9ritos que impedem a pessoa de viver uma situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria. Se a pessoa se acha t\u00e3o miser\u00e1vel que n\u00e3o tem nada para oferecer, assim \u00e9 que \u00e9. A situa\u00e7\u00e3o imediatamente melhora quando oferecer algo, nem que seja um sorriso, um olhar de carinho. No entanto, se a atitude mental \u00e9 a avidez, h\u00e1 um po\u00e7o sem fundo, a pessoa sempre vai se sentir miser\u00e1vel. Com esse sentimento de car\u00eancia, s\u00f3 v\u00ea o que falta. A avidez \u00e9 independente do quanto temos; \u00e9 uma atitude mental. Uma pessoa que vive em condi\u00e7\u00f5es pobres mas \u00e9 generosa, provavelmente n\u00e3o se sente pobre, tem sempre algo a oferecer. <\/p>\n<p>Um dos rem\u00e9dios do Buda para a transforma\u00e7\u00e3o social \u00e9 a tigela que segura na m\u00e3o esquerda. Ele e os monges ofereciam-na para ricos e pobres, dando a eles a oportunidade de gerarem m\u00e9ritos. M\u00e9rito traz resultados imediatos: alimentar um cachorro traz imediata satisfa\u00e7\u00e3o. Uma mente miser\u00e1vel n\u00e3o oferece, pensa que vai faltar mais adiante. Estamos em meio a seres que buscam a felicidade sugando os outros. A maneira de lidar com eles \u00e9 desejar que se liberem dessa condi\u00e7\u00e3o de miserabilidade; se usarmos apenas a no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a social, \u00e9 imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>Entre as felicidades mundanas, que s\u00e3o finitas, algumas tem curta, m\u00e9dia ou longa dura\u00e7\u00e3o, mas existe um aspecto que \u00e9 comum: a felicidade mundana traz junto uma infelicidade potencial. Por exemplo, a pessoa bebe, e depois se acidenta. Ter um filho \u00e9 uma maravilha, mas ele tamb\u00e9m \u00e9 impermanente, se ele morre \u00e9 um grande sofrimento. A gente se alegra porque comprou um carro, depois se preocupa que n\u00e3o seja arranhado, roubado, etc&#8230;. \u00c9 uma alegria em depend\u00eancia, portanto, sujeita \u00e0 imperman\u00eancia. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es onde a gente entra e depois, por pior que seja, n\u00e3o consegue mais sair. Primeiro reza para conseguir, depois para se livrar&#8230; <\/p>\n<p>Existe uma grande altera\u00e7\u00e3o de qualidade na nossa vida quando percebemos que, independentemente da situa\u00e7\u00e3o objetiva externa, podemos dirigir nossos estados mentais na dire\u00e7\u00e3o que desejarmos. Focando a mente num estado mental espec\u00edfico a infelicidade cessa, e a felicidade surge. Por exemplo, ouvir m\u00fasica, acender incenso. Ainda que haja a\u00ed uma certa liberdade, n\u00e3o \u00e9 completa, pois t\u00e3o logo a m\u00fasica e o incenso terminem, o estado de felicidade perde seu substrato. No entanto, enquanto viv\u00edamos aquele estado mental, est\u00e1vamos tranq\u00fcilos. <\/p>\n<p>Se temos um pouco mais de habilidade, podemos fazer relaxamento ou medita\u00e7\u00e3o de tranquiliza\u00e7\u00e3o. Mas mesmo essas experi\u00eancias t\u00eam in\u00edcio, meio e fim. N\u00e3o podemos ficar relaxando o tempo inteiro, e a\u00ed voltamos aos velhos conflitos de sempre. Vendo isso, queremos isolamento, desejamos morar num ashram em meio \u00e0 natureza, nos Himalaias. Olhamos ao redor e achamos tudo muito terr\u00edvel. Tamb\u00e9m a felicidade atrav\u00e9s de estados mentais particulares \u00e9 finita. <\/p>\n<p>Em geral, a nossa motiva\u00e7\u00e3o est\u00e1 oculta. Ela tem o poder de transformar qualquer atividade em atividade de m\u00e9rito, e tamb\u00e9m o poder de estragar tudo. Se fazemos pr\u00e1tica espiritual mas com a motiva\u00e7\u00e3o de ser melhor do que algu\u00e9m, ou porque estamos numa disputa, a nossa mente est\u00e1 imperfeita, mal colocada; mais adiante colheremos os frutos dessas a\u00e7\u00f5es, e diremos que esta pr\u00e1tica n\u00e3o funciona. Por outro lado, se a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 correta, podemos transformar toda nossa atividade cotidiana em pr\u00e1tica espiritual. A motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 que definir\u00e1 se a nossa vida funcionar\u00e1, se a nossa pr\u00e1tica frutificar\u00e1. <\/p>\n<p>J\u00e1 vimos que nossa motiva\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 buscar felicidade. Todos os seres se movem nessa mesma dire\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o podemos entend\u00ea-los. N\u00e3o h\u00e1 atividades erradas. Todos buscamos, de uma forma mais ou menos h\u00e1bil, aproximar o que consideramos bom. Todas as religi\u00f5es brotam disso. Como se d\u00e1 no budismo? <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"c\"><b>2. Buda no pa\u00eds do Kalamas<\/b><\/a><\/p>\n<p>Uma vez, o Buda Sakiamuni chegou ao pa\u00eds dos Kalamas. As pessoas logo se aproximaram e pediram a ele que desse ensinamentos. Nesse momento algu\u00e9m se levantou e disse &#8220;Senhor, muitos mestres t\u00eam passado por nosso pa\u00eds, oferecendo-nos seus s\u00e1bios ensinamentos. Por\u00e9m, eles sempre dizem &#8216;esque\u00e7am o que voc\u00eas j\u00e1 ouviram antes, agora vou ensinar a verdade definitiva&#8217;. Como, neste momento, devemos ouvir as suas palavras?&#8221; O Buda disse: &#8220;\u00c9 muito simples. Ou\u00e7am com cuidado, e testem. Experimentem em suas vidas; se esse ensinamento trouxer benef\u00edcio, sigam-no, diligentemente. Se n\u00e3o trouxer nenhum benef\u00edcio, abandonem-no.&#8221; <br \/>\nE continuou o Buda: &#8220;Todos os seres buscam felicidade e querem se afastar do sofrimento. Se usamos como m\u00e9todo de buscar felicidade, por exemplo, matar outros seres, isso \u00e9 interessante?&#8221; Todos disseram, &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o!&#8221; &#8220;E roubar, \u00e9 um m\u00e9todo para encontrar a felicidade?&#8221; Todos repetiram &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o!&#8221; E seguiu o Aben\u00e7oado enumerando: conduta sexual inadequada, mentir, criar disc\u00f3rdia, agredir com palavras, tomar o tempo dos outros com palavras in\u00fateis, ter m\u00e1 vontade com outros seres, dar conselhos que resultem em sofrimento aos outros, ser avarento. E todos repetiram &#8220;n\u00e3o, n\u00e3o!&#8221; Assim todos concordaram que estas dez a\u00e7\u00f5es s\u00e3o fontes de sofrimento e n\u00e3o de felicidade e entenderam porque s\u00e3o chamadas de &#8220;as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas&#8221;. <\/p>\n<p>Buda ent\u00e3o perguntou, &#8220;uma pessoa dominada pela ignor\u00e2ncia, pode ser levada a matar?&#8221; <br \/>\nTodos concordaram, &#8220;sim, sim, Aben\u00e7oado!&#8221; Seguindo, perguntou, &#8220;uma pessoa dominada pela ignor\u00e2ncia, pode ser levada a roubar?&#8221; Todos concordaram novamente, e responderam &#8220;sim, sim, Aben\u00e7oado!&#8221; E seguiu o Aben\u00e7oado enumerando as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas e todos sempre concordavam que a ignor\u00e2ncia poderia causar cada uma das a\u00e7\u00f5es. <br \/>\nDepois o Aben\u00e7oado tomou, a avareza e o \u00f3dio e perguntou se cada um poderia causar, uma \u00e0 uma, todas as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas. \u00c0 cada pergunta os Kalamas concordaram e responderam, &#8220;sim, sim, Aben\u00e7oado!&#8221; Ao final o Buda explicou: &#8220;esta \u00e9 a raz\u00e3o pela qual a ignor\u00e2ncia, a avareza e o \u00f3dio s\u00e3o chamados de &#8216;os tr\u00eas venenos&#8217;: s\u00e3o a raiz de todos os sofrimentos&#8221;. <\/p>\n<p>Causar mal aos outros talvez tenha um resultado de curta dura\u00e7\u00e3o, mas as conseq\u00fc\u00eancias danosas s\u00e3o imediatas, de curta, m\u00e9dia e longa dura\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que algum ser superior sinta-se afetado, n\u00f3s \u00e9 que nos sentimos imediatamente afetados. As dez a\u00e7\u00f5es quando praticadas produzem aparentes vantagens, mas acarretam infelicidades imediatas e de curta, m\u00e9dia e longa dura\u00e7\u00e3o, para quem a pratica e para as pessoas ao redor. Quando algu\u00e9m chega a pensar &#8220;seria bom que tal ser morresse&#8221; isso, em si mesmo, j\u00e1 \u00e9 sofrimento. Curiosamente, todos os seres que est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de sofrimento tem todos os argumentos para justificar suas a\u00e7\u00f5es equivocadas e n\u00e3o sair dali. <\/p>\n<p>Quando a pessoa faz uma a\u00e7\u00e3o equivocada, n\u00e3o se d\u00e1 conta, e pensa que \u00e9 bom, que vai trazer benef\u00edcio para ela. Isto \u00e9 o veneno da ignor\u00e2ncia atuando. N\u00e3o percebe que est\u00e1 construindo um longo carma de sofrimento para si mesma. A ignor\u00e2ncia \u00e9 a geradora de emo\u00e7\u00f5es perturbadoras subseq\u00fcentes: orgulho, inveja, apego, avareza e raiva. Essas seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras s\u00e3o assim chamadas porque cada uma nos leva a cometer as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas, construindo longas infelicidades. <br \/>\nO que define a nossa pr\u00e1tica espiritual \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o: superar as nossas pr\u00f3prias dificuldades e sermos capaz de beneficiar os outros seres. Uma etapa disso \u00e9 liberar as seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras. Se nos aproximamos com elas de qualquer pr\u00e1tica espiritual, contaminamos tudo. Mas se buscamos a melhor forma de trazer benef\u00edcios, relativos e absolutos, isso \u00e9 pr\u00e1tica espiritual verdadeira, ou seja, transforma a nossa vida. \u00c9 o que fazem os &#8220;bodisatvas&#8221;, seres que s\u00f3 se movem impulsionados pelo desejo de beneficiar os outros. Eles n\u00e3o est\u00e3o presos em jogos, t\u00eam sabedoria. N\u00f3s constru\u00edmos coisas duais e buscamos assim felicidade, mas eles sabem que tudo que \u00e9 constru\u00eddo, em uma semana, um m\u00eas, um ano, uma vida, se desmanchar\u00e1. <\/p>\n<p>Como vimos, existem as motiva\u00e7\u00f5es, que levam a experi\u00eancias de felicidade &#8211; ainda que impermanentes e dependentes de objetos &#8211; onde o grande segredo \u00e9 a generosidade. Existem as motiva\u00e7\u00f5es e que v\u00e3o trazer felicidades para uns e malef\u00edcios para outros, como as religi\u00f5es de povos. H\u00e1 tamb\u00e9m as felicidades sutis, associadas \u00e0 m\u00fasica, ao relaxamento, \u00e0 medita\u00e7\u00e3o de tranquiliza\u00e7\u00e3o. Todas estas motiva\u00e7\u00f5es s\u00e3o pr\u00e9-budistas, porque quando a imperman\u00eancia vem e a felicidade termina, o que o budismo tem a oferecer nesse contexto? <\/p>\n<p>Percebemos que estamos aprisionados pelas seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras, que produzem dentro de n\u00f3s impulsos que n\u00e3o conseguimos controlar, e assim, praticamos as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas, incessantemente construindo sofrimentos imediatos e futuros. Se conseguimos liberar o orgulho, todos os seres ao nosso redor se beneficiam, nossa rela\u00e7\u00e3o com eles melhora. O mesmo com a raiva, inveja, apego, ignor\u00e2ncia, ou aquisitividade. No exato momento em que liberamos as seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras, surge um tipo de felicidade que automaticamente beneficia a todos. N\u00e3o \u00e9 um tipo de benef\u00edcio que seja arrancado de algu\u00e9m, ou algo que logo em seguida temos que devolver; tampouco n\u00e3o \u00e9 impermanente como o que podemos comprar ou fazer com nosso trabalho. \u00c9 um benef\u00edcio que est\u00e1 al\u00e9m de vida e morte, de espa\u00e7o e tempo, de esperan\u00e7a e medo. Ao reconhecer isso com o cora\u00e7\u00e3o, surge a decis\u00e3o forte e est\u00e1vel de nos libertarmos, motiva\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para come\u00e7ar a receber os ensinamentos budistas. <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"d\"><b>3. Tr\u00eas n\u00edveis de motiva\u00e7\u00e3o<\/b><\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas n\u00edveis de motiva\u00e7\u00e3o budista: no primeiro, estamos voltados a gerar m\u00e9ritos e obter uma felicidade est\u00e1vel. Nesse n\u00edvel estamos voltados a eliminar as seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras e desenvolver as seis emo\u00e7\u00f5es positivas correspondentes. A contradi\u00e7\u00e3o que surge nessa etapa \u00e9 que a pessoa tem o foco de aten\u00e7\u00e3o sobre si mesma. Como conseq\u00fc\u00eancia, h\u00e1 um limite no que \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar. Praticando longamente nessa perspectiva, mais adiante ela se d\u00e1 conta que o Buda n\u00e3o falou apenas como se libertar do seu pr\u00f3prio sofrimento, mas, falou do universo e do sofrimento dos outros seres. Assim, a maturidade do primeiro n\u00edvel conduz ao reconhecimento dos ensinamentos que falam da inseparatividade de todos os seres e de todas as coisas. <\/p>\n<p>O segundo n\u00edvel da motiva\u00e7\u00e3o budista, que \u00e9 baseado na compaix\u00e3o come\u00e7a nesse ponto. Tirar o foco de si e colocar no outro. Atrav\u00e9s da compaix\u00e3o exercitamos a capacidade de onisci\u00eancia da mente iluminada. Mesmo na nossa atual condi\u00e7\u00e3o, operamos todo tempo a mente primordial, n\u00e3o h\u00e1 duas. A compaix\u00e3o \u00e9 a primeira das &#8220;quatro qualidades de valor incomensur\u00e1vel&#8221; descritas pelo Buda, \u00e9 o desejo que o outro se libere das suas dificuldades. Nesse n\u00edvel, a pr\u00e1tica de todas as &#8220;quatro qualidades incomensur\u00e1veis&#8221; \u00e9 fundamental. <\/p>\n<p>O terceiro n\u00edvel de motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o de que o pr\u00f3prio local onde estamos e tudo que nos rodeia \u00e9 perfeito. \u00c9 a pr\u00e1tica da vis\u00e3o pura, o reconhecimento da natureza verdadeira de todas as apar\u00eancias. <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"e\"><b>4. Examinando a forma de &#8220;ver&#8221;<\/b><\/a><\/p>\n<p>Nesse momento \u00e9 importante entender que o budismo visa trazer a supera\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes do sofrimento, e produzir as bases para a felicidade tempor\u00e1ria e definitiva. Quando n\u00e3o temos sabedoria, as coisas &#8220;ruins&#8221; tem nome e forma. O primeiro passo \u00e9 descaracterizar isso. Por exemplo, a raiva n\u00e3o \u00e9 apenas um fator &#8220;interno&#8221;, precisa de um panorama &#8220;externo&#8221; para surgir. N\u00e3o adianta criar internamente uma &#8220;tampa&#8221;, a raiva pode vir a explodir como uma panela de press\u00e3o. <\/p>\n<p>Na verdade, aquilo que focamos \u00e9 insepar\u00e1vel dos nossos olhos. Esse \u00e9 o ponto central no budismo. Quando estamos envolvidos nos nossos sofrimentos, complica\u00e7\u00f5es, temos todo um contexto que valida esse sofrimento. H\u00e1 um panorama aonde isso acontece. Assim tamb\u00e9m com a felicidade. <br \/>\nN\u00f3s constru\u00edmos a realidade, a paisagem que nos cerca, a partir do conte\u00fado do nosso cora\u00e7\u00e3o. No momento em que viajamos para &#8220;dentro&#8221; de n\u00f3s mesmos e transformamos o conte\u00fado c\u00e1rmico, todo o universo &#8220;externo&#8221; muda. Quando &#8220;somos&#8221; filhos, vemos nossos pais de um jeito, e quando &#8220;somos&#8221; pais, os vemos de maneira inteiramente nova. \u00c9 uma experi\u00eancia surpreendente olhar ao redor com olho livre. <\/p>\n<p>Os seres que est\u00e3o nos atacando s\u00e3o insepar\u00e1veis de n\u00f3s, ou seja, os nossos olhos e cora\u00e7\u00f5es os constroem daquela forma, e eles se tornam inimigos ou n\u00e3o. Pensamos &#8220;a realidade da vida \u00e9 uma coisa, e se eu n\u00e3o for trouxa, fa\u00e7o isso ou aquilo&#8221;. Atrav\u00e9s da pr\u00e1tica da medita\u00e7\u00e3o podemos desarticular essa pris\u00e3o autom\u00e1tica aos aspectos sutis que provocam impulsos sob os quais n\u00e3o temos controle e que nos conduzem a agir baseados nas seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras. Recuperando a estabilidade, como os mestres que se movem com sabedoria e liberdade em qualquer circunst\u00e2ncia, podemos prestar benef\u00edcios aos outros seres. <\/p>\n<p>O que vemos \u00e9 um espelho de n\u00f3s. Esse \u00e9 o primeiro ponto, \u00e9 toda m\u00e1gica do budismo. O que pensamos que \u00e9 a realidade externa, \u00e9 na verdade reflexo do nosso ser c\u00e1rmico interno. Quando mudamos o foco, o universo muda. Optamos por um aspecto interno e esse aspecto cria a realidade ao nosso redor. Esse ponto \u00e9 muito importante, principalmente nas nossas rela\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea olha um quadro, onde tem um lindo p\u00f4r-do-sol, um barquinho, o lindo c\u00e9u do fim de tarde, cheio de tons suaves&#8230; Brota uma emo\u00e7\u00e3o na mente, apreciamos a paisagem do quadro. Mas onde, realmente, est\u00e3o o barco e o p\u00f4r-do-sol t\u00e3o lindo que nos comove? <\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 aspectos que parecem bons, e amanh\u00e3 n\u00e3o s\u00e3o mais. \u00c9 a imperman\u00eancia. Surpreendentemente ela atua com rela\u00e7\u00e3o ao passado, tamb\u00e9m. No passado t\u00ednhamos um futuro, hoje temos outro e no futuro ser\u00e1 outro ainda. A imperman\u00eancia toca passado, presente e futuro e nem mesmo os cientistas escapam disso. Eles olham para o universo com suas teorias, e quando elas mudam, o universo inteiro muda &#8211; mesmo seus universos s\u00e3o dependentes de cren\u00e7as e suposi\u00e7\u00f5es.<br \/> <br \/>\nMas com que olhos n\u00f3s mesmos vemos as coisas? Tem dias que parece que est\u00e1 tudo torto. Quando voc\u00eas tiverem essa experi\u00eancia, experimentem sentar um pouco e respirar profundamente uma vez, uma \u00fanica vez. Tudo muda. \u00c9 poss\u00edvel controlar, criar uma maneira positiva e agrad\u00e1vel de nos manifestar? Sim. O Buda um dia sentou debaixo de uma \u00e1rvore, e invocou Mara (o senhor das ilus\u00f5es), que o atacou de v\u00e1rias maneiras. No entanto, as flechas de Mara, ao aproximarem-se do Buda, se transformavam em flores e perfume. O Buda desenvolveu esta habilidade de olhar com liberdade as coisas, al\u00e9m das marcas mentais. O que n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo, \u00e9 chamado &#8220;natureza de buda&#8221;; o que surge produzindo impulsos e nos faz ver as coisas de um jeito ou de outro, \u00e9 chamado &#8220;carma&#8221;. E o carma nos leva a agir. Ou n\u00e3o agir. \u00c9 como, por exemplo, decidir fazer gin\u00e1stica \u00e0s 6h da manh\u00e3 e n\u00e3o conseguir levantar da cama&#8230; A gente decide uma coisa, mas o  impulso surge por si mesmo de um lugar oculto que nem suspeitamos qual seja. E surge de novo e de novo, \u00e9 rebelde&#8230; No budismo isso \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio carma. N\u00f3s n\u00e3o temos liberdade frente ao carma, decidimos uma coisa, e, no entanto, a decis\u00e3o em si n\u00e3o tem for\u00e7a. <\/p>\n<p>Quando Sidarta Gautama se libertou de Mara, disse: &#8220;me libertei daqueles que foram meus senhores por incont\u00e1veis vidas &#8211; as disposi\u00e7\u00f5es mentais e os agregados&#8221;. Ele, por incont\u00e1veis vidas, at\u00e9 atingir a ilumina\u00e7\u00e3o, fez como n\u00f3s fazemos hoje, olhou para suas disposi\u00e7\u00f5es mentais e agregados e pensou &#8220;isto sou eu. Ao final tornou-se o &#8220;Buda&#8221;, que significa liberto. Quando repousamos sob o qu\u00ea \u00e9 est\u00e1vel, podemos at\u00e9 dan\u00e7ar em meio \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 que a vida mude propriamente, mas a maneira como olhamos \u00e9 que determinar\u00e1 as coisas. Assim mudamos a &#8220;sorte&#8221;. Isso \u00e9 o ref\u00fagio no Buda. H\u00e1 liberdade em meio \u00e0s coisas do mundo, em meio \u00e0s confus\u00f5es. \u00c9 seguro como colo de m\u00e3e, ou de pai. Mas quando somos n\u00f3s os pais e m\u00e3es, vamos para o colo de quem? Olhamos ao redor em busca desse colo. Essa natureza \u00e9 est\u00e1vel, existe a natureza do absoluto. O nome n\u00e3o importa, importa \u00e9 que ela existe. Quando a nossa compreens\u00e3o brota disso, isso \u00e9 o Darma. A nossa compreens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 est\u00e1vel porque n\u00f3s trocamos de referenciais. Mas o Darma \u00e9 essa sabedoria de estabilidade que brota dentro de n\u00f3s a partir da percep\u00e7\u00e3o de que a &#8220;realidade externa ao nosso redor&#8221; \u00e9, na verdade, um espelho que reflete nossa mente c\u00e1rmica. <\/p>\n<p>Quando enfrentamos diretamente os impulsos que nos conduzem para a\u00e7\u00f5es equivocadas, dizemos &#8220;quero venc\u00ea-los e me livrar disso&#8221;, mas o impulso \u00e9 mais forte que a nossa decis\u00e3o e nos desgastamos. Existe uma hist\u00f3ria da mitologia grega que ilustra bem isso. Havia na antig\u00fcidade um gigante sanguin\u00e1rio, Anteu, que queria construir, com ossos humanos, um grande templo em homenagem \u00e0 sua m\u00e3e, Gea, a Terra.<br \/> <br \/>\nUm dos trabalhos de H\u00e9rcules, o her\u00f3i em luta pela transcend\u00eancia, era justamente derrotar Anteu. Quando se enfrentaram, as for\u00e7as eram equivalentes, mas ap\u00f3s um tempo, H\u00e9rcules come\u00e7ou a cansar, enquanto Anteu continuava em pleno vigor. Nesse momento Palas Athena, protetora do H\u00e9rcules, sussurrou-lhe que suspendesse Anteu do solo. A for\u00e7a de Anteu vinha da Terra, sua m\u00e3e, a materialidade; no momento em que ele perdeu o contato com sua fonte de for\u00e7a, o H\u00e9rcules dominou-o facilmente. Analogamente, Anteu personifica as seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras; elas tem boas raz\u00f5es de ser no nosso contexto, surgem naturalmente e s\u00e3o bem aceitas. Por exemplo, fazemos um esfor\u00e7o eg\u00f3ico para obter uma certa coisa, quando obtemos, ficamos orgulhosos, \u00e9 natural. Quando disputamos uma vaga com algu\u00e9m, pensamos em pular na frente. N\u00f3s sempre desejamos algo, isso \u00e9 \u00f3timo. Se algu\u00e9m tenta invadir nosso territ\u00f3rio, nada mais normal que uma boa raiva. Esse aspecto &#8220;terra&#8221; \u00e9 o que n\u00f3s faz sentir &#8220;vivos&#8221;, estamos completamente inseridos nele. Ir diretamente contra n\u00e3o adianta, vamos cansar como H\u00e9rcules cansou. Num certo momento vamos ter que suspender Anteu, ouvir Palas Athena. <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"f\"><b>5. Iniciando transforma\u00e7\u00f5es<\/b><\/a><\/p>\n<p>Como suspender Anteu? Como produzir o enfraquecimento das seis emo\u00e7\u00f5es perturbadoras?<br \/>\nOs ensinamentos do Buda s\u00e3o como rem\u00e9dios, ap\u00f3s a cura n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios. S\u00e3o um dedo que aponta a lua: o dedo \u00e9 para ser esquecido, basta a lua. \u00c9 como pegar um \u00f4nibus at\u00e9 Porto Alegre; quando chega l\u00e1 voc\u00ea deixa o \u00f4nibus, n\u00e3o vai levar para casa. Esse ensinamento \u00e9 como um hospital, t\u00e3o pronto voc\u00ea fica bom, sai de l\u00e1. \u00c9 como esponja, \u00e1gua e sab\u00e3o &#8211; quando terminamos de lavar um prato, n\u00e3o deixamos res\u00edduo deles.<br \/>\nH\u00e1 um conjunto de ensinamentos tradicionais budistas que se chama &#8220;Os Pensamentos que Transformam a Mente&#8221; cujo objetivo \u00e9 justamente este: quebrar a magia poderosa que sustenta a paisagem onde as pris\u00f5es, o carma, os venenos da mente s\u00e3o desej\u00e1veis, justific\u00e1veis, intensos e naturalmente surgidos &#8211; \u00e9 suspender Anteu. Quebra-se o encanto revelando nossa verdadeira situa\u00e7\u00e3o neste cosmos. <\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a motiva\u00e7\u00e3o; fixamos concentradamente o objetivo de superar as nossas pr\u00f3prias dificuldades e ser capaz de trazer benef\u00edcios n\u00e3o perec\u00edveis aos outros seres. Depois o primeiro pensamento, que \u00e9 sobre o Lama. A cada gera\u00e7\u00e3o seres estudam, ouvem, realizam e transmitem esses ensinamentos que tem uma b\u00ean\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria porque s\u00e3o capazes de revelar a nossa natureza luminosa e maravilhosa. Lembramos dessa ininterrupta linhagem de seres, que por compaix\u00e3o, dedicam suas vidas &#8211; uma ap\u00f3s a outra &#8211; a transmitir esses ensinamentos que permitem liberar o sofrimento. Ent\u00e3o prestamos homenagem ao Lama. <\/p>\n<p>A seguir h\u00e1 o pensamento sobre a preciosidade da vida humana. Existem seis reinos aonde n\u00f3s podemos ter renascimento, um deles \u00e9 o reino humano. Cada reino tem um \u00e2mbito de experi\u00eancia espec\u00edfico, ainda assim podemos vivenciar em corpo humano &#8211; embora com muito menos intensidade &#8211; as experi\u00eancias dos seis reinos. Por exemplo, o reino dos infernos \u00e9 vivido por n\u00f3s atrav\u00e9s da experi\u00eancia de que todas as pessoas que nos cercam s\u00e3o ruins, o filho, o marido, o chefe&#8230; Para todo lado que olhamos as coisas s\u00e3o dif\u00edceis e s\u00f3 h\u00e1 sofrimento. Atrav\u00e9s da raiva e da avers\u00e3o nos conectamos com esse reino. No reino dos seres famintos h\u00e1 uma experi\u00eancia de car\u00eancia incessante, eles t\u00eam sempre muito pouco diante do que sentem que necessitam. Nos conectamos a essa experi\u00eancia atrav\u00e9s da avareza e aquisitividade. Assim como nos infernos, esses seres tamb\u00e9m n\u00e3o praticam. Os seres nos infernos dizem: &#8220;estou sofrendo, tudo \u00e9 horr\u00edvel, como eu vou praticar?&#8221; Os seres famintos dizem &#8220;eu preciso disso e disso, como posso praticar?&#8221;. Depois h\u00e1 o reino dos animais, eles n\u00e3o praticam porque t\u00e3o logo eles estejam com suas necessidades satisfeitas, de barriga cheia, dormem. Assim, tamb\u00e9m n\u00e3o ouvem o Darma. <\/p>\n<p>Entre os reinos superiores, h\u00e1 os deuses. N\u00e3o \u00e9 o reino de Deus, mas dos deuses. No reino humano isso corresponde \u00e0queles que andam de carro importado, jatinho, n\u00e3o tem problemas de dinheiro, desfrutam de todas felicidades do mundo material. Os deuses t\u00eam corpos espec\u00edficos sutis, se deslocam no espa\u00e7o, e produzem benef\u00edcios para os seres humanos em dificuldades. O problema \u00e9 que s\u00e3o benef\u00edcios condicionados, e n\u00e3o do tipo que produz libera\u00e7\u00e3o. Esse reino \u00e9 o que os seres humanos buscam em seus sonhos, \u00e9 a sua perdi\u00e7\u00e3o&#8230; Vivemos almejando chegar l\u00e1, trabalhando para isso, ou sonhando com isso. Nos conectamos com esse reino atrav\u00e9s do orgulho. <\/p>\n<p>J\u00e1 os semideuses tem poder, mas s\u00e3o competitivos e invejosos; passam o tempo todo combatendo. <br \/>\nA conex\u00e3o se d\u00e1 atrav\u00e9s da inveja. Os deuses n\u00e3o praticam porque est\u00e3o imersos em facilidades e felicidades, ent\u00e3o, por qu\u00ea praticar? Os semideuses, como est\u00e3o sempre guerreando, tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam tempo para praticar. <\/p>\n<p>Os humanos t\u00eam maior vantagem. As nossas felicidades e sofrimentos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o duradouras. E quando cruzamos de uma felicidade para uma infelicidade, buscamos os ensinamentos. Isso \u00e9 a vida humana comum. Ainda assim ela \u00e9 muito rara. Se comparamos a nossa vida com outros seres, eles s\u00e3o muito mais numerosos. O corpo humano \u00e9 raro e improv\u00e1vel. Como n\u00f3s somos geridos pelo carma, o nosso renascimento \u00e9 constru\u00eddo pela nossa condi\u00e7\u00e3o c\u00e1rmica. N\u00f3s n\u00e3o conseguimos dirigir esse processo. \u00c9 como a tartaruga cega, que a cada cem anos v\u00eam \u00e0 superf\u00edcie do oceano, de \u00e1guas revoltas, onde h\u00e1 um aro boiando. O renascimento humano \u00e9 t\u00e3o improv\u00e1vel quanto esta tartaruga, justamente no momento em que sobe \u00e0 superf\u00edcie, conseguir colocar sua cabe\u00e7a dentro do aro que estava boiando. <\/p>\n<p>A nossa condi\u00e7\u00e3o humana hoje \u00e9 favor\u00e1vel. Os seres humanos t\u00eam a possibilidade de praticar. Temos a liberdade de olhar nossos impulsos e perceber aspectos mais sutis. Temos tempo livre. Isso significa m\u00e9ritos. J\u00e1 a &#8220;vida humana preciosa&#8221; tem caracter\u00edsticas peculiares que transcendem em muito a vida humana t\u00edpica. <\/p>\n<p>Quando vivemos em \u00e9pocas em que os seres de luz n\u00e3o se manifestam, nos sentimos perdidos e a vida parece sem sentido. Na \u00e9poca atual os seres de sabedoria vieram; vieram e deram ensinamentos que foram guardados e transmitidos. Esses ensinamentos chegaram at\u00e9 n\u00f3s e estamos numa regi\u00e3o aonde esses ensinamentos existem. Al\u00e9m disso, temos sensibilidade para ouvi-los. Dizem que h\u00e1 uma vida humana preciosa quando, al\u00e9m desses fatores, estamos engajados em transformar a nossa vida a partir dos ensinamentos dos seres de sabedoria. Se estiv\u00e9ssemos sob dom\u00ednio de seres negativos, ou se tiv\u00e9ssemos um modo de a\u00e7\u00e3o incorreta, n\u00e3o conseguir\u00edamos ouvir os ensinamentos. Se n\u00e3o estamos sob essas condi\u00e7\u00f5es, isso completa as caracter\u00edsticas da vida humana preciosa. Se a vida humana \u00e9 numerosa como as estrelas no c\u00e9u noturno, a vida humana preciosa \u00e9 t\u00e3o rara quanto estrelas que s\u00e3o vistas no c\u00e9u diurno. A pessoa est\u00e1 engajada em produzir benef\u00edcios para todos os seres. <\/p>\n<p>O segundo pensamento \u00e9 sobre a imperman\u00eancia. Todas as coisas s\u00e3o impermanentes. N\u00f3s estamos sempre buscando o que \u00e9 est\u00e1vel, mas nos enganamos. Onde est\u00e3o os meus amigos &#8211; insepar\u00e1veis &#8211; da escola? A gente nem sabe onde eles est\u00e3o hoje. Onde est\u00e1 a casa da nossa inf\u00e2ncia? A nossa m\u00e3e, pai, irm\u00e3os? O primeiro namorado, que foi maravilhoso, mas sumiu. A nossa experi\u00eancia \u00e9 de instabilidade e transforma\u00e7\u00e3o constantes. Diz-se no budismo que o planeta terra vai desaparecer. O que dizer ent\u00e3o das nossas pequenezas? Estamos aqui por um curto espa\u00e7o. Esse ensinamento vem para aprendermos a olhar com o olho correto \u00e0 cada momento. O olho incorreto \u00e9 pensar que tudo \u00e9 est\u00e1vel. Quando entendemos a preciosidade da nossa vida, e a usamos para produzir benef\u00edcios aos outros seres, este \u00e9 o sinal de que os ensinamentos produziram as transforma\u00e7\u00f5es que busc\u00e1vamos. <\/p>\n<p>A seguir, o carma. Estamos sujeitos a impulsos internos com os quais n\u00e3o podemos lidar. Esses impulsos produzem as dez a\u00e7\u00f5es n\u00e3o-virtuosas ou as correspondentes dez a\u00e7\u00f5es virtuosas. As a\u00e7\u00f5es virtuosas v\u00e3o produzir experi\u00eancias favor\u00e1veis &#8211; isso tamb\u00e9m \u00e9 carma, carma favor\u00e1vel ou positivo, m\u00e9rito. S\u00e3o experi\u00eancias de felicidade condicionada. <\/p>\n<p>O carma se manifesta em quatro n\u00edveis: imediato, a curto, m\u00e9dio e longo prazo. Por exemplo, se desejamos que algu\u00e9m morra, naquele exato instante estamos esquecidos da nossa condi\u00e7\u00e3o b\u00fadica, luminosa, perfeita, e isso j\u00e1 \u00e9 sofrimento. O de curto alcance, \u00e9 que de novo e de novo vemos a morte de algu\u00e9m como solu\u00e7\u00e3o para nossos problemas. O de m\u00e9dio alcance vai se prolongar por essa vida e por outras: a pessoa n\u00e3o se sente digna, sente-se impura por dentro, inferior, e tem uma marca de avers\u00e3o pelos outros. <\/p>\n<p>Pior que pensar \u00e9 planejar como fazer. A\u00ed a perturba\u00e7\u00e3o se intensifica. A pessoa vai ter sentimentos mais perturbadores, pode come\u00e7ar a ter pesadelos. Se fez isso e executou, a experi\u00eancia que \u00e9 muito intensa, vai haver uma intranq\u00fcilidade muito grande. E se o ser morreu, \u00e9 pior ainda. Ela vai se sentir perseguida. Por um longo tempo vai sofrer. Ent\u00e3o temos essas quatro etapas c\u00e1rmicas que acompanham cada a\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>N\u00f3s temos uma multiplicidade de possibilidades tanto positivas quanto negativas. Tanto uma quanto outra s\u00e3o condicionadas, podem flutuar, estamos sempre pulando de um ponto para outro. Estamos presos nisso, \u00e9 autom\u00e1tico. Esses impulsos est\u00e3o a nosso servi\u00e7o, mas quando eles come\u00e7am a andar por si, s\u00e3o carma. <br \/>\nTemos v\u00e1rios mecanismos condicionados, o nosso cabelo cresce, as unhas crescem, sem que a gente fa\u00e7a alguma coisa. E por causa do carma surge a etapa seguinte, o quarto pensamento, que \u00e9 o sofrimento. <br \/>\nSempre que operamos com referenciais duais, o sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel. A\u00ed surge o pensamento final que \u00e9: eu gostaria de me liberar disso, revelar minha natureza luminosa, usar de forma positiva as rela\u00e7\u00f5es que estou vivendo, beneficiar os seres. <\/p>\n<p>Em meio \u00e0s confus\u00f5es do mundo e tend\u00eancias c\u00e1rmicas, toda vit\u00f3ria que podemos ter \u00e9 como vit\u00f3ria no campo de futebol, fr\u00e1gil, impermanente. Agora mudamos, queremos descobrir a nossa natureza completa. Quando olhamos na vida, a nossa vontade de mudar \u00e9 testada v\u00e1rias vezes, isso \u00e9 pr\u00e1tica espiritual. A\u00ed nossa paisagem ao redor se transforma de &#8220;samsara&#8221;, lugar de sofrimento e enganos, em &#8220;terra pura&#8221;, que \u00e9 onde praticamos, recebemos ensinamentos e nos sentimos protegidos pelos seres de sabedoria. <br \/>\nOs budas olham o que chamamos de samsara e v\u00eaem a perfei\u00e7\u00e3o que ali existe. Somos como formigas num pal\u00e1cio, n\u00e3o conseguimos reconhec\u00ea-lo com nossos olhos de formiga. H\u00e1, ent\u00e3o, uma longa etapa de transforma\u00e7\u00e3o dos nossos olhos, at\u00e9 que possamos reconhec\u00ea-lo. Em geral, n\u00e3o conseguimos perceber o valor do benef\u00edcio real que estamos recebendo. <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"g\"><b>6. A\u00e7\u00e3o positiva<\/b><\/a><\/p>\n<p>Paralelamente ao processo de transforma\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias c\u00e1rmicas, o Buda ensinou a pr\u00e1tica ininterrupta das &#8220;quatro qualidades incomensur\u00e1veis&#8221;, que s\u00e3o o m\u00e9todo positivo de manifesta\u00e7\u00e3o no cotidiano solucionando as confus\u00f5es e conflitos. <\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a compaix\u00e3o, o desejo que os seres realizem sua natureza interna e se livrem de suas complica\u00e7\u00f5es. Essencialmente \u00e9 o desejo que o outro supere suas dificuldades e possa melhorar. Aten\u00e7\u00e3o: compaix\u00e3o \u00e9 diferente de &#8220;pena&#8221;. Quando temos pena, estamos validando a imagem que a pessoa faz de si mesmo, e justamente por isso ela est\u00e1 mal. Compaix\u00e3o \u00e9 reconhecer no outro a sua natureza est\u00e1vel, perfeita, de luz, sua condi\u00e7\u00e3o verdadeira, quebrando o encanto dos jogos que est\u00e3o produzindo as complica\u00e7\u00f5es. A segunda \u00e9 o amor, o desejo que o outro seja feliz, completamente. N\u00e3o exclui ex-maridos, ex-esposas, ex-s\u00f3cios&#8230; Depois a alegria, a capacidade de se alegrar com as alegrias e vit\u00f3rias dos outros, pequenas ou grandes. \u00c9 um poderoso ant\u00eddoto contra a inveja. Finalmente a equanimidade: perceber as flutua\u00e7\u00f5es das alegrias e tristezas da vida; num momento se tem uma grande alegria, em outro aquilo mesmo vira uma grande tristeza. Surge uma serenidade est\u00e1vel frente a essas flutua\u00e7\u00f5es e uma f\u00e9 permanente, inabal\u00e1vel na natureza de todos os Budas, que \u00e9 a sua pr\u00f3pria natureza. <\/p>\n<p>O Buda ensinou tamb\u00e9m os meios de produzir felicidade nas rela\u00e7\u00f5es humanas: casamento, namoro, filhos, trabalho, estudo. Em primeiro lugar, ao inv\u00e9s de pensar &#8220;o qu\u00ea vou obter do outro&#8221;, pensar &#8220;o que posso oferecer&#8221;. Alegrar-se em oferecer! Se estamos na depend\u00eancia do comportamento do outro para obter felicidade, eventualmente pode at\u00e9 funcionar, mas quando surgir a imperman\u00eancia e o outro flutuar entramos em crise. S.S. XIV Dalai Lama, pr\u00eamio Nobel da Paz, sempre brinca &#8220;que tipo de amor \u00e9 o de voc\u00eas, aquele que s\u00f3 existe se o outro sorrir?&#8221; Esse tipo de amor est\u00e1 baseado em quanto estamos recebendo e, por isso, \u00e9 fr\u00e1gil. <\/p>\n<p>Praticando assim, podemos usar a vida cotidiana como caminho espiritual, superando os conflitos internos e trazendo benef\u00edcios a todos os seres. <\/p>\n<div style=\"text-align:center\">Alegria!<\/div>\n<\/div>\n<p><\/a><\/font><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e1tica na vida Cotidiana Lama Padma Samten Este texto foi retirado da Home Page do Centro de Estudos Budistas &#8211; BODISATVA, grupo dedicado ao estudo e pr\u00e1tica budista do Rio Grande do Sul. 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