{"id":2059,"date":"2018-05-17T20:05:15","date_gmt":"2018-05-17T22:05:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=2059"},"modified":"2018-07-23T14:41:14","modified_gmt":"2018-07-23T16:41:14","slug":"o-vajrayana-e-o-tratamento-das-emocoes-reconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-vajrayana-e-o-tratamento-das-emocoes-reconhecimento\/","title":{"rendered":"O Vajrayana e o tratamento das emo\u00e7\u00f5es &#8211; Simples reconhecimento"},"content":{"rendered":"<p><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-mahayana-e-o-tratamento-das-emocoes\/kalu-rinpoche\/\" rel=\"attachment wp-att-2056\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche-208x300.jpg\" alt=\"\" width=\"208\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2056\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche-208x300.jpg 208w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Kalu-Rinpoche.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 208px) 100vw, 208px\" \/><\/a><a name=\"inicio\"><\/p>\n<div style=\"text-align:center\"><font size=\"4\"><b>O VAJRAYANA E O TRATAMENTO DAS EMO\u00c7\u00d5ES: <br \/>O SIMPLES RECONHECIMENTO<\/b><\/font><\/div>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Kalu Rinpoche<\/b><\/i><\/div>\n<p><\/p>\n<ul type=\"disc\">\n<li><a href=\"#a\"><font size=\"2\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/font>\n<li><a href=\"#b\"><font size=\"2\">felicidade e infelicidade no ocidente<\/font>\n<li><a href=\"#c\"><font size=\"2\">origem das emo\u00e7\u00f5es<\/font>\n<li><a href=\"#d\"><font size=\"2\">medita\u00e7\u00e3o sobre a mente <\/font>\n<li><a href=\"#e\"><font size=\"2\">a mente espa\u00e7osa<\/font>\n<li><a href=\"#f\"><font size=\"2\">a mente em pleno v\u00f4o<\/font>\n<li><a href=\"#g\"><font size=\"2\">reconhecer a ess\u00eancia<\/font>\n<li><a href=\"#h\"><font size=\"2\">tra\u00e7os sobre a \u00e1gua<\/font><br \/>\n<\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<p><\/a><\/li>\n<\/ul>\n<hr \/>\n<p><\/a><a name=\"a\"><\/p>\n<h5>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h5>\n<p><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\">\nAo longo deste ensinamento, iremos considerar, na perspectiva do vajrayana, como se opera, pela medita\u00e7\u00e3o, a libera\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es conflituosas em seu simples reconhecimento.<\/p>\n<p>O vajrayana, de um modo geral, oferece instru\u00e7\u00f5es que tratam de maneira espec\u00edfica os pensamentos e as emo\u00e7\u00f5es, de modo a permitir um progresso muito r\u00e1pido no caminho do Despertar. Considerando-se que os humanos pertencem a um dom\u00ednio de manifesta\u00e7\u00e3o chamado a &#8220;esfera do desejo&#8221;, uma aten\u00e7\u00e3o especial \u00e9 dada ao desejo-apego. Estabelece-se particularmente uma correspond\u00eancia entre as quatro classes de tantras e os quatro graus de complexidade crescente de satisfa\u00e7\u00e3o do desejo sexual que eles permitem tratar.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"b\"><\/p>\n<h5>FELICIDADE E INFELICIDADE NO OCIDENTE<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nOs americanos e os canadenses67 s\u00e3o certamente pessoas que possuem um grande m\u00e9rito proveniente de suas vidas passadas. Deduzimos isso pelo fato de, por um lado, suas condi\u00e7\u00f5es de vida exteriores serem extraordin\u00e1rias e, de outro lado, por terem podido receber ensinamentos, inicia\u00e7\u00f5es e instru\u00e7\u00f5es da pr\u00e1tica de personalidades eminentes como o DalaiLama, o Karmapa, Dilgo Khyentse Rinpocbe, Situ Rinpoche, Shamar Rinpoche, ou Jamg\u00f6n Kongtrul Rinpoche. T\u00eam tamb\u00e9m a sorte de terem se estabelecido em seu territ\u00f3rio lamas t\u00e3o not\u00e1veis como Trungpa Rinpoche e outros. A Am\u00e9rica do Norte disp\u00f5e, ent\u00e3o, de um grande potencial positivo.<\/p>\n<p>O pa\u00eds \u00e9 belo, as casas muito confort\u00e1veis, a prosperidade evidente em todos os setores, a come\u00e7ar pela alimenta\u00e7\u00e3o e roupas. A abund\u00e2ncia e a qualidade dos bens materiais s\u00e3o tais, que acreditamos estar no mundo dos deuses. Primeiramente, somos levados a pensar que as pessoas que vivem num tal contexto s\u00f3 podem ser felizes. Entretanto, a mente dos norte-americanos68  n\u00e3o parece sempre de acordo com seu ambiente: ao inv\u00e9s de encontrar ali felicidade, percebem-se muitas dificuldades, insatisfa\u00e7\u00f5es e sofrimentos. De onde v\u00eam esses problemas? Das emo\u00e7\u00f5es conflituosas, mais particularmente do desejo-apego, que os ocidentais n\u00e3o sabem transformar nem afastar. Parece-me que se as emo\u00e7\u00f5es perdessem seu poder, o pa\u00eds se tornaria um lugar extraordin\u00e1rio, onde a alegria e a paz se casariam com a prosperidade.<\/p>\n<p>Um prov\u00e9rbio tibetano diz:<br \/>\n<br \/>\nBarriga vazia s\u00f3 pensa em roubo.<br \/>\nBarriga cheia s\u00f3 pensa no desejo.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"c\"><\/p>\n<h5>ORIGEM DAS EMO\u00c7\u00d5ES<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nVimos, com rela\u00e7\u00e3o ao mahayana, m\u00e9todos que permitem transformar as emo\u00e7\u00f5es. H\u00e1 no vajrayana m\u00e9todos que visam purificar as emo\u00e7\u00f5es para que elas se tornem as cinco sabedorias ou os cinco Buddhas Patriarcas. Esses m\u00e9todos implicam visualiza\u00e7\u00f5es complexas que n\u00e3o podem ser ensinadas em p\u00fablico e n\u00e3o podemos, portanto, abord\u00e1-las aqui. Entretanto, existe no vajrayana uma outra abordagem das emo\u00e7\u00f5es, f\u00e1cil de expor e de praticar, muito ben\u00e9fica, que consiste no &#8220;simples reconhecimento&#8221;.<\/p>\n<p>Para abordar este m\u00e9todo, \u00e9 preciso, inicialmente, compreender de onde v\u00eam as emo\u00e7\u00f5es. \u00c9 evidente, em primeiro lugar, que as emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o produzidas nem pelo corpo, nem pela palavra. Tomemos um cad\u00e1ver: ele permanece um envelope f\u00edsico, mas desprovido de mente. Ningu\u00e9m nunca ouviu falar de um cad\u00e1ver experimentando o desejo, a c\u00f3lera, o ci\u00fame ou o orgulho. Portanto, n\u00e3o podemos atribuir de modo algum as emo\u00e7\u00f5es ao corpo. Ele n\u00e3o possui nenhuma faculdade para experiment\u00e1-las. A palavra tamb\u00e9m n\u00e3o possui essa faculdade: \u00e9 apenas um ac\u00famulo de sons, compar\u00e1vel a um eco, logo, desprovida ela pr\u00f3pria da capacidade de experimentar o quer que seja.<\/p>\n<p>As emo\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem vir da pr\u00f3pria mente. Isto n\u00e3o significa que o corpo e a palavra n\u00e3o estejam implicados no processo emocional; mas eles o est\u00e3o a t\u00edtulo de executantes ou de servidores. Eles n\u00e3o s\u00e3o os mestres da situa\u00e7\u00e3o. Se a mente, por exemplo, pensa que \u00e9 preciso abrir a janela, \u00e9 o corpo que vai abri-la; se a mente pensa que \u00e9 preciso acender a luz ou ir embora, \u00e9 o corpo que vai acionar o interruptor ou se deslocar. O corpo s\u00f3 pode intervir a servi\u00e7o da mente, mas ele mesmo n\u00e3o toma nenhuma iniciativa. Do mesmo modo, o corpo n\u00e3o dirige as emo\u00e7\u00f5es conflituosas, mas se coloca a servi\u00e7o da mente que as produz.<\/p>\n<p>Os tibetanos utilizam muito a palavra em suas pr\u00e1ticas espirituais, recitando um grande n\u00famero de mantras ou de ora\u00e7\u00f5es, pois est\u00e3o convencidos de que, por meio disso, opera-se uma profunda purifica\u00e7\u00e3o, assim como uma vasta acumula\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito. Dessa forma, eles podem passar horas recitando. Os ocidentais, ao contr\u00e1rio, parecem pensar que apenas a mente importa e nutrem d\u00favidas sobre a efic\u00e1cia de uma pr\u00e1tica da palavra. Por isso, a recita\u00e7\u00e3o de mantras ou da ora\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio \u00e9 para eles dif\u00edcil e n\u00e3o conseguem faz\u00ea-la bem por um tempo longo. Eles esquecem simplesmente que, quando a palavra atua, est\u00e1 a servi\u00e7o da mente que a dirige; portanto, \u00e9 sempre a mente que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"d\"><\/p>\n<h5>MEDITA\u00c7\u00c3O SOBRE A MENTE<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nEssa mente que penetra todas as coisas, essa mente comum a todos, precisamos compreender o que ela \u00e9.<\/p>\n<p>A mente, em primeiro lugar, \u00e9 vazia, no sentido de que n\u00e3o existe enquanto objeto: n\u00e3o tem cor, nem forma, nem peso etc. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem lado, nem fronteira, nem centro, nem circunfer\u00eancia. Nada sendo materialmente, \u00e9 semelhante ao espa\u00e7o. E necess\u00e1rio saber isto, pois a vacuidade \u00e9 muito diferente da experi\u00eancia que temos agora de nossa mente: algo de muito pequeno, que chamamos &#8220;eu&#8221;, algo limitado ao nosso corpo, algo estreito e conseq\u00fcentemente fonte de numerosos problemas.<\/p>\n<p>Deixando nossas costas bem retas, meditamos nessa vacuidade vasta como o espa\u00e7o, a mente aberta.<br \/>\n<br \/>\n<i>(medita\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>&#8220;Tenho uma mente; ela se encontra em meu corpo; quero ter as coisas que me agradam, evitar o que me desagrada&#8221;: este modo de funcionamento constitui um fardo pesado que nos causa muitos aborrecimentos. Se, ao contr\u00e1rio, colocamo-nos em um estado de abertura e de tranq\u00fcilidade onde reconhecemos a mente tal como ela \u00e9 verdadeiramente, penetrando todas as coisas, desprovida de qualquer limita\u00e7\u00e3o material, experimentamos, ent\u00e3o, naturalmente, uma sensa\u00e7\u00e3o de calma e leveza, sem nenhuma complexidade.<br \/>\n<br \/>\n<i>(medita\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>A vacuidade da mente na qual n\u00f3s nos colocamos \u00e9 semelhante ao espa\u00e7o, n\u00e3o um espa\u00e7o obscuro onde n\u00e3o brilham nem o sol, nem a lua, nem mesmo as estrelas, mas um espa\u00e7o iluminado pelo sol, l\u00edmpido e vasto. Quando nos colocamos na natureza da mente, em sua vacuidade, devemos faz\u00ea-lo com essa qualidade de abertura e limpidez. Em segundo lugar, meditamos, ent\u00e3o, sobre a &#8220;claridade&#8221; da mente. Vacuidade e claridade n\u00e3o s\u00e3o dois aspectos que poderiam ser isolados, ficando cada qual de um lado diferente. Da mesma maneira que num dia ensolarado o c\u00e9u e a luz s\u00e3o apenas um, a claridade e a vacuidade da mente est\u00e3o indissoluvelmente misturadas.<br \/>\n<br \/>\n<i>(medita\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>Vacuidade e claridade s\u00e3o, em si mesmas, inertes: elas n\u00e3o podem gerar nenhum ato ben\u00e9fico ou negativo, n\u00e3o podem engendrar nem pensamentos nem emo\u00e7\u00f5es conflituosas. Quando permanecemos no estado de claridade-vacuidade, semelhante ao espa\u00e7o vazio, h\u00e1 ao mesmo tempo uma qualidade conhecedora, uma intelig\u00eancia (sct. vidja, tib. rikpa) que est\u00e1 consciente da claridade e da vacuidade. A vacuidade-claridade \u00e9 como a palma da m\u00e3o e essa intelig\u00eancia, como a percep\u00e7\u00e3o evidente que temos dela. Todavia, na natureza da mente nada divide esses tr\u00eas aspectos. Meditemos, agora, tomando particularmente consci\u00eancia dessa intelig\u00eancia.<br \/>\n<br \/>\n<i>(medita\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"e\"><\/p>\n<h5>A MENTE ESPA\u00c7OSA<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nAssim, a mente \u00e9 descrita sob esses tr\u00eas aspectos: vacuidade, claridade, intelig\u00eancia. Caso se medite apoiado nesses tr\u00eas aspectos, de modo muito vasto, muito amplo &#8211; praticando-se a pacifica\u00e7\u00e3o mental, a vis\u00e3o superior ou as fases de cria\u00e7\u00e3o e de conclus\u00e3o das divindades do vajayana &#8211; isto produzir\u00e1 um grande conforto, uma grande facilidade e aumentar\u00e1 a efic\u00e1cia. Se, ao contr\u00e1rio, permanecermos na nossa percep\u00e7\u00e3o comum: &#8220;Este sou eu, eu estou nesse corpo&#8221;, as mesmas pr\u00e1ticas ser\u00e3o realizadas com dificuldade, de maneira estreita como se estiv\u00e9ssemos presos num desfiladeiro estreito do qual n\u00e3o saber\u00edamos como sair. Portanto, \u00e9 muito importante saber meditar da maneira que acabamos de mostrar.<\/p>\n<p>Mesmo quando o lama que d\u00e1 as instru\u00e7\u00f5es sobre a pacifica\u00e7\u00e3o mental, a vis\u00e3o superior ou as medita\u00e7\u00f5es das divindades seja perfeito, se o disc\u00edpulo abordar essas t\u00e9cnicas com a mente fechada em si mesma, nunca ver\u00e1 o desenvolvimento das qualidades que delas decorrem. Ao contr\u00e1rio, corre um grande risco de se irritar por causa do lama e de ficar ressentido com ele!<\/p>\n<p>Essa mente, uni\u00e3o da vacuidade, da claridade e da intelig\u00eancia, vai em dire\u00e7\u00e3o ao estado de Buddha; mas \u00e9 ela tamb\u00e9m que erra no samsara. Quando meditamos, \u00e9 a mente que medita; quando se elevam emo\u00e7\u00f5es conflituosas ou pensamentos, \u00e9 ela que os experimenta. Nada \u00e9 experimentado fora da mente.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"f\"><\/p>\n<h5>A MENTE EM PLENO V\u00d4O<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nCaso se medite tendo compreendido bem essa tr\u00edplice natureza &#8211; vacuidade, claridade e intelig\u00eancia &#8211; da mente, medita-se com a liberdade de um p\u00e1ssaro que voa no c\u00e9u. Nada obstrui a sua rota; pode ir aonde quiser. Nossa medita\u00e7\u00e3o ser\u00e1, ent\u00e3o, eficaz. Caso contr\u00e1rio, seremos como uma criatura com muitas patas presa num espa\u00e7o muito pequeno.<\/p>\n<p>Durante a medita\u00e7\u00e3o, algumas pessoas sentem dor de cabe\u00e7a, outras dores nos olhos, nos ombros, ou ainda sentem inc\u00f4modos em outras partes do corpo. Todas essas dores v\u00eam de uma mente em uma atitude fechada.<\/p>\n<p>Podemos comparar nossa mente dotada desses tr\u00eas aspectos com o mar. As emo\u00e7\u00f5es conflituosas e os pensamentos que nela se produzem s\u00e3o como as ondas. As ondas do mar s\u00e3o muito numerosas; mas elas s\u00e3o apenas \u00e1gua, a mesma \u00e1gua do mar. Do mesmo modo, todos os pensamentos e todas as emo\u00e7\u00f5es procedem da mente e se reabsorvem na mente. Pode ser \u00fatil meditar na beira do mar: pode-se ver, vindo de longe, pequenas ondas que se formam, que depois crescem at\u00e9 ficarem enormes e parecerem capazes de destruir tudo em sua passagem. As ondas voltam em seguida para o mar e n\u00e3o sobra nada delas. As emo\u00e7\u00f5es e os pensamentos, do mesmo modo, elevam-se em nossa mente, ganham um enorme poder e acabam por voltar para a vacuidade n\u00e3o sobrando nada deles. Depois surgem outros, que por sua vez se dissipam, para dar lugar a outros.<\/p>\n<p>Sejam, ent\u00e3o, h\u00e1beis ao meditar. Quando, por exemplo, um desejo poderoso, quase irresist\u00edvel, eleva-se na mente, tomem a postura de medita\u00e7\u00e3o e permane\u00e7am em um estado de grande abertura. Quando o desejo se elevar, olhem simplesmente a mente neste desejo que se eleva, sem se deixarem distrair por outra coisa; o desejo se liberar\u00e1 ent\u00e3o por si mesmo na vacuidade. Cada vez que ele voltar, olhem-no da mesma maneira e cada vez ele se desfar\u00e1. Ao meditar assim, o desejo se libera na consci\u00eancia primordial. A partir de ent\u00e3o as  pr\u00f3prias manifesta\u00e7\u00f5es das emo\u00e7\u00f5es ser\u00e3o ben\u00e9ficas e n\u00e3o poder\u00e3o mais incomod\u00e1-los.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"g\"><\/p>\n<h5>RECONHECER A ESS\u00caNCIA<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nTentemos, agora, fazer a experi\u00eancia da qual falamos. Tomando a postura de medita\u00e7\u00e3o correta, deixemos que nossa mente repouse na vacuidade, na claridade e na intelig\u00eancia. Sem d\u00favida, ir\u00e3o surgir pensamentos de desejo, de c\u00f3lera ou de ci\u00fame. Quando se manifestarem, permane\u00e7amos com rela\u00e7\u00e3o a eles em um estado de simples reconhecimento. N\u00e3o devemos pensar que devem desaparecer ou que \u00e9 preciso par\u00e1-los, mas simplesmente reconhecer sua ess\u00eancia. Desse modo eles se liberam por si mesmos.<br \/>\n<br \/>\n<i>(medita\u00e7\u00e3o)<\/i><\/p>\n<p>Nesse tipo de medita\u00e7\u00e3o, todas as emo\u00e7\u00f5es conflituosas s\u00e3o tratadas do mesmo modo. Mesmo quando se elevam em grande n\u00famero, \u00e9 uma boa coisa. N\u00e3o se deve rejeit\u00e1-las. Basta reconhecer sua ess\u00eancia; isto n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. E por essa raz\u00e3o que dizemos que elas se liberam por si mesmas.<\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o principal que voc\u00eas encontram \u00e9, sem d\u00favida, o desejo-apego. Se puderem aprender a trat\u00e1-la mediante esse tipo de medita\u00e7\u00e3o, poder\u00e3o em seguida estender essa abordagem \u00e0s outras emo\u00e7\u00f5es. Gampopa comparava a medita\u00e7\u00e3o a um fogo; quanto mais se alimenta o fogo com madeira, mais potente e vivo ele se torna. Para o praticante, da mesma maneira, quanto mais a medita\u00e7\u00e3o encontra emo\u00e7\u00f5es conflituosas, mais forte brilha a consci\u00eancia primordial.<\/p>\n<p>Quando, ap\u00f3s o trabalho, voc\u00eas se sentem cansados, mental e fisicamente, se estabelecerem a mente nesse estado aberto e espa\u00e7oso do qual falamos, o cansa\u00e7o logo desaparecera; voc\u00eas se sentir\u00e3o relaxados e tranq\u00fcilos. Quando, por outro lado, uma forte emo\u00e7\u00e3o conflituosa se eleva, se, do mesmo modo, voc\u00eas colocarem a mente em um estado semelhante ao espa\u00e7o, a emo\u00e7\u00e3o se liberar\u00e1 por si mesma. Isso ser\u00e1 extremamente proveitoso.<br \/>\nEm primeiro lugar, \u00e9 preciso compreender bem no que consiste esse tipo de medita\u00e7\u00e3o, depois aplic\u00e1-la. Antes de mais nada, talvez n\u00e3o seja t\u00e3o f\u00e1cil compreend\u00ea-la como falar dela; depois, tendo compreendido-a, se n\u00e3o se pratic\u00e1-la, n\u00e3o se poder\u00e1 extrair nenhum benef\u00edcio dela. Logo ap\u00f3s ter alcan\u00e7ado o Despertar, o Buddha disse:<\/p>\n<p>Encontrei um dharma semelhante\u00e0 ambrosia,<br \/>\nProfundo, pacifico, simples, indiviso, radiante.<br \/>\nComo ningu\u00e9m compreenderia o que eu poderia mostrar,<br \/>\nPermanecerei mudo no meio da floresta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ele permaneceu absorvido em sua medita\u00e7\u00e3o. Algumas semanas mais tarde, os grandes deuses da \u00cdndia v\u00e9dica, Brahma e Indra, vieram lhe implorar para que ensinasse aos homens que, sem ningu\u00e9m para gui\u00e1-los, eram como cegos no samsara.<br \/> Atendendo a esse pedido, aceitou ensin\u00e1-los.<\/p>\n<p><i><b>Quest\u00e3o<\/b> &#8211; Essa pr\u00e1tica, na qual as emo\u00e7\u00f5es se liberam por si mesmas, \u00e9 suficiente para chegar ao Despertar?<\/i><\/p>\n<p><b>Kalu Rinpoche<\/b> &#8211; Sim, \u00e9 poss\u00edvel, pois ela permite que as emo\u00e7\u00f5es se transformem em sabedorias, mais precisamente naquilo que, no n\u00edvel do Despertar, \u00e9 chamado as &#8220;cinco sabedorias&#8221; e que, no n\u00edvel dos meios, \u00e9 representado pelos cinco &#8220;Buddhas Patriarcas&#8221;.<\/p>\n<p><i><b>Quest\u00e3o<\/b>&#8211; Rinpoche explicou-nos que as emo\u00e7\u00f5es se elevavam da mente e voltavam para ela. Mas, quando penso em minha pr\u00f3pria experi\u00eancia, n\u00e3o vejo muito bem, nesse caso o que se chama mente. \u00c9 apenas uma palavra, mas que n\u00e3o designa nada em particular. Acredito ter uma mente, mas n\u00e3o posso encontr\u00e1-la.<\/i><\/p>\n<p><b>Kalu Rinpoche<\/b> &#8211; Para responder a essa quest\u00e3o, podemos tomar uma cita\u00e7\u00e3o do Terceiro Karmapa, Rangjung Dorje:<br \/>\n<b><\/b><br \/>\nA mente: n\u00e3o h\u00e1 mente, ela \u00e9 vazia de ess\u00eancia mental;<br \/>\nVazia, ela \u00e9 ao mesmo tempo livre e se manifesta em todas as coisas.<br \/>\nPossa um perfeito exame eliminar toda indecis\u00e3o.<br \/>\n\tE ainda: <br \/>\nA mente n\u00e3o \u00e9 existente- os pr\u00f3prios Vencedores n\u00e3o a v\u00eaem;<br \/>\nEla n\u00e3o \u00e9 inexistente- \u00e9  o fundamento universal do samsara e do nirvana;<br \/>\nEla n\u00e3o \u00e9 o am\u00e1lgama de contr\u00e1rios, mas a uni\u00e3o, o caminho do meio;<br \/>\nPossa eu realizar o aquilo-mesmo da mente desprovida de extremos.<\/p>\n<p>Forneci-lhes os m\u00e9todos que, acredito, permitem que toda vez que se produzam emo\u00e7\u00f5es conflituosas, pensamentos ou sofrimentos, eles se liberem por si mesmos. Agora, depende de voc\u00eas coloc\u00e1-los em pr\u00e1tica ou n\u00e3o. Voc\u00eas podem escolher permanecer enredados nas emo\u00e7\u00f5es conflituosas ou ent\u00e3o livrar-se delas. A escolha \u00e9 sua: podem continuar prisioneiros ou colocar-se em uma situa\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel, deixando que as emo\u00e7\u00f5es liberem-se por si mesmas.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><a name=\"h\"><\/p>\n<h5>TRA\u00c7OS SOBRE A \u00c1GUA<\/h5>\n<p><\/a><br \/>\nNo vajrayana, encontramos as tr\u00eas maneiras de tratar as emo\u00e7\u00f5es conflituosas em rela\u00e7\u00e3o aos tantras ditos exteriores, interiores e secretos. Os tantras exteriores utilizam a rejei\u00e7\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es, os tantras interiores sua transforma\u00e7\u00e3o e os tantras secreto, o simples reconhecimento de sua ess\u00eancia. O vajayana representa, de fato, o caminho mais direto para escapar do imp\u00e9rio das emo\u00e7\u00f5es. At\u00e9 Marpa, o tradutor, a maioria dos praticantes n\u00e3o se colocavam em uma situa\u00e7\u00e3o em que se protegiam exteriormente das emo\u00e7\u00f5es, mas tratavam-nas interiormente. O pr\u00f3prio Marpa dava um exemplo que permitia compreender o que era sua experi\u00eancia do desejo e da c\u00f3lera, diferente do que os outros podiam perceber. Para as pessoas do exterior, dizia, suas emo\u00e7\u00f5es assemelhavam-se a desenhos gravados em uma rocha; para ele, eram apenas tra\u00e7os sobre a superf\u00edcie da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos que permitem se liberar das emo\u00e7\u00f5es por meio da rejei\u00e7\u00e3o, da transforma\u00e7\u00e3o ou do reconhecimento da ess\u00eancia, pertencem todos ao ensinamento do Buddha. Entretanto, ele n\u00e3o os ofereceu em um \u00fanico contexto, mas exp\u00f4s esta ou aquela abordagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s variadas faculdades daqueles \u00e0s quais esses m\u00e9todos se destinavam, propondo cada vez o m\u00e9todo que se revelava mais \u00fatil.<\/p>\n<div style=\"text-align:right\">Vancouver, junho de 1982.<\/div>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O VAJRAYANA E O TRATAMENTO DAS EMO\u00c7\u00d5ES: O SIMPLES RECONHECIMENTO Kalu Rinpoche Introdu\u00e7\u00e3o felicidade e infelicidade no ocidente origem das emo\u00e7\u00f5es medita\u00e7\u00e3o sobre a mente a mente espa\u00e7osa a mente em pleno v\u00f4o reconhecer a ess\u00eancia tra\u00e7os sobre a \u00e1gua &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-vajrayana-e-o-tratamento-das-emocoes-reconhecimento\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2056,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[69],"class_list":["post-2059","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mestres","tag-kalu-rinpoche"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2059"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2059\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5677,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2059\/revisions\/5677"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2056"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}