{"id":331,"date":"2012-12-28T11:59:55","date_gmt":"2012-12-28T13:59:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=331"},"modified":"2018-02-09T18:39:10","modified_gmt":"2018-02-09T20:39:10","slug":"interior-e-exterior-no-zen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/interior-e-exterior-no-zen\/","title":{"rendered":"Interior e exterior no Zen"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?attachment_id=80\" rel=\"attachment wp-att-80\" class=\"broken_link\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-80\" alt=\"ZEN-BOLEADO\" src=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO.jpg\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO.jpg 1769w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-1024x1024.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>EL KOAN ZEN &#8211; Toshihiko Izutsu <\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\">Se analisarmos \u201ca experi\u00eancia ZEN\u201d (quer dizer, a realiza\u00e7\u00e3o do estado de ilumina\u00e7\u00e3o), em termos de rela\u00e7\u00e3o entre interior e exterior nos deparamos com duas possibilidades te\u00f3ricas:<\/p>\n<p>\u00a0<b>1<i> &#8211; O interior se converte em exterior, ou exterioriza\u00e7\u00e3o do mundo interior.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>\u00a0<\/i><\/b><b>2<i> &#8211; O exterior se converte em interior, ou interioriza\u00e7\u00e3o do mundo exterior.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>1. <\/b>No primeiro caso, quer dizer, na <b><i>exterioriza\u00e7\u00e3o do mundo interior.<\/i><\/b> (que se refere \u00e0 express\u00e3o t\u00e3o corrente de que \u201co homem se converte no objeto\u201d, realiza-se rapidamente uma experi\u00eancia, o pr\u00f3prio \u201ceu\u201d perde sua identidade existencial e funde-se inteiramente no \u201cobjeto exterior\u201d com o qual se identifica. O ser humano se converte em flor. O homem se converte em bambu. Esta experi\u00eancia n\u00e3o se fundamenta, no entanto, como experi\u00eancia aut\u00eantica zen, <b><i>sen\u00e3o quando o ser humano chega a perceber em sua pr\u00f3pria consci\u00eancia que essa flor ou que esse bambu com os quais se identificou cont\u00e9m o mundo total do Ser.<\/i><\/b> Nesse estado, o \u201ceu\u201d se estende at\u00e9 os \u00faltimos limites do universo. Quer dizer, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um \u201ceu\u201d como entidade independente: <b><i>j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um sujeito frente a um mundo objetivo<\/i><\/b>.<\/p>\n<p><b>2.<\/b> No segundo caso, na <b><i>interioriza\u00e7\u00e3o do exterior<\/i><\/b>, o que at\u00e9 agora foi considerado como \u201cexterior\u201d ao nosso \u201cser\u201d \u00e9 subitamente vivenciado como interior \u00e0 mente. Ent\u00e3o, tudo quanto se experimenta e se observa no chamado mundo \u201cexterior\u201d \u00e9 percebido como uma opera\u00e7\u00e3o da mente, sua autodetermina\u00e7\u00e3o em particular. Todo acontecimento \u201cexterior\u201d \u00e9 percebido como acontecimento \u201cinterior\u201d.<\/p>\n<p>O ser humano sente que, mente e corpo tornaram-se totalmente transparentes, e que perderam sua opacidade existencial, que enfrentava e se colocava diante de tudo quanto viesse de \u2018fora\u2019. Sente-se a si mesmo (segundo a express\u00e3o do mestre <i>Han Shan,<\/i> do s\u00e9c. XVI) como <b>\u2018<i>um grande todo que ilumina, infinitamente l\u00facido e sereno\u2019. <\/i><\/b>Sua mente \u00e9 como um espelho que engloba tudo, no qual as montanhas, os rios e a terra com toda a sua beleza e esplendor da natureza encontram-se livremente refletidos. Desse modo, o \u2018mundo exterior\u2019 recria-se em uma dimens\u00e3o diferente e se converte em paisagem \u2018interior\u2019. Em semelhante estado, a mente do ser humano deixa de ser a mente individual de uma pessoa. Isso \u00e9 que o budismo designa como a Natureza da Mente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<strong>VIS\u00c3O ZEN DO SER<\/strong><\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b>Agora nos encontramos em condi\u00e7\u00f5es de examinar as duas possibilidades te\u00f3ricas de interpreta\u00e7\u00e3o do que poder\u00edamos chamar a experi\u00eancia Zen, ou a vis\u00e3o Zen do Ser, formada pela exterioriza\u00e7\u00e3o do interior, em primeiro lugar, em segundo, pela interioriza\u00e7\u00e3o do exterior. Eu qualifico estes dois caminhos, aparentemente opostos, como possibilidades te\u00f3ricas, posto que elegendo tanto um como outro, o resultado ser\u00e1 sempre o mesmo. Desembocaremos numa mesma vis\u00e3o do Ser tanto de um modo como de outro. No entanto, de um ponto de vista hist\u00f3rico, alguns mestres Zen adotaram a primeira destas vias, enquanto outros escolheram a segunda. Comecemos, ent\u00e3o, pela exterioriza\u00e7\u00e3o do interior.<\/p>\n<p>Em um contexto Zen, a exterioriza\u00e7\u00e3o do interior come\u00e7a com a perda da consci\u00eancia do \u201cego\u201d no homem que entra em contato com um objeto \u201cexterior\u201d. Ao perder a chamada consci\u00eancia do ego \u2013 sujeito emp\u00edrico \u2013 segundo o budismo, respons\u00e1vel pelo obscurecimento de nossa vis\u00e3o espiritual \u2013 o ser humano se perde no objeto. \u201cO homem faz-se objeto\u201d, podemos expressar-nos com o princ\u00edpio Zen corrente: \u201cO homem se converte em bambu\u201d, por exemplo, ou o \u201co homem se converte em flor\u201d. <i>D\u00f4gen<\/i> escreve em uma passagem muito conhecida de sua obra <i>Sh\u00f4b\u00f4genz\u00f4<\/i>:<\/p>\n<p><b>\u00a0 \u201c<i>A ilus\u00e3o consiste em criar um ego-sujeito e a trabalhar atrav\u00e9s dele sobre os objetos. A ilumina\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio, consiste em deixar que as coisas atuem sobre n\u00f3s e nos iluminem&#8230; Contemplando uma determinada coisa, fa\u00e7amos com que todo nosso corpo-mente se integre no ato; fa\u00e7amos o mesmo escutando um som [de tal modo que nosso ego possa perder-se e fundir-se na coisa vista ou ouvida]. Ent\u00e3o e somente ent\u00e3o, estaremos em condi\u00e7\u00f5es de captar a realidade em sua \u201caseidade\u201d primeira. Nossa compreens\u00e3o espiritual da coisa n\u00e3o ser\u00e1 a de um espelho refletindo a imagem de algo tal como a lua se reflete na superf\u00edcie da \u00e1gua [posto que o espelho e a coisa refletida por ele, a \u00e1gua ou a lua, seguem sendo sempre duas entidades que conservam cada uma sua pr\u00f3pria identidade]. Na unifica\u00e7\u00e3o espiritual de n\u00f3s mesmos e de algo, ao contr\u00e1rio, se um dos dois se manifesta, o outro desaparece totalmente, fundido-se no primeiro. [O que quer dizer que na situa\u00e7\u00e3o aqui tratada o \u201ceu\u201d desaparece completamente e somente algo se manifesta].<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>Agora, instruir-se no caminho de Budha n\u00e3o significa mais que instruir-se ante o pr\u00f3prio Ser. Instruir-se diante do Ser, por sua parte, somente significa esquecer-se. Esquecer o pr\u00f3prio ego significa unicamente ser iluminado pelas coisas \u201cexteriores\u201d. E ser iluminado pelas coisas n\u00e3o \u00e9 diferente de apagar as diferen\u00e7as entre os nossos chamados egos e as chamadas outras coisas\u201d.<\/i><\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i>\u00a0 \u00a0Est\u00e1 claro que uma identifica\u00e7\u00e3o espiritual profunda com todas as coisas da natureza \u00e9 precisamente o que caracteriza a exterioriza\u00e7\u00e3o do interior, tal como chega a ser vivida sob a forma de uma total imers\u00e3o do \u201cego\u201d humano num objeto \u2013 imers\u00e3o t\u00e3o completa que o termo \u201cobjeto\u201d perde sua base sem\u00e2ntica. No dom\u00ednio mais limitado do prazer est\u00e9tico, esta esp\u00e9cie de identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 normalmente vivida quando, por exemplo, se escuta intensamente uma bela m\u00fasica.<\/p>\n<p><b>\u201c<i>M\u00fasica t\u00e3o profundamente escutada que n\u00e3o mais a escutamos, pois que n\u00f3s mesmos somos a m\u00fasica enquanto dura&#8230;\u201d<\/i><\/b><i>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/i><\/p>\n<p align=\"right\"><i>\u00a0<\/i><i>[T.S.Elliot: Four Quartets]<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>\u00a0 \u00a0<\/i>Tal como observa acertadamente William Johnston: \u201cNeste intenso momento, t\u00e3o caracter\u00edstico, a m\u00fasica \u00e9 sentida t\u00e3o profundamente que j\u00e1 n\u00e3o existe uma determinada pessoa que a escuta nem a m\u00fasica escutada: j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 um \u2018eu\u2019 oposto \u00e0 m\u00fasica; h\u00e1 simplesmente m\u00fasica, sem sujeito nem objeto\u201d. Em outras palavras, o universo inteiro est\u00e1 cheio de m\u00fasica, <b>\u00e9<\/b>m\u00fasica.<\/p>\n<p>Por\u00e9m perder-se a si pr\u00f3prio e \u201cconverter-se em\u201d m\u00fasica, em bambu, em flor ou no que for, n\u00e3o constitui de modo algum uma experi\u00eancia Zen no seu sentido pleno. Quando nos encontramos no estado de total unidade com o \u201cobjeto\u201d, o que ent\u00e3o acontece, enquanto totalmente absortos na contempla\u00e7\u00e3o de algo, \u00e9 que estamos unicamente nas portas do Zen. Falando com propriedade, tal estado ainda n\u00e3o \u00e9 o Zen, por\u00e9m pode nos levar a uma coisa muito singular. A ilumina\u00e7\u00e3o, segundo a tradi\u00e7\u00e3o do Zen, ainda esta longe de sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Suponhamos que encontro-me contemplando intensamente uma flor. Suponhamos que, nesta situa\u00e7\u00e3o, me perco a mim mesmo e penetro na flor, da maneira indicada acima. Do ponto de vista do Zen este n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo est\u00e1gio desta disciplina. <b><i>O Zen me pede que siga al\u00e9m, at\u00e9 alcan\u00e7ar o que a terminologia tradicional designa como o estado anterior \u00e0 distin\u00e7\u00e3o sujeito-objeto.<\/i><\/b> <b><i>Que dizer, que minha imers\u00e3o na flor deve cumprir-se at\u00e9 o ponto em que n\u00e3o reste absolutamente nada da consci\u00eancia de mim mesmo, nem sequer da consci\u00eancia da flor.<\/i><\/b> Este estado de unifica\u00e7\u00e3o absoluta, que \u00e9, psicologicamente falando, uma esp\u00e9cie de \u201cpresen\u00e7a\u201d, implica o total desaparecimento da flor, ou da m\u00fasica, igualmente ao total desaparecimento do \u201ceu\u201d. Em semelhante estado, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma flor, nem m\u00fasica, do mesmo modo n\u00e3o h\u00e1 nem rastro do \u201ceu\u201d. <b><i>O que aqui se atualizou realmente \u00e9 Algo absolutamente indiferenciado e indivis\u00edvel: uma \u201cpura consci\u00eancia\u201d sem sujeito e objeto.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Por\u00e9m nem sequer aqui se encontra o \u00faltimo est\u00e1gio. Para que haja uma experi\u00eancia de ilumina\u00e7\u00e3o, o ser humano deve despertar desta consci\u00eancia pura. O <b><i>Algo<\/i><\/b> absolutamente indiviso se divide novamente em \u201ceu\u201d e, por ex.: em flor. <b><i>E no preciso momento desta divis\u00e3o, a flor emerge de modo s\u00fabito como Flor Absoluta. \u00c9 uma Flor que se abre em uma atmosfera essencialmente diferente daquela na qual se abre uma flor comum. E, no entanto, ambas s\u00e3o uma s\u00f3 e \u00fanica flor.<\/i><\/b> \u00c9 exatamente esta situa\u00e7\u00e3o a qual evoca D\u00f4gen quando aponta que \u201ca montanha e os rios (tal como aparecem no estado de ilumina\u00e7\u00e3o) n\u00e3o devem ser confundidos com as montanhas e os rios\u00a0 comuns, embora sejam as mesmas montanhas e rios que contemplamos sempre\u201d.<\/p>\n<p>Nada pode apresentar melhor e do modo mais t\u00edpico do Zen o processo da instaura\u00e7\u00e3o desta vis\u00e3o Zen do mundo do que as reflex\u00f5es j\u00e1 citadas do mestre Ch\u2019ing Y\u00fcan<sup>17<\/sup>:<\/p>\n<p><b><i>H\u00e1 trinta anos atr\u00e1s, antes que este velho monge come\u00e7asse a praticar o Zen, contemplava uma montanha como se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>\u00a0\u00a0 Tive a sorte de encontrar mestres iluminados e pude alcan\u00e7ar assim certo grau de despertar. Em tal estado, quando contemplava uma montanha, j\u00e1 n\u00e3o era uma montanha! E, quando via um rio, n\u00e3o se tratava de um rio!<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>\u00a0\u00a0 Agora me encontro em um estado de quietude \u00faltima. Do mesmo modo que nos meus primeiros anos, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio simplesmente como um rio.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Aqui temos a vis\u00e3o da realidade caracter\u00edstica do Zen e claramente descrita em tr\u00eas est\u00e1gios:<\/p>\n<p><b>\u00a01.<\/b>\u00a0\u00a0 O estado inicial, correspondendo a experi\u00eancia do mundo que tem um ser humano comum, na qual o conhecedor e o conhecido est\u00e3o claramente diferenciados um do outro como duas entidades separadas e onde uma montanha, por ex., \u00e9 vista pelo \u201ceu\u201d que percebe como uma coisa objetiva chamada montanha.<\/p>\n<p><b><i>\u00a0<\/i>2.<\/b>\u00a0\u00a0 O estado intermedi\u00e1rio, corresponde ao descrito como estado de identifica\u00e7\u00e3o absoluta, de unifica\u00e7\u00e3o total; estado espiritual anterior a distin\u00e7\u00e3o do sujeito-objeto. Neste estado, o chamado mundo exterior se despe de sua solidez ontol\u00f3gica. E inclusive a express\u00e3o: \u201ceu vejo uma montanha\u201d \u00e9 num sentido rigoroso uma afirma\u00e7\u00e3o err\u00f4nea, posto que n\u00e3o h\u00e1 mais um \u201ceu\u201d que v\u00ea, nem uma montanha a ser vista. Se existe algo aqui, \u00e9 a presen\u00e7a absolutamente indivisa de <b><i>Algo<\/i><\/b> que se ilumina eternamente, como universo total. Em tal estado, uma montanha n\u00e3o \u00e9 seguramente uma montanha: a montanha \u00e9 irreconhec\u00edvel a n\u00e3o ser que se tome como n\u00e3o-montanha.<\/p>\n<p><b>3<\/b>.\u00a0\u00a0 O estado final, de liberdade e de quietude infinitas, em que o <b><i>Algo<\/i><\/b> indiviso se divide em sujeito\/objeto em meio \u00e0 <b><i>unidade primordial,<\/i><\/b> a qual permanece intacta apesar da aparente dissocia\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto. <b><i>Resulta disso que o sujeito e o objeto se separam um do outro e, ao mesmo tempo est\u00e3o fundidos um no outro, porque a separa\u00e7\u00e3o e a fus\u00e3o s\u00e3o um s\u00f3 e mesmo ato de Algo originalmente indiviso.<\/i><\/b> Deste modo, no instante mesmo em que o \u201ceu\u201d e a montanha saem do <b><i>Algo<\/i><\/b>, fundem-se um no outro formando uma entidade: essa coisa \u00fanica que se coloca como Montanha Absoluta. E, no entanto, essa Montanha Absoluta, escondendo em si mesma uma natureza complexa, tal como mostramos, n\u00e3o \u00e9somente uma simples montanha. Assim \u00e9 a natureza da exterioriza\u00e7\u00e3o do interior, tal como se entende no contexto Zen.<\/p>\n<p>Examinemos agora o processo inverso, quer dizer, a interioriza\u00e7\u00e3o do exterior, pelo qual o mundo da Natureza (o chamado mundo exterior) se interioriza e se coloca enquanto paisagem \u201cinterior\u201d. Como apontei anteriormente, o acontecimento espiritual subjacente \u00e9 o mesmo em ambos os casos. Como poderia ser de outro modo?\u00a0 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel existirem duas experi\u00eancias Zen t\u00e3o diametralmente opostas. Atrav\u00e9s de sua hist\u00f3ria, o Zen tem sido sempre \u00fanico, por\u00e9m produziu formas divergentes nos n\u00edveis te\u00f3ricos, quanto aos modos pelos quais o ser humano pode realizar a experi\u00eancia da ilumina\u00e7\u00e3o e quanto ao que sucede imediatamente depois. A interioriza\u00e7\u00e3o do exterior n\u00e3o \u00e9 diferente, neste sentido, \u00e0 exterioriza\u00e7\u00e3o do interior.<\/p>\n<p>Nesta \u00faltima, a nota dominante era uma identifica\u00e7\u00e3o profunda do ser humano com as coisas da natureza. A f\u00f3rmula base era: o ser humano perde seu \u201ceu\u201d, morre para si mesmo, se funde em algo exterior, logo perde de vista a coisa exterior para renascer finalmente sob a forma desta coisa exterior particular, como manifesta\u00e7\u00e3o concreta do mundo inteiro do <b><i>Ser.<\/i><\/b>\u00a0 O homem, em resumo, se converte na coisa e <b><i>\u00e9<\/i><\/b> a coisa mesma; e, sendo a coisa, <b><i>\u201c\u00e9 o Todo\u201d.<\/i><\/b><\/p>\n<p>No caso da interioriza\u00e7\u00e3o do exterior, ao contr\u00e1rio, o ser humano experimenta subitamente que aquilo que pensava ser exterior a si mesmo \u00e9 na realidade interior. <b><i>O mundo n\u00e3o existe fora de mim; est\u00e1 em mim mesmo, sou eu mesmo. Tudo aquilo que o ser humano havia imaginado at\u00e9 este instante desenvolvendo-se no exterior de si mesmo se produziu, realmente, no espa\u00e7o interior.<\/i><\/b> Por\u00e9m como compreender esse espa\u00e7o interior? Ser\u00e1 a mente humana um espa\u00e7o interior no qual todas as coisas existem e se produzem como coisas interiores e acontecimentos interiores? Esta quest\u00e3o levanta diretamente o problema da Mente tal como \u00e9 concebida pelo Zen.<\/p>\n<p>O c\u00e9lebre <i>\u201ck\u00f4an\u201d<\/i> da fl\u00e2mula batida pelo vento, de <i>Hui-N\u00eang<\/i>, \u00e9 uma clara ilustra\u00e7\u00e3o do tema.<\/p>\n<p>Um dia <i>Hui-N\u00eang<\/i> escutava uma leitura sobre o budismo em um dos templos, quando se levantou subitamente um vento que come\u00e7ou a tremular a fl\u00e2mula da porta do templo. Ent\u00e3o teve lugar o incidente relatado no <i>\u201ck\u00f4an\u201d:<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0 \u00a0Quando estava ali o Sexto Patriarca, o vento come\u00e7ou a tremular a fl\u00e2mula. Dois monges se puseram a discutir sobre o fato. Um deles apontou: \u201cOlha! A Fl\u00e2mula se agita!\u201d, o outro respondeu: \u201cN\u00e3o! \u00c9 o vento que se agita!\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Discutiram interminavelmente sem poder chegar a conclus\u00e3o alguma. Bruscamente, Hui-N\u00eang p\u00f4s fim a est\u00e9ril discuss\u00e3o dizendo: \u201cN\u00e3o \u00e9 o vento que se agita, nem tampouco a fl\u00e2mula. Queridos irm\u00e3os, s\u00e3o vossas mentes que se agitam\u201d. Os monges se calaram.<\/p>\n<p><b><i>\u00a0<\/i><\/b>\u00a0 \u00a0Em meu modo de ver, aqui temos o caso mais claro de interioriza\u00e7\u00e3o do exterior. O vento sopra na mente. A fl\u00e2mula tremula na mente. Tudo sucede na mente. Nada fica no exterior da mente. A fl\u00e2mula balan\u00e7ando ao vento deixa de constituir um acontecimento que sucede no mundo exterior. O acontecimento inteiro (e, implicitamente, o universo inteiro) se interioriza e se representa como constitutivo do espa\u00e7o interior. De fato, a estrutura da interioriza\u00e7\u00e3o de que se trata n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples como possa parecer \u00e0queles que lerem este <i>\u201ckoan\u201d<\/i> sem conhecimento pr\u00e9vio do ensinamento Zen. Tratemos de esclarecer a coisa de um \u00e2ngulo um pouco diferente.<\/p>\n<p>No mesmo <i>Wu Men Kuan<\/i> encontra-se uma passagem na qual <i>Chao Chu<\/i> perguntou a seu mestre <i>Nan Ch\u2019\u00fcan<\/i> quando ainda era um novi\u00e7o: Qual \u00e9 o Caminho? (Quer dizer, a Realidade Absoluta?); o mestre respondeu: <b><i>\u201cA mente comum: esse \u00e9 o Caminho\u201d.<\/i><\/b> Desta c\u00e9lebre f\u00f3rmula, o mestre <i>Wu M\u00ean<\/i> deu uma interpreta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica em seu coment\u00e1rio ao <i>\u201ckoan\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><i>\u00a0<\/i><\/b><i>As flores perfumadas na primavera,<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>a lua prateada no outono, a brisa fresca no ver\u00e3o,<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>\u00a0a branca neve no inverno.<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>Se a mente n\u00e3o se perturba ante quest\u00f5es banais,<\/i><\/p>\n<p align=\"center\"><i>cada dia ser\u00e1 um instante feliz na vida dos homens.<\/i><\/p>\n<p><b><i>\u00a0<\/i><\/b>\u00a0 \u00a0Qual ser\u00e1, pois, essa mente comum na qual se abrem as flores na primavera, na qual brilha a lua no outono, na qual sopra uma brisa refrescante no ver\u00e3o e a neve branqueia no inverno? Esses dados caracter\u00edsticos das quatro esta\u00e7\u00f5es s\u00e3o apresentados por <i>Wu M\u00ean<\/i> como uma paisagem interior da \u201cmente comum\u201d, o mesmo que o tremular da fl\u00e2mula era para <i>Hui-N\u00eang<\/i> o tremular interior da mente.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro, em primeira inst\u00e2ncia, que a \u201cmente\u201d de que se trata aqui \u00e9 a do ser humano em estado de ilumina\u00e7\u00e3o, a mente iluminada. A mente \u201ccomum\u201d de <i>Nan Ch\u2019\u00fcan<\/i> n\u00e3o \u00e9, neste sentido, uma mente realmente comum. Ao contr\u00e1rio. Longe de constituir a consci\u00eancia emp\u00edrica da subst\u00e2ncia-ego normalmente designada com esta palavra, o que se entende por mente comum \u00e9 a Mente (chamada tecnicamente de n\u00e3o-mente\\Natureza da mente), que se realiza em um estado espiritual anterior \u00e0 distin\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto, ou que transcende a essa distin\u00e7\u00e3o; a mente comum em lugar de ser apenas nossa consci\u00eancia emp\u00edrica. \u00c9 a <b><i>Realidade<\/i><\/b>, o fundamento mesmo do Ser, eternamente presente em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Um fato ins\u00f3lito que concerne a esta mente \u00e9 que n\u00e3o funciona nem pode funcionar de modo concreto como nossa consci\u00eancia emp\u00edrica. A mente \u00e9 uma realidade <b><i>noum\u00eanica<sup>2<\/sup><\/i><\/b> que funciona unicamente no <b><i>fenom\u00eanico.<\/i><\/b> Precisamente neste sentido <i>Nan Ch\u2019\u00fcan<\/i> a chama de mente comum. E a fl\u00e2mula, o desabrochar das flores na primavera, podem ser vistos como acontecimentos interiores tamb\u00e9m e unicamente neste sentido, nada existe, de fato, fora da mente, nem nada acontece fora da mente. Tudo quanto existe como fen\u00f4meno no chamado mundo exterior n\u00e3o \u00e9 mais que uma forma que manifesta a Mente, o <b><i>nous<sup>3<\/sup><\/i><\/b>. Isso \u00e9 o que n\u00f3s entendemos sob o termo \u201cmente\u201d com M mai\u00fascula.<\/p>\n<p><b><i>A estrutura da Mente assim entendida \u00e9 de uma natureza aparentemente contradit\u00f3ria; por um lado, \u00e9 inteiramente diferente da consci\u00eancia emp\u00edrica, por outro lado se identifica completa e indissoluvelmente \u00e0 consci\u00eancia emp\u00edrica.<\/i><\/b> A f\u00f3rmula de <i>Nan Ch\u2019\u00fcan:<\/i> <b><i>\u201ca mente<\/i><\/b><i> <b>comum: esse \u00e9 o Caminho\u201d,<\/b> <\/i>se refere precisamente a esse \u00faltimo aspecto da Mente.<\/p>\n<p>H\u00e1 um antigo ad\u00e1gio <i>Zen<\/i> que diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0\u201cAs montanhas, os rios, a terra, tudo quanto existe, tudo que acontece, tudo, sem a m\u00ednima exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 vossa pr\u00f3pria mente\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Comentando esta afirma\u00e7\u00e3o, o mestre Mus\u00f4 faz a seguinte reflex\u00e3o: <i>\u201cH\u00e1 monges que t\u00eam a tend\u00eancia em crer que determinadas atividades cotidianas, como comer, beber, lavar as m\u00e3os, trocar de roupa, ou ir dormir, s\u00e3o atos profanos que nada tem a ver com a pr\u00e1tica Zen; esses monges pensam que n\u00e3o praticam seriamente o Zen sen\u00e3o quando est\u00e3o sentados com as pernas cruzadas em medita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Segundo o mestre Mus\u00f4 cometem um grave erro, \u201cporque reconhecem coisas fora da mente\u201d, quer dizer, porque cr\u00eaem que o mundo existe fora da sua \u201cpr\u00f3pria\u201d Mente. S\u00e3o seres que ainda n\u00e3o compreenderam o verdadeiro sentido da senten\u00e7a: <b><i>\u201cAs montanhas, os rios e a terra s\u00e3o vossa pr\u00f3pria mente\u201d. <\/i><\/b>Em outros termos, <b><i>ignoram totalmente a natureza da Mente que est\u00e1 em ato em todos os momentos nas mentes \u201ccomuns\u201d dos seres humano individuais\u201d.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>\u00a0<\/i><\/b><b><i>\u00a0<\/i><\/b><i>Um monge perguntou certo dia ao mestre Chao Chu: \u201cQue esp\u00e9cie de coisa \u00e9 minha mente?\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0Chao Chu respondeu perguntando ao monge: \u201cFizeste a tua refei\u00e7\u00e3o?\u201d <\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0O monge disse que sim.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0Ent\u00e3o Chao Chu lhe ordenou: \u201cEnt\u00e3o v\u00e1 lavar a cuia!\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>\u00a0 \u00a0<\/i>O monge tem fome e come. Quando termina lava a cuia. <i>Chao Chu <\/i>lhe indica como a Mente est\u00e1 em ato nessas atividades naturais e banais<i>.<\/i>Em cada uma das mente ocupadas nos afazeres mais comuns, a Mente est\u00e1 sem d\u00favida nenhuma em ato. <b><i>A \u201cmente comum\u201d \u00e9, desse modo, o lugar energ\u00e9tico espiritual infinito, lugar de uma energia que, uma vez descartada sua tend\u00eancia individualista, pode estender-se instantaneamente por todo o Universo.<\/i><\/b><\/p>\n<p>Do ponto de vista dos mestres experimentados como <i>Nan Ch\u2019\u00fcan<\/i> e <i>Chao Chu,<\/i> a mente comum \u00e9 simplesmente uma mente comum. Por\u00e9m guarda em seu bojo a presen\u00e7a da Mente. \u00c9 a mente comum que experimentou a n\u00e3o-mente. Dito de outra forma, a mente comum n\u00e3o \u00e9 nossa consci\u00eancia emp\u00edrica tal como nos \u00e9 dada a princ\u00edpio, por\u00e9m a mente comum realizada depois da experi\u00eancia efetiva da ilumina\u00e7\u00e3o. Os velhos alfarr\u00e1bios Zen abundam em exemplos que demonstram at\u00e9 que ponto os principiantes se viam em dificuldades para compreender isto.<\/p>\n<p><i>Um monge pediu um dia ao mestre Chang Sha: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel transformar (quer dizer interiorizar) as montanhas, os rios e a grande terra, para reduzir tudo \u00e0 minha <b>pr\u00f3pria <\/b>mente?\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>Chang Sha respondeu: \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel, efetivamente, transformar as montanhas, os rios e a grande terra para reduzir tudo a minha <b>pr\u00f3pria<\/b> mente?\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>O monge confessou: \u201cn\u00e3o vos compreendo\u201d<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i>\u00a0 \u00a0No c\u00e9lebre <i>\u201cmond\u00f4\u201d<\/i> que acabamos de inserir, o monge p\u00f5e em d\u00favida a validade do refr\u00e3o Zen: <b><i>\u201cTodas as coisas s\u00e3o Mente\u201d.<\/i><\/b> Fazendo isso, adota a posi\u00e7\u00e3o do realismo mais ing\u00eanuo. Aos seus olhos, a Mente \u00e9 a mente comum, \u00e9 a consci\u00eancia emp\u00edrica, dirigida para as montanhas e os rios como para objetos exteriores a si mesmo. A resposta de <i>Chang Sha<\/i> \u00e9 uma quest\u00e3o puramente ret\u00f3rica, que significa que para ele \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel trazer o mundo exterior ao espa\u00e7o interior de tal mente (separada, pr\u00f3pria). O monge, portanto, nunca poderia compreender.<\/p>\n<p>O fato de que a mente, no sentido que entende <i>Chang Sha<\/i>, n\u00e3o seja em si mesmo um mundo interior, oposto ao mundo exterior, est\u00e1 claramente sublinhado neste c\u00e9lebre <i>mond\u00f4:<\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 Um monge perguntou a Chang Sha: \u201cQue esp\u00e9cie de coisa \u00e9 minha mente?\u201d<\/i><\/p>\n<p>Chang Sha lhe respondeu: \u201cO universo inteiro \u00e9 tua mente\u201d.<\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 O monge: \u201cSe assim fosse, n\u00e3o teria onde ficar\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Chang Sha: \u201cAo contr\u00e1rio, esse \u00e9 precisamente o lugar onde deves te colocar\u201d.<\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 O monge: \u201cQual \u00e9, pois, o lugar onde devo colocar-me?\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 Chang Sha: \u201cUm imenso oceano! A \u00e1gua \u00e9 profunda, insondavelmente profunda\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 O monge: \u201cIsso ultrapassa minha compreens\u00e3o\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0\u00a0 Chang Sha: \u201cOlha os peixes! Grandes ou pequenos, movem-se por toda parte, como querem\u201d.<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i>\u00a0 \u00a0H\u00e1 uma fundamental car\u00eancia de compreens\u00e3o entre o monge e <i>Chang Sha<\/i>. <b><i>Porque o monge fala da mente como de sua pr\u00f3pria consci\u00eancia individual, emp\u00edrica, enquanto que Chang Sha fala da Mente.<\/i> <\/b>Em lugar de acentuar a identidade dos fatos da mente emp\u00edrica e da Mente c\u00f3smica, o mestre as distingue intencionalmente uma da outra e tenta fazer com que o monge tome consci\u00eancia e que <b><i>considere sua pr\u00f3pria mente como Algo que \u00e9 como um imenso oceano, de insond\u00e1vel profundidade, no qual os peixes, grandes ou pequenos \u2013 quer dizer, tudo quanto existe \u2013 tem seu lugar e gozam de infinita liberdade.<\/i><\/b><\/p>\n<p>O mestre <i>Hung Chih<\/i> expressa a mesma id\u00e9ia de forma po\u00e9tica:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<b><i>A \u00e1gua \u00e9 l\u00edmpida, transparente at\u00e9 as profundezas,<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>os peixes nadam lentamente nela com prazer.<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Imensos s\u00e3o os c\u00e9us, espa\u00e7o sem limites,<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>os p\u00e1ssaros voam longe, muito longe.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">Igualmente o mestre <i>D\u00f4gen<\/i>:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><i>\u00a0<\/i><\/b><b><i>Os peixes na \u00e1gua!<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Nadam e nadam, sem alcan\u00e7ar jamais os limites da \u00e1gua.<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b><i>Os p\u00e1ssaros no c\u00e9u!<\/i><\/b><\/p>\n<p align=\"center\"><b>Voam e voam sem alcan\u00e7ar jamais os limites do c\u00e9u.<\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>\u00a0 \u00a0<\/i>Nada poderia descrever com mais beleza que estas palavras a paisagem interior da Mente. Unicamente na dimens\u00e3o metaf\u00edsica da Mente podem ser descritas \u201cas montanhas, os rios e a grande terra\u201d como presentes \u201cno interior da mente\u201d. Porque toda coisa singular \u00e9, de certo modo, um aspecto ou outro da Mente, todo acontecimento \u00e9 acontecimento da Mente. Essa \u00e9 a interioriza\u00e7\u00e3o do exterior, tal como compreende o Zen.<\/p>\n<p>Para terminar, devo chamar novamente a aten\u00e7\u00e3o sobre o que sublinhei no princ\u00edpio: O problema do interior e do exterior n\u00e3o \u00e9, apesar de tudo, mais que um pseudo-problema, do ponto de vista Zen. Uma vez feita a distin\u00e7\u00e3o entre interior e exterior, o problema de sua rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca pode \u2013 ou deve \u2013 desenvolver-se em termos de exterioriza\u00e7\u00e3o do interior e de interioriza\u00e7\u00e3o do exterior. <b><i>Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nenhuma distin\u00e7\u00e3o deste tipo, falando propriamente; a distin\u00e7\u00e3o mesma \u00e9 ilus\u00e3o<\/i><\/b>. Permita-me citar novamente um <i>koan<\/i>:<\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>Um monge perguntou certo dia ao mestre Chao Chu:<\/i><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><i>\u201cQuem \u00e9 Chao Chu?\u201d<\/i><\/p>\n<p><i>E Chao Chu respondeu: \u201cPorta Este, porta Oeste, porta Norte, porta Sul\u201d.<\/i><\/p>\n<p>Quer dizer: <b><i>que Chao Chu est\u00e1 totalmente aberto<\/i><\/b><i>.<b> Todas as portas da cidade permanecem abertas e nada fica escondido. Chao Chu se situa exatamente no centro da<\/b><\/i><b> <i>cidade, quer dizer, no centro do universo. As portas que em outras ocasi\u00f5es foram levantadas para separar o interior do exterior est\u00e3o agora abertas de par em par. N\u00e3o h\u00e1 interior, n\u00e3o h\u00e1 exterior.<a href=\"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?attachment_id=80\" rel=\"attachment wp-att-80\" class=\"broken_link\"><br \/>\n<\/a><\/i><\/b><\/p>\n<p><b><i>\u00a0\u00a0 Somente Chao Chu, que \u00e9 transpar\u00eancia pura.<\/i><\/b><\/p>\n<p><b>Notas:<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b>1.\u00a0\u00a0\u00a0 Aseidade: Qualidade ou car\u00e1ter do ser que tem em si mesmo a causa e o princ\u00edpio do pr\u00f3prio ser.<\/p>\n<ol>\n<li>No\u00fbmeno: Realidade intelig\u00edvel, ess\u00eancia, oposta a realidade sens\u00edvel, fen\u00f4meno.<\/li>\n<\/ol>\n<p>3.\u00a0\u00a0\u00a0 No\u00fbs:<\/p>\n<p>a) para o fil\u00f3sofo grego Anax\u00e1goras (499 a.C.-428 a.C.), princ\u00edpio c\u00f3smico inteligente, eterno e ilimitado, capaz de ordenar os elementos materiais (as <i>homeomerias<\/i>) que comp\u00f5em o universo<\/p>\n<p>b) no <i>platonismo<\/i> e <i>aristotelismo<\/i>, faculdade humana capaz de captar verdades fundamentais por uma via intuitiva, em oposi\u00e7\u00e3o aos limites apresentados pelo pensamento meramente calcado na ci\u00eancia e na discursividade puramente intelectual.<\/p>\n<p>c) na <i>escol\u00e1stica<\/i>, o intelecto, faculdade intuitiva de conhecimento capaz de alcan\u00e7ar a realidade divina de forma mais efetiva do que estaria ao alcance da mera discursividade racional.<\/p>\n<p><i>Extrato<\/i><i> do livro: El K\u00f4an ZEN &#8211; Ensayos sobre el Budismo Zen \u2013 Toshihiko Izutsu<\/i><\/p>\n<h2 style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong><em>Vers\u00e3o: Fl\u00e1vio Shunya<\/em><\/strong><\/h2>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>EL KOAN ZEN &#8211; Toshihiko Izutsu Se analisarmos \u201ca experi\u00eancia ZEN\u201d (quer dizer, a realiza\u00e7\u00e3o do estado de ilumina\u00e7\u00e3o), em termos de rela\u00e7\u00e3o entre interior e exterior nos deparamos com duas possibilidades te\u00f3ricas: \u00a01 &#8211; O interior se converte em &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/interior-e-exterior-no-zen\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":80,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,25],"tags":[],"class_list":["post-331","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-flavio","category-mestres"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=331"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1397,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331\/revisions\/1397"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/80"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}