{"id":345,"date":"2013-01-01T10:55:14","date_gmt":"2013-01-01T12:55:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=345"},"modified":"2018-02-10T13:52:57","modified_gmt":"2018-02-10T15:52:57","slug":"o-centro-do-zen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-centro-do-zen\/","title":{"rendered":"O centro do Zen"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=80\" rel=\"attachment wp-att-80\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"584\" class=\"aligncenter size-large wp-image-80\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-1024x1024.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/ZEN-BOLEADO.jpg 1769w\" sizes=\"auto, (max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Na China, o Ch\u2019an (ZEN) \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como \u201chsing tseing\u201d, quer dizer, Doutrina Mental, ou \u201censinamento da mente\u201d. Este termo \u00e9 talvez o que melhor resume tudo o que representa o ZEN, porque ensina a maneira de uma total realiza\u00e7\u00e3o da mente.<br \/>\nIlumina\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente outro nome para o completo reconhecimento da mente \u201cinterior\u201d. Fora do profundo e amplo dom\u00ednio da Mente n\u00e3o h\u00e1 nada que deva ser iluminado. Assim, a \u00fanica finalidade do ZEN \u00e9 nos permitir entender, realizar e aperfei\u00e7oar nossa mente. A mente e a mat\u00e9ria s\u00e3o as chaves dos estudos ZEN.<br \/>\nO budismo e a psicologia moderna nos dizem que a mente tem muitos \u201caspectos e estratos\u201d, alguns dos quais s\u00e3o de especial interesse para a psicologia, outros para a psicologia e a religi\u00e3o. Por\u00e9m o ZEN n\u00e3o se interessa nesses diferentes \u201cterrenos\u201d, mas em penetrar a Ess\u00eancia, no centro mesmo da mente, porque sustenta que, uma vez que chegamos a esse centro, todo o resto \u00e9 relativamente insignificante e claro como o cristal.<br \/>\nAntes de descrever este \u201ccentro interior\u201d, vejamos o que diz o budismo sobre os \u201cn\u00edveis\u201d gerais da mente. Segundo muitos s\u00e1bios budistas, a maneira mais simples e expl\u00edcita de delinear \u201ca estrutura da mente\u201d \u00e9 descrev\u00ea-la como se tivesse tr\u00eas aspectos ou capas.<\/p>\n<p><strong>I) \u2013 O primeiro aspecto<\/strong>, ou capa \u201cexterior\u201d, \u00e9 a faceta manifestante e ativa (Yung, em chin\u00eas). Isto inclui as fun\u00e7\u00f5es ativas mentais (das oito consci\u00eancias*), tanto asc\u00e9tica como emocional, abstrata como simb\u00f3lica \u2013   como o amor, o \u00f3dio, o desejo, a raz\u00e3o, a fantasia, a mem\u00f3ria e outras. Este \u00e9 um aspecto \u00f3bvio, do qual todo ser humano tem uma experi\u00eancia direta. Tem sido um estudo prim\u00e1rio no terreno geral da psicologia, por\u00e9m \u00e9 um assunto no qual o ZEN se interessa pouco.<\/p>\n<p><strong>II) \u2013 O segundo aspecto<\/strong>, ou capa \u201cinterior\u201d, da mente \u00e9 chamado em chin\u00eas \u201chsiang\u201d, o que significa \u201cforma\u201d ou \u201cnatureza\u201d. Exatamente, que \u00e9 esta natureza da mente? Para dizer brevemente, a natureza da mente \u00e9 a consci\u00eancia de si mesmo. Ser consciente de si mesmo significa ser consciente dos resultados do jogo da consci\u00eancia, ou ser consciente das impress\u00f5es recebidas ou das imagens captadas pela consci\u00eancia. Ser consciente desse jogo \u00e9 uma experi\u00eancia pura absoluta, na qual n\u00e3o h\u00e1 sujeito conhecedor nem objeto conhecido, uma vez que o conhecedor e o \u00acconhecido se uniram em uma entidade de \u201cpura percep\u00e7\u00e3o\u201d. Nesta \u201cpura percep\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o h\u00e1 lugar para a dicotomia do dualismo.<br \/>\nA pura consci\u00eancia de si mesmo \u00e9 intr\u00ednseca e experimentalmente n\u00e3o\u00ac-dual, como os s\u00e1bios budistas e de outras religi\u00f5es testemunharam atrav\u00e9s dos s\u00e9culos. A consci\u00eancia de si mesmo (a natureza da mente) n\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do conhecimento, por\u00e9m esse mesmo conhecimento em sua forma mais intr\u00ednseca. Quando descobrimos esta consci\u00eancia de si mesmo, todo ser muda. Quando realizamos qualquer atividade, sentimos que transcendemos esta atividade; se caminharmos, se falarmos, sentimos que este caminhar e este falar j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o como antes&#8230; agora caminhamos com a mente aberta. Sabemos realmente que \u00e9 ele quem caminha; o diretor \u2013 ele mesmo \u2013 est\u00e1 sentado no centro de nossa mente, controlando todas as nossas a\u00e7\u00f5es com espontaneidade \u2013 caminhamos com uma clara consci\u00eancia e com a mente iluminada. Em outras palavras, o homem que realiza a consci\u00eancia de si mesmo sente que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o servo obediente dos impulsos cegos, mas que \u00e9 seu pr\u00f3prio amo. Sentimos ent\u00e3o que as pessoas comuns, cegas ante sua consci\u00eancia inata e clara, percorrem a rua como cad\u00e1veres vivos.<br \/>\nSe esta consci\u00eancia de si mesmo for apreendida e cultivada, chegaremos a experimentar o aspecto iluminado da mente, chamado pelos m\u00edsticos Consci\u00eancia Pura (Consci\u00eancia Iluminada). Quando esta consci\u00eancia iluminada \u00e9 reconhecida em toda sua extens\u00e3o, vemos claramente que abarca todo o Universo. Muitos m\u00edsticos e budistas equivocadamente consideraram este estado o mais alto, o estado de \u201cnirvana\u201d, o est\u00e1gio final da unifica\u00e7\u00e3o com o Ser ou Consci\u00eancia C\u00f3smica. Por\u00e9m, segundo o ZEN, este estado est\u00e1 ainda \u00e0s margens do \u201csamsara\u201d. Os Yoguis que chegaram a esse estado seguem ofuscados pela id\u00e9ia dualista, profundamente arraigada, s\u00e3o incapazes de cortar o cord\u00e3o umbilical da ader\u00eancia sutil \u00e0s coisas e de se libertarem, para chegar \u00e0 \u201coutra margem\u201d da perfeita liberdade. Assim, ainda que a consci\u00eancia de si mesmo, ou sua forma cultivada \u2013 a consci\u00eancia iluminada \u2013 seja uma chave para todas as realiza\u00e7\u00f5es internas b\u00e1sicas, qualitativamente \u00e9, entretanto, uma ader\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>III) \u2013 A ilumina\u00e7\u00e3o budista<\/strong> n\u00e3o se consegue mantendo ou aumentando a consci\u00eancia de si mesmo. Ao contr\u00e1rio: conseguimos desatando quaisquer v\u00ednculos que nos prendam a esta consci\u00eancia iluminada; somente transcendendo-a podemos chegar ao centro mesmo da Mente, ao perfeito Vazio, iluminador, livre e inteiramente insubstancial, Este car\u00e1ter iluminador do Vazio, um vazio din\u00e2mico (e iluminado), \u00e9 a ess\u00eancia da Mente (Ti em chin\u00eas, Ku em japon\u00eas, Shunya em s\u00e2nscrito).<br \/>\nO importante \u00e9 que, quando mencionamos a palavra \u201cEss\u00eancia\u201d, a gente pensa em seguida em algo essencialmente concreto; e quando se menciona a palavra \u201cVazio\u201d, em um \u201cnada\u201d morto e est\u00e1tico. Por\u00e9m, ambos os conceitos perdem o sentido da palavra chinesa \u201cTi\u201d (Ess\u00eancia), e da palavra s\u00e2nscrita \u201cshunyata\u201d (Vacuidade), e exp\u00f5em a limita\u00e7\u00e3o do pensamento humano, finito e unilateral. A forma comum de pensar consiste em aceitar a id\u00e9ia de que algo existe ou n\u00e3o existe, por\u00e9m nunca que \u00e9 ambas as coisas, existente e n\u00e3o-existente. Ao mesmo tempo, A \u00e9 A ou ~A, por\u00e9m nunca \u00e9, ao mesmo tempo, A e ~A.<br \/>\nDo mesmo modo, o veredito do sentido comum sobre o vazio frente a exist\u00eancia \u00e9: \u201cO vazio \u00e9 a n\u00e3o-exist\u00eancia, e a exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o vazio\u201d. Esta forma de raciocinar, considerada correta e razo\u00e1vel, \u00e9 defendida pelos l\u00f3gicos como \u201csine qua non\u201d \u00e9 aceita pelo sentido comum com fins pr\u00e1ticos. Por\u00e9m, o budismo n\u00e3o segue invariavelmente este \u201csine qua non\u201d, especialmente quando trata da verdade de shunyata. Diz o Prajna Paramita: \u201cA forma n\u00e3o difere do Vazio, e o Vazio n\u00e3o difere da Forma: Forma \u00e9 Vazio e Vazio \u00e9 Forma\u201d. O budismo diz tamb\u00e9m que \u00e9 devido ao Vazio que as coisas existem e que, pelo mesmo fato das coisas existirem, devem ser o vazio. Sublinha que o Vazio e a Exist\u00eancia s\u00e3o complementares entre s\u00ed, e que n\u00e3o se op\u00f5em: se incluem e se abra\u00e7am, mais do que se excluem ou se negam. Quando os seres de sensibilidade normal v\u00eaem um objeto, v\u00eaem s\u00f3 seu aspecto existente, ou seu aspecto vazio.<br \/>\nPor\u00e9m um ser iluminado v\u00ea ambos aspectos ao mesmo tempo. Esta n\u00e3o distin\u00e7\u00e3o, ou \u201cunifica\u00e7\u00e3o\u201d como o chamam algumas pessoas, do Vazio e da Exist\u00eancia, \u00e9 chamada \u201cDoutrina n\u00e3o discriminativa do caminho do Meio do Budismo Mahayana\u201d. Portanto, o Vazio \u00e9 entendido no budismo n\u00e3o como algo negativo, nem significa aus\u00eancia ou extin\u00e7\u00e3o. O Vazio \u00e9 simplesmente um termo que denota a natureza n\u00e3o substancial e n\u00e3o pessoal dos seres, \u00e9 um sinal de indica\u00e7\u00e3o do estado de absoluto desprendimento e liberdade.<br \/>\nO Vazio n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de explicar. N\u00e3o \u00e9 defin\u00edvel ou descrit\u00edvel. Como disse o mestre ZEN Huai Jang: \u201cQualquer coisa que dissermos passaria longe do essencial\u201d. O Vazio n\u00e3o pode descrever-se ou expressar-se por palavras. Isto se deve a que a linguagem humana foi criada principalmente para designar coisas e sentimentos \u201cexistentes\u201d.<br \/>\nTratar de discutir o Vazio dentro dos limites de uma l\u00edngua limitada pelas formas da exist\u00eancia \u00e9 ingenuo e errado. Por isso os mestres ZEN gritam,  choram,  chutam e batem. Pois que outra coisa poderiam fazer para expressar diretamente este indescrit\u00edvel vazio, sem recorrer \u00e0s palavras?<br \/>\nO ensinamento budista sobre o Vazio \u00e9 compreensivo e profundo, e requer muito estudo antes de ser entendido. Este estudo preliminar \u00e9 indispens\u00e1vel para entender o ZEN.<br \/>\nVoltando ao nosso tema original, a Ess\u00eancia, ou centro mais profundo da mente, devemos procurar defini-la precisamente. A Ess\u00eancia \u00e9 o Vazio Luminoso, como tal. Um budista ZEN iluminado n\u00e3o somente conhece o aspecto iluminado da consci\u00eancia, sen\u00e3o que, mais importante ainda, conhece o aspecto vazio da mente. A ilumina\u00e7\u00e3o com amarras \u00e9 descrita pelo ZEN como \u201c\u00e1gua morta\u201d, por\u00e9m \u201ca ilumina\u00e7\u00e3o sem amarras, o Vazio Luminoso\u201d \u00e9 elogiada como \u201ca grande vida\u201d.<br \/>\nQuero deixar bem claro um ponto. Esta divis\u00e3o da mente em tr\u00eas aspectos, ou \u201ccapas\u201d n\u00e3o deve ser tomada literalmente porque, de fato, essas \u201ccapas\u201d ou \u201caspectos\u201d n\u00e3o existem. A Mente \u00e9 um grande TODO, sem partes ou divis\u00f5es. As caracter\u00edsticas manifestantes, iluminadoras e n\u00e3o substanciais da mente existem simult\u00e2nea e constantemente, s\u00e3o insepar\u00e1veis e indivis\u00edveis em sua totalidade. \u00c9 s\u00f3 para o mestre dar mais clareza ao assunto que estes tr\u00eas \u201caspectos\u201d tem sido mencionados.<\/p>\n<p>(*) \u2013 As oito consci\u00eancias: Segundo a filosofia Yogachara a consci\u00eancia que todo ser sens\u00edvel possui tem oito aspectos funcionais que se designam como \u201cas Oito Consci\u00eancias\u201d. Destas, as cinco primeiras s\u00e3o as consci\u00eancias dos cinco sentidos, a Sexta \u201ca consci\u00eancia discriminat\u00f3ria\u201d, a s\u00e9tima \u201ca consci\u00eancia do eu\u201d, e a oitava Alayavijnana  ou o dep\u00f3sito da Consci\u00eancia Pura.<\/p>\n<p><strong>LA PRACTICA DEL ZEN &#8211; Chang Chen Chi<\/strong> \u2013 Ed. La pl\u00e9yade \u2013 tradu\u00e7\u00e3o do texto: Fl\u00e1vio Capllonch Cardoso\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na China, o Ch\u2019an (ZEN) \u00e9 tamb\u00e9m conhecido como \u201chsing tseing\u201d, quer dizer, Doutrina Mental, ou \u201censinamento da mente\u201d. 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