{"id":4884,"date":"2018-06-10T16:58:56","date_gmt":"2018-06-10T18:58:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=4884"},"modified":"2018-06-10T17:02:33","modified_gmt":"2018-06-10T19:02:33","slug":"praticando-o-momento-presente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/praticando-o-momento-presente\/","title":{"rendered":"Praticando o momento presente"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/praticando-o-momento-presente-2\/praticando-o-momento-presente-3\/\" rel=\"attachment wp-att-4886\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-o-momento-presente-300x150.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"150\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4886\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-o-momento-presente-300x150.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-o-momento-presente.jpg 318w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Praticando o momento presente<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"default.asp?menu=53\" class=\"broken_link\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<hr \/>\n<p>Gostaria de falar a respeito do problema b&aacute;sico do sentar. N&atilde;o importa que voc&ecirc; o esteja praticando h&aacute; pouco tempo, ou h&aacute; dez anos. O problema &eacute; sempre o mesmo.<\/p>\n<p>Quando participei de meu primeiro <i>sesshin<sup>1<\/sup>, <\/i>h&aacute; muitos anos, n&atilde;o conseguia resolver quem era mais louco: eu ou as pessoas &agrave; minha volta. Foi horr&iacute;vel! A temperatura manteve-se em torno dos 32-83\u00b0C todos os dias da semana; eu estava coberta de moscas, e aquele era um <i>sesshin <\/i>barulhento, muito estridente. Fiquei completamente transtornada e estupefata diante daquilo tudo. Entretanto, de vez em quando ia ter com Yasutani Roshi e ali havia algo que me fazia continuar praticando o sentar. Infelizmente, o per&iacute;odo mais dif&iacute;cil s&atilde;o os primeiros seis, doze meses. Voc&ecirc; enfrenta a confus&atilde;o, as d&uacute;vidas e os problemas, e ainda n&atilde;o praticou o sentar tempo suficiente para sentir os verdadeiros benef&iacute;cios.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, a dificuldade &eacute; natural e at&eacute; boa. Conforme a mente vai passando devagar por todos esses est&aacute;gios, conforme voc&ecirc; fica ali sentado, embora possa parecer muito confuso e rid&iacute;culo, voc&ecirc; est&aacute; aprendendo uma quantidade monumental de dados a respeito de si mesmo. Isto s&oacute; pode ser valioso para voc&ecirc;. Por favor, continuem sentando em grupo, sempre que puderem, e compare&ccedil;am diante de um bom instrutor tanto quanto puderem. Se o fizerem, com o tempo essa pr&aacute;tica ser&aacute; a melhor coisa de sua vida.<br \/>\n><br \/>\nN&atilde;o faz diferen&ccedil;a como se chama nossa pr&aacute;tica: acompanhar a respira&ccedil;&atilde;o, <i>shikan-taza<sup>2<\/sup>, <\/i>estudo de <i>koans. <\/i>No fundo, estamos todos trabalhando as mesmas quest&otilde;es:<\/p>\n<p>&quot;Quem somos? O que &eacute; nossa vida? De onde viemos? Para onde vamos?&quot;. &Eacute; essencial termos um certo poder de <i>insight <\/i>para conduzir nossa vida de modo plenamente humano. Por isso, gostaria primeiro de falar sobre a tarefa elementar do sentar e, falando disso, dar a perceber que falar n&atilde;o &eacute; sentar. Falar &eacute; s&oacute; como um dedo apontando para a lua; &eacute; s&eacute; indicar.<\/p>\n<p>No sentar estamos descobrindo a Realidade, a natureza Buda, Deus, a Verdadeira Natureza. Alguns denominam tal pr&aacute;tica de &quot;Grande Mente&quot;. Uma express&atilde;o que &eacute; particularmente pertinente para descrever o modo como pretendo abordar a seguinte quest&atilde;o: &quot;O momento presente&quot;.<\/p>\n<p>Segundo o Sutra do Diamante<sup>3<\/sup>, &quot;o passado &eacute; inapreens&iacute;vel, o presente &eacute; inapreens&iacute;vel e o futuro &eacute; inapreens&iacute;vel&quot;. Portanto, todos n&oacute;s nesta sala, estamos onde? Estamos no passado? N&atilde;o. Estamos no futuro? N&atilde;o. Estamos no presente? N&atilde;o, n&atilde;o podemos sequer dizer que estamos no presente, n&atilde;o existe nada para o que apontar e falar: &quot;Este &eacute; o presente&quot;, n&atilde;o h&aacute; linhas demarcat&oacute;rias que definam o presente. O m&aacute;ximo que podemos comentar &eacute;: &quot;Somos o momento presente&quot;. Como n&atilde;o h&aacute; meios de medi-lo, defini-lo, delimit&aacute;-lo, tampouco ver o que &eacute;, ele &eacute; incomensur&aacute;vel, indelimit&aacute;vel, infinito. &Eacute; o que n&oacute;s somos.<\/p>\n<p>Bom, mas se &eacute; t&atilde;o simples assim, o que estamos fazendo aqui? Posso dizer: &quot;O momento presente&quot;. Parece f&aacute;cil, n&atilde;o? Entretanto, na verdade, n&atilde;o &eacute;. Enxergar de fato n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil, se fosse, estar&iacute;amos todos fazendo isso.<\/p>\n<p>Por que n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil? Por que n&atilde;o podemos enxerg&aacute;-lo? O que &eacute; necess&aacute;rio para podermos enxerg&aacute;-lo? Quero contar-lhes uma breve hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>H&aacute; muitos anos, eu era uma aluna adiantada do Conservat&oacute;rio Oberlin. Era muito boa; n&atilde;o excepcional, mas muito boa. Eu queria demais estudar com uma determinada pessoa, que, sem d&uacute;vida, era o melhor de todos os professores. Ele pegava alunos comuns e transformava-os em pianistas fabulosos. Por fim, surgiu minha oportunidade de estudar com <i>aquele <\/i>professor.<\/p>\n<p>Quando fui para minha aula, descobri que ele ensinava com dois pianos. Ele nem dizia ol&aacute;. Apenas sentava-se ao piano, tocava cinco notas e depois falava: &quot;Agora voc&ecirc;. Eu devia tocar exatamente do jeito que ele acabara de fazer. Toquei e ele disse: &quot;N&atilde;o&quot;. Ele tocou de novo e eu toquei em seguida. Mais uma vez ele falou: &quot;N&atilde;o&quot;. Bem, isso durou uma hora. Toda vez ele repetia &quot;n&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>Nos tr&ecirc;s meses seguintes toquei mais ou menos tr&ecirc;s compassos, o que dava talvez meio minuto de uma m&uacute;sica. Eu acreditava que j&aacute; era muito boa. Tinha at&eacute; solado com pequenas orquestras sinf&ocirc;nicas. Apesar disso, o procedimento daquele professor durou tr&ecirc;s meses e, nesse tempo, chorei praticamente sem cessar. Ele tinha todas as caracter&iacute;sticas de um verdadeiro professor e uma determina&ccedil;&atilde;o absoluta de levar cada aluno a enxergar. Por isso era t&atilde;o bom. Ao final do terceiro m&ecirc;s, um dia ele comentou: &quot;Bom&quot;. O que tinha acontecido? Enfim eu tinha aprendido a ouvir. E como ele dizia, se voc&ecirc; consegue ouvir, pode tocar.<\/p>\n<p>O que aconteceu durante aquele tempo? Eu tinha o mesmo par de ouvidos do come&ccedil;o; nada tinha acontecido nesse n&iacute;vel. O que eu estava tocando n&atilde;o era de execu&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica dif&iacute;cil. O que ocorrera &eacute; que eu tinha aprendido a ouvir pela primeira vez.., e j&aacute; fazia anos que tocava piano. Ali aprendi a prestar aten&ccedil;&atilde;o. Era isso que fazia dele um professor t&atilde;o not&aacute;vel: ele ensinava seus alunos a prestarem aten&ccedil;&atilde;o. Depois de trabalhar com ele, os alunos realmente ouviam, de fato ouviam. Se voc&ecirc; consegue ouvir, pode tocar. Pianistas completos, maravilhosos, saiam de seu est&uacute;dio.<\/p>\n<p>&Eacute; esse tipo de aten&ccedil;&atilde;o que &eacute; necess&aacute;rio &agrave; nossa pr&aacute;tica zen. Chamamo-la de <i>samadhi, <\/i>uma intera&ccedil;&atilde;o completa como objeto. Mas, no meu epis&oacute;dio, era relativamente f&aacute;cil prestar esse tipo de aten&ccedil;&atilde;o. Estava voltada para um objeto de que eu gostava. Essa &eacute; a integra&ccedil;&atilde;o de qualquer forma superior de arte., dos grandes atletas, dos grandes jogadores de r&uacute;gbi, das pessoas que fazem cestas inacredit&aacute;veis no basquete, de qualquer um que tenha aprendido a prestar aten&ccedil;&atilde;o. &Eacute; uma esp&eacute;cie de <i>samadhi<\/i>.<\/p>\n<p>Bem, esse &eacute; um tipo e tem muito valor. Contudo, o que precisamos fazer em nossa pr&aacute;tica zen &eacute; muito mais dif&iacute;cil. Temos de prestar aten&ccedil;&atilde;o a este momento presente, &agrave; totalidade do que est&aacute; acontecendo exatamente agora. A raz&atilde;o pela qual n&atilde;o queremos prestar aten&ccedil;&atilde;o &eacute; que isso nem sempre &eacute; agrad&aacute;vel. N&atilde;o nos conv&eacute;m.<\/p>\n<p>Como seres humanos, temos uma mente que pode pensar. Lembramo-nos do que nos foi doloroso. Sonhamos sempre com o futuro, com todas as lindas coisas que um dia teremos, com o que nos ir&aacute; acontecer. Deste modo, filtramos tudo que acontece no presente, usando todas essas refer&ecirc;ncias: &quot;N&atilde;o gosto disso. N&atilde;o tenho de ouvir essas coisas. E posso at&eacute; esquecer isso tudo e come&ccedil;ar a sonhar com o que acontecer&aacute;&quot;. Isso &eacute; constante: gira em nossa cabe&ccedil;a sem parar, em nossa incessante tentativa de criar uma via agrad&aacute;vel, que nos torne seguros e confiantes, de modo a permitir que nos sintamos bem.<\/p>\n<p>Quando estamos nessa vertigem, por&eacute;m, jamais enxergamos exatamente o aqui e agora, o momento presente. N&atilde;o podemos enxerg&aacute;-lo porque estamos filtrando, O que est&aacute; entrando &eacute; algo muito diferente. Fa&ccedil;am a seguinte experi&ecirc;ncia: perguntem alguma coisa a quaisquer dez pessoas que leram este livro, e voc&ecirc;s obter&atilde;o relatos muito variados. Elas esquecer&atilde;o as partes que n&atilde;o as atra&iacute;ram muito, ir&atilde;o lembrar-se de outras e chegar&atilde;o at&eacute; a deixar de fora da consci&ecirc;ncia aquilo de que n&atilde;o gostaram. At&eacute; mesmo quando vamos consultar nosso mestre zen, s&oacute; ouvimos o que desejamos. Estarmos abertos para o mestre significa ouvir n&atilde;o apenas aquilo que queremos ouvir, mas ouvir tudo. O mestre n&atilde;o est&aacute; ali s&oacute; para ser simp&aacute;tico conosco.<\/p>\n<p>Nessa medida, o ponto central do <i>zazen<\/i><sup>4<\/sup>&eacute; este: o que temos de fazer com const&acirc;ncia &eacute; apenas criar uma discreta transi&ccedil;&atilde;o do mundo vertiginoso que temos dentro de nossas mentes para o momento presente, o preciso aqui e agora. Essa &eacute; nossa pr&aacute;tica. O que temos de desenvolver &eacute; nossa intensidade e nossa capacidade de estar exatamente aqui e agora. Precisamos ser capazes de desenvolver a habilidade de dizer: &quot;N&atilde;o, n&atilde;o vou nessa vertigem&quot;; de fazer tal escolha. Nossa pr&aacute;tica &eacute;, de momento a momento, como uma escolha, uma encruzilhada no caminho: podemos ir por aqui ou por ali. &Eacute; sempre uma escolha, a cada momento, entre o belo mundo que desejamos criar em nossas mentes e aquilo que de fato existe. O que na verdade existe, num <i>sesshin <\/i>zen, &eacute;, em geral, muito cansa&ccedil;o, t&eacute;dio e dor nas pernas, O que aprendemos com o ficar obrigatoriamente sentados em sil&ecirc;ncio, suportando todo esse desconforto, &eacute; t&atilde;o valioso que, se n&atilde;o existisse, deveria ser criado. Quando sentimos dor n&atilde;o entramos na vertigem mental. Temos de ficar com a dor. N&atilde;o h&aacute; para onde ir. De modo que a dor &eacute; na realidade muito valiosa.<\/p>\n<p>Nosso treino zen tem como prop&oacute;sito permitir-nos levar uma vida confort&aacute;vel. As &uacute;nicas pessoas que vivem com conforto s&atilde;o as que aprendem a n&atilde;o sonhar suas vidas como algo diferente, as que est&atilde;o com o preciso aqui e agora, independente do que seja: bom, mau, agrad&aacute;vel, desagrad&aacute;vel, dor de cabe&ccedil;a, ficar doente, ficar feliz. N&atilde;o faz a menor diferen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Uma caracter&iacute;stica de um estudante maduro do zen &eacute; o senso de centra&ccedil;&atilde;o e contato com suas bases. Quando estamos diante de algu&eacute;m assim, podemos senti-lo. Ele est&aacute; com a vida tal como ela est&aacute; de fato acontecendo, n&atilde;o com uma vers&atilde;o fantasiada dela. Sem d&uacute;vida, as tormentas da vida atingem-no de modo mais suave. Se pudermos aceitar as coisas apenas como s&atilde;o, n&atilde;o iremos ficar muito transtornados com elas, sejam quais forem. Quando ficarmos transtornados de verdade, essa onda se desfar&aacute; mais depressa.<\/p>\n<p>Consideremos o processo do sentar em si. O que temos de fazer &eacute; estar com o que acontece precisamente agora. N&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio que acreditem em mim; podem experiment&aacute;-lo por si mesmos. Quando me distraio e divago, afastando-me do imediato, come&ccedil;o na realidade a ouvir o barulho do tr&aacute;fego. Tomo muito cuidado para n&atilde;o perder um s&oacute; ru&iacute;do. Nada. Eu de fato apenas ou&ccedil;o. Isso &eacute; t&atilde;o bom quanto um <i>koan <\/i>porque est&aacute; acontecendo neste exato momento. Portanto, como estudante do zen, voc&ecirc;s t&ecirc;m uma tarefa a cumprir, uma tarefa muito importante: tirar a pr&oacute;pria vida do reino dos sonhos onde se encontra e transferi-la para a imensa e verdadeira realidade que existe.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute; uma tarefa f&aacute;cil. Requer coragem. S&oacute; pessoas de muita fibra conseguem efetuar essa pr&aacute;tica por tempo ilimitado. Mas n&atilde;o o fazemos apenas para n&oacute;s mesmos. Talvez no come&ccedil;o, sim; e est&aacute; certo. No entanto, &agrave; medida que nossa vida for ganhando em centra&ccedil;&atilde;o e em contato com as pr&oacute;prias bases, em que se torna real e essencial, outras pessoas ir&atilde;o senti-la de imediato e, ent&atilde;o, aquilo que somos come&ccedil;a a influir em tudo que existe &agrave; nossa volta.<\/p>\n<p>Na realidade, somos o universo inteiro. Por&eacute;m, enquanto voc&ecirc; n&atilde;o enxergar isso com clareza, tem de trabalhar com o que seu instrutor lhe disser para trabalhar, com f&eacute; absoluta no processo total. N&atilde;o &eacute; s&oacute; f&eacute;, tamb&eacute;m &eacute; algo como uma ci&ecirc;ncia. Outras pessoas antes de voc&ecirc; j&aacute; efetuaram a experi&ecirc;ncia e obtiveram alguns resultados com ela. O que voc&ecirc; pode dizer, no m&aacute;ximo, &eacute;: \u00abBem, pelo menos posso tentar essa experi&ecirc;ncia. Posso faz&ecirc;-la. Posso me esfor&ccedil;ar&quot;. At&eacute; a&iacute; qualquer um de n&oacute;s pode ir.<\/p>\n<p>Buda nada mais &eacute; do que aquilo que voc&ecirc; &eacute;, exatamente agora: ouvir os carros, sentir a dor nas pernas, ouvir minha voz. Isso &eacute; Buda. N&atilde;o se pode captur&aacute;-lo; no minute em que voc&ecirc; tentar peg&aacute;-lo, ele j&aacute; se transformou. Ser o que somos a cada instante significa, por exemplo, ser inteiramente a raiva, quando estamos com raiva. Essa esp&eacute;cie de raiva jamais magoa os outros porque &eacute; total, completa. Estamos sentindo essa emo&ccedil;&atilde;o de verdade, o n&oacute; no est&ocirc;mago, e n&atilde;o vamos machucar ningu&eacute;m com isso. A esp&eacute;cie de m&aacute;goa que machuca as pessoas &eacute; aquela que ferve embaixo dos sorrisos meigos que esbo&ccedil;amos com esfor&ccedil;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o espere ser nobre, quando praticar o sentar. Ao desistirmos dessa mente vertiginosa, mesmo que por apenas alguns instantes, e s&oacute; sentamo-nos com o que &eacute;, essa presen&ccedil;a que somos &eacute; como um espelho. Vemos tudo. Vemos o que somos: nosso esfor&ccedil;o para parecermos bons, para sermos os primeiros, ou para sermos os &uacute;ltimos. Vemos nossa raiva, nossa ansiedade, nossa arrog&acirc;ncia e nossa pseudo-espiritualidade. A verdadeira espiritualidade &eacute; apenas estar com tudo isso. Se na realidade pudermos estar com Buda, com quem somos, ent&atilde;o isso se transforma.<\/p>\n<p>Shibayama Roshi certa vez disse num <i>sesshin: <\/i>&quot;Esse Buda que todos querem ver &eacute; muito t&iacute;mido. &Eacute; dif&iacute;cil conseguir que ele venha para fora e se mostre&quot;. Por qu&ecirc;? Porque Buda &eacute; n&oacute;s mesmos e n&oacute;s jamais o veremos enquanto n&atilde;o nos desfizermos de todas as coisas extras e sup&eacute;rfluas.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso que estejamos dispostos a entrar com honestidade dentro de n&oacute;s mesmos. Quando pudermos agir com absoluta honestidade diante do que estiver acontecendo neste preciso &quot;agora&quot;, ent&atilde;o o veremos. N&atilde;o se pode ter apenas trechos de Buda. Os Budas v&ecirc;m como um todo. Nossa pr&aacute;tica nada tem que ver com &quot;Ah, eu preciso ser bom, eu devo ser am&aacute;vel, eu devo.., isso, aquilo&quot;. Eu <i>sou <\/i>quem eu sou agora. Esse estado de ser &eacute; o Buda.<\/p>\n<p>Certa vez, num <i>zendo<\/i><sup>5<\/sup>, eu falei algo que deixou muita gente incomodada. Foi o seguinte: &quot;Para fazer essa pr&aacute;tica, precisamos perder as esperan&ccedil;as&quot;. N&atilde;o foram muitos os que ficaram felizes diante dessa perspectiva. Mas o que eu quis dizer? Que temos de desistir dessa id&eacute;ia e, se pudermos, imaginar que h&aacute; alguma maneira de se ter essa vida perfeita que seria a melhor para cada um de n&oacute;s. A vida &eacute; como &eacute;. S&oacute; quando come&ccedil;armos a deixar de lado todas essas artimanhas, a vida passar&aacute; a ser mais satisfat&oacute;ria.<\/p>\n<p>Quando digo para perder as esperan&ccedil;as, n&atilde;o me refiro a abandonar o esfor&ccedil;o. Como estudantes do zen, precisamos fazer um trabalho incrivelmente dif&iacute;cil. Por&eacute;m, quando falo &quot;dif&iacute;cil&quot;, n&atilde;o significa artificial, distorcido ou for&ccedil;ado; n&atilde;o &eacute; isso. Dif&iacute;cil &eacute; a escolha que temos de fazer repetidas vezes. Se voc&ecirc;s praticarem com afinco, vierem a muitas <i>sesshins, <\/i>trabalharem bastante com um instrutor, se estiverem dispostos a fazer essa mesma escolha, de modo consistente, durante um certo per&iacute;odo, ent&atilde;o, um dia, ter&atilde;o esse primeiro vislumbre. O primeiro vislumbre do que &eacute; o momento presente. Pode ser que leve um, dois ou dez anos.<\/p>\n<p>Bem, este &eacute; o come&ccedil;o. Esse m&iacute;nimo vislumbre dura um d&eacute;cimo de segundo. Mas s&oacute; isso n&atilde;o basta. A vida iluminada &eacute; aquela que enxerga o tempo todo. S&atilde;o necess&aacute;rios anos e anos de muito trabalho para nos transformarmos a ponto de poder fazer isso.<\/p>\n<p>N&atilde;o pretendo parecer desencorajadora. Talvez voc&ecirc;s estejam sentindo que n&atilde;o t&ecirc;m tanto tempo assim pela frente. Entretanto, a quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; essa. Em cada ponto de nossa pr&aacute;tica ela &eacute; perfeita. Quanto mais praticamos a vida com afinco, mais ela se torna gratificante, satisfat&oacute;ria e melhor para n&oacute;s e os outros. Esse &eacute;, no entanto, um <i>continuum <\/i>muito longo. As pessoas acham bobagem conseguir a ilumina&ccedil;&atilde;o em duas semanas.<\/p>\n<p>N&oacute;s j&aacute; somos Buda. Simplesmente n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida a esse respeito. O que mais poder&iacute;amos ser? Estamos em equil&iacute;brio neste exato momento, aqui, neste lugar. Onde mais poder&iacute;amos estar? Por&eacute;m a quest&atilde;o &eacute; darmo-nos conta com clareza do que isso significa; essa total integra&ccedil;&atilde;o, essa harmonia e a incapacidade de express&aacute;-la em nossas vidas consomem um trabalho e um treinamento incessantes. &Eacute; preciso coragem. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. &Eacute; preciso uma verdadeira devo&ccedil;&atilde;o a n&oacute;s mesmos e &agrave;s outras pessoas.<\/p>\n<p>Bem, &eacute; claro que, &agrave; medida que praticamos, todas essas coisas crescem, at&eacute; mesmo a coragem. Precisamos ficar sentados na dor e odiamos isso. Eu tamb&eacute;m n&atilde;o gosto. Entretanto, se sentarmos com paci&ecirc;ncia e tolerarmos tudo, alguma coisa estar&aacute; se consolidando dentro de n&oacute;s. O trabalho com um bom instrutor, que permita enxergar quem ele &eacute;, permite-nos uma lenta transforma&ccedil;&atilde;o mediante a pr&aacute;tica. N&atilde;o &eacute; atrav&eacute;s de algo que pensamos, de algo que imaginamos. Somos transformados pelo que fazemos. E o que fazemos? Fazemos sempre a mesma escolha. Desistimos de nossos sonhos centrados no ego em troca da realidade de quem somos de fato.<\/p>\n<p>Talvez a princ&iacute;pio n&atilde;o entendamos bem isto. Pode ser confuso. Quando comecei a ouvir os pronunciamentos dos instrutores, pensei: &quot;Mas <i>do que <\/i>est&atilde;o falando?&quot;. Tenham, por&eacute;m, f&eacute; suficiente em apenas realizar a pr&aacute;tica. Sentem-se todos os dias. Ag&uuml;entem a confus&atilde;o. Tenham muita paci&ecirc;ncia. Respeitem-se por fazer essa pr&aacute;tica. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. Qualquer uru que fique sentado do come&ccedil;o ao fim de um <i>sesshin <\/i>zen precisa ser parabenizado. N&atilde;o quero ser dura com voc&ecirc;s. Penso que quem vem para esta pr&aacute;tica &eacute; fant&aacute;stico. Contudo, sua incumb&ecirc;ncia &eacute; assumir essa qualidade que j&aacute; tem e trabalhar com ela.<br \/>\nSomos todos beb&ecirc;s. A medida de nosso crescimento poss&iacute;vel &eacute; limitada. Um dia, se tivermos a paci&ecirc;ncia necess&aacute;ria e trabalharmos arduamente, teremos alguma possibilidade de fazer uma verdadeira contribui&ccedil;&atilde;o ao mundo. Nessa integra&ccedil;&atilde;o em que por fim aprendemos a viver, veremos que nela est&aacute; o amor, e n&atilde;o em alguma vers&atilde;o de novela de televis&atilde;o, mas o amor com sua for&ccedil;a real. Queremos esse amor para nossas vidas e o queremos para as vidas das outras pessoas. Queremo-lo para nossos filhos, pais e amigos. Portanto, cabe-nos executar o trabalho.<\/p>\n<p>Portanto, esse &eacute; o processo. A escolha de entrar nele &eacute; toda nossa. Talvez ele n&atilde;o tenha ficado claro para alguns de voc&ecirc;s. S&atilde;o necess&aacute;rios muitos anos para que ele se torne claro, para que voc&ecirc;s saibam de fato o que est&atilde;o fazendo. Fa&ccedil;am apenas o melhor que puderem. Permane&ccedil;am em seu sentar. Venham aos <i>sesshins, <\/i>venham sentar, e fa&ccedil;am o melhor que puderem. &Eacute; realmente importante essa total transforma&ccedil;&atilde;o da qualidade da vida humana; &eacute; a coisa mais importante que podemos fazer.<\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Notas:<br \/>\n1. Sesshin &#8211; (derivado do termo japon\u00eas que indica &#8220;vincular [ligar] a mente&#8221;) duram de dois a sete dias e s\u00e3o conduzidos em sil\u00eancio, exceto para as comunica\u00e7\u00f5es essenciais entre o mestre e o aluno. Come\u00e7a todos os dias nas primeiras horas da manh\u00e3, com oito ou mais horas de pr\u00e1tica sentada al\u00e9m da pr\u00e1tica do trabalho de medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2. Shikan-taza \u00e9 uma modalidade do zazen, uma pr\u00e1tica na qual a mente est\u00e1 muito envolvida em apenas sentar. Implica um estado elevado de conscientiza\u00e7\u00e3o, no qual a pessoa n\u00e3o est\u00e1 nem tensa nem apressada. Seu verdadeiro princ\u00edpio \u00e9 a f\u00e9 inabal\u00e1vel de sentar como Buda sentou, com a mente vazia de todos os conceitos, cren\u00e7as e pontos de vista, que um dia culminar\u00e1 na percep\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea e direta da verdadeira natureza dessa MENTE, em outras palavras, na ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3. Sutra do Diamante foi elaborado no s\u00e9culo IV por Mahayana e \u00e9 considerado urna das obras mais profundas e magistrais da literatura budista. \u00c9 preciso ressaltar que os sutras s\u00e3o as escrituras do Budismo, isto \u00e9, os di\u00e1logos e serm\u00f5es pronunciados por Shakyamuni Buda. <\/p>\n<p>4. Zazen &#8211; \u00e9 a medita\u00e7\u00e3o zen tradicional, tamb\u00e9m referida no texto de Joko simplesmente como senta.<\/p>\n<p>5. Zendo \u00e9 uma sala ou um enorme sal\u00e3o nos grandes templos ou Centros zen, constru\u00eddo \u00e0 parte, onde \u00e9 praticado o <\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/b><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Praticando o momento presente Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; Gostaria de falar a respeito do problema b&aacute;sico do sentar. N&atilde;o importa que voc&ecirc; o esteja praticando h&aacute; pouco tempo, ou h&aacute; dez anos. O problema &eacute; &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/praticando-o-momento-presente\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4886,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[10],"class_list":["post-4884","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4884"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4888,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4884\/revisions\/4888"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4886"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}