{"id":4913,"date":"2018-06-10T18:52:31","date_gmt":"2018-06-10T20:52:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=4913"},"modified":"2018-07-26T12:59:01","modified_gmt":"2018-07-26T14:59:01","slug":"o-que-a-pratica-e","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-que-a-pratica-e\/","title":{"rendered":"O que a pr\u00e1tica \u00e9"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-que-a-pratica-e\/o-que-a-pratica-e-2\/\" rel=\"attachment wp-att-4915\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-que-a-pr\u00e1tica-\u00e9.jpg\" alt=\"\" width=\"287\" height=\"176\" class=\"alignleft size-full wp-image-4915\" \/><\/a><br \/>\n<b>O que a pr\u00e1tica \u00e9<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"default.asp?menu=53\" class=\"broken_link\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<hr \/>\n<p>A pr\u00e1tica \u00e9 muito simples. Isso, entretanto, n\u00e3o significa que n\u00e3o ir\u00e1 transformar por completo nossa vida. Quero rever o que fazemos quando sentamos, ou praticamos o zazen. Se acreditarem que j\u00e1 est\u00e3o al\u00e9m disso, bem, podem pensar que est\u00e3o al\u00e9m.<\/p>\n<p>Sentar \u00e9 essencialmente um espa\u00e7o simplificado. Nossa vida di\u00e1ria est\u00e1 em constante movimento: acontecem muitas coisas, muitas pessoas falam, muitos acontecimentos ocorrem. Em meio a tudo isso, \u00e9 muito dif\u00edcil sentir o que somos em nossa vida. Quando simplificamos a situa\u00e7\u00e3o, quando deixamos os elementos externos de lado e nos retiramos do alcance do toque do telefone, da televis\u00e3o, das pessoas que nos visitam, do cachorro que precisa passear, temos uma chance &#8211; que \u00e9, exatamente, a coisa mais valiosa que existe &#8211; de ficar de frente para n\u00f3s mesmos. A medita\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 relacionada com algum estado e, sim, com seu praticante. N\u00e3o diz respeito a alguma atividade, ou a consertar ou a conseguir algo. Refere-se a n\u00f3s. Se n\u00e3o simplificamos a situa\u00e7\u00e3o, a oportunidade de dar uma boa olhada em n\u00f3s mesmos fica muito reduzida, porque aquilo que nos propomos a ver n\u00e3o somos n\u00f3s e, sim, tudo o mais. Se algo d\u00e1 errado, para o que olhamos? Olhamos para o que saiu errado e, em geral, para aqueles que a nosso ver foram os respons\u00e1veis. Ficamos o tempo todo olhando para fora, e n\u00e3o para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando menciono que a medita\u00e7\u00e3o diz respeito a quem a pratica, n\u00e3o pretendo que nos comprometamos numa auto-an\u00e1lise. N\u00e3o \u00e9 isso tamb\u00e9m. Ent\u00e3o fazemos o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Depois de termos assumido nossa melhor postura (que deveria ser equilibrada, f\u00e1cil), ficamos apenas sentados ali, praticamos zazen. O que significa &#8216;apenas sentados ali&#8221;? Essa \u00e9 a mais exigente de todas as atividades. Por via de regra, na medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fechamos os olhos. Neste momento, por\u00e9m, gostaria que fechassem os olhos e ficassem apenas sentados. O que est\u00e1 acontecendo? Toda esp\u00e9cie de coisas. Uma fisgada m\u00ednima no ombro esquerdo; uma press\u00e3o no lado&#8230; Percebam o rosto por um momento. Sintam-no. Estar\u00e1 tenso em algum lugar? Em torno da boca, na testa? Vamos descer um pouco mais. Observem o pesco\u00e7o, somente sintam-no. Agora, os ombros, as costas, o peito, a regi\u00e3o abdominal, os bra\u00e7os, as coxas. Continuem sentindo tudo que encontrarem. Agora sintam a respira\u00e7\u00e3o entrando e saindo. N\u00e3o tentem control\u00e1-la, apenas senti-la. Nossa primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 tentar segurar a respira\u00e7\u00e3o. Deixe que aconte\u00e7a naturalmente. No alto do peito, no meio, na barriga, pode parecer tensa. Apenas sinta como est\u00e1. Sintam tudo isso. Se um carro passa l\u00e1 fora, ou\u00e7am-no. Se um avi\u00e3o passar, observem-no. Talvez ou\u00e7am o barulho c\u00edclico do motor da geladeira. Que seja! E o que voc\u00eas t\u00eam de fazer, positivamente \u00e9 tudo o que voc\u00eas t\u00eam de fazer: experimentar isso e apenas ficar com essa experi\u00eancia. Agora podem abrir os olhos.<\/p>\n<p>Se conseguirem ficar fazendo isso durante tr\u00eas- minutos, \u00e9 um milagre. O normal \u00e9 que, decorrido um minuto, come\u00e7amos a pensar. Nosso interesse em apenas acompanhar a realidade (que \u00e9 o que acabamos de fazer) \u00e9 muito reduzido. &#8216;Voc\u00ea quer dizer que zazen \u00e9 s\u00f3 isso?&#8221; N\u00e3o gostamos dele. &#8220;Estamos em busca da ilumina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o?&#8221; Nosso interesse pela realidade \u00e9 extremamente pequeno. N\u00f3s queremos pensar. Queremos nos afligir com todas as nossas preocupa\u00e7\u00f5es. Queremos entender qual \u00e9 o sentido da vida. Assim, antes de nos darmos conta, teremos esquecido por completo deste momento e teremos divagado em pensamentos sobre as coisas: o namorado, a namorada, o filho, o patr\u00e3o, o medo permanente&#8230; e por a\u00ed afora! Nada h\u00e1 de vergonhoso nesse fantasiar, exceto que, quando estamos imersos nele, perdemos alguma outra coisa. Quando estamos perdidos em nossos pensamentos, quando estamos sonhando, o que perdemos? A realidade. Nossa vida nos escapou.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que os seres humanos fazem. N\u00e3o fazemos isso s\u00f3 uma parte do tempo: fazemos a maior parte do tempo. Por qu\u00ea? Claro que voc\u00eas sabem a resposta. Fazemos porque estamos tentando nos proteger. Estamos tentando nos livrar de nossas dificuldades atuais, ou pelo menos entend\u00ea-las. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em nossos pensamentos autocentrados, exceto que, quando nos identificamos com eles, nossa vis\u00e3o da realidade fica bloqueada. Assim, o que dever\u00edamos fazer quando os pensamentos aparecem? Dever\u00edamos rotul\u00e1-los. Coloquem r\u00f3tulos espec\u00edficos: n\u00e3o s\u00f3 &#8220;pensamento, pensamento&#8221; ou &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o, preocupa\u00e7\u00e3o&#8221;, mas um r\u00f3tulo espec\u00edfico. Por exemplo: &#8220;Estou pensando que ela \u00e9 muito mandona&#8221;; &#8220;Estou pensando que ele \u00e9 muito injusto comigo&#8221;; &#8220;Estou pensando que nunca fa\u00e7o as coisas certas&#8221;. Sejam espec\u00edficos. Se os pensamentos estiverem vindo em avalanche, numa velocidade t\u00e3o grande que voc\u00eas n\u00e3o sintam mais nada sen\u00e3o confus\u00e3o, ent\u00e3o simplesmente rotulem essa confus\u00e3o nebulosa de &#8220;confus\u00e3o&#8221;. Mas se insistirem em localizar pensamentos isolados, cedo ou tarde, eles vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando praticamos dessa maneira, passamos a nos conhecer, a saber como nossa vida funciona, o que estamos fazendo com ela. Se percebemos que determinados pensamentos reaparecem centenas de vezes, ficamos sabendo a nosso respeito algo que antes desconhec\u00edamos. Talvez nosso pensamento incessante refira-se ao passado ou ao futuro. Algumas pessoas est\u00e3o sempre pensando sobre acontecimentos, enquanto outras pensam em pessoas. H\u00e1 quem pense sempre a respeito de si mesmo. Em algumas, os pensamentos s\u00e3o quase s\u00f3 julgamentos a respeito dos outros. Enquanto n\u00e3o os rotularmos durante quatro ou cinco anos, n\u00e3o nos conheceremos bem. Quando damos r\u00f3tulos precisos e meticulosos a nossos pensamentos, o que acontece com eles? Eles come\u00e7am a aquietar-se. N\u00e3o \u00e9 preciso que nos obriguemos a livrar-nos deles. Quando eles se acalmam, podemos retornar \u00e0 experi\u00eancia do corpo e da respira\u00e7\u00e3o, muitas vezes seguidas. N\u00e3o h\u00e1 como deixar de enfatizar que n\u00e3o fazemos isso apenas duas ou tr\u00eas vezes; fazemos dez mil vezes. Com isso, nossa vida se transforma. Essa \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do sentar. E muito simples. N\u00e3o h\u00e1 nada de complicado nela.<\/p>\n<p>Consideramos agora uma situa\u00e7\u00e3o da vida cotidiana. Suponhamos que voc\u00ea trabalha mima companhia de avia\u00e7\u00e3o, e lhe contam que o contrato com o governo est\u00e1 terminando e \u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o seja renovado. Voc\u00ea pensa com seus bot\u00f5es: &#8220;Vou perder meu emprego. Vou ficar sem rendimentos e tenho uma fam\u00edlia para sustentar. E terr\u00edvel!&#8221;. O que acontece ent\u00e3o? Sua mente come\u00e7a a remoer o problema sem parar. &#8220;O que acontecer\u00e1? O que fa\u00e7o?&#8221; A<br \/>\nmente come\u00e7a a ficar cada vez mais r\u00e1pida com a preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em planejar com anteced\u00eancia. Temos de planejar. Por\u00e9m, quando ficamos aborrecidos, n\u00e3o \u00e9 porque apenas planejamos, mas porque ficamos obcecados. Viramos a situa\u00e7\u00e3o do avesso de todos os jeitos. Se n\u00e3o soubermos o que significa fazer uma pr\u00e1tica com nossos pensamentos de preocupa\u00e7\u00e3o, o que ocorre em seguida? Os pensamentos produzem uma emo\u00e7\u00e3o e ficamos mais agitados ainda. Toda agita\u00e7\u00e3o emocional \u00e9 causada pela mente. Se permitirmos que isso aconte\u00e7a durante um certo tempo, acabaremos em muitos casos ficando doentes ou mentalmente deprimidos- Se a mente n\u00e3o se incumbir da situa\u00e7\u00e3o com discernimento, o corpo o far\u00e1. Ele nos ajudar\u00e1 a sair dessa. E como se dissesse: &#8220;Se voc\u00ea n\u00e3o tomar conta da situa\u00e7\u00e3o, creio que eu terei de faz\u00ea-lo&#8221;. Assim, produzimos nosso pr\u00f3ximo resfriado, nossa alergia seguinte, nossa pr\u00f3xima \u00falcera, seja qual for nosso estilo. A mente que n\u00e3o est\u00e1 consciente de si produzir\u00e1 enfermidades. Isto n\u00e3o \u00e9 uma cr\u00edtica, por\u00e9m, n\u00e3o conhe\u00e7o quem nunca adoe\u00e7a, inclusive eu. Quando o desejo de nos preocupar \u00e9 forte, criamos dificuldades. Com uma pr\u00e1tica regular, apenas o fazemos menos. Tudo aquilo de que n\u00e3o formos conscientes frutificar\u00e1 em nossa vida, de um jeito ou de outro.<\/p>\n<p>Do ponto de vista humano, as coisas que d\u00e3o errado em nossa vida s\u00e3o de dois tipos. Um s\u00e3o os fatos que acontecem fora de n\u00f3s e o outro s\u00e3o os que acontecem dentro, como as doen\u00e7as f\u00edsicas. Ambas s\u00e3o a nossa pratica e trabalhamos com elas do mesmo modo. Rotulamos todos os pensamentos que acontecem \u00e0 volta deles e os vivenciamos em nosso corpo. O processo \u00e9 o pr\u00f3prio pensar.<\/p>\n<p>Falar a esse respeito parece, de fato, f\u00e1cil. Entretanto, faz\u00ea-lo \u00e9 terrivelmente dif\u00edcil. N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que possa faz\u00ea-lo o tempo todo. Conhe\u00e7o algumas pessoas que conseguem uma boa parte do tempo. Mas, quando praticamos desta forma, tomando consci\u00eancia de tudo que entra em nossa vida (interna e externa), ela come\u00e7a a transformar-se. Aumentamos nossa for\u00e7a e nosso discernimento; \u00e0s vezes, conseguimos inclusive viver num estado de ilumina\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 significa experimentar a vida como ela \u00e9. N\u00e3o \u00e9 nenhum mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea \u00e9 novato na pr\u00e1tica, \u00e9 importante saber que ficar apenas sentado na almofada durante quinze minutos j\u00e1 \u00e9 uma vit\u00f3ria. E \u00f3timo ficar sentado com essa compostura, somente ficar ali.<\/p>\n<p>Se tiv\u00e9ssemos medo de ficar na \u00e1gua e n\u00e3o soub\u00e9ssemos nadar, a primeira vit\u00f3ria seria apenas mergulhar. O pr\u00f3ximo passo poderia ser molhar o rosto. Se f\u00f4ssemos \u00f3timos nadadores, o desafio poderia ser conseguir bater a m\u00e3o na \u00e1gua numa determinada inclina\u00e7\u00e3o, a cada bra\u00e7ada. Isso significa que um \u00e9 melhor do que o outro? N\u00e3o. Ambos s\u00e3o perfeitos, cada qual em sua etapa do caminho. A pr\u00e1tica, em qualquer est\u00e1gio, \u00e9 simplesmente ser quem somos a cada momento. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de sermos bons ou maus, melhores ou piores. As vezes, depois das palestras, as pessoas comentam: &#8220;N\u00e3o entendi isso&#8221;. Isso tamb\u00e9m est\u00e1 perfeito. Nosso entendimento aumenta com o tempo, contudo, a qualquer momento, somos perfeitos em ser do jeito que somos.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a aprender que s\u00f3 existe uma coisa na vida em que podemos confiar. Qual \u00e9? Podemos dizer: &#8220;Confio em meu companheiro&#8221;. Podemos amar nosso marido, nossa esposa; mas n\u00e3o podemos nunca confiar cegamente neles porque uma outra pessoa (assim como n\u00f3s) \u00e9 sempre n\u00e3o confi\u00e1vel at\u00e9 certo ponto. N\u00e3o h\u00e1 uma pessoa na face da Terra em quem possamos confiar por completo, embora, sem d\u00favida, possamos am\u00e1-la e desfrutar sua companhia. Em que, ent\u00e3o, podemos confiar? Se n\u00e3o \u00e9 em uma pessoa, em qu\u00ea? Em que podemos confiar na vida?, perguntei a algu\u00e9m que me respondeu: &#8220;Em mim&#8221;. Voc\u00ea pode confiar em si mesmo? A autoconfian\u00e7a \u00e9 uma boa coisa, por\u00e9m \u00e9 inevitavelmente limitada.<\/p>\n<p>Existe uma coisa na vida em que sempre podemos confiar: na vida tal como \u00e9. Vamos falar em termos mais concretos. Imagine que existe uma coisa que eu quero muito: talvez casar com uma certa pessoa, ou fazer um curso de especializa\u00e7\u00e3o, ou ter um filho saud\u00e1vel e feliz. No entanto, a vida como \u00e9 poderia ser exatamente o inverso do que eu desejo. N\u00e3o sabemos se iremos ou n\u00e3o casar com aquele algu\u00e9m. Quem sabe, se casarmos, aquela pessoa ideal morra amanh\u00e3. Pode ser que consigamos ser especialistas ou n\u00e3o. \u00c9 prov\u00e1vel que sim, mas n\u00e3o podemos contar com isso. N\u00e3o podemos contar com coisa alguma. A vida ser\u00e1 sempre do jeito que \u00e9. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o conseguimos confiar nesse fato? O que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil a esse respeito? Por que estamos sempre incomodados? Suponha que sua casa tenha acabado de ser destru\u00edda por um terremoto e voc\u00ea est\u00e1 quase perdendo um bra\u00e7o e todas as suas economias. Ser\u00e1 que d\u00e1 para confiar na vida tal qual ela se apresenta? Voc\u00ea consegue ser assim?<\/p>\n<p>Confiar que as coisas s\u00e3o como s\u00e3o \u00e9 o segredo da vida. Por\u00e9m, n\u00e3o queremos saber de nada disso. Posso confiar absolutamente que, no ano que vem, minha vida mudar\u00e1, estar\u00e1 diferente, e, no entanto, ser\u00e1 sempre do que jeito que \u00e9. Se eu tiver um ataque card\u00edaco amanh\u00e3, posso confiar que, porque eu o tive, eu o tenho. Posso me apoiar na vida como ela \u00e9.<\/p>\n<p>Quando fazemos um investimento pessoal em nossos pensamentos, criamos o &#8220;eu&#8221; (como diria Krishnamurti), ent\u00e3o nossa vida come\u00e7a a n\u00e3o funcionar. Eis por que rotulamos os pensamentos, desfazendo o investimento. Depois de termos ficado sentados por tempo suficiente, podemos notar nossos pensamentos apenas como input sensorial. Podemos nos ver atravessando os est\u00e1gios preliminares a este: primeiro sentimos que nossos pensamentos s\u00e3o reais, e a partir deles criamos as emo\u00e7\u00f5es autocentradas e, a partir destas, os obst\u00e1culos que nos impedem de ver a vida como ela \u00e9, porque, se estamos contidos pelas emo\u00e7\u00f5es autocentradas, n\u00e3o conseguimos enxergar as pessoas e as situa\u00e7\u00f5es com clareza. Um pensamento em si \u00e9 s\u00f3 input sensorial, um fragmento de energia. Entretanto, tememos ver os pensamentos tais como s\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando rotulamos o pensamento, retrocedemos e nos desapegamos da identifica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre dizer: &#8220;Ela \u00e9 imposs\u00edvel&#8221; e &#8220;Estou pensando que ela \u00e9 imposs\u00edvel&#8221;. Se persistirmos na pr\u00e1tica de rotular qualquer pensamento, o revestimento emocional come\u00e7a a dissolver-se e ficamos, enfim, com o fragmento impessoal de energia, ao qual n\u00e3o precisamos ficar apegados. Se, por\u00e9m, acreditamos que nossos pensamentos s\u00e3o reais, nossa conduta se fundamentar\u00e1 neles. Se agirmos a partir deles, nossa vida ficar\u00e1 uma confus\u00e3o. Mais uma vez, a pr\u00e1tica \u00e9 o trabalho com este processo at\u00e9 que o tenhamos impregnado em nossos ossos. A pr\u00e1tica n\u00e3o se refere a entender com a mente. Ela tem du ser nossa carne, nossos ossos, n\u00f3s mesmos. Claro que temos de ter pensamentos orientados para a vida, como seguir uma receita, consertar um equipamento, planejar as f\u00e9rias. Mas n\u00e3o necessitamos dessa atividade emocionalmente autocentrada a que chamamos pensar. N\u00e3o \u00e9 de fato pensar; \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o do pensar.<\/p>\n<p>O zen refere-se a uma vida ativa, envolvida. Quando conhecemos bem nossas mentes e as emo\u00e7\u00f5es que nosso pensamento cria, temos a possibilidade de ver melhor o que \u00e9 a nossa vida e o que precisa ser feito; em geral, \u00e9 a pr\u00f3xima coisa que temos logo \u00e0 frente. O zen tem que ver com uma vida de a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o com um fazer nada passivo. No entanto, as a\u00e7\u00f5es t\u00eam de estar baseadas na realidade. Quando se baseiam em falsos sistemas de pensamento (fundamentados em nosso condicionamento), t\u00eam alicerces prec\u00e1rios. Depois de enxergarmos com clareza os sistemas de pensamento, seremos capazes de ver o que precisa ser feito.<\/p>\n<p>O que estamos fazendo n\u00e3o \u00e9 nossa reprograma\u00e7\u00e3o; \u00e9 nossa liberta\u00e7\u00e3o de todos os programas, notando que s\u00e3o vazios, sem realidade. A reprograma\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3 saltar de um caldeir\u00e3o para outro. Pode ser que tenhamos aquilo que pensamos ser uma melhor programa\u00e7\u00e3o; mas o prop\u00f3sito do sentar \u00e9 n\u00e3o ser conduzido por nenhum programa. Imaginemos que h\u00e1 o programa chamado &#8220;N\u00e3o tenho autoconfian\u00e7a&#8221;. Suponhamos que decidimos reprogram\u00e1-lo para &#8220;Tenho autoconfian\u00e7a&#8221;. Nenhum dos dois conseguir\u00e1 se sair muito bem frente \u00e0s press\u00f5es da vida, porque envolvem um &#8220;eu&#8221;. Este &#8220;eu&#8221; \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o muito fr\u00e1gil &#8211; ali\u00e1s, irreal &#8211; e \u00e9 com facilidade enganado. Na realidade, nunca houve um &#8220;eu&#8221;. O que importa \u00e9 enxergar que \u00e9 vazio, uma ilus\u00e3o, que \u00e9 diferente de dissolv\u00ea-lo. Quando falo que \u00e9 vazio, quero dizer que n\u00e3o tem uma realidade b\u00e1sica; \u00e9s\u00f3 uma cria\u00e7\u00e3o de pensamentos autocentrados.<\/p>\n<p>Praticar o zen nunca \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto falar sobre ele. At\u00e9 mesmo os estudantes que t\u00eam um certo entendimento do que est\u00e3o fazendo, \u00e0s vezes, costumam se afastar da pr\u00e1tica b\u00e1sica. Apesar disso, quando sentamos bem, tudo o mais se incumbe de si mesmo. Por essa raz\u00e3o, se estamos praticando o sentar h\u00e1 cinco ou vinte anos, ou estamos apenas no come\u00e7o, \u00e9 importante sentar com um grande e meticuloso cuidado.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que a pr\u00e1tica \u00e9 Texto de Charlotte Joko Beck,extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; A pr\u00e1tica \u00e9 muito simples. Isso, entretanto, n\u00e3o significa que n\u00e3o ir\u00e1 transformar por completo nossa vida. Quero rever o que fazemos quando sentamos, ou praticamos o &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-que-a-pratica-e\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4915,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-4913","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4913","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4913"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4913\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5728,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4913\/revisions\/5728"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4915"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4913"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4913"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4913"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}