{"id":4953,"date":"2018-06-11T09:19:38","date_gmt":"2018-06-11T11:19:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=4953"},"modified":"2018-06-11T09:19:38","modified_gmt":"2018-06-11T11:19:38","slug":"abrindo-a-caixa-de-pandora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/abrindo-a-caixa-de-pandora\/","title":{"rendered":"Abrindo a caixa de Pandora"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=4954\" rel=\"attachment wp-att-4954\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/caixa-de-Pandora.jpg\" alt=\"\" width=\"249\" height=\"202\" class=\"alignleft size-full wp-image-4954\" \/><\/a><br \/>\n<b>Abrindo a caixa de Pandora<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"default.asp?menu=53\" class=\"broken_link\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<hr \/>\n<p>A qualidade de nossa pr&aacute;tica est&aacute; sempre refletida na qualidade de nossa vida. Se de fato estivermos praticando, haver&aacute; uma diferen&ccedil;a com o passar do tempo. Bem, uma das ilus&otilde;es que talvez alimentemos quanto &agrave; nossa pr&aacute;tica, &eacute; que ela tornar&aacute; as coisas mais confort&aacute;veis, mais claras, mais f&aacute;ceis, mais pacificas etc. Nada poderia estar mais distante da verdade. Hoje de manh&atilde;, enquanto tomava caf&eacute;, dois contos de fadas surgiram de repente em minha mem&oacute;ria e imagino que nada que aconte&ccedil;a assim seja desprovido de algum motivo. Os contos de fadas implicam algumas verdades b&aacute;sicas e fundamentais sobre as pessoas. Por isso, permanecem vivos por tanto tempo.<\/p>\n<p>O&#9;primeiro conto que me surgiu foi o da princesa e a ervilha. Em tempos remotos, o teste para se saber se a princesa era verdadeira consistia em faz&ecirc;-la dormir em cima de uma pilha de trinta colch&otilde;es e ver se ela podia sentir a ervilha embaixo do &uacute;ltimo. Bem, poder&iacute;amos dizer que a pr&aacute;tica nos transforma em princesas; tornamo-nos mais sens&iacute;veis. Passamos a conhecer coisas a respeito de n&oacute;s mesmos e dos outros, que antes desconhec&iacute;amos. Tornamo-nos muito mais sens&iacute;veis, mas &agrave;s vezes tamb&eacute;m ficamos mais mordazes.<\/p>\n<p>A outra hist&oacute;ria foi sobre a caixa de Pandora. Voc&ecirc;s se lembram algu&eacute;m ficou t&atilde;o curioso a respeito do conte&uacute;do daquela misteriosa caixa, que finalmente a abriu e tudo que havia de mau saiu de dentro, criando o caos. Para n&oacute;s, a pr&aacute;tica &eacute; sempre assim: abre a caixa de Pandora.<\/p>\n<p>Todos n&oacute;s nos sentimos separados da vida; sentiremos que existe uma parede a nossa volta. Pode n&atilde;o ser uma parede muito vis&iacute;vel; pode at&eacute; ser invis&iacute;vel, mas ela est&aacute; l&aacute;. Enquanto nos sentirmos separados da vida, sentiremos a presen&ccedil;a de uma parede. Uma pessoa iluminada n&atilde;o ter&aacute; paredes a sua volta, contudo, nunca conheci algu&eacute;m que eu sentisse estar completamente livre delas. Por&eacute;m, com o prosseguimento da pr&aacute;tica, a parede fica cada vez mais fina e transparente.<\/p>\n<p>Essa parede vem nos mantendo distantes do contato. Talvez estejamos ansiosos, podemos estar tendo pensamentos perturbadores, mas nossa parede nos mant&eacute;m inconscientes disso tudo. Entretanto, ao praticarmos (e muitos aqui sabem disso muito bem), a parede come&ccedil;a a ter buracos. Antes era uma prancha cobrindo a &aacute;gua borbulhante agora, a prancha come&ccedil;ou a ter furos, pois a pr&aacute;tica nos torna mais c&ocirc;nscios e sens&iacute;veis. N&atilde;o podemos nos sentar im&oacute;veis durante trinta minutos sem aprender alguma coisa. Quando esses trinta minutos acontecem dia ap&oacute;s dia, por muito tempo, aprendemos cada vez mais. Queiramos ou n&atilde;o, aprendemos.<\/p>\n<p>Peda&ccedil;os da prancha podem at&eacute; despencar e assim a &aacute;gua come&ccedil;a a borbulhar pelos furos e pelas falhas. Claro que aquilo que encobrimos &eacute; a parte que n&atilde;o desejamos conhecer a respeito de n&oacute;s mesmos. Quando as bolhas sobem (o que acontece com a pr&aacute;tica), &eacute; como se a caixa de Pandora come&ccedil;asse a se abrir. Na pr&aacute;tica, em n&iacute;vel ideal essa caixa jamais deveria ser lan&ccedil;ada ao ar para se abrir de uma vez. Por&eacute;m, uma vez que a compreens&atilde;o n&atilde;o &eacute; toda previs&iacute;vel, podem haver algumas surpresas e ate mesmo perdas. &Agrave;s vezes, a tampa sai e tudo que nunca quisemos ver em n&oacute;s mesmos vem borbulhando &agrave; tona e, em vez de nos sentirmos melhor, sentimo-nos pior.<\/p>\n<p>A caixa de Pandora consiste em todas as nossas atividades autocentradas e todas as emo&ccedil;&otilde;es correspondentes que elas criam. Mesmo que estejamos praticando bem, haver&aacute; momentos (n&atilde;o para todos, s&oacute; para algumas pessoas) em que a caixa parece explodir e, de repente, um furac&atilde;o de emo&ccedil;&otilde;es come&ccedil;a a rodopiar. A maioria n&atilde;o gosta de sentar quando isso est&aacute; acontecendo, mas aqueles para quem essa erup&ccedil;&atilde;o se resolve com mais facilidade s&atilde;o os que n&atilde;o desistem jamais de sentar, querendo ou n&atilde;o faz&ecirc;-lo. Em minha pr&oacute;pria vida, a liberta&ccedil;&atilde;o aconteceu muito suave e discretamente, talvez porque eu estivesse praticando bastante o sentar e participando de in&uacute;meros <i>sesshins.<\/i><\/p>\n<p>Conforme a pr&aacute;tica no Centro vai amadurecendo, vejo que a vida da maioria dos alunos se transforma. Isso n&atilde;o significa que a caixa de Pandora n&atilde;o esteja se abrindo; as duas coisas acontecem juntas: a transforma&ccedil;&atilde;o e o desconforto. Para alguns, esse per&iacute;odo &eacute; muito doloroso \u2014 isto &eacute;, quando a caixa come&ccedil;a a se abrir. Por exemplo, uma raiva inesperada pode emergir (mas, por favor, n&atilde;o a atire em mais ningu&eacute;m). Portanto, a ilus&atilde;o que temos de que a pr&aacute;tica ser&aacute; sempre pacifica e amorosa n&atilde;o se sustenta. Que a caixa se abra, isso &eacute; perfeitamente normal e necess&aacute;rio. N&atilde;o &eacute; nem bom nem mau. &Eacute; apenas o que tem de acontecer, se de fato, desejamos que nossa vida se aquiete e fique mais livre de rea&ccedil;&otilde;es cont&iacute;nuas. Parte alguma deste processo &eacute; indesej&aacute;vel; ali&aacute;s, quando trabalha de forma adequada, &eacute; desej&aacute;vel. Entretanto, o elemento crucial &eacute; como praticamos essa efervesc&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. Ela <i>ir&aacute; <\/i>transformar nossa vida. Por&eacute;m, se temos id&eacute;ias ing&ecirc;nuas quanto a essa transforma&ccedil;&atilde;o ocorrer sem que paguemos um pre&ccedil;o, estamos nos iludindo. N&atilde;o pratique a menos que acredite que n&atilde;o h&aacute; mais nada que voc&ecirc; possa fazer. Em vez disso, mergulhe de cabe&ccedil;a no <i>surf, <\/i>na gin&aacute;stica ou na m&uacute;sica. Se essas atividades o satisfazem, execute-as. N&atilde;o pratique a menos que sinta que deve mesmo. &Eacute; preciso uma coragem muito grande para ter uma verdadeira pr&aacute;tica. Voc&ecirc; ter&aacute; de encarar tudo a seu respeito que estiver oculto dentro da caixa, incluindo algumas coisas desagrad&aacute;veis que n&atilde;o deseja nem mesmo ouvir falar.<\/p>\n<p>Para ter uma pr&aacute;tica zen, precisamos desejar um determinado tipo de vida. Em termos tradicionais, &eacute; uma vida na qual nossos votos sobrepujam nossas considera&ccedil;&otilde;es pessoais comuns; devemos estar determinados a conseguir que nossa vida desenvolva um contexto universal e a vida dos outros tamb&eacute;m o desenvolva. Se estivermos num certo est&aacute;gio de nossa vida (que n&atilde;o &eacute; nem bom nem mau, mas s&oacute; um est&aacute;gio) no qual a &uacute;nica coisa que nos interessa &eacute; como <i>n&oacute;s <\/i>nos sentimos, o que <i>n&oacute;s <\/i>desejamos, ent&atilde;o a pr&aacute;tica ser&aacute; muito dif&iacute;cil. Talvez dev&ecirc;ssemos esperar um pouco mais. Como instrutora, posso facilitar a pr&aacute;tica e, evidentemente, estimular os esfor&ccedil;os da pessoa, mas n&atilde;o posso dar a ningu&eacute;m essa determina&ccedil;&atilde;o inicial, que precisa estar ali para que a pr&aacute;tica possa firmar-se.<\/p>\n<p>A caixa est&aacute; se abrindo agora para muitos de voc&ecirc;s \u2014como &eacute; que voc&ecirc;s ir&atilde;o lidar com ela? Preciso que saibam algumas coisas a respeito dessa perturbadora fase da pr&aacute;tica. A primeira, &eacute; normal para as pessoas que est&atilde;o neste caminho; ali&aacute;s, &eacute; necess&aacute;ria. A segunda n&atilde;o dura para sempre. A terceira, mais do que em qualquer outro momento da vida, &eacute; uma fase em que precisamos entender nossa pr&aacute;tica e saber o que &eacute; a paci&ecirc;ncia. Em especial, &eacute; uma fase na qual se deve fazer <i>sesshins. <\/i>Se voc&ecirc;s j&aacute; est&atilde;o praticando o sentar h&aacute; vinte ou trinta anos, se fazem ou n&atilde;o os <i>sesshins <\/i>n&atilde;o &eacute; t&atilde;o essencial. Mas, numa certa &eacute;poca &eacute; de vital import&acirc;ncia e voc&ecirc;s devem faz&ecirc;-los tanto quanto sua situa&ccedil;&atilde;o de vida permitir. Esse conselho pressup&otilde;e a for&ccedil;a de manter essa intensidade da pr&aacute;tica. N&atilde;o e mau&quot; n&atilde;o querer uma pr&aacute;tica t&atilde;o dedicada. Quero deixar isso bem claro. As vezes, as pessoas precisam de outros dez anos ou mais, &quot;quebrando a cara&quot;, deixando que a vida lhes ensine todas as li&ccedil;&otilde;es, antes que se sintam prontas para o compromisso de uma pr&aacute;tica t&atilde;o intensa.<\/p>\n<p>Desta forma, a caixa de Pandora, aquilo que nos aborrece e perturba tanto, &eacute; o aforamento (&agrave;s vezes, numa inunda&ccedil;&atilde;o) daquilo que antes n&atilde;o perceb&iacute;amos de modo consciente: nossa raiva diante da vida. Ela ferver&aacute; cedo ou tarde. &Eacute; nosso ego, nossa raiva da vida n&atilde;o ser do modo como desejamos que ela aconte&ccedil;a. &quot;N&atilde;o me conv&eacute;m! N&atilde;o oferece o que eu desejo! Quero que a vida me trate bem!&quot; &Eacute; nossa f&uacute;ria quando as pessoas e os acontecimentos em nossa vida simplesmente n&atilde;o nos d&atilde;o aquilo que exigimos.<\/p>\n<p>Talvez voc&ecirc;s estejam agora no exato momento de abrir a caixa. Em alguma outra oportunidade, gostaria que compartilhassem aquilo que sentiram ser &uacute;til nesta etapa de sua pr&aacute;tica. Um aprendiz, em certo sentido, pode ser muito mais &uacute;til aos outros do que uma pessoa que, como eu, mal consegue se recordar desse est&aacute;gio. Entendo o conflito bastante bem, no entanto, a lembran&ccedil;a real do quanto foi dif&iacute;cil est&aacute; quase apagada. Essa &eacute; uma das coisas importantes de um <i>sangha: <\/i>&eacute; um grupo de pessoas com uma refer&ecirc;ncia m&uacute;tua de pr&aacute;tica. No <i>sangha <\/i>podemos ser honestos, n&atilde;o precisamos esconder ou encobrir nossas lutas. O mais doloroso &eacute; pensar que existe algo de errado <i>comigo <\/i>e ningu&eacute;m mais est&aacute; tendo os mesmos problemas. Claro que isso n&atilde;o &eacute; verdade.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abrindo a caixa de Pandora Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; A qualidade de nossa pr&aacute;tica est&aacute; sempre refletida na qualidade de nossa vida. 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