{"id":4972,"date":"2018-06-11T14:28:43","date_gmt":"2018-06-11T16:28:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=4972"},"modified":"2018-06-11T14:31:37","modified_gmt":"2018-06-11T16:31:37","slug":"praticando-nas-relacoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/praticando-nas-relacoes\/","title":{"rendered":"Praticando nas rela\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/praticando-nas-relacoes\/praticando-nas-relacoes-2\/\" rel=\"attachment wp-att-4974\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-nas-rela\u00e7\u00f5es-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4974\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-nas-rela\u00e7\u00f5es-300x300.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-nas-rela\u00e7\u00f5es-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-nas-rela\u00e7\u00f5es-50x50.jpg 50w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Praticando-nas-rela\u00e7\u00f5es.jpg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Praticando nas rela&ccedil;&otilde;es<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"default.asp?menu=53\" class=\"broken_link\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\">A mente do passado &eacute; inapreens&iacute;vel;<br \/>\nA mente do futuro &eacute; inapreens&iacute;vel;<br \/>\nA mente do presente &eacute; inapreens&iacute;vel.<br \/>\n<b>Sutra Diamante<\/b><\/div>\n<p>O que &eacute; tempo? Existe tempo? O que podemos dizer a respeito de nossa vida cotidiana em rela&ccedil;&atilde;o ao tempo, ao n&atilde;o-tempo, ao n&atilde;o-ser? O que podemos aprender a respeito dos relacionamentos sobre esse n&atilde;o-tempo, n&atilde;o-ser?<\/p>\n<p>Costumamos pensar que uma dharma palestra, um concerto, ou qualquer acontecimento da vida tem um come&ccedil;o, um meio e um fim. Mas se, a qualquer instante desta palestra, por exemplo, eu parar, onde estar&atilde;o as palavras que acabei de pronunciar? Elas simplesmente n&atilde;o existem. Se eu parar em algum momento posterior, onde estar&atilde;o as palavras que ter&atilde;o sido ditas at&eacute; aquele minuto? N&atilde;o existem. E quando a palestra estiver encerrada, onde estar&aacute; a palestra? N&atilde;o h&aacute; palestra. S&oacute; restam tra&ccedil;os de mem&oacute;ria em nossos c&eacute;rebros. E essa mem&oacute;ria, seja l&aacute; o que for, &eacute; fragmentada e incompleta; s&oacute; nos recordamos de partes da experi&ecirc;ncia concreta. Podemos afirmar o mesmo de um concerto; ali&aacute;s, podemos afirmar a respeito de tudo que faz um dia, de tudo que &eacute; nossa vida. Neste exato momento, onde est&aacute; nosso passado? Ele n&atilde;o existe.<\/p>\n<p>Bem, de que modo isso se aplica aos relacionamentos, a nossas rela&ccedil;&otilde;es com todas as coisas e pessoas, a nossa rela&ccedil;&atilde;o com a almofada em que nos sentamos, ao nosso desjejum, &agrave;quele indiv&iacute;duo, ao escrit&oacute;rio, aos nossos filhos?<\/p>\n<p>O modo como costumamos ter as rela&ccedil;&otilde;es &eacute; o seguinte:<br \/>\n&quot;Esse relacionamento est&aacute; ali, do lado de l&aacute;, e supostamente deve proporcionar-me bem-estar. No m&iacute;nimo, n&atilde;o deve me incomodar&quot;. Em outras palavras, tornamos o relacionamento um sorvete, que existe para me conferir prazer e conforto. S&atilde;o muito poucos os que consideram as rela&ccedil;&otilde;es sob um outro prisma, que n&atilde;o o &quot;Te peguei. E agora voc&ecirc; sabe muito bem o que &eacute; para fazer&quot;. Portanto, quando costumamos nos preocupar com as rela&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o estamos falando das partes boas. Muitas vezes, estas podem at&eacute; ser mais presentes. Por&eacute;m, aquilo que nos interessa &eacute; o lado desagrad&aacute;vel. &quot;N&atilde;o deveria estar aqui.&quot; Quando digo &quot;desagrad&aacute;vel&quot;, englobo desde um t&eacute;dio aborrecido at&eacute; estados mais intensos que esse.<\/p>\n<p>Bem, como &eacute; que tudo est&aacute; relacionado com o n&atilde;o-tempo, com o n&atilde;o-ser?<\/p>\n<p>Suponhamos uma discuss&atilde;o no caf&eacute; da manh&atilde;. Na hora do almo&ccedil;o ainda estamos aborrecidos. N&atilde;o estamos s&oacute; aborrecidos, mas contamos para todas as pessoas a esse respeito, para obter consolo, simpatia, endosso, e estamos o tempo todo em nossa cabe&ccedil;a. &quot;Quando nos encontrarmos hoje &agrave; noite vou realmente ter de discutir isso com ele; de fato precisamos ver isso de novo.&quot; Ent&atilde;o, houve a discuss&atilde;o do caf&eacute; da manh&atilde;, o aborrecimento da hora do almo&ccedil;o, e o futuro tamb&eacute;m. O que iremos fazer com rela&ccedil;&atilde;o a toda essa encrenca?<\/p>\n<p>Na verdade o que existe aqui? O que realmente &eacute; agora? Enquanto estamos almo&ccedil;ando, onde est&aacute; a discuss&atilde;o do caf&eacute;? Onde? &quot;A mente do passado &eacute; inapreens&iacute;vel.&quot; Onde est&aacute;? O jantar, que &eacute; o momento em que por fim resolveremos a quest&atilde;o (para nossa satisfa&ccedil;&atilde;o, &eacute; claro), onde est&aacute;? &quot;A mente do futuro &eacute; inapreens&iacute;vel.&quot; N&atilde;o existe.<\/p>\n<p>O que existe? O que &eacute; real? Existe s&oacute; meu aborrecimento neste instante, que &eacute; a hora do almo&ccedil;o. Minha hist&oacute;ria descrevendo os acontecimentos da manh&atilde; n&atilde;o &eacute; o que aconteceu. &Eacute; minha hist&oacute;ria. Real &eacute; a dor de cabe&ccedil;a, o inc&ocirc;modo na barriga. Minha lam&uacute;ria &eacute; uma manifesta&ccedil;&atilde;o dessa energia f&iacute;sica. Fora da experi&ecirc;ncia f&iacute;sica n&atilde;o h&aacute; mais nada que seja real. N&atilde;o sei se isso &eacute; real, mas &eacute; tudo que podemos dizer a respeito.<\/p>\n<p>H&aacute; poucas semanas, uma mo&ccedil;a (n&atilde;o praticante de zen) veio conversar comigo e queria me contar o que seu marido lhe havia feito tr&ecirc;s semanas antes. Ela estava muito, muito aborrecida. Estava t&atilde;o mal que quase n&atilde;o conseguia falar. Ent&atilde;o, eu lhe perguntei: &quot;Onde est&aacute; seu marido agora?&quot;. &quot;Ah, ele est&aacute; trabalhando.&quot; &quot;E onde est&aacute; o aborrecimento, onde est&aacute; a discuss&atilde;o, onde est&atilde;o?&quot; &quot;Bem, eu estou lhe contando.&quot; Eu disse: &quot;Mas onde est&aacute;? Mostre-me&quot;. &quot;Bem, n&atilde;o posso lhe mostrar, mas estou lhe contando. Foi isso o que aconteceu.&quot; &quot;Mas quando foi isso?&quot; &quot;H&aacute; tr&ecirc;s semanas.&quot; &quot;E onde est&aacute;?&quot; &quot;Oh&#8230;&quot; Ela estava ficando cada vez mais aflita. Finalmente, conseguiu enxergar que aquela afli&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tinha a menor realidade. Depois comentou: &quot;Se isso &eacute; tudo o que existe, de que maneira consertarei meu marido?&quot;.<\/p>\n<p>Bem, a quest&atilde;o &eacute; que constru&iacute;mos um elaborado sistema de emo&ccedil;&otilde;es e dramas, por crermos no tempo que tem passado, presente e futuro. Todos fazem ou fizeram isso. E, creiam, n&atilde;o &eacute; nada f&aacute;cil. As pessoas colocam-se num tal estado \u2014 eu tamb&eacute;m passei por essa situa&ccedil;&atilde;o \u2014 que mal conseguem agir; n&atilde;o conseguem tomar conta de suas obriga&ccedil;&otilde;es e precisam ficar doentes, f&iacute;sica e mentalmente.<\/p>\n<p>Bem, isso quer dizer que n&atilde;o faremos nada se ficarmos aflitos? N&atilde;o, fazemos o que fazemos. Fazemos o que fazemos de modo definitivo e, a cada momento, estamos fazendo o melhor que nos &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Por&eacute;m, a a&ccedil;&atilde;o com base na confus&atilde;o e na ignor&acirc;ncia leva diretamente a mais confus&otilde;es, afli&ccedil;&otilde;es e ignor&acirc;ncia. N&atilde;o &eacute; nem bom, nem mau, e todos n&oacute;s procedemos assim, sem exce&ccedil;&atilde;o. Portanto, em nossa ignor&acirc;ncia, em nossa cren&ccedil;a de que a vida &eacute; linear \u2014 &quot;Isso aconteceu ontem&quot; e &quot;Olha s&oacute;, vai continuar do mesmo jeito por muito tempo&quot;<\/p>\n<p>\u2014 vivemos num mundo de queixas como v&iacute;timas ou agressores, no que parece ser um mundo hostil.<\/p>\n<p>Entretanto, apenas uma coisa, uma &uacute;nica coisa cria esse mundo hostil: nossos pensamentos, nossas imagens e fantasias. Elas criam um mundo de tempo, espa&ccedil;o e sofrimento. No entanto, se tentarmos encontrar o passado e o futuro que nossos pensamentos alimentam, descobriremos que &eacute; imposs&iacute;vel, pois s&atilde;o inapreens&iacute;veis.<\/p>\n<p>Um certo aluno me disse que vem subindo as paredes desde que me ouviu falar sobre a quest&atilde;o do tempo, porque est&aacute; em busca de seu passado. Comentou: &quot;Se n&atilde;o existe passado e futuro e n&atilde;o consigo nem apreender o presente \u2014 quer dizer, tento apreend&ecirc;-lo e ele j&aacute; se foi \u2014ent&atilde;o quem sou?&quot;. Boa pergunta. Todos podem se fazer essa quest&atilde;o. &quot;Quem sou eu?&quot;<\/p>\n<p>Tomemos um pensamento t&iacute;pico, daquele que todos t&ecirc;m: &quot;Bill me d&aacute; nos nervos&quot;. J&aacute; existe Bill e eu, e essa sensa&ccedil;&atilde;o nos nervos, essa emo&ccedil;&atilde;o. Bill, eu e a raiva. Est&aacute; tudo exposto. Neste preciso momento criei Bill, criei eu e, de algum jeito, a partir disso, existe esse inc&ocirc;modo.<\/p>\n<p>Bem, vamos, por&eacute;m, diz&ecirc;-lo de outro jeito. &quot;EuIBillraiva.&quot; Tudo junto. &quot;EuBillraiva.&quot; S&oacute; a experi&ecirc;ncia, como &eacute;, justamente agora. E sempre descobriremos que, se somos apenas a experi&ecirc;ncia, a solu&ccedil;&atilde;o est&aacute; contida nela. E nem sequer contida nela; a experi&ecirc;ncia em si e a solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o duas coisas separadas. Por&eacute;m, no minuto em que dizemos: &quot;Ela me d&aacute; nos nervos&quot;; &quot;Ele me enche&quot;; &quot;Ele fez isso&quot;; &quot;Ela fez aquilo&quot;, &quot;Isso me deixa nervosa, aborrecida, me magoa realmente&quot;, ent&atilde;o existe voc&ecirc;, a outra pessoa, e aquilo que voc&ecirc; est&aacute; remoendo. Ao inv&eacute;s disso: n&atilde;o existe coisa alguma, exceto este momento agora, perfeitamente inapreens&iacute;vel, euvoceraiva. Ser apenas isso: a solu&ccedil;&atilde;o aqui-agora torna-se &oacute;bvia.<\/p>\n<p>Mas, enquanto ficarmos girando em nossos pensamentos, por exemplo, &quot;Bill me d&aacute; nos nervos&quot;, estamos diante de um problema. Voc&ecirc;s notam que a senten&ccedil;a tem um come&ccedil;o, um meio e um fim e, dela, vem esse mundo hostil, amea&ccedil;ador e separado de mim.<\/p>\n<p>Vejam, n&atilde;o h&aacute; nada errado com nossas senten&ccedil;as. Todos precisamos viver num mundo relativo; parece que tem caf&eacute; da manh&atilde;, almo&ccedil;o e jantar. N&atilde;o h&aacute; nada de errado com o mundo conceitual relativo. O que &eacute; &quot;errado&quot; &eacute; n&atilde;o o enxergarmos tal como &eacute;. Quando isso acontece, pegamos nossos amigos e parceiros de maneira muito parecida com o modo como sintonizamos um canal de TV.<\/p>\n<p>Por exemplo, encontramos uma bela mo&ccedil;a e dizemos:<br \/>\n&quot;Hum, ela se parece com o Canal X e sempre fico calmo e tranq&uuml;ilo quando assisto a esse canal. Sei o que esperar dele, um pouco deste tipo de coisa e daquele, alguns notici&aacute;rios, posso ficar bastante &agrave; vontade com essa pessoa tipo Canal X&quot;. Ent&atilde;o, ficamos juntos e, durante um certo tempo, tudo corre bem. H&aacute; muita facilidade e acordo. Parece que &eacute; uma &oacute;tima rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Mas, oh espanto, o que sucede depois de algum tempo? De certa maneira, o Canal X mudou para o Canal Y, com muita irrita&ccedil;&atilde;o e raiva; &agrave;s vezes, para o Z, com sonhos e fantasias. O que estou fazendo durante esse tempo todo? Vejam, eu estava fingindo que era apenas uma pessoa Canal X, mas n&atilde;o, parece que passo muito tempo no Canal A, onde vejo desenhos animados para crian&ccedil;as, principalmente sobre o pr&iacute;ncipe e a princesa dos meus sonhos. Por&eacute;m, tenho outros canais ~ com o o B, com desastres iminentes, depress&atilde;o, fugas. As vezes, justo quando estou soturno, depressivo e retra&iacute;do, ela est&aacute; fantasiando, toda leve. N&atilde;o combina muito bem. Outras vezes, parece que todos os canais est&atilde;o no ar ao mesmo tempo. Temos uma grande confus&atilde;o, muito barulho, e um ou os dois parceiros fogem ou recuam.<\/p>\n<p>O que fazer? Estamos agora em meio a nossa habitual confus&atilde;o, nosso cen&aacute;rio costumeiro. Temos de tentar dar um jeito nisso, n&atilde;o &eacute;? De algum modo, antes tudo era feliz, por isso, o que temos a fazer, evidentemente, &eacute; levar-nos ambos de volta ao Canal X. E dizemos para ela: &quot;Voc&ecirc; tem de ser deste jeito; voc&ecirc; deve fazer isso; essa &eacute; a pessoa por quem me apaixonei&quot;. Por um certo tempo, os dois fazem um esfor&ccedil;o, porque no Canal X reina uma paz artificial (e muito t&eacute;dio). Na realidade, a maioria dos casamentos parece assim depois de algum tempo. Algu&eacute;m comentou que &eacute; poss&iacute;vel distinguir quem &eacute; casado at&eacute; num restaurante: &eacute; o casal que n&atilde;o conversa.<\/p>\n<p>&Eacute; interessante que a pergunta que ningu&eacute;m faz, quando as esta&ccedil;&otilde;es ficam cruzadas, seja: &quot;Quem ligou os canais? Quem &eacute; a fonte de toda essa algazarra?&quot;. Em certo sentido, n&atilde;o h&aacute; nada de errado com os canais, mas nunca perguntamos quem os ligou. Quem aciona nossas a&ccedil;&otilde;es? Qual &eacute; a fonte? Essa &eacute; a pergunta-chave a ser feita.<\/p>\n<p>Se n&atilde;o fizermos essa indaga&ccedil;&atilde;o e o sofrimento piorar de maneira consider&aacute;vel, pode ser que simplesmente abandonemos a rela&ccedil;&atilde;o e passemos a buscar uma outra, tipo Canal X: porque se esse &eacute; o canal de que gostamos, nossa tend&ecirc;ncia ser&aacute; ir em busca de um outro igual. Tudo isso serve n&atilde;o s&oacute; para rela&ccedil;&otilde;es &iacute;ntimas, mas tamb&eacute;m para as que temos no escrit&oacute;rio, durante as f&eacute;rias, em qualquer lugar. &Eacute; isto que fazemos.<\/p>\n<p>Ap&oacute;s v&aacute;rios epis&oacute;dios infelizes como esses, talvez comecemos a considerar a totalidade de nossa vida. Uma vez ou outra, uma pessoa realmente rara e afortunada come&ccedil;a a examinar toda essa quest&atilde;o do que est&aacute; fazendo com a pr&oacute;pria vida e a formular as quest&otilde;es essenciais: &quot;Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?&quot;.<\/p>\n<p>Pode ocorrer que descubramos, para nossa grande tristeza, que depois de termos vivido com algu&eacute;m por muito tempo nunca a conhecemos de fato, sequer a encontramos. Isso aconteceu comigo por quinze anos. H&aacute; quem viva uma exist&ecirc;ncia inteira sem jamais ter encontrado o parceiro. De vez em quando seus canais encontram-se, mas essas pessoas nunca.<\/p>\n<p>Pode ser que tenhamos sorte e encontremos um bom professor. Na tradi&ccedil;&atilde;o budista o ensinamento de Buda diz:<br \/>\n&quot;Elimina completamente toda dor. Essa &eacute; a verdade, n&atilde;o &eacute; mentira&quot;. Talvez n&atilde;o tenhamos a menor no&ccedil;&atilde;o do que significa, mas, se estivermos entre os afortunados, poderemos come&ccedil;ar uma pr&aacute;tica inteligente no esfor&ccedil;o de entender o ensinamento.<\/p>\n<p>Um zazen inteligente significa trocas sutis constantes, graduais, primeiro nos n&iacute;veis mais grosseiros, depois para os mais sutis, e para mais sutis ainda, e assim por diante. Inicia-se enxergando atrav&eacute;s do que denominamos personalidade, a respeito da qual estivemos falando. Come&ccedil;amos a olhar de fato nossas mentes, nossos corpos, nossos pensamentos, as percep&ccedil;&otilde;es sensoriais, tudo que acredit&aacute;vamos ser nossa pessoa.<\/p>\n<p>A primeira parte de nossa pr&aacute;tica &eacute; como se estiv&eacute;ssemos no meio de uma rua apinhada e confusa; mal conseguimos localizar um espa&ccedil;o vazio e j&aacute; todo o tr&acirc;nsito est&aacute; se dirigindo para aquele local. Confunde e assusta. &Eacute; assim que a vida se parece para a maioria. Estamos t&atilde;o ocupados em sair dos apertos que est&atilde;o vindo em nossa dire&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o conseguimos compreender como estamos presos naquele tr&acirc;nsito. Mas, se observarmos durante um certo tempo, come&ccedil;aremos a ver que existem espa&ccedil;os aqui e ali no tr&acirc;nsito. Pode ser at&eacute; que consigamos chegar na cal&ccedil;ada para ter uma vis&atilde;o mais objetiva. E, independente do qu&atilde;o fechado for esse engarrafamento, come&ccedil;aremos a notar algumas &aacute;reas abertas.<\/p>\n<p>O terceiro passo, ent&atilde;o, pode ser entrar em um edif&iacute;cio e subir at&eacute; o 3\u00b0andar, para olhar o tr&aacute;fego l&aacute; embaixo. Agora ele realmente parece outro. Podemos enxergar suas dire&ccedil;&otilde;es, para onde est&aacute; se encaminhando. Notamos que, de certo modo, n&atilde;o tem nada que ver conosco, apenas est&aacute; acontecendo.<\/p>\n<p>Se continuarmos subindo cada vez mais alto, terminaremos vendo que o tr&acirc;nsito &eacute; apenas padr&otilde;es, e isso &eacute; lindo, em vez de assustador. &Eacute; s&oacute; o que &eacute;, e come&ccedil;amos a observ&aacute;-lo como um magn&iacute;fico panorama. Come&ccedil;amos a ver que as &aacute;reas de dificuldade fazem parte do todo e que n&atilde;o s&atilde;o, necessariamente, boas ou m&aacute;s; s&atilde;o s&oacute; parte da vida. Ap&oacute;s muitos anos de pr&aacute;tica, atingiremos uma posi&ccedil;&atilde;o de onde poderemos apenas desfrutar aquilo que vemos, de n&oacute;s mesmos e de tudo que existe tal e qual &eacute;. Podemos desfrutar tudo sem sermos capturados por esse movimento; assistimos e desfrutamos sua imperman&ecirc;ncia, seu fluir.<\/p>\n<p>Avan&ccedil;amos mais ainda, depois, e atingimos o est&aacute;gio de testemunhas de nossas vidas. Tudo est&aacute; acontecendo, tudo &eacute; desfrut&aacute;vel e n&atilde;o estamos presos a nada. No est&aacute;gio final de nossa pr&aacute;tica, estamos de volta &agrave; rua, ao mercado e ao burburinho. Uma vez, por&eacute;m, que vemos a confus&atilde;o como ela &eacute;, estamos livres dela. Podemos am&aacute;-la, desfrut&aacute;-la, servi-la, e nossa vida &eacute; vista como aquilo que sempre foi: livre e liberta.<\/p>\n<p>Aquele primeiro lugar, onde estamos presos bem no meio do tr&acirc;nsito e da confus&atilde;o, &eacute; o ponto de partida para a maioria que se disp&otilde;e a uma pr&aacute;tica. &Eacute; desse ponto de vista que muitos enxergam as pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es como confusas, desconcertantes, amargas, pois estamos esperando que elas sejam aquele lugar onde podemos descansar do tr&aacute;fego.<\/p>\n<p>Contudo, ao tentarmos a pr&aacute;tica com nossas rela&ccedil;&otilde;es, come&ccedil;aremos a observar que s&atilde;o nosso melhor caminho de crescimento. &Eacute; nelas que podemos enxergar o que na realidade s&atilde;o nossa mente, nosso corpo, nossos sentidos, nossos pensamentos. Por que os relacionamentos constituem uma pr&aacute;tica t&atilde;o excelente? Por que nos ajudam a entrar naquilo que chamamos a lenta morte do ego? Porque, al&eacute;m de nossa pr&aacute;tica formal de sentar, n&atilde;o h&aacute; nada que supere os relacionamentos em termos de capacidade de demonstrar-nos onde estamos parados e ao que estamos nos apegando. Enquanto nossos bot&otilde;es estiverem sendo pressionados, temos grandes oportunidades de aprender e de crescer. Por isso, o relacionamento &eacute; uma grande d&aacute;diva, n&atilde;o porque nos torne felizes \u2014 com freq&uuml;&ecirc;ncia isso n&atilde;o acontece \u2014 mas porque qualquer relacionamento &iacute;ntimo, se o virmos como pr&aacute;tica, &eacute; o espelho mais n&iacute;tido que podemos encontrar.<\/p>\n<p>Podemos afirmar que eles s&atilde;o a porta aberta para nosso verdadeiro eu, o n&atilde;o-eu. Presas do medo, estamos sempre batendo a uma porta pintada, composta de nossos sonhos, nossas esperan&ccedil;as e ambi&ccedil;&otilde;es; e evitamos a dor do port&atilde;o sem pod&atilde;o, a porta aberta de sermos e estarmos com o que &eacute;, seja o que for, aqui e agora.<\/p>\n<p>Para mim &eacute; interessante constatar que as pessoas n&atilde;o enxergam qualquer conex&atilde;o entre sua infelicidade e suas queixas, sua sensa&ccedil;&atilde;o de v&iacute;timas, a sensa&ccedil;&atilde;o de que todo mundo est&aacute; fazendo alguma coisa contra elas. &Eacute; incr&iacute;vel. Quantas vezes essa liga&ccedil;&atilde;o foi indicada nas dharma palestras? Quantas vezes? E, n&atilde;o obstante, nosso medo nos impede de enxergar.<\/p>\n<p>S&oacute; as pessoas inteligentes, vigorosas e pacientes acabar&atilde;o descobrindo aquele posto fixo em torno do qual o universo gira. Infelizmente, a vida para quem n&atilde;o consegue ver de frente o momento presente &eacute; sempre violenta e punitiva; n&atilde;o &eacute; agrad&aacute;vel, e n&atilde;o se liga a m&iacute;nima para ela. A verdade, por&eacute;m, &eacute; que n&atilde;o &eacute; a vida e, sim, n&oacute;s mesmos que criamos essa infelicidade. Se de fato recusarmo-nos a considerar aquilo que estamos fazendo \u2014 e lamento como &eacute; reduzido o n&uacute;mero de pessoas que far&atilde;o isso \u2014ent&atilde;o seremos punidos por nossas vidas. <\/p>\n<p>Ficaremos nos perguntando por que ela &eacute; t&atilde;o dura conosco. Para quem, no entanto, praticar com paci&ecirc;ncia, sentar, sentar, sentar, e instalar a pr&aacute;tica com firmeza em sua vida di&aacute;ria, para ele haver&aacute;, cada vez mais, um sabor de alegria numa rela&ccedil;&atilde;o em que o n&atilde;o-eu se encontra com o n&atilde;o-eu. Em outras palavras, a abertura encontra a abertura. &Eacute; muito raro, mas acontece. E quando ocorre, n&atilde;o sei sequer se podemos aplicar o termo &quot;relacionamento&quot;. Quem est&aacute; ali para se relacionar com quem? N&atilde;o se pode dizer que o n&atilde;o-eu se relaciona com o n&atilde;o-eu. Para esse estado, portanto, n&atilde;o h&aacute; palavras. Nesse amor e compaix&atilde;o atemporais, como disse o Terceiro Patriarca: &quot;N&atilde;o existe ontem, n&atilde;o existe amanh&atilde;, n&atilde;o existe hoje&quot;.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Praticando nas rela&ccedil;&otilde;es Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; A mente do passado &eacute; inapreens&iacute;vel; A mente do futuro &eacute; inapreens&iacute;vel; A mente do presente &eacute; inapreens&iacute;vel. 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