{"id":5037,"date":"2018-06-12T12:27:04","date_gmt":"2018-06-12T14:27:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5037"},"modified":"2018-06-12T12:27:04","modified_gmt":"2018-06-12T14:27:04","slug":"tragedia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/tragedia\/","title":{"rendered":"Tragedia"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5038\" rel=\"attachment wp-att-5038\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5038\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia-300x225.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia-768x576.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia-400x300.jpg 400w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tragedia.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Trag&eacute;dia<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/sempre-zen\/\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/div>\n<hr \/>\n<p>Segundo o dicion&aacute;rio, trag&eacute;dia &eacute; &quot;uma obra teatral em verso, de car&aacute;ter grandioso, dram&aacute;tico e funesto, em que interv&ecirc;m personagens ilustres ou her&oacute;icas, que &eacute; capaz de infundir terror e piedade&quot;. Do ponto de vista habitual, a vida &eacute; uma trag&eacute;dia, mas, apesar disso, levamo-la como uma in&uacute;til tentativa de nos escondermos da trag&eacute;dia. Cada um de n&oacute;s &eacute; um protagonista desempenhando seus pap&eacute;is principais em palquinhos particulares. Cada um de n&oacute;s sente que interv&eacute;m e, apesar de n&atilde;o querermos admiti-lo, ela tem um car&aacute;ter dram&aacute;tico e funesto. Al&eacute;m de quaisquer acidentes que possamos encontrar na vida, existe um, no final, que ningu&eacute;m pode evitar. Fomos feitos para ele e, a partir do momento de nossa concep&ccedil;&atilde;o, est&aacute; dada a partida para atingi-lo. De um ponto de vista pessoal, isso &eacute; uma trag&eacute;dia. Por essa raz&atilde;o, desperdi&ccedil;amos nossa vida numa batalha sem sentido para evitar esse fim. Essa batalha abortada &eacute; a verdadeira trag&eacute;dia.<\/p>\n<p>Vamos imaginar que moremos &agrave; beira-mar num clima ameno, onde poder&iacute;amos nadar o ano inteiro, mas as &aacute;guas est&atilde;o infestadas de tubar&otilde;es. Se formos nadadores h&aacute;beis, iremos pesquisar as &aacute;reas onde se concentram para os evitarmos. Mas sendo os tubar&otilde;es o que s&atilde;o, mais cedo ou mais tarde, terminar&atilde;o encontrando nossas &aacute;reas de recrea&ccedil;&atilde;o e nos descobrir&atilde;o. Jamais teremos certeza. Se um tubar&atilde;o n&atilde;o nos pegar, as ondas gigantescas o far&atilde;o. Pode ser que nademos todos os dias de nossas vidas, sem nunca encontrar um s&oacute; tubar&atilde;o; no entanto, a preocupa&ccedil;&atilde;o com essa possibilidade pode estragar tudo.<\/p>\n<p>Todos j&aacute; t&ecirc;m uma id&eacute;ia de onde os tubar&otilde;es possam estar em nossas vidas e gastamos a maior parte de nossa energia, preocupando-nos com eles. &Eacute; sensato precavermo-nos contra os danos f&iacute;sicos; compramos seguros, vacinamos as crian&ccedil;as, baixamos nosso n&iacute;vel de colesterol. Mas existe um erro que grassa em surdina nos nossos pensamentos. Qual &eacute; ele?<\/p>\n<p>Qual &eacute; a diferen&ccedil;a entre tomar provid&ecirc;ncias razo&aacute;veis e a preocupa&ccedil;&atilde;o incessante com pensamentos que rodopiam vertiginosamente? H&aacute; uma famosa par&aacute;bola budista: um homem estava sendo ca&ccedil;ado por um tigre. Em seu desespero, desceu pela beira de um rochedo e agarrou-se a um arbusto; enquanto aquele tigre vinha se aproximando por cima, ele olhou para baixo e viu um outro tigre l&aacute; embaixo, s&oacute; esperando que ele ca&iacute;sse. Para culminar, dois ratos estavam roendo o tronco do arbusto. Naquele instante, viu alguns morangos silvestres e, segurando-se por uma das m&atilde;os, colhe a fruta e a come. Era deliciosa! O que aconteceu com o homem afinal? Todos sabemos, claro. Foi uma trag&eacute;dia o que lhe aconteceu?&quot;<\/p>\n<p>Observe que o homem ca&ccedil;ado pelo tigre n&atilde;o se deita e diz: &quot;Oh, linda criatura. Somos um s&oacute;. Por favor, coma-me&quot;. A hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; sobre ser est&uacute;pido, muito embora, num certo n&iacute;vel, homem e tigre sejam um s&oacute;. O homem fez o melhor que p&ocirc;de para se proteger, como qualquer um de n&oacute;s faria. N&atilde;o obstante, se estamos pendurados no abismo, segurando-nos apenas num arbusto, podemos ou desperdi&ccedil;ar nossos &uacute;ltimos momentos ou desfrut&aacute;-los. N&atilde;o seria por acaso cada momento o &uacute;ltimo? N&atilde;o h&aacute; outros momentos al&eacute;m deste.<\/p>\n<p>&Eacute; sensato cuidarmos de nossa mente e de nosso corpo. O problema come&ccedil;a, quando nos identificamos exclusivamente com eles. Poucas pessoas na hist&oacute;ria da humanidade identificaram-se com outras formas de vida tanto quanto com as suas pr&oacute;prias. Para elas, n&atilde;o existe trag&eacute;dia porque n&atilde;o existe advers&aacute;rio em seu caso. Se somos unos com a vida \u2014 independente de quem seja, do que seja, do que fa&ccedil;a n&atilde;o existem protagonista, advers&aacute;rio e trag&eacute;dia. E o morango pode ser saboreado.<\/p>\n<p>Quando nossa pr&aacute;tica &eacute; constante, firme, intensa, podemos come&ccedil;ar a perceber o equ&iacute;voco de uma identifica&ccedil;&atilde;o exclusiva com a mente e o corpo. (Claro que enxergaremos isso em graus vari&aacute;veis e, &agrave;s vezes, nem o veremos.) N&atilde;o se trata de uma compreens&atilde;o intelectual. A f&iacute;sica moderna deixa claro que somos &quot;um&quot;, que somos apenas manifesta&ccedil;&otilde;es diferentes de uma s&oacute; energia e isso n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil de compreender-se intelectualmente. Entretanto, na qualidade de seres humanos dotados de mente, corpo e emo&ccedil;&otilde;es, quanto sabemos disso, de fato, com cada c&eacute;lula de nosso corpo?<\/p>\n<p>Quando o cerco das identifica&ccedil;&otilde;es com a mente e o corpo afrouxa um pouco e, at&eacute; certo ponto, &eacute; visto tal como &eacute;, ficamos mais receptivos &agrave;s percep&ccedil;&otilde;es dos outros, mesmo quando n&atilde;o concordamos com elas, mesmo quando &eacute; preciso que nos oponhamos a elas. Cada vez mais, nossa atitude pode incluir o outro lado da moeda, o ponto de vista da outra pessoa. Quando isso acontece, n&atilde;o h&aacute; um protagonista diante de um advers&aacute;rio.<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica &eacute; o ver cada vez atrav&eacute;s da fic&ccedil;&atilde;o dessas identifica&ccedil;&otilde;es exclusivas, que &eacute; a enfermidade que dita nossas a&ccedil;&otilde;es. Quando fazemos zazen, temos uma preciosa oportunidade para ficar de frente para n&oacute;s mesmos, para enxergar a natureza do falso pensamento que cria a ilus&atilde;o de um eu separado.<\/p>\n<p>A imensa sagacidade da mente humana pode funcionar muito bem quando desafiada; mas, sob o impacto da invas&atilde;o que &eacute; um sesshin, sentar-se im&oacute;vel durante horas, ficam claras como cristal a desonestidade e as tentativas de fuga da mente. Come&ccedil;a tamb&eacute;m a ser sentida a tens&atilde;o criada pela sagacidade mental. Pode ser um grande choque darmo-nos conta de que n&atilde;o existe nada fora de n&oacute;s, atacando-nos. S&atilde;o nossos pensamentos, necessidades e apegos que nos assaltam, frutos de nossa identifica&ccedil;&atilde;o com pensamentos falsos que, por sua vez, d&atilde;o margem a uma vida autocontida, separada e infeliz. Quando praticamos diariamente o sentar, podemos evitar &agrave;s vezes essa percep&ccedil;&atilde;o; mas ao sentarmos durante horas por dia &eacute; dif&iacute;cil evit&aacute;-la e, quanto mais dias sentarmos, mais dif&iacute;cil ser&aacute; esquivar-se a ela.<\/p>\n<p>Conforme formos praticando com paci&ecirc;ncia (vivenciando nossa respira&ccedil;&atilde;o, tomando consci&ecirc;ncia do processo de pensamento), nasce a percep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o do intelecto, mas das pr&oacute;prias c&eacute;lulas de nosso corpo. O falso pensamento evapora-se como nuvens ao calor do sol e encontramo-nos, ent&atilde;o, em meio ao sofrimento como uma abertura, como uma espacialidade e como uma alegria que nunca hav&iacute;amos saboreado antes.<\/p>\n<p>Certa vez algu&eacute;m insistiu comigo nesse ponto: &quot;Isso ainda n&atilde;o resolve o problema da morte. N&oacute;s continuamos morrendo&quot;. De fato. Se, no momento que antecede imediatamente a morte, pudermos dizer: &quot;Mas que morango delicioso!&quot;, ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; problema. Se o tubar&atilde;o nos comer, ent&atilde;o ele ter&aacute; tido uma excelente refei&ccedil;&atilde;o. E talvez o pescador que o pescar. Do ponto de vista do tubar&atilde;o &eacute; uma trag&eacute;dia. Do ponto de vista da vida, n&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o estou sugerindo um novo ideal para ser perseguido. O homem que foge do tigre, tremendo de medo, &eacute; o dharma. Aquilo que voc&ecirc;s s&atilde;o, &eacute; dharma. Portanto, quando estiverem no sentar, e lutarem e se sentirem infelizes ou confusos, sejam apenas isso. Se forem aben&ccedil;oados, sejam apenas. Por&eacute;m, n&atilde;o se apeguem. Assim, cada momento ser&aacute; s&oacute; o que cada momento &eacute;. Com uma pr&aacute;tica paciente como essa, enxergamos o equ&iacute;voco de nossa identifica&ccedil;&atilde;o exclusiva com a mente e o corpo, e come&ccedil;amos a compreender.<\/p>\n<p>A trag&eacute;dia sempre inclui um protagonista envolvido numa luta. Todavia n&atilde;o temos de ser protagonistas envolvidos em lutas intermin&aacute;veis com for&ccedil;as externas a n&oacute;s. A luta &eacute; travada com nossas pr&oacute;prias interpreta&ccedil;&otilde;es, que terminar&atilde;o em ru&iacute;na apenas se assim as virmos. Como diz o Sutra Cora&ccedil;&atilde;o: &quot;N&atilde;o h&aacute; velhice e morte, e n&atilde;o h&aacute; o fim para a velhice e para a morte&#8230; N&atilde;o h&aacute; sofrimento e n&atilde;o h&aacute; fim para o sofrimento&quot;. O homem que &eacute; ca&ccedil;ado pelo tigre &eacute; enfim devorado. Certo. Sem problemas.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trag&eacute;dia Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; Segundo o dicion&aacute;rio, trag&eacute;dia &eacute; &quot;uma obra teatral em verso, de car&aacute;ter grandioso, dram&aacute;tico e funesto, em que interv&ecirc;m personagens ilustres ou her&oacute;icas, que &eacute; capaz de infundir terror e &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/tragedia\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5038,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5037","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5037"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5037\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5039,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5037\/revisions\/5039"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5038"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}