{"id":5085,"date":"2018-06-13T12:10:47","date_gmt":"2018-06-13T14:10:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5085"},"modified":"2018-06-13T12:12:46","modified_gmt":"2018-06-13T14:12:46","slug":"o-fio-da-lamina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-fio-da-lamina\/","title":{"rendered":"O fio da l\u00e2mina"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-fio-da-lamina\/o-fio-da-lamina-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5087\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-fio-da-l\u00e2mina.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"195\" class=\"alignleft size-full wp-image-5087\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><br \/>\n<b>O fio da l&acirc;mina<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/sempre-zen\/\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/div>\n<hr \/>\n<p>Todos n&oacute;s, seres humanos, acreditamos que existe algo a ser realizado, a ser entendido, algum lugar aonde ir. Essa ilus&atilde;o mesma, nascida do fato de possuirmos uma mente humana, &eacute; o problema. A vida, na realidade, &eacute; uma quest&atilde;o muito simples. A qualquer momento determinado do tempo estamos ouvindo, vendo, cheirando, tocando, pensando. Em outros termos, h&aacute; um input sensorial; interpretamo-lo e tudo mais aparece.<\/p>\n<p>Ao estarmos mergulhados na vida h&aacute; simplesmente o ver, o ouvir, o cheirar, o tocar, o pensar (e n&atilde;o estou me referindo a pensamentos centrados na pr&oacute;pria pessoa). Quando vivemos dessa maneira, n&atilde;o existem problemas. Nem poderiam existir. Somos apenas isso. H&aacute; vida e estamos mergulhados nela. N&atilde;o estamos separados dela. Somos apenas o que a vida &eacute;, porque estamos sendo o que ela &eacute;. Ouvimos, pensamos, vemos, cheiramos, e assim por diante. Estamos mergulhados na vida e n&atilde;o existem problemas. A vida flui adiante. N&atilde;o h&aacute; o que perceber porque, quando somos a pr&oacute;pria vida, n&atilde;o temos indaga&ccedil;&otilde;es a respeito. No entanto, n&atilde;o &eacute; assim que nossas vidas s&atilde;o e, por isso, temos tantas perguntas.<\/p>\n<p>Quando n&atilde;o estamos vivendo nossos equ&iacute;vocos pessoais, a vida &eacute; uma totalidade sem fronteiras, na qual estamos t&atilde;o imersos que n&atilde;o existem problemas. Mas nem sempre nos sentimos imersos porque, embora a vida seja apenas vida, quando parece amea&ccedil;ar nossas coloca&ccedil;&otilde;es pessoais, ficamos aborrecidos e recuamos. Por exemplo, quando acontece algo de que n&atilde;o gostamos, ou quando algu&eacute;m nos faz alguma coisa de que n&atilde;o gostamos, ou nosso parceiro n&atilde;o age como gostar&iacute;amos, enfim, existem milh&otilde;es de detalhes que podem aborrecer um ser humano. Baseiam-se no fato de que, repentinamente, a vida n&atilde;o &eacute; mais s&oacute; a vida (ver, ouvir, tocar, cheirar, pensar). Separamo-nos e rompemos a totalidade sem fronteiras porque nos sentimos amea&ccedil;ados. Agora a vida est&aacute; do lado de l&aacute; e eu estou aqui, pensando sobre ela. N&atilde;o estou imersa em nada mais. O acontecimento doloroso ocorreu do lado de l&aacute; e quero pensar a respeito dele do lado de c&aacute;, para conseguir criar uma forma de escapar ao sofrimento que estou sentindo. Por isso, agora, dividimos a vida em dois setores: o lado de c&aacute; e o lado de l&aacute;. Na B&iacute;blia &eacute; chamado &quot;ser expulso do Jardim do &Eacute;den&quot;. O Jardim do &Eacute;den &eacute; uma vida de simplicidade intacta. Todos n&oacute;s deparamos com ela de vez em quando. As vezes, depois de um sesshin, essa simplicidade &eacute; muito &oacute;bvia e, por um certo tempo, sabemos que a vida n&atilde;o &eacute; problema.<br \/>\nMas, na maior parte do tempo, temos a ilus&atilde;o de que a vida do lado de l&aacute; est&aacute; nos oferecendo um problema do lado de c&aacute;. A unidade sem fronteiras &eacute; rompida (ou assim parece). Temos ent&atilde;o uma vida atribulada com quest&otilde;es: &quot;Quem sou eu? O que &eacute; a vida? Como arranjar isto para que eu consiga me sentir melhor?&quot;. Parece que estamos rodeados por pessoas e acontecimentos que precisamos controlar e acertar, por nos sentirmos &agrave; parte. Quando come&ccedil;amos a analisar a vida, a pensar nela, a nos preocupar e nos atormentar com ela, tentando uma uni&atilde;o, arranjamos todas as modalidades de solu&ccedil;&otilde;es artificiais, quando o cerne da quest&atilde;o &eacute; que, desde o mais remoto princ&iacute;pio, n&atilde;o h&aacute; nada que necessite ser resolvido. Por&eacute;m, n&atilde;o podemos enxergar essa unidade perfeita porque nossa dist&acirc;ncia a oculta de n&oacute;s. Nossa vida &eacute; perfeita? Ningu&eacute;m acredita nisso!<\/p>\n<p>Assim, existe a vida na qual estamos verdadeiramente imersos (uma vez que tudo que somos &eacute; pensar, ver ouvir, cheirar, tocar) e &agrave; qual acrescentamos pensamentos referentes a n&oacute;s, do tipo &quot;mas isso n&atilde;o me conv&eacute;m&quot;. A&iacute; n&atilde;o podemos mais ter a consci&ecirc;ncia de nossa unidade com a vida. Acrescentamos algo (nossa rea&ccedil;&atilde;o pessoal) e, ao faz&ecirc;-lo, come&ccedil;am a ansiedade e a tens&atilde;o. Fazemos esses acr&eacute;scimos na m&eacute;dia de um a cada cinco minutos. Esse quadro n&atilde;o &eacute; l&aacute; muito animador&#8230;<\/p>\n<p>Contudo, o que pretendo dizer com o fio da l&acirc;mina? O que fazer para unir essas divis&otilde;es aparentemente distintas da vida &eacute; o que eu chamo de caminhar pelo fio da l&acirc;mina. Ai elas se re&uacute;nem. Mas o que &eacute; o fio da l&acirc;mina?<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica refere-se a entender o fio da l&acirc;mina e a saber como trabalhar com ele. Temos sempre a ilus&atilde;o de estarmos separados, ilus&atilde;o que n&oacute;s mesmos criamos. Quando estamos amea&ccedil;ados ou quando a vida n&atilde;o nos conv&eacute;m, come&ccedil;amos a nos preocupar, a pensar sobre uma poss&iacute;vel solu&ccedil;&atilde;o. Sem exce&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; quem n&atilde;o fa&ccedil;a o mesmo. N&atilde;o gostamos de estar com a vida como ela &eacute;, porque pode incluir sofrimento, o que para n&oacute;s &eacute; inaceit&aacute;vel. Seja uma enfermidade grave, ou uma cr&iacute;tica sem import&acirc;ncia, seja sentir-se s&oacute; ou desapontado, isso &eacute; inaceit&aacute;vel para n&oacute;s. N&atilde;o temos qualquer inten&ccedil;&atilde;o de aceitar esse estado de coisas ou de apenas s&ecirc;-lo, se houver algo que possamos fazer a respeito. Queremos consertar o problema, resolv&ecirc;-lo, livrarmo-nos dele. E nesse instante que precisamos entender a pr&aacute;tica de caminhar sobre o fio da l&acirc;mina. Precisamos compreend&ecirc;4o no ponto em que, toda vez, come&ccedil;amos a nos sentir transtornados (ou com raiva, irritados, magoados, enciumados).<\/p>\n<p>Primeiro precisamos perceber que estamos aborrecidos. Muitas pessoas sequer percebem que &eacute; isso que est&aacute; acontecendo. Assim, o primeiro passo &eacute; tomar consci&ecirc;ncia de que existe a sensa&ccedil;&atilde;o de aborrecimento. Quando fazemos o zazen e come&ccedil;amos a conhecer nossa mente e rea&ccedil;&otilde;es, come&ccedil;amos tamb&eacute;m a ficar cientes de que, na verdade, estamos muito aborrecidos.<\/p>\n<p>Esse &eacute; o primeiro passo, contudo n&atilde;o &eacute; o fio da l&acirc;mina, ainda, pois estamos separados, mas agora sabemos disso. Como integrar esses aspectos separados de nossas vidas? Faz&ecirc;-lo &eacute; andar sobre o fio da l&acirc;mina. Mais uma vez, precisamos ser o que basicamente n&oacute;s somos, ou seja, ver, tocar, ouvir, cheirar; temos de experimentar tudo que nossa vida &eacute;, justo neste segundo. Se estamos aborrecidos, temos de vivenciar nosso aborrecimento. Se estamos com medo, temos de vivenciar o estar com medo. Se estamos com ci&uacute;me, temos de vivenci&aacute;-lo. Esse vivenciar &eacute; f&iacute;sico; n&atilde;o tem nada que ver com os pensamentos que giram na cabe&ccedil;a a respeito de estarmos aborrecidos.<\/p>\n<p>Quando estamos numa experi&ecirc;ncia n&atilde;o-verbal, estamos andando no fio da l&acirc;mina: somos o momento presente. Ao andarmos pelo fio da l&acirc;mina, os estados agonizantes da separa&ccedil;&atilde;o s&atilde;o integrados e vivenciamos, talvez, n&atilde;o a felicidade, por&eacute;m com certeza a alegria. Compreender o fio da l&acirc;mina (e n&atilde;o s&oacute; compreend&ecirc;-lo, faz&ecirc;-lo, tamb&eacute;m) &eacute; o que constitui a pr&aacute;tica zen. A raz&atilde;o, pela qual &eacute; dif&iacute;cil, &eacute; que n&atilde;o queremos faz&ecirc;-lo. Sabemos que n&atilde;o o queremos. Desejamos fugir disso.<\/p>\n<p>Se eu sentir que voc&ecirc; me magoou, quero ficar mergulhado em meus pensamentos a respeito dessa m&aacute;goa. Quero aumentar minha separa&ccedil;&atilde;o, sinto-me, ao permitir-me consumir por esses pensamentos de fogo, todos cheios de raz&otilde;es. Quando estou pensando, estou tentando evitar a dor. Quanto mais sofisticada se torna a minha pr&aacute;tica, mais r&aacute;pido eu vejo essa armadilha e retorno &agrave; experi&ecirc;ncia da dor, ao fio da l&acirc;mina. Se antes eu ficasse aborrecida por dois anos talvez, agora o aborrecimento diminui para dois meses, duas semanas, dois minutos. Por fim, consigo vivenciar o aborrecimento quando ele acontece, e permanecer o tempo que ele durar em equil&iacute;brio sobre o fio da l&acirc;mina.<\/p>\n<p>Na realidade, a vida iluminada &eacute; apenas ser capaz de andar sobre o fio da l&acirc;mina todo o tempo. Embora eu n&atilde;o conhe&ccedil;a ningu&eacute;m que sempre o consiga fazer, com certeza, ap&oacute;s anos de pr&aacute;tica, poderemos faz&ecirc;-lo por boa parte do tempo. E uma alegria andar pelo fio da l&acirc;mina.<\/p>\n<p>Quero repetir mais uma vez: &eacute; necess&aacute;rio reconhecer que a maior parte do tempo n&atilde;o queremos ter nada que ver com esse fio.<\/p>\n<p>Queremos nos manter separados. Queremos a est&eacute;ril satisfa&ccedil;&atilde;o de nos lamuriar, afirmando &quot;Eu tenho raz&atilde;o&quot;. Claro que essa &eacute; uma satisfa&ccedil;&atilde;o med&iacute;ocre, mas, apesar disso, ficaremos nos contentando com uma vida diminuta, em vez de a experimentarmos tal como ela nos acontece quando parece dolorosa e desagrad&aacute;vel.<\/p>\n<p>Todos os relacionamentos problem&aacute;ticos em casa e no trabalho nascem do desejo de permanecermos separados. Utilizando essa estrat&eacute;gia, esperamos ser pessoas separadas que realmente existem e s&atilde;o importantes. Quando andamos no fio da l&acirc;mina, n&atilde;o somos importantes; somos o n&atilde;o-eu, mergulhados na vida. E isto que tememos, mesmo que a vida como n&atilde;o-eu seja pura alegria. Nosso medo impele-nos a permanecer do lado de c&aacute;, em nossas justificad&iacute;ssimas raz&otilde;es, em nosso isolamento. Eis o paradoxo: apenas caminhando pelo fio da l&acirc;mina, vivenciando diretamente o medo, &eacute; que poderemos saber o que &eacute; n&atilde;o ter medo.<\/p>\n<p>Percebo, no entanto, que n&atilde;o podemos ver isto de imediato, ou faz&ecirc;-lo de uma s&oacute; vez. As vezes saltamos para o fio da l&acirc;mina e depois ca&iacute;mos de l&aacute; outra vez, como &aacute;gua que pinga numa frigideira com &oacute;leo quente: pode ser isso o m&aacute;ximo que consigamos a princ&iacute;pio, e est&aacute; certo. Quanto mais praticarmos, por&eacute;m, mais confort&aacute;veis ficaremos ali. Descobrimos que ele &eacute; o &uacute;nico lugar em que ficamos em paz. Por isso muitas pessoas chegam num Centro e dizem: &quot;Quero ficar em paz&quot;. Pode, no entanto, estar havendo pouca compreens&atilde;o de como a paz ser&aacute; encontrada. Andar pelo fio da l&acirc;mina &eacute; isso. Ningu&eacute;m quer saber dessa realidade, por&eacute;m. Queremos algu&eacute;m que nos tire o medo de nossas vidas e nos prometa a felicidade. Ningu&eacute;m quer ouvir a verdade e n&atilde;o a ouviremos, enquanto n&atilde;o estivermos prontos para ela.<\/p>\n<p>Sobre o fio da l&acirc;mina, mergulhados na vida, n&atilde;o h&aacute; &#8220;eu&#8221; e n&atilde;o h&aacute; &quot;voc&ecirc;&quot;. Essa esp&eacute;cie de pr&aacute;tica beneficia a todos os seres conscientes e, claro, &eacute; disso que trata a pr&aacute;tica zen&#8230; minha vida, sua vida, crescendo em sabedoria e compaix&atilde;o.<\/p>\n<p>Por essa raz&atilde;o, quero estimul&aacute;-los a entender isso, apesar da dificuldade que eventualmente represente. Primeiro precisamos compreender com o intelecto: devemos saber do ponto de vista intelectual o que &eacute; a pr&aacute;tica. Depois, atrav&eacute;s dela, precisamos desenvolver a aguda percep&ccedil;&atilde;o consciente de quando estamos nos separando de nossa vida. Esse conhecimento cresce a partir de um zazen praticado todos os dias a partir de muitos sesshins, e do esfor&ccedil;o para permanecer desperto em todos os encontros, desde a manh&atilde; at&eacute; a noite. Diante do fato de nossa quase nula disposi&ccedil;&atilde;o para saber do fio da l&acirc;mina, a sabedoria n&atilde;o nos ser&aacute; apresentada de bandeja. Temos de alcan&ccedil;&aacute;-la. Mas, se formos pacientes, nossa vis&atilde;o ir&aacute; se tornando cada vez mais n&iacute;tida, e terminaremos enxergando a j&oacute;ia dessa vida que come&ccedil;a a brilhar. E claro que a j&oacute;ia sempre est&aacute; brilhando, por&eacute;m &eacute; invis&iacute;vel &agrave;queles que n&atilde;o sabem ver. Para ver, devemos andar pelo fio da l&acirc;mina. Protestamos: &quot;N&atilde;o! De jeito nenhum! Esque&ccedil;a! Esse &eacute; um belo t&iacute;tulo para algum livro, mas n&atilde;o quero saber disso em minha vida&quot;. Verdade? Acho que n&atilde;o. No fundo, queremos paz e alegria.<\/p>\n<p>ALUNO: Por favor comente um pouco mais sobre estarmos separados da vida.<\/p>\n<p>JOKO: Bem, no momento em que h&aacute; um desacordo entre n&oacute;s e algu&eacute;m \u2014 e em que pensamos que n&oacute;s &eacute; quem estamos com a raz&atilde;o \u2014 j&aacute; nos separamos. Estamos do lado de c&aacute; e a praga daquela pessoa est&aacute; do lado de l&aacute;, &quot;errada&quot;. Ao pensarmos dessa forma, n&atilde;o temos interesse algum pelo bem-estar daquele indiv&iacute;duo. Estamos interessados apenas em nosso bem-estar. Assim, a unidade sem fronteiras foi rompida. Para a maioria, s&atilde;o necess&aacute;rios muitos anos de uma pr&aacute;tica constante, at&eacute; que possa abandonar essa forma de pensamento.<\/p>\n<p>ALUNO: Vejo que os aborrecimentos est&atilde;o ligados a eu n&atilde;o querer enxergar o que est&aacute; acontecendo. Mas creio que eu ainda n&atilde;o tenho clareza de porque o aborrecimento &eacute; separar-se da vida.<\/p>\n<p>JOKO: N&atilde;o &eacute; separa&ccedil;&atilde;o se for vivenciado de modo n&atilde;o-verbal. Mas, na maior parte do tempo recusamo-nos a fazer isso. O que preferimos fazer? Preferimos pensar a respeito de nossa infelicidade. &quot;Por que ele n&atilde;o v&ecirc; as coisas do meu jeito? Por que &eacute; t&atilde;o est&uacute;pido?&quot; Esses pensamentos s&atilde;o o fator de separa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>ALUNO: Pensamentos? N&atilde;o a evita&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>JOKO: Os pensamentos s&atilde;o a evita&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o estar&iacute;amos pensando se n&atilde;o estiv&eacute;ssemos tentando evitar a experi&ecirc;ncia do medo.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc&ecirc; quer dizer que os pensamentos causam a separa&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>JOKO: N&atilde;o se estivermos plenamente conscientes dos pensamentos e soubermos que s&atilde;o apenas pensamentos. &Eacute;<br \/>\nquando acreditamos neles que ocorre a separa&ccedil;&atilde;o. &quot;Um d&eacute;cimo de polegada de diferen&ccedil;a e j&aacute; c&eacute;u e terra se distanciaram.&quot; N&atilde;o h&aacute; nada de errado com os pensamentos em si, exceto quando deixamos de enxergar sua irrealidade.<\/p>\n<p>ALUNO: &Eacute; poss&iacute;vel reagirmos sem que haja quaisquer pensamentos?<\/p>\n<p>JOKO: Quando reagimos, os pensamentos est&atilde;o acontecendo. Pode ser que n&atilde;o se tornem &oacute;bvios para n&oacute;s, mas est&atilde;o l&aacute;. Por exemplo, se voc&ecirc; me insulta, eu n&atilde;o reajo, a menos que tenha pensamentos sobre o insulto. Por&eacute;m, quando come&ccedil;amos a julgar as pessoas certas ou erradas, separamo-nos. Certo e errado s&atilde;o apenas pensamentos, n&atilde;o s&atilde;o a verdade.<\/p>\n<p>ALUNO: O que voc&ecirc; est&aacute; descrevendo parece uma coisa muito passiva, um capacho. Voc&ecirc; poderia esclarecer isso?<\/p>\n<p>JOKO: N&atilde;o se trata absolutamente de ser passivo. N&atilde;o podemos abordar de uma maneira inteligente as quest&otilde;es da vida se estivermos paralisados em nossos pensamentos sobre tais quest&otilde;es. Precisamos ter uma vis&atilde;o que seja mais ampla. A pr&aacute;tica zen &eacute; sobre a&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o nos &eacute;poss&iacute;vel uma a&ccedil;&atilde;o adequada se acreditarmos em nossos pensamentos sobre uma situa&ccedil;&atilde;o. Precisamos enxergar de modo direto o que ela &eacute;; que &eacute; diferente de nossos pensamentos a respeito dela. Podemos ter uma a&ccedil;&atilde;o inteligente sem de fato ver, n&atilde;o aquilo que desejamos ver, ou aquilo que nos seria conveniente e confort&aacute;vel, mas apenas o que existe? N&atilde;o, definitivamente n&atilde;o estou falando de passividade ou de n&atilde;o reagir.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando vejo pessoas centradas no que est&aacute; acontecendo constato que agem muito mais depressa e melhor que eu. No filme sobre Madre Teresa observei que ela se dirigia diretamente para a &aacute;rea do desastre e come&ccedil;ava a trabalhar.<\/p>\n<p>JOKO: Apenas fazer. S&oacute; fazer. Ela n&atilde;o parava para ponderar: &quot;Devo fazer isso?&quot;. Ela enxergava o que precisava ser feito e fazia.<\/p>\n<p>ALUNO: Parece uma enormidade esperarmos ter condi&ccedil;&otilde;es de apenas ficar sobre o fio da l&acirc;mina, porque nossas recorda&ccedil;&otilde;es do que aconteceu em nossas vidas antes entram em cena a todo instante.<\/p>\n<p>JOKO: As recorda&ccedil;&otilde;es s&atilde;o pensamentos, quase sempre seletivos e enviesados. Podemos esquecer por completo as belas coisas que nossos amigos j&aacute; nos fizeram, se apenas acontecer um incidente que consideremos amea&ccedil;ador. A pr&aacute;tica espera muito de n&oacute;s. Mas estamos vivendo apenas este momento. N&atilde;o temos de viver cento e cinq&uuml;enta mil momentos de uma s&oacute; vez. Estamos vivendo apenas um. &Eacute; por isso que eu digo: &quot;O que mais voc&ecirc; tem a fazer? Voc&ecirc; pode tanto praticar cada momento como n&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>ALUNO: Bem, parece-me que o fio da l&acirc;mina &eacute; um lugar meio chato de se ficar. Geralmente prestamos aten&ccedil;&atilde;o, quando uma incr&iacute;vel explos&atilde;o emocional nos atinge, mas quando lavamos a lou&ccedil;a, n&atilde;o h&aacute; muito a dizer. E s&oacute;&#8230;<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Se pud&eacute;ssemos apenas fazer o que h&aacute; para ser feito a cada instante, n&atilde;o haveria problemas. Estar&iacute;amos em cima do fio l&acirc;mina. Mas quando ficamos aborrecidos, a l&acirc;mina e seu fio nos parecem estranhos porque vivenciar o aborrecimento &eacute; vivenciar sensa&ccedil;&otilde;es corporais desagrad&aacute;veis. Uma vez que s&atilde;o desagrad&aacute;veis, n&atilde;o podemos ver que o aborrecimento &eacute; basicamente a mesma coisa que lavar a lou&ccedil;a. Ambos s&atilde;o a simplicidade m&aacute;xima.<br \/>\nALUNO: Se desistirmos de nossa cren&ccedil;a em nossos pensamentos, o que parece assustador, como saber&iacute;amos o que fazer ent&atilde;o?<\/p>\n<p>JOKO: Sempre sabemos o que fazer quando estamos sintonizados com a vida tal como ela est&aacute;.<\/p>\n<p>ALUNO: Para mim, o fio da l&acirc;mina &eacute; a experi&ecirc;ncia do que &eacute; o momento. Conforme vou praticando, descubro cada vez mais como as coisas mais simples da vida n&atilde;o me s&atilde;o t&atilde;o chatas quanto antes. As vezes existe uma grande profundidade e beleza no que antes eu n&atilde;o tinha percebido.<\/p>\n<p>JOKO: &Eacute; isso mesmo. De vez em quando vem um aluno conversar comigo; a pessoa se senta bem, mas se queixa: &quot;&Eacute; t&atilde;o chato! Estou s&oacute; ficando sentada e n&atilde;o acontece mais nada. S&oacute; fico ouvindo os carros que passam&#8230;&quot;. Mas ficar s&oacute; ouvindo o tr&aacute;fego &eacute; a perfei&ccedil;&atilde;o! A aluna est&aacute; perguntando: &quot;Ent&atilde;o &eacute; s&oacute; isso?&quot;. Sim, &eacute; s&oacute; isso. Ningu&eacute;m deseja que a vida seja &quot;s&oacute; isso&quot;, porque ent&atilde;o ela n&atilde;o estar&aacute; centrada em n&oacute;s. E s&oacute; isso mesmo: n&atilde;o h&aacute; drama e n&oacute;s gostamos de dramas, preferimos perder a ficar sem um dramazinho do qual somos o protagonista. Suzuki Roshi afirmou certa vez: &quot;N&atilde;o tenha tanta certeza de sua pretens&atilde;o a ser iluminado. Do ponto de vista atual, seria terrivelmente mon&oacute;tono&quot;. Fazer s&oacute; o que se est&aacute; fazendo. Sem dramas.<\/p>\n<p>ALUNO: Acompanhar a respira&ccedil;&atilde;o &eacute; estar no fio da l&acirc;mina?<\/p>\n<p>JOKO: De fato &eacute;. Talvez eu preferisse dizer &quot;vivenciar o corpo e a respira&ccedil;&atilde;o&quot;. Quero acrescentar que, ao acompanharmos a respira&ccedil;&atilde;o, &eacute; melhor n&atilde;o tentar control&aacute;-la (o controle &eacute; uma coisa dualista: eu controlo alguma coisa separada de mim), e sim apenas vivenciar a respira&ccedil;&atilde;o que estiver acontecendo: presa, r&aacute;pida, alta; esteja como estiver, experimente-a tal como est&aacute;. Quando a experi&ecirc;ncia se mant&eacute;m firme, a respira&ccedil;&atilde;o aos poucos fica mais lenta, longa e profunda. Se a liga&ccedil;&atilde;o com os pensamentos estiver bastante enfraquecida, o corpo e a respira&ccedil;&atilde;o terminar&atilde;o por se descontrair, e a respira&ccedil;&atilde;o ficar&aacute; mais suave.<\/p>\n<p>ALUNO: Por que o aborrecimento fica maior quando diz respeito a algu&eacute;m que me &eacute; querido.<\/p>\n<p>JOKO: Porque &eacute; mais amea&ccedil;ador. Se algu&eacute;m que est&aacute; me vendendo um par de sapatos, diz: &quot;Vou deix&aacute;-la&quot;, n&atilde;o dou import&acirc;ncia, por mim est&aacute; bem. Outra pessoa vir&aacute; para me vender o sapato. Mas se meu marido diz: &quot;Vou deix&aacute;-la&quot;. A coisa muda inteiramente de figura.<\/p>\n<p>ALUNO: Essa &eacute; uma amea&ccedil;a imediata ou vem de um dep&oacute;sito de material psicol&oacute;gico n&atilde;o-resolvido?<\/p>\n<p>JOKO: E certo que existe um reservat&oacute;rio, mas ele est&aacute; contido em n&oacute;s na forma de contra&ccedil;&otilde;es corporais que existem a cada instante. Quando vivenciamos a contra&ccedil;&atilde;o, a tens&atilde;o, acessamos o passado inteiro. Onde est&aacute; nosso passado? Bem aqui. N&atilde;o h&aacute; passado, exceto neste exato instante. O passado &eacute; quem somos neste momento presente. Por isso, ao vivenciarmos essa situa&ccedil;&atilde;o cuidamos do passado. N&atilde;o temos de saber tudo a respeito dele.<\/p>\n<p>Todavia, de que maneira o fio da l&acirc;mina se relaciona com a ilumina&ccedil;&atilde;o? Algu&eacute;m quer comentar?<\/p>\n<p>ALUNO: &Eacute; a ilumina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. E isso mesmo. E ningu&eacute;m consegue ficar ali o tempo todo; nossas habilidades para tanto, por&eacute;m, aumentam de forma consider&aacute;vel com o passar do tempo e da pr&aacute;tica. Contudo, se isso n&atilde;o acontece, n&atilde;o praticamos de verdade.<\/p>\n<p>Vamos encerrar. Mas, por favor, mantenham sua conscientiza&ccedil;&atilde;o o m&aacute;ximo que puderem, a cada momento da vida. E guardem consigo esta indaga&ccedil;&atilde;o: neste preciso momento, estou andando no fio da l&acirc;mina?<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fio da l&acirc;mina Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; Todos n&oacute;s, seres humanos, acreditamos que existe algo a ser realizado, a ser entendido, algum lugar aonde ir. 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