{"id":5117,"date":"2018-06-13T14:33:32","date_gmt":"2018-06-13T16:33:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5117"},"modified":"2018-06-13T14:35:48","modified_gmt":"2018-06-13T16:35:48","slug":"ponto-de-mutacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/ponto-de-mutacao\/","title":{"rendered":"Ponto de muta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/ponto-de-mutacao\/ponto-de-mutacao-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5119\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ponto-de-muta\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"225\" class=\"alignleft size-full wp-image-5119\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ponto-de-muta\u00e7\u00e3o.jpg 225w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ponto-de-muta\u00e7\u00e3o-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Ponto-de-muta\u00e7\u00e3o-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Ponto de muta&ccedil;&atilde;o<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/sempre-zen\/\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/div>\n<hr \/>\n<p>Todos querem uma vida de liberdade e compaix&atilde;o, uma vida humana em pleno funcionamento, que n&atilde;o pode estar apegada a nada, nem a uma pr&aacute;tica, nem a um professor, nem mesmo &agrave; Verdade. Se estivermos apegados &agrave; Verdade, n&atilde;o poderemos enxerg&aacute;-la.<\/p>\n<p>Vi no notici&aacute;rio da TV uma hist&oacute;ria a respeito de um homem que encontrou in&uacute;meras caixas de pe&ccedil;as de maquin&aacute;rios. N&atilde;o tinha a menor id&eacute;ia da utilidade delas, mas gostava muito de ficar colocando as coisas perto umas das outras e o mist&eacute;rio tornava tudo mais excitante ainda. Ent&atilde;o, ele come&ccedil;ou seu trabalho. Custou-lhe dez anos encaixar aquelas milhares de pe&ccedil;as, algumas grandes, outras pequenas. Quando enfim terminou o trabalho, tinha criado um novo e reluzente modelo Ford T. Mas (claro que ele n&atilde;o tinha esposa!) ele tinha constru&iacute;do aquela beleza na sala de visitas! Por isso, depois de alguma hesita&ccedil;&atilde;o, derrubou a parede da frente da sala de visitas e empurrou o modelo T at&eacute; a entrada, numa mostra definitiva de progresso. Por&eacute;m, o p&oacute;rtico tinha de altura meio metro em rela&ccedil;&atilde;o ao n&iacute;vel da rua e ele precisou construir uma rampa at&eacute; o ch&atilde;o. Por fim, conseguiu deslocar o carro pelo jardim at&eacute; a rua e, assim, aquele Ford T conseguiu chegar a ser um carro de verdade, funcionando.<\/p>\n<p>Essa &eacute; uma hist&oacute;ria maravilhosa porque se parece com o que fazemos com nossas vidas. Constru&iacute;mos uma criatura bizarra que chamamos de &quot;eu mesmo&quot;. Infelizmente, n&atilde;o temos toda a habilidade do mundo para construir esse ser e, depois de ele estar conclu&iacute;do, temos a inc&ocirc;moda sensa&ccedil;&atilde;o de que nosso si-mesmo (como aquele modelo T) est&aacute; confinado, as paredes o est&atilde;o esmagando. O si-mesmo pode at&eacute; ter boa apar&ecirc;ncia, chegando mesmo a impressionar, mas ainda se sente incomodado pelas restri&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Agora acontece a escolha crucial: existem duas possibilidades de irmos em frente depois de sentir o confinamento e a ansiedade em &quot;n&oacute;s mesmos&quot;. Uma delas &eacute; fingir que nosso espa&ccedil;o de vida foi na realidade projetado para conter um modelo Ford T, e ent&atilde;o decoraremos as paredes ou criaremos artif&iacute;cios com espelhos, para que haja ilus&atilde;o de descontra&ccedil;&atilde;o e de espa&ccedil;o. A outra &eacute; constatar que esse &quot;si-mesmo&#8221; constrito deve ser deslocado para outro lugar, de algum jeito, at&eacute; chegarmos a um espa&ccedil;o arejado e iluminado.<\/p>\n<p>Nesta altura (quando come&ccedil;amos a examinar o carro, esse si-mesmo que constru&iacute;mos), nossa pr&aacute;tica est&aacute; de fato se iniciando. N&atilde;o esperamos mais dar um jeito no que est&aacute; em volta, no meio ambiente; em vez disso, mudamos o modelo Ford T de lugar para que possamos examin&aacute;-lo: levamos o si-mesmo para fora. Isso n&atilde;o &eacute; o fim, claro; o est&aacute;gio final da vida humana n&atilde;o &eacute; examinar e analisar o si-mesmo, para ver como funciona; &eacute; p&ocirc;r nossa vida na rua onde pode funcionar plenamente.<\/p>\n<p>&Eacute; a dor das paredes que nos confinam que primeiro nos motiva a sair dali; sabemos que &eacute; preciso fazer alguma coisa quanto &agrave;s paredes. &Eacute; um grande progresso o simples fato de deslocar o carro at&eacute; o p&oacute;rtico, onde ele possa receber um pouco mais de luz, ter um pouco mais de espa&ccedil;o e perspectiva. Na pr&aacute;tica, esse &eacute; o ponto crucial da muta&ccedil;&atilde;o. Assim, o que devemos fazer para propiciar um ponto de muta&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Consideraremos a id&eacute;ia de &quot;ren&uacute;ncia&quot;. Muitas vezes sentimos que, para nossa vida ter outro come&ccedil;o, o que &eacute; velho e antigo deve ser descartado. O que poder&iacute;amos considerar como ren&uacute;ncia? Podemos renunciar ao mundo material tal como o concebemos, ou a nosso mundo mental e emocional.<\/p>\n<p>H&aacute; muitas tradi&ccedil;&otilde;es que efetivamente encorajam a ren&uacute;ncia de todas as posses materiais. Os monges conservam, segundo a tradi&ccedil;&atilde;o, uma pequena caixa contendo poucos pertences necess&aacute;rios. Isso &eacute; ren&uacute;ncia? Digo que n&atilde;o, embora seja uma pr&aacute;tica &uacute;til. &Eacute; como se pens&aacute;ssemos que a refei&ccedil;&atilde;o noturna n&atilde;o fica completa sem a sobremesa; assim ficamos sem sobremesa por um certo tempo como uma maneira de aprender algo a nosso respeito, e essa &eacute; uma boa pr&aacute;tica.<\/p>\n<p>Depois pode ser que acreditemos que as coisas que se passam dentro dos pensamentos e das emo&ccedil;&otilde;es n&atilde;o est&atilde;o certas: &quot;Eu deveria ser capaz de renunciar a tudo. Deveria ser capaz de me livrar disso tudo. Sou mau porque penso e sinto assim&quot;. Isso tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; ren&uacute;ncia. &Eacute; brincar com as no&ccedil;&otilde;es de bem e mal.<\/p>\n<p>Alguns realizam um esfor&ccedil;o final. Porque estamos confusos e desestimulados sobre nossa vida di&aacute;ria, por fim decidimos que &eacute; preciso ir &quot;em busca da Realiza&ccedil;&atilde;o; devo levar uma vida inteiramente espiritual e renunciar a tudo o mais&quot;. Isso &eacute; uma maravilha se compreendermos o que significa. Mas de todas as interpreta&ccedil;&otilde;es equivocadas da ren&uacute;ncia, a mais nociva est&aacute; no &acirc;mbito da assim chamada pr&aacute;tica espiritual, em que alimentamos no&ccedil;&otilde;es como &quot;Devo ser puro, sagrado, diferente dos outros.., vivendo talvez num lugar remoto e ermo&quot;: isso tampouco tem qualquer coisa que ver com ren&uacute;ncia.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, o que &eacute; ren&uacute;ncia? Ela existe mesmo? Talvez possamos esclarecer melhor a quest&atilde;o considerando agora um outro termo: &quot;desapego&quot;. Costumamos pensar que, se nos preocuparmos com os acontecimentos superficiais de nossas vidas, tentando alter&aacute;-los, preocupando-nos com eles ou conosco, estamos lidando com a quest&atilde;o da &quot;ren&uacute;ncia&quot;, quando na realidade n&atilde;o &eacute; preciso que &quot;renunciemos&#8221; a nada; s&oacute; precisamos perceber que a verdadeira ren&uacute;ncia &eacute; o mesmo que desapego.<\/p>\n<p>O processo da pr&aacute;tica &eacute; ver at&eacute; o fim, e n&atilde;o eliminar, aquilo a que estamos apegados. Podemos ter enormes fortunas e n&atilde;o estarmos apegados a ela; podemos ter quase nada e sermos muito apegados a isso. O mais comum e que, se tivermos visto a fundo a natureza do apego, nossa tend&ecirc;ncia ser&aacute; diminuir nossas posses, mas n&atilde;o necessariamente. A maioria das pr&aacute;ticas fica emaranhada nessa &aacute;rea de envolvimento entre n&oacute;s e nossos ambientes, atrav&eacute;s da mente. &quot;Minha mente deve aquietar-se.&quot; Nossa mente n&atilde;o importa; o que importa &eacute; o desapego em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s atividades mentais. Nossas emo&ccedil;&otilde;es s&atilde;o in&oacute;cuas a menos que nos dominem (quer dizer, se ficarmos apegados a elas), quando ent&atilde;o criam desarmonia para todos. O primeiro problema da pr&aacute;tica &eacute; ver que estamos apegados. Conforme nosso zazen cresce em persist&ecirc;ncia e em paci&ecirc;ncia, come&ccedil;amos a saber que n&atilde;o somos outra coisa sen&atilde;o apegos. Estes governam nossa vida.<\/p>\n<p>Entretanto, nunca limpamos um apego dizendo-lhe apenas que se v&aacute;. S&oacute; quando alcan&ccedil;amos uma clareza de percep&ccedil;&atilde;o a respeito de sua verdadeira natureza &eacute; que, de maneira silenciosa e impercept&iacute;vel, ele some. Como um castelo de areia por onde as ondas passam, ele se desfaz aos poucos e por fim&#8230; onde est&aacute;? O que era?<\/p>\n<p>A quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; como nos livrar de nossos apegos ou renunciarmos a eles; trata-se da intelig&ecirc;ncia de ver qual &eacute; sua verdadeira natureza, sua imperman&ecirc;ncia, seu vazio, sua fugacidade. N&atilde;o precisamos nos livrar de nada.<\/p>\n<p>Os apegos mais dif&iacute;ceis e insidiosos s&atilde;o aqueles que pensamos serem as verdades espirituais. O apego &agrave;quilo que chamamos de &quot;espiritual&quot; &eacute; a pr&oacute;pria atividade que det&eacute;m uma vida espiritual. Se somos apegados a qualquer coisa, n&atilde;o podemos ser livres, tampouco verdadeiramente amorosos.<\/p>\n<p>Enquanto mantivermos qualquer imagem de como devemos ser ou de como os outros devem ser, estamos apegados; e uma vida realmente espiritual &eacute; apenas a aus&ecirc;ncia disso. &quot;Estudar o ser &eacute; esquec&ecirc;-lo&quot;, nas palavras de D&otilde;gen Zenji.<\/p>\n<p>Ao prosseguir com nosso zazen de hoje tenhamos em mente a quest&atilde;o central: a pr&aacute;tica do desapego. Prossigamos com persist&ecirc;ncia e cuidado, sabendo que pode ser dif&iacute;cil e que a dificuldade n&atilde;o &eacute; o problema. Cada um tem sua escolha. Qual ser&aacute;? Uma vida de liberdade e compaix&atilde;o, ou o qu&ecirc;?<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ponto de muta&ccedil;&atilde;o Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; Todos querem uma vida de liberdade e compaix&atilde;o, uma vida humana em pleno funcionamento, que n&atilde;o pode estar apegada a nada, nem a uma pr&aacute;tica, nem a um &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/ponto-de-mutacao\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5119,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5117","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5117"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5117\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5121,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5117\/revisions\/5121"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5119"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}