{"id":5122,"date":"2018-06-13T14:42:22","date_gmt":"2018-06-13T16:42:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5122"},"modified":"2018-06-13T14:43:49","modified_gmt":"2018-06-13T16:43:49","slug":"fechar-a-porta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/fechar-a-porta\/","title":{"rendered":"Fechar a porta"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5123\" rel=\"attachment wp-att-5123\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Fechar-a-porta.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"225\" class=\"alignleft size-full wp-image-5123\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Fechar-a-porta.jpg 225w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Fechar-a-porta-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Fechar-a-porta-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Fechar a porta<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>,<br \/>\nextra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/sempre-zen\/\">Sempre Zen<\/a>&#8220;<\/b><\/div>\n<hr \/>\n<p>Na d&eacute;cada de 60, Hakuun Yasutani Roshi come&ccedil;ou uma s&eacute;rie de visitas anuais para pregar o dharma nos Estados Unidos. Em cada visita, conduzia sesshins que duravam uma semana inteira, na parte sul da Calif&oacute;rnia. Como tantos outros que come&ccedil;aram a pr&aacute;tica zen com Yasutani Roshi durante tais visitas, comecei a praticar intensamente com ele, por sete dias, todos os anos, e, no resto do ano, continuava meu zazen por conta pr&oacute;pria. Aqueles sesshins eram bastante dif&iacute;ceis para mim, e devo acrescentar que, se alguma vez houve uma pr&aacute;tica confusa, foi a minha. Entretanto, ter a oportunidade de estudar com ele, mesmo que fosse por sete dias a cada ano, e ver o que ele era: humilde, suave, vigoroso, espont&acirc;neo \u2014 era o suficiente para manter-me nesse caminho.<\/p>\n<p>Ele j&aacute; era muito idoso quando o conheci, perto dos oitenta e tantos anos, e apresentava algumas dificuldades f&iacute;sicas. Quando entrava no zendo, ficava atenta para ver se ele conseguia chegar at&eacute; o lugar em que se sentava. Um homenzinho mi&uacute;do, curvado, entrando na sala. Quando come&ccedil;ava a falar sobre dharma, eu n&atilde;o conseguia acreditar! Era como uma corrente el&eacute;trica percorrendo a sala:<\/p>\n<p>a vitalidade, a espontaneidade, a devo&ccedil;&atilde;o total. N&atilde;o importava o que ele dizia, nem o fato de precisar de int&eacute;rprete. Sua presen&ccedil;a em si revelava o dharma: n&atilde;o se podia esquec&ecirc;-lo depois de t&ecirc;-lo visto uma s&oacute; vez.<\/p>\n<p>Duas qualidades em Yasutani Roshi impressionaram-me profundamente. Eu diria que ele era, ao mesmo tempo, luminoso e comum. Se olh&aacute;ssemos em seus olhos durante uma entrevista formal, ver&iacute;amos que ali n&atilde;o existia nada, era como um espa&ccedil;o de milhares de quil&ocirc;metros vazios. Era espantoso. Por&eacute;m, de alguma forma, naquele espa&ccedil;o aberto havia a cura total.<\/p>\n<p>Fora do zendo ele era apenas um homenzinho igual a todos, indo de um lado para outro com sua vassoura, de cal&ccedil;as enroladas, comendo cenoura. Ele adorava cenoura.<\/p>\n<p>Yasutani Roshi foi minha primeira experi&ecirc;ncia do que &eacute; um verdadeiro mestre zen e foi uma experi&ecirc;ncia de muita humildade, porque ele era muito humilde. Irradiavam-se dele liberdade, espontaneidade e compaix&atilde;o, a j&oacute;ia que todos n&oacute;s buscamos com nossas pr&oacute;prias pr&aacute;ticas. Entretanto, precisamos tomar cuidado para n&atilde;o buscar a j&oacute;ia no lugar errado, fora de n&oacute;s, e assim ficaremos sem ver que nossa vida em si &eacute; a j&oacute;ia, talvez ainda em estado bruto, mas j&aacute; perfeita, completa e inteira.<\/p>\n<p>Quando se chega ao dharma de verdade, ele &eacute; muito simples e sempre dispon&iacute;vel, contudo o problema &eacute; que n&atilde;o sabemos como v&ecirc;-lo. Diante dessa falha, a j&oacute;ia, a liberdade, nos escapa.<\/p>\n<p>&Eacute; uma coisa complicada falar de liberdade. Nossa forma habitual de falar a respeito &eacute; consider&aacute;-la uma quest&atilde;o de ficar sozinho para poder ir onde quiser e fazer tudo o que der vontade. Ficamos esperando que algo &quot;do lado de l&aacute;&quot; nos d&ecirc; liberdade para que, se estivermos em uma situa&ccedil;&atilde;o desagrad&aacute;vel e restritiva, possamos deixar uma porta aberta por onde passar correndo em busca de novas esperan&ccedil;as e de liberdade. Todos n&oacute;s fazemos isso, sem exce&ccedil;&atilde;o. O que nos leva a outra palavra dif&iacute;cil de ser comentada: compromisso.<\/p>\n<p>Um dos aspectos importantes de nossa pr&aacute;tica &eacute; olhar com honestidade para este processo constante de esperan&ccedil;as e de temores, e para todos os esquemas que s&atilde;o um reflexo de nossa aus&ecirc;ncia de comprometimento com a vida. Para tanto &eacute; preciso fecharmos a porta que tanto gostamos de manter aberta, dar-lhe as costas e ficar de frente para quem somos. Isso &eacute; comprometimento e, sem ele, n&atilde;o h&aacute; liberdade.<\/p>\n<p>Mediante nossa pr&aacute;tica, vamos desbastando as fantasias que temos a respeito de sair correndo pela porta, para encontrar uma outra coisa em algum lugar, l&aacute; fora. Dedicamos quase todos os nossos esfor&ccedil;os &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o e &agrave; prote&ccedil;&atilde;o da estrutura de ego criada a partir da ignor&acirc;ncia de que &quot;eu&quot; existo em separado do resto da vida. Precisamos tomar consci&ecirc;ncia dessa estrutura e ver como ela funciona, porque \u2014 muito embora seja artificial e n&atilde;o constitua nossa verdadeira natureza \u2014 a menos que a compreendamos, ela continuar&aacute; agindo &agrave; base do medo e da arrog&acirc;ncia. Por arrog&acirc;ncia entendo o sentimento de ser especial, de n&atilde;o ser como todo mundo. Podemos ser arrogantes a respeito de qualquer coisa: nossas conquistas e nossos resultados, nossos problemas, at&eacute; mesmo nossa &quot;humildade&quot;. Por medo e arrog&acirc;ncia, apegamo-nos a todos os tipos de atitudes e julgamentos autocentrados e, dessa forma, criamos todas as esp&eacute;cies de infelicidade para n&oacute;s e para os outros.<\/p>\n<p>A liberdade est&aacute; intimamente ligada &agrave; nossa rela&ccedil;&atilde;o com a dor e o sofrimento. Gostaria de tra&ccedil;ar uma distin&ccedil;&atilde;o entre a dor e o sofrimento. A dor vem de se experimentar a vida tal como ela &eacute;, sem artif&iacute;cios. Podemos at&eacute; cham&aacute;-la de vivenciar a alegria de modo direto. Contudo quando tentamos fugir e escapar de nossa experi&ecirc;ncia de dor, sofremos. Por causa do medo da dor, constru&iacute;mos uma estrutura de ego para proteger-nos e, por isso, sofremos. A liberdade consiste em arriscarmo-nos como vulner&aacute;veis perante a vida; &eacute; a experi&ecirc;ncia do que surge em cada momento, seja doloroso ou agrad&aacute;vel. Isso exige um comprometimento total de nossa vida. Quando formos capazes de dar-nos por inteiro, sem reter nada e sem qualquer id&eacute;ia de fugir, de escapar &agrave; experi&ecirc;ncia desagrad&aacute;vel do momento, n&atilde;o haver&aacute; sofrimento. Quando vivenciamos, na &iacute;ntegra, nossa dor, h&aacute; alegria.<\/p>\n<p>Liberdade e comprometimento s&atilde;o intimamente vinculados. Quando duas pessoas se comprometem entre si, num casamento, em certo sentido est&atilde;o fechando a porta &agrave; sua oportunidade de fugir ao calor e &agrave; press&atilde;o que s&atilde;o parte dessa rela&ccedil;&atilde;o. Mas, quando esses elementos s&atilde;o aceitos como parte do compromisso, o calor e a press&atilde;o favorecem o crescimento e o relacionamento floresce. N&atilde;o estou afirmando que a pessoa deva se comprometer com qualquer rela&ccedil;&atilde;o que lhe passe pela frente: seria loucura. Insisto que nossa pr&aacute;tica &eacute; o compromisso com a experi&ecirc;ncia de cada momento. O zazen, como o compromisso matrimonial, nos coloca sob situa&ccedil;&otilde;es de calor e press&atilde;o. Podemos dizer at&eacute; que a primeira coisa que devemos fazer com o zazen &eacute; casarmo-nos com ele. Fechamos a porta e sentamo-nos silenciosamente para a pr&aacute;tica do que &eacute;, sentindo o calor e a press&atilde;o.<\/p>\n<p>As pessoas costumam imaginar que a pr&aacute;tica ser&aacute; agrad&aacute;vel e confort&aacute;vel, quando est&atilde;o no in&iacute;cio. Por&eacute;m, a pr&aacute;tica zen tem fases que n&atilde;o s&atilde;o nada agrad&aacute;veis. Quando nos sentamos com este momento, seja ele qual for, caem por terra as paredes seguras da estrutura do ego, o que pode ser confuso e doloroso. A viv&ecirc;ncia f&iacute;sica da confus&atilde;o e da dor, em lugar de evitar tais sensa&ccedil;&otilde;es, &eacute; a chave da liberdade. Precisamos acolher a infelicidade, fazer dela a nossa melhor amiga, e atravess&aacute;-la de frente at&eacute; a liberdade.<\/p>\n<p>Essa j&oacute;ia da liberdade &eacute; nossa vida tal como ela &eacute;, mas, se n&atilde;o entendermos a rela&ccedil;&atilde;o entre dor e liberdade, podemos causar sofrimento a n&oacute;s e a outros. Precisamos estar dispostos a andar pelo fio da l&acirc;mina, estando ali simplesmente, n&atilde;o nos importando com o que vier a cada momento. Orgulho, cobi&ccedil;a, arrog&acirc;ncia, dor, alegria, n&atilde;o tente manipular o que nos aparece com o zazen. Permanecendo sentados com tanta presen&ccedil;a e consci&ecirc;ncia quanto for poss&iacute;vel, os apegos terminar&atilde;o com o tempo, cedendo e sumindo.<\/p>\n<p>Quando Yasutani Roshi estava com 88 anos, seu &uacute;ltimo anivers&aacute;rio, escreveu: &quot;As colinas ficam mais altas&quot;. Quanto mais claramente virmos que n&atilde;o h&aacute; nada que precise ser feito, mais vemos aquilo que necessita ser feito. &Eacute; uma coisa engra&ccedil;ada. Quando partilhamos de verdade o que temos: tempo, bens e, o mais importante, n&oacute;s, nossa vida flui com facilidade. H&aacute; a hist&oacute;ria de um po&ccedil;o que era alimentado por pequenas nascentes que sempre forneciam seu suprimento de &aacute;gua. Certo dia o po&ccedil;o foi coberto e esquecido at&eacute; que algu&eacute;m, anos depois, o destampou. Porque ningu&eacute;m nunca mais tinha ido ali para buscar &aacute;gua, as nascentes tinham deixado de ench&ecirc;-lo e o po&ccedil;o estava seco. Acontece a mesma coisa conosco: podemos nos dar e nos abrir cada vez mais, ou podemos nos conter e segurar, e ficarmos secos.<\/p>\n<p>A pr&aacute;tica zen &eacute; fechar a porta para uma maneira dualista de ver a vida, o que exige comprometimento. Se ao acordar de manh&atilde;, voc&ecirc; n&atilde;o quiser ir at&eacute; o zendo, feche a porta para isso. Ponha o p&eacute; fora da cama e v&aacute;. Se sentir pregui&ccedil;a durante o trabalho, feche a porta para ela e fa&ccedil;a o m&aacute;ximo. Nas rela&ccedil;&otilde;es, feche a porta para as cr&iacute;ticas e a falta de delicadeza. No zazen, feche a porta ao dualismo e se abra para a vida tal como ela &eacute;. Muito devagar, ao aprendermos a vivenciar nosso sofrimento em vez de fugir dele, a vida se nos revela como alegria.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fechar a porta Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Sempre Zen&#8220; Na d&eacute;cada de 60, Hakuun Yasutani Roshi come&ccedil;ou uma s&eacute;rie de visitas anuais para pregar o dharma nos Estados Unidos. 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