{"id":5160,"date":"2018-06-14T17:18:37","date_gmt":"2018-06-14T19:18:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5160"},"modified":"2020-06-10T14:04:12","modified_gmt":"2020-06-10T16:04:12","slug":"a-promessa-que-nunca-e-cumprida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida\/","title":{"rendered":"A promessa que nunca \u00e9 cumprida"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5886\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5886\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida-300x300.png 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida-150x150.png 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida-50x50.png 50w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida.png 512w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>A promessa que nunca \u00e9 cumprida<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Nossos problemas decorrem do desejo. No entanto, nem todos os desejos criam problemas. Existem dois tipos de desejos: as exig\u00eancias (&#8220;Tenho que ter isso&#8221;) e as prefer\u00eancias. As prefer\u00eancias s\u00e3o in\u00f3cuas; podemos ter tantas quantas quisermos. O desejo que exige ser satisfeito \u00e9 que \u00e9 o problema. \u00c9 como se nos sent\u00edssemos constantemente com sede e, para saci\u00e1-la, tent\u00e1ssemos ligar uma mangueira a uma torneira na parede da vida. O tempo todo pensamos que desta ou daquela torneira iremos receber a \u00e1gua que exigimos. Quando ou\u00e7o o que meus alunos t\u00eam a dizer, todos parecem sentir sede de alguma coisa. Podemos conseguir um pouco de \u00e1gua c\u00e1 e l\u00e1, mas isso apenas nos tortura. Sentir sede, bastante sede, n\u00e3o tem gra\u00e7a nenhuma.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o algumas das torneiras \u00e0s quais recorremos para saciar nossa sede? Uma pode ser o emprego que achamos que devemos ter. Outra pode ser &#8220;o par ideal&#8221;, ou &#8220;o filho que se comporta sempre como deve&#8221;. Dar um jeito numa rela\u00e7\u00e3o pessoal pode parecer ser o caminho para chegar naquela \u00e1gua. Muitos acreditam que por fim saciar\u00e3o sua sede se enfim conseguirem dar um jeito em si mesmos. N\u00e3o tem o menor sentido que o eu tente consertar o eu, mas insistimos em fazer isso. O que chamamos de n\u00f3s mesmos nunca nos \u00e9 muito aceit\u00e1vel. &#8220;N\u00e3o consigo fazer o bastante&#8221;; &#8220;N\u00e3o sou bem-sucedido o suficiente&#8221;; &#8220;Estou sempre com raiva, n\u00e3o valho nada&#8221;; &#8220;Sou mau aluno&#8221;. Exigimos um n\u00famero incont\u00e1vel de coisas de n\u00f3s e do mundo; praticamente qualquer coisa pode ser vista como desej\u00e1vel, como um soquete ao qual nos atarrachamos para podermos enfim conseguir a \u00e1gua que acreditamos necessitar. As livrarias est\u00e3o repletas de livros de auto-ajuda proclamando v\u00e1-rios rem\u00e9dios para a nossa sede: Como fazer seu marido am\u00e1-la, Como aumentar sua auto-estima, e assim por diante. Quer pare\u00e7amos seguros de n\u00f3s, quer n\u00e3o, por baixo dessa camada todos n\u00f3s sentimos que alguma coisa est\u00e1 faltando. Achamos que precisa mos dar um jeito na nossa vida para saciar nossa sede. \u00c9 preciso que criemos essa liga\u00e7\u00e3o, que instalemos nossa mangueira na torneira e recebamos a \u00e1gua para beber.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que nada de fato funciona. Come\u00e7amos a descobrir que a promessa que fizemos a n\u00f3s mesmos &#8211; a de que, de alguma maneira, nossa sede seria resolvida &#8211; nunca \u00e9 cumprida. N\u00e3o estou querendo dizer que nunca gozamos a vida. H\u00e1 muitas coisas na vida que podem ser intensamente desfrutadas: certos relacionamentos, certos trabalhos, certas atividades. Mas o que n\u00f3s queremos \u00e9 uma coisa absoluta. Queremos saciar nossa sede em car\u00e1ter permanente, para que tenhamos toda a \u00e1gua que quisermos, o tempo todo. Essa promessa da completa satisfa\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 cumprida. N\u00e3o pode s\u00ea-lo. No instante em que conseguimos algo que quisemos, ficamos satisfeitos no momento e ent\u00e3o nossa insatisfa\u00e7\u00e3o aparece de novo.<\/p>\n<p>Tentamos durante anos a fio ligar nossa mangueira nesta ou naquela torneira e a cada vez descobrimos que n\u00e3o era o suficiente, e ent\u00e3o vem um momento de profundo des\u00e2nimo. Come\u00e7amos a sentir que o problema n\u00e3o est\u00e1 em nossa incapacidade de ligar um receptor a algo l\u00e1 adiante, mas em que nada externo pode jamais satisfazer essa sede. \u00c9 nesse momento que temos mais chance de dar in\u00edcio a uma pr\u00e1tica s\u00e9ria. Esse pode ser um momento horr\u00edvel &#8211; perceber que nada ir\u00e1 jamais nos satisfazer. Talvez tenhamos um bom emprego, um bom relacionamento ou fam\u00edlia, e, no entanto continuamos com sede &#8211; e nos damos conta de que nada realmente consegue satisfazer nossas exig\u00eancias. Podemos inclusive perceber que mudarmos de vida &#8211; mudar os m\u00f3veis de lugar &#8211; n\u00e3o vai funcionar tamb\u00e9m. O momento desse desespero \u00e9, na realidade, uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, o verdadeiro come\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma coisa estranha acontece quando abrimos m\u00e3o de todas as nossas expectativas. Temos um vislumbre de outra torneira, que at\u00e9 ent\u00e3o tinha permanecido invis\u00edvel. Ligamos nossa mangueira a ela e, para o nosso prazer, descobrimos que a \u00e1gua vem jorrando com for\u00e7a. Pensamos: &#8220;Agora sim! Consegui-o. E o que acontece? Mais uma vez, a \u00e1gua seca. Trouxemos para a pr\u00f3pria pr\u00e1tica todas as nossas exig\u00eancias e de novo estamos com sede.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica tem de ser um processo de intermin\u00e1veis decep\u00e7\u00f5es. Temos de enxergar que tudo o que exigimos (e at\u00e9 obtemos) ir\u00e1 depois nos decepcionar. Essa descoberta \u00e9 nossa mestra. \u00c9 por isso que devemos tomar cuidado com amigos que est\u00e3o em dificuldades, para os quais n\u00e3o devemos demonstrar nossa simpatia acenando-lhes com falsas esperan\u00e7as e promessas de tranq\u00fcilidade. Essa esp\u00e9cie de simpatia &#8211; que n\u00e3o \u00e9 a verdadeira compaix\u00e3o &#8211; simplesmente retarda mais seu aprendizado. Em certo sentido, a melhor ajuda que podemos oferecer a algu\u00e9m \u00e9 apressar seu desapontamento. Embora isso pare\u00e7a cruel, n\u00e3o o \u00e9 na verdade. Ajudamos aos outros e a n\u00f3s mesmos quando come\u00e7amos a enxergar que todas as nossas exig\u00eancias habituais s\u00e3o mal direcionadas. Com o tempo, iremos nos tornar espertos o suficiente para antecipar qual ser\u00e1 nossa pr\u00f3xima decep\u00e7\u00e3o, para saber que nosso pr\u00f3ximo esfor\u00e7o de saciar a sede tamb\u00e9m fracassar\u00e1. A promessa nunca \u00e9 cumprida. Mesmo com muitos anos de pr\u00e1tica, \u00e0s vezes continuamos buscando solu\u00e7\u00f5es falsas, mas conforme vamos em seu encal\u00e7o, reconhecemos a inutilidade desse empenho com uma rapidez maior. Quando ocorre essa acelera\u00e7\u00e3o, nossa pr\u00e1tica est\u00e1 dando resultados. Uma boa pr\u00e1tica inevitavelmente promove essa acelera\u00e7\u00e3o. Devemos notar a promessa que desejamos arrancar das outras pessoas e abandonar o sonho de que elas possam saciar nossa sede. Devemos nos dar conta de que essa \u00e9 uma iniciativa in\u00fatil.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os chamam essa constata\u00e7\u00e3o de a &#8220;noite escura da alma&#8221;. J\u00e1 esgotamos todos os recursos de que dispomos e n\u00e3o vemos mais o que fazer a seguir. E ent\u00e3o sofremos. Embora seja um per\u00edodo de aguda infelicidade, esse sofrimento \u00e9 o ponto de mudan\u00e7a. A pr\u00e1tica nos conduz a esse prof\u00edcuo sofrimento e ajuda-nos a permanecer nele. Quando assim fazemos, em algum momento o sofrimento come\u00e7a a se transformar, e a \u00e1gua come\u00e7a a fluir. Para que isso aconte\u00e7a, todos os nossos lindos sonhos a respeito da vida e da pr\u00e1tica t\u00eam que se despedir, incluindo a cren\u00e7a de que uma boa pr\u00e1tica &#8211; ali\u00e1s, qualquer coisa &#8211; ir\u00e1 fazer-nos felizes. A promessa que nunca ser\u00e1 cumprida se baseia em sistemas de cren\u00e7as, em pensamentos centrados na pr\u00f3pria pessoa que nos sustentam imobilizados e sedentos. Temos milhares deles. \u00c9 imposs\u00edvel elimin\u00e1-los todos; n\u00e3o vivemos o bastante para isso. A pr\u00e1tica n\u00e3o requer que nos livremos deles, mas que simplesmente enxerguemos al\u00e9m deles e os reconhe\u00e7amos em seu vazio e em sua aus\u00eancia de validade.<\/p>\n<p>Jogamos esses sistemas de cren\u00e7as para todo lado como arroz em festa de casamento. Aparecem por toda parte. Por exemplo, quando vai chegando perto do Natal, alimentamos expectativas de que essa seja uma \u00e9poca agrad\u00e1vel e divertida, uma bela \u00e9poca do ano. Se esses dias de Natal n\u00e3o satisfazem nossas expectativas, ficamos deprimidos e contrariados. Na realidade, o Natal ser\u00e1 o que for, quer nossas expectativas sejam realizadas, quer n\u00e3o. Da mesma maneira, quando descobrimos a pr\u00e1tica zen, podemos alimentar a esperan\u00e7a de que isso ir\u00e1 solucionar nossos problemas e tornar nossas vidas perfeitas. Mas a pr\u00e1tica zen simplesmente nos remete de volta \u00e0 vida como ela \u00e9. A pr\u00e1tica zen trata de sermos mais e mais as nossas vidas tais quais s\u00e3o. Nossas vidas s\u00e3o o que s\u00e3o, e o zen nos ajuda a reconhecer esse fato. O pensamento &#8220;Se eu cumprir essa pr\u00e1tica com a paci\u00eancia necess\u00e1ria, tudo ser\u00e1 diferente&#8221; \u00e9 um outro sistema de cren\u00e7as, uma outra vers\u00e3o da promessa que nunca ser\u00e1 cumprida. Quais s\u00e3o alguns outros sistemas de cren\u00e7as?<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Se eu trabalhar bastante, vou conseguir.<br \/>\n<b><\/b><b>JOKO:<\/b> Sim, esse \u00e9 um bom sistema de cren\u00e7a americano.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Se eu for simp\u00e1tico com as pessoas, elas n\u00e3o v\u00e3o me magoar.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Sim, esse \u00e9 um que em geral nos desaponta. As pessoas ser\u00e3o como ser\u00e3o, \u00e9 tudo. Sem garantias.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Minha cren\u00e7a \u00e9 que estamos todos fazendo o melhor que podemos.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Eu tamb\u00e9m tenho a mesma cren\u00e7a.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Se eu fizer exerc\u00edcios diariamente, ficarei saud\u00e1vel.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Soube recentemente de um sujeito que fazia seus exerc\u00edcios com regularidade, mas trope\u00e7ou e fraturou o quadril.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Se eu morasse em outro lugar, desfrutaria mais a vida.<br \/>\nALUNO: Se eu ajudar as pessoas, ent\u00e3o sou uma pessoa boa.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> \u00c9 uma verdadeira armadilha essa cren\u00e7a. Um sistema sedutor que nos trar\u00e1 muitos problemas. Claro, devemos fazer o que \u00e9 apropriado e necess\u00e1rio, mas num sentido mais profundo n\u00e3o podemos ajudar ningu\u00e9m. <\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> J\u00e1 faz tanto tempo que pratico sentado que acho que n\u00e3o devia mais me zangar.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Se voc\u00ea est\u00e1 zangado, voc\u00ea est\u00e1 zangado.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Se meu carro pega f\u00e1cil de manh\u00e3, ent\u00e3o o dia correr\u00e1 sem problemas.<br \/>\nALUNO: Se eu trabalhar por uma causa justa, o mundo ser\u00e1 um lugar melhor.<br \/>\nALUNO: A dor que eu sinto deve tornar-me uma pessoa melhor.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 uma boa pessoa, assim como \u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00fatil rever nossos sistemas de cren\u00e7as dessa maneira, porque sempre existe uma que n\u00e3o vemos. Em cada sistema de cren\u00e7as escondemos uma promessa. Quanto \u00e0 pr\u00e1tica zen: a \u00fanica promessa com que podemos contar \u00e9 que, quando acordarmos para nossas vidas, seremos pessoas mais livres. Se acordarmos para o modo como vemos a vida e lidamos com ela, aos poucos iremos nos libertando &#8211; n\u00e3o necessariamente mais felizes ou melhores, no entanto mais livres.<\/p>\n<p>Todas as pessoas infelizes que j\u00e1 conheci estavam prisioneiras de um sistema de cren\u00e7as que alimenta alguma promessa, promessa que nunca foi cumprida. As pessoas que v\u00eam praticando bem j\u00e1 h\u00e1 algum tempo s\u00e3o diferentes apenas pelo fato de que reconhecem esse mecanismo que gera infelicidade e est\u00e3o aprendendo a manter-se conscientes disso &#8211; o que \u00e9 muito diferente de tentar mud\u00e1-lo ou dar um jeito nele. Em si, o processo \u00e9 t\u00e3o simples quanto poss\u00edvel. Todavia, n\u00f3s, seres humanos, consideramo-lo dific\u00edlimo. N\u00e3o temos em absoluto o menor interesse em manter nossa percep\u00e7\u00e3o consciente. Queremos estar pensando a respeito de alguma outra coisa, de qualquer outra coisa. Por isso, nossas vidas oferecem-nos o desest\u00edmulo intermin\u00e1vel, ou seja, o presente perfeito.<\/p>\n<p>Quando as pessoas ouvem isso, querem levantar-se e sair. No entanto, a vida as persegue. Seu sistema de cren\u00e7as continua mantendo-as infelizes. Queremos nos agarrar aos nossos sistemas de cren\u00e7as, mas, quando o fazemos, sofremos. Em certo sentido, tudo funciona com perfei\u00e7\u00e3o. Nunca me importo quando algu\u00e9m come\u00e7a a pr\u00e1tica ou a interrompe. Isso n\u00e3o faz nenhuma diferen\u00e7a. O processo segue inevitavelmente adiante. \u00c9 verdade que algumas pessoas, mesmo que ao longo de uma vida inteira, nunca parecem aprender algo desse processo. Todos conhecemos pessoas assim. No entanto, o processo prossegue, mesmo quando elas o ignoram. A pr\u00e1tica diminui nossa capacidade de ignor\u00e1-lo. Depois de uma certa dose de pr\u00e1tica, mesmo que digamos &#8220;Bom, n\u00e3o vou fazer essa pr\u00e1tica. \u00c9 muito dif\u00edcil&#8221;, n\u00e3o podemos evit\u00e1-lo. Depois de algum tempo, n\u00f3s simplesmente praticamos. Assim que a conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 despertada, n\u00e3o podemos jog\u00e1-la para dentro da caixa de novo.<\/p>\n<p>Os conceitos b\u00e1sicos da pr\u00e1tica s\u00e3o de fato bastante simples. Por\u00e9m, praticar a pr\u00e1tica e chegar a um genu\u00edno entendimento dela leva muito tempo. Muitos sup\u00f5em, nos primeiros dois anos, que a entendem claramente. Na realidade, se praticarmos bem durante dez a quinze anos, estaremos indo bastante bem. Para a maioria, vinte anos \u00e9 o tempo que leva. \u00c9 nesse per\u00edodo que a pr\u00e1tica se torna razoavelmente clara e a estaremos vivendo o tempo todo que pudermos, do momento em que acordamos pela manh\u00e3 at\u00e9 a hora de ir dormir. Nessa altura, a pr\u00e1tica at\u00e9 continua pela noite adentro, enquanto dormimos. Logo, n\u00e3o existe um &#8220;jeito r\u00e1pido&#8221;. Conforme vamos praticando, no entanto, vai se tornando cada vez mais agrad\u00e1vel, mais engra\u00e7ada. Nossos joelhos podem doer, podemos enfrentar toda esp\u00e9cie de adversidades em nossas vidas, mas a pr\u00e1tica consegue ser divertida, mesmo quando \u00e9 dif\u00edcil, dolorosa e frustrante.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> \u00c0s vezes \u00e9 muito estimulante. Sempre que fico livre da dor, na pr\u00e1tica, come\u00e7o a rir.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Por que voc\u00ea viu uma coisa que n\u00e3o tinha visto antes? ALUNO: Claro.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Voc\u00ea sugeriu que, em certo sentido, n\u00e3o existe isso de pr\u00e1tica zen. Voc\u00ea poderia explicar?<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Existe a pr\u00e1tica de manter a percep\u00e7\u00e3o consciente. Nesse sentido, a pr\u00e1tica zen existe. Mas, enquanto estamos vivos, existe a quest\u00e3o da conscientiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos evit\u00e1-la. Assim, n\u00e3o existem meios de se evitar a pr\u00e1tica, nem de faz\u00ea-la. Ela \u00e9 apenas estar vivo. Embora existam algumas atividades formais que nos ajudam a despertar (e que chamamos de pr\u00e1tica zen se quisermos), a verdadeira &#8220;pr\u00e1tica zen&#8221; \u00e9 apenas estar aqui agora e n\u00e3o acrescentar nada a isso.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Retomando a analogia da parede com pequenas torneiras: quando encontramos uma torneira e nos ligamos a ela, conseguimos um pouco de \u00e1gua, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> Sim, por algum tempo saciamos ligeiramente nossa sede. Por exemplo, suponha que durante seis meses voc\u00ea quis convidar uma mo\u00e7a para sair e que por fim voc\u00ea arrumou coragem para falar com ela e ela aceitou. Por um breve instante, existe uma sensa\u00e7\u00e3o imensa de contentamento. A isso chamamos de conseguir \u00e1gua, embora voc\u00ea realmente estar satisfeito seja uma outra quest\u00e3o. Mais cedo ou mais tarde, essa ela\u00e7\u00e3o diminui e a vida de novo parece que se nos apresenta com novos problemas. Estou falando de um modo de viver em que a pr\u00f3pria vida n\u00e3o \u00e9 problema. Temos problemas, mas n\u00e3o existe problema em lidar com eles. Talvez todos consigam ver isso, mesmo que rapidamente, de vez em quando.<br \/>\nEm certo sentido, o zen \u00e9 uma pr\u00e1tica religiosa. Religi\u00e3o na verdade significa religar aquilo que parece estar separado. A pr\u00e1tica zen ajuda-nos com isso. Mas n\u00e3o \u00e9 uma religi\u00e3o no sentido de que existe algo fora de n\u00f3s que ir\u00e1 tomar conta de nossas vidas. Uma grande parte das pessoas que entram na pr\u00e1tica zen n\u00e3o tem uma filia\u00e7\u00e3o religiosa. Nada tenho contra a religi\u00e3o formal. Em todas as religi\u00f5es existem algumas pessoas not\u00e1veis que verdadeiramente praticam e sabem o que est\u00e3o fazendo. Todavia, tamb\u00e9m existem aquelas que n\u00e3o possuem nenhum v\u00ednculo com uma religi\u00e3o formal e que mesmo assim praticam igualmente bem. No fim, n\u00e3o existe pr\u00e1tica, sen\u00e3o aquilo que estamos fazendo a cada segundo.<br \/>\nUma vez que a verdadeira pr\u00e1tica e a verdadeira religi\u00e3o ajudam-nos a religar aquilo que parecia estar separado, toda pr\u00e1tica tem que ser acerca da raiva. A raiva \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o que nos separa. Ela corta tudo em dois.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Essa n\u00e3o seria uma pr\u00e1tica muito dif\u00edcil para ser realizada inteiramente a s\u00f3s? Quando um de meus sistemas de cren\u00e7as se rompe, sinto-me tra\u00eddo e preciso de um certo apoio de outras pessoas.<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> &#8220;Sentir-se tra\u00eddo&#8221; \u00e9, evidentemente, apenas um outro pensamento. \u00c9 mais dif\u00edcil praticar sozinho, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 proveitoso ir at\u00e9 um centro zen e obter alguns fundamentos, depois manter um contato de longa dist\u00e2ncia e vir para praticar com os outros, quando puder. Quando a pessoa pratica sozinha \u00e9 como nadar contra a corrente. Numa comunidade de pessoas que se sentam juntas para praticar, temos uma linguagem comum e um entendimento comum do que \u00e9 a pr\u00e1tica. Mesmo assim, tenho alguns alunos excelentes que vivem bastante longe do centro zen e que falam comigo pelo telefone. Alguns deles est\u00e3o indo muito bem. E, para alguns, o esfor\u00e7o de praticar com um apoio t\u00e3o m\u00ednimo pode ser a coisa mais proveitosa de todas.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A promessa que nunca \u00e9 cumprida Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Nossos problemas decorrem do desejo. No entanto, nem todos os desejos criam problemas. Existem dois tipos de desejos: as exig\u00eancias (&#8220;Tenho que ter isso&#8221;) e &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-promessa-que-nunca-e-cumprida\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5160","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5160"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5887,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5160\/revisions\/5887"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}