{"id":5173,"date":"2018-06-14T18:25:00","date_gmt":"2018-06-14T20:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5173"},"modified":"2020-06-10T15:40:29","modified_gmt":"2020-06-10T17:40:29","slug":"rodamoinhos-e-aguas-paradas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/rodamoinhos-e-aguas-paradas\/","title":{"rendered":"Rodamoinhos e \u00e1guas paradas"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas-280x300.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5916\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas-280x300.jpg 280w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas-768x824.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas-954x1024.jpg 954w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Rodamoinhos-e-\u00e1guas-paradas.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Somos bem parecidos a rodamoinhos no rio da vida. Em seu fluxo, o rio ou riacho encontra pedras, galhos ou irregularidades de leito que levam ao aparecimento espont&acirc;neo de rodamoinhos aqui e ali. A &aacute;gua que passa por esses pontos rapidamente os atravessa e se reintegra ao rio, podendo mais adiante entrar em outro rodamoinho e prosseguir depois. Embora por curtos per&iacute;odos ela pare&ccedil;a distinta, um evento separado, a &aacute;gua do rodamoinho &eacute; apenas o pr&oacute;prio rio. A estabilidade do rodamoinho &eacute; tempor&aacute;ria. A energia do rio da vida forma as coisas vivas &#8211; o ser humano, o gato, o cachorro, as &aacute;rvores e as plantas &#8211; e, ent&atilde;o, o que mantinha o rodamoinho no lugar sofre uma modifica&ccedil;&atilde;o e aquele torvelinho &eacute; desfeito e toma a entrar no fluxo maior. A energia que foi um certo rodamoinho se dissolve e a &aacute;gua prossegue, talvez para ser novamente retida e, por um momento, transformar-se em outro rodamoinho.<\/p>\n<p>Preferimos, no entanto n&atilde;o pensar sobre nossas vidas dessa maneira. N&atilde;o queremos nos ver como uma forma&ccedil;&atilde;o tempor&aacute;ria e simples, um rodamoinho no rio da vida. O fato &eacute; que assumimos uma forma por um certo tempo e, quando as condi&ccedil;&otilde;es s&atilde;o prop&iacute;cias, sa&iacute;mos de cena. N&atilde;o ha nada errado em sair de cena; &eacute; uma parte natural do processo. Contudo, gostamos de pensar que esses pequenos rodamoinhos que somos n&atilde;o fazem parte do rio. Queremos nos ver como seres permanentes e est&aacute;veis. Toda a nossa energia &eacute; dirigida para nossas tentativas de proteger nossa suposta realidade em separado. Para proteger essa nossa separa&ccedil;&atilde;o, criamos limites fixos e artificiais. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia disso, acumulamos excesso de bagagem, coisas que deslizam para o fundo do rodamoinho e n&atilde;o podem fluir de novo. Assim, as coisas v&atilde;o entupindo nosso rodamoinho e o processo fica confuso. O rio precisa fluir naturalmente, sem empecilhos. Se o nosso rodamoinho particular est&aacute; todo entulhado de coisas, acabamos tamb&eacute;m prejudicando o rio em si. Ele n&atilde;o conseguir&aacute; ir a parte nenhuma. Os rodamoinhos pr&oacute;ximos ter&atilde;o menos &aacute;gua em virtude de nosso apego desesperado. O melhor que podemos fazer por n&oacute;s e pela vida &eacute; manter a &aacute;gua de nosso rodamoinho fluindo e limpa para que apenas continue seu curso. Quando fica represada, criamos problemas mentais, f&iacute;sicos e espirituais.<\/p>\n<p>A melhor maneira de servirmos outros rodamoinhos &eacute; permitindo que a &aacute;gua que entra no nosso tenha liberdade para escorrer atrav&eacute;s dele e ir em frente solta e r&aacute;pida, para atingir qualquer outro ponto que precise ser mobilizado. A energia da vida busca uma r&aacute;pida transforma&ccedil;&atilde;o. Se conseguirmos ver a vida dessa maneira e n&atilde;o nos apegarmos a nada, a vida simplesmente vem e vai. Quando detritos chegam ao nosso pequeno rodamoinho, e se seu fluxo for harm&ocirc;nico e forte, eles ficam girando por al&iacute; durante um certo tempo e depois seguem adiante. N&atilde;o &eacute; assim por&eacute;m que vivemos. Como n&atilde;o percebemos que somos simples rodamoinhos no rio do universo, consideramo-nos entidades separadas que precisam proteger seus limites. O pr&oacute;prio julgamento &quot;Sinto-me magoado&quot; estipula um limite ao nomear um &quot;eu&quot; que cobra ser protegido. Sempre que algum lixo flutua para dentro de nosso rodamoinho, fazemos de tudo para evit&aacute;-lo, para expuls&aacute;-lo, ou para, de alguma maneira, control&aacute;-lo.<br \/>\nNoventa por cento da vida &eacute; gasta na tentativa de criar limites em tomo do rodamoinho. Estamos constantemente na defensiva: &quot;Ele talvez me magoe&quot;; &quot;Isso pode dar errado&quot;; &quot;N&atilde;o gosto dele de jeito nenhum&quot;. Esse &eacute; um completo mau uso da nossa fun&ccedil;&atilde;o vital e, mesmo assim, todos nos comportamos dessa forma, em maior ou menor escala.<\/p>\n<p>As preocupa&ccedil;&otilde;es financeiras refletem nosso esfor&ccedil;o para manter limites fixos. &quot;E se o meu investimento fracassar? Talvez eu perca todo o meu dinheiro.&quot; N&atilde;o queremos que nada ameace nosso suprimento monet&aacute;rio. Todos pensam que isso seria uma coisa terr&iacute;vel. Sendo protetores e ansiosos, apegando-nos aos nossos bens materiais, entulhamos nossas vidas. A &aacute;gua que deveria estar correndo, entrando e saindo, para poder servir, toma-se estagnada. O rodamoinho que ergue um dique a sua volta e se isola do resto do rio se toma estagnado e perde sua vitalidade. A pratica consiste em n&atilde;o se estar mais preso ao que &eacute; particular, mas em enxerg&aacute;-lo como realmente &eacute; uma parte do todo. Apesar disso, gastamos a maior parte de nossa energia criando &aacute;gua parada. E isso o que acontece quando se vive no medo. O medo existe porque o rodamoinho n&atilde;o entende o que &eacute; &#8211; ou seja, nada al&eacute;m do pr&oacute;prio rio. Enquanto n&atilde;o tivermos um vislumbre dessa verdade, toda nossa energia estar&aacute; indo &agrave; dire&ccedil;&atilde;o errada. Criamos muitos pontos de estagna&ccedil;&atilde;o que geram contamina&ccedil;&atilde;o e doen&ccedil;as. Esses pontos estagnados em busca de prote&ccedil;&atilde;o dentro dos diques come&ccedil;am a brigar uns com os outros. &quot;Voc&ecirc; fede. N&atilde;o gosto de voc&ecirc;&quot;.&Aacute;guas estagnadas causam muitos problemas. O frescor da vida est&aacute; perdido.<br \/>\nA pratica do zen ajuda-nos a ver de que maneira criamos estagna&ccedil;&atilde;o em nossa vida. &quot;Ser&aacute; que eu fui sempre t&atilde;o zangado e nunca reparei?&quot; Assim, nossa primeira descoberta na pratica &eacute; reconhecer nossa pr&oacute;pria estagna&ccedil;&atilde;o, criada por nossos pensamentos centrados em n&oacute;s mesmos. Os maiores problemas s&atilde;o criados por aquelas atitudes que n&atilde;o conseguimos enxergar em n&oacute;s. A depress&atilde;o, o medo e a raiva que n&atilde;o s&atilde;o reconhecidos criam rigidez. Quando reconhecemos a rigidez e a estagna&ccedil;&atilde;o, a &aacute;gua come&ccedil;a a fluir de novo, pouco a pouco. Sendo assim, a parte mais vital da pr&aacute;tica &eacute; o desejo de ser a pr&oacute;pria vida que &eacute; apenas o conjunto das sensa&ccedil;&otilde;es que nos chegam &#8211; como aquilo que cria nosso rodamoinho.<br \/>\nAo longo de muitos anos, treinamo-nos para fazer o oposto: criar pontos de &aacute;gua estagnada. Essa &eacute; a nossa falsa conquista. Desse esfor&ccedil;o incessante nascem todos os nossos problemas e o nosso distanciamento da vida. N&atilde;o sabemos como ser &iacute;ntimos, como ser um fluxo de vida. Um rodamoinho estagnado, com limites defendidos, n&atilde;o est&aacute; pr&oacute;ximo de nada. Prisioneiros de sonhos, centrados em n&oacute;s mesmos sofremos, como dizem os votos di&aacute;rios de um de nossos centros de zen. A pr&aacute;tica &eacute; a lenta invers&atilde;o disso. Para a maioria dos estudantes, essa invers&atilde;o &eacute; trabalho para uma vida inteira. A mudan&ccedil;a &eacute; em geral dolorosa, principalmente no inicio. Quando estamos habituados &agrave; rigidez e a inflexibilidade de uma vida defendida, n&atilde;o queremos dar permiss&atilde;o para que novas correntes de energia cruzem o espa&ccedil;o da consci&ecirc;ncia, por mais rejuvenescedoras que sejam.<br \/>\nA verdade &eacute; que n&atilde;o gostamos muito de ar fresco. N&atilde;o gostamos muito de &aacute;gua limpa. Leva muito tempo ate conseguirmos enxergar nosso sistema de defesa e manipula&ccedil;&atilde;o da vida em nossas atividades di&aacute;rias. A pr&aacute;tica ajuda-nos a enxergar tais manobras com mais clareza, e essas constata&ccedil;&otilde;es sempre s&atilde;o desagrad&aacute;veis. Ainda assim, &eacute; fundamental que vejamos o que estamos fazendo. Quanto mais tempo praticarmos, mais prontamente poderemos reconhecer nossos padr&otilde;es de defesa. O processo nunca &eacute; f&aacute;cil ou indolor, por&eacute;m, e aqueles que est&atilde;o esperando encontrar um lugar f&aacute;cil e r&aacute;pido para descansar n&atilde;o dever&atilde;o embarcar nessa viagem.<br \/>\nPor esse motivo &eacute; que n&atilde;o me sinto &agrave; vontade com o crescimento do Centro Zen em San Diego. Um n&uacute;mero excessivo de aprendizes est&aacute; em busca de solu&ccedil;&otilde;es f&aacute;ceis e indolores para suas dificuldades. Prefiro um centro menor, limitado &agrave;queles que est&atilde;o prontos e dispostos a executar o trabalho. Claro que n&atilde;o espero de principiantes o mesmo que de praticantes mais experientes. Estamos todos aprendendo, cada vez mais. No entanto, quanto maior o centro, mais dif&iacute;cil &eacute; manter o ensino limpo e rigoroso. N&atilde;o &eacute; importante o n&uacute;mero de alunos que conseguimos atrair para o centro. Importante &eacute; manter forte a pr&aacute;tica. Por isso estou exigindo cada vez mais nos ensinamentos. Este n&atilde;o &eacute; um lugar para quem est&aacute; interessado numa paz ou num estado de gra&ccedil;a artificial, ou em algum outro estado particular.<br \/>\nO que obtemos efetivamente da pratica &eacute; tornarmo-nos mais conscientes, mais despertos, mais vivos. E reconhecer nossas tend&ecirc;ncias nocivas t&atilde;o bem que n&atilde;o tenhamos necessidade de p&ocirc;-las em pr&aacute;tica com os outros. Aprendemos que nunca est&aacute; certo berrar com algu&eacute;m s&oacute; porque estamos aborrecidos. A pr&aacute;tica ajuda-nos a perceber onde nossa vida est&aacute; estagnada. Diferentemente dos rios de montanha com sua maravilhosa &aacute;gua percorrendo v&aacute;rios lugares, somos as vezes levados a uma imobiliza&ccedil;&atilde;o com pensamentos do tipo: &quot;N&atilde;o gosto disso&#8230; Ele de fato me magoa&quot;, ou &quot;Minha vida &eacute; t&atilde;o dif&iacute;cil&quot;. Na realidade, s&oacute; existe o fluxo incessante da &aacute;gua. Aquilo que chamamos de nossa vida nada mais &eacute; que um pequeno desvio, um rodamoinho que se forma para em seguida se desfazer. As vezes, seus desvios s&atilde;o pequeninos e muito curtos: a vida rodopia por um ano ou dois em um s&oacute; lugar e depois &eacute; removida. As pessoas se indagam por que alguns beb&ecirc;s morrem quando ainda s&atilde;o t&atilde;o novinhos. Quem sabe? Nos n&atilde;o sabemos por qu&ecirc;. Faz parte desse intermin&aacute;vel fluxo de energia. Quando pudermos aceit&aacute;-lo, estaremos em paz. Quando todos os nossos esfor&ccedil;os v&atilde;o &agrave; dire&ccedil;&atilde;o oposta, n&atilde;o estamos em paz.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Em nossa vida, &eacute; uma boa id&eacute;ia escolher uma dire&ccedil;&atilde;o especifica e concentrar ali nossa aten&ccedil;&atilde;o, ou em melhor apenas aceitar as coisas como elas s&atilde;o? Estipular metas especificas pode bloquear o fluxo da vida, n&atilde;o &eacute;?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> O problema est&aacute; n&atilde;o em termos metas, mas em nossa rela&ccedil;&atilde;o com elas. Precisamos ter algumas metas. Por exemplo, os pais se estipulam metas, como organizar suas finan&ccedil;as antecipadamente para pagar a educa&ccedil;&atilde;o de seus filhos. As pessoas com talentos naturais tem como meta desenvolv&ecirc;-los. N&atilde;o ha nada de errado nisso. Ter metas &eacute; parte de ser humano. &Eacute; como chegamos Ia que cria transtornos.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> O melhor caminho &eacute; ter as metas, mas n&atilde;o ficar na depend&ecirc;ncia do resultado final?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> &Eacute; isso. A pessoa simplesmente faz aquilo que &eacute; preciso para atingir seu objetivo. Qualquer pessoa que se interesse em obter um grau acad&ecirc;mico precisa matricular-se numa escola e assistir as aulas, por exemplo. A quest&atilde;o &eacute; incentivar o objetivo realizando-o no presente: fazendo isto, isso ou aquilo, conforme for se mostrando necess&aacute;rio, aqui, agora. Em algum momento iremos colar o grau, ou o que for. Por outro lado, se apenas sonhamos com um objetivo e deixamos de prestar aten&ccedil;&atilde;o ao presente, &eacute; prov&aacute;vel que n&atilde;o consigamos levar nossa vida adiante \u2014 e fiquemos estagnados.<br \/>\nSeja qual for a nossa escolha, o resultado nos servir&aacute; como uma li&ccedil;&atilde;o. Se estivermos atentos e despertos, aprenderemos o que &eacute; necess&aacute;rio fazer em seguida. Nesse sentido, n&atilde;o ha decis&atilde;o errada. No minuto mesmo em que tomamos uma decis&atilde;o, somos confrontados com nosso pr&oacute;ximo professor. Podemos fazer escolhas que nos deixem incomodados. Podemos ter remorso por certas coisas que fazemos e aprender com essas experi&ecirc;ncias. Por exemplo, n&atilde;o existe uma pessoa ideal para se casar, nem um meio ideal de se viver. No instante que nos casamos, estamos com todo um novo conjunto de oportunidades in&eacute;ditas de aprendizagem, combust&iacute;vel para pr&aacute;tica. Isso vale n&atilde;o apenas para casamentos, mas para qualquer rela&ccedil;&atilde;o. Enquanto estivermos praticando com o que chega a nos, o resultado final ser&aacute; quase sempre recompensador e ter&aacute; valido a pena.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Quando estipulo uma meta para mim, minha tend&ecirc;ncia &eacute; usar o estilo &quot;r&aacute;pido e em frente&quot;, ignorando o fluxo do rio.<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> Quando o rodamoinho tenta tomar-se independente do rio, como um tomado que rodopia e sai do controle, ele pode causar muitos estragos. Mesmo que pensemos no objetivo como um certo estado futuro a ser alcan&ccedil;ado, a verdadeira meta &eacute; sempre a vida deste momento. N&atilde;o h&aacute; como empurrar o rio para o lado. Mesmo que tenhamos constru&iacute;do um dique a nossa volta e tenhamos nos tomado um lago de &aacute;gua estagnada, alguma coisa acontecer&aacute; que n&atilde;o hav&iacute;amos previsto. Talvez &eacute; a amiga e seus quatro filhos que se convida para vir nos visitar por uma semana. Ou morre algu&eacute;m. Ou o trabalho muda de repente. A vida parece nos apresentar justamente aquilo que seria preciso para movimentar o lago.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Em termos da analogia dos rodamoinhos e do rio, qual &eacute; a diferen&ccedil;a entre vida e morte?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> O rodamoinho &eacute; um v&oacute;rtice, e em tono de seu centro a &aacute;gua gira. Conforme a vida da pessoa vai prosseguindo, o centro aos poucos vai ficando cada vez mais fraco. Quando enfraquecer o suficiente, desfaz-se e a &aacute;gua simplesmente se torna de novo parte do rio.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Desse ponto de vista, n&atilde;o seria melhor ser sempre apenas parte do rio?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> Nos sempre somos parte do rio, sendo rodamoinhos ou n&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; como evitarmos ser parte do rio. N&atilde;o sabemos disso, por&eacute;m, porque temos uma forma delimitada e n&atilde;o enxergamos al&eacute;m dela.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Portanto &eacute; uma ilus&atilde;o que a vida seja diferente da morte? <\/p>\n<p><b>JOKO: <\/b>Em sentido absoluto isso &eacute; verdade, embora de nosso ponto de vista sejam momentos distintos. Em n&iacute;veis diferentes, ambas as percep&ccedil;&otilde;es s&atilde;o verdadeiras: n&atilde;o existe vida e morte. Existe vida e morte. Quando s&oacute; conhecemos essa segunda perspectiva, apegamo-nos a vida e tememos a morte. Quando as vemos as duas, o aguilh&atilde;o da morte &eacute; muito mais t&ecirc;nue.<br \/>\nSe esperarmos o bastante, todos os rodamoinhos acabar&atilde;o desfazendo-se com o tempo. A mudan&ccedil;a &eacute; inevit&aacute;vel. Como vivo em San Diego h&aacute; muito tempo, tenho observado os penhascos de La Jolla h&aacute; anos. Eles est&atilde;o mudando. A linha costeira que existe hoje n&atilde;o &eacute; a mesma que eu contemplava h&aacute; trinta anos. Acontece o mesmo com os rodamoinhos: eles tamb&eacute;m mudam e, com o tempo, v&atilde;o enfraquecendo. Algo cede enfim, a &aacute;gua flui numa corredeira \u2014 e est&aacute; tudo certo.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Quando enfim morremos, retemos alguma coisa do que fomos ou tudo se acaba?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> N&atilde;o vou responder a essa pergunta. Sua pratica ir&aacute; proporcionar-lhe um certo entendimento dessa quest&atilde;o.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Algumas vezes voc&ecirc; descreve a energia da vida como uma intelig&ecirc;ncia natural que nos somos. Essa intelig&ecirc;ncia teria algum tipo de limite?<br \/>\n<b>JOKO:<\/b> N&atilde;o. Intelig&ecirc;ncia n&atilde;o &eacute; uma coisa; n&atilde;o &eacute; uma pessoa. N&atilde;o tem limites. No instante em que estabelecemos limites para uma coisa, nos a inserimos na esfera fenom&ecirc;nica das coisas, como um rodamoinho que se enxerga separado do rio.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Um de nossos votos comuns no Centro Zen fala de um &quot;ilimitado campo de benesses&quot;*. Isso &eacute; o mesmo que o rio, que a intelig&ecirc;ncia natural que nos somos?<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> Sm. A vida humana &eacute; apenas uma forma tempor&aacute;ria que essa energia toma.<\/p>\n<p><b>ALUNO:<\/b> Apesar disso, em nossas vidas existe de fato a necessidade de limites. Tenho uma grande dificuldade em juntar Isso com o que voc&ecirc; est&aacute; dizendo.<\/p>\n<p><b>JOKO:<\/b> Alguns limites s&atilde;o simplesmente inerentes ao que somos; por exemplo, todos temos uma quantidade limitada de energia e de tempo. Precisamos reconhecer nossas limita&ccedil;&otilde;es nesse sentido. Mas isso n&atilde;o quer dizer que tenhamos de estabelecer limites artificiais e defensivos que bloqueiam nossas vidas. Mesmo quando somos ainda pequenos rodamoinhos podemos j&aacute; reconhecer que somos parte do rio &#8211; e n&atilde;o ficamos estagnados.<\/p>\n<p><b>Notas:<\/b><\/p>\n<ol>\n<li><b>Os votos s&atilde;o os seguintes: Preso num sonho autocentrado: somente sofrimentoApegado a pensamentos autocentrados: exatamente o sonho. A cada momento, a vida &eacute; assim: a &uacute;nica mestra. Ser somente este momento: o caminho da compaix&atilde;o.<\/b><\/li>\n<li><b>Francis Dojun Cook. How to raise an ox: Zen master Dogen\u00b4s Shobogenzo, including ten newlv translated essays. Los Angeles: Center Publications. 1978. p24 es.<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Somos bem parecidos a rodamoinhos no rio da vida. 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