{"id":5226,"date":"2018-06-15T09:47:23","date_gmt":"2018-06-15T11:47:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5226"},"modified":"2018-06-15T09:56:29","modified_gmt":"2018-06-15T11:56:29","slug":"dorothy-e-a-porta-trancada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/dorothy-e-a-porta-trancada\/","title":{"rendered":"Dorothy e a porta trancada"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/dorothy-e-a-porta-trancada\/dorothy-e-a-porta-trancada-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5228\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dorothy-e-a-porta-trancada-192x300.jpg\" alt=\"\" width=\"192\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5228\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dorothy-e-a-porta-trancada-192x300.jpg 192w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Dorothy-e-a-porta-trancada.jpg 288w\" sizes=\"auto, (max-width: 192px) 100vw, 192px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Dorothy e a porta trancada<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Todos estamos em busca de alguma coisa. A maioria dos seres humanos sente uma esp\u00e9cie de falta, de algo incompleto, e busca algo que preencha o buraco que sentem. Mesmo aqueles que dizem: -N\u00e3o estou buscando nada; estou contente com a minha vida&#8221;, tamb\u00e9m est\u00e3o em uma busca a seu pr\u00f3prio modo. Assim, as pessoas v\u00e3o para esta ou aquela igreja, para os centros zen ou de ioga, comparecem a workshops de crescimento pessoal &#8211; na esperan\u00e7a de encontrar essa pe\u00e7a que falta.<\/p>\n<p>Quero falar com voc\u00eas sobre uma garota chamada Dorothy. Ela n\u00e3o morou no Kansas, mas em San Diego, numa i4ensa casa em estilo vitoriano. Sua fam\u00edlia morava no solar h\u00e1 v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es. Todos tinham seu pr\u00f3prio quarto, e havia aposentos extras e cub\u00edculos por toda parte, al\u00e9m de um s\u00f3t\u00e3o e um por\u00e3o. Quando Dorothy ainda era uma garotinha, ela aprendeu que algo de estranho havia naquela casa: no \u00faltimo andar daquela velha mans\u00e3o vitoriana havia um quarto trancado. H\u00e1 tanto tempo quanto as pessoas conseguiam se lembrar, aquele quarto sempre permanecera trancado. Corriam rumores de que um dia fora aberto, por\u00e9m ningu\u00e9m sabia o que havia l\u00e1 dentro. A fechadura daquela porta era estranha e ningu\u00e9m jamais conseguira encontrar uma maneira de abri-la. As janelas daquele aposento tamb\u00e9m estavam de algum modo bloqueadas. Uma vez Dorothy subiu numa escada pelo lado de fora da casa e tentou ver o que havia l\u00e1 dentro, mas n\u00e3o conseguiu ver nada.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas daquela fam\u00edlia estava simplesmente habituada ao aposento com sua porta trancada. Sabiam que estava l\u00e1, mas n\u00e3o queriam se importar com isso. Por essa raz\u00e3o era apenas uma coisa que mencionavam. Dorothy por\u00e9m era diferente. Desde o tempo em que era muito pequenina ainda ficou obcecada com esse quarto e com o que haveria dentro dele. Ela achava que ela precisava abri-lo.<\/p>\n<p>Quase tudo a respeito da vida de Dorothy era normal para uma garotinha daquele tamanho. Ela cresceu, fizeram-lhe tran\u00e7as no cabelo, tornou-se adolescente, cortou o cabelo segundo a \u00faltima moda, tinha uma amiga insepar\u00e1vel, um amigo insepar\u00e1vel, ficava toda excitada com as \u00faltimas novidades no campo da maquiagem e com a mais nova can\u00e7\u00e3o de sucesso. Ela era bastante normal. Todavia nunca desistiu de sua obsess\u00e3o pelo quarto trancado. De certo modo, isso dominava a sua vida. As vezes ela subia at\u00e9 o \u00faltimo andar e sentava-se diante da porta e permanecia apenas olhando para ela, indagando-se sobre o que haveria por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Quando Dorothy ficou um pouco mais velha, ela sentia o quarto como um aposento ligado ao que lhe fazia falta na vida. Por isso deu in\u00edcio a v\u00e1rios tipos de treinamentos e pr\u00e1ticas na esperan\u00e7a de encontrar o segredo que lhe permitiria abrir a porta. Tentou de tudo: foi a v\u00e1rios centros, consultou diversos professores, buscando a f\u00f3rmula para destrancar a porta. Participou de workshops, passou por processos de renascimento, hipnose e muito mais. Fez de tudo. Nada, contudo, destrancava a porta para ela. Sua busca prosseguiu durante muito tempo, ao longo de todos os anos da universidade e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Ela criou t\u00e9cnicas para se levar a v\u00e1rios estados alterados de consci\u00eancia, e continuava ainda assim incapaz de abrir aquela porta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um dia, quando chegou em casa, notou que ela estava deserta. Ela subiu at\u00e9 o \u00faltimo andar e sentou-se em frente da porta trancada. Usando uma de suas pr\u00e1ticas esot\u00e9ricas ela entrou num estado profundo de medita\u00e7\u00e3o. Obedecendo a um impulso, estendeu a m\u00e3o e empurrou a porta &#8211; que come\u00e7ou a abrir. Ela estava eletrizada. Em todos aqueles longos anos de tentativas para abrir a porta, nada parecido com aquilo havia ocorrido. Dorothy sentiu medo e excita\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo. Tremendo, for\u00e7ou-se a atravessar aquela porta. Foi quando descobriu&#8230;<br \/>\n<b><\/b><br \/>\nDesapontamento e confus\u00e3o. Dorothy encontrou-se n\u00e3o num novo, ou estranho, ou maravilhoso espa\u00e7o naquele aposento misterioso, mas imediatamente de volta ao piso t\u00e9rreo daquela velha casa vitoriana, em meio a todas as coisas antigas e t\u00e3o conhecidas. Era a mesma perspectiva, ela estava na mesma localiza\u00e7\u00e3o com a mesma conhecida mob\u00edlia de sempre. Tudo era apenas como sempre tinha sido. Decepcionada e intrigada ao mesmo tempo, algumas horas depois ela subiu as escadas at\u00e9 o \u00faltimo andar e entrou no aposento misterioso. A porta ainda estava trancada. Dorothy havia aberto a porta &#8211; e n\u00e3o havia aberto a porta.<\/p>\n<p>A vida seguiu em frente. Dorothy casou-se. Teve um casal de filhos. Ainda morava na mesma casa vitoriana, com sua fam\u00edlia. Era uma boa esposa e uma boa m\u00e3e. Ainda assim, nunca desistiu de sua obsess\u00e3o. Ali\u00e1s, sua \u00fanica experi\u00eancia de ter aberto a porta motivava-a sempre mais. Ela passava muito tempo no \u00faltimo andar diante da porta trancada, de pernas cruzadas, tentando abri-la. J\u00e1 o havia feito uma vez, poderia faz\u00ea-lo de novo. E com certeza, depois de tantos anos tentando, aconteceu de novo: ela empurrou a porta e esta se abriu. Excitada, ela pensava: &#8220;Hoje \u00e9 o dia!&#8221;. Atravessou a porta &#8211; e outra vez se encontrou no t\u00e9rreo da mesma velha casa vitoriana, onde morava com o marido e os filhos. Correu de novo at\u00e9 o \u00faltimo andar at\u00e9 o aposento misterioso e o que encontrou? A porta continuava trancada.<\/p>\n<p>O que se pode fazer? Uma porta trancada \u00e9 uma porta trancada. Dorothy deu continuidade \u00e0 sua vida. Ficou com os cabelos grisalhos. Continuava passando um bom tempo sentada diante da porta trancada. Era uma esposa e m\u00e3e bastante boa, mas sua aten\u00e7\u00e3o ainda se dirigia sobretudo para a porta trancada. E ela era uma pessoa persistente, ass\u00eddua: n\u00e3o desistia assim t\u00e3o f\u00e1cil. De tempos em tempos, ela conseguia passar pela porta e entrar no aposento, por\u00e9m sempre era remetida de volta ao t\u00e9rreo, exatamente para o plano onde levava a sua vida.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo a casa foi aos poucos sendo preenchida com coisas. Os membros da fam\u00edlia pareciam acumular cada vez mais coisas e os quartos extras tornaram-se dep\u00f3sitos de lixo. A casa foi ficando t\u00e3o entupida que n\u00e3o havia mais espa\u00e7o para os convidados, e quase que os moradores tamb\u00e9m ficaram sem o seu. N\u00e3o havia espa\u00e7o para mais nada na casa exceto para Dorothy, o marido e os filhos, o que tamb\u00e9m estava \u00f3timo porque estavam todos t\u00e3o preocupados com suas pr\u00f3prias pessoas que mal conseguiam pensar em tomar conta de alguma outra coisa.<\/p>\n<p>Aos poucos, a obsess\u00e3o de Dorothy esgar\u00e7ou-se. Sua luta para abrir aquela porta come\u00e7ou a ficar obsoleta. Em vez de passar tanto tempo diante da porta, ela come\u00e7ou a ficar um pouco mais com os filhos e netos, tomando tamb\u00e9m conta da casa: os pisos foram renovados, as cortinas trocadas etc. A casa n\u00e3o estava em mau estado, mas havia sido um pouco negligenciada, porque Dorothy tinha se ocupado apenas de seu projeto de sentar diante da porta. Sua aten\u00e7\u00e3o lentamente foi deslocada de volta para o cuidado necess\u00e1rio \u00e0s coisas di\u00e1rias que precisavam ser atendidas. Foi um lento processo. \u00c0s vezes ela ainda subia at\u00e9 o \u00faltimo andar e olhava para a porta, mas se a abrisse sabia o que iria encontrar. Muito devagar, o desencorajamento e o desapontamento instalaram-se. Cada vez mais ela se esquecia de tudo o que n\u00e3o fosse s\u00f3 viver sua vida, tomando conta das coisas de um momento para outro. E ent\u00e3o um dia ela subiu at\u00e9 o \u00faltimo andar e por acaso olhou para a porta que estava trancada. Uau! Estava escancarada! L\u00e1 dentro, plenamente vis\u00edvel, estava um confort\u00e1vel quarto para h\u00f3spedes. Havia uma bela cama e uma c\u00f4moda e todos os pequenos acess\u00f3rios que tornariam confort\u00e1vel aquele quarto para um h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Ao ver aquele espa\u00e7oso e delicioso quarto de h\u00f3spedes, Dorothy percebeu no que havia se tornado o resto da casa. Ela via como tudo estava entulhado e confuso e como era dif\u00edcil andar livremente pela casa. Diante dessa constata\u00e7\u00e3o a mudan\u00e7a come\u00e7ou. Sem que fizesse muito alguma coisa, os aposentos daquela velha mans\u00e3o vitoriana come\u00e7aram a desentulhar-se por si. Come\u00e7ou a haver mais espa\u00e7o para as coisas e as pessoas naquela casa. Apareceu espa\u00e7o. Era como se todo o monte de coisas fosse imaterial, lixo fantasmag\u00f3rico. Nem estava l\u00e1 realmente, afinal de contas. A casa voltou ao que tinha sempre sido. Ali\u00e1s, sempre tinha existido muito espa\u00e7o para convidados, e agora Dorothy percebia que a porta nunca estivera trancada, para in\u00edcio de conversa. Sempre estivera aberta. S\u00f3 sua r\u00edgida postura de empurr\u00e1-la mantivera-a fechada.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a nossa ilus\u00e3o essencial a respeito da pr\u00e1tica: que a porta est\u00e1 trancada. A ilus\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel: todos a temos, num grau ou noutro. Enquanto pensarmos que a porta est\u00e1 trancada, ela est\u00e1 trancada. Para tentar abri-la fazemos de tudo. Vamos a todo centro poss\u00edvel, participamos de workshops, experimentamos isso e aquilo, para, por fim, descobrirmos que nunca esteve fechada.<br \/>\nApesar disso, a vida de esfor\u00e7os in\u00fateis que Dorothy levou para ela foi perfeita. Era isso que ela precisava fazer. Na realidade, \u00e9 isso que todos n\u00f3s temos de fazer. Temos de dar \u00e0 nossa pr\u00e1tica tudo o que temos para conseguirmos perceber que, desde o in\u00edcio, n\u00e3o existe sen\u00e3o perfei\u00e7\u00e3o. O quarto est\u00e1 aberto, a casa est\u00e1 aberta, se n\u00e3o a entulharmos com lixo inexistente. Mas n\u00e3o existe meio de sabermos disso antes de sabermos disso.<\/p>\n<p>Uma forma de disciplina espiritual crist\u00e3 \u00e9 a pr\u00e1tica da presen\u00e7a de Deus. Como crist\u00e3os, estamos em busca daquela radia\u00e7\u00e3o em todas as coisas que os m\u00edsticos chamam de a face de Deus. Essa radia\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 escondida em algum lugar muito distante, mas bem aqui e agora, exatamente embaixo do nosso nariz-. Da mesma forma, Dorothy percebeu que aquilo que tinha buscado sua vida inteira era simplesmente a sua pr\u00f3pria vida: as pessoas, a casa, os quartos. Todos estes eram a face de Deus.<br \/>\nN\u00f3s por\u00e9m n\u00e3o enxergamos isso. Se realmente o v\u00edssemos, n\u00e3o torturar\u00edamos os outros nem a n\u00f3s da maneira como o fazemos. N\u00e3o somos gentis; somos manipuladores, desonestos. Se v\u00edssemos que essa vida que estamos levando \u00e9 a pr\u00f3pria face de Deus, n\u00e3o ser\u00edamos capazes de nos comportar dessas maneiras, n\u00e3o em raz\u00e3o de algum mandamento ou interdi\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 porque ver\u00edamos a vida tal como ela \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a pr\u00e1tica &#8211; sentar-se diante da porta &#8211; seja in\u00fatil, mas uma grande parte do que chamamos pr\u00e1tica &#8211; ca\u00e7ar ideais ou a ilumina\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 uma ilus\u00e3o. Isso n\u00e3o abre a porta. Enquanto n\u00e3o enxergarmos esse fato com a mesma clareza com que comemos nosso mingau de aveia pela manh\u00e3, teremos de atravessar muitos desvios e atalhos, muitos desapontamentos e enfermidades &#8211; que s\u00e3o nossos mestres na vida. Todas essas lutas fazem parte do aprendizado relativo \u00e0 porta. Se praticamos bem, mais cedo ou mais tarde esse quebra-cabe\u00e7a fica mais claro e a porta abre-se com mais freq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Parece que Dorothy poderia ter perdido menos tempo se tivesse sentado na cozinha, no meio de sua fam\u00edlia e de seus afazeres cotidianos, em vez de se retirar para o \u00faltimo andar da casa, distante de tudo o mais.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Sempre buscaremos l\u00e1 onde pensamos que a resposta est\u00e1 enquanto n\u00e3o estivermos prontos para enxergar. Fazemos o que fazemos at\u00e9 que n\u00e3o o fazemos mais. Isso n\u00e3o \u00e9 bom nem mau; \u00e9 s\u00f3 como as coisas s\u00e3o. Temos de desbastar-nos de nossas ilus\u00f5es. Se dissermos para n\u00f3s mesmos: &#8220;O caminho para abrir a porta est\u00e1 em ficar mais tempo com meus filhos&#8221;, tamb\u00e9m isso se torna apenas uma outra id\u00e9ia obsessiva. Passar tempo com meus filhos para tornar-me iluminada talvez n\u00e3o v\u00e1 me tornar uma m\u00e3e melhor, afinal de contas.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: A pr\u00e1tica n\u00e3o diz respeito a abrir o cora\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 isso que Dorothy estava realmente tentando fazer?<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Sim, essa \u00e9 uma forma de descrever a coisa. E ela descobriu que&#8230;?<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Que seu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava aberto.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Certo. Os pais que n\u00e3o conseguimos ag\u00fcentar, o parceiro que nos magoou, o amigo que irrita: n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com eles, a menos que pensemos que h\u00e1. Enquanto n\u00e3o estivermos prontos para ver isso por\u00e9m, n\u00e3o o veremos.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Se a hist\u00f3ria \u00e9 a respeito de um quarto de h\u00f3spedes, ent\u00e3o Dorothy nunca nem chegou a pensar em ter convidados.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Certo. Ela nem pensaria nisso.<br \/>\nN\u00f3s pensamos: &#8220;Eu deveria ser mais simp\u00e1tico, mais educado, mais hospitaleiro-. Contudo, se estamos emaranhados em nossas ilus\u00f5es, n\u00e3o podemos ser verdadeiramente hospitaleiros. At\u00e9 desempenhamos os movimentos nesse sentido, mas ser de fato hospitaleiro significa ser apenas quem se \u00e9, como somos. N\u00e3o podemos acolher ningu\u00e9m em nossa casa se primeiro n\u00e3o tivermos acolhido a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: ,Quando estamos emaranhados em nossos melodramas pessoais, como Dorothy estava, n\u00e3o estamos verdadeiramente dispon\u00edveis aos outros. Quando enxergamos mais al\u00e9m de nosso melodrama pessoal, conseguimos ver com mais objetividade as necessidades dos outros e responder a elas.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Sim. Todos n\u00f3s j\u00e1 passamos pela experi\u00eancia de estarmos t\u00e3o contrariados que simplesmente somos incapazes de ouvir os problemas de um outro indiv\u00edduo. N\u00e3o temos espa\u00e7o para isso. Todo o nosso espa\u00e7o est\u00e1 ocupado com nossas pr\u00f3prias coisas. N\u00e3o temos nenhum &#8220;quarto de h\u00f3spedes&#8221;. Mesmo assim, n\u00e3o podemos simplesmente dizer -N\u00e3o vou ficar obcecada&#8221; e desejar que isso aconte\u00e7a. Pois ent\u00e3o achamos que ainda h\u00e1 um buraco em nossa vida, que temos de destrancar a porta e descobrir o que est\u00e1 do outro lado.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Minha pr\u00e1tica tem sido uma s\u00e9rie de decep\u00e7\u00f5es. Eu imagino: &#8220;Esse workshop vai resolver essa situa\u00e7\u00e3o para mim&#8221;. Participo dele e embora possa ser \u00fatil de alguma maneira, em \u00faltima an\u00e1lise \u00e9 desapontados. Acho muito dif\u00edcil simplesmente permanecer com o meu desapontamento, sentir a minha vulnerabilidade. Em vez disso, encubro-os de alguma forma e digo para mim mesmo: &#8220;Basta continuar tentando. Vou descobrir um outro workshop&#8221;.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Sinto que perdi muito tempo e energia, que desperdicei momentos preciosos de minha vida queixando-me de meus pais e de minhas condi\u00e7\u00f5es de vida, tudo no esfor\u00e7o de destrancar a porta.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: N\u00e3o adianta nada olhar para tr\u00e1s e dizer: &#8220;Eu deveria ter sido diferente&#8221;. Num dado momento, somos do jeito que somos e vemos o que somos capazes de ver. Por essa raz\u00e3o, a culpa sempre \u00e9 inapropriada.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Parece como se tiv\u00e9ssemos que atravessar um certo tanto de sofrimento. Temos de ser crucificados antes de nos entregar.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Sem exagerarmos na dramatiza\u00e7\u00e3o desse aspecto, isso \u00e9 verdade. Somos muito teimosos. E isso tamb\u00e9m est\u00e1 certo.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Dorothy conseguiu desfrutar sua vida? Me incomoda que algu\u00e9m tenha de lutar por tanto tempo.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Sim, imagino que ela \u00e0s vezes desfrutou sua vida, antes mesmo de ter visto o que era. Todos n\u00f3s desfrutamos a nossa vida \u00e0s vezes. Mas por baixo do contentamento e da gratifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ansiedade. Ainda estamos em busca de algo atr\u00e1s da porta e temos medo de nunca o encontrarmos. Pensamos: &#8220;Se eu tivesse isto ou aquilo seria feliz&#8221;. Uma \u00e9poca de momentos prazerosos n\u00e3o elimina essa inquietude subliminar. N\u00e3o existem atalhos. Devemos enfim enxergar quem somos e o que \u00e9 esse aposento que est\u00e1 atr\u00e1s da porta.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Comigo o sentimento que est\u00e1 por baixo de tudo \u00e9 o medo. \u00c9 como uma corrente subterr\u00e2nea sutil que flui junto com tudo o que eu fa\u00e7o. Minha vida toda n\u00e3o fui plenamente consciente dele, mas ele estava l\u00e1, dirigindo a minha vida.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Quando sentamos para praticar, levamos nossa aten\u00e7\u00e3o para essa sutil corrente subterr\u00e2nea. Isso quer dizer notar nossos pensamentos e as sutis contra\u00e7\u00f5es de nosso corpo. Para Dorothy isso aconteceu quando sua obsess\u00e3o com a porta trancada come\u00e7ou a abrandar e ela come\u00e7ou a prestar mais aten\u00e7\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es do resto da casa. Suas esperan\u00e7as come\u00e7aram a morrer.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Basta que tomemos conta de nossas tarefas imediatas.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Certo. E tomar conta do que precisa ser cuidado remete-nos de volta ao que somos neste momento.<br \/>\nNa hist\u00f3ria sobre Dorothy o que voc\u00eas pensam acerca dos aposentos entulhados na casa?<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: Apegos. Pensamentos a respeito de um monte de coisas. Recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Recorda\u00e7\u00f5es, fantasias, esperan\u00e7as.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Parece que, quando temos uma coisa imediata a fazer, nossa tend\u00eancia \u00e9 focalizar, em vez disso, o medo, ou a ansiedade, ou qualquer outra coisa &#8211; a porta trancada &#8211; e esquecer de prestar aten\u00e7\u00e3o na tarefa que est\u00e1 \u00e0 nossa frente. De certo modo, o medo (ou o que for) \u00e9 irrelevante. Existe essa tarefa a ser feita e s\u00f3 precisamos faz\u00ea-la, com ou sem medo. Luto contra a minha vida porque em vez de fazer o que precisa ser feito, eu luto contra o medo subliminar, tento destrancar aquela porta.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Certo. Paradoxalmente, o \u00fanico meio de abrir a porta \u00e9 esquecendo a porta.<\/p>\n<p>Os alunos costumam queixar-se comigo de que, quando se sentara para praticar, algo interfere em sua percep\u00e7\u00e3o consciente: &#8220;Fico a\u00e9reo&#8221;; &#8220;Fico t\u00e3o nervosa! N\u00e3o consigo ficar quieta&#8221;. Por tr\u00e1s dessas queixas est\u00e1 o pensamento de que, a fim de sentar e praticar com alguma efici\u00eancia, temos de nos livrar de todas as coisas desagrad\u00e1veis; a porta trancada tem de ser aberta para podermos alcan\u00e7ar todas as coisas agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Se estamos a\u00e9reos, estamos a\u00e9reos. Se estamos nervosos, estamos nervosos. Essa \u00e9 a realidade de nossa vida naquele momento. Uma boa pr\u00e1tica sentada significa simplesmente estar presente com isso: ser esse nervosismo ou esse alheamento.<\/p>\n<p>As pessoas se d\u00e3o a imensos trabalhos quando se trata de eliminar sentimentos desagrad\u00e1veis. &#8220;Estou tenso; tenho de participar de um workshop para relaxar.&#8221; Ent\u00e3o a pessoa vai para o workshop e isso a faz relaxar &#8211; mas por quanto tempo? Querer aliviar a tens\u00e3o \u00e9 como olhar para a porta trancada, tentando imaginar o modo de abri-la. Se nos obcecarmos com essa id\u00e9ia de abrir a porta, poderemos descobrir t\u00e9cnicas de abri-la por alguns momentos; mas ent\u00e3o iremos nos perceber remetidos de volta a nossas vidas, tal como elas s\u00e3o, vivendo na mesma velha casa de sempre. Em vez de nos obcecarmos com a porta trancada, precisamos ir tocando a nossa vida adiante, o que significa limpar a casa, tomar conta das crian\u00e7as, ir para o trabalho etc.<\/p>\n<p><b>ALUNA<\/b>: Uma amiga e eu est\u00e1vamos h\u00e1 pouco falando de como t\u00ednhamos tido um ano dif\u00edcil. Enquanto est\u00e1vamos com vinte, trinta anos, n\u00f3s duas t\u00ednhamos esperan\u00e7as de que as coisas fossem melhorar para n\u00f3s. Agora, na casa dos quarenta, chegamos \u00e0 desanimadora conclus\u00e3o de que isso n\u00e3o ir\u00e1 acontecer: nossas vidas n\u00e3o v\u00e3o melhorar em nada!<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Paradoxalmente, essa dolorosa decep\u00e7\u00e3o com o futuro ajuda-nos a apreciar a vida como ela \u00e9. S\u00f3 quando desistirmos da esperan\u00e7a de que as coisas fiquem melhores \u00e9 que poderemos chegar \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de como elas est\u00e3o bem do jeito que est\u00e3o.<\/p>\n<p><b>ALUNO<\/b>: H\u00e1 pouco tempo tive uma percep\u00e7\u00e3o semelhante. Durante anos eu viera me dizendo que minha vida seria melhor quando eu tivesse poupado dinheiro suficiente para viver em semi-apo-sentadoria. Teria mais tempo para um servi\u00e7o volunt\u00e1rio. Teria mais tempo de fazer uma pr\u00e1tica mais consistente, de ler mais etc. Agora estou come\u00e7ando a me dar conta de que o que preciso fazer est\u00e1 justamente aqui, no trabalho. Se estou tentando terminar alguma coisa e algu\u00e9m entra e me distrai, isso \u00e9 justamente o que preciso fazer naquele instante. O que eu deveria estar fazendo \u00e9 exatamente o que estou fazendo.<\/p>\n<p><b>JOKO<\/b>: Para concluir, vamos perguntar a n\u00f3s mesmos: &#8220;Como \u00e9 que estou tentando destrancar a porta em vez de estar simplesmente vivendo a minha vida?&#8221;. Todos estamos tentando destrancar a porta, encontrar a f\u00f3rmula certa. Estamos em busca do professor certo, do parceiro perfeito, do emprego inacredit\u00e1vel etc. Constatarmos que estamos tentando destrancar a porta \u00e9 imensamente valioso; ajuda-nos a ver o que nossa vida realmente \u00e9.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dorothy e a porta trancada Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Todos estamos em busca de alguma coisa. 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