{"id":5244,"date":"2018-06-15T10:55:02","date_gmt":"2018-06-15T12:55:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5244"},"modified":"2018-06-15T11:51:53","modified_gmt":"2018-06-15T13:51:53","slug":"a-base-de-apoio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-base-de-apoio\/","title":{"rendered":"A base de apoio"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5245\" rel=\"attachment wp-att-5245\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-base-de-apoio.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"174\" class=\"alignleft size-full wp-image-5245\" \/><\/a><br \/>\n<b>A base de apoio<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Na vida cotidiana estamos munidos do que podemos chamar de uma base de apoio imagin\u00e1ria: \u00e9 el\u00e9trica e nos arremessa para cima toda vez que temos pela frente algo que nos parece um problema. Podemos imaginar que tem milh\u00f5es de pontos de sa\u00edda, todos ao nosso alcance. Toda vez que nos sentimos amea\u00e7ados ou aborrecidos, acionamos esse dispositivo e reagimos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Essa base de apoio representa nossa decis\u00e3o fundamental a respeito do que temos de ser para sobreviver e obter da vida aquilo que queremos. Ainda quando \u00e9ramos crian\u00e7as descobrimos que a vida n\u00e3o era sempre do jeito que quer\u00edamos que fosse e que as coisas muitas vezes davam errado, do nosso ponto de vista pessoal. N\u00e3o quer\u00edamos que ningu\u00e9m nos contrariasse, n\u00e3o quer\u00edamos vivenciar coisas desagrad\u00e1veis e, assim, criamos uma rea\u00e7\u00e3o defensiva para bloquear a poss\u00edvel infelicidade. Essa rea\u00e7\u00e3o defensiva \u00e9 nossa base de apoio. Estamos ligados nela, mas damos-lhe uma aten\u00e7\u00e3o especial em per\u00edodos de estresse e amea\u00e7a. Tomamos uma decis\u00e3o a respeito da vida cotidiana &#8211; a vida como ela \u00e9 realmente: ela \u00e9 inaceit\u00e1vel. E tentamos nos contrapor ao que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 inevit\u00e1vel. Nossos pais n\u00e3o foram seres perfeitamente iluminados, nem bodas, mas outros seres e circunst\u00e2ncias tamb\u00e9m contribu\u00edram. Quando \u00e9ramos crian\u00e7as pequenas, n\u00e3o t\u00ednhamos suficiente maturidade para nos haver com eles de maneira s\u00e1bia. Por isso acion\u00e1vamos nossa base de apoio e t\u00ednhamos acessos de birra, faz\u00edamos esc\u00e2ndalos, talvez fic\u00e1vamos retra\u00eddos. Dessa \u00e9poca em diante, a vida n\u00e3o foi mais vivida pelo prazer de se estar vivo, mas para assegurar nossa base de apoio. Parece bobagem, por\u00e9m \u00e9 isso que fazemos.<br \/>\nAssim que a base de apoio estiver constru\u00edda, sempre que algo desagrad\u00e1vel nos atingir &#8211; mesmo que seja s\u00f3 um olhar um pouco atravessado de algu\u00e9m -, n\u00f3s acionaremos essa base. Ela pode conter um n\u00famero infinito de tomadas de acionamento e, durante o dia, podemos acion\u00e1-la infinitas vezes. Como resultado, desenvolvemos uma vis\u00e3o muito estranha da nossa vida. Por exemplo, suponhamos que Gloria falou comigo com muita arrog\u00e2ncia. Os fatos em si s\u00e3o ela ter dito uma coisa para mim. Ela e eu podemos ter uma pequena discuss\u00e3o para resolver, mas a verdade da quest\u00e3o \u00e9 que ela simplesmente disse algo. Na hora, no entanto, sinto-me separada de Gloria. No que me diz respeito, tem algo de errado com ela. &#8220;Afinal de contas, veja s\u00f3 o que ela fez! Ela realmente \u00e9 uma pessoa desagrad\u00e1vel!&#8221; Agora estou com raiva dela. A verdade, por\u00e9m, \u00e9 que minha diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 com Gloria; ela n\u00e3o tem nada que ver com isso. Embora seja verdade que ela tenha dito algo, meu aborrecimento n\u00e3o vem dela, mas de ter acionado minha base de apoio. Vivencio essa base como uma esp\u00e9cie de tens\u00e3o, que \u00e9 desagrad\u00e1vel. N\u00e3o quero ter nada que ver com essa sensa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o entro em guerra com Gloria. Todavia \u00e9 a minha base de apoio que est\u00e1 causando&#8221; meu inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>Se o incidente for banal, num tempo relativamente curto eu &#8220;terei esquecido e acionarei minha base de apoio a respeito de alguma outra coisa. Se o incidente for significativo, no entanto, posso tomar um curso dr\u00e1stico de a\u00e7\u00e3o. Lembro-me de um amigo da fam\u00edlia, durante a Grande Depress\u00e3o, que foi despedido do emprego em que se havia mantido por quarenta anos. Correu para o telhado, atirou-se e assim se matou. Ele n\u00e3o entendia sua vida. Algo tinha ocorrido, \u00e9 verdade, mas n\u00e3o era caso para suic\u00eddio. Ele estava com sua base de apoio funcionando a todo vapore seu sofrimento era t\u00e3o intenso que n\u00e3o conseguiu suport\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Sempre que algo representativo acontece em nossa vida, levamos um intenso choque de nossa base de apoio. N\u00e3o sabemos o que fazer com esse choque. Embora tenha vindo de dentro de n\u00f3s, pensamos que vem de fora, &#8220;de l\u00e1&#8221;. Algu\u00e9m ou algo nos tratou muito mal. Somos v\u00edtimas. Com Gloria, me parece \u00f3bvio: o problema \u00e9 Gloria. &#8220;Quem mais poderia ser? Ningu\u00e9m mais me insultou hoje. Tem de ser ela.- Para revidar, come\u00e7o a planejar: &#8220;Como posso dar-lhe o troco? Talvez eu n\u00e3o fale com ela nunca mais. Se ela vai ficar fazendo isso, eu n\u00e3o quero que ela seja mais minha amiga. J\u00e1 tenho problemas suficientes. N\u00e3o preciso de Gloria&#8221;. Na realidade, a verdadeira fonte de meu aborrecimento n\u00e3o \u00e9 Gloria. Ela fez uma coisa de que eu n\u00e3o gostei, mas seu comportamento n\u00e3o \u00e9 a fonte de minha dor. A fonte de minha dor \u00e9 minha base de apoio fict\u00edcia.<br \/>\nQuando nos sentamos para a pr\u00e1tica, gradualmente tornamo-nos mais conscientes de nosso corpo e percebemos que est\u00e1 o tempo todo contra\u00eddo. Em geral a contra\u00e7\u00e3o \u00e9 muito discreta e sutil, invis\u00edvel para as outras pessoas. Quando ficamos de fato aborrecidos, a contra\u00e7\u00e3o aumenta. Algumas pessoas est\u00e3o t\u00e3o fortemente contra\u00eddas que isso se toma evidente para os outros. Depende da hist\u00f3ria particular de cada um. Mesmo que a pessoa tenha tido uma vida relativamente f\u00e1cil e feliz, a contra\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre l\u00e1, como uma tens\u00e3o marginal.<\/p>\n<p>O que podemos fazer com essa contra\u00e7\u00e3o? A primeira coisa \u00e9 tomar consci\u00eancia de que ela existe. Isso leva em geral alguns anos de pr\u00e1tica. Nos primeiros anos em que nos sentamos para praticar, lidamos em geral com os pensamentos mais ostensivos que ruminamos a respeito dos aparentes problemas que temos com o universo. Esses pensamentos mascaram a contra\u00e7\u00e3o subjacente. Temos de lidar com eles e acalmar nossas vidas at\u00e9 que nossas rea\u00e7\u00f5es emocionais n\u00e3o sejam t\u00e3o destrambelhadas. Quando nossas vidas tiverem se tomado um pouco mais assentadas e normais, iremos nos conscientizar r da contra\u00e7\u00e3o marginal subja- cente que sempre esteve ali, o tempo todo. A partir de ent\u00e3o, podemos nos tornar conscientes da contra\u00e7\u00e3o com mais intensidade do que quando algo d\u00e1 errado do nosso ponto de vista.<br \/>\nA pr\u00e1tica n\u00e3o diz respeito aos eventos tempor\u00e1rios de nossa vida. Ela se refere \u00e0 nossa base de apoio. Esta registra os eventos tempor\u00e1rios. Dependendo dos eventos e de como nossa base de apoio os registra, chamamos nossas rea\u00e7\u00f5es de aborrecimento., raiva, depress\u00e3o. Esse transtorno n\u00e3o \u00e9 pelos eventos, mas por nossa base de apoio. Por exemplo, se um casal est\u00e1 discutindo, pensam que sua briga \u00e9 de um com o outro, mas na realidade a discuss\u00e3o \u00e9 de cada um com sua pr\u00f3pria base de apoio. Acontece uma briga quando cada uma das pessoas sintoniza sua pr\u00f3pria base de apoio numa rea\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m. Por isso, quando tentamos resolver uma desaven\u00e7a lidando com nosso c\u00f4njuge de alguma maneira, n\u00e3o chegamos a parte nenhuma; n\u00e3o \u00e9 essa a fonte dc problema.<\/p>\n<p>Uma outra coisa que aumenta a confus\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s gostamos de nossa base de apoio. Ela nos confere import\u00e2ncia pr\u00f3pria. Quando n\u00e3o entendo minha base de apoio, ent\u00e3o posse exigir muita aten\u00e7\u00e3o discutindo com a Gloria, desforrando-me dela, e assim ela fica sabendo com quem se meteu. Quando ajo assim, mantenho minha base de apoio, o que considero como minha prote\u00e7\u00e3o diante do mundo. Tenho confiado nela desde meus tempos de crian\u00e7a e n\u00e3o quero me livrar dela. Se eu fosse me desfazer dela, teria de encarar todo o meu terror; em vez disso, prefiro enfrentar a Gloria. \u00c9 isso que constitui a pr\u00e1tica sentada: encarar o terror e ser a tens\u00e3o &#8211; secund\u00e1ria ou predominante &#8211; no corpo. N\u00e3o queremos fazer isso. Queremos lidar com nossos principais problemas atrav\u00e9s de nossa base de apoio.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, trabalhei para uma grande companhia. Era a assistente do chefe de minha se\u00e7\u00e3o, um laborat\u00f3rio de pesquisa cient\u00edfica. Minha vaga no estacionamento ficava perto da entrada do laborat\u00f3rio. Era bom isso; quando chovia, eu podia saltar do carro e entrar no edif\u00edcio sem ficar muito molhada. Foi surgindo um problema com essa vaga, porque a porta conduzia tamb\u00e9m direto para o escrit\u00f3rio do vice-presidente. Ent\u00e3o a secret\u00e1ria do vice-presidente decidiu que aquela minha vaga era o melhor lugar para estacionar. Ela come\u00e7ou uma confus\u00e3o e as comunica\u00e7\u00f5es internas come\u00e7aram a voar para todo lado. Eram para o departamento de pessoal, para o meu chefe, para o chefe dela, e para alguns outros lugares. Ela estava muito contrariada porque no papel seu cargo era superior ao meu e no entanto a melhor vaga era a minha. Pensei: &#8220;Ela est\u00e1 tentando me tirar esta vaga. Eu sempre tive esta vaga. Legalmente, \u00e9 minha&#8221;. Meu chefe, a pessoa mais importante do laborat\u00f3rio de pesquisa cient\u00edfica, solidarizou-se comigo e come\u00e7ou a lutar com o vice-presidente. Seus gigos estavam envolvidos. Quem era mais importante? N\u00e3o havia uma resposta clara. Nessa altura, em vez de estarmos apenas as duas batendo boca, nossos chefes estavam igualmente no conflito. Toda noite, quando sa\u00eda da minha vaga, eu sabia que estava certa.<\/p>\n<p>Essa luta durou meses. As comunica\u00e7\u00f5es deixavam de ser expedidas e de repente &#8211; toda vez que essa secret\u00e1ria me via -elas come\u00e7avam de novo a voar de um lado para outro. Finalmente, certa noite, num cruzamento, enquanto esperava que o sinal mudasse para verde, percebi o seguinte: &#8220;N\u00e3o estou casada com aquela vaga. Se ela a quer, que a leve&#8221;. Assim, no dia seguinte, comecei eu mesma a expedir as comunica\u00e7\u00f5es. Com permiss\u00e3o do departamento de pessoal, cedi minha vaga. Meu chefe ficou furioso comigo. Por\u00e9m, como n\u00e3o era uma quest\u00e3o muito grave, acabou se acostumando com a situa\u00e7\u00e3o. Uma semana mais tarde, a secret\u00e1ria me telefonou e convidou-me para almo\u00e7ar. Nunca nos aproximamos muito, mas mantivemos uma rela\u00e7\u00e3o cordial.<\/p>\n<p>A verdadeira quest\u00e3o n\u00e3o era entre mim e essa secret\u00e1ria. A vaga era apenas uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo para outras esp\u00e9cies de lutas. N\u00e3o estou querendo dizer que a gente deva sempre abrir m\u00e3o de uma vaga no estacionamento. Nesse caso, por\u00e9m, a quest\u00e3o era trivial: eu passei a ter de andar talvez quarenta ou cinq\u00fcenta passos, em vez de sete. Uma ou duas vezes no inverno fiquei realmente encharcada da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. No entanto, enquanto essa controv\u00e9rsia n\u00e3o foi resolvida, manteve muitas pessoas ocupadas durante meses.<\/p>\n<p>Nossas desaven\u00e7as nunca s\u00e3o com os outros, mas com nossa pr\u00f3pria base de apoio. Se temos uma base de apoio com muitas tomadas prontas para nos ligarmos em qualquer uma delas, praticamente qualquer coisa ser\u00e1 motivo. N\u00f3s gostamos de nossas bases de apoio; sem elas, ir\u00edamos sentir-nos aterrorizados, tal como nos sent\u00edamos quando \u00e9ramos muito pequenos.<br \/>\nO objetivo da pr\u00e1tica \u00e9 tomarmo-nos amigos de nossa base de apoio. N\u00e3o iremos nos livrar dela de uma vez por todas. Estamos muito apegados a ela para isso. Mas, conforme a mente for realmente se aquietando e tornar-se menos interessada em lutar com o mundo; quando desistirmos de nossas posi\u00e7\u00f5es em algumas lutas sem sentido; quando n\u00e3o tivermos mais que brigar tanto porque chegamos a ver o que est\u00e1 por tr\u00e1s, ent\u00e3o nossa capacidade de permanecermos sentados na pr\u00e1tica aumentar\u00e1. Nesse ponto, come\u00e7amos a sentir que o problema real est\u00e1 naquela antiga cria\u00e7\u00e3o constitu\u00edda de dor &#8211; a dor da criancinha quando descobre que a vida n\u00e3o \u00e9 aquilo que ela gostaria que fosse. Essa dor est\u00e1 revestida de raiva, medo e outros sentimentos parecidos. N\u00e3o h\u00e1 meios de se escapar desse dilema, exceto voltando pelo mesmo caminho e tornando a sentir os sentimentos originais. N\u00e3o estamos interessados nisso, por\u00e9m, e \u00e9 por isso que sentar na pr\u00e1tica se torna t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Quando regressamos ao corpo, n\u00e3o \u00e9 que desenterramos algum grande melodrama que se desenrola em nosso \u00edntimo. Para a maioria das pessoas, a maior parte do tempo, a contra\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o secund\u00e1ria que nem conseguem perceber que est\u00e1 l\u00e1. Mas est\u00e1. Quando simplesmente nos sentamos e mantemos uma aproxima\u00e7\u00e3o cada vez maior da sensa\u00e7\u00e3o dessa contra\u00e7\u00e3o, aprendemos a descansar nela por per\u00edodos cada vez maiores: cinco segundos, dez segundos, depois trinta minutos ou mais. Uma vez que a base de apoio \u00e9 nossa inven\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o tem uma realidade fundamental, ela come\u00e7a a se resolver um pouco aqui, um pouco ali. Depois de ficar em sesshin por algum tempo, talvez percebamos que ela sumiu. Depois ela pode voltar. Se entendermos a nossa pr\u00e1tica, ao longo dos anos de pr\u00e1tica essa base de apoio vai ficando cada Vez mais fina e menos dominante. Podem ocorrer aberturas moment\u00e2neas. Em si mesmas, essas aberturas n\u00e3o s\u00e3o importantes, uma vez que a base de apoio em geral retorna imediatamente a funcionar assim que deparamos com uma nova situa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel com algu\u00e9m. N\u00e3o tenho um interesse especial em criar aberturas na base de apoio; o trabalho real est\u00e1 em dissolv\u00ea-la por completo, aos poucos. Sabemos que a base de apoio est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o quando nos sentimos contrariados com algo ou com algu\u00e9m. Sem sombra de d\u00favida temos quest\u00f5es no mundo externo a serem resolvidas, algumas delas muito dif\u00edceis. Contudo essas quest\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o o que nos contraria. O que nos contraria \u00e9 estarmos funcionando a partir de nossa base de apoio. Quando isso acontece, n\u00e3o h\u00e1 serenidade, n\u00e3o h\u00e1 paz.<\/p>\n<p>Esta modalidade de pr\u00e1tica &#8211; trabalhar diretamente com a base de apoio, com nossas contra\u00e7\u00f5es subjacentes &#8211; pode ser mais dif\u00edcil do que a pr\u00e1tica do koan(ver nota 1). Com a pr\u00e1tica do koan, a pessoa sempre tem um pequeno incentivo ou recompensa para passar para o pr\u00f3ximo koan. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com isso, e eu \u00e0s vezes trabalho com koan com meus alunos. No entanto, essa abordagem n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o fundamental quanto o trabalho sobre a base de apoio, que est\u00e1 presente em cada um de n\u00f3s. Estamos cientes dela? Sabemos o que significa praticar? Com que seriedade encaramos nossas dificuldades com as outras pessoas e com a vida? Quando estamos ligados nessa base, a vida \u00e9 muito sem esperan\u00e7a. Todos estamos sintonizados nela, em graus vari\u00e1veis, eu inclusive. Com o passar dos anos tornei-me mais \u00e1bil para reconhecer quando estou ligada nessa base de apoio. N\u00e3o perco mais tanto esses momentos. Podemos nos flagrar ligando-nos na nossa base de apoio observando o modo como falamos conosco e com os outros: &#8220;Tem alguma coisa errada com ele. \u00c9 culpa dele. Ele tinha que ser diferente&#8221;; &#8220;Eu deveria ser melhor&#8221;; &#8220;A vida simplesmente \u00e9 injusta comigo&#8221;; &#8220;Eu realmente n\u00e3o tenho esperan\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Quando executamos essas senten\u00e7as em nossa mente, sem question\u00e1-las, estamos desencadeando uma falsa briga e terminamos l\u00e1 onde acabam todas as falsas brigas: em parte alguma, ou em mais dificuldades. Temos de deflagrar a verdadeira luta: permanecer com aquilo com que n\u00e3o queremos permanecer. Praticar exige coragem. A coragem aumenta com a pr\u00e1tica, mas n\u00e3o existe uma sa\u00edda r\u00e1pida e f\u00e1cil. Mesmo depois de muito tempo sentados na pr\u00e1tica, quando ficamos com raiva, temos tamb\u00e9m o impulso de atacar a outra pessoa. Procuramos formas de castigar os outros pelo que fizeram. Essa atividade \u00e9 n\u00e3o vivenciar a nossa raiva, mas evit\u00e1-la atrav\u00e9s de algum drama.<br \/>\nMuitas escolas de terapia incentivam que o cliente manifeste diretamente sua hostilidade. Quando a expressamos por\u00e9m, nossa aten\u00e7\u00e3o dirige-se para fora, para uma outra pessoa ou coisa, e para o verdadeiro problema. Expressar nossos sentimentos \u00e9 uma coisa natural e n\u00e3o algo terr\u00edvel em si. Todavia em geral nos cria problemas. Quando verdadeiramente vivida, a raiva \u00e9 muito silenciosa. Tem uma certa dignidade. N\u00e3o h\u00e1 -manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 teatraliza\u00e7\u00f5es. Refere-se apenas a estar com aquela contra\u00e7\u00e3o fundamental que denominei a base de apoio. Quando de fato ficamos com raiva, ent\u00e3o os pensamentos pessoais e autocentrados se destacam do sentimento e ficamos diante da energia pura, que pode ser usada de um modo compassivo.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a verdadeira hist\u00f3ria da pr\u00e1tica. A pessoa que consegue fazer isso com grande consist\u00eancia \u00e9 algu\u00e9m que chamamos de iluminado. Passar por uma experi\u00eancia moment\u00e2nea de estar sem a base de apoio n\u00e3o \u00e9 a verdadeira ilumina\u00e7\u00e3o. A pessoa realmente iluminada \u00e9 aquela que consegue transformar energia quase o tempo todo. N\u00e3o que a energia n\u00e3o apare\u00e7a mais. A quest\u00e3o \u00e9 o que fazer com ela? Se algu\u00e9m d\u00e1 uma trombada no nosso carro, sem ter prestado aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o iremos apenas sorrir com docilidade. Teremos uma rea\u00e7\u00e3o: &#8220;Mas que droga!&#8221; Mas e ent\u00e3o? Por quanto tempo permanecemos nessa rea\u00e7\u00e3o? A maioria de n\u00f3s prolonga essa rea\u00e7\u00e3o e a amplia ao m\u00e1ximo. Um exemplo \u00e9 nossa propens\u00e3o a mover processos; n\u00e3o estou dizendo que um processo nunca seja justificado. Pode ser \u00e0s vezes necess\u00e1rio para resolver uma pend\u00eancia. No entanto muitos processos s\u00e3o na realidade a respeito de alguma outra coisa e s\u00e3o contraproducentes. Se manifesto minha raiva para Gloria, ela, de alguma maneira, ir\u00e1 devolv\u00ea-la para mim. Minha amizade com Gloria poder\u00e1 acabar. Quando o elemento pessoal &#8211; o modo como me sinto quanto a ela &#8211; \u00e9 afastado, ent\u00e3o resta s\u00f3 a energia. Quando nos sentamos para a pr\u00e1tica dessa energia, com dignidade, embora no come\u00e7o seja doloroso, depois se transforma num lugar de grande descanso. Uma frase do coral de Bach me vem \u00e0 mente: &#8220;Em Teus bra\u00e7os eu descanso&#8221;. Isso significa descansar em quem eu realmente sou. &#8220;Aqueles que poderiam molestar-me n\u00e3o conseguem encontrar-me aqui.&#8221; Por que \u00e9 que eles n\u00e3o conseguem encontrar-me aqui? Porque n\u00e3o tem ningu\u00e9m em casa. N\u00e3o tem ningu\u00e9m a\u00ed. Quando sou energia pura, n\u00e3o sou mais eu. Sou um funcionamento para o que \u00e9 bom. Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 o motivo pelo qual estamos sentados na pr\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. E n\u00e3o acontece do dia para a noite. Mas, se praticarmos bem, iremos com o tempo nos envolver cada vez menos em equ\u00edvocos interpessoais, prejudicando a n\u00f3s e aos outros. Sentar para a pr\u00e1tica incinera o elemento autocentrado e nos deixa com a energia de nossas emo\u00e7\u00f5es, sem a destrutividade.<\/p>\n<p>Sesshins, a pr\u00e1tica regular, e a pr\u00e1tica na vida s\u00e3o os melhores caminhos para produzir essa transforma\u00e7\u00e3o. Pouco a pouco, vai acontecendo uma mudan\u00e7a em nossa energia e mais um trecho de nossa base de apoio \u00e9 incinerado. Conforme nossas preocupa\u00e7\u00f5es autocentradas forem sendo deixadas de lado, n\u00e3o poderemos mais retornar ao modo como \u00e9ramos. Uma transforma\u00e7\u00e3o fundamental aconteceu.<br \/>\n&#8220;Em Teus bra\u00e7os eu me descanso.&#8221; Existe uma verdadeira paz quando descansamos dentro dessa contra\u00e7\u00e3o fundamental, apenas vivenciando o corpo como \u00e9. Como diz Hubert Benoit (nota 2) em seu maravilhoso livro The supreme doctrine (A doutrina suprema)*, quando estou num desespero real, pelo menos deixe- me descansar nesse div\u00e3 de gelo. Se eu conseguir verdadeiramente descansar a\u00ed, meu corpo ir\u00e1 conformar-se com ele e n\u00e3o haver\u00e1 mais separa\u00e7\u00e3o. Nesse ponto, alguma coisa muda. Como me sinto a respeito de Gloria agora? Oh, tivemos um pequeno desentendimento e daremos ent\u00e3o um belo passeio a p\u00e9 para conversarmos a respeito. Sem problemas.<\/p>\n<p><i>Nota:<br \/>\n1- Koan: uma quest\u00e3o paradoxal tradicional, imposs\u00edvel de ser analisada racionalmente, usada para aprofundar a medita\u00e7\u00e3o.<br \/>\n2- Hubert Benoit, The supreme doctrine: Psychological studies in zen thought, Nova York: Viking, 1955, p. 145.<\/i><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A base de apoio Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Na vida cotidiana estamos munidos do que podemos chamar de uma base de apoio imagin\u00e1ria: \u00e9 el\u00e9trica e nos arremessa para cima toda vez que temos pela &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-base-de-apoio\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5245,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5244"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5250,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5244\/revisions\/5250"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5245"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}