{"id":5268,"date":"2018-06-16T16:38:43","date_gmt":"2018-06-16T18:38:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5268"},"modified":"2020-06-10T16:44:01","modified_gmt":"2020-06-10T18:44:01","slug":"a-fala-que-ninguem-deseja-ouvir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-fala-que-ninguem-deseja-ouvir\/","title":{"rendered":"A fala que ningu\u00e9m deseja ouvir"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir-300x185.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"185\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5919\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir-300x185.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir-768x473.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir-487x300.jpg 487w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/A-fala-que-ningu\u00e9m-deseja-ouvir.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>A fala que ningu\u00e9m deseja ouvir<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Se formos honestos, teremos de admitir que o que de fato queremos da pr\u00e1tica &#8211; especialmente no come\u00e7o, mas em algum grau o tempo todo &#8211; \u00e9 um maior conforto em nossas vidas. Esperamos que, com uma pr\u00e1tica suficiente, o que nos incomoda agora n\u00e3o nos incomode depois. Existem na verdade duas maneiras de abordarmos a pr\u00e1tica, e que precisam ser citadas. A primeira perspectiva \u00e9 o que a maioria de n\u00f3s pensa que \u00e9 a pr\u00e1tica (quer o admitamos, quer n\u00e3o), e a segunda \u00e9 aquilo que a pr\u00e1tica na verdade \u00e9. Conforme nossa pr\u00e1tica vai se, desenvolvendo com o tempo, aos poucos passamos de uma perspectiva para outra, embora nunca abandonemos por completo a primeira. Estamos todos em algum ponto desse continuam.<\/p>\n<p>Quando agimos movidos pela primeira perspectiva, nossa atitude b\u00e1sica \u00e9 que empreenderemos essa pr\u00e1tica dif\u00edcil e exigente porque esperamos obter determinados benef\u00edcios pessoais dela. Podemos n\u00e3o esperar t\u00ea-los todos ao mesmo tempo. Podemos ter certa limita\u00e7\u00e3o de paci\u00eancia, mas depois de alguns meses de pr\u00e1tica podemos come\u00e7ar a sentir que fomos ludibriados caso nossa vida n\u00e3o tenha melhorado. Entramos na pr\u00e1tica com certa expectativa ou exig\u00eancia de que ela, de alguma forma, ir\u00e1 incumbir-se de nossos problemas. Nossas exig\u00eancias b\u00e1sicas s\u00e3o que nos sintamos bem e nos tornemos felizes, que tenhamos mais paz e serenidade. Esperamos n\u00e3o ter mais que aturar aqueles horr\u00edveis sentimentos de contrariedade, e iremos conseguir tudo o que desejamos. Esperamos que, em vez de ser insatisfat\u00f3ria, nossa vida se torne mais gratificante. Esperamos ficar mais saud\u00e1veis, mais \u00e0 vontade. Esperamos ter melhor controle de nossa vida. Imaginamos que seremos capazes de tratar os outros melhor sem que isso seja inconveniente.<\/p>\n<p>Exigimos que a pr\u00e1tica nos deixe confiantes e que obtenhamos cada vez mais aquilo que queremos: se n\u00e3o dinheiro e fama, pelo menos algo pr\u00f3ximo. Embora talvez n\u00e3o queiramos admiti-lo, exigimos que uma outra pessoa tome conta de n\u00f3s e que as pessoas que nos s\u00e3o pr\u00f3ximas atuem em nosso benef\u00edcio. Esperamos ser capazes de criar condi\u00e7\u00f5es de vida que nos sejam agrad\u00e1veis, como o relacionamento certo, o trabalho certo, o melhor programa de estudos. Para aqueles com quem nos identificamos, queremos ser capazes de consertar suas vidas.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em querer qualquer uma dessas coisas, mas, se pensarmos que alcan\u00e7\u00e1-las \u00e9 do que trata a pr\u00e1tica, ent\u00e3o ainda n\u00e3o a teremos entendido. As exig\u00eancias s\u00e3o todas a respeito do que n\u00f3s queremos: queremos ficar iluminados, queremos paz, queremos serenidade, queremos ajuda, queremos controle sobre as coisas, queremos que tudo seja maravilhoso.<br \/>\nA segunda perspectiva \u00e9 bem diferente: cada vez mais queremos ser capazes de criar harmonia e crescimento para todas as pessoas. Estamos inclu\u00eddos nesse crescimento, mas n\u00e3o somos o centro dele; somos apenas uma parte do quadro. Conforme essa segunda perspectiva vai se fortalecendo em n\u00f3s, come\u00e7amos a desfrutar o servi\u00e7o que prestamos aos outros e temos menos interesse em saber se servir aos outros atrapalha nosso pr\u00f3prio bem-estar. Come\u00e7amos a ir em busca de condi\u00e7\u00f5es de vida &#8211; como um emprego, sa\u00fade, um namorado &#8211; que mais favore\u00e7am esse servi\u00e7o. Talvez elas n\u00e3o nos sejam sempre agrad\u00e1veis. O que mais nos importa \u00e9 que tais condi\u00e7\u00f5es nos ensinam como servir bem a vida. Uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil pode ser extremamente proveitosa, por exemplo.<\/p>\n<p>Conforme adotemos a segunda perspectiva mais e mais vezes, aprendemos a servir a todos, e n\u00e3o s\u00f3 as pessoas de quem gostamos. Cada vez mais, temos interesse em ser respons\u00e1veis pela vida, e n\u00e3o nos importa mais tanto se os outros se sentem ou n\u00e3o respons\u00e1veis por n\u00f3s. Na realidade, n\u00f3s inclusive nos tornamos dispostos a ser respons\u00e1veis pelas pessoas que nos maltratam. Embora possamos n\u00e3o o preferir, tornamo-nos mais propensos a vivenciar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis para aprender.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que nos aproximarmos mais da segunda perspectiva, iremos continuar conservando &#8211; muito provavelmente -aquelas prefer\u00eancias que definiam a primeira perspectiva. Continuaremos preferindo ser felizes, sentir-nos bem, estar em paz, obter o que queremos, mantermo-nos saud\u00e1veis, ter certo controle sobre as coisas. A pr\u00e1tica n\u00e3o nos leva a perder nossas prefer\u00eancias. Por\u00e9m, quando uma prefer\u00eancia entra em conflito com aquilo que \u00e9 mais proveitoso, ent\u00e3o sentimo-nos dispostos a desistir da prefer\u00eancia. Em outras palavras, o centro de nossa vida est\u00e1 mudando, da preocupa\u00e7\u00e3o conosco para a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria vida. A vida nos inclui, sem d\u00favida; n\u00e3o fomos eliminados da segunda perspectiva, mas n\u00e3o somos mais o centro.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica diz respeito a deslocar-se da primeira para a segunda perspectiva. Existe uma armadilha inerente \u00e0 pr\u00e1tica, por\u00e9m: se praticarmos bem, muitas das exig\u00eancias da primeira perspectiva podem ser satisfeitas. Temos mais probabilidade de nos sentir melhor, de ficar mais confort\u00e1veis. Podemos nos sentir mais \u00e0 vontade com n\u00f3s mesmos. Uma vez que n\u00e3o estamos punindo nossos corpos com tanta tens\u00e3o, nossa tend\u00eancia \u00e9 nos tornarmos mais saud\u00e1veis. Essas mudan\u00e7as podem causar em n\u00f3s a equivocada no\u00e7\u00e3o de que a primeira perspectiva \u00e9 correta: que a pr\u00e1tica \u00e9 tornar a vida melhor para n\u00f3s. Na realidade, os benef\u00edcios que auferimos pessoalmente s\u00e3o incidentais. A verdadeira raz\u00e3o da pr\u00e1tica \u00e9 servir a vida da maneira mais plena e produtiva que pudermos. E isso \u00e9 muito dif\u00edcil para a nossa compreens\u00e3o, sobretudo a princ\u00edpio. &#8220;Voc\u00ea quer dizer que devo tomar conta de algu\u00e9m que acabou de me destratar? Isso \u00e9 loucura!- &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que devo desistir do que \u00e9 conveniente para mim para servir algu\u00e9m que nem gosta de mim?&#8221;<\/p>\n<p>Nossas atitudes centradas em nosso ego t\u00eam ra\u00edzes profundas e levam muitos anos de \u00e1rdua pr\u00e1tica para afroux\u00e1-las um pouco. E estamos convencidos de que a pr\u00e1tica diz respeito \u00e0 primeira perspectiva, de que iremos conseguir alguma coisa dela que seja maravilhosa para n\u00f3s.<\/p>\n<p>A verdadeira pr\u00e1tica, contudo, \u00e9 muito mais voltada para enxergarmos como nos ferimos e magoamos os outros com pensamentos e atos iludidos. \u00c9 enxergarmos de que maneira magoamos os outros, talvez por estarmos simplesmente t\u00e3o perdidos em nossos pr\u00f3prios pensamentos que nem sequer conseguimos v\u00ea-los. N\u00e3o acho que de fato causemos danos aos outros; \u00e9 s\u00f3 que n\u00e3o vemos muito bem o que estamos fazendo. Posso saber como est\u00e1 indo a pr\u00e1tica de uma pessoa vendo se seu interesse pelos outros est\u00e1 aumentando, interesse que vai al\u00e9m do que meramente EU quero, do que est\u00e1 ME ferindo, de como a vida \u00e9 terr\u00edvel, e assim por diante. Esse \u00e9 o sinal de uma pr\u00e1tica que est\u00e1 avan\u00e7ando. A pr\u00e1tica sempre \u00e9 uma batalha entre aquilo que queremos e aquilo que a vida quer.<br \/>\n\u00c9 natural ser ego\u00edsta, querer o que se quer, e somos inevitavelmente ego\u00edstas at\u00e9 que enxerguemos uma alternativa. A fun\u00e7\u00e3o de lecionar num centro como este \u00e9 ajudar a enxergar a alternativa e incomodar-nos em nosso ego\u00edsmo. Enquanto estivermos presos na primeira perspectiva, governados pelo desejo de nos sentir bem ou em estado de gra\u00e7a, ou iluminados, n\u00f3s precisamos ser incomodados. Precisamos ser contrariados. Um bom centro e um bom instrutor trabalham para isso. Afinal de contas, a ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas a aus\u00eancia de todo interesse ou preocupa\u00e7\u00e3o por si. N\u00e3o venham a este centro para se sentirem melhor; este n\u00e3o \u00e9 o lugar para isso. O que quero s\u00e3o vidas que cres\u00e7am para que possam tomar conta de mais coisas e de mais pessoas.<\/p>\n<p>Hoje de manh\u00e3 recebi um telefonema de um antigo aluno que tem c\u00e2ncer no pulm\u00e3o. Numa opera\u00e7\u00e3o anterior, foram removidos tr\u00eas quartos de seus pulm\u00f5es e ele est\u00e1 se dedicando a sentar e praticar. Algum tempo depois da opera\u00e7\u00e3o, ele come\u00e7ou a ter problemas de vis\u00e3o e dores de cabe\u00e7a muito fortes. Alguns testes revelaram dois tumores cerebrais &#8211; o c\u00e2ncer tinha se espalhado. Est\u00e1 de volta ao hospital para fazer tratamento. Conversamos a respeito do tratamento e de como ele est\u00e1 indo. Eu lhe disse: &#8220;Sinto realmente muito que tudo isso tenha acontecido com voc\u00ea. Quero apenas que voc\u00ea se sinta confort\u00e1vel. Espero que as coisas melhorem&#8221;. Ele respondeu: &#8220;N\u00e3o \u00e9 isso que quero de voc\u00ea. Eu quero que voc\u00ea exulte de satisfa\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim para mim &#8211; e \u00e9 maravilhoso. Vejo o que a minha vida \u00e9&#8221;. E depois acrescentou: &#8220;N\u00e3o quer dizer que n\u00e3o sinta muita raiva e medo e fique subindo pelas paredes. Todas essas coisas continuam acontecendo e agora eu sei o que \u00e9 a minha vida. N\u00e3o quero nada de voc\u00ea exceto que partilhe de meu regozijo. Eu gostaria que todos pudessem se sentir do jeito que estou me sentindo&#8221;.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 vivendo dentro da segunda perspectiva, aquela na qual acolhemos as condi\u00e7\u00f5es de vida &#8211; emprego, sa\u00fade, amor &#8211; que nos ser\u00e3o as mais proveitosas de todas. Ele conseguiu isso. Quer viva dois meses, dois anos, quer um longo tempo, em certo sentido n\u00e3o importa. N\u00e3o estou sugerindo que ele \u00e9 um santo. Ele passa por dias de uma imensa dificuldade: dor, raiva, revolta. Essas coisas acontecem agora com ele; apesar disso, n\u00e3o era sobre essas coisas que ele queria falar. Se pudesse recuperar-se, ainda teria todas as lutas e dificuldades que qualquer pessoa tem, as exig\u00eancias e os sonhos de seu ego. Essas coisas nunca desaparecem de fato; s\u00f3 o que muda \u00e9 nosso modo de lidar com elas. A mudan\u00e7a da primeira para a segunda perspectiva \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s compreendermos, em especial no princ\u00edpio. Tenho nota do, nas conversas com as pessoas novatas quanto \u00e0 pr\u00e1tica, que muitas vezes as minhas palavras simplesmente n\u00e3o s\u00e3o registradas. Como um gato num teto de zinco quente, ou gotas de \u00e1gua numa frigideira em ponto de fritura, as palavras tocam s\u00f3 por um momento a superf\u00edcie e depois esvaecem-se. Com o tempo, por\u00e9m, as palavras n\u00e3o ir\u00e3o mais saltitar e sumir com tanta facilidade. Alguma coisa come\u00e7a a afundar, a assentar. Conseguimos sustentar por mais tempo que a vida \u00e9 muito diferente daquilo que achamos que poderia ou deveria ser. Com o tempo, aumenta a capacidade de simplesmente sentar-se com o que a vida na verdade \u00e9. Essa mudan\u00e7a n\u00e3o acontece de um dia para outro. Somos obstinados demais para isso. Ela pode ser acelerada por uma grande enfermidade ou um forte desapontamento, por uma perda grave ou outro problema s\u00e9rio. Apesar de eu n\u00e3o querer que crises assim aconte\u00e7am para ningu\u00e9m, elas em geral proporcionam o aprendizado necess\u00e1rio. A pr\u00e1tica zen \u00e9 dif\u00edcil sobretudo porque cria desconforto e nos coloca cara a cara com os problemas que temos em nossas vidas. N\u00e3o queremos fazer isso, embora nos ajude a aprender e nos incentive a ir em frente, rumo \u00e0 segunda perspectiva. Sentar em sil\u00eancio quando estamos contrariados e gostar\u00edamos realmente de estar fazendo alguma outra coisa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que assenta pouco a pouco. Quanto mais reconhecemos o valor da pr\u00e1tica, mais aumenta nossa motiva\u00e7\u00e3o para praticar. Come\u00e7amos a sentir algo. Ganhamos for\u00e7a para sentar e praticar dia ap\u00f3s dia, para participar de sess\u00f5es de um dia inteiro de pr\u00e1tica sentada, para fazer um sesshin. O desejo de fazer essa pr\u00e1tica \u00e1rdua aumenta. Lentamente come\u00e7amos a compreender aquilo que meu antigo aluno estava querendo dizer coma frase: &#8220;Agora eu sei o que \u00e9 a minha vida&#8221;. Estamos equivocados se sentimos pena dele. Talvez ele seja um dos felizardos.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea disse que, na segunda perspectiva, exigimos que nossas vidas sejam mais produtivas. Voc\u00ea quer dizer produtivas para a pr\u00e1tica da pessoa ou o qu\u00ea?<br \/>\nJOKO: Produtivas para a vida. Produtivas para a vida em geral, incluindo tanto da vida quanto for poss\u00edvel. Essa parece uma afirma\u00e7\u00e3o bastante geral, mas, quando acontece em nossa vida, n\u00f3s a compreendemos. Por exemplo, talvez ajudamos um amigo com sua mudan\u00e7a mesmo quando estamos muito cansados e n\u00e3o queremos trabalhar. Deixamo-nos de lado, impomos uma inconveni\u00eancia a n\u00f3s mesmos, n\u00e3o para sermos nobres, mas porque \u00e9 necess\u00e1rio.<br \/>\nALUNO: Quando ou\u00e7o esse tipo de hist\u00f3ria, quero imediatamente come\u00e7ar a fazer planos para realizar coisas produtivas.<br \/>\nJOKO: Sim, podemos tornar qualquer coisa um ideal a ser buscado. Por\u00e9m, se agirmos assim, rapidamente iremos deparar com nossa pr\u00f3pria resist\u00eancia &#8211; o que nos d\u00e1 algo com que trabalhar. Tudo \u00e9 \u00fatil para n\u00f3s.<br \/>\nN\u00e3o temos de nos for\u00e7ar at\u00e9 o ponto de nos arrebentarmos. N\u00e3o dever\u00edamos nos considerar como m\u00e1rtires; esse \u00e9 outro ideal, apenas isso, uma imagem de como dever\u00edamos ser, em contraste com o que de fato somos.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando planejo como posso tornar minha vida mais segura e confort\u00e1vel, imagino que ela ir\u00e1 tornar-me feliz no final. Mas ent\u00e3o surge uma quest\u00e3o: &#8220;Serei realmente feliz?&#8221;. Percebo em mim uma ansiedade de agarrar a seguran\u00e7a e a felicidade e, por tr\u00e1s desse ideal, est\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o, porque de alguma maneira eu sei que tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 isso.<\/p>\n<p>JOKO: H\u00e1 certo valor em n\u00f3s perseguirmos tais sonhos porque, quando alcan\u00e7amos o que pens\u00e1vamos querer, enxergamos com mais clareza que isso n\u00e3o nos d\u00e1 a satisfa\u00e7\u00e3o pela qual ansi\u00e1vamos. \u00c9 assim que aprendemos. A pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 para mudar aquilo que fazemos; ela se refere mais a tornarmo-nos grandes observadores e a vivenciarmos aquilo que est\u00e1 se passando conosco.<\/p>\n<p>ALUNO: O processo de perseguir os sonhos parece intermin\u00e1vel. Algum dia desaparece?<\/p>\n<p>JOKO: Desaparece sim, mas somente depois de anos e anos de pr\u00e1tica. Durante muito tempo, eu come\u00e7ava cada sesshin com uma sensa\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. &#8220;N\u00e3o quero fazer isso porque sei o quanto estarei cansada no final.&#8221; Quem quer ficar cansado? Hoje essa resist\u00eancia j\u00e1 desapareceu para mim. Quando o sesshin come\u00e7a, ele come\u00e7a. Se estamos praticando, os programas ante cipados do ego aos poucos desaparecem. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o devemos fazer desse desaparecimento um outro programa antecipado. N\u00e3o dever\u00edamos pensar a pr\u00e1tica como um modo de chegar em alguma outra parte. N\u00e3o h\u00e1 lugar nenhum para onde ir.<\/p>\n<p>ALUNO: Neste momento de minha vida, estou fazendo muitas amizades novas, muitos novos contatos. \u00c9 excitante. N\u00e3o sei quem est\u00e1 ajudando quem &#8211; se sou eu quem est\u00e1 dando para eles, ou se s\u00e3o eles que est\u00e3o dando para mim. Isso tem rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>JOKO: A pr\u00e1tica muda aquele padr\u00e3o de amizade calcado em c\u00e1lculos da raz\u00e3o custo\/benef\u00edcio para cada envolvido; tornamo-nos simplesmente mais genu\u00ednos. Em certo sentido, n\u00e3o podemos ajudar os outros; n\u00e3o sabemos o que \u00e9 melhor para eles. Praticar com a nossa pr\u00f3pria vida \u00e9 o \u00fanico meio de podermos ajudar algu\u00e9m; naturalmente servimos os outros tornando-nos cada vez mais quem somos.<\/p>\n<p>ALUNO: Se queremos atuar dentro da segunda perspectiva, fazendo o que \u00e9 mais proveitoso para a vida, como saber o que fazer? Como poderemos saber se \u00e9 este emprego ou esta rela\u00e7\u00e3o que corresponde a isso?<\/p>\n<p>JOKO: Quando vivemos dentro da segunda perspectiva, n\u00e3o levamos conosco ideais nem programas antecipados. \u00c9 mais uma quest\u00e3o de enxergar claramente o que est\u00e1 \u00e0 nossa frente. Agimos sem ficar girando a quest\u00e3o em nossas mentes, como uni disco riscado, sem parar.<\/p>\n<p>Sentar-se para praticar com essa quest\u00e3o ajuda; prestamos aten\u00e7\u00e3o aos nossos pensamentos e \u00e0 tens\u00e3o em nosso corpo, e come\u00e7amos a ver com mais nitidez como agir. A verdadeira pr\u00e1tica de sentar \u00e9 sempre um pouco embaralhada. Se nos mantivermos sentados para praticar, por um tempo longo o bastante, por\u00e9m, as coisas v\u00e3o se tornando pouco a pouco mais claras. Existe um continuam, e sentar-se na pr\u00e1tica \u00e9 avan\u00e7ar ao longo desse continuam. N\u00e3o que cheguemos em algum lugar; apenas que, cada vez mais, tornamo-nos apenas n\u00f3s mesmos. N\u00e3o me refiro a sentar-se numa almofada apenas. Se estamos praticando bem, estamos fazendo zazen o tempo todo.<\/p>\n<p>ALUNO: Sonhamos que iremos chegar a saber qual \u00e9 a coisa certa a fazer, quando de fato, em algum ponto, n\u00f3s apenas come\u00e7amos a agir e ent\u00e3o, seja como for, aprendemos com essa a\u00e7\u00e3o. Se cometemos erros e magoamos as pessoas, desculpamo-nos. Quando observo minha mente e permane\u00e7o atento ao meu corpo, decorre dessa pr\u00e1tica de aten\u00e7\u00e3o uma maneira de agir. Pode ser um curso de a\u00e7\u00e3o muito confuso. Se me atenho \u00e0 minha pr\u00e1tica, por\u00e9m, de alguma maneira aprenderei com esses. comportamentos e isso \u00e9 o melhor que posso fazer. N\u00e3o posso esperar saber sempre o que \u00e9 melhor para a vida. S\u00f3 posso fazer o que posso fazer.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. A id\u00e9ia de que dever\u00e1 chegar o momento em que ficaremos sabendo o que fazer \u00e9 parte da primeira perspectiva. A caminho da segunda, dizemos: &#8220;Irei praticar, vou fazer o melhor que posso e aprenderei com os resultados&#8221;.<\/p>\n<p>ALUNO: A respeito da quest\u00e3o de ajudar os outros, penso que, conforme formos enxergando cada vez melhor os nossos sentimentos e as nossas tend\u00eancias para manipular uma situa\u00e7\u00e3o, nessa mesma medida come\u00e7aremos a agir com mais harmonia, ou pelo menos a criar menos confus\u00e3o. Por isso n\u00e3o temos de ir longe para ajudar os outros. Apenas enxergar o que estamos fazendo conforme interagimos ajuda naturalmente as pessoas, sem que nem estejamos de fato nos esfor\u00e7ando para isso.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. Por outro lado, se vemos algu\u00e9m al\u00e9m de n\u00f3s como uma pessoa para ajudar, podemos estar certos de que arranjamos um bom problema. Se sentarmos para praticar, acerca de nossas confus\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es, sem tentarmos fazer mais nada, com o tempo fazemos algo.<\/p>\n<p>ALUNO: \u00c0s vezes, o mais valioso para algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o que fazemos por ele, mas o que n\u00e3o fazemos.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Muitas vezes, o curso mais acertado de a\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas permitir que as pessoas sejam o que s\u00e3o. Por exemplo, seria um erro se eu tentasse fazer alguma coisa por aquele meu antigo aluno que tem c\u00e2ncer. Posso apenas ouvi-lo e ser quem eu sou. Ele est\u00e1 passando pelo que tem de passar; esse \u00e9 seu aprendizado. N\u00e3o posso fazer nada a respeito.<\/p>\n<p>ALUNA: Descobri em mim recentemente uma maior disponibilidade. Parece que estou menos autocentrada e mais aberta, mais dispon\u00edvel para os outros. Parte disso est\u00e1 em encontrar-me mais relaxada. As pessoas me procuram com suas preocupa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 que estejam pedindo ajuda. Em geral s\u00f3 querem algu\u00e9m que as escute. Tudo o que tenho de fazer \u00e9 simplesmente ser eu mesma e estar dispon\u00edvel, digamos, para a pessoa do outro lado da linha que est\u00e1 me dizendo: &#8220;Quero te dizer uma coisa&#8230;-.<\/p>\n<p>JOKO: \u00c9 isso.<\/p>\n<p>ALUNO: Joko, voc\u00ea parece dispon\u00edvel o tempo todo, desse jeito. JOKO: Nem sempre. \u00c0s vezes, desligo o telefone.<\/p>\n<p>ALUNO: N\u00e3o acho que voc\u00ea aja assim para o seu pr\u00f3prio bem. Existem algumas pessoas que realmente se aproveitam de voc\u00ea.<\/p>\n<p>JOKO: Mas esse \u00e9 o meu trabalho. E, lembrem-se, ningu\u00e9m pode -aproveitar- de mim.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que sempre que algu\u00e9m grita pedindo ajuda voc\u00ea deve sempre responder? O que fazer com aquelas pessoas que ligam e se queixam o tempo todo?<\/p>\n<p>JOKO: Eu digo algo como &#8220;Estou escutando o que voc\u00ea est\u00e1 dizendo. Talvez voc\u00ea pudesse praticar com isso. Como voc\u00ea praticaria com isso?&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o me importo se algu\u00e9m se queixa. Todos nos queixamos, embora possamos n\u00e3o admiti-lo. Todos gostamos de nos queixar. No entanto, me incomodo se as pessoas querem apenas contar suas hist\u00f3rias, sem parar, sem o menor espa\u00e7o para refletir sobre o que poderiam estar trabalhando em sua vida. N\u00e3o tenho lugar nesses enredos. Talvez essas pessoas tenham de sofrer at\u00e9 estarem dispostas a acordar um pouco.<\/p>\n<p>ALUNO: Fiquei muito comovido com sua hist\u00f3ria do aluno com c\u00e2ncer. Tenho uma tremenda resist\u00eancia a reconhecer que todo esse sofrimento est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o nos cabe dizer que todo esse sofrimento est\u00e1 certo. Tamb\u00e9m n\u00e3o quero que ele sofra. Mas \u00e9 o que ele diz que importa. A vida nos apresenta li\u00e7\u00f5es o tempo todo. \u00c9 melhor se pudermos aprender cada uma delas, incluindo as pequeninas. Por\u00e9m, n\u00f3s n\u00e3o queremos aprend\u00ea-las. Queremos colocar a culpa pelo problema em outra pessoa, simplesmente coloc\u00e1-lo de lado, tir\u00e1-lo de nossa vista. Quando nos recusamos a aprender com os problemas menores, somos for\u00e7ados a aprender com os maiores. A pr\u00e1tica trata de aprender com cada pequena coisa que emerge de modo que, quando grandes quest\u00f5es nos confrontam, somos mais aptos a lidar com elas.<\/p>\n<p>ALUNO: Tornei a me familiarizar recentemente com o fato de que, quando come\u00e7o a me afastar do caminho em que vinha vindo e me dirijo mais para onde preciso estar seguindo, todas as esp\u00e9cies de caos aparecem. N\u00e3o vai ser f\u00e1cil.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Quando come\u00e7amos uma pr\u00e1tica s\u00e9ria e, por algum tempo a partir do in\u00edcio, a vida parece piorar em vez de melhorar, estamos numa parte da conversa que ningu\u00e9m deseja ouvir.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fala que ningu\u00e9m deseja ouvir Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Se formos honestos, teremos de admitir que o que de fato queremos da pr\u00e1tica &#8211; especialmente no come\u00e7o, mas em algum grau o tempo todo &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-fala-que-ninguem-deseja-ouvir\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5268","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5268","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5268"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5268\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5920,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5268\/revisions\/5920"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5268"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5268"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5268"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}