{"id":5275,"date":"2018-06-16T16:49:21","date_gmt":"2018-06-16T18:49:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5275"},"modified":"2018-06-16T16:52:09","modified_gmt":"2018-06-16T18:52:09","slug":"o-olho-do-furacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-olho-do-furacao\/","title":{"rendered":"O olho do furac\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-olho-do-furacao-2\/o-olho-do-furacao-3\/\" rel=\"attachment wp-att-5277\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-olho-do-furac\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" class=\"alignleft size-full wp-image-5277\" \/><\/a><br \/>\n<b>O olho do furac\u00e3o<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><i>Seguran\u00e7a \u00e9, principalmente, uma supersti\u00e7\u00e3o.<br \/> N\u00e3o existe na natureza, nem os filhos dos homens experimentam-na por completo.<br \/> A longo prazo, evitar perigos n\u00e3o \u00e9 mais seguro do que atirar-se e arriscar-se. <br \/>A vida \u00e9 ou uma audaciosa aventura, ou nada.<br \/><\/i><br \/>\nHelen Keller<\/div>\n<hr \/>\n<p>Alguns alunos aqui trabalham com koans, por\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o todos. Embora haja muito a se aprender com o estudo de koans, acredito que depender apenas disso pode ser limitante. Se entendermos as nossas vidas, entendemos os koans. E trabalhar diretamente com a nossa vida \u00e9 mais valioso e dif\u00edcil. Os que trabalham com koans por certo tempo podem come\u00e7ar a interessar-se em saber do que trata um koan, mas saber n\u00e3o \u00e9 necessariamente o mesmo que ser. Embora a pr\u00e1tica do koan esteja baseada na id\u00e9ia de que se virmos o que \u00e9 verdade n\u00f3s seremos essa verdade, isso nem sempre acontece. Apesar disso, os koans podem ser muito \u00fateis. Comecemos com um extra\u00eddo do Gateless gate (Port\u00e3o sem porteira)*, o Homem no Alto da \u00c1rvore, de Kyogun. Mestre Kyogun disse: &#8220;\u00c9 como um homem no alto da \u00e1rvore, pendurado de um galho pela boca; suas m\u00e3os n\u00e3o conseguem pegar um ramo sequer, seus p\u00e9s n\u00e3o alcan\u00e7am outro galho. Vamos supor que outro homem embaixo da \u00e1rvore lhe pergunte: &#8216;Qual \u00e9 o significado de Bodhidharma vir para o Ocidente?&#8217;. Se ele n\u00e3o responde, contraria o desejo do interrogante. Se responde, perde a vida. Nessa situa\u00e7\u00e3o, o que ele deveria fazer?&#8221;. Poder\u00edamos reformular esse koan perguntando: &#8220;Qual \u00e9 o significado da vida?&#8221;. N\u00e3o responder \u00e9 n\u00e3o cumprir com a nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>Para trabalhar com esse koan contarei outra hist\u00f3ria. H\u00e1 muitos anos eu vivia em Providente, em Rhode Island. Um furac\u00e3o enorme subia pela costa e destru\u00eda a Nova Inglaterra. Empurrei o ber\u00e7o do meu beb\u00ea para perto da parede e o cobri para que, se as janelas quebrassem o vidro, este n\u00e3o o atingisse, e tomamos outras provid\u00eancias necess\u00e1rias. Est\u00e1vamos diretamente no caminho do furac\u00e3o e ele era muito intenso. Em frente \u00e0 casa v\u00edamos \u00e1rvores enormes, antigas, quebrando e caindo para todo lado. Os ventos atingiam uma velocidade m\u00e9dia de 200 km hor\u00e1rios. Depois de tr\u00eas ou quatro horas, numa quest\u00e3o de minutos, tudo ficou quieto de novo. O sol apareceu e os p\u00e1ssaros come\u00e7aram a cantar. O vento parou. Est\u00e1vamos no olho do furac\u00e3o. Dentro de uma hora mais ou menos, o olho se deslocou, os ventos recome\u00e7aram e atravessamos o outro lado da massa rodopiante de ventos. Embora n\u00e3o t\u00e3o poderoso quanto o primeiro lado, tamb\u00e9m era muito intenso. No final tinha sobrado uma gigantesca confus\u00e3o para ser arrumada. Fiquei sabendo mais tarde que \u00e0s vezes os pilotos s\u00e3o acidentalmente apanhados pelos furac\u00f5es, sujeitando a si e ao avi\u00e3o a momentos de um terr\u00edvel estresse. Quando isso acontece, eles em geral tentam voar para o olho do furac\u00e3o, o centro, para terem uma m\u00ednima chance de recuperar-se.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas \u00e9 como o homem no alto da \u00e1rvore, ou o piloto dentro do avi\u00e3o, apenas agarrados, esperando conseguir sair da tempestade. Sentimo-nos aprisionados nas oscila\u00e7\u00f5es da vida. Podem ser ocorr\u00eancias naturais, como enfermidades s\u00e9rias. Podem ser dificuldades nos relacionamentos, que sempre parecem injustos. Do nascimento \u00e0 morte, ficamos prisioneiros desse rodopio de ventos que \u00e9 a realidade da vida: uma energia enorme, deslocando-se e modificando-se. Nossa meta \u00e9 como a do piloto: proteger a n\u00f3s e a nosso avi\u00e3o. N\u00e3o queremos ficar onde estamos. Por isso fazemos o m\u00e1ximo poss\u00edvel para preservar as nossas vidas e salvar a estrutura do avi\u00e3o, para podermos escapar do furac\u00e3o. Existe essa coisa poderosa e enorme que chamamos de nossa vida e estamos em algum ponto, sentados bem no meio de nosso avi\u00e3o, esperando conseguir encontrar uma sa\u00edda sem nos machucarmos.<\/p>\n<p>Vamos supor que, em vez de estarmos num avi\u00e3o, estamos num planador no meio do furac\u00e3o, sem o controle e o poder do motor. Somos arrastados pelos ventos arrebatadores. Se temos alguma id\u00e9ia de sair vivos disso, somos tolos. Mesmo assim, enquanto vivermos dentro daquela enorme massa de ventos temos uma excelente carona. Apesar do medo e do terror, pode ser excitante e delicioso &#8211; como deslizar montanha abaixo.<\/p>\n<p>O homem no alto da \u00e1rvore, agarrado para salvar sua vida, \u00e9 como o piloto do avi\u00e3o, esperando em desespero conseguir salvar-se das oscila\u00e7\u00f5es da vida. E depois lhe perguntam: &#8220;Qual \u00e9 o significado da vida?&#8221;. Como \u00e9 que ele responde? Como \u00e9 que n\u00f3s respondemos? Ao vivermos nossas vidas, assim como ao fazermos zazen, estamos tentando proteger-nos. Essa mente que pensa, imagina, se excita, se emociona, culpa os outros e se sente v\u00edtima \u00e9 como o piloto do avi\u00e3o tentando desesperadamente, sair do furac\u00e3o. Numa vida de tantas tens\u00f5es e agruras, jogamos com tudo o que temos apenas para sobreviver. Toda a nossa aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 em n\u00f3s mesmos e em nosso painel de controles; quando tentamos nos salvar, n\u00e3o prestamos aten\u00e7\u00e3o em mais nada. Contudo quem estiver no planador pode desfrutar tudo &#8211; os rel\u00e2mpagos, a chuva quente, o uivo do vento. Ele pode passar momentos indescrit\u00edveis. O que acontecer\u00e1 no final? Ambos morrem, \u00e9 claro. Mas qual conhece o significado da vida? Quem conhece o contentamento?<\/p>\n<p>Como o primeiro piloto, passamos a vida inteira tentando proteger a n\u00f3s mesmos. Quanto mais nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 nos proteger das oscila\u00e7\u00f5es de nossa atual situa\u00e7\u00e3o, mais estresse sentimos, mais infelizes nos tornamos e menos vivemos realmente a nossa vida. Devemos ignorar o cen\u00e1rio que nos rodeia se estamos obcecados com os pain\u00e9is de controle, que cedo ou tarde ir\u00e3o nos faltar, de qualquer modo.<\/p>\n<p>Quando estamos no zazen, podemos observar nossos mecanismos de prote\u00e7\u00e3o prestando aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa mente. Podemos notar como tentamos explicar nossa dor e assim afast\u00e1-la, jogando a culpa de nossas dificuldades em outrem. Conseguimos perceber nossas impiedosas e v\u00e3s tentativas de nos salvar. Nossos esfor\u00e7os n\u00e3o adiantam de nada, \u00e9 claro. Quanto mais tentamos, mais tensos e nervosos ficamos.<\/p>\n<p>Existe apenas uma coisa para finalmente resolver o problema; ningu\u00e9m quer ouvir qual \u00e9, por\u00e9m. Pense no homem que est\u00e1 no planador. Ser\u00e1 que ele de fato queria estar l\u00e1? Desde o primeiro instante, ele n\u00e3o tem nenhuma chance. Ele est\u00e1 ali s\u00f3 para ser levado na maior carona do mundo. Nossas pr\u00f3prias vidas s\u00e3o como essa carona, que termina inevitavelmente em nossa morte.<\/p>\n<p>Estamos tentando fazer o imposs\u00edvel, salvar-nos. N\u00e3o podemos faz\u00ea-lo. Ali\u00e1s, estamos todos morrendo neste exato minuto. Quantos minutos mais temos? Como o planador, talvez tenhamos s\u00f3 mais um minuto, talvez uma centena deles. N\u00e3o importa quantos: no final, ca\u00edmos todos. Mas aquele que pode perguntar &#8220;Qual \u00e9 o significado da vida?&#8221; \u00e9 o piloto do planador, n\u00e3o o do avi\u00e3o. O primeiro saber\u00e1 que no instante seguinte ir\u00e1 colidir, e o segundo s\u00f3 saber\u00e1 quando gritar.<\/p>\n<p>Vamos ao sesshin na esperan\u00e7a de que, dentro do furac\u00e3o de nossos tumultos, iremos encontrar o pequeno olho, o pequeno nirvana. Pensamos: &#8220;Deve estar em algum lugar. Onde? Onde est\u00e1?&#8221;. \u00c0s vezes, alcan\u00e7amos um pontinho de sossego, de bons sentimentos. Ent\u00e3o tentamos apegar-nos a ele. Todavia n\u00e3o podemos nos agarrar ao olho do furac\u00e3o. O furac\u00e3o segue correndo em frente. O nirvana n\u00e3o est\u00e1 em encontrar aquele pequeno espa\u00e7o de calma onde ficamos protegidos e abrigados por algo ou algu\u00e9m. Isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. Nada no mundo ir\u00e1 jamais nos proteger: nem nosso companheiro, nem nossas circunst\u00e2ncias de vida, nem nossos filhos. Afinal de contas, as outras pessoas est\u00e3o todas ocupadas se protegendo. Se passarmos a vida procurando o olho do furac\u00e3o, teremos vivido de maneira est\u00e9ril. Morreremos sem termos vivido de fato.<\/p>\n<p>N\u00e3o sinto pena do piloto no planador. Quando ele morrer, ter\u00e1 pelo menos vivido. Sinto pena daqueles que est\u00e3o t\u00e3o cegos por seus procedimentos defensivos e protetores que nunca sequer chegam a viver. Quando estamos em sua companhia, podemos sentir o medo e a inutilidade. No sesshin, podemos enxergar esse equ\u00edvoco com mais clareza: n\u00e3o estamos tentando viver plenamente nossa vida; estamos tentando encontrar o olho do furac\u00e3o, o lugar onde por fim ficaremos a salvo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode saber o que \u00e9 a vida, mas podemos experiment\u00e1-la de maneira direta. S\u00f3 isso nos \u00e9 dado, como seres humanos. Por\u00e9m, n\u00e3o aceitamos o presente. N\u00e3o vivemos nossas vidas diretamente. Em vez disso, vivemos protegendo-nos. Quando nossos sistemas de prote\u00e7\u00e3o falham, culpamos algu\u00e9m ou n\u00f3s mesmos. Temos sistemas para encobrir nossos problemas; n\u00e3o estamos dispostos a encarara dor da vida de frente. Ali\u00e1s, quando a encaramos de frente, a vida se torna uma grande viagem.<\/p>\n<p>Claro que \u00e9 interessante comprar seguro de vida e verificar que os freios em nosso carro funcionam. Mas, no final, at\u00e9 mesmo esses expedientes n\u00e3o nos salvar\u00e3o. Cedo ou tarde, todos os nossos mecanismos de prote\u00e7\u00e3o falhar\u00e3o. Ningu\u00e9m consegue resolver completamente o koan da vida, embora em nossa imagina\u00e7\u00e3o o outro sujeito talvez tenha conseguido. Culpamos as outras pessoas porque pensamos que elas deveriam j\u00e1 ter compreendido tudo a respeito da vida. N\u00f3s n\u00e3o, mas ainda achamos que os outros nunca deveriam ser confusos a respeito de como vivem. Na verdade, somos todos confusos porque todos estamos imersos nesse jogo de autoprote\u00e7\u00e3o, em vez de no verdadeiro jogo da vida. A vida n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o seguro. Nunca foi e nunca ser\u00e1. Se conseguirmos chegar ao olho do furac\u00e3o por um ano ou dois, ainda assim n\u00e3o se pode contar com isso. N\u00e3o existe lugar seguro para o nosso dinheiro, para n\u00f3s, para aqueles que amamos. E n\u00e3o nos diz respeito preocuparmo-nos com isso.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o enxergarmos mais al\u00e9m desse jogo que n\u00e3o funciona, n\u00e3o estaremos jogando o jogo real. Algumas pessoas jamais enxergam mais al\u00e9m e morrem sem jamais terem vivido. E \u00e9 uma grande pena. Podemos passar nossa vida culpando as outras pessoas, as circunst\u00e2ncias ou o azar, pensando que a vida deveria ser de outro jeito. Podemos morrer assim se quisermos. \u00c9 nosso privil\u00e9gio, mas n\u00e3o \u00e9 muito divertido. Temos de nos abrir para o enorme jogo que est\u00e1 em andamento e do qual fazemos parte. Nossa pr\u00e1tica deve ser cuidadosa, meticulosa, paciente. Temos de encarar todas as coisas.<\/p>\n<p><i>*Gateless gate, newly translated with commentary by zen master Koun Yamada, Los Angeles: Center Publications, 1979, p. 35.<\/i><\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O olho do furac\u00e3o Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Seguran\u00e7a \u00e9, principalmente, uma supersti\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existe na natureza, nem os filhos dos homens experimentam-na por completo. 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