{"id":5283,"date":"2018-06-16T17:27:17","date_gmt":"2018-06-16T19:27:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5283"},"modified":"2018-06-16T17:28:52","modified_gmt":"2018-06-16T19:28:52","slug":"pode-alguma-coisa-nos-ferir","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/pode-alguma-coisa-nos-ferir\/","title":{"rendered":"Pode alguma coisa nos ferir?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5284\" rel=\"attachment wp-att-5284\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Pode-alguma-coisa-nos-ferir.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"225\" class=\"alignleft size-full wp-image-5284\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Pode-alguma-coisa-nos-ferir.jpg 225w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Pode-alguma-coisa-nos-ferir-150x150.jpg 150w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Pode-alguma-coisa-nos-ferir-50x50.jpg 50w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Pode alguma coisa nos ferir?<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Uma aluna do zen telefonou-me h\u00e1 poucos dias para queixar-se da \u00eanfase sobre a dificuldade da pr\u00e1tica. Ela disse: &#8211; &#8220;Penso que voc\u00ea comete um erro quando insiste com os alunos para que levem sua pr\u00e1tica t\u00e3o a s\u00e9rio. A vida deveria ser divertir-nos e passar bons momentos&#8221;. Eu perguntei para ela: &#8220;Alguma vez essa abordagem j\u00e1 deu certo para voc\u00ea?&#8221;. E ela respondeu: &#8220;Bom, na verdade n\u00e3o&#8230; Mas tenho esperan\u00e7as!&#8221;.<\/p>\n<p>Entendo sua atitude e simpatizo com todo aquele que acha que a pr\u00e1tica \u00e9 realmente um trabalho muito duro. \u00c9 mesmo. Mas tamb\u00e9m fico triste por aqueles que n\u00e3o est\u00e3o ainda dispostos a fazer esse tipo de trabalho s\u00e9rio, porque ser\u00e3o os que mais sofrer\u00e3o. Apesar disso, as pessoas t\u00eam de fazer suas pr\u00f3prias escolhas e algumas delas n\u00e3o est\u00e3o prontas para uma pr\u00e1tica s\u00e9ria. E eu disse para a aluna do zen: &#8220;Apenas fa\u00e7a sua pr\u00e1tica de acordo ou n\u00e3o com suas pr\u00f3prias id\u00e9ias e eu a apoiarei&#8221;. Seja o que for que as pessoas estejam fazendo, quero dar-lhes apoio &#8211; porque \u00e9 nesse ponto que elas se encontram e est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, para a maioria das pessoas, as nossas vidas n\u00e3o est\u00e3o indo bem. Enquanto n\u00e3o nos dedicarmos a uma pr\u00e1tica s\u00e9ria, nossa vis\u00e3o b\u00e1sica de vida em geral permanecer\u00e1 em grande parte intacta. Ali\u00e1s, a vida continua a nos fazer sentir pior e chega mesmo a piorar por si. Uma pr\u00e1tica s\u00e9ria \u00e9 necess\u00e1ria para que consigamos enxergar essa fal\u00e1cia bem no fundo de quase todas as a\u00e7\u00f5es, id\u00e9ias e emo\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Sendo humanos, vemos a vida atrav\u00e9s de um determinado aparato sensorial e, porque as pessoas e os objetos parecem ser externos a n\u00f3s, vivenciamos muita infelicidade. Essa infelicidade decorre da concep\u00e7\u00e3o equivocada de que somos separados. Certamente essa \u00e9 a impress\u00e3o &#8211; parece que sou separada das outras pessoas e de tudo o mais que existe no mundo fenom\u00eanico. Essa concep\u00e7\u00e3o equivocada de que somos separados cria todas as dificuldades da vida humana.<\/p>\n<p>Enquanto pensarmos que somos separados, iremos sofrer. Se nos sentimos separados, iremos tamb\u00e9m sentir que temos de nos defender, que temos de tentar ser felizes, que temos de encontrar algo no mundo \u00e0 nossa volta que ir\u00e1 tornar-nos felizes.<\/p>\n<p>A verdade dessa quest\u00e3o, no entanto, \u00e9 que n\u00e3o somos separados. Somos todos express\u00f5es ou emana\u00e7\u00f5es de um ponto central &#8211; se quiser, chame-o de energia multidimensional. N\u00e3o podemos imaginar qual seja sua forma; o ponto ou a energia central n\u00e3o tem tamanho, espa\u00e7o ou tempo. Estou falando metaforicamente a respeito daquilo que n\u00e3o pode na realidade ser mencionado em termos comuns.<\/p>\n<p>Levando essa met\u00e1fora um pouco mais adiante, \u00e9 como se esse ponto central irradiasse em bilh\u00f5es de raios, cada um deles pensando que \u00e9 separado de todos os outros. Na verdade, cada um de n\u00f3s \u00e9 sempre o centro, e o centro \u00e9 cada um de n\u00f3s. Uma vez que todas as coisas est\u00e3o conectadas nesse centro, todos somos apenas uma coisa s\u00f3. N\u00e3o enxergamos essa unidade, por\u00e9m. Talvez se conhecermos bastante teoria da f\u00edsica contempor\u00e2nea, poderemos entender intelectualmente a quest\u00e3o. Conforme vamos praticando ao longo dos anos, contudo, fragmentos dessa verdade come\u00e7am a insinuar-se em nossas viv\u00eancias, c\u00e1 e l\u00e1. N\u00e3o nos sentimos mais t\u00e3o separados dos outros. Conforme essa sensa\u00e7\u00e3o vai assentando em n\u00f3s, a vida, tal como acontece \u00e0 nossa volta, deixa de ser t\u00e3o frustrante. As situa\u00e7\u00f5es, as pessoas, as dificuldades come\u00e7am a impor-se a n\u00f3s de um modo um pouco mais leve. Uma mudan\u00e7a sutil est\u00e1 acontecendo.  Ao longo de toda uma vida de pr\u00e1tica esse processo aos poucos se fortalece. Podem ocorrer breves momentos nos quais temos vislumbres de percep\u00e7\u00e3o de quem realmente somos, embora em si esses momentos n\u00e3o sejam muito importantes. \u00c9 mais importante a lenta e crescente constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o somos separados. Em termos comuns, ainda parece que existimos separados, mas n\u00e3o nos sentimos mais t\u00e3o separados. Em conseq\u00fc\u00eancia; n\u00e3o esperneamos mais tanto contra a vida: n\u00e3o temos de lutar contra ela, n\u00e3o temos de agrad\u00e1-la, n\u00e3o temos de nos preocupar com ela. Esse \u00e9 o caminho da pr\u00e1tica. Se n\u00e3o brigamos com a vida, isso significa que ela n\u00e3o ir\u00e1 nos ferir? Existe algo al\u00e9m de n\u00f3s que pode nos ferir? Na qualidade de alunos zen, podemos ter aprendido a dizer &#8211; no m\u00ednimo intelectualmente &#8211; que a resposta \u00e9 n\u00e3o. Mas o que \u00e9 que de fato pensamos disso? H\u00e1 alguma pessoa ou situa\u00e7\u00e3o que pode nos ferir?<\/p>\n<p>Claro que pensamos que sim. No meu trabalho com os alunos, ou\u00e7o in\u00fameras hist\u00f3rias de como est\u00e3o magoados ou contrariados. Todos esses relatos s\u00e3o vers\u00f5es de &#8220;Isso aconteceu comigo&#8221;. Nossos parceiros amorosos, nossos pais, nossos filhos, nossos animais de estima\u00e7\u00e3o &#8211; &#8220;Isso aconteceu e me contrariou&#8221;. Todos fazemos isso, sem exce\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 a nossa vida. Talvez as coisas corram razoavelmente mansas durante algum tempo e depois, de repente, algo acontece que nos contraria. Em outras palavras, somos v\u00edtimas. Bom, essa \u00e9 a nossa vis\u00e3o geral das coisas. Est\u00e1 profundamente entranhada em n\u00f3s, quase inata.<\/p>\n<p>Quando nos sentimos vitimados pelo mundo, procuramos por alguma coisa al\u00e9m de n\u00f3s para levar essa dor embora. Pode ser uma pessoa, pode ser conseguir algo que queremos, pode ser alguma mudan\u00e7a em nossa posi\u00e7\u00e3o profissional, algum reconhecimento talvez. Uma vez que n\u00e3o sabemos onde procurar, e estamos magoados, buscamos conforto em outro lugar.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o percebermos que n\u00e3o somos separados de nada, iremos lutar contra nossas vidas. Quando lutamos, entramos em dificuldade. Ou fazemos bobagens, ou nos sentimos contrariados, insatisfeitos ou como se alguma coisa estivesse faltando. \u00c9 como se a vida nos apresentasse uma s\u00e9rie de indaga\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser respondidas. E, por falar nisso, n\u00e3o podem mesmo. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque s\u00e3o falsas indaga\u00e7\u00f5es. N\u00e3o est\u00e3o baseadas na realidade. Sentir que algo est\u00e1 errado e procurar meios de consert\u00e1-lo &#8211; quando come\u00e7amos a sentir o erro desse tipo de padr\u00e3o, come\u00e7a a pr\u00e1tica s\u00e9ria. A jovem que me telefonou ainda n\u00e3o chegou nesse ponto. Ela continua imaginando que algo externo ir\u00e1 torn\u00e1-la feliz. Talvez US$ 1 milh\u00e3o?<\/p>\n<p>Por outro lado, j\u00e1 com as pessoas que praticam, a armadura treme um pouco, acontecem pequenos lampejos de verdadeira compreens\u00e3o. Pode ser que n\u00e3o queiramos reconhecer esses lampejos. Mesmo assim, \u00e9 fato que come\u00e7amos a compreender que existe um outro meio de viver, al\u00e9m de se sentir acossado pela vida e sair atr\u00e1s de rem\u00e9dio contra isso.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o dos come\u00e7os, n\u00e3o h\u00e1 nada errado. N\u00e3o h\u00e1 separa\u00e7\u00e3o: tudo \u00e9 um \u00fanico conjunto que irradia. Ningu\u00e9m acre dita nisso e enquanto n\u00e3o houvermos praticado por muito tempo \u00e9 dif\u00edcil de captar. Mesmo com seis meses de uma pr\u00e1tica inteligente, contudo, come\u00e7a a haver um pequeno abalo na falsa estrutura de nossas cren\u00e7as. A estrutura come\u00e7a a desmanchar aqui e ali. Conforme praticamos ao longo dos anos, a estrutura enfraquece. O estado iluminado existe quando essa estrutura rui por inteiro.<\/p>\n<p>Sim, temos de ser s\u00e9rios a respeito de nossa pr\u00e1tica. Se voc\u00ea n\u00e3o estiver pronto para ser s\u00e9rio, tudo bem. Continue simplesmente levando sua vida em frente. Voc\u00ea precisa ser empurrado de um lado para o outro por mais algum tempo. Est\u00e1 certo. As pessoas n\u00e3o devem estar num centro zen enquanto n\u00e3o sentirem que nada mais h\u00e1 para ser feito: \u00e9 nesse momento que devem vir.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 nossa pergunta: ser\u00e1 que algo ou algu\u00e9m pode nos ferir? Consideremos alguns desastres reais. Vamos supor que perdi meu emprego e que estou seriamente enferma. Vamos supor que todos os meus amigos me deixaram. Vamos supor que um terremoto destruiu minha casa. Posso ficar ferido por todas essas coisas? Claro que eu penso que sim. E seria terr\u00edvel se todas essas coisas acontecessem. Por\u00e9m, ser\u00e1 que podemos realmente ser atingidos por tais eventos? A pr\u00e1tica nos ajuda a ver que a resposta \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 objetivo da pr\u00e1tica evitar os sentimentos que nos ferem. Aquilo que chamamos &#8220;m\u00e1goa&#8221; ainda acontece. Posso perder meu emprego, um terremoto pode destruir minha casa, mas a pr\u00e1tica ajuda-me a dar conta de crises, a mant\u00ea-las dentro do meu controle. Enquanto estivermos mergulhados em nossa m\u00e1goa, seremos um po\u00e7o de lamenta\u00e7\u00f5es de pouca serventia para qualquer um. Se n\u00e3o estivermos emaranhados em nosso melodrama de dor, por outro lado, mesmo durante uma crise podemos ser \u00fateis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que acontece quando n\u00f3s de fato praticamos? Por que \u00e9 que a sensa\u00e7\u00e3o de que a vida pode nos ferir come\u00e7a a diminuir com o tempo? O que ocorre?<\/p>\n<p>S\u00f3 um ego centrado em si, um ego apegado \u00e0 sua mente e ao seu corpo pode ser atingido. Esse ego \u00e9 na realidade um conceito formado a partir de pensamentos nos quais acreditamos. Por exemplo, &#8220;Se eu n\u00e3o conseguir isso ficarei infeliz&#8221;, ou &#8220;Se isso n\u00e3o der certo para mim, ser\u00e1 horr\u00edvel&#8221;, ou &#8220;Se eu n\u00e3o tenho uma casa para morar, isso \u00e9 realmente terr\u00edvel&#8221;. Aquilo que chamamos de ego n\u00e3o \u00e9 mais do que uma s\u00e9rie de pensamentos aos quais estamos habituados. Quando estamos envolvidos por inteiro em nossos pequenos egos, a realidade &#8211; a energia b\u00e1sica do universo &#8211; dificilmente \u00e9 sequer percebida.<\/p>\n<p>Vamos supor que eu acho que n\u00e3o tenho amigos e estou muito sozinha. O que acontece se sento para praticar sobre isso? Come\u00e7o a ver que meu sentimento de solid\u00e3o se comp\u00f5e, na verdade, apenas de pensamentos. A realidade \u00e9 que estou apenas sentada aqui. Talvez eu esteja sentada a s\u00f3s em minha sala, sem mais ningu\u00e9m. Ningu\u00e9m me telefonou. Sinto-me s\u00f3. Mas a realidade \u00e9 que estou s\u00f3 sentada. A solid\u00e3o e a infelicidade s\u00e3o meus pensamentos, meu julgamento de que as coisas deveriam ser diferentes do que s\u00e3o. N\u00e3o enxerguei atrav\u00e9s delas. N\u00e3o reconheci que minha infelicidade \u00e9 fabricada por mim. A verdade da quest\u00e3o \u00e9 que estou sentada em minha sala. Leva um bom tempo antes de conseguirmos ver que apenas ficar sentada na pr\u00e1tica \u00e9 bom, est\u00e1 bem. Fico apegada ao pensamento de que sem uma companhia agrad\u00e1vel, que me d\u00ea apoio, sou infeliz.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou recomendando uma vida em que nos distanciamos do conv\u00edvio social para ficarmos livres de apegos e depend\u00eancias. Apegos dizem respeito n\u00e3o ao que temos, mas a nossas opini\u00f5es acerca do que temos. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com o fato de se possuir algum dinheiro, por exemplo. Apego \u00e9 quando n\u00e3o conseguimos mais ver a vida sem ele. Da mesma forma, n\u00e3o estou dizendo para se desistir de estar com os outros. Estar com as pessoas \u00e9 muit\u00edssimo agrad\u00e1vel. \u00c0s vezes, por\u00e9m, talvez tenhamos de passar seis meses fazendo uma pesquisa em algum ponto do deserto. Para a maioria isso seria muito dif\u00edcil. Todavia, se estou fazendo uma pesquisa no meio do nada, durante seis meses, a verdade da quest\u00e3o \u00e9 que \u00e9 isso mesmo, \u00e9 apenas isso que estou fazendo.<\/p>\n<p>A lenta e dif\u00edcil mudan\u00e7a da pr\u00e1tica alicer\u00e7a a vida e torna-a genuinamente mais pac\u00edfica. Sem nos esfor\u00e7armos para ser pac\u00edficos, percebemos que cada vez mais as tempestades da vida nos atingem mais de leve. Estamos come\u00e7ando a nos desvencilhar de nosso apego aos pensamentos que pensamos ser n\u00f3s mesmos. O ego \u00e9 um conceito que enfraquece com a pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que nada pode nos ferir. Mas n\u00f3s com certeza pensamos que estamos sendo atingidos e que podemos lutar para remediar as id\u00e9ias de m\u00e1goa usando meios bastante improdutivos.<\/p>\n<p>Tentamos remediar um falso problema com uma falsa solu\u00e7\u00e3o e sem d\u00favida isso cria o caos. Guerras, danos ao meio ambiente &#8211; tudo decorre dessa ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Se nos recusamos a realizar esse trabalho &#8211; e n\u00e3o o faremos sen\u00e3o quando estivermos prontos -, teremos algum tipo de sofrimento, e tudo \u00e0 nossa volta sofrer\u00e1 tamb\u00e9m. Praticar ou n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de bom ou mau, certo ou errado. Temos de estar prontos. Mas, quando n\u00e3o praticamos, pagamos o pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a unidade original &#8211; o centro da energia multidimensional &#8211; permanece intacta. N\u00e3o h\u00e1 como conseguirmos perturb\u00e1-la. Ela sempre existe; s\u00f3 isso. Isso \u00e9 o que somos. Do ponto de vista da vida fenom\u00eanica que levamos, por\u00e9m, existe um pre\u00e7o a ser pago.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou tentando criar sentimento de culpa em ningu\u00e9m. Esse sentimento em si n\u00e3o passa de pensamentos. N\u00e3o estou criticando a mo\u00e7a que n\u00e3o queria levar a pr\u00e1tica a s\u00e9rio. Ela est\u00e1 exatamente nesse ponto, por\u00e9m, e para ela \u00e9 perfeito. Conforme praticamos, no entanto, nossa resist\u00eancia \u00e0 pr\u00e1tica diminui. Mas sem d\u00favida isso leva tempo.<\/p>\n<p>ALUNO: Consigo ver como podemos ser unos com as outras pessoas, mas para mim est\u00e1 dif\u00edcil entender o que seria ser uno com uma mesa ou coisa assim.<\/p>\n<p>JOKO: Uno com uma mesa? Acho que com a mesa \u00e9 muito mais f\u00e1cil do que com as pessoas! Nunca ouvi ningu\u00e9m relatar conflitos com uma mesa. Nossas dificuldades quase sempre envolvem pessoas, individualmente ou em grupos.<\/p>\n<p>ALUNO: Talvez eu n\u00e3o tenha entendido o que voc\u00ea quer dizer com &#8220;ser uno&#8221;.<\/p>\n<p>JOKO: &#8220;Uno com&#8221; \u00e9 a aus\u00eancia de qualquer coisa que divida. <\/p>\n<p>ALUNO: Mas eu n\u00e3o me sinto uma mesa.<\/p>\n<p>JOKO: Voc\u00ea n\u00e3o tem de sentir que \u00e9 uma mesa. Com essa frase &#8220;ser uno com a mesa&#8221;, estou querendo dizer que n\u00e3o existe senso de oposi\u00e7\u00e3o entre voc\u00ea e a mesa. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de um sentimento especial; \u00e9 uma falta ou aus\u00eancia da sensa\u00e7\u00e3o de dist\u00e2ncia, em sentido emocional. As mesas em geral n\u00e3o despertam emo\u00e7\u00f5es. Por isso \u00e9 que n\u00e3o temos problemas com elas.<\/p>\n<p>ALUNO: Digamos que uma pessoa tem artrite e sente dor o tempo todo; voc\u00ea diz que isso n\u00e3o d\u00f3i?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o. Se sentimos uma dor persistente, devemos sem d\u00favida fazer o que nos for poss\u00edvel para lidar com ela. Mas depois, se ainda resta um pouco de dor, tudo o que podemos fazer \u00e9 vivenciar esse res\u00edduo. N\u00e3o adianta nada acrescentar \u00e0 dor julgamentos do tipo &#8220;Mas que coisa terr\u00edvel! Coitada de mim! Por que \u00e9 assim?&#8221;. A dor simplesmente \u00e9. Considerada dessa forma, a dor \u00e9 um ensinamento. Segundo a minha experi\u00eancia, a maioria das pessoas que j\u00e1 passou por uma enfermidade s\u00e9ria e que aprendeu a us\u00e1-la terminou descobrindo que aquilo foi a melhor coisa que poderia ter acontecido para elas.<\/p>\n<p>ALUNO: Se algu\u00e9m n\u00e3o pode nos ferir e n\u00f3s n\u00e3o podemos ferir o outro, isso n\u00e3o nos d\u00e1 necessariamente autoriza\u00e7\u00e3o para falarmos tudo o que temos na cabe\u00e7a porque n\u00e3o podemos ferir ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Se entendemos erradamente esse ponto e dizemos &#8220;Vou falar tudo agora para voc\u00ea porque n\u00e3o posso feri-lo&#8221;, isso j\u00e1 \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o atacamos os outros a menos que nos sintamos separados deles. Toda pr\u00e1tica s\u00e9ria presume uma devo\u00e7\u00e3o a preceitos e princ\u00edpios morais b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>ALUNO: E quanto \u00e0 \u00e9tica samurai, hist\u00f3rica no Jap\u00e3o? Por exemplo, um guerreiro samurai pode dizer &#8220;Uma vez que sou uno com tudo, quando decepar a cabe\u00e7a de uma pessoa inocente n\u00e3o h\u00e1 assassinato: essa pessoa sou eu&#8221;.<\/p>\n<p>JOKO: Em senso absoluto n\u00e3o h\u00e1 assassinato nenhum porque somos todos &#8211; &#8220;vivos&#8221; e &#8220;mortos&#8221; &#8211; apenas manifesta\u00e7\u00f5es daquela energia central que \u00e9 tudo. Por\u00e9m, em termos pr\u00e1ticos, n\u00e3o concordo com a \u00e9tica samurai. Se vemos que n\u00e3o somos separados das outras pessoas, simplesmente n\u00e3o atacamos. Os guerreiros samurais estavam confundindo o relativo e o absoluto. \u00c9 claro que, por certo, n\u00e3o h\u00e1 um que mate e um que seja morto, mas na vida que vivemos, sim, existe. E por isso n\u00e3o o fazemos.<\/p>\n<p>ALUNO: Em outras palavras, se confundimos o absoluto e o relativo poder\u00edamos usar o absoluto para justificar o que fazemos no relativo?<\/p>\n<p>JOKO: Sim, mas s\u00f3 se vivemos na cabe\u00e7a. Se consideramos que a pr\u00e1tica \u00e9 uma postura filos\u00f3fica, podemos ficar realmente confusos. Se sabemos que a verdade da pr\u00e1tica est\u00e1 em nossos ossos &#8211; sem sequer pensar a esse respeito &#8211; n\u00e3o cometeremos esse erro.<\/p>\n<p>ALUNO: Antes de eu come\u00e7ar a sentar para praticar, eu n\u00e3o achava que as coisas pudessem me ferir, porque eu n\u00e3o as sentia.<\/p>\n<p>JOKO: Isso \u00e9 muito diferente. Voc\u00ea est\u00e1 falando de dorm\u00eancia psicol\u00f3gica. Quando estamos entorpecidos, n\u00e3o estamos unos com a dor; estamos fingindo que ela n\u00e3o est\u00e1 ali.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando por fim me sintonizo e percebo o quanto estou me magoando de variadas maneiras, fica muito mais f\u00e1cil interromper o comportamento contraproducente. At\u00e9 que esse momento chegue, como voc\u00ea disse, estaremos fazendo o que estamos fazendo. Se vamos estragar as coisas, \u00e9 isso que iremos fazer.<\/p>\n<p>JOKO: \u00c9 isso mesmo. E n\u00e3o estou dizendo jamais criticar aos outros e suas condutas. Se algu\u00e9m fez algo para mim &#8211; roubou todo o meu dinheiro para as compras -, posso precisar negar e tomar alguma atitude. Se os outros me tratam mal ou me causam dor, talvez devam saber que fizeram isso. Mas, se falarmos com eles com raiva, nunca aprender\u00e3o aquilo que precisam aprender. Jamais sequer nos escutar\u00e3o.<\/p>\n<p>A atitude ou o conhecimento interno de que n\u00e3o somos separados cria uma mudan\u00e7a fundamental em nossa vida emocional. Esse conhecimento significa que, independentemente do que acontecer, n\u00e3o somos perturbados por isso. Ter o conhecimento n\u00e3o significa que n\u00e3o nos incumbiremos dos problemas conforme forem surgindo. No entanto, n\u00e3o estaremos mais dizendo em nosso \u00edntimo: &#8220;Mas que coisa horr\u00edvel. Ningu\u00e9m tem todas as dificuldades que eu tenho&#8221;. \u00c9 como se nosso entendimento cancelasse essas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>ALUNO: Portanto, sentir-se ferido s\u00e3o s\u00f3 nossos pensamentos a respeito da situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>JOKO: Sim. Quando n\u00e3o nos identificamos mais com esses pensamentos, lidamos com a situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o ficamos mais emocionalmente envolvidos nela.<\/p>\n<p>ALUNO: Mas a pessoa pode se sentir ferida.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. E n\u00e3o estou dizendo para evitar esse sentimento. Na pr\u00e1tica, n\u00f3s trabalhamos com o complexo de sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e pensamentos que constituem &#8220;Eu me sinto ferido&#8221;. Se vivenciarmos totalmente as sensa\u00e7\u00f5es e os pensamentos, ent\u00e3o o &#8220;sentir-se ferido&#8221; evapora. Eu nunca diria para n\u00e3o nos sentirmos do jeito que nos sentimos.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea est\u00e1 dizendo para se abrir m\u00e3o do apego \u00e0 m\u00e1goa?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o. N\u00e3o podemos nos for\u00e7ar a abandonar esse apego. O apego \u00e9 pensamento, mas n\u00e3o podemos apenas dizer &#8220;Vou desistir disso&#8221;. N\u00e3o funciona. Temos de entender o que \u00e9 o apego. Temos de experimentar o medo &#8211; a sensa\u00e7\u00e3o corporal &#8211; que est\u00e1 por tr\u00e1s do apego. Ent\u00e3o esse apego ir\u00e1 simplesmente fenecer. Um erro comum no ensinamento zen \u00e9 nos obrigar a &#8220;deixar ir&#8221;. N\u00e3o podemos nos for\u00e7ar a &#8220;deixar ir&#8221;. Temos de vivenciar o medo subjacente. Vivenciar o apego ou o sentimento tamb\u00e9m n\u00e3o significa dramatiz\u00e1-lo. Quando dramatizamos nossas emo\u00e7\u00f5es, simplesmente as encobrimos.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que se sentirmos nossa tristeza de verdade, por exemplo, n\u00e3o ter\u00edamos mais necessidade de chorar?<\/p>\n<p>JOKO: Podemos chorar. No entanto, existe uma diferen\u00e7a entre apenas chorar e dramatizar a nossa tristeza, o medo ou a raiva. A dramatiza\u00e7\u00e3o, muitas vezes, \u00e9 mais um disfarce. Por exemplo, as pessoas que brigam, atiram coisas, berram e gritam ainda n\u00e3o est\u00e3o em contato com sua raiva.<\/p>\n<p>ALUNO: Voltando \u00e0 mo\u00e7a que pensava que a pr\u00e1tica deveria ser menos s\u00e9ria e que n\u00e3o queria vir para sentar-se e praticar aqui: voc\u00ea est\u00e1 equacionando a pr\u00e1tica s\u00e9ria com praticar com regularidade num centro zen?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o, embora essa pr\u00e1tica regular seja muito \u00fatil. Tenho alguns alunos que moram longe e praticam bastante. Apesar da dist\u00e2ncia, eles encontram um jeito de vir aqui de vez em quando. A mo\u00e7a simplesmente ainda n\u00e3o est\u00e1 pronta para fazer isso. E \u00e9 ela quem sofre, o que \u00e9 o mais triste.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode alguma coisa nos ferir? Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Uma aluna do zen telefonou-me h\u00e1 poucos dias para queixar-se da \u00eanfase sobre a dificuldade da pr\u00e1tica. 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