{"id":5287,"date":"2018-06-16T17:33:48","date_gmt":"2018-06-16T19:33:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5287"},"modified":"2018-06-16T17:36:47","modified_gmt":"2018-06-16T19:36:47","slug":"o-problema-sujeito-objeto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-problema-sujeito-objeto\/","title":{"rendered":"O problema sujeito-objeto"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-problema-sujeito-objeto-2\/o-problema-sujeito-objeto-3\/\" rel=\"attachment wp-att-5289\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto-300x123.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"123\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5289\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto-300x123.png 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto-768x314.png 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto-1024x419.png 1024w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto-500x204.png 500w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-problema-sujeito-objeto.png 1357w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>O problema sujeito-objeto<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Nosso problema b\u00e1sico como seres humanos \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto. Na primeira vez que ouvi essa afirma\u00e7\u00e3o, anos e anos atr\u00e1s, pareceu abstrata e irrelevante para minha vida. Apesar disso, toda a nossa desarmonia e dificuldade decorrem de n\u00e3o sabermos o que fazer a respeito da rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto. Em termos comuns, do dia-a-dia, o mundo est\u00e1 dividido em sujeitos e objetos. Eu olho para voc\u00eas, vou para o trabalho, sento-me numa cadeira. Em cada um desses casos, penso em mim como o sujeito em rela\u00e7\u00e3o com os objetos: voc\u00eas, meu trabalho, a cadeira. Intuitivamente, no entanto, sabemos que n\u00e3o somos separados do mundo e que a divis\u00e3o sujeito-objeto \u00e9 uma ilus\u00e3o. Para chegar a esse conhecimento intuitivo \u00e9 que praticamos.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o entendermos o dualismo sujeito-objeto, veremos os objetos em nosso mundo como a fonte de nossos problemas: voc\u00eas s\u00e3o o meu problema, meu trabalho \u00e9 meu problema, a cadeira. (Quando me considero como o problema, tornei-me objeto.) Dessa forma, afastamo-nos dos objetos que consideramos como os problemas e vamos em busca de outros, que para n\u00f3s s\u00e3o n\u00e3o-problemas. Desse ponto de vista, o mundo consiste em mim e nas coisas que agradam ou desagradam a mim.<\/p>\n<p>Historicamente, a pr\u00e1tica zen e a maioria das outras disciplinas de medita\u00e7\u00e3o t\u00eam tentado resolver o dualismo sujeito-objeto esvaziando o objeto de todo conte\u00fado. Por exemplo, trabalhar no Mu<sup>1<\/sup> ou em grandes koans esvazia o objeto do condicionamento que vinculamos a ele. Conforme o objeto vai se tornando cada vez mais transparente, somos um sujeito contemplando um objeto virtualmente vazio. Esse estado \u00e9 \u00e0s vezes chamado de samadhi. Esse \u00e9 um estado de gra\u00e7a porque o objeto vazio n\u00e3o me incomoda mais. Quando atingimos esse estado, tendemos a nos parabenizar por todo o progresso que j\u00e1 fizemos.<\/p>\n<p>Esse estado de samadhi, por\u00e9m, ainda \u00e9 dualista. Quando o atingimos, uma voz interna diz: &#8220;Deve ser isso!&#8221; ou &#8220;Agora estou de fato indo bem&#8221;. Permanece existindo um sujeito oculto, observando um objeto virtualmente vazio, no que acaba sendo uma separa\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto. Quando nos damos conta dessa separa\u00e7\u00e3o, tentamos acionar o sujeito tamb\u00e9m e esvazi\u00e1-lo de seu conte\u00fado. Quando fazemos isso, tornamos o sujeito em outro objeto ainda, com um sujeito ainda mais sutil a observ\u00e1-lo. Estamos assim criando uma regress\u00e3o infinita de sujeitos.<\/p>\n<p>Esses estados de samadhi n\u00e3o s\u00e3o precursores da verdadeira ilumina\u00e7\u00e3o porque um sujeito finamente velado est\u00e1 separado de um objeto virtualmente vazio. Quando voltamos \u00e0 vida di\u00e1ria, aquele estado de gra\u00e7a se dissipa e mais uma vez estamos num mar de sujeitos e objetos. Pr\u00e1tica e vida assim n\u00e3o se encontram.<\/p>\n<p>Uma pr\u00e1tica mais l\u00edmpida n\u00e3o tenta livrar-se do objeto, mas, antes, tenta enxerg\u00e1-lo tal qual \u00e9. Aos poucos, aprendemos o que \u00e9 ser ou vivenciar, e nesse estado n\u00e3o existe sujeito nem objeto. N\u00e3o \u00e9 que eliminemos alguma coisa; antes, reunimos as coisas. Ainda existe eu e ainda existe voc\u00ea, mas quando sou apenas minha viv\u00eancia de voc\u00ea, n\u00e3o me sinto separado de voc\u00ea. Sou uno com voc\u00ea.<\/p>\n<p>Esse tipo de pr\u00e1tica \u00e9 muito mais lento porque, em vez de concentrar-se num \u00fanico objeto, trabalha com tudo em nossa vida. Qualquer coisa que nos aborre\u00e7a ou contrarie (que, para sermos honestos, inclui quase tudo) se torna farelo para o moinho da nossa pr\u00e1tica. Trabalhar com tudo leva a uma pr\u00e1tica que permanece viva em cada segundo de nossa vida.<\/p>\n<p>Quando aparece raiva, por exemplo, a maioria das pr\u00e1ticas zen tradicionais nos levaria a ignorar essa raiva e a nos concentrar em alguma coisa, como a respira\u00e7\u00e3o. Embora desse jeito a raiva seja posta de lado, ela voltar\u00e1 toda vez que formos criticados ou amea\u00e7ados de alguma forma. Por outro lado, nossa pr\u00e1tica \u00e9 nos tornarmos a pr\u00f3pria raiva, vivenciando-a plenamente, sem separa\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o. Quando trabalhamos dessa maneira, nossas vidas se aquietam. Aos poucos, aprendemos a nos relacionar com os objetos problem\u00e1ticos de uma forma diferente.<\/p>\n<p>Nossas rea\u00e7\u00f5es emocionais gradualmente se minimizam; por exemplo, objetos que tem\u00edamos v\u00e3o perdendo seu poder sobre n\u00f3s e podemos lidar com eles com mais presteza. \u00c9 fascinante observar a mudan\u00e7a que ocorre; vejo-a acontecer nos outros e em mim tamb\u00e9m. Esse processo nunca est\u00e1 completo; no entanto, estamos nos tornando cada vez mais livres e despertos.<\/p>\n<p>ALUNO: Como \u00e9 aquilo que voc\u00ea descreve como diferente da pr\u00e1tica shikantaza<sup>2<\/sup> tradicional?<\/p>\n<p>JOKO: Corretamente entendido, \u00e9 muito parecido com o shikantaza, mas existe uma tend\u00eancia a esvaziar a mente. \u00c9 poss\u00edvel entrar numa esp\u00e9cie de experi\u00eancia bruxuleante na qual o sujeito n\u00e3o est\u00e1 inclu\u00eddo. Essa \u00e9 apenas uma outra forma de falso samadhi. Os processos de pensamento foram eliminados da percep\u00e7\u00e3o consciente e cancelamos nossa experi\u00eancia sensorial da mesma forma como seria feito com qualquer outro objeto da percep\u00e7\u00e3o consciente.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea disse que o verdadeiro prop\u00f3sito da pr\u00e1tica \u00e9 experimentarmos nossa unidade com todas as coisas, ou apenas sermos nossas pr\u00f3prias viv\u00eancias de modo que, por exemplo, estamos s\u00f3 lixando as unhas se for isso que estivermos fazendo. Mas n\u00e3o \u00e9 um paradoxo tentar chegar at\u00e9 nisso?<\/p>\n<p>JOKO: Concordo com voc\u00ea: n\u00e3o podemos tentar ser unos com o lixar. Se tentarmos nos tornar unos com esse movimento, separamo-nos dele. O pr\u00f3prio esfor\u00e7o se derrota. Existe uma coisa, por\u00e9m, que podemos fazer: podemos reparar nos pensamentos que nos separam de nossa atividade. Podemos estar c\u00f4nscios de n\u00e3o estarmos completamente engajados naquilo que estamos fazendo. Isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil. Rotular nossos pensamentos ajuda-nos nesse sentido. Em vez de dizer &#8220;Vou me unir com o ato de lixar&#8221;, o que \u00e9 dualista &#8211; pensar a respeito da atividade em vez de s\u00f3 execut\u00e1-la -, sempre podemos observar que n\u00e3o o estamos fazendo. \u00c9 tudo quanto se torna necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica n\u00e3o tem que ver com passar por certas experi\u00eancias, com vivenciar grandes conclus\u00f5es, nem com chegar em alguma parte ou tornar-se algo. Somos perfeitos como somos. Com &#8220;perfeitos&#8221; quero dizer que \u00e9 isso, s\u00f3. A pr\u00e1tica \u00e9 simplesmente manter a percep\u00e7\u00e3o consciente &#8211; de nossas atividades e tamb\u00e9m de todos os pensamentos que nos separam de nossas atividades. Quando lixamos nossas unhas ou nos sentamos para praticar, n\u00f3s apenas lixamos as unhas ou nos sentamos para praticar. Uma vez que nossos sentidos est\u00e3o abertos, ouvimos e sentimos outras coisas tamb\u00e9m: sons, odores e assim por diante. Quando os pensamentos surgem, observamos que surgiram e regressamos \u00e0 nossa experi\u00eancia direta.\t<\/p>\n<p>A percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 nosso verdadeiro ser. E o que somos. Por isso, n\u00e3o temos que tentar desenvolver a percep\u00e7\u00e3o consciente; n\u00f3s apenas precisamos observar como bloqueamos nossa conscientiza\u00e7\u00e3o, com pensamentos, fantasias, opini\u00f5es e julgamentos. Ou estamos na percep\u00e7\u00e3o conscientizadora, que \u00e9 o nosso estado natural, ou estamos fazendo alguma outra coisa. O sinal do aluno maduro \u00e9 que, na maior parte do tempo, ele n\u00e3o faz outra coisa. Ele est\u00e1 apenas ali, vivendo sua vida. Nada especial.<\/p>\n<p>Quando nos tornamos uma percep\u00e7\u00e3o consciente aberta, nossa habilidade para os racioc\u00ednios necess\u00e1rios torna-se mais aguda, e todo o nosso input sensorial se torna mais claro, mais intenso. Depois de algum tempo sentados na pr\u00e1tica, o mundo parece mais brilhante, os sons s\u00e3o mais intensos, e h\u00e1 uma riqueza da capta\u00e7\u00e3o sensorial que \u00e9 apenas o nosso estado natural se n\u00e3o estivermos bloqueando o acesso \u00e0s experi\u00eancias com nossas mentes r\u00edgidas e preocupadas.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7amos a pr\u00e1tica, podemos manter a percep\u00e7\u00e3o consciente s\u00f3 por intervalos muito breves e logo desviamos a nossa aten\u00e7\u00e3o do presente. Prisioneiros de nossos pensamentos, n\u00e3o reparamos nem que estamos divagando. Ent\u00e3o n\u00f3s apanhamos de volta e recuperamos a aten\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica sentada. A pr\u00e1tica inclui tanto a percep\u00e7\u00e3o consciente de nossa postura sentada como a percep\u00e7\u00e3o consciente de termos divagado. Ap\u00f3s anos de pr\u00e1tica, essas divaga\u00e7\u00f5es diminuem at\u00e9 quase desaparecerem, embora isso nunca ocorra de forma radical.<\/p>\n<p>ALUNO: Os sons e odores e tamb\u00e9m as nossas emo\u00e7\u00f5es e pensamentos s\u00e3o todos partes da nossa pr\u00e1tica sentada?<\/p>\n<p>JOKO: Sim. \u00c9 normal que a mente produza pensamentos. A pr\u00e1tica \u00e9 tomar consci\u00eancia de nossos pensamentos sem nos perdermos neles. Caso nos percamos, preste aten\u00e7\u00e3o nisso tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O zazen na realidade n\u00e3o \u00e9 complicado. O verdadeiro problema \u00e9: n\u00f3s n\u00e3o queremos faz\u00ea-lo. Se meu namorado come\u00e7a a olhar para as outras mulheres, por quanto tempo permanecerei simplesmente disposta a vivenciar isso? Todos temos problemas constantes, mas nossa disponibilidade para somente ser est\u00e1 nos \u00faltimos itens, em nossa lista de prioridades, at\u00e9 termos praticado o suficiente para termos f\u00e9 em apenas sermos de modo que as solu\u00e7\u00f5es possam aparecer naturalmente. Um outro indicador de uma pr\u00e1tica em fase de amadurecimento \u00e9 o desenvolvimento dessa confian\u00e7a e dessa f\u00e9.<\/p>\n<p>ALUNO: Qual \u00e9 a diferen\u00e7a entre permanecer totalmente absorvido no lixar das unhas e em estar consciente de estar totalmente absorvido no lixar das unhas?<\/p>\n<p>JOKO: Estar consciente de estar absorvido em lixar as unhas \u00e9 ainda um dualismo. Voc\u00ea est\u00e1 pensando &#8220;Estou totalmente absorvido lixando as minhas unhas&#8221;. Essa n\u00e3o \u00e9 a verdadeira presen\u00e7a atenta. Na verdadeira presen\u00e7a atenta, a pessoa est\u00e1 s\u00f3 fazendo. A conscientiza\u00e7\u00e3o de que se est\u00e1 absorvido numa dada experi\u00eancia pode ser um passo \u00fatil no caminho, mas ainda n\u00e3o \u00e9 ter chegado efetivamente l\u00e1, porque ainda h\u00e1 o pensar sobre isso. Ainda h\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o entre a percep\u00e7\u00e3o consciente e o objeto dessa percep\u00e7\u00e3o consciente. Quando estamos lixando as unhas, n\u00e3o estamos pensando em pr\u00e1tica. Numa boa pr\u00e1tica, n\u00e3o estamos pensando &#8220;Estou na pr\u00e1tica&#8221;. Uma boa pr\u00e1tica \u00e9 fazer o que estamos fazendo e observar quando divagamos. Quando j\u00e1 estamos nessa pr\u00e1tica h\u00e1 muitos anos, percebemos quase de imediato quando come\u00e7amos a divagar.<\/p>\n<p>Focalizar a aten\u00e7\u00e3o em algo chamado &#8220;pr\u00e1tica zen&#8221; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Se, da manh\u00e3 at\u00e9 a noite, formos tomando conta de uma coisa ap\u00f3s a outra, de maneira completa e cabal e sem pensamentos concomitantes do tipo &#8220;Sou uma boa pessoa por ter feito isso&#8221;, ou &#8220;N\u00e3o \u00e9 maravilhoso eu poder tomar conta de tudo?&#8221;, ent\u00e3o isso ser\u00e1 suficiente.<\/p>\n<p>ALUNO: Minha vida parece consistir em camadas sobre camadas de atividades, todas se desenrolando ao mesmo tempo. Se eu fizesse apenas uma coisa por vez e depois passasse para a seguinte, eu n\u00e3o conseguiria dar conta de tudo que realizo normalmente durante um dia.<\/p>\n<p>JOKO: Duvido. Fazer uma coisa de cada vez e entregar-se por completo a essa execu\u00e7\u00e3o \u00e9 o meio mais eficaz de se conseguir viver, porque n\u00e3o h\u00e1 bloqueio nenhum no organismo. Quando vivemos e trabalhamos dessa maneira, somos muito eficientes sem nos afobarmos. A vida \u00e9 sem acidentes.<\/p>\n<p>ALUNO: Mas e quando uma das coisas \u00e9 ter de refletir sobre um assunto, outra \u00e9 atender ao telefone, uma terceira \u00e9 uma carta para se escrever&#8230;<\/p>\n<p>JOKO: Mesmo assim, toda vez que nos voltamos para outra atividade, se estivermos completamente presentes, apenas fazendo o que estamos fazendo, a tarefa ser\u00e1 conclu\u00edda muito mais depressa e melhor. Em geral, no entanto, inclu\u00edmos na atividade v\u00e1rios pensamentos subliminares como &#8220;Preciso conseguir fazer todas essas coisas tamb\u00e9m &#8211; ou minha vida simplesmente n\u00e3o serve&#8221;. A atividade pura \u00e9 muito rara. Quase sempre existe uma sombra, um filme sobre ela. Podemos n\u00e3o estar conscientes disso, mas perceber apenas certa tens\u00e3o. N\u00e3o existe tens\u00e3o na atividade pura, al\u00e9m da contra\u00e7\u00e3o f\u00edsica exigida para que a atividade em si seja executada.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, num sesshin, eu costumava ter a experi\u00eancia de apenas tornar-me o cozinhar, o arrancar as ervas daninhas, ou o que fosse que eu tivesse que fazer, mas ainda existia um assunto sutil ali. E sem a menor hesita\u00e7\u00e3o, assim que o sesshin tinha evaporado, um pouco que fosse, eu voltava completamente a toda a mesma hist\u00f3ria de sempre. Eu n\u00e3o me havia tornado una com o objeto.<\/p>\n<p>ALUNO: De volta ao exemplo de lixar as unhas: se realmente estamos apenas fazendo isso, ent\u00e3o n\u00e3o estamos em absoluto cientes de n\u00f3s, ao passo que, se lembramos de que estamos fazendo isso, retomamos ao dualismo sujeito e objeto e n\u00e3o estamos mais entregues \u00e0 pura atividade. Isso n\u00e3o significa, no entanto, que quando estamos s\u00f3 lixando as unhas n\u00e3o estamos absolutamente ali? N\u00e3o existimos mais?<\/p>\n<p>JOKO: Quando estamos entregues \u00e0 pura atividade, somos uma presen\u00e7a, uma percep\u00e7\u00e3o consciente. Mas isso \u00e9 tudo o que somos. E isso n\u00e3o se parece com nada. As pessoas sup\u00f5em que o estado iluminado \u00e9 inundado de sentimentos amorosos e emo\u00e7\u00f5es calorosas. Por\u00e9m, o verdadeiro amor, ou a verdadeira com paix\u00e3o, \u00e9 simplesmente estar n\u00e3o-separado do objeto. Em ess\u00eancia, \u00e9 um fluxo de atividade na qual n\u00e3o existimos como um ser separado de nossa atividade.<\/p>\n<p>Sempre existe certo valor na pr\u00e1tica que tem caracter\u00edsticas dualistas. Certo treino e um descondicionamento desenrolam-se em qualquer situa\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica sentada. Mas, at\u00e9 que tenhamos superado esse dualismo, n\u00e3o conseguiremos conhecer a liberdade final. N\u00e3o existe uma liberdade final enquanto n\u00e3o houver apenas um s\u00f3, ali.<\/p>\n<p>Podemos achar que n\u00e3o nos importamos com a liberdade final nesse sentido. A verdade, no entanto, \u00e9 que n\u00f3s a desejamos.<\/p>\n<p>ALUNO: Se uma pessoa est\u00e1 sentindo amor e outra pessoa est\u00e1 sentindo \u00f3dio, existe uma diferen\u00e7a em como devem praticar?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o. O amor ou a compaix\u00e3o genu\u00edna \u00e9 uma aus\u00eancia dessas duas emo\u00e7\u00f5es concebidas em n\u00edvel pessoal. Somente uma pessoa pode amar ou odiar no sentido usual. Se n\u00e3o existe pessoa, se estamos apenas absorvidos no viver, essas emo\u00e7\u00f5es estar\u00e3o ausentes.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica de concentra\u00e7\u00e3o que descrevi primeiro, uma vez que o sentimento de raiva \u00e9 um objeto, o que fazemos \u00e9 simplesmente ignor\u00e1-lo. Empurramos a emo\u00e7\u00e3o para o lado e esvaziamos o koan de seu conte\u00fado. O problema dessa abordagem \u00e9 que, quando voltamos \u00e0 vida di\u00e1ria, n\u00e3o sabemos o que fazer com as nossas emo\u00e7\u00f5es, porque elas n\u00e3o foram resolvidas. S\u00e3o um territ\u00f3rio desconhecido pela pr\u00e1tica zen cl\u00e1ssica. Na pr\u00e1tica da conscientiza\u00e7\u00e3o, n\u00f3s apenas vivenciamos o pensamento e a emo\u00e7\u00e3o e suas sensa\u00e7\u00f5es concomitantes. Os resultados s\u00e3o muito diferentes.<\/p>\n<p>ALUNO: Na pr\u00e1tica shikantaza que me ensinaram, as emo\u00e7\u00f5es fazem parte da pr\u00e1tica: elas aparecem e n\u00f3s nos sentamos para praticar com elas.<\/p>\n<p>JOKO: Sim, a pr\u00e1tica shikantaza pode ser entendida dessa maneira. Temos apenas que nos acautelar quanto \u00e0s armadilhas.<\/p>\n<p>ALUNO: Nos sesshins mais longos e dif\u00edceis, \u00e0s vezes me sinto como Gordon Liddy, com minha m\u00e3o sobre a chama de uma vela para saber quanta dor consigo suportar. No velho estilo da pr\u00e1tica do samadhi, eu penso que o teste do samadhi da pessoa era sua capacidade de n\u00e3o sentir a dor mediante o estado de gra\u00e7a e a concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Ent\u00e3o o objeto \u00e9 cancelado.<\/p>\n<p>ALUNO: Nesse estilo de pr\u00e1tica, o sesshin torna-se uma esp\u00e9cie de prova de resist\u00eancia. Voc\u00ea poderia comentar como a dor funciona nesse sistema para n\u00e3o ser masoquismo?<\/p>\n<p>JOKO: Uma dor moderada \u00e9 um bom mestre. A vida mesma apresenta a dor e tamb\u00e9m inconveni\u00eancias. Se n\u00e3o sabemos como lidar com a dor e com a inconveni\u00eancia, n\u00e3o sabemos muito a nosso pr\u00f3prio respeito. Uma dor extrema n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria, no entanto. Se a dor for excessiva, pode-se usar um banco ou a cadeira, ou at\u00e9 mesmo pode-se deitar. Mesmo assim, existe certo valor em a pessoa dispor-se a ser a dor. A separa\u00e7\u00e3o sujeito-objeto ocorre porque n\u00e3o estamos dispostos a ser a dor que associamos com o objeto. \u00c9 por isso que nos distanciamos dele. Se n\u00e3o nos entendemos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 dor, corremos dela quando aparece, e perdemos esse imenso tesouro de conscientiza\u00e7\u00e3o com a viv\u00eancia direta da vida. De modo que, at\u00e9 certo ponto, \u00e9 \u00fatil sentar-se com a dor para podermos recuperar uma consci\u00eancia mais plena de nossa vida tal qual ela \u00e9.<\/p>\n<p>Quando atendo alunos em daisan<sup>3<\/sup>, a maior parte do tempo meus joelhos ficam doendo. Ent\u00e3o est\u00e3o doendo: \u00e9 s\u00f3 isso. Sobretudo quando ficamos mais velhos, \u00e9 \u00fatil ser capaz de estar com a nossa viv\u00eancia e viver plenamente a vida. Parte do que viemos aqui aprender \u00e9 como estar com o desconforto e a inconveni\u00eancia.<\/p>\n<p>De certa forma, a dor \u00e9 um grande mestre. Sem certo grau de desconforto, a maioria das pessoas aprenderia muito pouco. Dor, desconforto, dificuldade e at\u00e9 mesmo a trag\u00e9dia podem ser grandes instrutores, em especial quando ficamos mais velhos.<\/p>\n<p>ALUNO: Dentro da consci\u00eancia ordin\u00e1ria, tudo o que esteja al\u00e9m de n\u00f3s \u00e9 um objeto?<\/p>\n<p>JOKO: Se pensarmos no eu da pessoa como um objeto entre outros, at\u00e9 mesmo ele pode ser um objeto. Posso observar a mim mesma, posso ouvir a minha voz, posso cutucar as minhas pernas. Desse ponto de vista, sou um objeto tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>ALUNO: Ent\u00e3o, objetos incluem sentimentos e estados de \u00e2nimo, al\u00e9m das coisas do mundo?<\/p>\n<p>JOKO: Sim. Embora pensemos em n\u00f3s como sujeitos e em tudo o mais como objetos, isso \u00e9 um erro. Quando n\u00f3s separamos as coisas umas das outras, tudo se torna um objeto. S\u00f3 existe um \u00fanico sujeito verdadeiro &#8211; que \u00e9 o absolutamente nada. O que \u00e9?<\/p>\n<p>ALUNO: A percep\u00e7\u00e3o consciente.<\/p>\n<p>JOKO: Sim, a percep\u00e7\u00e3o consciente, embora a palavra seja inadequada. A percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o \u00e9 nada e, no entanto, o mundo inteiro existe atrav\u00e9s dela.<\/p>\n<p><b>Notas:<\/b><br \/>\n1. Mu &#8211; literalmente -n\u00e3o- ou &#8220;nada&#8221; &#8211; \u00e9 normalmente proposto para os iniciantes como um meio de focalizar sua aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\n2. Shikantaza &#8211; -apenas sentar: uma forma pura de medita\u00e7\u00e3o sentada, sem a ajuda da contagem da respira\u00e7\u00e3o ou da pr\u00e1tica do koan, na qual a mente mant\u00e9m-se bastante concentrada, alerta e calmamente c\u00f4nscia do presente.<br \/>\n3. Daisan: uma entrevista formal entre aluno e instrutor no decurso da pr\u00e1tica meditativa.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O problema sujeito-objeto Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Nosso problema b\u00e1sico como seres humanos \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto. Na primeira vez que ouvi essa afirma\u00e7\u00e3o, anos e anos atr\u00e1s, pareceu abstrata e irrelevante para minha vida. &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-problema-sujeito-objeto\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5287","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5287"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5287\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5291,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5287\/revisions\/5291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5289"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}