{"id":5293,"date":"2018-06-16T17:41:37","date_gmt":"2018-06-16T19:41:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5293"},"modified":"2018-06-16T17:47:03","modified_gmt":"2018-06-16T19:47:03","slug":"integracao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/integracao\/","title":{"rendered":"Integra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/integracao__trashed\/integracao-2\/\" rel=\"attachment wp-att-1467\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/integracao-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1467\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/integracao-300x200.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/integracao.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>Integra\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>H\u00e1 uma hist\u00f3ria tradicional a respeito de um instrutor zen<sup>1<\/sup> que estava recitando sutras<sup>2<\/sup>  quando foi abordado por um ladr\u00e3o que exigiu seu dinheiro ou a vida. O instrutor disse ao ladr\u00e3o onde estava o dinheiro, e pediu que ele apenas deixasse o suficiente para pagar seus impostos e que quando estivesse prestes a sair agradecesse ao instrutor pelo presente. O ladr\u00e3o concordou. Uns dias depois foi capturado e confessou v\u00e1rios crimes, inclusive o assalto ao instrutor zen. Mas este insistiu que n\u00e3o havia sido v\u00edtima de roubo porque havia dado ao homem o seu dinheiro e este agradecera por isso. Depois de o ladr\u00e3o ter terminado de cumprir a pena, voltou at\u00e9 o instrutor e tornou-se um de seus disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Essas hist\u00f3rias parecem rom\u00e2nticas e lindas. Mas vamos supor que algu\u00e9m nos pe\u00e7a emprestado dinheiro e n\u00e3o nos devolva. Ou que algu\u00e9m roube o nosso cart\u00e3o de cr\u00e9dito e o utilize. Como reagir? Uma dificuldade das hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas do zen, como essa, \u00e9 que elas parecem antigas e muito distantes. Por estar distante de nossa \u00e9poca, podemos deixar de entender o &#8220;x&#8221; da quest\u00e3o. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que algu\u00e9m levou o dinheiro ou o que o mestre fez. A quest\u00e3o \u00e9 que o mestre n\u00e3o julgou o ladr\u00e3o. Isso n\u00e3o quer dizer que a melhor coisa seja sempre dar ao ladr\u00e3o aquilo que ele quer; pode ser que \u00e0s vezes essa n\u00e3o seja a melhor maneira de reagir. Estou certa de que o mestre considerou a situa\u00e7\u00e3o, viu quem era o homem (talvez um garoto que apanhou uma espada e esperava com ela conseguir um dinheirinho r\u00e1pido) e intuitivamente soube o que fazer. N\u00e3o \u00e9 tanto o que o mestre fez, mas a maneira como agiu. A atitude do mestre foi crucial. Em vez de fazer um julgamento, ele simplesmente lidou com a situa\u00e7\u00e3o. Se a situa\u00e7\u00e3o tivesse sido diferente, sua resposta poderia ter sido outra.<\/p>\n<p>N\u00e3o percebemos que somos todos professores. Tudo o que fazemos, de manh\u00e3 at\u00e9 a noite, \u00e9 um ensinamento: o modo como falamos com algu\u00e9m, na hora do almo\u00e7o, o modo como fazemos nossas transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, nossa rea\u00e7\u00e3o quando o artigo que apresentamos \u00e9 aceito ou rejeitado &#8211; tudo o que fazemos e dizemos reflete nossa pr\u00e1tica. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel querermos ser simplesmente como Shichiri Kogen. \u00c9 uma armadilha do treinamento concluir: &#8220;Oh, eu deveria ser desse jeito&#8221;. Os alunos causam um grande dano quando arrastam esses ideais para a pr\u00e1tica. Eles imaginam que &#8220;deveriam ser altru\u00edstas, generosos e nobres como o grande mestre zen. O mestre em cada uma dessas hist\u00f3rias foi eficiente porque foi o que ele era. Ele n\u00e3o pensou duas vezes a respeito. Quando tentamos ser uma coisa que n\u00e3o somos, tornamo-nos escravos de uma mente r\u00edgida e fixa, que segue regras a respeito de como as coisas t\u00eam de ser. A viol\u00eancia e a raiva que existem em n\u00f3s continuam despercebidas porque nos mantemos aprisionados em nossas imagens de como dever\u00edamos ser. Se conseguimos usar as hist\u00f3rias de forma correta, elas s\u00e3o maravilhosas. Entretanto, n\u00e3o dever\u00edamos apenas tentar copi\u00e1-las em nossas vidas. Somos intrinsecamente perfeitos do jeito que somos. Somos iluminados. Mas, enquanto n\u00e3o compreendermos isso, iremos nos iludir a respeito das coisas.<\/p>\n<p>Os centros zen e outros locais de pr\u00e1tica costumam ignorar o que tem de ocorrer com um ser humano para que aconte\u00e7a a verdadeira ilumina\u00e7\u00e3o. A primeira coisa que tem de acontecer &#8211; ao longo de muitas etapas, superando muitos desvios e armadilhas &#8211; \u00e9 a nossa integra\u00e7\u00e3o como seres humanos, para que a mente e o corpo tornem-se uma coisa s\u00f3. Para muitas pessoas, esse empreendimento leva a vida inteira. Quando o corpo e a mente s\u00e3o um s\u00f3, n\u00e3o somos mais constantemente puxados para c\u00e1 e para l\u00e1, para frente e para tr\u00e1s. Enquanto formos controlados por nossas emo\u00e7\u00f5es autocentradas (e a maioria de n\u00f3s tem milhares dessas ilus\u00f5es), n\u00e3o teremos ainda superado essa etapa. Pegar a pessoa que ainda n\u00e3o integrou corpo e mente e for\u00e7\u00e1-la a passar pelo estreito e concentrado port\u00e3o da ilumina\u00e7\u00e3o pode sem d\u00favida produzir uma poderosa experi\u00eancia de vida, mas essa pessoa n\u00e3o vai saber o que fazer com isso. Vislumbrar por um instante a unidade \u00faltima do universo n\u00e3o significa necessariamente que da\u00ed em diante nossas vidas ser\u00e3o mais livres. Pois, enquanto nos preocupamos com o que algu\u00e9m nos fez, como roubar o nosso dinheiro, por exemplo, n\u00e3o estamos verdadeiramente integrados. De quem \u00e9 o dinheiro afinal de contas? E o que torna nosso um peda\u00e7o de terra? Nosso senso de propriedade aparece porque temos medo e somos inseguros e por isso queremos ter coisas. Queremos possuir as pessoas. Queremos ser os donos das id\u00e9ias. Queremos ter nossas pr\u00f3prias opini\u00f5es. Queremos ter uma estrat\u00e9gia para viver. Enquanto estivermos fazendo todas essas coisas, a id\u00e9ia de que poder\u00edamos agir com naturalidade como o mestre Kogen \u00e9 completamente sem sentido.<br \/>\n><br \/>\nO importante \u00e9 quem somos a cada momento dado e de que modo lidamos com aquilo que a vida nos oferece. Quando mente e corpo tornarem-se mais integrados, o trabalho paradoxalmente ir\u00e1 ficar muito mais f\u00e1cil. Nossa tarefa \u00e9 integrarmo-nos com o mundo todo. Como disse o buda: &#8220;O mundo todo s\u00e3o meus filhos&#8221;. Assim que estivermos relativamente em paz conosco, a integra\u00e7\u00e3o com o resto do mundo se tornar\u00e1 mais f\u00e1cil. O que custa mais tempo e d\u00e1 mais trabalho \u00e9 a primeira parte. Assim que isso estiver quase alcan\u00e7ado, existem muitas \u00e1reas da vida que t\u00eam a qualidade de uma vida iluminada. Os primeiros anos s\u00e3o mais dif\u00edceis do que os \u00faltimos. O mais dif\u00edcil \u00e9 o primeiro sesshin; os meses mais dif\u00edceis da pr\u00e1tica est\u00e3o no primeiro ano; o segundo j\u00e1 \u00e9 mais f\u00e1cil, e assim por diante.<br \/>\n><br \/>\nMais tarde pode irromper uma nova crise, talvez depois de cinco ou dez anos de pr\u00e1tica, quando come\u00e7amos a entender que n\u00e3o iremos ganhar nada com tanto tempo sentado &#8211; absolutamente nada. O sonho acabou, o sonho da gl\u00f3ria pessoal que pens\u00e1vamos obter a partir da pr\u00e1tica. O ego est\u00e1 desfazendo-se; esse pode ser um per\u00edodo \u00e1rido, dif\u00edcil. Conforme vou lecionando, percebo os programas pr\u00e9-preparados da pessoa se desfazendo. Isso acontece na primeira parte da viagem. \u00c9 mesmo lindo, embora seja a parte dif\u00edcil. A pr\u00e1tica deixa de ser rom\u00e2ntica: n\u00e3o se parece mais com aquilo que lemos nos livros. Ent\u00e3o come\u00e7a a pr\u00e1tica real: de um momento para o outro, apenas encarando cada momento. Nossas mentes n\u00e3o se imp\u00f5em mais tanto a n\u00f3s. N\u00e3o nos dominam mais. Tem in\u00edcio uma genu\u00edna ren\u00fancia de nossos programas antecipados, embora mesmo nessa \u00e9poca tal etapa possa ser interrompida por todas as esp\u00e9cies de epis\u00f3dios dif\u00edceis. O caminho nunca \u00e9 direto e suave. Ali\u00e1s, quanto mais pedregoso, melhor. O ego precisa de obst\u00e1culos que o desafiem.<\/p>\n<p>Conforme nossa pr\u00e1tica progride, observamos que os epis\u00f3dios &#8211; os obst\u00e1culos em nosso caminho &#8211; n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis quanto poderiam ter sido. N\u00e3o temos mais tantos programas antecipados a respeito de tudo, nem o mesmo impulso para nos tornarmos importantes ou grandes ju\u00edzes. Se sentarmos para praticar com at\u00e9 40% de percep\u00e7\u00e3o consciente, pequenas fagulhas saem de nossas programa\u00e7\u00f5es antecipadas. Quanto maior for o tempo em que permanecemos sentados praticando, menos coisas v\u00e3o acontecer durante a pr\u00e1tica. Por quanto tempo aturamos enxergar toda a obstru\u00e7\u00e3o de nosso ego? Por quanto tempo conseguimos observ\u00e1-lo antes de largar m\u00e3o e simplesmente retornar ao aqui? Trata-se de um lento processo de desgaste &#8211; e n\u00e3o de uma quest\u00e3o de ganhar virtudes; \u00e9 mais ganhar entendimento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de rotular nossos pensamentos, precisamos permanecer com as sensa\u00e7\u00f5es de nosso corpo. Se trabalharmos com essas duas quest\u00f5es com toda a paci\u00eancia poss\u00edvel, iremos aos poucos abrindo-nos para uma nova vis\u00e3o de vida. Queremos uma vida que seja t\u00e3o rica e ampla &#8211; e ben\u00e9fica quanto seja poss\u00edvel. Todos temos a possibilidade de viver assim. Intelig\u00eancia ajuda. As pessoas que v\u00eam a um centro zen s\u00e3o, em geral, muito inteligentes. Mas elas tamb\u00e9m tendem a cair nas malhas de muitas racionaliza\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises. Seja qual for a disciplina &#8211; arte, m\u00fasica, f\u00edsica, filosofia &#8211; podemos modific\u00e1-la e us\u00e1-la para evitar a pr\u00e1tica. Por\u00e9m, se n\u00e3o o fazemos, a vida nos d\u00e1 um chutinho ap\u00f3s o outro at\u00e9 aprendermos aquilo que precisamos aprender. Ningu\u00e9m pode fazer essa pr\u00e1tica por n\u00f3s. O \u00fanico teste para saber se estamos fazendo a pr\u00e1tica \u00e9 a nossa pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><b>Notas:<\/b><br \/>\n<sup>1<\/sup> &#8211; Ver Paul Reps, compilador, Zen flesh, zen bones: A collection of zen and pre-zen writings, Garden City, NY: Anchor, Doubleday, sem data, &#8220;O homem que se tornou um disc\u00edpulo&#8221;, p. 41.<br \/>\n<sup>2<\/sup> &#8211; Sutra: texto budista tradicional, em geral falado em voz alta.<\/p>\n<hr \/>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Integra\u00e7\u00e3o Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; H\u00e1 uma hist\u00f3ria tradicional a respeito de um instrutor zen1 que estava recitando sutras2 quando foi abordado por um ladr\u00e3o que exigiu seu dinheiro ou a vida. 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