{"id":5305,"date":"2018-06-17T11:38:45","date_gmt":"2018-06-17T13:38:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5305"},"modified":"2018-06-17T11:41:31","modified_gmt":"2018-06-17T13:41:31","slug":"preparo-do-terreno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/preparo-do-terreno\/","title":{"rendered":"Preparo do terreno"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/preparo-do-terreno\/preparo-do-terreno-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5311\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Preparo-do-terreno.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" class=\"alignleft size-full wp-image-5311\" \/><\/a><b>Preparo do terreno<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>De tempos em tempos, um de meus alunos passa por uma discreta reviravolta, uma pequena percep\u00e7\u00e3o especial ou kensho. Alguns centros zen concentram-se nessas experi\u00eancias e d\u00e3o-lhes muita \u00eanfase. Isso aqui n\u00e3o acontece. As viv\u00eancias s\u00e3o interessantes: se, por um momento, algu\u00e9m entra no presente absoluto, ocorre uma mudan\u00e7a. Essa mudan\u00e7a n\u00e3o dura, sempre escorregamos de volta para os nossos meios usuais de fazer as coisas. Mas, por um certo tempo, talvez um segundo, talvez uma hora, talvez semanas, tudo o que era um problema n\u00e3o o \u00e9 mais. Enfermidades perturbadoras e lutas de todos os tipos de repente serenam. Por um instante, a vida ficou de ponta-cabe\u00e7a. Vemos as coisas como elas de fato s\u00e3o. Ter essas experi\u00eancias n\u00e3o significa muito em si. Mas pode assinalar-nos o caminho para estarmos no presente absoluto cada vez mais. Estar no presente \u00e9 o ponto central da pr\u00e1tica sentada e da pr\u00e1tica em geral: ajuda-nos a ser mais sensatos diante da vida, mais compassivos, mais orientados rumo ao que precisa ser feito. Tornamo-nos mais eficientes em nosso trabalho. Esses resultados s\u00e3o maravilhosos; n\u00e3o obstante, n\u00e3o podemos nos empenhar em consegui-los ou faz\u00ea-los acontecer. O m\u00e1ximo que nos \u00e9 poss\u00edvel \u00e9 preparar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. Precisamos ter certeza de que o solo est\u00e1 bem preparado, de que est\u00e1 rico, solto e f\u00e9rtil, para que, quando a semente cair, brote rapidamente. A tarefa do aluno n\u00e3o \u00e9 ca\u00e7ar resultados, mas estar no preparo do caminho. Como diz a B\u00edblia: &#8220;Prepara o caminho para o Senhor&#8221;. Esse \u00e9 o nosso trabalho.<\/p>\n<p>Em certo sentido, o nosso caminho n\u00e3o \u00e9 nenhum caminho. O objetivo n\u00e3o \u00e9 chegar em nenhuma parte. N\u00e3o h\u00e1 grandes mist\u00e9rios, na verdade. O que precisamos fazer \u00e9 algo direto e objetivo. N\u00e3o quero dizer com isso que seja f\u00e1cil; o &#8220;caminho&#8221; dapr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 uma estrada livre. Est\u00e1 entulhada de pedras pontiagudas que podem fazer-nos trope\u00e7ar ou rasgar nossos sapatos. A vida em si \u00e9 repleta de obst\u00e1culos. Encontr\u00e1-los \u00e9 o que em geral faz as pessoas irem aos centros zen. O caminho da vida parece ser principalmente composto por dificuldades, por coisas que nos d\u00e3o trabalho. Apesar disso, quanto mais tempo praticamos, mais come\u00e7amos a entender que aquelas pedras pontiagudas do caminho s\u00e3o de fato j\u00f3ias preciosas, pois nos ajudam a preparar as condi\u00e7\u00f5es adequadas para nossas vidas. As pedras s\u00e3o diferentes conforme a pessoa. Uma pode precisar desesperadamente de mais tempo sozinha; outra pode precisar desesperadamente de mais tempo com as outras pessoas. A pedra pontiaguda pode ser trabalhar com uma pessoa desagrad\u00e1vel, ou viver com algu\u00e9m dif\u00edcil de se levar. As pedras pontiagudas podem ser seus filhos, seus pais, qualquer pessoa. N\u00e3o se sentir bem pode ser sua pedra pontiaguda. Perder o emprego, arrumar outro, preocupar-se com isso. Existem pedras pontiagudas em todo lugar. O que muda com os anos da pr\u00e1tica \u00e9 chegar a saber alguma coisa que voc\u00ea n\u00e3o sabia antes: que n\u00e3o existem pedras pontiagudas, a estrada est\u00e1 coberta de diamantes. Quais s\u00e3o outras pedras pontiagudas que, na realidade, s\u00e3o diamantes?<\/p>\n<p>ALUNA: A morte do meu marido. <\/p>\n<p>ALUNO: Prazos.<\/p>\n<p>ALUNO: Doen\u00e7as.<\/p>\n<p>JOKO: Sim, muito bem. O que \u00e9 necess\u00e1rio para n\u00f3s, seres humanos, nos darmos conta de que as pedras pontiagudas de nossas vidas s\u00e3o na realidade diamantes? Quais s\u00e3o algumas das condi\u00e7\u00f5es que nos tornam poss\u00edvel praticar?<br \/>\nQuando somos bem novatos em termos de pr\u00e1tica, pode ser imposs\u00edvel que enxerguemos um grande trauma como um presente, a pedra pontiaguda como um diamante. Em geral \u00e9 melhor come\u00e7ar a pr\u00e1tica numa \u00e9poca em que a vida da pessoa n\u00e3o est\u00e1 muito revirada. Por exemplo, quando a mulher acabou de ganhar um beb\u00ea, o primeiro m\u00eas n\u00e3o \u00e9 uma boa hora para come\u00e7ar a pr\u00e1tica &#8211; como eu mesma bem me lembro. \u00c9 aconselh\u00e1vel come\u00e7ar a praticar num per\u00edodo mais calmo. \u00c9 melhor estar em condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade razo\u00e1veis. Uma sa\u00fade um pouco prec\u00e1ria n\u00e3o elimina a possibilidade da pr\u00e1tica, mas enfermidades graves tornam-na muito dif\u00edcil de come\u00e7ar. Ajuda tamb\u00e9m a pessoa estar em condi\u00e7\u00f5es razoavelmente boas de condicionamento f\u00edsico. A pr\u00e1tica \u00e9 fisicamente cansativa.<\/p>\n<p>Quanto maior o tempo de nossa pr\u00e1tica, menos importantes s\u00e3o esses pr\u00e9-requisitos. Mas sem eles, no in\u00edcio, as pedras tornam-se grandes demais. Desse jeito n\u00e3o conseguimos enxergar caminho nenhum para praticar. Quando a pessoa ficou a noite inteira acordada com um beb\u00ea chorando e s\u00f3 conseguiu dormir duas horas, essa n\u00e3o \u00e9 uma boa hora para se fazer zazen. Se o corpo da pessoa est\u00e1 se despeda\u00e7ando ou se ele est\u00e1 infeliz, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 num bom momento para come\u00e7ar. Quanto mais praticarmos, mais as dificuldades da vida que se nos apresentam podem ser consideradas verdadeiras j\u00f3ias. Cada vez mais, os problemas n\u00e3o cancelam a pr\u00e1tica, mas, em vez disso, estimulam-na. Em lugar de pensar que \u00e9 a pr\u00e1tica que \u00e9 dif\u00edcil demais, que temos mais problemas do que suportamos, vemos que os problemas em si s\u00e3o as j\u00f3ias, e dedicamo-nos a come\u00e7ar com eles um trabalho que nunca antes pudemos sonhar. Em minhas entrevistas com os alunos, ou\u00e7o constantes relatos a respeito dessas mudan\u00e7as: &#8220;H\u00e1 tr\u00eas anos, eu n\u00e3o teria conseguido de jeito nenhum dar conta desta situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 hoje &#8230;&#8230; Essa \u00e9 a reviravolta, o preparo do terreno. Isso \u00e9 o que o corpo e a mente precisam para de fato acontecer a transforma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que o problema desapare\u00e7a ou que a vida &#8220;melhore&#8221;; a vida transforma-se lentamente &#8211; e as pedras pontiagudas que odiamos se tornam j\u00f3ias bem-vindas. Pode ser que n\u00e3o exultemos quando virmos que elas aparecem em nosso caminho, mas valorizamos a oportunidade que representam e, sendo assim, acolhemo-las em vez de nos esquivarmos delas. \u00c9 esse o fim de nossas queixas a respeito da vida. At\u00e9 aquela pessoa dif\u00edcil, que critica voc\u00ea, que n\u00e3o respeita a sua opini\u00e3o, ou o que for &#8211; todos t\u00eam algu\u00e9m ou alguma coisa que \u00e9 a pedra no caminho. Essa \u00e9 uma pedra preciosa: \u00e9 uma oportunidade, uma j\u00f3ia para recolher.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m enxerga a j\u00f3ia logo de cara. Ningu\u00e9m a v\u00ea por completo. \u00c0s vezes podemos enxerg\u00e1-la numa \u00e1rea, mas n\u00e3o em outra. -\u00c0s vezes vemos a j\u00f3ia e em outras n\u00e3o conseguimos localiz\u00e1-la. Podemos nos recusar de modo taxativo a v\u00ea-la; pode ser que n\u00e3o queiramos ter nada que ver com ela.<\/p>\n<p>Mesmo assim devemos nos haver o tempo todo com esse problema b\u00e1sico. Porque somos humanos, uma grande parte do tempo n\u00f3s nem queremos ficar sabendo dela. Por qu\u00ea? Porque havermo-nos com ela significa uma vida aberta para as dificuldades em vez de fuga diante das adversidades. Em geral, esta mos tentando substituir alguma coisa pela dificuldade. Quando estamos cheios dos filhos, por exemplo, gostar\u00edamos de devolv\u00ea-los e receber outros novos. Mesmo quando continuamos com eles, encontramos maneiras sutis de -devolv\u00ea-los-, em lugar de permanecer com a realidade de quem s\u00e3o. Lidamos com todos os outros problemas da mesma forma: temos maneiras sutis de &#8220;devolver&#8221; quase tudo, de escolher n\u00e3o lidar com aquilo.<\/p>\n<p>Engalfinharmo-nos com a realidade de nossa vida faz parte da intermin\u00e1vel prepara\u00e7\u00e3o do terreno. \u00c0s vezes preparamos bem um pequeno set\u00f3r do terreno. Podemos ter breves vislumbres de ilumina\u00e7\u00e3o, momentos que acontecem de repente. Ainda assim, existem muitos mais acres de terra que n\u00e3o foram cultivados &#8211; ent\u00e3o continuamos indo adiante, abrindo mais e mais a nossa vida. \u00c9 isso tudo que de fato importa. A vida humana deveria ser como um voto, dedicado \u00e0 descoberta do significado de se viver. O significado do viver n\u00e3o \u00e9 de fato complicado, mas nos aparece como que envolto por um v\u00e9u que \u00e9 feito do modo como enxergamos nossas dificuldades. \u00c9 preciso a mais paciente das pr\u00e1ticas para come\u00e7armos a enxergar isso, para descobrirmos que as pedras pontiagudas s\u00e3o verdadeiras j\u00f3ias.<\/p>\n<p>Nada disso tem algo que ver com julgamentos, com sermos &#8220;boas&#8221; ou &#8220;m\u00e1s&#8221; pessoas. Apenas fazemos o melhor que podemos, a cada momento dado. O que n\u00e3o vemos, n\u00e3o vemos. Esse \u00e9 o &#8220;x&#8221; da pr\u00e1tica: ampliar o &#8220;buraquinho da fechadura&#8221; que por vezes encontramos, para que se torne cada vez mais largo. Ningu\u00e9m o localiza o tempo todo. Eu com certeza n\u00e3o. Assim, continuamos tentando enxergar do mesmo jeito.<br \/>\nDe certo modo, a pr\u00e1tica diverte: olhar para a minha pr\u00f3pria vida e ser honesta a respeito dela \u00e9 divertido. \u00c9 dif\u00edcil, humilhante, desencorajados; em certo sentido, por\u00e9m, \u00e9 engra\u00e7ado, porque \u00e9 estar viva. Ver a mim e \u00e0 minha vida como s\u00e3o realmente \u00e9 engra\u00e7ado. Depois de todo o empenho, a evita\u00e7\u00e3o, a nega\u00e7\u00e3o e os desvios por outros caminhos, \u00e9 profundamente satisfat\u00f3rio que, por um s\u00f3 segundo, estejamos com a vida tal como ela \u00e9. Essa satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio cerne que nos constitui. A pessoa que somos est\u00e1 al\u00e9m das palavras &#8211; apenas o poder aberto da vida, manifestando-se sempre em todas as esp\u00e9cies de coisas interessantes, mesmo que seja em nossa pr\u00f3pria infelicidade e atrav\u00e9s de lutas. As adversidades s\u00e3o ao mesmo tempo terr\u00edveis e curativas. Isso \u00e9 o que significa preparar o terreno.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos nos preocupar a respeito dos pequenos momentos ou aberturas que irrompem. Se tivermos um solo f\u00e9rtil e bem preparado, podemos semear qualquer coisa, que crescer\u00e1.<\/p>\n<p>Quando efetuamos esse trabalho com toda a paci\u00eancia, chegamos numa sensa\u00e7\u00e3o diferente de nossas vidas. H\u00e1 pouco tempo ouvi de um aluno que mora longe e falava comigo ao telefone que n\u00e3o conseguia acreditar no que estava acontecendo. &#8220;Quase o tempo todo a minha vida \u00e9 uma gostosura.- Pensei comigo mesma, sim, que bom, mas&#8230; a vida \u00e9 muito agrad\u00e1vel. Uma vida agrad\u00e1vel inclui padecimentos afetivos, decep\u00e7\u00f5es, luto. Faz parte do fluxo da vida permitir que tais momentos transcorram. Eles v\u00eam e v\u00e3o, e o luto finalmente se transforma em alguma outra coisa. Mas, se ficarmos nos queixando, apegados e r\u00edgidos (que \u00e9 como gostamos de fazer), ent\u00e3o teremos muito pouco que desfrutar. Se temos sido conscientes do processo de nossas vidas, inclusive dos momentos que odiamos, e temos ent\u00e3o a consci\u00eancia desse \u00f3dio &#8211; &#8220;N\u00e3o quero fazer isso, mas vou faz\u00ea-lo do mesmo jeito&#8221; -, a pr\u00f3pria tomada de consci\u00eancia \u00e9 a vida em si. Quando permanecemos nessa percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o temos aquela sensa\u00e7\u00e3o reativa a respeito da viv\u00eancia &#8211; estamos simplesmente vivenciando. Ent\u00e3o, num dado momento, come\u00e7amos a enxergar: &#8220;Oh, mas que coisa terr\u00edvel &#8211; e ao mesmo tempo que del\u00edcia&#8221;. Vamos apenas seguindo adiante, preparando o terreno. \u00c9 o quanto basta.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Preparo do terreno Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; De tempos em tempos, um de meus alunos passa por uma discreta reviravolta, uma pequena percep\u00e7\u00e3o especial ou kensho. 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