{"id":5322,"date":"2018-06-17T12:03:50","date_gmt":"2018-06-17T14:03:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5322"},"modified":"2018-06-17T12:14:58","modified_gmt":"2018-06-17T14:14:58","slug":"o-diva-de-gelo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-diva-de-gelo\/","title":{"rendered":"O div\u00e3 de gelo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5323\" rel=\"attachment wp-att-5323\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-div\u00e3-de-gelo.jpg\" alt=\"\" width=\"203\" height=\"248\" class=\"alignleft size-full wp-image-5323\" \/><\/a><b>O div\u00e3 de gelo<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Quando vivenciamos, perdemos nosso relacionamento aparentemente dualista com as outras coisas e pessoas que \u00e9 &#8220;Eu vejo voc\u00ea, comento a seu respeito, tenho pensamentos acerca de voc\u00ea e de mim&#8221;, ou o que seja. O relacionamento dualista n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser comentado, mas o relacionamento n\u00e3o-dual &#8211; o vivenciar &#8211; \u00e9 mais dif\u00edcil de descrever. Quero considerar como nos eximimos de viver de maneira emp\u00edrica, como nos expulsamos do jardim do \u00c9den.<\/p>\n<p>Enquanto cresce, todo ser humano decide que precisa de uma estrat\u00e9gia porque n\u00e3o podemos crescer sem deparar com oposi\u00e7\u00f5es que procedem de fontes que para n\u00f3s s\u00e3o &#8220;n\u00e3o-eu&#8221;, de fontes que nos parecem ser externas. Muitas vezes somos contrariados por pais, amigos, parentes e outras pessoas. Algumas vezes essa aparente oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 intensa; em outras, \u00e9 moderada ou suave. Mas ningu\u00e9m cresce sem desenvolver uma estrat\u00e9gia para lidar com essa oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos decidir que a melhor op\u00e7\u00e3o para se conseguir uma sobreviv\u00eancia agrad\u00e1vel \u00e9 tornar-se uma pessoa adapt\u00e1vel, &#8220;agrad\u00e1vel&#8221;. Se isso n\u00e3o parece funcionar, podemos aprender a atacar os outros antes que eles nos agridam, ou bem recuamos. Existem, portanto, tr\u00eas estrat\u00e9gias principais para lidarmos com a oposi\u00e7\u00e3o: conformar-se em agradar, atacar ou recuar. Todo mundo emprega uma ou mais dessas estrat\u00e9gias de alguma maneira.<\/p>\n<p>Para conseguirmos manter nossa estrat\u00e9gia, temos de pensar. Sendo assim, a crian\u00e7a vai cada vez confiando mais em seus racioc\u00ednios para elaborar essa estrat\u00e9gia. Toda situa\u00e7\u00e3o ou pessoa em seu caminho come\u00e7a a ser avaliada do ponto de vista da estrat\u00e9gia escolhida. Depois de algum tempo tratamos o mundo todo como se estivesse em julgamento e perguntamos: &#8220;Essa pessoa ou acontecimento ir\u00e1 me ferir?&#8221;. Embora possamos formul\u00e1-la com sorrisos e civilidade, essa quest\u00e3o nos ocorre diante de tudo que encontramos.<\/p>\n<p>Com o tempo acabamos aperfei\u00e7oando a nossa estrat\u00e9gia a tal ponto que n\u00e3o a identificamos mais conscientemente; agora est\u00e1 no corpo. Por exemplo, vamos supor que desenvolvemos uma estrat\u00e9gia de recuo. Quando deparamos com algo ou com algu\u00e9m, tensionamos o corpo; essa \u00e9 a resposta habitual. Podemos tensionar nossos ombros, nosso rosto, nosso est\u00f4mago ou alguma outra parte do corpo. O estilo particular \u00e9 \u00fanico de cada pessoa. E nem sequer sabemos que estamos fazendo assim porque, t\u00e3o logo a contra\u00e7\u00e3o se d\u00ea, desenrola-se em cada c\u00e9lula de nosso corpo. N\u00e3o temos de saber a respeito disso; est\u00e1 simplesmente ali. Embora a resposta seja inconsciente, torna nossa vida desagrad\u00e1vel porque \u00e9 um recuo diante da vida e um distanciar-se dela. A contra\u00e7\u00e3o d\u00f3i.<\/p>\n<p>Mesmo assim, todos se contraem. Mesmo quando pensamos que estamos num momento de relativa felicidade, podemos ser capazes de detectar uma leve tens\u00e3o pelo corpo. N\u00e3o \u00e9 nada de extraordin\u00e1rio e pode ser muito discreta. Quando tudo est\u00e1 a nosso favor, n\u00e3o nos sentimos mal, mas a leve contra\u00e7\u00e3o nunca cessa. Est\u00e1 sempre ali, em todas as pessoas que existem sobre a face da Terra.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as aprendem a elaborar suas estrat\u00e9gias incorporando tudo o que lhes acontece nessa refer\u00eancia para seu sistema pessoal. Nossas percep\u00e7\u00f5es tornam-se seletivas, incorporando os eventos que se ajustam ao nosso sistema e eliminando os que n\u00e3o. Uma vez que o sistema tem a pretens\u00e3o de nos manter a salvo e seguros, n\u00e3o temos nenhum interesse em enfraquec\u00ea-lo com informa\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias. Na \u00e9poca em que atingimos a maturidade, esse sistema \u00e9 n\u00f3s mesmos. \u00c9 aquilo que denominamos ego. Vivemos a partir dele, tentando localizar pessoas, situa\u00e7\u00f5es, empregos que venham a confirmar nossa estrat\u00e9gia, evitando aqueles que a ameacem.<\/p>\n<p>Tais manobras, no entanto, nunca s\u00e3o completamente satisfat\u00f3rias porque enquanto vivermos jamais conseguiremos saber com exatid\u00e3o o que ir\u00e1 acontecer em seguida. Mesmo que tiv\u00e9ssemos a maior parte de nossa vida sob controle, nunca saber\u00edamos como alcan\u00e7ar esse conhecimento &#8211; e n\u00f3s sabemos que n\u00e3o sabemos. Assim, sempre existe um elemento de medo. Ele tem de estar presente. Sem saber o que fazer, a pessoa normal busca em toda parte por uma resposta. Temos um problema e, na realidade, n\u00e3o sabemos do que se trata. A vida&#8217; se torna para n\u00f3s a promessa que jamais \u00e9 cumprida porque a resposta n\u00e3o nos satisfaz. \u00c9 nesse ponto que podemos come\u00e7ar a pr\u00e1tica. S\u00f3 uns poucos felizardos na face deste planeta come\u00e7am a enxergar o que precisa ser feito para se recuperar o jardim do \u00c9den, que \u00e9 o nosso Eu em funcionamento genu\u00edno.<\/p>\n<p>Talvez consigamos arrumar um companheiro que \u00e9 simplesmente maravilhoso (em particular nos relacionamentos, a ilus\u00e3o reina soberana). Casamo-nos ou vamos viver com essa pessoa e&#8230; epa! Se estamos praticando, esses &#8220;epas!&#8221; podem ser muito interessantes e instrutivos. Se n\u00e3o estamos praticando, podemos dispensar o companheiro e ir atr\u00e1s de algum outro. Parece que a promessa n\u00e3o foi cumprida. Ou come\u00e7amos um novo emprego, ou novo projeto. No in\u00edcio vai tudo muito bem, mas depois come\u00e7amos a perceber algumas \u00e1speras verdades, e a desilus\u00e3o come\u00e7a a infiltrar-se. Se estamos vivendo segundo as diretrizes de nossa estrat\u00e9gia, nada parece que vai funcionar, porque a vida fenom\u00eanica \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, uma promessa que nunca se cumpre. Se satisfazemos um desejo, ficamos felizes por um breve instante, mas a natureza da satisfa\u00e7\u00e3o de um dado desejo \u00e9 encontrar imediatamente o desejo seguinte, e depois mais um e depois outro, e depois outro&#8230; N\u00e3o h\u00e1 como ficar livre da press\u00e3o ou do estresse. N\u00e3o conseguimos assentar. N\u00e3o encontramos paz.<\/p>\n<p>Quando nos sentamos, o rodamoinho incessante em nossa mente revela-nos nossa estrat\u00e9gia. Se rotularmos nossos pensamentos por muito tempo, iremos reconhecer nossa estrat\u00e9gia. \u00c9 essa pr\u00f3pria estrat\u00e9gia que gera os pensamentos renitentes. S\u00f3 uma coisa em nossa vida n\u00e3o \u00e9 aprisionada por essa estrat\u00e9gia a vida org\u00e2nica, f\u00edsica, do corpo.<\/p>\n<p>Claro que o corpo est\u00e1 recebendo puni\u00e7\u00f5es porque reflete nossa autocentra\u00e7\u00e3o. O corpo tem de obedecer \u00e0 mente; por isso, se ela est\u00e1 dizendo que o mundo \u00e9 um lugar terr\u00edvel, o corpo diz &#8220;Ai, como estou deprimido!&#8221;. No mesmo instante em que as imagens aparecem &#8211; como pensamento, fantasia ou esperan\u00e7a<br \/>\n&#8211;\to corpo tem de responder. Tem uma resposta cr\u00f4nica e, \u00e0s vezes, essa resposta exacerba-se em depress\u00e3o ou enfermidade.<\/p>\n<p>O principal professor que tive em toda a minha vida foi um livro. Talvez seja o melhor livro sobre zen que j\u00e1 foi escrito. \u00c9 uma tradu\u00e7\u00e3o do franc\u00eas, por\u00e9m, e o texto n\u00e3o est\u00e1 bem encadeado; as senten\u00e7as n\u00e3o constituem par\u00e1grafos inteiros. Depois de ler uma dessas senten\u00e7as \u00e9 poss\u00edvel que nos perguntemos aturdidos: &#8220;Mas o que foi que ele disse?&#8221;. Por isso \u00e9 um livro dif\u00edcil; mesmo assim, \u00e9 a melhor explica\u00e7\u00e3o do problema humano que j\u00e1 encontrei. Numa certa \u00e9poca comecei a estudar seus ensinamentos e o fiz durante dez ou quinze anos. Meu exemplar parece que foi parar na m\u00e1quina de lavar roupa. Trata-se de A doutrina suprema de Hubert Benoit, um psiquiatra franc\u00eas que passou por um grav\u00edssimo acidente que o deixou incapaz por muitos anos. A \u00fanica coisa que podia fazer era ficar im\u00f3vel, deitado. O problema humano era seu interesse insaci\u00e1vel e, por isso, usou aqueles anos de recupera\u00e7\u00e3o para mergulhar profundamente nessa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A express\u00e3o de Benoit para a contra\u00e7\u00e3o emocional que procede de nossos esfor\u00e7os para nos proteger \u00e9 &#8220;espasmo&#8221;. Ele chama a fala\u00e7\u00e3o incessante do nosso di\u00e1logo interno de &#8220;o filme imagin\u00e1rio&#8221;. O ponto de transi\u00e7\u00e3o para ele veio quando se deu conta de que &#8220;esse espasmo que vinha chamando de anormal est\u00e1 no caminho que leva ao satori (ilumina\u00e7\u00e3o)&#8230; Poder-se-ia inclusive dizer que aquilo que deve ser percebido, dentro do filme imagin\u00e1rio, \u00e9 uma certa sensa\u00e7\u00e3o de c\u00e3ibra profunda, de um aperto paralisante, de um frio imobilizados&#8230; e que \u00e9 neste div\u00e3 duro, im\u00f3vel e gelado que nossa aten\u00e7\u00e3o deve permanecer fixa, como se estiv\u00e9ssemos tranq\u00fcilamente estirados contra uma rocha dura, mas acolhedora, que fosse moldada exatamente para receber o nosso corpo-*.<\/p>\n<p>O que Benoit est\u00e1 dizendo \u00e9 que, quando descansamos sossegados dentro de nossa dor, esse repouso \u00e9 o &#8220;port\u00e3o sem porteira&#8221;. Esse \u00e9 o \u00faltimo local em que queremos estar; n\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel, e todo o nosso impulso estrat\u00e9gico volta-se para as amenidades. N\u00e3o; queremos algu\u00e9m que nos conforte, que nos salve, que nos d\u00ea paz. Nossos pensamentos, planejamentos e projetos estrat\u00e9gicos incessantes tentam justamente isso. Apenas quando permanecemos com aquilo que est\u00e1 por tr\u00e1s do filme imagin\u00e1rio e ali descansamos \u00e9 que come\u00e7amos a ter pistas. Costumo explicar do seguinte modo: em lugar de permanecer  mos com os nossos pensamentos, n\u00f3s os rotulamos at\u00e9 que se aquietem um pouco e ent\u00e3o fazemos o melhor poss\u00edvel para permanecer com aquilo que de fato \u00e9 &#8211; a n\u00e3o-dualidade que \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de nossa vida neste exato momento. Isso contraria tudo aquilo que queremos, tudo o que nossa cultura nos ensina, mas \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o real, o \u00fanico port\u00e3o de sa\u00edda.<\/p>\n<p>Quando assentamos em nossa sensa\u00e7\u00e3o de dor, achamos que ela \u00e9 t\u00e3o apavorante que nos agitamos tudo de novo. No instante em que aterrissamos na sensa\u00e7\u00e3o de inc\u00f4modo, saltamos de volta para o filme imagin\u00e1rio. Simplesmente n\u00e3o queremos estar na realidade daquilo que somos. Isso \u00e9 humano, nem bom nem mau, e s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios anos de pr\u00e1tica para se tocar cada vez mais a realidade, com conforto ao parar por ali, at\u00e9 que por fim, como diz Benoit, \u00e9 apenas uma rocha dura, mas acolhedora, moldada para ajustar-se ao nosso corpo e, enfim, \u00e9 a\u00ed que podemos descansar e ficar em paz.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes podemos descansar por um curto per\u00edodo, mas, por estarmos muito habituados, logo voltamos para o mesmo falat\u00f3rio mental de sempre. E, assim, atravessamos o processo vezes e vezes. Com o tempo, \u00e9 esse incessante processo que nos leva \u00e0 paz. Se estiver completo, pode ser chamado de satori, ou ilumina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO filme imagin\u00e1rio gera o espasmo e o espasmo gera o filme imagin\u00e1rio. \u00c9 um ciclo intermin\u00e1vel que s\u00f3 se romper\u00e1 quando estivermos dispostos a descansar em nossa dor. A capacidade para fazer isso significa que nos sentimos at\u00e9 certo ponto desiludidos, que n\u00e3o esperamos mais que nossos pensamentos e sentimentos sejam a solu\u00e7\u00e3o para alguma coisa. Enquanto alimentarmos a esperan\u00e7a de que a promessa dever\u00e1 ser cumprida, n\u00e3o iremos descansar em meio \u00e0s dolorosas sensa\u00e7\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>Portanto, a pr\u00e1tica comp\u00f5e-se de duas partes. Uma \u00e9 a decep\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel. Tudo em nossa vida que nos decepciona \u00e9 um amigo dedicado. E estamos todos sendo desapontados, de um modo ou de outro. Se n\u00e3o estamos decepcionados, nunca desistimos de nosso desejo de pensar e de nos recolocar no alto como vitoriosos. Ningu\u00e9m ganha no fim; ningu\u00e9m ir\u00e1 sobrevi- ver. Por\u00e9m esse ainda \u00e9 o nosso impulso, o nosso sistema. Ele s\u00f3 pode ser desarticulado com anos e anos de pr\u00e1tica e com o desgaste natural que a vida traz. Por isso \u00e9 que nossa pr\u00e1tica e nossa vida t\u00eam de ser a mesma coisa.<br \/>\nTemos a ilus\u00e3o de que as outras pessoas ir\u00e3o nos fazer felizes, que elas ir\u00e3o fazer com que a nossa vida funcione. At\u00e9 que nos livremos dessa ilus\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o real. As outras pessoas existem para nos alegrarmos e n\u00e3o para qualquer outro prop\u00f3sito. Elas fazem parte da maravilha que a vida \u00e9; n\u00e3o est\u00e3o aqui para fazer qualquer coisa por n\u00f3s. Enquanto essa ilus\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ar a se desfazer, n\u00e3o iremos nos contentar em permanecer no espasmo, na contra\u00e7\u00e3o emocional. Rodopiaremos imediatamente para longe disso, retomando logo aos nossos pensamentos: &#8220;Sim, mas se eu fizer isto as coisas v\u00e3o melhorar&#8230;-.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 uma s\u00e9rie de intermin\u00e1veis decep\u00e7\u00f5es e \u00e9 maravilhoso que seja assim apenas porque ela n\u00e3o nos d\u00e1 aquilo que queremos. Percorrer esse caminho requer coragem, e muitas pessoas, nesta vida, n\u00e3o o far\u00e3o. Estamos todos em diferentes momentos do caminho, o que est\u00e1 muito bem. S\u00f3 alguns poucos, dotados de uma persist\u00eancia enorme e que n\u00e3o entendem as coisas todas da vida como insultos e sim como oportunidades, \u00e9 que finalmente compreender\u00e3o. Assim, se investirmos toda a nossa energia tentando fazer com que a nossa estrat\u00e9gia funcione melhor, ent\u00e3o estamos apenas girando em cima de nossos calcanhares. Nossa infelicidade nos perseguir\u00e1 at\u00e9 o nosso \u00faltimo suspiro.<br \/>\nPortanto, na vida n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o oportunidades, s\u00f3 oportunidades. E isso inclui qualquer coisa em que consigamos pensar. At\u00e9 que nos sintamos desiludidos com o filme imagin\u00e1rio que passamos incessantemente diante dos olhos (mal os abrimos pela manh\u00e3 e j\u00e1 come\u00e7a a primeira sess\u00e3o), n\u00e3o nos manteremos assentados na c\u00e3ibra. Faremos passar mais algum trecho do filme. Suponho que seja isso que se esteja dizendo quando se menciona a roda do carma.<br \/>\nBem, n\u00e3o estou pedindo a ningu\u00e9m que adote essa descri\u00e7\u00e3o como alguma esp\u00e9cie de sistema de cren\u00e7a. A \u00fanica maneira de conhecermos a realidade dessa pr\u00e1tica \u00e9 executando-a. Depois de algum tempo, para algumas pessoas (\u00e0s vezes intermitentemente, mas depois quase o tempo todo), ocorre o que os crist\u00e3os chamam de &#8220;a paz que ultrapassa todo o entendimento&#8221;.<\/p>\n<p>Muitas vezes me ajudou em momentos dif\u00edceis pensar naquele div\u00e3 gelado e im\u00f3vel e, em vez de lutar e brigar, apenas dispor-me a descansar ali. Com o tempo acabamos descobrindo que o div\u00e3 \u00e9 o \u00fanico lugar tranq\u00fcilo, a fonte das a\u00e7\u00f5es transparentes.<\/p>\n<p>Enquanto palestra sobre dharma, tudo isso soa proibitivo. No entanto, as pessoas que praticam o tempo todo s\u00e3o aquelas que est\u00e3o desfrutando a vida. \u00c9 esse o port\u00e3o sem porteiras para o contentamento. As pessoas que entendem e t\u00eam a coragem de fazer isso s\u00e3o aquelas que eventualmente ficam conhecendo o que \u00e9 o contentamento. N\u00e3o estou falando de uma felicidade intermin\u00e1vel (porque n\u00e3o existe isso), mas de contentamento.<\/p>\n<p>ALUNO: \u00c9 comum que as pessoas escolham uma dessas estrat\u00e9gias, mas conforme o tempo passa elas podem adotar uma outra? As pessoas que escolheram, digamos, recuar e n\u00e3o participar podem, ao se tornarem mais fortes, decidir algo como &#8220;Bom, talvez agora eu v\u00e1 me conformar um pouco e agradar aos outros&#8221;. As pessoas alguma vez saem de cima do muro e entram no fluxo da cal\u00e7ada?<\/p>\n<p>JOKO: Muitas vezes observei que as pessoas que antes eram dependentes e conformistas come\u00e7am a assumir ares de uma falsa independ\u00eancia. Isso \u00e9 natural, um est\u00e1gio antes de conseguirmos ser realmente n\u00f3s mesmos. Quanto mais praticamos a c\u00e3ibra, mais a transforma\u00e7\u00e3o se acelera. Do ponto de vista do mundo fenom\u00eanico fazemos progressos embora, em senso absoluto, estejamos sempre bem do jeito que somos.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando descansamos em nosso desconforto, descobrimos que n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o assustador e que conseguimos nos aventurar um pouco?<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Por exemplo, podemos aprender que conseguimos estar deprimidos e ainda assim funcionar. Simplesmente continuamos em frente e agimos. N\u00e3o temos de nos sentir bem para funcionar. Quanto mais n\u00f3s formos contra nosso sistema r\u00edgido, melhor.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando voc\u00ea fala a respeito da c\u00e3ibra, isso parece fazer parte do sistema r\u00edgido.<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o, ela \u00e9 produzida pelo sistema r\u00edgido, mas \u00e9 a \u00fanica parte do sistema aberta a oferecer-lhe uma solu\u00e7\u00e3o. Por exemplo, se temos pensamentos raivosos, o corpo tem de tensionar. N\u00e3o conseguimos ter um pensamento de raiva a respeito de algu\u00e9m sem nos tensionar. E, se habitualmente temos uma estrat\u00e9gia que \u00e9 a raiva e o ataque, o corpo permanecer\u00e1 contra\u00eddo quase que o tempo todo. Todavia essa \u00e9 a \u00fanica parte desse sistema que nos fornece uma sa\u00edda porque podemos vivenciar a c\u00e3ibra e deix\u00e1-la intacta e, com isso, ela pode se abrir. Pode custar cinco anos, mas vai abrir.<\/p>\n<p>ALUNO: Outro dia eu li que, seja qual for nosso aspecto principal, \u00e9 bom exager\u00e1-lo. Para mim, por\u00e9m, isso seria o mesmo que ficar com muita raiva e agredir os outros.<br \/>\nJOKO: Voc\u00ea pode faz\u00ea-lo a s\u00f3s.<\/p>\n<p>ALUNO: Mas se eu realmente exagerar a raiva e atacar para torn\u00e1-la mais consciente isso n\u00e3o iria agredir algu\u00e9m?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o. Por favor lembrem-se de que o \u00fanico meio de exagerar \u00e9 exagerar a sensa\u00e7\u00e3o de que a c\u00e3ibra est\u00e1 l\u00e1. N\u00e3o dever\u00edamos exagerar nossos comportamentos irados. Esse sistema \u00e9 totalmente inconsciente, por isso, ao vivenciarmos de maneira consciente a c\u00e3ibra, ela pode se dissolver por si.<\/p>\n<p>ALUNO: Por experi\u00eancia pr\u00f3pria descubro que estou nesta c\u00e3ibra terr\u00edvel e, de repente, ela muda. Alguma coisa se abre e estou num espa\u00e7o onde me sinto livre e aberto; depois, sem nenhuma raz\u00e3o aparente, retorno para a minha contrariedade.<\/p>\n<p>JOKO: Evidentemente, voc\u00ea volta para o seu sistema habitual de pensamentos autocentrados.<\/p>\n<p>ALUNO: \u00c0s vezes parece como se fosse um m\u00fasculo que estava contra\u00eddo e agora est\u00e1 relaxando.<\/p>\n<p>JOKO: Sim, mas a causa real n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o muscular. Nosso desejo b\u00e1sico de sobreviver est\u00e1 na base de todos os nossos problemas. Se houvesse alguma maneira de lidar com os m\u00fasculos, ent\u00e3o todos aqueles que trabalham corporalmente seriam sujeitos iluminados.<\/p>\n<p>ALUNO: Percebo que a sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um estado est\u00e1tico. Est\u00e1 sempre fluindo, mudando o tempo todo. Ent\u00e3o estou dentro e fora, pelo lugar inteiro, porque \u00e9 energia pura, n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tico.<\/p>\n<p>JOKO: A \u00fanica coisa que interfere no fluxo \u00e9 o fato de acreditarmos de novo em nossos pensamentos. E isso \u00e9 praticamente um de nossos maiores h\u00e1bitos. Precisamos praticar sentados por muitos e muitos anos antes de n\u00e3o acreditarmos mais em nossos pensamentos. Precisamos de fato.<\/p>\n<p>ALUNO: Enquanto n\u00e3o desgastarmos a for\u00e7a do projeto de nos proteger da vida e de lutar contra o modo como as coisas nos s\u00e3o apresentadas a cada momento, iremos sempre voltar ao estado de contra\u00e7\u00e3o que \u00e9 &#8220;N\u00e3o gosto disso!&#8221;. Acontece o tempo todo.<\/p>\n<p>ALUNO: Onde se situa a c\u00e3ibra?<\/p>\n<p>JOKO: Onde voc\u00ea a sentir. Pode ser no rosto, nos ombros, em qualquer parte. Em geral \u00e9 embaixo, nas costas, na linha da cintura.<\/p>\n<p>ALUNO: Estou cada vez mais consciente de que alguns de meus pensamentos parecem simplesmente coisas dadas, imagens que tenho de mim e que n\u00e3o parecem pensamentos, ou que s\u00e3o t\u00e3o agrad\u00e1veis que n\u00e3o os rotulo. Ent\u00e3o acontecem pensamentos que n\u00e3o s\u00e3o rotulados porque parecem como uma boa pr\u00e1tica zen.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. \u00c9 o pensamento que n\u00e3o captamos que fica dirigindo o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>ALUNO: Uma boa parte do meu condicionamento parece inconsciente ou subconsciente. Por isso posso sentir-me conscientemente muito claro e leve e, no entanto, o condicionamento ainda est\u00e1 l\u00e1 e acaba me levando de volta para a c\u00e3ibra ou o leito duro, o espasmo, muito embora eu n\u00e3o constate nada acontecendo no plano consciente.<br \/>\nJOKO: Certo. Lembrem-se de que, em certo sentido, n\u00e3o existe inconsciente nenhum e o que \u00e9 revelado pode ser muito sutil. Uma boa parte do que estamos falando n\u00e3o \u00e9 uma grande c\u00e3ibra do tipo que se descreve como &#8220;contra\u00e7\u00e3o muscular depois de excessos f\u00edsicos&#8221;.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea disse que na boa pr\u00e1tica o companheiro de rotular pensamentos \u00e9 vivenciar. Isso quer dizer que o pensamento que voc\u00ea n\u00e3o capta pode se revelar se voc\u00ea estiver realmente vivenciando a c\u00e3ibra?<br \/>\nJOKO: Sim. Quanto mais praticarmos e tomarmos as coisas conscientes, mais e mais come\u00e7ar\u00e1 a boiar \u00e0 beira d&#8217;\u00e1gua o pensamento de que n\u00e3o t\u00ednhamos consci\u00eancia antes. Subitamente ele nos atinge. &#8220;Oh, nunca tinha pensado nisso antes.- Ele simplesmente emerge.<\/p>\n<p>ALUNO: O que \u00e9 o espasmo ou o tremor corporal repetitivo que costuma aparecer \u00e0s vezes nesse tipo de pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>JOKO: Se permanecermos com o espasmo muitas vezes, o corpo vai tremer, as l\u00e1grimas podem brotar, porque se realmente pusermos nossa aten\u00e7\u00e3o no corpo e lhe dermos liberdade para ser quem \u00e9, ele come\u00e7ar\u00e1 a abrir-se e a energia que estava bloqueada come\u00e7ar\u00e1 a emergir. Pode adotar a forma de choro, tremor, ou outro movimento involunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea poderia falar mais a respeito de sentimentos?<\/p>\n<p>JOKO: Sentimentos s\u00e3o apenas pensamentos mais sensa\u00e7\u00f5es corporais.<\/p>\n<p>ALUNO: E se um sentimento aparece?<\/p>\n<p>JOKO: Fragmente-o. Ou perceba quais s\u00e3o os pensamentos, entre na sensa\u00e7\u00e3o corporal.<\/p>\n<p>ALUNO: Ao v] venciarmos algo, a viv\u00eancia pode efetivamente de- sencadear recorda\u00e7\u00f5es ou vislumbres de total entendimento?<\/p>\n<p>JOKO: Sim, \u00e0s vezes. Se nos mantemos na viv\u00eancia, a c\u00e3ibra \u00e0s vezes se desfaz. Ent\u00e3o veremos certas imagens do passado, mas eu n\u00e3o me preocuparia com isso. Deixe apenas que venham e sumam. A pr\u00e1tica n\u00e3o trata de analisar essas recorda\u00e7\u00f5es, porque ali n\u00e3o h\u00e1 um &#8220;eu&#8221;. No entanto, na pr\u00e1tica que se assenta sobre viv\u00eancias, nossa vida emergir\u00e1 mais e mais do n\u00e3o-eu, como uma vida de funcionamento direto e efetivo e &#8211; sim! &#8211; de pensamentos v\u00e1lidos e claros. Vivenciar \u00e9 a chave.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O div\u00e3 de gelo Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Quando vivenciamos, perdemos nosso relacionamento aparentemente dualista com as outras coisas e pessoas que \u00e9 &#8220;Eu vejo voc\u00ea, comento a seu respeito, tenho pensamentos acerca de voc\u00ea &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-diva-de-gelo\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5323,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5322","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5322"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5324,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5322\/revisions\/5324"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5323"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}