{"id":5332,"date":"2018-06-17T12:28:18","date_gmt":"2018-06-17T14:28:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5332"},"modified":"2018-06-17T13:39:06","modified_gmt":"2018-06-17T15:39:06","slug":"o-paradoxo-da-percepcao-consciente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-paradoxo-da-percepcao-consciente\/","title":{"rendered":"O paradoxo da percep\u00e7\u00e3o consciente"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\"><font face=\"Verdana\" size=\"2\"><br \/>\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-paradoxo-da-percepcao-consciente\/o-paradoxo-da-percepcao-consciente-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5334\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-paradoxo-da-percep\u00e7\u00e3o-consciente-300x117.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"117\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5334\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-paradoxo-da-percep\u00e7\u00e3o-consciente-300x117.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/O-paradoxo-da-percep\u00e7\u00e3o-consciente.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><br \/>\n<b>O paradoxo da percep\u00e7\u00e3o consciente<\/b><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><em><strong>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/charlotte-joko-beck\/\">Charlotte Joko Beck<\/a>, extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/nada-especial\/\">Nada Especial<\/a>&#8220;<em><strong><\/strong><\/em><\/strong><\/em><\/div>\n<hr \/>\n<p>Quando nos sentamos para a pr\u00e1tica \u00e9 importante manter uma imobilidade t\u00e3o absoluta quanto poss\u00edvel: estar consciente da l\u00edngua no seu espa\u00e7o, dos globos oculares, da inquieta\u00e7\u00e3o dos dedos. Quando eles de fato se movimentam, \u00e9 importante tomar consci\u00eancia do movimento. Quando queremos pensar, nossos globos oculares se movimentam. Temos maneiras muito sutis de escapar de n\u00f3s mesmos. A imobilidade absoluta \u00e9 para muitos uma instru\u00e7\u00e3o restritiva e desagrad\u00e1vel. Para mim, \u00e9. Depois de ter ficado na pr\u00e1tica, sentada por v\u00e1rios per\u00edodos, quero fazer alguma coisa, consertar algum objeto, tomar conta do que tiver pela frente. N\u00e3o dever\u00edamos nos manter tensos ou duros, mas simplesmente manter a imobilidade tanto quanto pud\u00e9ssemos. Sermos apenas o que somos \u00e9 a \u00faltima coisa que queremos fazer. Todos n\u00f3s temos grandes desejos: de conforto, de sucesso, de amor, de ilumina\u00e7\u00e3o, de chegar ao estado b\u00fadico. Quando vem o desejo, empenhamo-nos, tentando tornar nossa vida algo que ela n\u00e3o \u00e9. Por isso, a \u00faltima coisa que queremos \u00e9 ficar parados. Na imobilidade absoluta tomamos consci\u00eancia de nossa falta total de disponibilidade para sermos o que somos neste pr\u00f3prio segundo. E isso \u00e9 uma coisa muito aborrecida: n\u00f3s, enfim, n\u00e3o queremos faz\u00ea-la, de jeito nenhum. O mestre Rinzai disse: &#8220;N\u00e3o desperdice um pensamento sequer na persegui\u00e7\u00e3o do estado b\u00fadico&#8221;. Isso significa que devemos ser como somos, a cada momento, de um momento para outro. \u00c9 tudo o que jamais precisaremos fazer, mas o desejo humano \u00e9 ir em busca de algo mais. Atr\u00e1s do que nos empenhamos quando sentamos para praticar?<\/p>\n<p>ALUNO: Conforto.<\/p>\n<p>ALUNO: Tentar parar de pensar.<\/p>\n<p>JOKO: Estamos tentando parar de pensar em vez de tomarmos consci\u00eancia de nosso pensar.<\/p>\n<p>ALUNO: Ter alguma esp\u00e9cie de experi\u00eancia corporal intensa, um estado alterado de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>ALUNO: Paz.<\/p>\n<p>ALUNO: Ficar mais acordado, menos sonolento. Ou livrar-se da raiva. &#8211; Assim que conseguir me livrar desta raiva, chegarei mais perto do estado de Buda. &#8211;<\/p>\n<p>JOKO: Ou podemos nos lembrar de uma fase de nossa vida em que as coisas corriam bem, para tentarmos ent\u00e3o recuperar essa sensa\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o tivermos uma \u00fanica id\u00e9ia de ir no encal\u00e7o do estado b\u00fadico, o que estar\u00edamos fazendo?<\/p>\n<p>ALUNO: N\u00e3o nos apegando.<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o nos apegando e sendo propensos a ser&#8230; <\/p>\n<p>ALUNO: Quem somos e onde estamos.<\/p>\n<p>JOKO: Sim &#8211; quem somos e onde estamos, exatamente aqui e agora. Quando nos sentamos para praticar, estamos nos dispondo a fazer isso por mais ou menos tr\u00eas segundos. Depois, quase que imediatamente, j\u00e1 est\u00e1 ali o desejo de movimento, de agita\u00e7\u00e3o, de pensar, de fazer alguma coisa.<br \/>\nNos termos mais simples que consigo encontrar, existem dois tipos de pr\u00e1tica. Um \u00e9 a tentativa de nos aperfei\u00e7oarmos rapidamente. Aumentamos nossa energia, comemos melhor, purificamo-nos de alguma maneira e for\u00e7amo-nos a ter uma mente clara. As pessoas pensam que ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 o resultado desses esfor\u00e7os, mas n\u00e3o \u00e9. Claro, \u00e9 bom alimentar-se de maneira adequada, praticar exerc\u00edcios, fazer aquelas coisas que nos tornar\u00e3o mais saud\u00e1veis. E esse esfor\u00e7o de vivermos melhor, de seguir por um caminho que nos levar\u00e1 a alguma parte, pode produzir pessoas que parecem muito santificadas, muito calmas, muito impressionantes.<br \/>\nDo ponto de vista do segundo tipo de pr\u00e1tica, no entanto, essa no\u00e7\u00e3o de nos transformarmos em algo diferente e melhor n\u00e3o tem sentido. Por qu\u00ea? Porque sendo apenas como somos est\u00e1 bem. Uma vez, por\u00e9m, que sermos como somos n\u00e3o parece bom, ficamos confusos, transtornados, raivosos. Essa declara\u00e7\u00e3o de que estamos bem sendo como somos e pronto n\u00e3o faz para n\u00f3s o menor sentido.<\/p>\n<p>Podemos esclarecer essa quest\u00e3o de outra maneira. Se estivermos conscientes de nossos pensamentos, a tend\u00eancia deles \u00e9 desaparecer. N\u00e3o podemos estar conscientes de pensar sem que o pensar comece a minguar, a dissolver-se. Um pensamento \u00e9 simplesmente um tantinho de energia, mas a ele acrescentamos nossas cren\u00e7as condicionadas e tentamos depois nos apegarmos ao pensamento. Quando o consideramos da perspectiva de nossa percep\u00e7\u00e3o consciente impessoal, ele desaparece. Quando olhamos para uma pessoa, por\u00e9m, ela desaparece? N\u00e3o, ela permanece. E essa \u00e9 a diferen\u00e7a entre realidade e a vis\u00e3o ilus\u00f3ria da realidade que temos, quando vivemos em nossos pensamentos: quando verdadeiramente considerados com aten\u00e7\u00e3o, aquela permanece, esta desaparece. A vers\u00e3o pessoal da vida simplesmente se desfaz. O que n\u00f3s queremos \u00e9 ser uma vida real. Isso \u00e9 diferente de se viver como um santo.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s somos seduzidos pelo fasc\u00ednio deste tipo de pr\u00e1tica: queremos nos tomar outra coisa que n\u00e3o somos. Pensamos que, quando nos sentamos em sesshin, estamos nos transformando em alguma coisa que \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o aperfei\u00e7oada. Mesmo quando despertamos para a verdade das coisas, o desejo, bem no fundo, \u00e9 querer alguma outra coisa que simplesmente n\u00e3o est\u00e1 ali. N\u00e3o temos de nos livrar de nossos pensamentos; basta que nos mantenhamos olhando para eles. Se procedermos assim, eles se desmanchar\u00e3o no nada. Qualquer coisa que se desmancha no nada n\u00e3o \u00e9 real. Mas a realidade n\u00e3o desaparece apenas porque estamos olhando para ela.<\/p>\n<p>ALUNO: N\u00e3o haveria a necessidade de algum tipo de objetivo para que pudesse acontecer um processo afinal, para que se chegasse em algum resultado?<\/p>\n<p>JOKO: O que voc\u00ea quer dizer com &#8220;processo&#8221;? <\/p>\n<p>ALUNO: Processo \u00e9 fazer alguma coisa.<\/p>\n<p>JOKO: A percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 um fazer? Existe uma diferen\u00e7a entre fazer alguma coisa &#8211; por exemplo, &#8220;Vou ser uma boa pessoa&#8221; &#8211; e a simples percep\u00e7\u00e3o consciente do que estou fazendo. Vamos supor que estou fazendo uma fofoca. Fofocar \u00e9 fazer alguma coisa, mas a percep\u00e7\u00e3o consciente disso n\u00e3o \u00e9 um fazer, um levar coisas a acontecerem. A base do fazer \u00e9 o pensamento de que as coisas deveriam ser diferentes do que elas s\u00e3o.<\/p>\n<p>Em vez de dizer a mim mesma &#8220;Tenho de me tornar uma pessoa melhor&#8221; e tentar fazer isso, eu deveria simplesmente tomar consci\u00eancia do que estou fazendo &#8211; por exemplo, observar que toda vez que encontro uma determinada pessoa eu a coloco de fora. Quando eu tiver me acompanhado fazendo isso uma centena de vezes, algo acontece. O padr\u00e3o se desarticula, e torno-me uma pessoa melhor, embora eu n\u00e3o tenha agido segundo a instru\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a para, ser uma pessoa melhor. A percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o tem senten\u00e7as, n\u00e3o tem pensamentos nesse sentido. \u00c9 apenas percep\u00e7\u00e3o consciente. \u00c9 isso o sentar na pr\u00e1tica: n\u00e3o ficar preso na mente, n\u00e3o entrar na armadilha de esfor\u00e7ar-se para chegar em alguma parte, para tornar-se um Buda.<\/p>\n<p>ALUNO: Parece um paradoxo. Num n\u00edvel, nossa mente est\u00e1 fazendo algo de forma ativa e, num outro, estamos conscientes do que nossa mente est\u00e1 fazendo. Em que consiste a percep\u00e7\u00e3o consciente?<\/p>\n<p>JOKO: No pensamento comum, a mente sempre tem um objetivo, alguma coisa que ir\u00e1 obter. Se nos atolamos nesses projetos do que obter, ent\u00e3o, some a percep\u00e7\u00e3o consciente da realidade. Teremos substitu\u00eddo a percep\u00e7\u00e3o consciente por um sonho pessoal. A percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o anda, n\u00e3o se enterra em sonhos; ela apenas permanece onde est\u00e1.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, a distin\u00e7\u00e3o entre o pensamento corriqueiro e a percep\u00e7\u00e3o consciente parece sutil e esquiva. Conforme praticamos, contudo, a distin\u00e7\u00e3o se torna cada vez mais n\u00edtida: come\u00e7amos a notar cada vez mais como nossos pensamentos s\u00e3o ocupados com a tentativa de chegarmos em algum lugar, e como ficamos prisioneiros deles, de tal modo que n\u00e3o conseguimos mais reparar no que est\u00e1 realmente presente em nossas vidas.<\/p>\n<p>ALUNO: A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que ou estamos observando o que est\u00e1 acontecendo, ou ficamos atolados no conte\u00fado de nossos pensamentos.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com um pensamento em si. \u00c9 apenas uma dose de energia. Mas quando nos prendemos em seu conte\u00fado, nas palavras do pensamento, ent\u00e3o o teremos arrastado para nossos dom\u00ednios pessoais e quereremos ficar apegados a ele.<\/p>\n<p>ALUNO: Ficar apegado a um pensamento exige uma cren\u00e7a. Na noite passada, enquanto ia para um certo lugar, minha mente estava repleta de pensamentos e sentimentos. Eu acreditava que estava praticando: eu sabia que estava com raiva, que estava tenso, que estava apressado, e minha pista era eu estar com uma raiva cada vez maior, cada vez mais contrariado. De repente eu disse para mim mesmo: &#8220;Qual \u00e9 a pr\u00e1tica neste exato momento?&#8221;. E um milh\u00e3o de pontos de luz iluminou o que estava acontecendo na minha mente. De uma perspectiva completamente impessoal ainda havia o mesmo conte\u00fado &#8211; raiva, pressa, tens\u00e3o f\u00edsica -, mas nada tinha que ver com a minha pessoa. Era quase como observar uma barata no ch\u00e3o da cozinha.<\/p>\n<p>JOKO: Quando come\u00e7amos a observar os pensamentos e sentimentos, eles come\u00e7am a se dissolver. N\u00e3o conseguem manter-se sem a sustenta\u00e7\u00e3o de nossa cren\u00e7a neles.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando nos atolamos desse jeito nos nossos pensamentos, nosso mundo fica mais estreito. N\u00e3o temos mais uma perspectiva do todo. Quando levamos nossa percep\u00e7\u00e3o consciente para nossos pensamentos, essa estreiteza alarga e os pensamentos restritivos come\u00e7am a sumir.<\/p>\n<p>JOKO: Sim. Se nossas vidas n\u00e3o est\u00e3o mudando enquanto vamos praticando, ent\u00e3o alguma coisa errada est\u00e1 ocorrendo com o que estamos fazendo.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando nos atolamos em nossos pensamentos, geramos ansiedade, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>JOKO: Sim. A ansiedade \u00e9 sempre uma dist\u00e2ncia entre o modo como as coisas s\u00e3o e o modo como pensamos que elas teriam de ser. A ansiedade \u00e9 algo que se estende entre o real e o irreal. Nosso desejo humano \u00e9 evitarmos aquilo que \u00e9 real e, em lugar dele, estarmos no dom\u00ednio de nossas id\u00e9ias a respeito do mundo: &#8220;Sou terr\u00edvel&#8221;; &#8220;Voc\u00ea \u00e9 terr\u00edvel&#8221;; &#8220;Voc\u00ea \u00e9 maravilhosa&#8221;. A id\u00e9ia \u00e9 separada da realidade, e a ansiedade \u00e9 a dist\u00e2ncia entre a id\u00e9ia e a realidade de que as coisas s\u00e3o apenas como elas s\u00e3o. Quando paramos de acreditar no objeto que criamos &#8211; que est\u00e1 por assim dizer deslocado para um s\u00f3 dos lados da realidade -, as coisas rapidamente se realinham de volta no centro. \u00c9 isso que significa dizer que algo ou algu\u00e9m \u00e9 centrado. A ansiedade ent\u00e3o desaparece de vista.<\/p>\n<p>ALUNO: Parece que fico extremamente tenso com essa tentativa de me ater \u00e0 percep\u00e7\u00e3o consciente.<\/p>\n<p>JOKO: Se voc\u00ea est\u00e1 tentando ater-se \u00e0 percep\u00e7\u00e3o consciente, isso \u00e9 um pensamento. N\u00f3s usamos uma palavra como percep\u00e7\u00e3o consciente e em seguida as pessoas tornam-na algo especial. Se n\u00e3o estamos tentando (tente por apenas dez segundos parar de pensar), nosso corpo relaxa, e conseguimos ouvir e observar tudo o que est\u00e1 se passando. No instante mesmo em que paramos de pensar, estamos conscientemente perceptivos. A percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o \u00e9 algo que tenhamos de ser &#8211; \u00e9 uma aus\u00eancia de alguma coisa. O que \u00e9 a aus\u00eancia de uma coisa?<\/p>\n<p>ALUNO: N\u00e3o \u00e9 que estamos s\u00f3 mudando aquilo de que estamos c\u00f4nscios? N\u00e3o acabamos de decidir que sempre estamos conscientes? Minha premissa \u00e9 que a vida \u00e9 sempre percep\u00e7\u00e3o consciente. Sempre estamos cientes de alguma coisa. Quando nos sentamos na pr\u00e1tica (em certo sentido, isso \u00e9 um paradoxo), temos um objetivo nesse sentar: estamos refocalizando a nossa percep\u00e7\u00e3o consciente, talvez tornando-a mais aguda a respeito de algo.<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o, isso torna a percep\u00e7\u00e3o consciente fazer alguma coisa. A percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 como o calor que sobe num dia de ver\u00e3o: as nuvens no c\u00e9u apenas desaparecem. Quando estamos conscientes, o irreal simplesmente desaparece e n\u00e3o temos de fazer nada.<\/p>\n<p>ALUNO: H\u00e1 mais percep\u00e7\u00e3o consciente depois de um sesshin que antes?<\/p>\n<p>JOKO: N\u00e3o, a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o a estamos bloqueando. A percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 o que somos, mas n\u00f3s a bloqueamos com pensamentos autocentrados: sonhando, fantasiando, fazendo tudo aquilo que queremos fazer. Tentar ser consciente \u00e9 s\u00f3 o pensamento comum, n\u00e3o \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o consciente. Tudo o que precisamos fazer \u00e9 tomar consci\u00eancia de nossos pensamentos autocentrados. Finalmente, eles desaparecem na dist\u00e2ncia e n\u00f3s restamos apenas ali. Embora se possa dizer que estamos fazendo uma coisa, a percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o \u00e9 uma coisa nem uma pessoa. A percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 a nossa vida quando n\u00e3o estamos fazendo mais nada.<\/p>\n<p>ALUNO: A simples percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o tem mais nada. N\u00e3o tem espa\u00e7o, tempo, nada.<\/p>\n<p>JOKO: Certo, a percep\u00e7\u00e3o consciente n\u00e3o tem espa\u00e7o, tempo, nem identidade &#8211; e, apesar disso, \u00e9 quem somos. No mesmo instante em que falamos dela ela j\u00e1 se foi. Em termos de pr\u00e1tica, n\u00e3o temos de tentar ser conscientes. O que temos de fazer \u00e9 observar nossos pensamentos. N\u00e3o devemos tentar ser conscientes; sempre somos conscientes, a menos que estejamos aprisionados em nossos pensamentos autocentrados. Essa \u00e9 a finalidade de rotularmos nossos pensamentos.<\/p>\n<p>ALUNO: Ent\u00e3o \u00e0s vezes estamos conscientemente percebendo e n\u00e3o notamos isso.<\/p>\n<p>JOKO: \u00c9.<\/p>\n<p>ALUNO: Talvez a diferen\u00e7a entre os pensamentos comuns nos quais acreditamos e a percep\u00e7\u00e3o consciente \u00e9 que um pensamento em que se acredita n\u00e3o se sustenta na percep\u00e7\u00e3o consciente, ele n\u00e3o \u00e9 reconhecido como um simples pensamento.<\/p>\n<p>JOKO: Certo. Ele n\u00e3o \u00e9 visto apenas como o fragmento de energia que \u00e9 de fato. N\u00f3s o consideramos real, e acreditamos nele. Ent\u00e3o ele come\u00e7a a dirigir o espet\u00e1culo, em vez de a percep\u00e7\u00e3o consciente desempenhar esse papel, que \u00e9 o que deveria acontecer.<\/p>\n<p>ALUNO: Costumo notar a percep\u00e7\u00e3o consciente de maneira mais acentuada quando n\u00e3o estava sendo consciente. Por exemplo: de repente me dou conta de que estou no trabalho e nem sei como cheguei l\u00e1 &#8211; e ent\u00e3o acordo.<\/p>\n<p>JOKO: Exceto o Buda, todo mundo flutua para dentro e para fora da percep\u00e7\u00e3o consciente. Mas quanto mais tempo de pr\u00e1tica tivermos, maior a porcentagem de tempo de nossas vidas que ser\u00e1 levada na percep\u00e7\u00e3o consciente. Duvido que algu\u00e9m consiga um dia viver totalmente na percep\u00e7\u00e3o consciente.<\/p>\n<p>ALUNO: Voc\u00ea disse &#8220;quanto mais tempo de pr\u00e1tica tivermos-, mas na realidade voc\u00ea estava se referindo \u00e0 forma com que colocamos a aten\u00e7\u00e3o no presente?<\/p>\n<p>JOKO: Sim. \u00c9 poss\u00edvel praticar sentado por vinte anos e mesmo assim n\u00e3o ter no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 essa pr\u00e1tica. Mas, se estamos sentando e praticando com a totalidade de nossa vida, ent\u00e3o sem sombra de d\u00favida o montante de percep\u00e7\u00e3o consciente aumenta. Eu costumava passar metade da vida devaneando. Era &#8220;agrad\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>ALUNO: Durante muitos anos, minha pr\u00e1tica sentada consistiu em primeiro me desligar do meio ambiente e depois do meu corpo e depois recitar Mu sem parar. Eu era totalmente consciente de nada.<\/p>\n<p>JOKO: Sim, essa \u00e9 uma forma de pr\u00e1tica concentrada que, para algumas pessoas, produz efeitos r\u00e1pidos e intensos, muito agrad\u00e1veis. N\u00e3o ajuda muito a vida dessa pessoa. De todo jeito, o Mu n\u00e3o tem de ser praticado dessa forma.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando focalizo a aten\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o consciente, parece que observo mais dor em meu corpo. Mas se eu simplesmente &#8220;viajar&#8221; n\u00e3o tenho mais problema de dor, nem sinto dor. Depois acordo e tomo consci\u00eancia, e l\u00e1 est\u00e1 a dor de novo. Por que a dor desaparece quando eu &#8220;viajo&#8221;?<\/p>\n<p>JOKO: Bom, nossos sonhos s\u00e3o narc\u00f3ticos poderosos. Por isso \u00e9 que gostamos tanto deles. Nossos sonhos e nossas fantasias s\u00e3o viciantes, da mesma forma como as subst\u00e2ncias causadoras de v\u00edcios.<\/p>\n<p>ALUNO: N\u00e3o existe uma separa\u00e7\u00e3o da realidade se sentimos dor? JOKO: N\u00e3o, se a sentirmos totalmente.<\/p>\n<p>ALUNO: Se eu realmente me torno a dor, essa dor simplesmente desaparece. Por\u00e9m, assim que tenho um pensamento a respeito, sofro. Quando observo a dor e tenho o pensamento que diz que \u00e9 dolorida, o sofrimento permanece, mas se eu simplesmente a observo como uma sensa\u00e7\u00e3o intensa, o sofrimento some.<\/p>\n<p>JOKO: Quando conseguimos ver a dor como apenas uma sensa\u00e7\u00e3o est\u00e1vel com muitas varia\u00e7\u00f5es m\u00ednimas, torna-se interessante e at\u00e9 mesmo bela. Todavia, se nos aproximamos dela com a id\u00e9ia de que iremos faz\u00ea-la sumir, isso \u00e9 s\u00f3 um outro jeito de ir atr\u00e1s de um estado b\u00fadico.<\/p>\n<p>ALUNO: Quando come\u00e7o a pr\u00e1tica, torno-me consciente em geral de estar muito tenso, com uma dor de aperto por todo o corpo. Sinto-a como algo que est\u00e1 simplesmente ali do outro lado de minha percep\u00e7\u00e3o consciente. Durante anos as pessoas viviam me dizendo: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o tenso&#8221;- e eu respondia &#8220;N\u00e3o estou tenso&#8221;. Hoje percebo que eu simplesmente n\u00e3o percebia essa tens\u00e3o, mas estava l\u00e1. Eu usava meus pensamentos para bloquear a percep\u00e7\u00e3o consciente dela. A tens\u00e3o e a dor estavam l\u00e1, apenas despercebidas.<\/p>\n<p>JOKO: A tens\u00e3o e a dor s\u00e3o reais? Algo est\u00e1 l\u00e1, mas o que \u00e9? Uma noite dessas, eu estava andando ao longo da costa, enquanto o luar brilhava sobre a \u00e1gua do mar. Eu conseguia ver um lampejo brilhante de luz sobre o oceano, ou era o luar que realmente estava ali? O oceano realmente tem algo sobre sua superf\u00edcie? Qual \u00e9 essa cor? \u00c9 real ou n\u00e3o? Nenhuma das indaga\u00e7\u00f5es \u00e9 correta. De minha perspectiva, o luar estava sobre a \u00e1gua. Mas, se eu tivesse me aproximado mais da tona d&#8217;\u00e1gua, n\u00e3o teria visto luar nenhum sobre sua superf\u00edcie. Eu teria visto qualquer coisa que ali houvesse para se ver. N\u00e3o existe isso de luar sobre a \u00e1gua, literalmente falando. Quanto \u00e0s nuvens do c\u00e9u: quando estamos numa nuvem, chamamo-la de n\u00e9voa. Da mesma forma, emprestamos um tipo de falsa realidade a nossos pensamentos. \u00c9 verdade que sempre vivemos dentro de uma determinada perspectiva. A pr\u00e1tica diz respeito a aprender a viver nessa realidade relativa, desfrutando-a, mas enxergando-a como de fato \u00e9. Como o luar sobre a \u00e1gua, est\u00e1 l\u00e1 &#8211; segundo uma certa perspectiva relativa &#8211; e n\u00e3o \u00e9 real, n\u00e3o \u00e9 o absoluto. At\u00e9 mesmo a \u00e1gua em si tem apenas uma realidade parcial. Quando n\u00e3o h\u00e1 luz sobre a \u00e1gua, vemos que ela \u00e9 preta. Um dia eu estava jantando num restaurante que ficava na orla mar\u00edtima e a vi mudar de cor, de azul para azul-escuro, para p\u00farpura ainda mais escuro e finalmente n\u00e3o consegui mais v\u00ea-la. O que \u00e9 real? Em termos absolutos, nada disso \u00e9 real. Em termos de nossa pr\u00e1tica, no entanto, devemos come\u00e7ar com nossas experi\u00eancias, com este trabalho meticuloso sobre a percep\u00e7\u00e3o consciente. Precisamos retornar \u00e0 realidade de nossas vidas. Temos dores e padecimentos, temos adversidades, gostamos das pessoas ou n\u00e3o: esse \u00e9 o conjunto de coisas que comp\u00f5e a nossa vida. \u00c9 a\u00ed que come\u00e7a nosso trabalho com a percep\u00e7\u00e3o consciente.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<p><\/font><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paradoxo da percep\u00e7\u00e3o consciente Texto de Charlotte Joko Beck, extra\u00eddo do livro&#8221;Nada Especial&#8220; Quando nos sentamos para a pr\u00e1tica \u00e9 importante manter uma imobilidade t\u00e3o absoluta quanto poss\u00edvel: estar consciente da l\u00edngua no seu espa\u00e7o, dos globos oculares, da &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-paradoxo-da-percepcao-consciente\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,40],"tags":[70],"class_list":["post-5332","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-joko","category-zen","tag-pratica-zen"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5332","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5332"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5332\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5336,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5332\/revisions\/5336"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5334"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5332"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5332"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5332"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}