{"id":5531,"date":"2018-07-16T20:30:13","date_gmt":"2018-07-16T22:30:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5531"},"modified":"2018-07-16T20:41:32","modified_gmt":"2018-07-16T22:41:32","slug":"a-vida-de-buda-vida-de-todas-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-vida-de-buda-vida-de-todas-as-pessoas\/","title":{"rendered":"A vida de Buda, vida de todas as pessoas"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-vida-de-buda-vida-de-todas-as-pessoas\/a-vida-de-buda-vida-de-todas-as-pessoas-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5537\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/A-vida-de-Buda-vida-de-todas-as-pessoas.jpg\" alt=\"\" width=\"270\" height=\"186\" class=\"alignleft size-full wp-image-5537\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/albert-low\/\">Albert Low<\/a>, extra\u00eddo do livro<br \/>\n&#8220;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-pratica-do-zen-e-o-conhecimento-de-si-mesmo\/\">A Pr\u00e1tica do Zen e o Conhecimento de si mesmo<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<p>Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de um monge. Ela conta por que ele se tomou monge, relata os sofrimentos por que ele passou e fala da sua ilumina\u00e7\u00e3o. Embora esse monge tenha vivido h\u00e1 2.500 anos, esta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 meramente uma hist\u00f3ria. Se assim fosse, ela n\u00e3o teria import\u00e2ncia para os que s\u00e3o apanhados pela mais vital das quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Deixem-me antes contar a hist\u00f3ria e, depois, ver como posso demonstrar que ela vai muito al\u00e9m do mero conto a respeito de um homem que morreu h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 2.500 anos, nasceu uma crian\u00e7a, o filho de um rei da \u00cdndia. Quando ele nasceu, os s\u00e1bios predisseram que, ao crescer, ele seria um rei ou um monge. O pai, n\u00e3o querendo que o filho tivesse de suportar as dificuldades de uma vida asc\u00e9tica, e tamb\u00e9m desejando a continua\u00e7\u00e3o de sua linhagem, protegeu a crian\u00e7a dos problemas da exist\u00eancia e ofereceu-lhe toda a seguran\u00e7a e os prazeres que o dinheiro podia comprar.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a, chamada Siddhartha Gautama, cresceu e tornou-se um homem completo, competente nas artes e nas ci\u00eancias do seu tempo. Na devida \u00e9poca, casou-se e teve um filho. Contudo, ele estava inquieto, sentia-se preso aos prazeres que o pai lhe proporciona e desejava conhecer mais da vida do que aquilo que se encerrava entre os muros dos pal\u00e1cios em que vivia. Ele chamou seu cocheiro, foi para o mundo turbulento dos homens comuns e, nesse mundo, encontrou um homem doente, um homem velho e um homem morto.<\/p>\n<p>Ele ficou confuso com os encontros e pediu ao cocheiro que lhe explicasse o seu significado. Ficou sabendo que aquilo era o destino de todos e que ningu\u00e9m escapava a tr\u00eas ocorr\u00eancias: doen\u00e7a, velhice e morte. Sua mente mergulhou num turbilh\u00e3o, mas, embora estivesse confuso e perdido, ele ainda teria mais um encontro &#8211; dessa vez, com um monge. Inspirado pela profunda serenidade e paz de espirito que impregnavam esse homem, Gautama fez o voto de tornar-se, tamb\u00e9m ele, um monge.<\/p>\n<p>Uma noite, despediu-se da esposa e do filho enquanto dormiam; foi embora para uma floresta para tomar-se um asceta errante e cortou o cabelo para simbolizar o rompimento com todos os la\u00e7os mundanos. Estudou com os s\u00e1bios da floresta, mas, depois de aprender tudo o que eles tinham para oferecer, ainda sentia-se insatisfeito e inquieto. Ele viajou, encontrou alguns ascetas, juntou-se a eles e p\u00f3s em pr\u00e1tica todas as prova\u00e7\u00f5es asc\u00e9ticas. Fez jejum e infligiu a si mesmo v\u00e1rios tipos de tormentos. No final, quando estava se aproximando da morte, lembrou-se de um tempo em que observava o pai e os trabalhadores enquanto aravam. Naquele momento, ele se tomara um com toda a dor e o sofrimento do mundo. Lembrando-se dessa experi\u00eancia e de como ela parecia ter-lhe aberto a porta para uma profunda consci\u00eancia da unidade, ele resolveu abrir m\u00e3o da pr\u00e1tica asc\u00e9tica, que podia levar apenas \u00e0 morte, e procuras despertar novamente para essa Unidade.<\/p>\n<p>Nesse exato momento, estava passando uma pastora, Nandabala, que, ao ver Gautama fraco por falta de alimento, ofereceu-lhe um pouco de leite de cabra para beber. Recuperado, Siddharta ent\u00e3o continuou em busca de um lugar adequado para meditar. Encontrou a \u00e1rvore Bo. Sotthiya, um jardineiro que estava passando, deu-me um pouco de grama para servir de assento. Gautama aceitou a grama e espalhou-a ao p\u00e9 da \u00e1rvore. Depois, sentando-se, fez o seguinte voto: &#8220;Mesmo que minha carne definhe e fique pendurada nos ossos, mesmo que meus ossos sejam esmagados, mesmo que o meu sangue seque e transforme-se em poeira, n\u00e3o sairei deste lugar enquanto n\u00e3o atingir a completa ilumina\u00e7\u00e3o.&#8221; Ent\u00e3o, durante toda alonga noite, ele foi tentado por Maca. Quando amanheceu, olhou para a estrela-d&#8217;alva; de repente, despertou completamente e gritou: &#8220;Maravilha das maravilhas, todos os seres s\u00e3o dotados da natureza de Buda.&#8221;<\/p>\n<p>Como devemos interpretar essa hist\u00f3ria? Como um relato hist\u00f3rico ou biogr\u00e1fico da vida de um monge? Ou ser\u00e1 que ela tem algum outro valor? Siddhartha Gautama, que se tomou Shakyainuni Buda, foi sem d\u00favida um homem admir\u00e1vel. Sozinho, ele provocou um grande renascimento espiritual que acabou transformando partes da \u00cdndia, Tibete, China, Sudeste da \u00c1sia, Cor\u00e9ia, Jap\u00e3o &#8211; e agora, quem sabe, talvez tamb\u00e9m a Am\u00e9rica do Norte. Mesmo depois de 2.500 anos, seus ensinamentos ainda s\u00e3o vitais, e, do ponto de vista de muitas pessoas, o \u00fanico modo v\u00e1lido para encontrarmos um caminho atrav\u00e9s do nosso estupor tecnol\u00f3gico para encontrar integridade e significado. A hist\u00f3ria da vida de t\u00e3o grande homem seria interessante, repleta de momentos teatrais e talvez at\u00e9 mesmo inspiradora. Ela seria um bom tema de pesquisa e estudo. Por\u00e9m, no final, se isso \u00e9 mesmo tudo &#8211; a hist\u00f3ria de um grande homem -, ser\u00e1 que ela n\u00e3o teria um valor muito limitado?<\/p>\n<p>O grande e fundamental ensinamento do budismo \u00e9 que tudo \u00e9 Uno &#8211; n\u00e3o h\u00e1 o Outro. A Unidade \u00e9 o objetivo, o meio e a conseq\u00fc\u00eancia. Na Unidade, iniciamos a jornada, na Unidade continuamos e na Unidade terminamos. Mesmo sem nos dividir-nos, mesmo que fiquemos eternamente em nossos lares, ainda assim somos cativados pelas ilus\u00f5es que surgem das ondas mentais, e, nesse estado, nossa Unidade \u00e9 aparentemente fragmentada, assim como o reflexo da lua fica esparramado na superf\u00edcie de um lago agitado pelo vento.<\/p>\n<p>As \u00faltimas palavras de Buda aos seus disc\u00edpulos mais pr\u00f3ximos foram as seguintes:<br \/>\n&#8220;Sejam ilhas em si mesmos, sejam um ref\u00fagio para si mesmos, n\u00e3o tomem para si mesmos nenhum outro ref\u00fagio. Vejam a verdade como uma ilha, vejam a verdade como um ref\u00fagio. N\u00e3o procurem ref\u00fagio em ningu\u00e9m a n\u00e3o ser em si pr\u00f3prios.&#8221;<\/p>\n<p>Tornando-se um ref\u00fagio para si mesmo, n\u00e3o procurando a verdade do lado de fora e abandonando a miragem do Outro, os ventos deixam de soprar, a integridade fica aparente, e a fragmenta\u00e7\u00e3o &#8211; vista como uma ilus\u00e3o. Por si s\u00f3, a simples hist\u00f3ria da vida de um grande homem n\u00e3o tem muito valor. Na verdade, por maior que Seja a sua verdade e por mais s\u00e1bios que sejam os seus ensinamentos, se ele \u00e9 exaltado e adorado, isso \u00e9 capaz de tomar-se por si s\u00f3 a maior e mais impenetr\u00e1vel barreira que bloqueia para sempre a liberdade que ele tanto lutou para tornar conhecida de todos n\u00f3s. Procurar &#8220;imitar&#8221; Buda, procurar ser &#8220;como&#8221; Buda seria como cortar os p\u00e9s enquanto estamos aprendendo a andar ou como vendar os olhos enquanto estamos tentando ver. Colocar Buda num pedestal, v\u00ea-lo como especial entre os homens, incompar\u00e1vel, distante, pertencente a outro mundo, \u00e9 abrir uma fenda profunda no pr\u00f3prio ch\u00e3o em que nos assentamos. A religi\u00e3o \u00e9 considerada por muitas pessoas como um porto ou ref\u00fagio para proteg\u00ea-las das intemp\u00e9ries da exist\u00eancia. Uma linda cantata de Bach diz, triunfalmente: &#8220;Uma poderosa fortaleza \u00e9 o nosso Deus.&#8221; Mas esse n\u00e3o \u00e9 o caminho do Zen. Todo porto acaba tomando-se \u00e1gua estagnada; toda fortaleza, uma pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Com isso em mente, podemos perguntar, qual \u00e9, ent\u00e3o, o valor dessa vida de Shakvamuni? Como dizia o mestre Zen Mumon: &#8220;Voc\u00ea que compreende a ilumina\u00e7\u00e3o pode dizer: &#8216;se o vener\u00e1vel Shakvamuni e o grande Bodhidharma aparecessem, eu os afastaria instantaneamente, perguntando, &#8216;Por que voc\u00eas hesitam? J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rios&#8217;.&#8221; Com esse objetivo em vista, por que nos preocupamos com essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>\u00c9 porque a vida de Gautama \u00e9 a vida de todos os homens, a sua e a minha, homem ou mulher. Nisso reside a grande inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><i><b>H\u00e1 2.500 anos, nasceu uma crian\u00e7a, o filho de um rei na \u00edndia.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Tanto o Sutra do L\u00f4tus do budismo como o Novo Testamento do cristianismo contavam a mesma par\u00e1bola, que consiste mais ou menos no seguinte:<br \/>\nHavia, uma vez, o filho de um rei que abandonou o lar e foi perambular muito longe. Em sua perambula\u00e7\u00e3o, ele gradualmente perdeu todas as lembran\u00e7as de suas origens. Passou por tempos dif\u00edceis e tornou-se um mendicante Para sustentar-se, cuidou de porcos que pertenciam a outras pessoas, compartilhando com esses porcos as bolotas de carvalho e as cascas de alimentos que eles recebiam para comer. Por\u00e9m, veio o dia em. que, das profundezas do seu desespero e da sua mis\u00e9ria, a lembran\u00e7a de quem e do que ele havia sido voltou e tomou-se uma for\u00e7a propulsora em sua vida. Ele abandonou as pocilgas e voltou para a casa do pai.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s \u00e9 filho ou filha de um rei, e cada um \u00e9 herdeiro ou herdeira de um reino, que nada mais \u00e9 do que todo o universo, O rei \u00e9 a verdadeira natureza de cada um de n\u00f3s, e cada um de n\u00f3s perambula longe do seu verdadeiro lar. Nossa verdadeira natureza \u00e9 a nossa natureza b\u00fadica. Buda significa &#8220;desperto&#8221; e implica &#8220;conhecimento&#8221;. Como n\u00e3o h\u00e1 o &#8220;outro&#8221;, corno &#8220;desde o inicio das coisas basicamente n\u00e3o conhecemos &#8220;algo&#8221;, como conhecer e ser n\u00e3o est\u00e3o separados, n\u00e3o h\u00e1 nada para conhecer e nada que se conhe\u00e7a. Como isso \u00e9 assim, tudo est\u00e1 contido em conhecer e nada est\u00e1 fora: somos um todo e somos completos, e essa mente \u00e9 Buda. O mundo todo \u00e9 um reino, e o mundo todo \u00e9 rei.<\/p>\n<p><i><b>Quando ele nasceu, os s\u00e1bios predisseram que, ao crescer, ele seria um rei ou um monge.<\/b><\/i><\/p>\n<p>N\u00e3o somos um, somos dois, embora os dois sejam como as duas faces de uma moeda, que \u00e9 o todo. Ao nascer, temos o potencial para sermos monges ou reis, e a luta b\u00e1sica e a guerra que nos dilaceram durante toda a nossa vida acontecem entre essas duas facetas. Quando nos adiantamos para conquistar, para agir no mundo, alguma coisa dentro de n\u00f3s parece estar sendo negada. Quando nos voltamos para dentro em busca da verdade e da realidade, sentimos estar desperdi\u00e7ando tempo; ficamos inquietos. Alcan\u00e7amos um ponto em que, n\u00e3o importa o que estamos fazendo, sentimos que dever\u00edamos estar fazendo outra coisa. Um dos sentimentos mais universais e dolorosos que atingem muitas pessoas \u00e9 o de que, de algum modo, a vida est\u00e1 passando por elas. Aquelas que ficam presas aos afazeres da vida geralmente anseiam por um mundo de solid\u00e3o, paz e tranq\u00fcilidade. As que vivem retiradas do mundo geralmente aspiram por a\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o. Quando o rei se movimenta e se agita nos novos dom\u00ednios do ser, o monge fica perturbado, contra\u00eddo por falta de alimento e da luz do sol; quando o monge penetra cada vez mais no dom\u00ednio do conhecimento e do prod\u00edgio, o rei definha, fl\u00e1cido e sem espinha dorsal, com o vigor desgastado e o esp\u00edrito aventureiro amedrontado e hesitante. E como se, ao nascer, f\u00f4ssemos mortalmente feridos.<\/p>\n<p><i><b>O pai, n\u00e3o querendo que o filho tivesse de suportar as dificuldades de uma vida asc\u00e9tica, e tamb\u00e9m desejando a continua\u00e7\u00e3o de sua linhagem&#8230;<\/b><\/i><\/p>\n<p>Esse \u00e9 o papel assumido pelos pais: o de protetores. Um beb\u00ea nasceu; ele \u00e9 fraco e indefeso, mas dotado, por natureza, de uma arma mortal o sorriso. Podemos viver uma vida errante, vagando desregrados e n\u00e3o nos preocupando demais com coisa alguma. Casamo-nos e nasce um beb\u00ea. No inicio, ele \u00e9 quase um vegetal &#8211; molhado e impertinente. Mas, com o seu sorriso, ele mant\u00eam como ref\u00e9ns o pai e a m\u00e3e a vida toda. Eles trabalham, labutam e sofrem para manter esse sorriso, O soriso que envolve o mundo todo em uma radi\u00e2ncia, O sorriso de um beb\u00ea n\u00e3o tem mal\u00edcia nem presun\u00e7\u00e3o, e por meio dele entrevemos novamente nossa natureza desperta, nossa pr\u00f3pria vida de integridade.<br \/>\n\u00cb natural que Suddhodana, pai de Gautama, quisesse proteger o filho de uma vida de priva\u00e7\u00e3o e ascetismo. N\u00e3o h\u00e1 sofrimento maior do que suportar o sofrimento de um filho, O seu pr\u00f3prio sofrimento pode ser combatido, compreendido, usado como fonte de energia, transmutado. O sofrimento do seu c\u00f4njuge \u00e9 pior, mas voc\u00ea pode conversar com ele, consol\u00e1-lo e encoraj\u00e1-lo ou caminhar com ele pelo vale. Mas quando um filho est\u00e1 entregue \u00e0 dor, mudo e paciente, embora perplexo e temeroso, o que voc\u00ea faz? Como trazer de volta o sorriso? Dizem, com raz\u00e3o, que as crian\u00e7as s\u00e3o ref\u00e9ns do acaso. Voc\u00ea se preocupa com a possibilidade de elas se perderem, tomarem o caminho errado, acabarem fazendo as mesmas tolices, ca\u00edrem nas mesmas valas e trope\u00e7arem nas mesmas pedras que voc\u00ea mesmo j\u00e1 conhece. &#8220;O seu filho crescer\u00e1 para ser bem-sucedido, forte, admirado por todos, para ocupar uma posi\u00e7\u00e3o de grande poder &#8211; ou talvez seja um nada, pobre, ridicularizado, humilhado, \u00e0 procura do que os pr\u00f3prios imortais n\u00e3o puderam encontrar.&#8221; \u00cb natural que Suddhodana n\u00e3o quisesse que seu filho fosse um asceta.<\/p>\n<p><i><b>[Ele] protegeu o filho dos Problemas da exist\u00eancia e ofereceu-lhe toda a seguran\u00e7a e os prazeres que o dinheiro podia comprar.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a grande trag\u00e9dia: no grande amor que temos por nossos filhos, negamos a eles o sofrimento. Esbanjamos com eles tudo o que podemos, e as crian\u00e7as, mais cedo ou mais tarde, acabam odiando-nos e acusando-nos de sermos falsos. O problema \u00e9 que eles est\u00e3o certos:<br \/>\numa vida sem o reconhecimento do sofrimento &#8211; aquela que \u00e9 vivida na pretens\u00e3o de que a dor e a ansiedade, a humilha\u00e7\u00e3o, o medo, o desespero e a culpa, o ferimento e a doen\u00e7a, a inj\u00faria e a morte s\u00e3o acidentes ou a visita de alguma for\u00e7a mal\u00e9vola &#8211; \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, meio vida, meio morte. Agravamos o nosso erro dando \u00e0s crian\u00e7as tudo o que querem, geralmente evitando a luta que ocorrer\u00e1 se n\u00e3o o fizermos. Toda a nossa sociedade \u00e9 assim. Somos como crian\u00e7as que agora se voltam contra os pais e os odeiam por lhes terem fornecido drogas que as protegeram das dores da vida, que transformaram a morte num fantasma irreal, que lhes ofereceram sonhos prontos para consumo em Technicolor, em caixas que podem ser colocadas numa sala de estar com m\u00f3veis e almofadas macias; pa\u00eds que, no inverno, obtiveram para seus filhos as frutas t\u00edpicas do ver\u00e3o, que lhes deram rodas para passear e asas para transport\u00e1-los \u00e0s praias, ao sol, ao divertimento e ao mar. De fato, temos todos os prazeres que o dinheiro pode comprar. Mas aprendemos a detestar m\u00e9dicos, supermercados, a odiar carros e avi\u00f5es, a TV e o cinema. A trag\u00e9dia \u00e9 que a trag\u00e9dia n\u00e3o tem fim e \u00e9 encenada em nome do amor.<\/p>\n<p><i><b>A crian\u00e7a, chamada Siddhartha Gautama, cresceu e tornou-se um homem completo, competente nas artes e nas ci\u00eancias do seu tempo.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Uma das cren\u00e7as mais comuns dos que n\u00e3o praticam uma religi\u00e3o \u00e9 que aqueles que o fazem s\u00e3o, de algum modo, incompetentes. Eles s\u00e3o considerados como alienados que procuram a religi\u00e3o como um conforto, como um modo de fugir dos fatos dif\u00edceis da vida, porque n\u00e3o os ag\u00fcentam. Sem d\u00favida, h\u00e1 muitos que usam a religi\u00e3o como fuga. Mas n\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m muitos outros que usam o trabalho, o sexo, a amizade -na verdade, quase qualquer coisa &#8211; para proteger-se contra a dor de suas vidas? Por\u00e9m, o fato de algumas pessoas fazerem isso n\u00e3o significa que todas o fa\u00e7am. Porque algumas usam o trabalho para evitar enfrentar os seus problemas, isso n\u00e3o significa que todos os que trabalham s\u00e3o<br \/>\nvorkaholics. Fica claro, a partir das hist\u00f3rias que chegaram at\u00e9 n\u00f3s, que Shakyamuni n\u00e3o era do tipo que n\u00e3o conseguia ag\u00fcentar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ao mesmo tempo, devemos ter cuidado para n\u00e3o cometer o erro de acreditar que as aptid\u00f5es e as habilidades tais como o mundo as conhece s\u00e3o requisitos para o &#8220;progresso&#8221; no caminho espiritual ou que s\u00e3o o resultado do trabalho consigo mesmo. Nossas habilidades e aptid\u00f5es nos s\u00e3o dadas &#8211; elas se desdobram como as p\u00e9talas de uma flor desabrochada. As vezes, as circunst\u00e2ncias s\u00e3o adequadas e tudo flui, e gostamos de acreditam que somos n\u00f3s os autores disso. Outras vezes, nada sai direito. Lutamos e nos esfor\u00e7amos, trabalhamos e labutamos, mas nada se encaixa e tudo desmorona. Ent\u00e3o, preferimos acreditar que somos vitimas de um destino sobre o qual n\u00e3o temos controle.<\/p>\n<p><i><b>Na devida \u00e9poca, casou-se e teve um filha<\/b><\/i><\/p>\n<p>O ciclo agora est\u00e1 completo. Come\u00e7ando como crian\u00e7a, a pessoa torna-se pai ou m\u00e3e. Come\u00e7ando como protegida, ela passa a ser protetora. A roda da vida \u00e9 inexor\u00e1vel; ela gira, e n\u00f3s, presos e emaranhados nessa roda, giramos com ela.<\/p>\n<p>Alguns dizem que, em seu anivers\u00e1rio, Buda sabia que tinha uma grande miss\u00e3o e que sua vida anterior havia sido vivida na plena consci\u00eancia dessa miss\u00e3o. Mas os fatos sugerem outra coisa. Gautama casou-se &#8211; ele buscou o caminho de todos os homens. Ele se casou por todos os motivos pelos quais os homens e mulheres se casam e, quando se casou, provavelmente comprometeu-se com o casamento acreditando que, desse modo, alcan\u00e7aria a felicidade.<\/p>\n<p>\u00cb verdade que, \u00e0s vezes, \u00e9 dif\u00edcil aceitar que a riqueza e o contentamento n\u00e3o est\u00e3o relacionados. &#8220;Se ao menos eu tivesse mais dinheiro&#8221;, um lar diferente&#8221;. &#8220;um emprego melhor&#8221;, &#8220;uma esposa mais compreensiva&#8221;, &#8220;mais roupas&#8221;&#8230; a lista \u00e9 infinita. George Bernard Shaw parece ter dito que o valor de uma educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria \u00e9 mostrar-nos que nem tudo est\u00e1 perdido quando n\u00e3o se pode t\u00ea-la. O mesmo pode ser dito com rela\u00e7\u00e3o a toda riqueza. Uma pessoa pode ter muito dinheiro e o sentimento de que falta alguma coisa; pode ter um bom emprego e, ainda assim, sentir que n\u00e3o tem desafio suficiente; pode ter um casamento maravilhoso, com lindos filhos, e viver atormentada pela solid\u00e3o; pode ter um talento consider\u00e1vel e, mesmo assim, sentir-se inferior. Sabemos tudo isso. J\u00e1 vimos que, muitas vezes, fomos arrebatados pela promessa ilus\u00f3ria de satisfa\u00e7\u00e3o, e, ainda assim, fomos sugados pelo pr\u00f3ximo sonho do qual calmos vitimas.<\/p>\n<p><i><b>Contudo, ele estava inquieto e sentia-se preso aos prazeres que o pai lhe proporcionara, e desejava conhecer mais da vida do que aquilo que se encerrava entre os muros dos pal\u00e1cios em que vivia.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Essa inquietude \u00e9 como &#8220;uma coceira&#8221;, no dizer de certo mestre. E como a coceira da frieira &#8211; quanto mais co\u00e7amos, pior fica. Essa inquietude \u00e9 precursora da verdadeira busca. No fundo de n\u00f3s mesmos, alguma coisa est\u00e1 se movendo. Ficamos surpresos ao perceber que nem todas as pessoas est\u00e3o igualmente inquietas. Valores que uma vez acreditamos serem caros, atividades de que gost\u00e1vamos, id\u00e9ias que namor\u00e1vamos, tudo vira poeira e cinzas. A inquietude transforma-se em p\u00e2nico, e passamos a ver coisas \u00e1s quais antes n\u00e3o prest\u00e1vamos aten\u00e7\u00e3o. Elas nos fitam nos olhos, e sabemos que n\u00e3o podemos mais esconder-nos delas. No momento, elas \u00e9 que s\u00e3o reais, enquanto todo o resto nada mais \u00e9 que sombras tr\u00eamulas.<\/p>\n<p>Diz-se que, se a natureza \u00e9 jogada fora pela porta da frente, ela volta pela janela. \u00cb tolice acreditar que podemos proteger a n\u00f3s mesmos ou aos outros do sofrimento da exist\u00eancia. Diz-se que, uma vez, um homem ficou sabendo que Yama &#8211; o deus da morte &#8211; iria busc\u00e1-lo no dia seguinte. O homem come\u00e7ou a tremer, a transpirar e a apertar as m\u00e3os; ele n\u00e3o sabia o que fazer. Finalmente, encontrou uma solu\u00e7\u00e3o. Se Yama estava indo busc\u00e1-lo, ent\u00e3o ele n\u00e3o estaria l\u00e1 quando Yama chegasse. Viajaria para um pais distante e se esconderia entre o povo, e Yama jamais o encontraria. Assim, comprou uma passagem a\u00e9rea, entrou no avi\u00e3o e logo percebeu que estava sendo empurrado por uma multid\u00e3o de pessoas do pais que havia abandonado. Enquanto se debatia com a multid\u00e3o, ele olhou para cima e l\u00e3 viu Yama, que vinha em sua dire\u00e7\u00e3o com um grande sorriso. &#8220;Ah! Ai est\u00e1 voc\u00ea&#8221;, disse Yama. &#8220;Temos um compromisso hoje, e eu estava exatamente imaginando como iria conseguir chegar \u00e0 sua casa em tempo. Que bom que voc\u00ea est\u00e1 aqui!&#8221; <\/p>\n<p>Os melhores esquemas entre ratos e homens geralmente se mostram impr\u00f3prios, como disse o poeta escoc\u00eas Robert Burns. N\u00e3o porque haja algo inerentemente errado com o plano. Os ratos que Burns encontrou no campo que estava arando haviam escolhido o local perfeito para o seu ninho e haviam constru\u00eddo o seu ninho com o maior cuidado. Mas havia outro plano: o fazendeiro queda fazer sua colheita e, ao faz\u00ea-la, ele revirou o ninho dos ratos e destruiu os planos deles.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s est\u00e1 sujeito ao seu karma, isto \u00e9, estamos sujeitos \u00e0 totalidade das for\u00e7as que colocamos em movimento a cada momento com todo ato, escolha e decis\u00e3o que realizamos. As vezes, essas for\u00e7as demoram para nos alcan\u00e7ar, \u00e1s vezes mal plantamos a semente e j\u00e1 estamos colhendo a tempestade. Predomina uma lei inexor\u00e1vel mais forte do que qualquer esfor\u00e7o que possamos fazer para subvert\u00ea-la em nosso favor ou em favor de outra pessoa. Tudo tem uma causa, toda causa tem um efeito.<\/p>\n<p><i><b>Ele chamou seu cocheiro e foi para o mundo turbulento dos homens comuns, e, nesse mundo, encontrou um homem doente, um homem velho e um homem morto.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Doen\u00e7a, velhice e morte &#8211; o destino inevit\u00e1vel de todas as pessoas. Como tentamos proteger-nos desses espectros! Gostamos de acreditar que esses acidentes s\u00f3 acontecem com os outros. A doen\u00e7a \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o na vida, para o que nem sempre temos tempo. A velhice pode ser adiada com cosm\u00e9ticos, exerc\u00edcios, planos e otimismo. A morte pode ser enterrada debaixo de rituais elaborados, acess\u00f3rios caros, flores bonitas. Mas, ainda assim, esses tr\u00eas se fazem perceber &#8211; uma pontada aqui, uma dor s\u00fabita acol\u00e1, e l\u00e1 estamos n\u00f3s, fitando a garganta vermelha de Yama.<\/p>\n<p>Uma nova s\u00edndrome parece estar ficando famosa; ela aflige as pessoas tipicamente aos quarenta anos de idade. As vezes mais cedo, \u00e0s vezes mais tarde, mas sempre com os mesmos componentes. A pessoa sente-se completamente \u00e0 deriva, sem nenhum apoio. Todas as compensa\u00e7\u00f5es parecem cessar, e a pessoa tem de encarar a morte. Ela v\u00ea a inevitabilidade da velhice, que leva \u00e1 morte, e teme a doen\u00e7a, que ser\u00e1 a precursora da velhice. Jung disse que a neurose do jovem surge do medo da vida, mas a neurose de uma pessoa com mais de 40 anos surge do medo da morte. Nem todos s\u00e3o afetados por essa s\u00edndrome, mas a riqueza, o poder, as habilidades ou a vitalidade n\u00e3o s\u00e3o garantias contra ela. Por volta dos 40 anos, muitas pessoas fazem tolices: abandonam empregos seguros e come\u00e7am novas carreiras, divorciam-se de companheiros que amaram e com quem viveram por muitos anos, desenvolvem estranhas neuroses; alguns at\u00e9 mesmo caem mortos. Durante anos, evitaram um encontro com o trio apocal\u00edptico esquivando-se com suavidade; planos, objetivos, metas hipotecaram o futuro at\u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais tempo&#8230;<\/p>\n<p><i><b>Finalmente, ele encontrou um monge andarilho.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Que encontro! Se o monge n\u00e3o tivesse tomado aquele caminho, como a hist\u00f3ria do mundo poderia ter sido diferente. Mas esse encontro havia sido determinado antes; era o karma de Buda-era o nosso karma.<\/p>\n<p>O sofrimento mais terr\u00edvel \u00e9 o sofrimento in\u00fatil. O sofrimento de vacas, cavalos, cachorros, esquilos, elefantes, crocodilos &#8211; ele \u00e9 terr\u00edvel porque parece ser t\u00e3o in\u00fatil. Mas o sofrimento dos seres humanos pode ser seguido de um encontro com um monge, com um homem sagrado, com um homem que abriu m\u00e3o de tudo na certeza de que \u00e9 capaz de encontrar a verdade e de que a encontrar\u00e1. O sofrimento prepara o caminho para o encontro; e se o sofrimento for aceito, e se for intencional, o encontro com o monge \u00e9 inevit\u00e1vel, porque o monge nada mais \u00e9 que o chamado da nossa verdadeira natureza.<\/p>\n<p><i><b>Uma noite, ele se despediu da esposa e do filho enquanto dormiam e foi embora para uma floresta a fim de tornar-se um asceta errante&#8230;<br \/>\n<\/b><\/i><\/p>\n<p>Foi feito assim na \u00cdndia e ainda vem sendo feito at\u00e9 hoje. Para dar um exemplo, J. G. Bennett, o matem\u00e1tico e fil\u00f3sofo brit\u00e2nico, estudante de Gurdjieff, escreveu a respeito do seu encontro com Shivapuri Baba, um asceta indiano que morreu no final da d\u00e9cada de 50 com 132 anos de idade. Shivapuri Baba deixou sua casa quando tinha dezoito anos e ficou na floresta durante 25 anos, sozinho, antes de passar por um grande despertar. Incidentalmente, ap\u00f3s esse despertar, ele disse que se reintegraria \u00e0 sociedade e, ent\u00e3o, aos sessenta anos, viajou pelo mundo e visitou um grande n\u00famero de pessoas eminentes na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ramana Maharshi \u00e9 outro; aos dezessete anos, depois de um grande despertar, tamb\u00e9m deixou a casa dos pais para viajar ao monte Arunachala, onde permaneceu pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Mas hist\u00f3rias como essas devem ser entendidas com muito cuidado. N\u00e3o se tratava de abandonar a esposa e a fam\u00edlia, ou o pai e a m\u00e3e. Algumas pessoas que n\u00e3o compreendem bem a inten\u00e7\u00e3o e o estado de espirito de Buda ficam imaginando como \u00e9 que um ato de aparente irresponsabilidade p\u00f4de ter um resultado que valesse a pena. A lei do karma diz que, de uma a\u00e7\u00e3o m\u00e1, mais cedo ou mais tarde, o mal fluir\u00e1. Mas o ato de Buda estava inteiramente de acordo com o seu karma. Sua esposa e sua fam\u00edlia estavam bem amparadas. As pessoas que lutam e que se preocupam em sair de casa ou abandonar um emprego ou come\u00e7ar algo novo, provavelmente n\u00e3o est\u00e3o preparadas para a mudan\u00e7a.<br \/>\nOutras sociedades, particularmente aquelas com climas menos hospitaleiros, n\u00e3o t\u00eam essa tradi\u00e7\u00e3o de ir \u00e0 floresta e simplesmente viver fora do mundo. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 o fato de deixar o lar que \u00e9 t\u00e3o importante. \u00ca o ato da ren\u00fancia. Para come\u00e7ar com seriedade um caminho espiritual, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia que se &#8220;renuncie ao mundo&#8221;. Isso pode ser feito mesmo que n\u00e3o haja mudan\u00e7a \u00f3bvia na rotina ou na atividade. O ato de ren\u00fancia se realiza quando a pessoa v\u00ea inequivocamente que o &#8220;mundo&#8221; e tudo aquilo que ele representa n\u00e3o podem amenizar em nada a ang\u00fastia do esp\u00edrito. A pessoa v\u00ea diretamente atrav\u00e9s do mundo e, por um momento, permanece nua e solit\u00e1ria. Wifliam James diz que o caminho religioso come\u00e7a com um grito de socorro. O momento da ren\u00fancia pode ser um momento terr\u00edvel, e a pessoa sente-se t\u00e3o impotente, t\u00e3o s\u00f3 que grita por algum apoio. Por mais que ela tente, n\u00e3o consegue abjurar. Algo foi destru\u00eddo naquele instante e jamais poder\u00e1 ser substitu\u00eddo. A pessoa deve agora continuar em frente sem descanso ou retirar-se do cen\u00e1rio humano.<\/p>\n<p><i><b>Ele estudou com os s\u00e1bios da floresta, mas, depois de aprender tudo o que eles tinham para oferecer, ainda sentia-se insatisfeito e inquieto.<br \/>\n<\/b><\/i><br \/>\nSeus mestres foram Alara Kalama, Rama e Uddaka. O primeiro, Alara, ensinou-lhe um modo de alcan\u00e7ar o reino do vazio, mas n\u00e3o mais que isso. Rama levou Buda mais longe, ao lugar onde n\u00e3o h\u00e1 mais percep\u00e7\u00e3o de nada, e Uddaka foi capaz de lev\u00e1-lo mais longe ainda, mas muito pouco. O reino do vazio e o lugar onde n\u00e3o h\u00e1 percep\u00e7\u00e3o ainda est\u00e3o no \u00e2mbito da consci\u00eancia e da forma; eles ainda est\u00e3o baseados em algo que conhece o vazio ou que foi para al\u00e9m da percep\u00e7\u00e3o. Nenhuma seguran\u00e7a suprema vem dai. Muitas formas de medita\u00e7\u00e3o podem levar-nos para fora de n\u00f3s mesmos, por assim dizer. Algumas requerem grande disciplina e esfor\u00e7o. Mas a liberta\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 a verdadeira liberta\u00e7\u00e3o quando se manifesta em nossa vida cotidiana. &#8220;O que \u00ea a verdade?&#8221;, perguntou algu\u00e9m a Joshu. &#8220;Quando eu tenho fome, como; quando estou cansado, durmo.&#8221; Estados da mente exaltados, cheios de gl\u00f3ria, luz e hosanas s\u00e3o apenas o pico da montanha-russa que nunca mergulha at\u00e9 o fundo. Os estados ps\u00edquicos mantidos de maneira t\u00eanue no sil\u00eancio e no isolamento s\u00e3o simplesmente gin\u00e1stica mental, e assim como a gin\u00e1stica f\u00edsica n\u00e3o traz a paz absoluta, tampouco pirotecnias mentais, percep\u00e7\u00e3o extra-sensorial, levita\u00e7\u00e3o e estados med\u00fanicos t\u00eam valor algum para conduzir-nos \u00e1 Grande liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><i><b>Ele viajou, encontrou alguns ascetas e, juntando-se a eles, p\u00f3s em pr\u00e1tica todas as prova\u00e7\u00f5es asc\u00e9ticas.<br \/>\n<\/b><\/i><\/p>\n<p>Como \u00e9 freq\u00fcente ver isto: a vida \u00e9 insatisfat\u00f3ria, por isso se faz alguma pr\u00e1tica asc\u00e9tica; freq\u00fcentemente, realiza-se alguma forma de jejum ou controle da respira\u00e7\u00e3o. Gautama praticou por seis anos e alcan\u00e7ou um ponto em que estava comendo apenas um gr\u00e3o de arroz por dia. Mas h\u00e1 graus de ascetismo, e sem d\u00favida as dietas que causam tantos danos \u00e0s pessoas, assim como a epidemia de jogging que infectou a Am\u00e9rica, s\u00e3o apenas pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas artificiais realizadas pela falta de uma verdadeira compreens\u00e3o de como praticar a disciplina espiritual.<br \/>\nAt\u00e9 mesmo o zazen, praticado sem a orienta\u00e7\u00e3o de um mestre experiente, pode degenerar numa forma sutil de ascetismo. H\u00e1 o famoso mondo entre Nangaku e Baso:<br \/>\nNangaku observou Baso praticando o zasen e perguntou-lhe o que estava fazendo. Baso respondeu que estava tentando tomar-se um Buda.<br \/>\nNangaku pegou uma telha e come\u00e7ou a esfreg\u00e1-la numa pedra. Dessa vez, foi a vez de Baso perguntar a Nangaku o que ele estava fazendo. Nangaku disse que a estava polindo para fazer um espelho.<br \/>\n&#8211; Como \u00e9 que polir uma telha pode torn\u00e1-la um espelho? &#8211; perguntou Baso.<br \/>\n&#8211; Como \u00e9 que ficar sentado pode faz\u00ea-lo tomar-se um Buda? -retrucou Nangaku.<br \/>\nBaso ent\u00e3o indagou:<br \/>\n&#8211; O que eu deveria fazer?<br \/>\nNangaku respondeu:<br \/>\nSe voc\u00ea estivesse dirigindo uma carro\u00e7a e ela n\u00e3o andasse, voc\u00ea chicotearia a carro\u00e7a ou o boi?<br \/>\nBaso n\u00e3o respondeu.<br \/>\nO ponto da hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 &#8211; como alguns poderiam pensar &#8211; abandonar o zazen como forma de ascetismo. Ao praticar o ascetismo, n\u00f3s simplesmente podamos os galhos e ramos, enquanto a raiz floresce ainda mais.<\/p>\n<p><i><b>Ao final, quando estava se aproximando da morte, lembrou-se de um tempo em que observava o pai e os trabalhadores enquanto aravam. Naquele momento, ele se tornara um s\u00f3 com toda a dor e o sofrimento do mundo.<\/b><\/i><\/p>\n<p>A ilumina\u00e7\u00e3o antes da ilumina\u00e7\u00e3o. O s\u00fabito gosto espont\u00e2neo de liberdade que se fixa por um momento e depois sai voando como um p\u00e1ssaro assustado. \u00cb surpreendente o n\u00famero de pessoas que sentiram esse gosto. Ele vem de todas as maneiras: numa noite de f\u00e9rias, quando se ouve m\u00fasica, quando se est\u00e1 apaixonado, num momento de intensa afli\u00e7\u00e3o, na doen\u00e7a, num instante de profunda piedade. Ele vem.., e vai embora. Ele \u00e9 t\u00e3o familiar e, no entanto, t\u00e3o arrebatador em seu frescor. A pessoa v\u00ea atrav\u00e9s de uma fenda na exist\u00eancia, num lampejo, mas \u00e9 o suficiente. Ent\u00e3o, vem o tempo em que esse encontro amadurece e, como um \u00edm\u00e3, atua como guia, e cada vez mais nossas tend\u00eancias voltam-se para uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o at\u00e9 que, finalmente, somos levados adiante como por uma for\u00e7a irresist\u00edvel, em busca do despertar.<\/p>\n<p><i><b>Lembrando-se dessa experi\u00eancia e de como ela parecia ter-lhe aberto a porta para uma profunda consci\u00eancia da unidade, ele resolveu abrir m\u00e3o da pr\u00e1tica asc\u00e9tica, que podia levar apenas \u00e1 morte, e procurar despertar novamente para essa Unidade.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um grande momento. Para Buda., uma vez bastou; mas os outros, que muitas e muitas vezes afastam-se da verdade, devem tomar a despertar muitas e muitas vezes para a inutilidade de todas as dores auto-inflingidas. Com um toque de verdade, tudo toma-se t\u00e3o simples e \u00f3bvio. A pessoa se pergunta como p\u00f4de perder-se t\u00e3o completamente; mas muitas e muitas vezes colidimos com um emaranhado de arbustos e espinheiros, tentando for\u00e7ar cegamente um caminho para onde nau temos necessidade de ir. Freq\u00fcentemente, ouvimos: &#8220;abandone a luta&#8221;, &#8220;n\u00e3o perturbe a mente&#8221;, &#8220;apenas alivie-se do seu fardo&#8221;, mas com a mesma freq\u00fc\u00eancia adotamos t\u00e9cnicas e estrat\u00e9gias; tentamos isso ou for\u00e7amos aquilo, pensamos isso ou fazemos aquilo. \u00cb abrindo m\u00e3o de todas as coisas, fazendo o sacrif\u00edcio total de tudo &#8211; at\u00e9 mesmo daquilo que mais prezamos, nossa pr\u00e1tica de disciplina espiritual- que a nossa intui\u00e7\u00e3o mais profunda pode ser despertada e, por meio desse despertar, o v\u00e9u da dualidade pode ser rasgado.<\/p>\n<p><i><b>Nesse exato momento, estava passando uma pastora, Nandabala, que, ao ver Gautama fraco por falta de alimento, ofereceu-lhe um pouco de leite de cabra para beber. Recuperado, Siddharta continuou em busca de uni lugar adequado para meditar. Encontrou a \u00e1rvore Bo. Sotthiya, um jardineiro que estava passando, deu-lhe um pouco de grama para servir de assento.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Em <i>The Three Pillars of Zen<\/i> [<i>Os Tr\u00eas Pilares do Zen<\/i>], Roshi Kapleau escreve o seguinte: &#8220;Pode acreditar nisto: quando voc\u00ea entra no caminho do Buda com sinceridade e zelo, os bodhisattvas surgem em toda parte para ajud\u00e1-lo.&#8221;<\/p>\n<p>Isso acontece com tanta freq\u00fc\u00eancia que a pessoa nem bem se disp\u00f5e a libertar-se, e a ajuda de outras surge naturalmente e sem esfor\u00e7o. Isso n\u00e3o \u00e9 um exemplo do poder do pensamento positivo, mas exatamente o oposto. Assim que abrimos m\u00e3o de nossa teimosia e sacrificamos nossas barreiras mais queridas ao despertar, abrimo-nos para o mundo todo &#8211; e nesse estado de integridade temos naturalmente aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio. Os bodhisattvas geralmente s\u00e3o considerados, no budismo, como seres elevados que est\u00e3o pr\u00f3ximos apenas do pr\u00f3prio Buda. Mas, no Zen, um bodhisattva \u00e9 algu\u00e9m que ajuda voc\u00ea ao longo do caminho.<br \/>\nAs vezes, essa ajuda \u00e9 \u00f3bvia quando acompanhada por um mestre Zen ou algu\u00e9m que est\u00e1 avan\u00e7ado no caminho. Mas \u00e1s vezes ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvia: a mulher que bate no seu cano, o burocrata que insiste no formul\u00e1rio correto, o policial que lhe aplica uma multa &#8211; esses n\u00e3o s\u00e3o menos bodhisattvas do que a garota que lhe oferece um livro sobre o Zen, ou o homem que lhe indicou um curso, ou o rapaz que lhe deu uma carona at\u00e9 o Zen Center.<\/p>\n<p><i><b>Depois, sentando-se, fez o seguinte voto: &#8220;Mesmo que minha come definhe e fique pendurada nos ossos, mesmo que meus ossos sejam esmagados, mesmo que o meu sangue seque e se transforme em poeira, n\u00e3o sairei deste lugar enquanto n\u00e3o atingir a completa ilumina\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\n<\/b><\/i><\/p>\n<p>Um relato diz que &#8220;ele sentou-se de pemas cruzadas numa posi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, da qual nem mesmo a descida de mil raios ao mesmo tempo poderia desaloj\u00e1-lo&#8221;. Esse \u00e9 o momento supremo. Com tamanha resolu\u00e7\u00e3o, o que poderia dar errado? N\u00e3o apenas o corpo est\u00e1 im\u00f3vel, mas tamb\u00e9m a incute. Corpo e mente como rochas. Pensamentos, como moscas, arremetem em v\u00e3o contra essa resolu\u00e7\u00e3o. O mundo todo fica transparente. Embora a pessoa se sente em meio \u00e0 confus\u00e3o e ao bani-lho, nada se move, nem mesmo a consci\u00eancia de que nada se move.<\/p>\n<p><i><b>Ent\u00e3o, durante toda a longa noite, ele foi tentado por Mara.<\/b><\/i><\/p>\n<p>Mara \u00e9 o mal. A palavra mara deriva do s\u00e2nscrito mri: morte. Os filhos de mara s\u00e3o o capricho, a alegria e a mal\u00edcia suas tr\u00eas filhas d\u00e3o o deleite, o descontentamento e a sede. Os nomes das filhas em s\u00e3nscrito s\u00e3o Rati, Arati e Trsna. Bati significa &#8220;deleite sensual&#8221;, particularmente o deleite sexual. Arati, portanto, significa &#8220;frigidez&#8221; e &#8220;frieza&#8221;. Trsna \u00e9 &#8220;sede&#8221;, a sede insaci\u00e1vel, a \u00e2nsia que permanece depois que tudo por que ansiamos foi abandonado e s\u00f3 restou o som irritante que a tentativa de eliminar apenas agrava.<br \/>\nAqueles que se sentaram em sesshin ou pr\u00e1tica s\u00e9ria est\u00e3o familiarizados com Mara. Os medos inomin\u00e1veis; o vazio onde as coisas tornam-se insubstanciais; os trocadilhos caprichosos e as piadas oferecidos por um intelecto ocioso; o riso e o choro; a frustra\u00e7\u00e3o beligerante; a seca aridez; a imag\u00e9tica sexual; o querer a todo custo, querer por querer; a falta de seriedade&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa a hora, sempre \u00e9 noite quando enfrentamos Mara. Nas antigas lendas, n\u00e3o foram os filhos e as filhas de Mara que tentaram Buda, mas ex\u00e9rcitos semelhantes aos de Breugel equipados com todo tipo de armas. A persist\u00eancia incans\u00e1vel de Mara, na medida em que ela produz uma armadilha depois de um bloco, depois de uma barreira, depois de um caminho secreto, depois de uma inconseq\u00fc\u00eancia, \u00e9 como um ex\u00e9rcito, um ex\u00e9rcito demon\u00edaco lutando para acabar com a quietude da mente em unidade. A essa altura, at\u00e9 mesmo dar uma olhadinha no desfile que passa \u00e9 o bastante para fazer Mara sair gargalhando e dan\u00e7ando, com a mente fragmentada em mil peda\u00e7os, a pedra dissolvida em areia, a montanha transformada numa colina de formigas rastejantes.<\/p>\n<p><i><b>Quando amanheceu, ele olhou para a estrela-d&#8217;alva; de repente, despertou completamente e gritou: &#8220;Maravilha das maravilhas, todos os seres s\u00e3o dotados da natureza de Buda.&#8221;<br \/>\n<\/b><\/i><br \/>\nPara o zen-budista, esse \u00e9 o cerne da hist\u00f3ria da vida de Buda. Esse \u00e9 o grande milagre &#8211; o encontro consigo mesmo, a lembran\u00e7a de si mesmo. \u00cb o ciclo completado. O despertar de uma pessoa \u00e9 o despertar de todo o universo; se uma pessoa pode despertar, qualquer um e qualquer coisa que tenha sensibilidade tamb\u00e9m pode. Mas despertar sem nenhuma orienta\u00e7\u00e3o, inspira\u00e7\u00e3o ou encorajamento, despertar inteiramente por causa da necessidade interior que n\u00e3o pode ser satisfeita com nada menos que o despertar total \u00e9 algo muito fora do comum.<br \/>\nOs budistas veneram Shakyamuni Buda porque ele foi um homem admir\u00e1vel; com seus grandes esfor\u00e7os e sua tenacidade inabal\u00e1vel, ele reabriu um caminho e o ensinou a todos os que quisessem ouvir. Cruciais para esse caminho s\u00e3o o despertar e a integra\u00e7\u00e3o do despertar na vida cotidiana. A venera\u00e7\u00e3o de Shakyamuni, portanto, tamb\u00e9m significa abrir-nos para a grande possibilidade do despertar. Ler a hist\u00f3ria simplesmente como o relato da vida de um grande homem \u00e9 perder sua ess\u00eancia; l\u00ea-la apenas como uma afirma\u00e7\u00e3o do despertar \u00e9 perder o fato.\n<\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Albert Low, extra\u00eddo do livro &#8220;A Pr\u00e1tica do Zen e o Conhecimento de si mesmo&#8220; Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de um monge. 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