{"id":5561,"date":"2018-07-17T11:07:22","date_gmt":"2018-07-17T13:07:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5561"},"modified":"2018-07-17T11:22:25","modified_gmt":"2018-07-17T13:22:25","slug":"crescendo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/crescendo\/","title":{"rendered":"Crescendo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/crescendo\/crescendo-2\/\" rel=\"attachment wp-att-5568\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Crescendo.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" class=\"alignleft size-full wp-image-5568\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/pema-chodron\/\">Pema Ch\u00f6dr\u00f6n<\/a><br \/>\nextra\u00eddo do livro &#8220;Quando tudo se desfaz&#8221;<br \/>Publicado por GRYPHUS<br \/>Traduzido por Helenice Gouv\u00eaa<\/b><\/i><\/div>\n<p>Em meu escrit\u00f3rio, h\u00e1 um pergaminho feito com caligrafia japonesa e uma pintura de Bodhidharma, mestre Zen. Ele \u00e9 um homem gordo, de aspecto rabugento e sobrancelhas peludas. Sua apar\u00eancia lembra algu\u00e9m que est\u00e1 tendo uma indigest\u00e3o. A caligrafia diz: &#8220;Voltando-se diretamente para o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, voc\u00ea encontrar\u00e1 o Buda&#8221;.<\/p>\n<p>Ouvir palestras sobre o dharma ou sobre os ensinamentos de Buda e praticar medita\u00e7\u00e3o nada mais \u00e9 que estudar a si mesmo. Comendo, trabalhando, meditando, ouvindo ou falando &#8211; estudar a n\u00f3s mesmos \u00e9 a raz\u00e3o absoluta para estarmos aqui, neste mundo. Na verdade, j\u00e1 foi dito que estudar a si mesmo pode servir de material para todos os livros de que precisamos.<\/p>\n<p>Talvez os livros e palestras sobre o dharma existam apenas para nos encorajar a compreender este ensinamento simples: toda a sabedoria sobre como causamos sofrimento a n\u00f3s mesmos e sobre quanto nossa mente \u00e9 prazerosa, vasta e descomplicada &#8211; esses dois aspectos, a compreens\u00e3o do que poder\u00edamos chamar de neurose e a s\u00e1bia percep\u00e7\u00e3o da verdade incondicional e imparcial somente podem ser encontrados em nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Bodhidharma trouxe o Zen Budismo da \u00cdndia para a China. Sua impetuosidade e intransig\u00eancia eram bastante conhecidas. Conta urna hist\u00f3ria que ele costumava cochilar durante a medita\u00e7\u00e3o e, por isso, Cortou fora suas p\u00e1lpebras e as jogou no ch\u00e3o. Quando ca\u00edram ali, transformaram-se em um p\u00e9 de ch\u00e1 e ele percebeu que bastava tomar desse ch\u00e1 para permanecer acordado! Inflex\u00edvel, buscava conhecer a verdade e n\u00e3o queria apenas acreditar no que os outros lhe diziam. Sua grande descoberta foi perceber que, olhando diretamente para o nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, encontramos o Buda desperto, a experi\u00eancia totalmente l\u00edmpida das coisas como realmente s\u00e3o.<\/p>\n<p>Em qualquer tipo de situa\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel descobrir o que \u00e9 verdadeiro, apenas estudando a n\u00f3s mesmos de todos os \u00e2ngulos, em nossos cantos escuros e claros, sejam eles sombrios, horr\u00edveis, medonhos, espl\u00eandidos, mal-assombrados, assustadores, alegres, estimulantes, tranq\u00fcilos ou irados. Podemos apenas olhar para o conjunto. Temos muito encorajamento para fazer isso e a medita\u00e7\u00e3o nos fornece o m\u00e9todo. Em meu primeiro contato com o budismo, fiquei muito aliviada ao saber que ele n\u00e3o consistia apenas de ensinamentos, mas que inclu\u00eda tamb\u00e9m uma t\u00e9cnica que eu poderia utilizar para explorar e testar esses ensinamentos. Desde o primeiro momento me foi dito que, assim como Bodhidharma, teria de descobrir por mim mesma o que era verdadeiro.<\/p>\n<p>Entretanto, quando sentamos para meditar e olhamos honestamente para nossa mente, existe uma tend\u00eancia para que esse processo se transforme em um projeto um tanto m\u00f3rbido e depressivo. Podemos perder todo o senso de humor e sentar com a sombria determina\u00e7\u00e3o de chegar ao fundo de uma grande confus\u00e3o que n\u00e3o cheira muito bem. Ap\u00f3s um tempo, quando as pessoas est\u00e3o praticando dessa forma, come\u00e7am a sentir tanta culpa e ang\u00fastia que simplesmente ficam saturadas, e podem at\u00e9 dizer a algu\u00e9m em quem elas confiem: &#8216;Onde est\u00e1 a gra\u00e7a de tudo isso?&#8217;<\/p>\n<p>Portanto, juntamente com a vis\u00e3o clara, existe outro elemento importante e esse elemento \u00e9 a bondade. Sem clareza e honestidade parece que n\u00e3o progredimos. Ficamos sempre girando no mesmo ciclo vicioso. Mas a honestidade sem bondade nos deixa sombrios e mesquinhos, e logo come\u00e7amos a ficar como se estiv\u00e9ssemos chupando lim\u00e3o. Ficamos t\u00e3o aprisionados pela introspec\u00e7\u00e3o que perdemos qualquer contentamento ou gratid\u00e3o que pud\u00e9ssemos ter. A sensa\u00e7\u00e3o de estar irritado consigo mesmo, com a vida e com as idiossincrasias de outras pessoas torna-se dominate. Por essa raz\u00e3o, d\u00e1-se tanta \u00eanfase \u00e0 bondade.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ela \u00e9 expressa como sentimento, como o despertar de nosso cora\u00e7\u00e3o. Freq\u00fcentemente, \u00e9 denominada sensibilidade. \u00c0s vezes, \u00e9 chamada de amizade ilimitada. Entretanto, basicamente, bondade \u00e9 uma forma realista e comum de descrever o importante ingrediente que traz equil\u00edbrio ao quadro como um todo e promove nosso contato com a alegria incondicional. Como diz Thich Nhat Hanh, mestre vietnamita: &#8220;O sofrimento n\u00e3o \u00e9 suficiente&#8221;.<\/p>\n<p>A disciplina \u00e9 importante. Quando sentamos para meditar, somos estimulados a permanecer na t\u00e9cnica e a seguir fielmente as instru\u00e7\u00f5es. Entretanto, mesmo dentro da estrutura da disciplina, por que precisamos ser t\u00e3o severos? Ser\u00e1 que meditamos porque &#8220;devemos&#8221;? Porque queremos nos tornar &#8220;bons&#8221; budistas, para agradar nosso mestre ou porque n\u00e3o queremos ir para o inferno? A forma pela qual encaramos o que surge durante a medita\u00e7\u00e3o representa um treino de nossa atitude diante de tudo que surge em outras situa\u00e7\u00f5es da vida. Portanto, o desafio est\u00e1 em desenvolver compaix\u00e3o juntamente com uma vis\u00e3o clara, em treinar para estar leve e animado, em lugar de tornar-se mais infeliz e oprimido pela culpa. Se n\u00e3o for assim, tudo o que vamos conseguir \u00e9 rebaixar a n\u00f3s mesmos e a todos os demais. Nada est\u00e1 \u00e0 altura. Nada \u00e9 bom o bastante.<\/p>\n<p>A honestidade, sem bondade, humor e boa vontade, pode ser simplesmente mesquinha. Do in\u00edcio ao fim, voltar-se para o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o a fim de descobrir o que \u00e9 verdadeiro n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de honestidade, mas tamb\u00e9m de compaix\u00e3o e respeito por aquilo que vemos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante aprender a ser generoso consigo mesmo e a respeitar-se, j\u00e1 que, fundamentalmente, quando nos voltamos para nosso cora\u00e7\u00e3o e come\u00e7amos a perceber o que \u00e9 radioso e o que \u00e9 confuso, o que \u00e9 doce e amargo, estamos descobrindo n\u00e3o apenas a n\u00f3s mesmos &#8211; estamos descobrindo o universo. Quando vemos o Buda que somos, percebemos que tudo e todos s\u00e3o o Buda. Percebemos que tudo e todos est\u00e3o despertos. Tudo \u00e9 igualmente precioso, inteiro e bom. Todos s\u00e3o igualmente preciosos, inteiros e bons. Quando encaramos pensamentos e emo\u00e7\u00f5es com humor e abertura, passamos a perceber o universo da mesma maneira. N\u00e3o estamos falando apenas de nossa liberta\u00e7\u00e3o pessoal, mas de ajudar a comunidade em que vivemos, nossa fam\u00edlia, nosso pa\u00eds, todo o continente, sem falar do mundo, da gal\u00e1xia e de t\u00e3o longe quanto quisermos ir.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma interessante transi\u00e7\u00e3o que ocorre natural e espontaneamente. Come\u00e7amos a descobrir que, \u00e0 medida que h\u00e1 coragem em nos mesmos &#8211; disposi\u00e7\u00e3o para olhar, para voltar-se diretamente para o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o &#8211; e \u00e0 medida que somos generosos conosco mesmos, surge a seguran\u00e7a de que, na verdade, podemos esquecer de n\u00f3s mesmos e abrir para o mundo.<br \/>\nN\u00e3o abrimos nosso cora\u00e7\u00e3o e mente \u00e0s pessoas simplesmente porque elas desencadeiam em n\u00f3s uma confus\u00e3o com a qual n\u00e3o queremos lidar, pois n\u00e3o nos sentimos corajosos ou equilibrados o bastante. \u00c0 medida que olhamos com clareza e compaix\u00e3o para n\u00f3s mesmos, temos confian\u00e7a e coragem para olhar nos olhos dos outros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, essa experi\u00eancia de abertura em dire\u00e7\u00e3o ao mundo come\u00e7a, simultaneamente, a beneficiar a nos mesmos e aos demais. Quanto mais nos relacionamos com os outros, mais rapidamente descobrimos onde estamos bloqueados, em que ponto somos \u00e1speros, temerosos e fechados. Esse processo \u00e9 ben\u00e9fico, mas \u00e9 tamb\u00e9m doloroso. Freq\u00fcentemente, nossas rea\u00e7\u00f5es servem de muni\u00e7\u00e3o contra n\u00f3s mesmos e essa \u00e9 a \u00fanica resposta que conhecemos. N\u00e3o somos bondosos. N\u00e3o somos honestos. N\u00e3o somos corajosos e, portanto, bem que poder\u00edamos desistir de tudo agora mesmo. No entanto, se aplicarmos suavidade e aus\u00eancia de julgamento a tudo que virmos, neste exato momento, conseguiremos fazer amizade com esse constrangedor reflexo que vemos no espelho. Olhar para essa imagem transforma-se em motiva\u00e7\u00e3o para nos tornarmos mais leves e suaves, j\u00e1 que sabemos que essa \u00e9 a \u00fanica maneira de continuar a trabalhar com os outros e ser de algum benef\u00edcio para o mundo.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o come\u00e7o do crescimento. Seremos sempre crian\u00e7as enquanto n\u00e3o quisermos ser honestos e bondosos conosco mesmos. Quando simplesmente tentamos aceitar a n\u00f3s mesmos, o velho fardo da auto-import\u00e2ncia torna-se bem mais leve. Finalmente, existe espa\u00e7o para uma curiosidade aut\u00eantica e percebemos que sentimos gosto pelo que nos cerca.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Pema Ch\u00f6dr\u00f6n extra\u00eddo do livro &#8220;Quando tudo se desfaz&#8221;Publicado por GRYPHUSTraduzido por Helenice Gouv\u00eaa Em meu escrit\u00f3rio, h\u00e1 um pergaminho feito com caligrafia japonesa e uma pintura de Bodhidharma, mestre Zen. 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