{"id":5693,"date":"2018-07-23T15:45:38","date_gmt":"2018-07-23T17:45:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5693"},"modified":"2018-07-23T16:06:12","modified_gmt":"2018-07-23T18:06:12","slug":"o-dzogchen-com-relacao-aos-varios-niveis-do-caminho-budista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-dzogchen-com-relacao-aos-varios-niveis-do-caminho-budista\/","title":{"rendered":"O dzogchen com rela\u00e7\u00e3o aos v\u00e1rios n\u00edveis do caminho budista"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=5694\" rel=\"attachment wp-att-5694\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/dzogchen.jpg\" alt=\"\" width=\"292\" height=\"172\" class=\"alignleft size-full wp-image-5694\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i>Texto extra\u00eddo do livro: &#8220;O Cristal y la Via de la Luz&#8221;<br \/>de Namkha\u00ef Norbu RinpocheTraduzido para o portugu\u00eas por Karma Tenpa Dhargye<\/i><\/div>\n<hr \/>\n<hr \/>\n<hr \/>\n<hr \/>\n<p>Abandona todas as a\u00e7\u00f5es negativas,<br \/>\nAtua sempre com perfeita virtude,<br \/>\nObt\u00e9m o dom\u00ednio total<br \/>\nDe tua pr\u00f3pria mente;<br \/>\nEsta \u00e9 a ess\u00eancia do Budha.<br \/>\n<i><strong>Budha Shakyamuni<\/strong><\/i><\/p>\n<p><i>Se surge um pensamento<br \/>\nObserva o que est\u00e1 surgindo;<br \/>\nSe n\u00e3o surgem pensamentos<br \/>\nObserva este estado calmo,<br \/>\nAmbos momentos s\u00e3o igualmente vazios.<\/i><br \/>\n<i><strong>Garab Dordje<\/strong><\/i><\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar uma compreens\u00e3o do Dzogchen ser\u00e1 \u00fatil consider\u00e1-lo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 v\u00e1rios outros caminhos espirituais existentes dentro do espectro budista. Ainda que cada um deles tenha sido ensinado para benef\u00edcio dos seres com um n\u00edvel particular de capacidade, todos s\u00e3o igualmente preciosos.<\/p>\n<p>Todos os caminhos em quest\u00e3o t\u00eam um objetivo comum: a supera\u00e7\u00e3o do problema que surgiu quando o indiv\u00edduo entrou no dualismo, desenvolvendo um esp\u00fario &#8220;eu objetivo&#8221; ou &#8220;ego&#8221; que experimenta o mundo como algo separado de s\u00ed, externo  e objetivo, e que em cada momento trata de manipular esse mundo com o objetivo de obter satisfa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. Na verdade, jamais se poder\u00e1 alcan\u00e7ar satisfa\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a desta maneira, j\u00e1 que a causa do sofrimento e da insatisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outra que a sensa\u00e7\u00e3o fundamental de estar incompleto que \u00e9 conseq\u00fcencia inevit\u00e1vel de encontrar-se no estado dual e, ainda mais, todos os fen\u00f4menos aparentemente externos em que tentamos basear nossa satisfa\u00e7\u00e3o e nossa seguran\u00e7a  s\u00e3o transit\u00f3rios ou impermanentes.<\/p>\n<p>Budha shakyamuni foi um indiv\u00edduo totalmente realizado que manifestou um nascimento humano na \u00cdndia, nos sec. V a.C, com o objetivo de poder ensinar outros seres por meio de suas palavras e de seu exemplo. Como o sofrimento \u00e9 algo muito concreto, que todo mundo conhece e quer evitar na medida do poss\u00edvel, o Budha falou sobre ele no seu primeiro ensinamento, as &#8220;Quatro Nobres Verdades&#8221;. A primeira verdade nos exhorta a descobrir o fato de que sofremos, assinalando a exist\u00eancia da insatisfa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e inelut\u00e1vel que \u00e9 inerente \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A Segunda Nobre Verdade explica a causa da insatisfa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o estado de dualidade e a ansia insasi\u00e1vel que lhe \u00e9 inerente: o sujeito valoriza seus objetos e tenta agarr\u00e1-los  por todos os meios e, por sua vez, esta ansia afirma e sustenta a ilus\u00f3ria exist\u00eancia do sujeito como uma entidade separada da totalidade integrada do universo.<br \/>\nA Terceira Nobre Verdade ensina que o sofrimento cessar\u00e1 se superarmos o dualismo e alcan\u00e7armos a reintegra\u00e7\u00e3o, de modo que n\u00e3o nos sintamos separados da plenitude do universo.  <\/p>\n<p>Finalmente, a Quarta Nobre Verdade explica que h\u00e1 um caminho que conduz \u00e0 cessa\u00e7\u00e3o do sofrimento, que \u00e9 descrito pelo conjunto dos ensinamentos budistas.<\/p>\n<p>Embora todas as tradi\u00e7\u00f5es reconhe\u00e7am a exist\u00eancia do problema b\u00e1sico do sofrimento, seus m\u00e9todos para  enfrent\u00e1-lo e conseguir  que o indiv\u00edduo recupere a viv\u00eancia da unidade primordial s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o hinayana do budismo o &#8220;caminho da ren\u00fancia&#8221;, ensinado pelo Budha sahkyamuni em sua forma humana \u00e9 expresso mais tarde em forma escrita no que se conhece como os sutras.  A tradi\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o considera o ego como uma \u00e1rvore venenosa, e o m\u00e9todo que aplica poderia ser comparado com escavar para arrancar uma a uma as ra\u00edzes desta \u00e1rvore. O indiv\u00edduo tem que superar todos os h\u00e1bitos e tend\u00eancias que se consideram negativas e obst\u00e1culos para a libera\u00e7\u00e3o. Em conseq\u00fcencia, neste n\u00edvel h\u00e1 muitas regras de conduta, estabelecidas por votos, que regulam todas nossas a\u00e7\u00f5es. O ideal \u00e9 o do monge ou da monja, que toma o m\u00e1ximo n\u00famero de votos; muito bem, independentemente de que sejamos monges ou praticantes laicos, se considera  a nossa forma de ser comum como algo impuro a que devemos renunciar. Trabalhando da maneira descrita, mediante o desenvolvimento de v\u00e1rios estados de medita\u00e7\u00e3o devemos recriarnos como indiv\u00edduos puros que transcenderam as causas do sofrimento, ou seja, como arhats que n\u00e3o voltam ao ciclo de nascimentos e mortes na exist\u00eancia condicionada.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do mahayana, perseguir desta maneira somente a pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o e tentar transcender o sofrimento enquanto os outros continuam sofrendo, n\u00e3o \u00e9 precisamente ideal. No mahayana considera-se que se deve trabalhar por um bem maior que o pr\u00f3prio, antepondo ao desejo de alcan\u00e7ar para s\u00ed mesmo a realiza\u00e7\u00e3o, o desejo de que todos os demais seres se realizem, e inclusive voltando constantemente ao ciclo de sofrimento para ajudar a outros a trancende-lo. Quem pratica desta maneira \u00e9 chamado de bodhisatva.<\/p>\n<p>Embora o hinayana ou &#8220;ve\u00edculo menor&#8221; e o mahayana ou &#8220;ve\u00edculo maior&#8221; perten\u00e7am ambos ao caminho da ren\u00fancia, seus enfoques caracter\u00edsticos s\u00e3o diferentes. Posto que para cortar uma a uma  as ra\u00edzes da \u00e1rvore se investe muito tempo, no mahayana a pessoa se concentra basicamente em cortar  a raiz principal, de modo que as outras ra\u00edzes sequem por si mesmas. A forma de cortar a raiz principal \u00e9 trabalhar para descobrir a vacuidade essencial, tanto do sujeito como de todos os objetos, e desenvlver a compaix\u00e3o suprema. Cabe assinalar que enquanto no mahayana se postula e se deve descobrir a vacuidade tanto do sujeito como de seus objetos, no hinayana somente se postula e deve se descobrir a vacuidade do ego.<\/p>\n<p>Enquanto que no hinayana \u00e9 imprescind\u00edvel governar cada um de nossos atos mediante votos. No mahayana o tipo de inten\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de nossos atos \u00e9 considerada mais importante que a natureza dos atos mesmos. H\u00e1 uma hist\u00f3ria que ilustra muito bem esta diferen\u00e7a de enfoque. &#8220;Um rico mercador que era disc\u00edpulo de Budha foi com um grande n\u00famero de mercadores e servos a uma ilha buscar algumas das gemas pelas quais a ilha era famosa. A bordo do barco, durante a viagem de regresso, o mercador se inteirou de que um dos mercadores planejava matar o resto dos passajeiros, que eram centenas, com o objetivo de roubar o carregamento de j\u00f3ias. O mercador, que conhecia o homem e sabia que, com efeito, este era capaz de matar toda aquela gente, se perguntou que fazer a respeito e, finalmente, apesar de que ele havia recebido de Budha um voto que lhe proibia de tirar a vida de qualquer outro ser, n\u00e3o teve outra alternativa que matar ao assassino-ladr\u00e3o-em-potencial.<\/p>\n<p>Apesar  de que n\u00e3o havia tido outra alternativa para salvar seus companheiros, o mercador  tinha uma terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de culpa pelo que havia feito e, em conseq\u00fcencia, t\u00e3o logo regressou a seu pa\u00eds foi ver Shakyamuni para confessar-lhe sua m\u00e1 a\u00e7\u00e3o. No entanto, este lhe disse que n\u00e3o havia feito mal, j\u00e1 que a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia sido matar sen\u00e3o salvar e proteger aos outros e, mais ainda, posto que de fato havia salvo a vida de centenas de pessoas e tamb\u00e9m havia salvo ao ladr\u00e3o do terr\u00edvel carma da matar aquele grande n\u00famero de pessoas, assim como das conseq\u00fcencias inevit\u00e1veis de t\u00e3o m\u00e1 a\u00e7\u00e3o, o mercador havia levado a cabo uma boa a\u00e7\u00e3o&#8221;. Ao dar tanta import\u00e2ncia \u00e0s inten\u00e7\u00f5es que h\u00e1 atr\u00e1s de nossas a\u00e7\u00f5es, o mahayana considera que toda pr\u00e1tica deve realizar-se em benef\u00edcio dos demais.<br \/>\nO budismo zen \u00e9 um caminho do mahayana. Muito bem, posto que freq\u00fcentemente de diz que o zen \u00e9 um caminho n\u00e3o-gradual, muita gente pensa que deve ser o mesmo que o dzogchen, que tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser considerado gradual. No entanto, tantos os m\u00e9todos dos sistemas em quest\u00e3o como os resultados obtidos mediante a aplica\u00e7\u00e3o dos mesmos s\u00e3o fundamentalmente diferentes.<br \/>\nPodemos dizer que os dois n\u00edveis do caminho da ren\u00fancia &#8211; o hinayana e o mahayana &#8211; trabalham, sobretudo ao n\u00edvel do corpo. O tantrismo, ao contr\u00e1rio, trabalha sobre o n\u00edvel da energia ou &#8220;fala&#8221;. <\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a energia \u00e9 menos concreta que o corpo e menos f\u00e1cil de perceber. Como \u00e9 mais dif\u00edcil entender a energia e seu funcionamento que compreender o simples fato do sofrimento, a capacidade que se requer para praticar o tantrismo \u00e9 superior a necess\u00e1ria para praticar o caminho da ren\u00fancia. Embora o termo s\u00e2nscrito tantra e seu equivalente tibetano gui\u00fc, chegaram a denotar os textos principais que cont\u00eam os ensinamentos t\u00e2ntricos, o verdadeiro sentido da palavra \u00e9 &#8220;continuidade&#8221;2: todos os fen\u00f4menos s\u00e3o vazios, por\u00e9m seguem manifestando-se. Todos os m\u00e9todos t\u00e2ntricos trabalham com esta continuidade, tomando como fundamento e ponto de partida a vacuidade de todos os fen\u00f4menos que os sutras nos levam a descobrir. (Como veremos mais adiante, tamb\u00e9m no ensinamento dzogchen h\u00e1 uma continuidade entre a Base, o Caminho e o Fruto do ensinamento: o Fruto \u00e9 a plena presen\u00e7a da Base, e o Caminho n\u00e3o \u00e9 mais que continuar nessa presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do ensinamento dos sutras, a dimens\u00e3o relativa \u00e9 um obst\u00e1culo que temos que renunciar com o objetivo de descobrir o n\u00edvel absoluto, que corresponde a vacuidade. Ao contr\u00e1rio, o tantrismo utiliza o relativo para acelerar o progresso no caminho que nos leva al\u00e9m da dimens\u00e3o em quest\u00e3o, e sua atitude com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s paix\u00f5es as quais num n\u00edvel s\u00fatrico se deve renunciar, \u00e9 a expressa por um ditado t\u00e2ntrico: &#8220;enquanto mais madeira-paix\u00f5es tenhamos, mais fogo-realiza\u00e7\u00f5es obteremos&#8221;.<\/p>\n<p>Existem tantras externos e internos, que tamb\u00e9m se chamam tantras inferiores e superiores. Ambos empregam a visualiza\u00e7\u00e3o como m\u00e9todo principal, por\u00e9m os tantras externos ou inferiores come\u00e7am trabalhando ao n\u00edvel da conduta externa do praticante a fim de conseguir uma purifica\u00e7\u00e3o de seus pensamento e a\u00e7\u00e3o que o prepare para receber a Sabedoria. Assim pois, os tantras externos come\u00e7am com o que se chama caminho de purifica\u00e7\u00e3o, que constitui o n\u00edvel inferior do vajrayana ou &#8220;Ve\u00edculo Indestrut\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>O n\u00edvel superior do vajrayana \u00e9 o caminho de transforma\u00e7\u00e3o que come\u00e7a com o terceiro e supremo dos tantras externos, e inclui os tr\u00eas tantras internos. Igualmente aos externos, os tantras internos tomam como fundamento e ponto de partida a vacuidade de todos os fen\u00f4menos, por\u00e9m usam principalmente o yoga interno que trabalha sobre o sistema de energia sutil do organismo a fim de provocar uma transforma\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o total do praticante, que se converte na dimens\u00e3o pura do individuo realizado {Yidam} que se visualizou. Estes m\u00e9todos foram ensinados por Budha em um &#8220;corpo de manifesta\u00e7\u00e3o&#8221; pertencente ao Sambhogakaya e n\u00e3o no corpo f\u00edsico, e tamb\u00e9m por meio de outras manifesta\u00e7\u00f5es da dimens\u00e3o em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o do tantra se recebe originalmente atrav\u00e9s de uma manifesta\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o Sambhogakaya que se apresenta a um mestre que tem claridade vision\u00e1ria necess\u00e1ria para percebe-la, e o m\u00e9todo de pr\u00e1tica a ser aplicado utiliza a manifesta\u00e7\u00e3o correspondente. Uma vez que a pessoa \u00e9 iniciada na pr\u00e1tica por um mestre, mediante a visualiza\u00e7\u00e3o e a reintegra\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria energia sutil, o indiv\u00edduo segue o exemplo da transmiss\u00e3o original e se manifesta como deidade, entrando na dimens\u00e3o pura do mandala. Ent\u00e3o a pessoa descobre por si mesma o sambhogakaya, transcendendo a dimens\u00e3o mundana dos elementos pesados, que s\u00e3o transformados em suas ess\u00eancias. Quando a pessoa morre, entra na dimens\u00e3o da luz e da cor que constituem a ess\u00eancia dos elementos e, nesse estado purificado, ainda que a pessoa n\u00e3o esteja ativa no sentido individual, segue sendo capaz de beneficiar continuamente outros seres. Diz-se que o praticante t\u00e2ntrico desenvolvido \u00e9 como um filhote de \u00e1guia, que pode voar t\u00e3o pronto rompe a casca do ovo: no mesmo momento em que a pessoa morre, sem entrar no bardo ou estado intermedi\u00e1rio, se manifesta como a divindade de cuja pr\u00e1tica conseguiu resultados durante sua vida. Esta realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente diferente da simples cessa\u00e7\u00e3o do ciclo de nascimento e morte que se persegue na pr\u00e1tica do n\u00edvel s\u00fatrico. <\/p>\n<p>Muito bem, apesar de que o ve\u00edculo t\u00e2ntrico de transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 mais r\u00e1pido que os ve\u00edculos do caminho da ren\u00fancia, os quais produzem seus resultados depois de muitas exist\u00eancias, na vida di\u00e1ria \u00e9 muito dif\u00edcil desenvolver o controle sobre a energia interna e o poder de concentra\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para levar a sua culmina\u00e7\u00e3o o processo de transforma\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio do tantrismo: para desenvolver as mencionadas faculdades se precisam muitos anos de retiro solit\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio, o dzogchen n\u00e3o \u00e9 nem sutra nem tantra; a base para sua comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a Introdu\u00e7\u00e3o ao Estado Primordial e n\u00e3o em transformar-se em uma manifesta\u00e7\u00e3o, como se faz no tantrismo. As pr\u00e1ticas principais do dzogchen trabalham diretamente no n\u00edvel da Mente para permitir ao indiv\u00edduo descobrir o Estado Primordial, ao que \u00e9 introduzido diretamente pelo mestre, e continuar nele at\u00e9 a obten\u00e7\u00e3o da Grande Transfer\u00eancia ou o Corpo de Luz. Cabe mencionar que, tal como na realiza\u00e7\u00e3o a que conduz o tantrismo difere das que se obt\u00e9m como resultado de aplicar as pr\u00e1ticas dos ve\u00edculos do sutra, a Grande Transfer\u00eancia e o Corpo de Luz s\u00e3o pr\u00f3prios dos ensinamentos dzogchen e n\u00e3o correspondem as realiza\u00e7\u00f5es das pr\u00e1ticas dos ve\u00edculos do sutra e do tantra. Estes n\u00edveis n\u00e3o ser\u00e3o discutidos aqui, por\u00e9m no cap\u00edtulo sobre o Fruto do ensinamento dzogchen.<\/p>\n<p>Embora, como vimos, o dzogchen trabalha principalmente sobre o n\u00edvel da Mente, os ensinamentos do ve\u00edculo em quest\u00e3o tamb\u00e9m comunicam pr\u00e1ticas que funcionam no n\u00edvel da Fala e no n\u00edvel do Corpo. No entanto, estas s\u00e3o utilizadas para levar o praticante ao Estado de n\u00e3o-dualidade da Contempla\u00e7\u00e3o e s\u00e3o secund\u00e1rias em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00e1tica da contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o dual. Ainda que somente esta \u00faltima pr\u00e1tica possa ser propriamente chamada dzogchen, um praticante deste ve\u00edculo pode empregar pr\u00e1ticas de qualquer dos n\u00edveis do sutra e do tantra se achar necess\u00e1rio a fim de superar os obst\u00e1culos que possam bloquear o Estado de Contempla\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDevido \u00e0s caracter\u00edsticas comuns de seus m\u00e9todos, o dzogchen \u00e9 conhecido como o caminho da autolibera\u00e7\u00e3o. Para aplica-lo n\u00e3o temos que renunciar a nada, nem purificar ou transformar nada; o que surja por si mesmo como parte de nossa vis\u00e3o c\u00e1rmica \u00e9 utilizado como caminho. O grande mestre Pa Dampa Sanguie disse uma vez: &#8220;O que condiciona uma pessoa, mantendo-a no estado dualista, n\u00e3o s\u00e3o as circunst\u00e2ncias que surgem como parte de sua vis\u00e3o c\u00e1rmica. \u00c9 o apego dessa pessoa para com o que surge o que faz que isso a condicione&#8221;. Para cortar o apego da maneira mais r\u00e1pida e efetiva temos que por em a\u00e7\u00e3o a capacidade espont\u00e2nea de autolibera\u00e7\u00e3o inerente ao Estado Primordial.<br \/>\nMuito bem, o termo &#8220;autolibera\u00e7\u00e3o&#8221; n\u00e3o deve nos fazer conceber um &#8220;si mesmo&#8221; ou ego existente de modo intr\u00ednseco que deva liberar-se. Como vimos, o fundamento e ponto de partida do n\u00edvel dzogchen \u00e9 o conhecimento de que todos os fen\u00f4menos s\u00e3o &#8220;vazios de natureza pr\u00f3pria&#8221; (ou seja, o conhecimento de que nenhum deles existe de maneira intr\u00ednseca). A autolibera\u00e7\u00e3o do dzogchen implica permitir que qualquer manifesta\u00e7\u00e3o no campo da experi\u00eancia do praticante surja tal como \u00e9, sem julga-la como boa ou m\u00e1, bonita ou feia. Se n\u00e3o entram em jogo o apego e a fixa\u00e7\u00e3o, aquilo que surge &#8211; independentemente de que se trate de um pensamento discursivo ou da conceitualiza\u00e7\u00e3o intuitiva de um fen\u00f4meno aparentemente externo &#8211; se liberar\u00e1 automaticamente por si mesmo no preciso momento de sua manifesta\u00e7\u00e3o, sem que fa\u00e7a falta realizar esfor\u00e7o algum e sem que intervenham a voli\u00e7\u00e3o ou a inten\u00e7\u00e3o. Se praticarmos dessa maneira, as sementes da planta venenosa da vis\u00e3o dualista nunca ter\u00e3o a oportunidade de germinar e, portanto, a indesej\u00e1vel planta jamais poder\u00e1 lan\u00e7ar ra\u00edzes e crescer.<\/p>\n<p>Assim pois, o praticante de dzogchen vive sua vida de uma maneira comum, sem ter que sujeitar-se a um c\u00f3digo de regras religiosas, por\u00e9m sem que jamais se interrompa sua viv\u00eancia do Estado de inseparabilidade primordial, pois tudo o que surge como parte de sua experi\u00eancia se integra com dito Estado sem que ele manifeste sinal externo algum de estar praticando. Isto \u00e9 o que indicam os termos &#8220;autolibera\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;dzogchen&#8221; ou &#8220;Grande Perfei\u00e7\u00e3o&#8221;, e &#8220;contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o-dual&#8221; ou simplesmente contempla\u00e7\u00e3o. Ainda que durante minha educa\u00e7\u00e3o na universidade mon\u00e1stica estudei e pratiquei todos os caminhos, meu mestre Changchub Dordje me ajudou a compreender o valor particular dos ensinamentos dzogchen, que s\u00e3o os que estou principalmente interessado em ensinar.<\/p>\n<p>A fim de apresentar com claridade uma grande parte da terminologia que se usa geralmente na discuss\u00e3o dos ensinamentos, em continua\u00e7\u00e3o se inclui um quadro esquem\u00e1tico no qual se compara e relaciona o dzogchen com os v\u00e1rios n\u00edveis de tantra e os dois ve\u00edculos do sutra. \u00c9 necess\u00e1rio advertir, n\u00e3o obstante, que o mesmo n\u00e3o implica uma hierarquia de ensinamentos com o dzogchen na c\u00fapula. Com efeito, todo o esquema pode ser invertido de modo que o dzogchen fique na base, ou tamb\u00e9m poderia deixar-se como est\u00e1, por\u00e9m lido desde a base at\u00e9 acima, que \u00e9 a seq\u00fc\u00eancia de apresenta\u00e7\u00e3o dos diferentes n\u00edveis no caminho gradual, no qual cada est\u00e1gio tem que ser completado antes de entrar no seguinte. O dzogchen \u00e9 diferente do caminho gradual porque nele o mestre introduz o disc\u00edpulo diretamente na &#8220;Grande Perfei\u00e7\u00e3o&#8221;, que constitui o cora\u00e7\u00e3o de todos os caminhos.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos caminhos porisso a cada indiv\u00edduo temos que oferecer um ensinamento apropriado para sua capacidade. E se para algu\u00e9m o ensinamento do sutra \u00e9 o mais apropriado, na medida em que para essa pessoa seja o mais efetivo poder\u00e1 dizer-se que para ele ou ela \u00e9 o &#8220;mais alto&#8221;. Qualquer uso das palavras &#8220;alto&#8221; ou &#8220;mais alto&#8221; em rela\u00e7\u00e3o com os ensinamentos dzogchen, deveria entender-se sempre tendo em conta esta importante advert\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto extra\u00eddo do livro: &#8220;O Cristal y la Via de la Luz&#8221;de Namkha\u00ef Norbu RinpocheTraduzido para o portugu\u00eas por Karma Tenpa Dhargye Abandona todas as a\u00e7\u00f5es negativas, Atua sempre com perfeita virtude, Obt\u00e9m o dom\u00ednio total De tua pr\u00f3pria mente; &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-dzogchen-com-relacao-aos-varios-niveis-do-caminho-budista\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5694,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39,25],"tags":[86],"class_list":["post-5693","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dzogchen","category-mestres","tag-namkhai-norbu"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5693"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5699,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5693\/revisions\/5699"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5694"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}