{"id":5848,"date":"2018-10-04T11:25:50","date_gmt":"2018-10-04T13:25:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=5848"},"modified":"2020-06-10T16:58:29","modified_gmt":"2020-06-10T18:58:29","slug":"to","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/to\/","title":{"rendered":"T&#8217;\u00f4"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a name=\"inicio\"><\/a><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4-300x205.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"205\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5928\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4-300x205.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4-768x525.jpg 768w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4-439x300.jpg 439w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/T\u2019\u00f4.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><i><b>Texto de <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/thich-nhat-hanh\/\">Thich Nhat Hanh<\/a>, <br \/>extra\u00eddo do livro&#8221;<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/flamboyant-em-chamas\/\">Flamboyant em chamas<\/a>&#8220;<\/b><\/i><\/div>\n<p>T\u2019&ocirc; para de tocar flauta. Ela sabe que come&ccedil;ou a chorar. Uma l&aacute;grima corre ao longo da face, contorna os l&aacute;bios e penetra na boca: ela sente o gosto salgado desta l&aacute;grima. A menina coloca a flauta no colo, levanta o canto de sua camisa <i>b&aacute;-ba <\/i>e enxuga as l&aacute;grimas. Ela sorri para ela mesma.<\/p>\n<p>Os bosques s&atilde;o t&atilde;o frescos de manh&atilde;. T\u2019&ocirc; escuta o murm&uacute;rio das folhas. Sabe que se n&atilde;o fosse cega, teria apenas de erguer os olhos a fim de ver as folhas que tremulam e que acenam para ela. &Eacute; primavera: as folhas est&atilde;o verdes e amarelas e o sol de abril, passando atrav&eacute;s delas, chega aos olhos de T\u2019&ocirc;. Sabe tamb&eacute;m que, embora cega, o raio de sol suave e benfazejo de certo modo consegue atingir seus olhos. Entretanto, parece que ela realmente esqueceu como as folhas podem ser verdes desde que ficou cega, h&aacute; seis anos. Ela pode tamb&eacute;m ter esquecido os tra&ccedil;os e express&otilde;es exatas do rosto do pai, pois fazem agora dois anos que ele morreu.<\/p>\n<p>T\u2019&ocirc; s&oacute; se lembra claramente dos tra&ccedil;os da m&atilde;e, porque cada noite, antes de dormir, levanta a m&atilde;o e toca seu rosto. Ela passa a m&atilde;o neste rosto como se quisesse descobrir e redescobrir seus tra&ccedil;os, como se quisesse aprender ainda e sempre a mesma li&ccedil;&atilde;o para nunca esquecer uma s&oacute; linha do rosto daquela que lhe &eacute; a pessoa mais querida do mundo. Ela descobriu tamb&eacute;m que os tra&ccedil;os do rosto da m&atilde;e se enrugavam &agrave; medida que passavam os dias.<\/p>\n<p>T\u2019&ocirc; mal tem nove anos, mas toca flauta muito bem. Foi o Pai que lhe ensinou como tocar. Ele era lenhador e viviam na orla da floresta. T\u2019&ocirc; era uma menininha feliz. Ia &agrave; escola na Aldeia de Cima. Cada manh&atilde;, sa&iacute;a com o pai e se despediam no ponto onde a estrada da montanha se bifurcava no p&eacute; da colina. O pai de T\u2019&ocirc;, com a machadinha no ombro, continuava a subir rumo &agrave; floresta mais densa, enquanto T\u2019&ocirc; seguia um senda familiar e atravessava duas outras colinas, antes de chegar finalmente &agrave; escola da Aldeia. Debaixo do bra&ccedil;o, carregava uma pasta de madeira que continha seu caderno, sua caneta, l&aacute;pis e borracha e uma flauta de bambu que ela mesma tinha feito, ajudada pelo pai. Ela segurava sua pasta com a m&atilde;o direita; com a esquerda, um tinteiro fechado muito cuidadosamente com uma rolha balan&ccedil;ava-se na extremidade de um barbante enrolado no dedo. A pasta de T\u2019&ocirc; era muito leve, pois o pai tinha utilizado t&aacute;buas muito finas para faz&ecirc;-la. Ele n&atilde;o utilizava pregos, mas cortava meticulosamente juntas e unia uma t&aacute;bua com outra. Ap&oacute;s algum tempo,a pasta de T\u2019&ocirc; tornou-se escura e brilhante. Havia algumas manchas de tinta preta feitas por T\u2019&ocirc;. Sua flauta tamb&eacute;m tinha ficado muito brilhante. O pai tinha trazido um peda&ccedil;o de bambu da floresta para fazer sua flauta. Ele tinha ensinado como esfreg&aacute;-la com um peda&ccedil;o de folha de bananeira para lhe dar um belo acabamento.<\/p>\n<p>T\u2019&ocirc; voltava da escola l&aacute; pelas duas horas. A m&atilde;e lhe servia o almo&ccedil;o. As quatro, o pai aparecia com um carregamento de lenha nas costas. Ap&oacute;s o jantar, ia com ela &agrave; margem do riacho ou &agrave; orla da floresta. Toda semana havia uma feira na Aldeia de Baixo. Seus pais e ela sa&iacute;am de madrugada numa grande carro&ccedil;a carregada de lenha e sempre que chegavam &agrave; Aldeia do Alto, T\u2019&ocirc; estava exausta. O pai parava e fazia com que subisse e sentasse na pilha de lenha da carro&ccedil;a. Quando toda a lenha tinha sido vendida, a m&atilde;e de T\u2019&ocirc; comprava arroz, outras compras e, &eacute; claro, um docinho especial para T\u2019&ocirc;. A uma hora voltavam para casa. A m&atilde;e de T\u2019&ocirc; cozinhava ent&atilde;o uma panela de arroz, mas T\u2019&ocirc; nunca estava com muita fome, pois tinha comido uns docinhos no caminho de volta. Por isso, pedia licen&ccedil;a para ir brincar l&aacute; fora. Muitas vezes ela ia at&eacute; a orla da floresta.<\/p>\n<p>A casa deles, pequena e de madeira, era constru&iacute;da no flanco da colina, abaixo da floresta. A cerca de trezentos metros corria um riacho que sa&iacute;a da parte de baixo da colina. T\u2019&ocirc; gostava muito de brincar &agrave; beira deste riacho. Algumas vezes colhia estranhas e belas flores do campo das quais ignorava os nomes.<\/p>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-morte-do-pai\/\">Pr\u00f3ximo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<div style=\"text-align:right\"><a href=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Thich Nhat Hanh, extra\u00eddo do livro&#8221;Flamboyant em chamas&#8220; T\u2019&ocirc; para de tocar flauta. Ela sabe que come&ccedil;ou a chorar. 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