{"id":598,"date":"2013-04-26T18:41:59","date_gmt":"2013-04-26T20:41:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.shunya.com.br\/shunya\/blog\/?p=598"},"modified":"2018-02-10T21:41:08","modified_gmt":"2018-02-10T23:41:08","slug":"o-significado-do-satori","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-significado-do-satori\/","title":{"rendered":"O significado do satori"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?attachment_id=1542\" rel=\"attachment wp-att-1542\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/satori.gif\" alt=\"\" width=\"155\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1542\" \/><\/a><\/p>\n<p>Satori \u00e9 um termo japon\u00eas, Wu em chin\u00eas. As palavras s\u00e2nscritas bodhi e budha se originam da mesma raiz, bud, \u201cser consciente de\u201d, \u201cdespertar\u201d. Buda \u00e9, portanto, \u201co desperto\u201d, \u201co iluminado\u201d, enquanto que bodhi \u00e9 \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cBudismo\u201d significa o ensinamento do iluminado, ou seja, Budismo \u00e9 a doutrina da Ilumina\u00e7\u00e3o. Assim, o que o Buda ensina \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de bodhi, que \u00e9 o satori. O satori \u00e9 o centro de todos os ensinamentos budistas. Alguns podem crer que o satori \u00e9 caracter\u00edstico do Budismo Mahayana, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 assim. Os antigos budistas tamb\u00e9m falam sobre isso, a realiza\u00e7\u00e3o de bodhi e, enquanto falem de bodhi, deve-se dizer que baseiam sua doutrina na experi\u00eancia do satori.<\/p>\n<p>Devemos distinguir entre prajna e vijnana. Podemos dividir o conhecimento em duas categorias: conhecimento intuitivo, que \u00e9 prajna, enquanto que o conhecimento discursivo \u00e9 vijnana. Para uma melhor distin\u00e7\u00e3o, o prajna capta a realidade em sua unidade, em sua totalidade; o vijnana analisa-a, dividindo-a em sujeito e objeto. Aqui est\u00e1 uma flor; podemos tomar esta flor como uma representa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio universo. Falamos sobre as p\u00e9talas, o p\u00f3len, o estame e o caule; isto \u00e9 uma an\u00e1lise f\u00edsica. Ou podemos analis\u00e1-la quimicamente, determinando quanto cont\u00e9m de oxig\u00eanio, hidrog\u00eanio, etc. Os qu\u00edmicos analisam uma flor, enumeram todos os seus elementos e dizem que o agregado de todos aqueles elementos constitui a flor. Por\u00e9m, eles n\u00e3o esgotaram a flor, apenas a analisaram. Esta \u00e9 a forma vijnana de entender a flor. A forma prajna consiste em entend\u00ea-la tal como \u00e9, sem analis\u00e1-la ou cort\u00e1-la em peda\u00e7os. \u00c9 capt\u00e1-la na sua unidade, na sua totalidade, no seu \u201ctal-qual-ismo\u201d 1 (sono mane, em japon\u00eas).<br \/>\nSomos, de uma maneira geral, atra\u00eddos para o conhecimento anal\u00edtico, ou entendimento discriminativo e dividimos a realidade em diversas partes. N\u00f3s a dissecamos e, ao faz\u00ea-lo, matamos a realidade. Quando tivermos terminado a nossa an\u00e1lise, teremos assassinado a realidade e esta realidade morta n\u00f3s julgamos que \u00e9 nossa compreens\u00e3o dela. Quando vemos a realidade morta, depois de t\u00ea-la analisado, dizemos que a entendemos, mas o que entendemos n\u00e3o \u00e9 a realidade mesma, mas o seu cad\u00e1ver ap\u00f3s ter sido mutilado pelo nosso intelecto e sentidos. N\u00e3o conseguimos perceber que o resultado dessa disseca\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a realidade mesma e, quando tomamos essa an\u00e1lise como base do nosso entendimento, \u00e9 inevit\u00e1vel que nos extraviemos para bem longe da verdade. Porque, desta forma, nunca alcan\u00e7aremos a solu\u00e7\u00e3o final do problema da realidade.<br \/>\nO Prajna capta esta realidade em sua unidade, em sua totalidade, em seu \u201ctal-qual-ismo\u201d. O Prajna n\u00e3o divide a realidade em nenhuma forma de dicotomia; tamb\u00e9m n\u00e3o a disseca metaf\u00edsica, f\u00edsica ou quimicamente. A divis\u00e3o da realidade \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do vijnana, que \u00e9 muito \u00fatil num sentido pr\u00e1tico, mas o prajna \u00e9 diferente.<br \/>\nO vijnana jamais alcan\u00e7a o infinito. Quando escrevemos os n\u00fameros 1, 2, 3, etc., nunca chegamos a um final, porque a s\u00e9rie continua at\u00e9 o infinito. Ao somarmos todos estes n\u00fameros individuais, tentamos chegar ao total destes n\u00fameros, mas, como os n\u00fameros s\u00e3o intermin\u00e1veis, essa totalidade nunca pode ser alcan\u00e7ada. O prajna, por outro lado, intui o conjunto da totalidade, em vez de mover-se atrav\u00e9s de 1, 2, 3, at\u00e9 o infinito; o prajna capta as coisas como um todo. N\u00e3o apela para a discrimina\u00e7\u00e3o; capta a realidade por dentro, digamos assim. O vijnana, que \u00e9 discursivo, tenta captar a realidade objetivamente, isto \u00e9, somando objetivamente uma coisa depois da outra. Mas esse m\u00e9todo objetivo nunca pode alcan\u00e7ar seu fim, porque as coisas s\u00e3o infinitas e nunca podemos esgot\u00e1-las objetivamente. Subjetivamente, no entanto, podemos inverter esta posi\u00e7\u00e3o e chegar ao interior. Ao olhar esta flor objetivamente, nunca podemos chegar \u00e0 sua ess\u00eancia, ou vida, mas quando viramos esta posi\u00e7\u00e3o pelo avesso, entramos na flor e nos tornamos a pr\u00f3pria flor; vivenciamos atrav\u00e9s do processo de crescimento: eu sou o broto, eu sou o estame, eu sou o bot\u00e3o e, finalmente, eu sou a flor e a flor sou eu. Esta \u00e9 a maneira prajna de compreender a flor.<br \/>\nNo Jap\u00e3o existe um poema de dezessete s\u00edlabas chamado haiku. Um deles, composto por uma poetiza moderna, diz em tradu\u00e7\u00e3o literal:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Oh, ipom\u00e9ia!<\/em><br \/>\n<em> Aprisionada no balde,<\/em><br \/>\n<em> Pe\u00e7o \u00e1gua.<\/em><\/p>\n<p>O que vou contar agora \u00e9 o incidente que a levou a comp\u00f4-lo. Numa manh\u00e3 cedinho, a poetiza saiu para retirar \u00e1gua do po\u00e7o e viu a ipom\u00e9ia presa numa vara de bambu, amarrada ao balde. A ipom\u00e9ia em plena flora\u00e7\u00e3o tem a sua apar\u00eancia mais bonita de manh\u00e3 cedo, ap\u00f3s uma noite orvalhada. \u00c9 brilhante, interessante, vivifica\u00acdora; reflete a gl\u00f3ria celestial ainda n\u00e3o emba\u00e7ada por coisas terrenas. A poetiza ficou t\u00e3o impressionada com sua beleza imaculada que se manteve em sil\u00eancio por um instante; estava t\u00e3o absorvida na flor, que perdeu a fala. Passaram-se alguns segundos, pelo menos, antes que pudesse exclamar: \u201cOh, ipom\u00e9ia!\u201d. Fisicamente o intervalo foi de um ou dois segundos, ou talvez mais, mas, metafisicamente, foi a eternidade, como a pr\u00f3pria beleza \u00e9. Psicologicamente, a poetiza era o pr\u00f3prio inconsciente, no qual n\u00e3o havia dicotomia de nenhum tipo. (A poetiza era a pr\u00f3pria vis\u00e3o iluminada, na qual n\u00e3o existe dualidade nenhuma.)<br \/>\nA poetiza era a ipom\u00e9ia e a ipom\u00e9ia era a poetiza. N\u00e3o havia mais \u201cidentidade pr\u00f3pria\u201d [2] da flor e da poetiza (N\u00e3o havia mais a separa\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto). Foi apenas quando se tornou consciente de si mesma que exclamou \u201cOh, ipom\u00e9ia!\u201d. Quando disse isso a consci\u00eancia (objetiva) reviveu nela. Mas ela n\u00e3o queria incomodar a flor, porque embora n\u00e3o fosse dif\u00edcil desamarr\u00e1-la da vara de bambu, ela achou que tocar a flor com m\u00e3os humanas seria uma profana\u00e7\u00e3o da beleza. Ent\u00e3o, dirigiu-se a um vizinho e pediu-lhe \u00e1gua.<br \/>\nAo analisar este poema, pode-se imaginar como ela ficou diante da flor perdendo-se a si mesma. N\u00e3o havia ent\u00e3o nem flor nem poetiza, apenas \u201calgo\u201d, que n\u00e3o era nem flor nem poetiza. Mas, quando recobrou sua consci\u00eancia (objetiva), havia a flor e havia ela pr\u00f3pria. Havia um objeto que se denominava ipom\u00e9ia e havia aquela que falava de uma bifurca\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto. Antes da bifurca\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia nada a que ela pudesse dar express\u00e3o, ela mesma era n\u00e3o-existente. Quando disse: \u201cOh, ipom\u00e9ia!\u201d, a flor foi criada e, junto com a flor, a pr\u00f3pria poetiza, mas, antes da bifurca\u00e7\u00e3o, da dualidade sujeito\/objeto, n\u00e3o havia nada. Ainda assim, havia \u201calgo\u201d que podia se dividir em sujeito\/objeto e este \u201calgo\u201d que n\u00e3o tinha se dividido ainda, que n\u00e3o tinha se tornado sujeito \u00e0 bifurca\u00e7\u00e3o, ao entendimento discriminativo (i.e., antes do vijnana se afirmar) \u00e9 o prajna. Pois o prajna \u00e9 sujeito e objeto ao mesmo tempo; ele se divide em sujeito\/objeto e tamb\u00e9m permanece isolado, mas este isolamento n\u00e3o \u00e9 para ser entendido no n\u00edvel da dualidade. Estar isolado, ser absoluto em sua completa totalidade, ou unidade \u2013 este foi o momento em que a poetiza percebeu e isto \u00e9 o satori. O satori consiste em n\u00e3o ficar nesta unidade, n\u00e3o permanecer isolado, mas despertar disto e chegar ao ponto de se dividir em sujeito e objeto. Satori \u00e9 a perman\u00eancia na unidade e, ainda assim, sair dela e dividir-se em sujeito\u00ac\/objeto. Primeiro h\u00e1 \u201calgo\u201d que n\u00e3o se dividiu em sujeito\/objeto; isto \u00e9 a unidade como ela \u00e9. Depois, este algo, tornando-se consciente de si mesmo, divide-se em flor e poetiza. O tornar-se consciente \u00e9 a divis\u00e3o. A poetiza agora v\u00ea a flor e a flor v\u00ea a poetiza, h\u00e1 uma vis\u00e3o m\u00fatua. Quando este olhar m\u00fatuo, n\u00e3o apenas de um lado somente, mas do outro lado tamb\u00e9m, realmente acontece, h\u00e1 um estado de satori.<br \/>\nQuando falo, como estou fazendo agora, isto to\u00acma tempo. H\u00e1 algo que n\u00e3o se dividiu, mas que logo se torna consciente de si mesmo e isto leva a uma afirma\u00e7\u00e3o e assim por diante. Mas no verdadeiro satori n\u00e3o existe intervalo de tempo, portanto nenhuma consci\u00eancia da bifurca\u00e7\u00e3o. A unidade dividindo a si pr\u00f3pria em sujeito\/objeto e ainda assim conservando sua unidade no exato momento em que h\u00e1 o despertar de uma consci\u00eancia isto \u00e9 o satori.<br \/>\nDo ponto de vista humano, falamos de prajna e vijnana como o entendimento integral e o entendimento discriminativo da realidade, respectivamente. Falamos destas coisas para satisfazer nosso entendimento humano. Animais e plantas n\u00e3o dividem a si mesmos, apenas vivem e agem, mas os seres humanos despertaram esta consci\u00eancia. Pelo despertar da consci\u00eancia nos tornamos conscientes disto e daquilo e este universo de infinita diversidade surge. Por causa desse despertar n\u00f3s discriminamos e por causa da discrimina\u00e7\u00e3o falamos de prajna e vijnana, e fazemos estas distin\u00e7\u00f5es, o que \u00e9 uma caracter\u00edstica dos seres humanos. Para satisfazer a esta exig\u00eancia falamos em satori, ou o despertar desta consci\u00eancia de auto-identidade.<br \/>\nQuando a poetiza viu a flor, naquele exato momento, antes de falar qualquer palavra, houve uma apreens\u00e3o intuitiva de algo que escapa \u00e0 nossa intui\u00e7\u00e3o comum. Essa intui\u00e7\u00e3o sui generis \u00e9 o que eu chamaria de intui\u00e7\u00e3o-prajna. O momento captado pela intui\u00e7\u00e3o-prajna \u00e9 o satori. Isto foi o que fez de Buda o Iluminado. Portanto, para conseguir o satori, a intui\u00e7\u00e3o-prajna deve ser despertada.<br \/>\nEsta \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o mais ou menos metaf\u00edsica do satori, mas, psicologicamente, pode-se dizer que o satori acontece dessa forma. Nossa consci\u00eancia cont\u00e9m todas as coisas, mas devem existir pelo menos duas coisas para que a consci\u00eancia seja poss\u00edvel. A consci\u00eancia acontece quando duas coisas se op\u00f5em uma \u00e0 outra. Em nossa vida comum a consci\u00eancia \u00e9 mantida muito ocupada com todas as coisas que acontecem nela e n\u00e3o tem tempo para refletir dentro dela mesma. A consci\u00eancia, portanto, n\u00e3o tem oportunidade de tornar-se consciente de si mesma. Est\u00e1 t\u00e3o profundamente envolvida na a\u00e7\u00e3o, que ela \u00e9 de fato a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. O satori nunca acontece enquanto a consci\u00eancia se mant\u00e9m voltada para fora, digamos assim. O satori nasce da autoconsci\u00eancia. A consci\u00eancia deve olhar para dentro dela mesma, antes de ser despertada para o satori.<br \/>\nPara atingir o satori, todas as coisas que povoam a nossa consci\u00eancia do dia a dia devem ser removidas, deixando-a limpa. Esta \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do samadhi, que os fil\u00f3sofos hindus enfatizam tanto. \u201cEntrar em samadhi\u201d \u00e9 conseguir uniformidade de consci\u00eancia, i.e., limpar a consci\u00eancia, embora, em termos pr\u00e1ticos, esta limpeza seja algo quase imposs\u00edvel. Mas devemos tentar faz\u00ea-la para conseguir este estado de uniformidade que, de acordo com os primeiros pensadores budistas, \u00e9 um perfeito estado de equil\u00edbrio mental, porque aqui n\u00e3o h\u00e1 paix\u00f5es nem fun\u00e7\u00f5es intelectuais, mas apenas um estado de indiferen\u00e7a perfeitamente equilibrado. Quando isto acontece \u00e9 conhecido como samadhi, ou entrar no quarto est\u00e1gio de dhyana, ou jhana, como \u00e9 descrito nos mais antigos sutras budistas. Isto n\u00e3o \u00e9, contudo, um estado de satori. Samadhi n\u00e3o \u00e9 suficiente, j\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 mais do que a unifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Deve haver um despertar deste estado de unifica\u00e7\u00e3o, ou uniformidade. Este despertar \u00e9 tornar-se consciente da consci\u00eancia em suas pr\u00f3prias atividades. Quando a consci\u00eancia come\u00e7a a se mover, come\u00e7a a se dividir em sujeito\/objeto e diz: \u201cestou triste\u201d, ou \u201cestou feliz\u201d, ou \u201ceu ou\u00e7o\u201d e assim por diante \u2013 no exato mo\u00acmento em que se move \u00e9 capturada no satori. Mas assim que voc\u00ea diz \u201ceu o peguei\u201d, ele n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1. Portanto, o satori n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea possa segurar e mostrar aos outros dizendo: \u201cVejam, ele est\u00e1 aqui!\u201d<br \/>\nA consci\u00eancia \u00e9 algo que nunca deixa de estar ativo, embora possamos estar totalmente inconscientes dela, e o que chamamos de perfeita uniformidade n\u00e3o \u00e9 um estado de completa quietude, ou seja, de morte. Assim, como a consci\u00eancia continua incessantemente, ningu\u00e9m pode par\u00e1-la para inspe\u00e7\u00e3o. O satori deve acontecer enquanto a consci\u00eancia atravessa est\u00e1gios, ou instantes, do vir-a-ser. O satori se realiza junto com o vir-a-ser, que n\u00e3o conhece qualquer paralisa\u00e7\u00e3o. O satori n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia particular como outras experi\u00eancias da nossa vida di\u00e1ria. Experi\u00eancias particulares s\u00e3o experi\u00eancias de ocorr\u00eancias particulares, enquanto que a experi\u00eancia do satori \u00e9 aquela que atravessa todas as experi\u00eancias. \u00c9 por essa raz\u00e3o que n\u00e3o podemos retirar o satori de outras experi\u00eancias e dizer: \u201cVejam, aqui est\u00e1 meu satori!\u201d. Ele \u00e9 sempre esquivo e fascinante. Nunca pode ser separado de nossa vida di\u00e1ria, est\u00e1 l\u00e1 para sempre, inevitavelmente. O vir-a-ser, n\u00e3o apenas em cada milhares de seus momentos particulariz\u00e1\u00acveis, mas atrav\u00e9s de sua totalidade infind\u00e1vel, \u00e9 o corpo do satori.<br \/>\n\u00c9 da natureza do entendimento e raz\u00e3o humanos dividir a realidade entre a dicotomia de isto e aquilo, de \u201cA\u201d e \u201cn\u00e3o-A\u201d, e depois tomar esta realidade, assim di\u00acvidida, como realmente verdadeira. Parece que n\u00e3o consegui\u00acmos entender a realidade de qualquer outra forma. Sendo assim, enquanto estivermos dependendo do \u201centendimento\u201d, n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma compreens\u00e3o da realidade, nenhuma apreens\u00e3o intuitiva da realidade, e o satori n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o esta apreens\u00e3o intuitiva da realidade. N\u00e3o h\u00e1 realidade al\u00e9m do vir-a-ser. Vir-a-ser \u00e9 realidade e realidade \u00e9 vir-a-ser. Portanto, a intui\u00e7\u00e3o satori da realidade consiste em identificar a si mesmo com o vir-a-ser, captar o vir-a-ser enquanto ele se produz. N\u00e3o podemos cortar o vir-a-ser em peda\u00e7os, pegar cada peda\u00e7o separado que cai deste vir-a-ser e dizer para as pessoas: \u201cAqui est\u00e1 a realidade!\u201d. Quando afirmamos isto, veremos que o vir-a-ser n\u00e3o est\u00e1 mais l\u00e1; a realidade voou para o reino do passado irrevog\u00e1vel.<br \/>\nIsto \u00e9 ilustrado por uma hist\u00f3ria Zen: um lenhador foi para as montanhas e viu um animal estranho do outro lado da \u00e1rvore que estava cortando. Ele pensou: \u201cEu poderia matar este animal\u201d. O animal ent\u00e3o falou para o lenhador: \u201cVoc\u00ea vai me matar?\u201d Tendo os seus pensamentos lidos pelo animal, o lenhador ficou furioso e se perguntou o que fazer. O animal disse: \u201cAgora voc\u00ea est\u00e1 pensando o que fazer comigo\u201d. Qualquer pensamento que o lenhador tivesse, o animal intu\u00eda e contava para ele. Finalmente o lenhador disse: \u201cVou parar de pensar no animal e continuar cortando madeira\u201d. Quando ele estava empenhado nisto, a ponta do machado desprendeu-se e matou o animal.<br \/>\nIsto mostra que, quando voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pensando nele, h\u00e1 o satori. Quando voc\u00ea tenta perceber o satori, quanto mais luta, mais longe ele est\u00e1. Voc\u00ea n\u00e3o pode deixar de perseguir o satori, mas, enquanto fizer um esfor\u00e7o especial, o satori nunca ser\u00e1 alcan\u00e7ado. Mas tampouco voc\u00ea pode esquec\u00ea-lo completamente. Se esperar que o satori chegue at\u00e9 voc\u00ea por si pr\u00f3prio, n\u00e3o o conseguir\u00e1.<br \/>\nRealizar o satori \u00e9 muito dif\u00edcil, como descobriu o Buda. Quando ele queria ser libertado da escravid\u00e3o de nascimento e morte, come\u00e7ou a estudar filosofia, mas isto n\u00e3o lhe serviu, ent\u00e3o voltou-se para o ascetismo. Isto o tornou t\u00e3o fraco que n\u00e3o podia mover-se, ent\u00e3o tomou leite e decidiu continuar com a sua procura pela liberta\u00e7\u00e3o. O racioc\u00ednio n\u00e3o lhe serviu de nada e, tampouco, a busca da perfei\u00e7\u00e3o moral. No entanto, o impulso para resolver este problema ainda estava l\u00e1. Ele n\u00e3o podia avan\u00e7ar, nem podia retroceder, ent\u00e3o teve que permanecer onde estava, mas at\u00e9 isso ele n\u00e3o podia fazer. Este estado de crise espiritual significa que voc\u00ea n\u00e3o pode avan\u00e7ar, nem retroceder, nem ficar onde est\u00e1. Quando esse dilema \u00e9 genu\u00edno, prevalece um estado de consci\u00eancia pronto para o satori. Quando realmente chegamos a esse est\u00e1gio (mas freq\u00fcentemente achamos que o que n\u00e3o \u00e9 real \u00e9 real), quando nos encontramos nesse momento cr\u00edtico, seguramente surge algo das profundezas da realidade, das profundezas de nosso pr\u00f3prio ser. Quando isto surge, h\u00e1 o satori. Ent\u00e3o voc\u00ea entende todas as coisas e fica em paz com o mundo e consigo mesmo.<\/p>\n<p>NOTAS:<br \/>\n1. Tal-qual-ismo, em ingl\u00eas, suchness. \u201cTalidade\u201d; tal coisa \u00e9 porque \u00e9; as coisas s\u00e3o porque s\u00e3o.<br \/>\n2. Auto-identidade, em ingl\u00eas self-identity. Poderia ser traduzi\u00acdo tamb\u00e9m como \u201cidentidade pr\u00f3pria\u201d<br \/>\nDo livro: O Campo do Zen de Daisetz Teitaro Suzuki<\/p><\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Satori \u00e9 um termo japon\u00eas, Wu em chin\u00eas. As palavras s\u00e2nscritas bodhi e budha se originam da mesma raiz, bud, \u201cser consciente de\u201d, \u201cdespertar\u201d. Buda \u00e9, portanto, \u201co desperto\u201d, \u201co iluminado\u201d, enquanto que bodhi \u00e9 \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cBudismo\u201d significa o ensinamento &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/o-significado-do-satori\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1542,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11,25],"tags":[53],"class_list":["post-598","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meditacao","category-mestres","tag-satori"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=598"}],"version-history":[{"count":9,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1543,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/598\/revisions\/1543"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1542"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=598"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=598"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=598"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}