{"id":6166,"date":"2020-06-16T15:28:46","date_gmt":"2020-06-16T17:28:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/?p=6166"},"modified":"2020-06-28T23:28:38","modified_gmt":"2020-06-29T01:28:38","slug":"a-linhagem-e-a-pratica-do-dzogchen","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-linhagem-e-a-pratica-do-dzogchen\/","title":{"rendered":"A linhagem e a pr\u00e1tica do dzogchen"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify\">\n<a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Dilgo-Khyentse-Rinpoche.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Dilgo-Khyentse-Rinpoche.jpg\" alt=\"\" width=\"710\" height=\"572\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6066\" srcset=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Dilgo-Khyentse-Rinpoche.jpg 710w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Dilgo-Khyentse-Rinpoche-300x242.jpg 300w, http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Dilgo-Khyentse-Rinpoche-372x300.jpg 372w\" sizes=\"auto, (max-width: 710px) 100vw, 710px\" \/><\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><font FACE=\"Verdana\" SIZE=\"2\"><a NAME=\"inicio\"><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:center\"><font SIZE=\"4\"><b>A LINHAGEM E A PR\u00c1TICA DO DZOGCHEN<\/b><\/font><\/div>\n<p><\/a> <\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><i><br \/> <b>de Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991)<\/b><br \/>Traduzido por Matthieu Ricard<\/i><\/div>\n<div STYLE=\"text-align:justify\">Os ensinamentos do Dzogchen s\u00e3o transmitidos de tr\u00eas modos: de mente a mente, por sinais e atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o oral.No primeiro, a transmiss\u00e3o de mente a mente, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de s\u00edmbolos ou palavras pois o professor e o disc\u00edpulo s\u00e3o, por sua pr\u00f3pria natureza, um s\u00f3. Este \u00e9 o modo no qual a transmiss\u00e3o foi dada do buddha primordial Samantabhadra para Vajrasattva, e dele para Garab Dorje.<\/p>\n<p>Depois de Garab Dorje, a transmiss\u00e3o continuou com Manjushrimitra, Shri Simha, Jnanasutra e Vimalamitra. Apesar de estes mestres terem se manifestado em forma humana, n\u00e3o havia necessidade de eles darem ou receberem transmiss\u00e3o por palavras, j\u00e1 que todos eles eram seres completamente realizados. A transmiss\u00e3o foi efetuada simplesmente por &#8220;sinais&#8221; &#8211; por mudras ou por express\u00f5es simb\u00f3licas. Quando o mestre d\u00e1 a transmiss\u00e3o deste modo, os disc\u00edpulos compreendem seu significado de uma vez e atingem a realiza\u00e7\u00e3o completa das tr\u00eas categorias do Dzogpachenpo: da mente, do espa\u00e7o e das instru\u00e7\u00f5es essenciais.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o oral foi passada de um indiv\u00edduo para outro, come\u00e7ando com Guru Rinpoche. Ele deu isto aos seus disc\u00edpulos: aos vinte e cinco disc\u00edpulos principais, aos oitenta siddhas de Yerpa, aos cinq\u00fcenta e cinco seres realizados de Sheldrag e outros. Os tr\u00eas principais disc\u00edpulos de Guru Rinpoche foram o rei Trisong Detsen, Vairochana, e sua consorte Yeshe Tsogyal. A transmiss\u00e3o ent\u00e3o continuou at\u00e9 o onisciente Longchen Rabjam, que passou para o grande detentor do estado desperto, Jigme Lingpa, e que por sua vez transmitiu estes profundos tesouros aos seus disc\u00edpulos. Seus quatro principais disc\u00edpulos eram chamados &#8220;os quatro Jigmes&#8221; &#8211; &#8220;os quatro destemidos&#8221;. Dos quatro, os dois principais eram Dodrubchen Jigme Trinle \u00d6zer e Jigme Gyalwe Nyugu, uma emana\u00e7\u00e3o de Avalokiteshvara; os outros dois eram Jigme Gocha e Jigme Ngotsar. De Jigme Trinle \u00d6zer a transmiss\u00e3o foi para o mahasiddha Do Khyentse Yeshe Dorje, e de Jigme Gyalse Nyugu ela passou para Jamyang Khyentse Wangpo; tanto Do Khyentse quanto Jamyang Khyentse foram emana\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas de Jigme Lingpa. As duas linhagens ent\u00e3o se fundiram nos grandes professores Gyalse Shenpen Taye, Patrul Rinpoche e Khenpo Pema Dorje. Eles, por sua vez, transmitiram-na a W\u00f6npo Tenga, Nyoshul Lungtog, Adzom Drugpa, ao terceiro Dodrubchen Jigme Tenpe Nyima e a muitos outros mestres. Novamente, estas linhagens se juntaram na pessoa de Jamyang Khyentse Ch\u00f6kyi Lodr\u00f6, que foi uma emana\u00e7\u00e3o de Jamyang Khyentse Wangpo.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que esta linhagem de indiv\u00edduos tem permanecido inquebrant\u00e1vel at\u00e9 os dias presentes. Apesar de dizermos &#8220;indiv\u00edduos&#8221;, todos eles s\u00e3o seres realizados que permanecem nos bhumis, os n\u00edveis dos bodhisattvas. Agora, para que possamos receber as b\u00ean\u00e7\u00e3os destes mestres, precisamos rogar para eles com devo\u00e7\u00e3o unidirecionada.<\/p>\n<p><b>A Pr\u00e1tica do Dzogpachenpo<\/b><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 pr\u00e1tica destes ensinamentos, h\u00e1 muitos m\u00e9todos, que correspondem \u00e0 capacidade do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos comuns simplesmente se esfor\u00e7am para discriminar entre o que deve ser feito e o que deve ser evitado, com a meta de atingir a felicidade tempor\u00e1ria desta vida.<\/p>\n<p>Os indiv\u00edduos de capacidade m\u00e9dia reconhecer\u00e3o que a pr\u00f3pria natureza dos tr\u00eas mundos da exist\u00eancia c\u00edclica \u00e9 sofrimento e, refletindo sobre isto, realizar\u00e3o a preciosidade deste corpo humano, que \u00e9 o suporte para atingir a ilumina\u00e7\u00e3o. Eles contemplar\u00e3o a imperman\u00eancia, que \u00e9 o est\u00edmulo para a sua dilig\u00eancia, sem nunca esquecer que a morte pode vir a qualquer hora. Ent\u00e3o eles realizar\u00e3o como \u00e9 que as suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es s\u00e3o a causa ou de sofrimento ou de felicidade. Tendo visto que o sofrimento permeia o samsara inteiramente, surgir\u00e1 em suas mentes um forte sentimento de ren\u00fancia e de querer, por todos os meios poss\u00edveis, se liberar do samsara.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, desejar se liberar deste oceano de sofrimento n\u00e3o \u00e9 suficiente em si mesmo; como vimos, precisamos confiar em um guia, um objeto de ref\u00fagio.  Supremo entre eles todos \u00e9 o mestre-vajra, o professor aut\u00eantico qualificado com todos os sinais de um ser realizado. Uma vez que tenhamos encontrado esse professor, precisamos proteger nossa liga\u00e7\u00e3o espiritual com ele t\u00e3o cuidadosamente quanto proteger\u00edamos nossos pr\u00f3prios olhos.<\/p>\n<p>Para fazer isto, precisamos ser s\u00e1bios de tr\u00eas modos diferentes. Primeiro, precisamos ser s\u00e1bios para encontrar um professor aut\u00eantico e para examinar suas qualidades atrav\u00e9s do aprendizado sobre sua vida e seus ensinamentos.  Ent\u00e3o, quando tivermos encontrado um professor, devemos ser s\u00e1bios para atend\u00ea-lo perfeitamente, seguindo suas instru\u00e7\u00f5es \u00e0 risca. Finalmente, devemos ser s\u00e1bios para realizar suas instru\u00e7\u00f5es, praticando-as. Se formos s\u00e1bios destes tr\u00eas modos, ent\u00e3o viajaremos pelo caminho sem esfor\u00e7o e sem erro.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m tr\u00eas n\u00edveis para agradar o mestre e realizar seus desejos. O melhor \u00e9 atingir a realiza\u00e7\u00e3o suprema da ilumina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da pr\u00e1tica &#8211; realizar a Vis\u00e3o atrav\u00e9s da Medita\u00e7\u00e3o e da A\u00e7\u00e3o. O segundo melhor modo \u00e9 servir o professor com o corpo, a fala e a mente. O terceiro \u00e9 fazer oferendas materiais o trabalho e ensinamentos do professor.<\/p>\n<p>Progredimos ao longo do caminho Mahayana tomando ref\u00fagio e gerando a mente iluminada da bodhichitta. A fim de eliminar os obscurecimentos e a\u00e7\u00f5es negativas que criam m\u00e1culas no caminho, realizamos a pr\u00e1tica de purifica\u00e7\u00e3o de Vajrasattva e, a fim de juntar condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de m\u00e9rito, fazemos a oferenda de mandala. Finalmente chegamos \u00e0 pr\u00e1tica de Guru Yoga, a pr\u00e1tica mais essencial para despertar e fazer surgir a sabedoria.<\/p>\n<p>A meta atr\u00e1s de cada uma de todas estas pr\u00e1ticas n\u00e3o \u00e9 simplesmente a de meditar, de realizar certas atividades ou de recitar um grande n\u00famero de preces. Todas s\u00e3o diferentes meios de se realizar nosso objetivo principal, que \u00e9 o de treinar e transformar nossa mente. Como \u00e9 dito, &#8220;Transforme sua mente e voc\u00ea ser\u00e1 perfeito; todo \u00eaxtase vem do domar a mente.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fa\u00e7a uma resolu\u00e7\u00e3o firme e decida: &#8220;De agora em diante, at\u00e9 eu morrer, praticarei diligentemente, todo o tempo.&#8221; Se pudermos fazer assim, terminaremos como Jets\u00fcn Milarepa, que realizou o maior m\u00e9todo de agradar o mestre: atingindo a ilumina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 que o pr\u00f3prio motivo pelo qual o mestre veio a este mundo \u00e9 o de nos mostrar o caminho, o melhor modo de realizar seus desejos \u00e9 realizando os ensinamentos. Mas como Jigme Lingpa apontou, &#8220;A teoria \u00e9 como um remendo, um dia simplesmente cair\u00e1&#8221;. Precisamos integrar os ensinamentos em nossa experi\u00eancia e fazer deles uma parte intr\u00ednseca de nosso ser; de outro modo, eles n\u00e3o ser\u00e3o realmente de muita utilidade.<\/p>\n<p>Finalmente, para os seres de capacidade superior, h\u00e1 os caminhos profundos do est\u00e1gio de desenvolvimento ou gera\u00e7\u00e3o (Mahayoga), do est\u00e1gio de completude (Anuyoga) e ent\u00e3o o mais sublime de todos, o Dzogpachenpo (Atiyoga).<\/p>\n<p><b>Mahayoga<\/b><\/p>\n<p>Tendo encontrado um precioso professor, tendo sido aceito por ele e tendo recebido suas profundas instru\u00e7\u00f5es, agora viemos colocar as instru\u00e7\u00f5es em pr\u00e1tica. Para fazer isso, precisamos transformar nossa percep\u00e7\u00e3o impura dos fen\u00f4menos externos em uma vis\u00e3o de pureza infinita.<\/p>\n<p>Para praticarmos o tantra interior, precisamos realizar que tudo \u00e9 primordialmente puro. Do mesmo modo, os elementos exteriores n\u00e3o s\u00e3o percebidos como sendo comuns, mas sim como os cinco buddhas femininos. Os cinco agregados dentro do corpo tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o percebidos como comuns, mas sim como os cinco buddhas masculinos. Do mesmo modo as oito consci\u00eancias, assim como seus oito objetos, s\u00e3o percebidos como os oito bodhisattvas masculinos e femininos. Atrav\u00e9s deste tipo de percep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas veremos a pureza de todos os fen\u00f4menos, mas tamb\u00e9m perceberemos a &#8220;grande igualdade do samsara e do nirvana.&#8221; N\u00e3o mais olharemos o samsara como algo a ser descartado e o nirvana como algo a ser atingido; eles ser\u00e3o vistos e entendidos como a &#8220;uni\u00e3o da grande pureza e da grande igualdade.&#8221; Por\u00e9m um estado como este n\u00e3o \u00e9 algo que deva ser fabricado de maneira nova; ele sempre esteve l\u00e1, desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p>A ess\u00eancia do Kyerim &#8211; o est\u00e1gio de desenvolvimento ou de gera\u00e7\u00e3o &#8211; do Mahayoga \u00e9 reconhecer todas as apar\u00eancias como a divindade, todos os sons como mantras e todos os pensamentos como o dharmakaya. Este \u00e9 o caminho mais profundo atrav\u00e9s do qual podemos atualizar todas as qualidades do corpo, fala e mente de um buddha. Dizemos &#8220;atualizar&#8221; porque estas s\u00e3o apenas a express\u00e3o da natureza primordial das coisas, que est\u00e1 agora simplesmente sendo revelada.<\/p>\n<p><b>Anuyoga<\/b><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do est\u00e1gio de completude, ou Anuyoga, \u00e9 baseada principalmente nas seis yogas: tummo, ou calor interior, a raiz do caminho; gyul\u00fc, ou corpo ilus\u00f3rio, o fundamento do caminho; milam, ou sonho, a medida do progresso sobre o caminho; \u00f6sel, ou luminosidade, a ess\u00eancia do caminho; bardo, ou estado intermedi\u00e1rio, o convite para continuar no caminho; e p&#8217;howa, ou transfer\u00eancia de consci\u00eancia, que nos permite viajar pelo restante do caminho.<\/p>\n<p><b>Atiyoga<\/b><\/p>\n<p>A pr\u00e1tica do Dzogchen ou Atiyoga \u00e9 realizar o tathagatagarbha, ou natureza b\u00faddhica, que tem estado presente como nossa verdadeira natureza desde o in\u00edcio. Aqui n\u00e3o \u00e9 suficiente focalizar sobre pr\u00e1ticas fabricadas que envolvem o esfor\u00e7o e conceito intelectuais. Para reconhecer nossa verdadeira natureza, a pr\u00e1tica deve estar completamente al\u00e9m da fabrica\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica \u00e9 simplesmente realizar a vacuidade e a radi\u00e2ncia, ou express\u00e3o natural, da sabedoria, que est\u00e1 al\u00e9m de todos os conceitos intelectuais. \u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o verdadeira da natureza absoluta assim como ela \u00e9 &#8211; a frui\u00e7\u00e3o \u00faltima.<\/p>\n<p>No momento, nosso estado desperto &#8211; rigpa &#8211; est\u00e1 emaranhado dentro de nossa mente, completamente envolvido e obscurecido pela atividade mental. Atrav\u00e9s da pr\u00e1tica do Trekch\u00f6, ou &#8220;cortar atrav\u00e9s de todo apego&#8221;, e da &#8220;realiza\u00e7\u00e3o direta&#8221; do T\u00f6gal, podemos desmascarar este estado desperto e deixar sua radi\u00e2ncia surgir.<\/p>\n<p>Para realizar isto, precisamos praticar os quatro modos de deixar as coisas em sua simplicidade natural (chogshyag) e, por meio deles, adquirir perfeita estabilidade na pr\u00e1tica do Trekch\u00f6. Ent\u00e3o vir\u00e3o as &#8220;quatro vis\u00f5es do T\u00f6gal&#8221;, que s\u00e3o o surgimento natural de vis\u00f5es de discos e raios de luz, de divindades e de terras puras. Estas vis\u00f5es est\u00e3o naturalmente prontas para surgir de dentro do canal central que junta o cora\u00e7\u00e3o aos olhos. Este surgimento do canal central aparecer\u00e1 em um processo gradual: do mesmo modo que a lua crescente aumentando primeiro ao d\u00e9cimo-quinto dia do m\u00eas, estas vis\u00f5es gradualmente aumentar\u00e3o &#8211; da simples percep\u00e7\u00e3o de pontos de luz \u00e0 toda a ostenta\u00e7\u00e3o da vasta expans\u00e3o das terras puras do sambhogakaya. Esta manifesta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do estado desperto assim alcan\u00e7ar\u00e1 seu ponto culminante.<\/p>\n<p>Estas experi\u00eancias n\u00e3o est\u00e3o ligadas \u00e0 consci\u00eancia ou ao intelecto como as experi\u00eancias anteriores estavam; elas s\u00e3o uma manifesta\u00e7\u00e3o verdadeira, ou radia\u00e7\u00e3o do estado desperto. Depois disto, do mesmo modo que a lua diminui e desaparece do d\u00e9cimo-quinto ao trig\u00e9simo dia do m\u00eas, todas as experi\u00eancias e vis\u00f5es &#8211; todas os fen\u00f4menos &#8211; gradualmente vir\u00e3o \u00e0 exaust\u00e3o e se reabsorver\u00e3o no absoluto. Neste ponto a mente deludida que concebe sujeito e objeto desaparecer\u00e1, e a sabedoria prim\u00e1ria, que est\u00e1 al\u00e9m do intelecto, gradualmente se expandir\u00e1. Eventualmente voc\u00ea atingir\u00e1 a ilumina\u00e7\u00e3o perfeita do buddha primordial Samantabhadra, dotado com as seis caracter\u00edsticas extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o caminho intentado para pessoas de faculdades superiores, que podem atingir a ilumina\u00e7\u00e3o nesta mesma vida. Para aqueles de capacidade m\u00e9dia, h\u00e1 a instru\u00e7\u00e3o sobre como atingir a libera\u00e7\u00e3o no bardo, ou estado intermedi\u00e1rio. Quando dizemos &#8220;bardo&#8221;, de fato reconhecemos quatro bardos: o bardo da concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 a morte, o bardo do momento da morte, o bardo da natureza absoluta e o bardo do vir \u00e0 pr\u00f3xima exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O bardo entre a concep\u00e7\u00e3o e a morte \u00e9 nosso estado presente. A fim de destruir todas as percep\u00e7\u00f5es deludidas ou pensamentos deludidos neste bardo, a pr\u00e1tica \u00faltima \u00e9 o Atiyoga do Dzogchen, no qual h\u00e1 os dois caminhos principais do Trekch\u00f6 e do T\u00f6gal, como descritos acima. A frui\u00e7\u00e3o \u00faltima desta pr\u00e1tica vem quando o corpo comum feito de agregados grosseiros dissolve-se no &#8220;corpo de arco-\u00edris da grande transfer\u00eancia&#8221; ou &#8220;corpo-vajra&#8221;, ou ent\u00e3o se dissolve sem deixar quaisquer restos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Mas mesmo quando n\u00e3o podemos atingir esse atingimento \u00faltimo dentro de uma vida, h\u00e1 ainda a possibilidade de atingirmos a ilumina\u00e7\u00e3o no momento da morte. Se o nosso professor, ou um irm\u00e3o ou irm\u00e3 do Dharma, estiver pr\u00f3ximo de n\u00f3s no exato momento de nossa morte, ele ou ela nos lembrar\u00e1 das instru\u00e7\u00f5es &#8211; a introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza da mente. Se pudermos nos lembrar de nossas experi\u00eancias de pr\u00e1tica e permanecermos na natureza da mente, atingiremos a realiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 ent\u00e3o poss\u00edvel partir diretamente para uma terra pura sem qualquer estado intermedi\u00e1rio. Se isto n\u00e3o for realizado, ent\u00e3o aparecer\u00e1 o bardo da natureza absoluta, ou do dharmata. Neste ponto, a luminosidade base do dharmakaya aparecer\u00e1. Se pudermos unir a luminosidade base, ou &#8220;luminosidade m\u00e3e&#8221;, com a luminosidade que reconhecemos durante nossa vida, chamada &#8220;luminosidade filho&#8221;, ent\u00e3o seremos liberados no dharmakaya.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o formos liberados neste momento, ent\u00e3o aparecer\u00e3o incont\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es de sons, luzes e raios. Um medo tremendo nos infligir\u00e1 por causa destas emana\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es, mas se formos bons praticantes, realizaremos que n\u00e3o h\u00e1 do que ter medo. Saberemos que quaisquer divindades que apare\u00e7am, iradas ou pac\u00edficas, s\u00e3o todas as nossas pr\u00f3prias proje\u00e7\u00f5es.  Reconhecer isto \u00e9 garantir a libera\u00e7\u00e3o em um campo b\u00faddhico do sambhogakaya.<\/p>\n<p>Mas se isto n\u00e3o for realizado, ent\u00e3o se seguir\u00e1 o bardo do vir a uma pr\u00f3xima exist\u00eancia. Isto \u00e9 quando, se praticarmos da maneira correta, seremos liberados em um campo b\u00faddhico nirmanakaya.<\/p>\n<p>Essencialmente, a natureza primordial do Buddha Samantabhadra \u00e9 como a base ou natureza-m\u00e3e da realiza\u00e7\u00e3o. A natureza que foi introduzida a n\u00f3s pelo nosso professor \u00e9 como a natureza-filho. Quando estas duas se encontrarem, atingiremos a realiza\u00e7\u00e3o completa e tomaremos posse do forte da ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo os seres ordin\u00e1rios, incapazes de atingir a libera\u00e7\u00e3o nem nesta vida nem no estado intermedi\u00e1rio, podem atingi-la nas terras puras do nirmanakaya.<\/p>\n<p>Para resumir ent\u00e3o, atrav\u00e9s da pr\u00e1tica do caminho do Trekch\u00f6 e do T\u00f6gal podemos alcan\u00e7ar a realiza\u00e7\u00e3o \u00faltima do dharmakaya, o estado iluminado do buddha primordial Samantabhadra, dentro desta mesma vida. Este \u00e9 o melhor caso. Se n\u00e3o, ent\u00e3o podemos nos liberar nos outros tr\u00eas bardos: nos bardos do momento da morte, do dharmata, e do renascimento. Mesmo se isto n\u00e3o acontecer, ainda podemos ser aliviados do sofrimento e ser liberados atrav\u00e9s das virtudes ou b\u00ean\u00e7\u00e3os dos ensinamentos do Dzogchen. Quem quer que tenha uma conex\u00e3o com ele \u00e9: liberado pela vis\u00e3o, ao ver o ensinamento ou o professor; liberado pela audi\u00e7\u00e3o, ao ouvir o professor ou o ensinamento; liberado pelo contato, ao usar os preciosos mantras e escrituras do Dzogpachenpo; ou liberado pelo sabor, e assim por diante. Como resultado, seremos liberados em uma das cinco terras puras do nirmanakaya, de Vairochana, Akshobhya, Ratnasambhava, Amitabha ou de Amoghasiddhi, e finalmente no campo b\u00faddhico central.<\/p>\n<p><b>Ap\u00eandice<\/b><\/p>\n<p>As seis caracter\u00edsticas extraordin\u00e1rias da libera\u00e7\u00e3o de Samantabhadra:<\/p>\n<p>Esta libera\u00e7\u00e3o surge para nosso pr\u00f3prio estado desperto como a exibi\u00e7\u00e3o deste estado desperto. N\u00e3o h\u00e1 percep\u00e7\u00f5es deludidas que v\u00eam do apego a esta exibi\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno externo.<\/p>\n<p>Esta libera\u00e7\u00e3o transcende os aspectos da &#8220;base primordial&#8221; e da &#8220;manifesta\u00e7\u00e3o que surge da base primordial&#8221;. Se n\u00e3o transcendesse, haveria uma possibilidade de cair na delus\u00e3o quando os fen\u00f4menos surgissem da base primordial.<\/p>\n<p>Se reconhecermos a sabedoria primordial livre de todos os obscurecimentos, nesse mesmo instante aparecer\u00e3o espontaneamente todas as qualidades que permanecem naturalmente dentro da expans\u00e3o dessa sabedoria. Realizaremos que todos os obscurecimentos relacionados \u00e0s v\u00e1rias tend\u00eancias k\u00e1rmicas acumuladas sobre a amorfa consci\u00eancia b\u00e1sica s\u00e3o puras desde o in\u00edcio. Como um sol brilhante emergindo das nuvens, transcendemos completamente a base do samsara.<\/p>\n<p>No mesmo instante, o insight transcendente amadurece como o kaya da natureza \u00faltima em si; conquistamos a cidadela da pureza primordial e permanecemos l\u00e1 imutavelmente.<\/p>\n<p>A atualiza\u00e7\u00e3o de nosso pr\u00f3prio estado desperto n\u00e3o \u00e9 nascida de circunst\u00e2ncias externas fornecidas por algo que n\u00e3o seja o pr\u00f3prio estado desperto, e \u00e9 independente de todas as condi\u00e7\u00f5es. O estado b\u00faddhico \u00e9 atingido atrav\u00e9s do estado desperto reconhecendo sua pr\u00f3pria natureza, atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria for\u00e7a.<\/p>\n<p>A base para a libera\u00e7\u00e3o permanece primordialmente no continuum de sua pr\u00f3pria natureza, e n\u00e3o pode ser penetrada pelas causas da delus\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<\/div>\n<p><\/font><\/p>\n<div STYLE=\"text-align:right\"><a HREF=\"#inicio\">Topo<\/a><\/div>\n<hr \/>\n<\/div>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LINHAGEM E A PR\u00c1TICA DO DZOGCHEN de Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991)Traduzido por Matthieu Ricard Os ensinamentos do Dzogchen s\u00e3o transmitidos de tr\u00eas modos: de mente a mente, por sinais e atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o oral.No primeiro, a transmiss\u00e3o de mente &hellip; <a href=\"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/a-linhagem-e-a-pratica-do-dzogchen\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6066,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39,25,93],"tags":[62],"class_list":["post-6166","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dzogchen","category-mestres","category-tibetano","tag-philip-kapleau"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6166"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6166\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6392,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6166\/revisions\/6392"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6066"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.nossacasa.net\/shunya\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}